Flagelação masoquista

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Pele de Rey antes de ser pele Channel

Não se procure nos filhos o que muito admirámos nos pais. Era o que eu devia ter pensado, quando o filho de Buñuel veio ilustrar o ciclo que dedicávamos ao pai recentemente morto. E seja como for, nem eu, nem ninguém pensou coisa nenhuma, de esgazeados que ficámos com a plenitude e a pele Channel de Carole Bouquet, a outra «ilustração» da retrospectiva em que meia Lisboa viu religiosamente os filmes do bispo do ateísmo chamado Buñuel.

Num artigo de 1959, rendido e hagiográfico, José Luis Aranda, conceituado crítico, atribuiu-lhe o papel de príncipe na orgulhosa revolução surrealista e ligou-o ao Partido Comunista. Traçou-lhe a genealogia: a mãe seria senhora nobre, oriunda de família riquíssima.

Buñuel mandou-lhe uma carta. Saiba a nação leitora do Expresso que, em 59, a carreira de Buñuel era a soma de uns gloriosos e escabrosos filmes vanguardistas com uma mão-cheia de filmes mexicanos pimba, fonte e espelho da minha idiossincrática candura sexual, que me faz contemplar as costas, ou lá o que é, da incontornável Lilia Prado a subir, de saia travada, a um autocarro em “Subida al Cielo” ou respirar fundo ao ver Katy Jurado a dar a carne à boca do bruto em “El Bruto” – convindo dizer que a expressão “dar a carne” não será talvez o que estão a pensar, porque em Buñuel nada é bem o que estamos a pensar.

E é isto com os filmes de Buñuel: já me distraio com o “conteúdo latente” deles, expressão luminosa que o João Bénard me ensinou. Voltemos à seriedade do crítico Aranda. Buñuel respondeu-lhe. Negou quase tudo, a começar por ser nobre e rica a senhora sua mãe. Com estrépito de quem mais nega mais mente, disse não ter sido o comunista que por uns anos foi e que nunca comera carne crua para imitar tribos primitivas.

Buñuel fizera um pungente documentário, “Las Hurdes”, sobre a miséria dessa região de Espanha nos anos 30. Nega a Aranda que fosse íntimo do padre da região e, pior, que fosse de um retiro espiritual uma foto em que estava contemplativo e místico. A foto era, dizia Buñuel, de um filme de Epstein, em que, figurante, o vestiram de monge. A essa prosaica negação juntou um toque florentino: “O que não percebo mesmo é o que quer dizer ao escrever que nos meus filmes emprego a música clássica como uma flagelação masoquista.” Pois sim, Don Luis!

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Lilia Prado, querida, vamos lá então falar de saias travadas

Publicado no Expresso num sábado de Agosto, o último antes do próximo que é já amanhã

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As capas dos clássicos

Amor de Perdicao

Eu prometi trazer ao Escrever é Triste – sempre – as capas dos clássicos que edita aquela editora em que eu não tenho interesse nenhum e que nenhum interesse tem por mim. Mas atrasei-me. Em Julho, foi a guerra nas livrarias, quando apareceu este Amor de Perdição. O Ilídio Vasco, que desenha todas estas capas, roubou o pistolão a Camilo Castelo Branco e inventou umas grades para encarcerar quem nunca tenha lido esta devastadora obra-prima do final do século XIX português. Ainda alguém ama assim, como se não houvesse outra forma de amar que não fosse de Simão e Teresa ou de Julieta e Romeu?

Bras-Cubas

Atrasado uma vez, adiantado para sempre, trago agora já três capas dos livros que estão para vir. Chega primeiro, em meados de Setembro, este genial Memorias Póstumas de Brás Cubas, escrito dezanove anos depois do luso Amor de Perdição, pela prodigiosa mão do brasileiro chamado Machado de Assis. Brás Cubas é de outra família, regalando-se com uma céptica ironia que aos olhos nos parece cómica, mas ao tacto percebemos ser fantasmagórica.

Mulherzinhas_

No mesmo dia, provavelmente para outro tipo de leitores e leitoras, chega às livrarias um livro que nunca li. É as Mulherzinhas, de Louisa May Alcott, novela escrita mais ou menos seis depois do Amor de Perdição, logo 13 anos antes Brás Cubas. É uma nova tradução, da Rita Carvalho Guerra. O romance foi recebido triunfalmente no século XIX, já teve 6 adaptações ao cinema e há-de ser famoso e lido, provavelmente adaptado pela décima vez ao cinema no final do século XXI, quando já ninguém se lembrar de Ronaldo e Messi, ou das maravilhosas Olímpiadas que em 2016 o Rio deu (e deu mesmo) ao mundo.

Madame Bovary

Pouco mais de uma semana depois, quando o mês de Setembro já estiver a dar passos crepusculares, a editora volta à guerra com o escândalo que foi e sempre será Madame Bovary, essa criação com que Gustave Flaubert se confundiu ao ponto de dizer que Bovary era ele mesmo. Traduziu-o Helder Guégués e eu hei-de voltar a falar dele neste pobre e condenado blog.

Mas o que queria dizer, mesmo correndo o risco de me repetir é que as capas estão de se lamber, meu caro Ilídio. Eu bem tentei torcer o nariz e corrigir já não sei o quê, mas não consegui dizer coisa com coisa. Estão, portanto, de se rapar e lamber, como quem rapa e lambe com colher pau o tacho onde se fez o leite creme ou o arroz doce.

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Aperta-me

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Moniz Pereira, a corrida do anjo

3D Book Moniz Pereira

Vamos pôr as coisas em pratos limpos. Eu sou um irredutível benfiquista e comparar a rivalidade animosa que tenho ao FCP à que tenho ao Sporting é o mesmo que comparar um pilriteiro (o FCP) a uma sequóia (o SCP). A rivalidade ao FCP é uma coisa de nada, sem espessura histórica. Pelo contrário, aprendi, praticamente desde que nasci, a ganhar ao Sporting, a xingá-los, a tê-los como o alvo dos nossos melhores ataques, das nossas grandes vitórias. O Sporting será, ad aeternum, o meu adversário.

E serem sportinguistas alguns dos meus melhores e eternos amigos de infância não muda nada. É mesmo a eles que quero ganhar, copiosamente se possível. Mas eis que, de vez em quando, passa um anjo. Moniz Pereira, um admirável sportinguista, foi um desses raros anjos. Confesso-me incompetente para fazer seja o que for senão admirá-lo.

Deixou, há poucos dias, de estar entre nós. O Fernando Correia, outro sportinguista com quem tenho tido muito gosto em trabalhar, editando-o, telefonou-me pouco depois, dizendo-me que tinha um livro, feito em diálogo com Moniz Pereira, e que o queria publicar. Estávamos em Agosto, em Agosto não se publicam livros, e a Guerra & Paz tem a planificação fechada até final do ano, pelo menos. Mas na vida é preciso perceber-se quando é Deus que nos está a mandar uma mensagem. E foi o que eu senti e percebi ao ouvir o Fernando falar. Para termos o livro, o Fernando tinha de fazer um esforço hercúleo ,em que era preciso misturar a velocidade dos 100 metros com a resistência de um maratonista. Foi o que ele fez, com a ajuda também estóica da Clara Alves. Nós na Guerra e Paz só tivemos de ser carro de apoio, e depois de amanhã já o livro vai estar nas livrarias.

E o que eu quero dizer é que, sendo total a minha incompetência para falar de Moniz Pereira, é com uma emoção igualzinha às minhas emoções benfiquistas que vejo este livro nas livrarias e que vejo este livro no catálogo da minha editora.

Já em Setembro, no dia 7, no El Corte Inglès, com outro sportinguista ferrenho, o João Pereira Faria, o Fernando Correia organiza uma sessão de homenagem a esse professor que criou o atletismo português. Tenho a certeza de que a família sportinguista vai lá estar em peso e eu peço aos meus amigos benfiquistas que não me deixem sozinho. Não é por medo, é pelo orgulho de ver que nós benfiquistas sabemos reconhecer um campeão. E que não há maior campeão do que aquele que sabe fazer e faz campeões.

ps – o livro tem, ainda por cima, a deliciosa coisa de dar a palavra, em discurso directo, a Moniz Pereira e ao seu sentido de humor…

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Coitadinho do crocodilo

Foto de TIZIANA FABI_POOL_EPA

Foto de TIZIANA FAB
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Sem título

Safe

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Ler livros

 

 

HH

Podem não acreditar, mas em 2011 corriam inquéritos na blogosfera. E respondia-se, em piedosas cadeias de São Judas Tadeu. Este foi um inquérito literário, a que respondi com total sinceridade (até eu estou espantado). É tudo verdade, verdadinha, e o que tem graça é que os gostos, as manias, um ou outro fetiche se mantêm, intocados.

1 — Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Existe. Existem. Lidos e relidos. As Obras Completas de Borges, meu circuito de manutenção. “Os Passos em Volta” do Herberto. O “Debaixo do Vulcão” do Lowry que me desaparecia sempre, quando acabava de o ler e me obrigava a comprar novo exemplar na Feira do Livro seguinte. Recebi mesmo a medalha de comprador frequente do editor. (E depois digam que não há bruxas!)

2 — Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Se me metessem numa cela em isolamento, por anos e anos, pedia o Quixote e a Bíblia. Job bem precisava do amparo de Sancho Pança – imagino-os a mergulhar numa amizade viril que nunca chega a ser sexual, como a de Bogart e Rains no fim de Casablanca. E o Quixote foi o discípulo que Jesus nunca teve.

3 — Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
“Gödel, Escher e Bach” de Douglas Hofstadter. Motivo: ignorância matemática, lógica e computacional. O livro está ali, ao lado, de olhar acusador e trocista. É o meu banho de humildade. E se ali continuar, um dia começarei a beber sem remissão.

4– Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?
O fim de um livro que a bem dizer talvez nem exista: “As Palmeiras Bravas” do Faulkner. Prefiro esse fim a tudo e a nada. Dói que se farta. Borges traduziu-o para espanhol, Sena para português.
E o mais bonito começo é o da “Reivindicação do Conde Julião” de Juan Goytisolo: ‘tierra ingrata, entre todas espuria y mezquina, jamás volveré a ti.’

5– Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Sim. Numa árvore tropical. Subia à mangueira do meu quintal que tinha um ramo robusto no ângulo certo com o tronco. Quase um sofá. Isto é verdade, horas e horas de verdade que me fizeram uma coluna direitinha, três metros acima da rasteira realidade. Tinha pouco dinheiro e lia o que me caía nas mãos: os cinco, os cow-boys e navajos do Zane Grey, a Rosa do Adro que me faz parolo para o resto da vida, o Júlio Dinis e, às escondidas, uns livros do Vilhena que tinham ilustrações de lindas maminhas a preto e branco. O que contritamente (falso, falso) chorei quando a minha mãe descobriu.

6 – Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê
Um romance do Georges Steiner (“O Transporte Para San Cristóbal de A. H.”), um autor que tem tanto de excelência no ensaio como de prisão de ventre narrativa na ficção. Li tudo: precisava de ter a certeza.

7 – Indica alguns dos teus livros preferidos.
O que agora arbitrariamente me vem à cabeça: o meu Conrad (Heart of Darkness e Lord Jim), o Melville de todos (Moby Dick e o Bartleby preciosamente traduzido pelo Gil de Carvalho), o Herberto que devia ser dos portugueses (A Vocação Animal), Sena (As Evidências e Os Sinais de Fogo), Raul Brandão (El-rei Junot). Estes poetas e os livros deles: François Villon, Ronsard, Yeats, Larkin, Eliot, Pessoa, Ruy Belo, Christina Rossetti, e e cummings, Whitman, René Char, Drummond, Ezra Pound. Também Joyce (Dubliners é tão saboroso), Tolstoi (Guerra e Paz) Stendhal (O Vermelho e o Negro), Dostoievski claro, o D.H. Lawrence (Filhos e Amantes e Mulheres Apaixonadas), o Somerset Maugham (Fio da Navalha e Histórias dos Mares do Sul), Salinger, Roth, Bellow (Ravelstein), Ernst Jünger (Eumeswill), Philippe Sollers (Estranha Solidão), Blaise Cendrars (Moravagine), Flaubert (Salambô), Klossowski (Roberte Nessa Noite), Raymond Queneau (As Obras Completas de Sally Mara que dá mais tesão do que o Sade), Scott Fitzgerald (Terna É a Noite e um conto fulminante, The Crack Up). E já me esquecia da Edna St. Vincent Millay.

8 – Que livro estás a ler neste momento?
Releio devagar o “O Amor e o Ocidente” de Denis de Rougement. Leio “O Ensino do Português” de Maria do Carmo Vieira, “The Complete Dramatic Works” do Becket que a minha filha me trouxe da Irlanda (estou bem arranjado), “Violência” de Slavoj Zizek e, à maluca, “L’ Évangile de Nietzsche” de Philippe Sollers.

E, se bem me lembro, não fui o único Triste a responder. Desafio os que responderam a ressuscitarem as prosas de então (vá lá Norton & Eugénia) e os que não responderam (vá lá Bidarra & todos) a responderem nos próximos dias. Olhem que São João Tadeu dá-vos uma graça.

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Cedo

Manhã

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Os Jogos Olímpicos

usain Bolt

Os Jogos Olímpicos são, se assim se pode dizer, uma traição à trivial humanidade do ser humano. Falo do ser humano comum. Como eu.

Peço-vos a simpatia da vossa compreensão, eu queria vir aqui cantar a exaltação de ver a humanidade olimpicamente reunida, ecuménica e epifânica. Todos os povos, raças, sexos, ainda por cima quase todos de calções, leves, a respirar Verão e saúde, e até, as generosas nadadoras russas, de fato de banho.

Passei horas sentado a ver os exercícios em cavalo com arções, nas barras assimétricas, os mergulhos para a piscina com duplo mortal carpado. Espetei mesmo os olhos no televisor para ver o Usain Bolt passar nos cem metros, o que só consegui pressionando ininterrupta e furiosamente o slow-motion do controle remoto.

Foram horas de humilhação, para não dizer de tortura. Sou capaz de correr, de fazer marcha, saltar escadas galgando de dois em dois degraus, de boiar dez segundos cronometrados sem me afogar. E vêm uns milhares de seres humanos, em 306 provas bem contadas, ganhar medalhas, torcendo-se como está bom de ver que o esqueleto não pode, traindo a natural propensão do corpo humano para o repouso, numa incansável turbulência de ginástica rítmica, corrida, natação, voleibol feminino, slalom de canoagem, levantamento de peso e arremesso de dardo, triplo salto em comprimento que nos obriga a perguntar para que raio é que é preciso transportes públicos.

Essa prodigiosa exibição de milagres musculares e ósseos, a arrogância corporal de se ser supersónico ou voador instila-se-me pelos olhos dentro e provoca-me a irremediável nostalgia do corpo indolente, sossegadíssimo, parado. E mais do que parado: obstinadamente imóvel.

Os Jogos Olímpicos são uma traição à repousada humanidade, uma ofensa multicultural à tradicional siesta, à lenta digestão de uma ancestral feijoada à transmontana, de uma moambada de galinha.

Não me entendam mal, noutro dia, virei aqui cantar o brevíssimo Bolt, o neptúnico Phelps, a desdobrável Simone Biles. Canto-lhes, prometo que lhes canto, a glória, a láurea coroa. Hoje, cansado e ligeiramente engripado, dou-me ao preguiçoso luxo de os incompreender e canto a artrose, a lombalgia, a sobrecarga do nervo ciático, o humilde joanete. Há um novo cartesianismo pós-olímpico: dói-me, logo existo.

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Estranho mundo

A tia Annie Leibovitz não andou longe das minhas rosas com esta Bela e este Monstro...

A tia Annie Leibovitz não andou longe das minhas rosas com esta Bela e este Monstro…

Estranho Mundo

Tenho rosas de plástico, bem, de pétalas de tecido, um tecido bera, uma fibra barata, mas caules e espinhos de puro plástico verde, numa jarra de vidro, na mesa-de-cabeceira. Estranho mundo. Desgosto tanto de flores artificiais que só eu sei. E no entanto.

O meu sobrinho, o mais novo, é um sedutor: agrada para se sentir amado. Entra no meu quarto, barra-se literalmente com os meus cremes, põe o hidratante de rosto nos pés – ah, sim, é verdade, gosto destas coisas à antigamente, como a minha avó fazia quando eu era pequena, não ponho os cremes na casa de banho. No quarto. Gosto do conforto da cadeira, espreito o espelho, enfim, privilégios de quem dorme sozinha no meio da bela cama de casal de lençóis tão bem esticados e almofadas de afundar. Três. Estou convencida, aliás, de que se me desse para ser endinheirada, o que comprava era uma cama Hästens – tive insónias durante mil anos, agora que já durmo, ó Deus, como gosto de dormir. O meu sobrinho mais novo, o sedutor terribilis, quando está de visita, entra-me no quarto, ao sábado, às sete da manhã com um avião Antonov que faz todos os barulhos de motores e acende mais luzes do que uma feira e diz-me: está um lindo dia de sol! Também pode ser: está um lindo dia de chuva! E o cabrão do Antonov a descolar, brrrrrmmmm, a piscar no escuro absoluto. Tenho sorte. Sempre tive bom acordar, até quando acordava de não dormir. Só uma coisa me faz acordar a meter medo ao diabo. Já contei. Martelos. Berbequins. Afins. Depois, vai à minha mesa-de- cabeceira, enfia o nariz nas rosas de plástico: hum… cheiram bem, que lindas! Não me desmancho, nem o desmancho: obrigada, meu querido, a tia adora estas rosas.

E adoro. Tanto quando as desgosto, e se as desgosto… Explico.

Sou católica. Sou divorciada, isso é um facto e por causa dele já ouvi dizer que não sou católica. Discordo. Sou uma católica que quis divorciar-se. Ámen. Também já me disseram que a comunhão me está proibida. Pois seja, mas sinto-me sempre bem-vinda e convidada para a ceia do Senhor. Poderei não ser digna de que Entreis em minha morada, porém, salva, fui de certeza, e depois disto digam quantos nãos quiserem. O único sim de que preciso, tenho-o. Sou católica, sou divorciada, e tenho rosas de plástico na mesa-de-cabeceira por causa de um sonho. Já me disseram, que horror, isso é uma superstição, um católico não faria isso. Tanto faria que eu fiz. A vida sempre se deu a conhecer por todos os meios. Mesmo sonhos, vozes, sarças ardentes, visões aladas, carros voadores. Silêncios. Imaginações. Sei lá. Coisas de internar gente por muito menos. Então.

Estava a dormir. Sonhei que estava numa loja desconhecida. E de repente era um corredor muito estreito e alto ladeado de roupa. Umas escadas. Ao cimo, à esquerda, um balde no chão cheio de rosas de todas as cores, e diante de mim infinitas prateleiras de louça. E ouvia. Sem palavras. Um entendimento. No sonho, claro. Leva as rosas vermelhas. Corta todos os botões e fica só com as rosas abertas. Põe junto à cama numa jarra de vidro transparente. E eu: e os espinhos, corto? Não os espinhos pertencem à natureza da rosa. E a seguir faço o quê? Nada. As rosas abriram.

O certo é que quando acordei, pensei: pelo sim, pelo não, vou à florista quando vier do ginásio. Levanto-me e tal e mais tal, e ginásio comigo. Estava no carro quando reparo, ao ver-me no retrovisor, que tenho o cabelo solto. Parece mentira. Nunca por nunca. Mas foi verdade naquele dia. Estaciono. Entro numa loja onde nunca estive – ia só comprar um elástico de cabelo, um daqueles fios de telefone para fazer um rabo-de-cavalo. Foi a primeira e única vez, até hoje, que entrei na loja dos chineses. Estou ao balcão da entrada. Há de um tudo. Até champô. Olho para a esquerda. O imenso corredor do sonho fez-me largar o elástico no balcão, à entrada, a carteira, as chaves do carro. Nem o incenso a que faço uma alergia tremenda me impediu ou impediria de avançar. Ao fundo, um lance de escadas. Quando estou a subi-las sinto cá uma irrealidade… Déjà vu do caraças que até mal disposta fiquei, e no chão, outra vez à esquerda, um balde cheio de rosas medonhas: azuis, verdes, encarnadas, amarelas. Cada cor mais feia do que a outra.

Pego nas rosas vermelhas, todas, como se fossem o bem mais precioso do mundo – sei lá eu se não são. Se alguém me tentasse tirar uma delas que fosse, havia de ser um agarrem-me, senão eu mato. Olho em volta. Ai a puta da jarra também aqui está? Na posse do meu sonho, raspo-me dali. Chego ao balcão tão grata por este estranho mundo que levo meia dúzia de fitas para o cabelo, elásticos que jamais usarei e duas bandoletes de plástico feias como os cornos. Lixe-se o ginásio.

Sempre fui bem mandada. Talvez por ter sido educada por uma avó autoritária. Chego a casa. Pego na tesoura de peixe e vá de cortar as cabeças dos botões de rosas – sinto-me a rainha de copas. Quando estou a cortar os botões, percebo uma vírgula, umazinha só, do mistério: cortei tudo quanto não crescia. E de repente uma torrente, um rosário de vírgulas: rosa-cálice, taça da vida, rosa-sangue, rosácea, rosa mística, se até o burro de Apuleio se fez de novo homem… Lavo as rosas, lavo jarra, deixo secar. Ponho a jarra cheia de rosas na mesa-de-cabeceira.

Desde esse dia até hoje, um depois do outro dos sonhos que tive, um só de cada vez, um, dois, três, um dia dez? dos jamais acreditei ver realizados, quis acontecer e aconteceu. Estranho mundo amado, obrigada.

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Banhos turcos

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Um terramoto não chegou. Foi preciso uma guerra para os juntar: Frank Capra, John Ford.

Cinco da tarde é uma bela hora para se cortar o cabelo, pensou Frank Capra, a 10 de Março de 1933. Foi, portanto, cortar o cabelo, sacudindo a chatice das reuniões entre um comité da Academia de Hollywood e um comité de trabalhadores dos estúdios para discutir cortes salariais, à conta do fecho por vários dias de todos os bancos americanos, ditado pelo Emergency Bank Act de Roosevelt, moratória que faria estremecer de felicidade Costa e Centeno.

Na cadeira de barbeiro, toalha branca amarrada ao pescoço, seria assim que o terramoto de 1933 apanharia Frank Capra. Estava no Hollywood Athletic Club, ginásio selecto estimado pela elite do cinema. Deixemo-nos de cerimónias, que mesmo a elite gosta de ditados populares: quem tem cu tem medo, e logo que a Califórnia tremeu, o solidário Hollywood Athletic Club tremeu também. Capra, jovem e atlético, foi lesto. Em dois segundos já estava cá fora, o seu olhar elitista a ver a terra andar de balouço e abrir assustadoras fendas.

Deu-lhe forte e foi breve, que é essa a graça dos terramotos. Agora que a terra regressara à sua aristotélica imobilidade, era Capra que tremia. Para se acalmar, decidiu voltar a entrar e descer aos banhos turcos. Não havia ninguém, claro. E minto, corrige-me Capra. Recortado entre as ondas de vapor, entrevia-se um solitário e hedónico ocupante. Vulto enorme, a ler um jornal com uma tranquilidade de urso, se desse a um urso para ler jornais. Trazia uma conspícua e inescapável pala sobre o olho esquerdo. Só podia ser John Ford. “Sim – confirma Capra – reconheci o meu ídolo, o fabuloso John Ford”.

Pareceu-lhe a oportunidade de ouro para meter conversa. “Terramoto danado, não foi Mr. Ford?” A resposta foi gutural e áspera: “Terramoto? Qual terramoto?”, disse John Ford, matando cerce e a chicote a conversa, sem deixar de ler o jornal.

Trinta anos depois, já os dois velhos, já os dois amigos, a Los Angeles de banhos turcos fez a Capra uma gigantesca homenagem. Falou Ford. Fez o elogio das “comédias dramáticas cheias de humanidade que só tu sabes fazer”, jurando que Capra, por ser tão bom com actores, era até capaz de os dirigir fazendo o pino ao mesmo tempo. O velho Capra, lembrando-se talvez do Hollywood Athletic Club, fez logo ali o pino, para delírio da assistência e gáudio de Ford.

Publicado no Expresso, sábado, dia 13 de Agosto

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Uma História Curta

Bebeu o último gole e levantou-se. Estava um pouco bebido.

O bar quase vazio, invadido pela sombra da noite que chegava devagar, sem pressa.

Sempre gostou de beber ao fim do dia, ainda com a luz do sol a bater nas lentes dos óculos escuros.

Saiu para a rua, terra batida, amarelada, a lembrar os filmes de “cow boys” americanos, um grupo de pessoas passava, desinteressadamente, a caminho da vila.

Procurou as chaves do carro, estacionado no descampado de asfalto maltratado pelo tempo, esburacado, com enormes rachas como veias pálidas a atravessar a superficie em direção ao mar.

Parava sempre ali. Era como se fosse o seu lugar privativo, porque era isso mesmo que gostava: olhar o oceano depois de já ter bebido uns belos copos na espelunca do Fernando. Só as ondas e a ravina, e as putas das gaivotas, que parecia já não ouvir de tão habituado que estava.

Sentia-se bem, tresandava a alcóol e precisava de um banho.

Sentia-se bem. Tinha recebido o ordenado e sentia aquela  alegria de uns dias a comer e beber.

Na verdade a beber apenas.

Estava sempre a ouvir isso. Que gastava tudo na bebida, em vez de arranjar a casa, o carro, ou dar dinheiro à mulher que tomava conta dos filhos.

Abriu a porta, sentou-se como se fosse pesado e procurou a garrafa de whisky que guardava no forro da porta que fazia de gaveta.

A noite caía, o mar uma massa escura. O branco das ondas era só ruido.

Deu mais um trago na garrafa e a cabeça pesou-lhe no corpo. Tentou por duas vezes pegar o carro, à terceira lá foi, uma nuvem preta no retrovisor.

Arrancou, acelarando e com a porta ainda aberta. Tentou fechar a porta, enquanto a carteira lhe fugia do bolso e o carro avançava sem controlo.

Ainda a agarrou. Antes de sentir o vazio da queda na ravina.

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Bob Dylan

Bob-Dylan em sessenta e um

Era um puto, 19 anos magros, esgrouviados. Chegou a Nova Iorque com a confiança de quem vem de uma universidade do Minnesota e tem uma bela maçã para morder. “I’m a stranger here myself”, deve ter dito a olhar para o gado que o acompanhava na carruagem de metro que ia levando em direcção a Greenwhich Village. Quando saiu – Este e Oste bem calculados –, chegou em dois tempos ao Café Wha. Era terça-feira, hootenanny night. Podia cantar-se quase livremente e Bob pediu ao dono do café, Manny Roth, que o deixasse animar a sala meio-vazia, meio-cheia. Tocou, marcou e voltou nas noites seguintes, playing harmonica: “… blowin’ my lungs out for a dollar a day”.

Era terça-feira, dia 24 de Janeiro de 1961, faltavam-me 56 anos para eu ter a idade que tenho hoje. Começou assim a carreira de Bob Dylan. E, ao contrário do que os grandiosos profetas da depressão garantem, times, outra vez e sempre, times they are a changing. Não sou eu que digo, nem sou eu que sei, sabem todos os que estão atentos ao que is blowin’ in the wind. Há miúdos esgroviados no metro, há miúdas a espantar uns bares onde, hoje, quarta-feira, seja hootenanny night.

A Bob Dylan, pequeno Jesus Cristo do meu tempo e, também desse tempo, Che Guevara de guitarra, é só metermo-nos na máquina do tempo e ir ouvi-lo cinquenta e seis anos lá para trás. “You’re no Good”, cantava ele. E era muito bom.

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“I need a forrest fire” / James Blake ft. Bon Iver

 

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Bem aventurados os puros de coração

1961 King of Kings Sermon on the Mount

Nick Ray viu assim o Sermão, no seu King of the Kings, em 1961

Chamem-lhe o que quiserem: tradição, caldo cultural, História. Da Ilíada e Odisseia para cá, do raio dos gregos à sacro-profana sopa judaico-cristã, passando pelos regalos imperiais de Roma, tu e eu, cada um de nós, ocidentalmente parido, tem 30 séculos disto no pêlo. É muito idade.

À falta de procuração, falo então por mim. Já levo 30 séculos de ver, ouvir e ler, de rezar, blasfemar e ter esperança, de procurar sentido ou de me perder na devassidão de não haver nada a não ser gozar os sentidos. Levo eu, leva ele e levamos todos nós. Trinta séculos de pensamento e fogueiras; de escravidão e liberdade; de crime e de castigo; de culpa e de absolvição; de inquisição e caridade; de vingança e perdão. De sonho e de esperança.

E continuo a comover-me com a humanidade do Sermão da Montanha que o putativo filho de um carpinteiro disse, arrebatado, a uma pequena multidão. Há quem lhe encontre um eco divino. Eu não. Nesse Sermão, só escuto a negação da re-ligião, a exposição da sua nudez moral.

O Sermão das bem-aventuranças é um texto poético exaltante. Jesus, o Galileu que o terá dito, juntou ao sentido poético um grito de revolta e de mudança. Na boca de um homem é um discurso sublime, ético e de coragem. Se o dissesse um deus, se o dissesse o Ubíquo, o Omnipotente, seria um discurso cobarde e cínico, a roçar a infâmia. Nada autorizaria o Todo Poderoso a causticar assim os pequenos poderosos da Terra; nem a moral o consentiria ao Omni-Arrogante, Àquele que quer que todos O glorifiquem, mas que é todo alheio, todo silencioso. Nada o autoriza a ordenar às potestades regionais que façam o que não faz a Potestade universal.

Não foi nenhum Deus que falou pela boca do filho da virgem. Foi um homem sedento de justiça e prenhe de caridade que, do cimo de uma colina, falou às multidões miseráveis de cabelos crespos e peles tisnadas. Era só um homem. Falava do alto de uma montanha, mas bem longe do silencioso e omisso Deus. Os deuses são assim, calados, preguiçosos do Mundo, fechado num condomínio de marfim, amoral e impiedoso.

Um homem humilde subiu ao cimo de um suave monte para falar aos humildes que o cercavam:

«Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles reino dos céus!

Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra!

 Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados!

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados!

Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia!

Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus!

Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus!

Bem-aventurados os que padecem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos céus!

Bem-aventurados sereis quando vos injuriarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de Mim.

Alegrai-vos e exultai, porque o vosso galardão será copioso nos céus, pois assim também perseguiram os profetas que vieram antes de vós.»

E chamou aos homens sal da terra, luz do mundo.

Há neste sermão, nestas bem-aventuranças, o escândalo e o amor humanos que nos faz ter fome de poesia, ter fome do Belo e do Bem. Levamos, da Grécia até aqui, 30 séculos a querermos fundir-nos nesse desejo do Belo, nesse desejo do Bem. Podemos ter um milhão de culpas, mas esse desejo resgata-nos e redime-nos.

E viu-o assim, como eu gosto de o ver e ouvir, Pier Paolo Pasolini, no seu belíssimo e amoroso Il Vangelo Secondo Matteo.
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