respeita meu crespo

« todos estes estilos eram efémeros.  Desejei que se transformassem em obras de arte,

fixando a sua passagem»

Ojeikere , fotografo nigeriano

 

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O homem mais livre de Portugal

(Escrevi este texto no DN em Novembro de 2011. Volto a escrevê-lo hoje, que um  faccioso, racista e candidato o ameaçou de porrada)

O João Quadros, escritor, humorista, guionista e twitterista é, provavelmente, o homem mais livre de Portugal. Não sei se haverá alguém tão livre como o João Quadros, mas mais livre não há de certeza. Há muita gente livre no café ou à boca pequena, há muita gente livre lá em casa e muita gente livre pensadora. O João Quadros é um livre pensador, sim, mas em voz alta, no Tubo de Ensaio da TSF e à boca grande, com a ajuda do Bruno Nogueira.
Todas as manhãs, numa espécie de Krave Maga criativo, o João Quadros ajuda-nos a libertar as nossas vidas do debilitante bom senso lusitano expondo, com toda a liberdade, o ridículo que viaja pelos media e pelas nossas vidas; o ridículo dos anunciantes, da publicidade, dos políticos, dos agentes culturais, das televisões, dos clubes, enfim, das nossas mais estúpidas convenções. E, aparentemente sem tabus, pois não há quem não seja escrutinado, analisado e ridicularizado quando é essa a pena.

O João Quadros é tão livre que se libertou da última grilheta da criação que é o bom senso. Não é fácil e não é para todos, num país que dá mais valor ao bom senso e à conformidade do que à diferença e à liberdade. Mas é necessário, uma vez que foi graças ao nosso proverbial bom senso que aqui chegámos, alegremente, e é graças a ele que estamos agora, tristemente, a ir ao fundo. Com o aperto, com a austeridade com a pobreza virá o medo; com ele vai a liberdade e com ela a criatividade, que é a liberdade de opinar, de criticar, de fazer diferente, de pensar diferente, de ser diferente. E o país está cheio de medo. Os media amplificam-no e, por entre previsões de catástrofe e de pobreza, somos ainda culpabilizados de tudo, por comentadores, políticos, empresários com culpas e sem escrúpulos e que pensam como o seu dono, o estrangeiro.

Um dia destes, vai a ver-se, e a liberdade é apenas mais um subsídio que se pode cortar aos bocadinhos, um luxo de ricos que nós, os pobres católicos da outra Europa, também temos que cortar. “Pobres diabos, têm liberdade a mais e, claro, tinha que dar nisto!” pensará o alemão e o anglo-saxão. E pensam, com eles, os que por cá se julgam de lá e sente, no íntimo, que só por estranho capricho divino foram postos nesta terra. Para muitos destes, a liberdade é algo que temos a mais e que usamos irresponsavelmente.
São tempos estranhos estes onde muitos, com medo de perder os seus clientes, os seus empregos, a suas empresas, os seus investimentos, forçam as colunas em vénias e sorrisos até ao chão. São inúmeras as histórias que vou ouvindo de pressões, ameaças e chantagens, de gente sem princípios nem educação, de empresários e funcionários que se dedicam a tentar vergar quem ainda está de pé.

O João Quadros é um exemplo para todos os que trabalham na criação e na comunicação, porque não verga, porque é livre. A liberdade é um valor central que não é só da ordem da abstracção. Não, a liberdade é um valor económico na ordem dos milhões, a liberdade faz dinheiro. Para se ser criativo e fazer diferente, para inventar e, assim, criar valor, é preciso ser-se livre e sentir-se livre. Como o João Quadros, o homem mais livre de Portugal.

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Emotion trumps reason

 

 

 

 

 

 

 

Não há palavras que traduzam bem este título. Ainda assim há um ponto a ser feito por ele que tentarei explicar o melhor que sei.

Não há racional no fascismo nem no racismo. Há ideias. Ideias que nascem de vísceras a pensar. Há sangue a ferver. Há emoções, descargas de adrenalina e paixões negras. Há hipotálamo a decidir, o mais reptiliano dos órgãos do sistema nervoso. E há homens que sofrem metamorfoses e se transformam em violentas ratazanas que vêem ratos em todo o lado e os atacam só porque o cheiro do mijo é diferente do seu. Como aconteceu recentemente em várias partes do mundo: em Loures, por exemplo, ou no Pontal.

Hoje, na esquerda, e até na extrema esquerda, há mais razão. Mas só razão. Só há argumentos lógicos, só há planos, decisões racionais, abstracções, mapas e maquetes onde ninguém vive, teorias e dogmas urdidos em lógicas irrefutáveis e sem coração.

Houve um tempo, que ainda vivi, em que a esquerda pensava com as vísceras e com o hipotálamo. E havia algum bom-senso e racionalidade na direita. Depois a esquerda conquistou quase todo o quarto poder e a cultura, e tornou-se complacente para com a razão desprezando a emoção (o belo, o terno, o épico, o lamecha e todos os géneros que não sejam só logos); tornou-se académica. E a direita, que viu as suas razões serem preteridas pelos media e pela cultura, tornou-se visceral e reptiliana.

As decisões viscerais e reptilianas matam. As decisões racionais e dogmáticas matam.

Dustin Lance Black, argumentista da belíssima série When We Rise, dizia há tempos, em entrevista à BBC, que só se conseguem convencer pessoas pela emoção. Eu diria que não se convence ninguém de nada, que as pessoas não se convencem, convertem-se. Não é expondo argumentos perfeitos de racionalidade (se é que os há), encadeados por lógicas irrefutáveis, que se convence quem não quer ser convencido. É sentindo o argumento e vivendo-o, ainda que de modo vicariante – não ensinando de cátedra, que é o que hoje, maioritariamente, fazem as esquerdas; é fazendo as pessoas chorar, emocionar-se e enraivecer-se; é abrindo-lhes o coração, porque o coração é o trunfo para chegar à razão. É esse o papel da ficção.

Curiosamente foi assim, criando novas ficções e túneis de realidade por onde correm ratazanas, que a direita mais reptiliana chegou ao poder na América. Enquanto as esquerdas, sobranceiras, achavam que bastava ter razão.

 

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O busto de Fonseca

O padre Fonseca (José Maria da Fonseca) nasceu em Évora, em 1690. Tomou os seus votos em 1714, em Roma, onde vivia. Era Franciscano e o papa Bento XIII promoveu-o rapidamente a Procurador Geral da Ordem. Serviu-se da sua posição para estabelecer laços diplomáticos fortes com o rei de Portugal D. João V, que serviu como Ministro Plenipotenciário. O monarca português, no entanto, transferiu os seus favores dos Franciscanos para os Jesuítas, a partir de 1740, obrigando o padre Fonseca a regressar a Portugal e a servir sob as  ordens do Bispo do Porto.

Antes de regressar a Portugal, Fonseca deixou ao Museu Capitolino este busto sensual e belíssimo, o que diz muito, ou seja, diz tudo, sobre o gosto de um autêntico Fonseca. O busto desta mulher flaviana atesta o gosto de Fonseca pelo longo pescoço de uma mulher, pelos cabelos apanhados, que realcem a testa resplandecente, as altas maçãs do rosto. E não vou dizer nada da sofisticação do penteado, que hei-de arranjar um vídeo que diga tudo muito melhor do que eu.

Ora, aqui está

 

E mais aqui

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Nanni Moretti

 

 

 

Fartei-me de escrever no Expresso em Março de 1992. Lembro-me que já estava de férias na Cinemateca – as últimas. Tinha as malas prontas para começar na SIC, a 1 de Abril, trabalhador nº 11, como consta da primeira lista de pessoal edo meu cartão de funcionário. Fosse como fosse, decidira que havia incompatibilidade (o nanni morettiano que eu era!) entre ter funções directivas na programação de cinema e séries de uma estação televisiva e escrever no Expresso, sobre ficção ou política televisiva e cinematográfica. A dar as últimas, em Março, esgadanhei-me todinho. E fiquei, depois, quase 15 anos sem escrever uma linha que se visse…

Este artigo elogiava um ciclo que Cinemateca então programou e nele se fazia uma amena defesa de Nanni Moretti. Ainda hoje, e depois de ter visto, gostando um niquinho, Habemus Papam, e, gostando muito, La Mia Madre, pouco mudaria sobre o que disse de Moretti, que pela primeira vez vira, seis anos antes, na Cinemateca da UCLA, em 1986. Aqui vai, a velha prosa.

Obra vicentina
Manuel S. Fonseca

«O CINEMA e Uma Geração Italiana» é como se chama o ciclo que a Cinemateca dedica, de 21 de Março a 13 de Abril, ao novo cinema italiano. Integrando somente filmes produzidos entre 1987 e 1991, os organizadores abriram, todavia, uma excepção a essa regra cronológica, para apresentarem a obra integral de Nanni Moretti, cuja carreira começou em 1975, com um filme em 8 mm, intitulado Io Sono un Autarchico.

Sem aspirar a elevar-se a esse panteão onde, histórica e consensualmente, hoje se arrumam as figuras tutelares de Rossellini, Visconti ou Fellini, a obra de Moretti (realizador, actor e produtor) revela uma personalidade própria — de temas e de estilo — na qual não é difícil descobrir alguns motivos que justificam o acompanhamento cuidado da retrospectiva.

Às vezes conseguidos, às vezes muito conseguidos, por vezes relativamente falhados, os filmes de Nanni Moretti têm em geral um valor muito particular, o do amor pelas personagens que põem em cena. Rotulado como um cineasta de comédia, Moretti evita a caricatura como método e o cinismo como ponto de vista. Mais ainda, não são os outros o alvo da sua ironia, mas sim ele mesmo e o sistema de crenças que constitui a sua ideologia. Chamando as coisas pelo seu nome, temos então que Nanni Moretti é comunista e que os dramas dessa militância se convertem na fonte dramática dos seus filmes.

Em suma, Moretti dá o corpo ao manifesto: «As obsessões, as nevroses, a raiva, os entusiasmos de Michele partem de mim», disse ele, referindo-se à forma como imaginou e interpretou a figura de Michele, o protagonista de Palombella Rossa. Por isso, por ser uma obra de bondade (vicentina, dir-se-ia), é muito feio, como já vi em mais do que um comentário, servir-se de Moretti para apontar dedos ameaçadores. «La messa è finita.»

Cómico da palavra, em cuja mecânica ao argumento de um personagem se contrapõe sempre o contra-argumento de outra, Moretti procura evitar que a intenção crítica, visível nessa forma de organizar o discurso, descambe em azedume. Nostálgico muitas vezes, o mais que lhe acontece é ser também, por vezes, amargo. Amargo mas gentil. Essa perda das grandes ilusões que não deixa, ainda assim, de reter um grau de crença razoável na inteligência, reflecte-se na atitude de Moretti face à produção de filmes. Em 1986, fundou uma casa produtora, a Sacher Film, cujo objectivo, como ele afirma, tem sido o de «produzir filmes não banais e com uma identidade», como os de Daniele Luchetti e de Carlo Mazzacurati, realizadores igualmente presentes neste Ciclo.

A identidade do cinema de Moretti passa por uma defesa intransigente do individual, nos seus aspectos mais peculiares e privados. Se acreditarmos nas justificações dele, La Messa è Finita nasceu do seu desejo secreto de se ver como padre e vestido de sotaina; em Sogni d’Oro e Bianca, uma obsessão tão particular como a dos sapatos pode ser tema de um monólogo; os chocolates são um «guilty pleasure» recorrente.

Não são grandes razões, as que se alinharam em defesa de Moretti? De facto, não são. Mas são as que correspondem ao fundamento da acção de Moretti como produtor. «Apesar de tudo, no horror da indústria italiana, parece-nos existir um pequeno espaço para o cinema inteligente», disse Moretti falando de outros jovens cineastas. Era como se falasse de si próprio.

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CANTI

(Falarei de janelas)

Gaspar David Friedrich

CANTI

 

A  norte     Montanha

Nu      jardim         talvez        um     dia

O   Vento    a      Àrvore

Kshksh     kshish     kshish

ferrugem           coruja

vasta    amarga     pele     escura

Thun               hum                  dhum

1000      800         1

 

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É proibido casar bêbado

“ – A paixão é um instante de desvario. Pessoas que casam por paixão deviam ser consideradas inimputáveis, e esses casamentos anulados.

– Não está mal visto – concordei.

– As pessoas só deveriam ser autorizadas a casar estando lúcidas. Não entendo porque, sendo proibido conduzir bêbado, não é proibido casar bêbado, ou apaixonado, o que é a mesma coisa. Um casamento não é assim tão diferente de um carro. Mal conduzido, pode ferir muita gente, a começar pelos filhos (…)”

José Eduardo Agualusa, em “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”

 

Finalmente, consegui pôr de lado esta minha insuportável mania de questionar a espantosa facilidade com que, nos dias que correm, o Direito Canónico, aparentemente, permite a anulação de casamentos celebrados à luz das suas regras (os católicos, bem entendido). Afinal de contas, eu é que não estava a ver bem a questão. Mea culpa. Foi a minha deformação profissional de advogado – neste caso, segundo alguns dos meus interlocutores na discussão, de “advogado do diabo” em sentido literal – que me levou a insistir no absurdo de tornar nulo um casamento – é isso mesmo, como se ele nunca tivesse existido aos olhos de Deus – de dez, quinze ou vinte anos, com filhos atrás de filhos, sem qualquer vício na formação da vontade que não fosse o de uma das partes, ou ambas, se ter(em) apercebido, ao fim dos ditos dez, quinze ou vinte anos, e dos tais filhos atrás de filhos, que tudo não passara de um engano. Ora, pois claro, se gostavam um do outro quando casaram e agora já não gostam, é porque estavam enganados – quanto ao outro ou quanto a si próprio – nesse momento em que se terão vinculado e juraram gostar um do outro, aos olhos de Deus, até à eternidade. Pois então, se não há hipótese de divórcio (essa aberração dos casamentos civis), anula-se e pronto, não se fala mais do assunto, nunca estiveram casados, os tais filhos atrás de filhos passam a ser bastardos (até porque foi um engano o ato de procriação que os fez nascer) e mais nada.

Como é que não percebi antes. Foi preciso vir o José Eduardo Agualusa, no seu último “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”, explicar-me tudo de forma tão cristalina. “É proibido casar bêbado, ou apaixonado, que é a mesma coisa”. E quem o faz é inimputável. Afinal, o vício da vontade sempre esteve lá. Grande nabo fui eu como advogado em todas as discussões acesas que travei a propósito da anulação de casamentos de pobres ex-nubentes bêbados.

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Os pianistas

 

 

 

Por razões que não vêm ao caso, mas que um dia destes se hão-de ver, o comunismo caiu-me em cima e ando soterrado em literatura ensaística de Outubro. De 1917. Comecei com Lenine. E não, não é o Lenine da Cinemateca que, já um dia contei, a minha mulher em lágrimas, entrando pelo gabinete do João Bénard da Costa, anunciou em soluços: “Morreu o Lenine, João.” E logo ele, atrapalhado por a saber tão comunista: “Oh Antónia, caramba, já morreu há que tempos.” E a Antónia, prontamente: “João, não é esse, é o nosso Lenine.” Não é com esse saudoso e macilento Lenine, presença permanente nas sessões da Cinemateca, vigilante de todas as gralhas e falhas nos texto que a Cinemateca publicava, que me ando a entreter. É mesmo com o Vladimir, o Ulianov e bolchevique. Li-o, li-lhe biografias, li ensaios sobre a economia russa, sobre 1905 e 1917, e vou agora quase no fim das memórias do seu figadal adversário, Kerenski.

Para arranjar tempo para ler tudo isto, precisei de ler, ver e ouvir derivas e outros sonhos. Podia dizer que fui ver o Paterson do Jarmusch, e fui, mas isso é o que direi no Expresso de sábado que vem.  Adiante.

Mas o que quero dizer é que ainda bem que antes de ir ver o Paterson já andava a ler, e continuo, O Pianista de Hotel, de que é autor o Rodrigo Guedes de Carvalho. E não é autor coisa nenhuma, porque até páginas 201 deste Pianista os autores deste livro são os olhos de uma personagem e os ouvidos de outra.  O romance que esses ouvidos e olhos escreveram, substituindo-se ao Rodrigo, seu pretenso autor, apanham-me no momento certo da minha vida. Também os meus olhos e os meus ouvidos ganharam vida própria, ficando muito mais velhos do que eu, e por isso se sentem irmãos dos ouvidos da personagem do Pianista que ouve vozes que mais ninguém parece ouvir (e a própria personagem tem algumas dúvidas) e dos olhos da outra personagem que vê uma mãe que a parva, parvíssima objectividade garante rotundamente já estar há muito morta e enterrada.

Um dia perguntarei ao Rodrigo, cujos olhos e ouvidos ainda são muito mais novos do que ele, quem lhe contou este segredo da autonomia federativa de olhos e ouvidos, mas a páginas 201, e se o suspense, uma trama de linhas paralelas e uma prosa sóbria fazem as delícias do vosso palato narrativo, vão ver este hotel e ouçam o pianista.

Má fortuna de outro pianista, Júlio Resende, são os meus descomandados ouvidos que o andam agora a ouvir. Estranhando pessoanamente a heteronímia com que aqui Alexandre Search o absorveu. tenho de dizer ao Júlio que até o Lenine (o de 1917, não o da Cinemateca), obstinado fã da Apassionata de Beethoven, se exalta com ele, intrigado com a forma como, quando toca, o corpo de Resende se desfaz, a cabeça em voo picado pelos ombros abaixo, os braços em câmara lenta de cinema mudo.

E já tinha ouvido e hei-de sempre ouvir Fado & Further, onde se ouve a voz de quem ali nem canta, fantasmas dos meus sonhos e dos meus medos, dessa estranha forma de vida que é o século XXI a debruçar-se sobre o século XX.

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Era um cavalheiro quando não bebia

“Olha para ti, Dreyfuss, só comes e bebes, és gordo e desmazelado. Nessa idade, é criminoso. Nem dez flexões de braços fazes.” Era o que, nos dias de maior cortesia, Robert Shaw, actor shakespeariano, dizia ao jovem americano Richard Dreyfuss, que Spielberg escolhera para o papel de cientista marinho em “Jaws”.

Shaw podia pôr nos olhos uma faúlha facínora e, ao mesmo tempo, na boca um esgar sarcástico. No cinema, fora assassino, coronel autoritário, sequestrador. Conheci-o, no Avis, em Luanda, era ele o impiedoso Henrique VIII de “A Man for All Seasons” – separando-lhe a cabeça do corpo, lixava a vida ao decoroso e utópico Thomas Morus. Em “Jaws”, foi Quint, o monofanático caçador de tubarões. Votava ao tubarão o negro ódio que o capitão Ahab derramava sobre a branca Moby Dick.

Antes de fazer a vida negra ao tubarão, Shaw fez a vida negra a Dreyfuss. Era um cavalheiro quando não bebia, mas um copo, jura Dreyfuss, “convertia-o no mais competitivo filho-da-puta.” Ora, Shaw acordava às quatro da matina para um matabicho regado pela lendária aspereza do bourbon Wild Turkey. Às cinco, levava o corpanzil à maquilhagem, onde o acalmavam a martinis. A seguir, caía em cima de Dreyfuss com o que de amargo lhe viesse à boca: que nunca pusera os pés num palco, que era só maneirismos, que o desafiava a atirar-se ao mar do mastro do barco onde filmavam.

Vejam, Shaw entra no set ainda com um copo na mão. Faz uma vozinha de gozo: “Ajuda-me, Dreyfuss, ajuda-me!” Ai, queres que te ajude e Dreyfuss arranca-lhe o copo da mão e espatifa-o contra a parede. Fez-se um silêncio de morte. Até os estilhaços de vidro ficaram suspensos no ar. Shaw não abriu a boca. Agarrou numa agulheta de incêndio e, off-camera, esteve com ela apontada à cabeça de Dreyfuss na cena que ele filmou a seguir. Aquilo ficou negro, garante Spielberg.

E veio a cena em que Shaw conta o afundamento do USS Indianapolis e o ataque dos tubarões. Foi o próprio Shaw que escreveu o texto, magnífico. A empatia que se cria entre as personagens inundou a vida real e Shaw prometeu a Dreyfuss que fariam Shakespeare juntos. O álcool e um ataque de coração impediram-no de cumprir a promessa.

Na Irlanda, quando encontrou na televisão a neta de Shaw, Dreyfuss verteu em lágrimas a admiração que tinha pela ciclópica grandeza dele.

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Nem sei se te ame se te odeie

Seu destruidor de corações!

Estava aqui a olhar para Steiner. Este Steiner. Tudo quanto gosto num homem, ele tem. E quando fala, ou melhor, quando leio o que escreve, percebo claramente o significado de “mas dizei uma palavra e serei salva”. Nem sei se haverá melhor religião do que esta, mesmo melhor comunhão do que a do significado, a música, a literatura, a poesia, a pintura, enfim, a deste pensamento que nos libertou e elevou o olhar do chão para o horizonte e o alto. Ai o raio dos amores impossíveis… Ou melhor, ai o raio dos homens ideais que, por existirem, nos dão cabo da possibilidade amorosa!

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os reis os leões os seres humanos

quem és tu?        não era uma imagem          uma causa         anima             os diferentes

lugares                                                                                     dizem

ACABOU O AMOR

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Amor, Moreia

Obituário publicado na revista Sábado a 03 de Agosto (Moreau detestaria as paredes bidimensionais de 3400 caracteres, ela que é um ser da quarta dimensão):

Nunca teve a beleza das estrelas dos anos 60 (Brigitte Bardot, Romy Schneider, Kim Novak, Jean Seberg). Era pequena, de ar triste, olheiras perpétuas, a velar a angústia, como n’”A Noite” que atravessou para o mestre do mal de vivre, Antonioni. Por isso, não amedrontava as mulheres, e os homens comuns não se viravam à sua passagem. Mas a câmara jamais a largou: foi paixão à primeira vista. Moreau tinha o look da inteligência, os gestos do instinto e o sublime cansaço de cem anos de vida audaciosamente vivida. Era parecida connosco mas, em simultâneo, inalcançável. A voz, essa, sussurrava a cama dos grandes amores e o templo das grandes histórias – ouvi-la como Duras no, de resto, medíocre “O Amante”, de Jean-Jacques Annaud, era compreender o eterno nas pequenas coisas: o calor do sol na pele; os dedos penetrando a mansidão do rio; ter catorze anos. Com ela, um audiolivro dos sete volumes de “Em Busca do Tempo Perdido” seria o veloz reencontro da felicidade.

Já andava pelos filmes há uma década quando explodiu, tranquila mas desafiadora (seria sempre assim) em 1958, ao som do trompete de Miles Davis, num “Fim de Semana no Ascensor”, adúltera e de intenções assassinas, e como um d’”Os Amantes”, a mulher mais velha, adúltera de novo, ambos de Louis Malle. Fez uma breve figuração para Truffaut em “Os Quatrocentos Golpes” (1959), abertura oficiosa da Nouvelle Vague. Ele não a largou mais até convencê-la a protagonizar o papel que se lhe colará à pele como o ar temperado do Alto Reno: Catherine, seta, alvo e perdição do triângulo amoroso de “Jules et Jim” (1962), filme de novo construído sob vozes-off e abissais elipses – “o primeiro beijo deles durou uma noite inteira”.

Foi rosto e drama de quase todos os cineastas tão grandes como ela: Joseph Losey (“Eva” e “Mr. Klein”), Orson Welles (que integrava uma pequena multidão ao considerá-la a melhor actriz do mundo, em “O Processo”, “As Badaladas da Meia-Noite” e “História Imortal”), Renoir (“Diário de Uma Criada de Quarto”), Elia Kazan (“O Grande Magnate”, ou uma das formas que teve de demonstrar quanto Hollywood lhe era indiferente), Fassbinder (“Querelle”), onde canta, para nossa renovada perdição, “Todos os homens matam aquilo que amam”, seguindo Oscar Wilde.

A biografia? Filha do gerente de uma brasserie em Montmartre e de uma bailarina inglesa do Lancashire que passaria pelas Folies Bergère, foi figura do Conservatório Nacional e da Comédie Française, aos 20 anos. Casou-se com Jean-Louis Richard – com quem teve o único filho, o pintor Jérôme Richard – e William Friedkin, e viveu com Tony Richardson, que deixou Vanessa Redgrave para lhe cair nos braços (Moreau tinha um fraquinho por realizadores). A maioria dos que com ela contracenaram sofreu igual destino: Mastroianni, Jean-Louis Trintignant, George Hamilton, mas também o designer de moda Pierre Cardin. Foi amiga de Jean Genet, Cocteau, Henry Miller. Boa cozinheira,  leitora ávida, fumadora compulsiva, fez de tudo: cinema, teatro, ópera, séries televisivas, álbuns musicais. Foi encontrada sem vida aos 89 anos pela empregada, na manhã desta segunda-feira, no seu apartamento da Faubourg-Saint-Honoré, em Paris, a cidade onde nascera. Nada disso esclarece o mistério da boca de carnudo pisco-vermelho, daqueles deliciosos joelhos, da maneira desastrada como corria, do melancólico sonambulismo, como se Jeanne fosse a guarda-avançada dos nossos sentimentos mais ocultos. O cinema fica, mas uma parte da sua bravura terminou.

 

 

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Os discos e a tuberculose

Foto: Paul Heartfield

A história vem toda, e muito bem contada, aqui, na New Statestman, e em muito bom inglês. Resumo na branda língua portuguesa, aconselhando leitura do original. Na velha União Soviética, depois da II Guerra, com Estaline e depois de Estaline, até 1964, quem gostasse de ouvir música que não fosse clássica ou folclórica, passava um mau bocado. Não havia, e não era respeitável, nem responsável ouvir-se o Rock Around the Clock para dar uma bom exemplo. Esse melómanos desavindos eram mal vistos, por causa do gosto burguês e pelo seu interesse pelos padrões ocidentais, fosse jazz, fosse rock. Ou mesmo pelo seu vivamente desaconselhável apreço por formas underground de música russa.

O que fazer?, já perguntava Lenine. O que fazer?, começaram a perguntar estes homens e mulheres que queriam divertir-se e dançar. Foi então que alguém criou uma traquitana, pesadona como o raio, que era capaz de gravar discos como se gravavam no vinil. Mas gravar em que suporte? E foi então, tal como se conta no artigo que vos recomendo, que alguém descobriu que se podia gravar em cima de radiografias. Os hospitais deitavam fora, ao fim de um ano as radiografias e esse exército musical das sombras apanhava-as e, depois de as cortar em forma de disco, gravava em cima e a 78 rpm tudo o que fosse música proibida. Parece que o som era o mesmo de um ovo a estrelar ou de uma agulha a raspar em areia, mas desde que se ouvisse e desse para dançar…

Era tudo traficado, tudo clandestino, dava prisão, mas o prazer desmedido que tudo aquilo dava era muito superior à voz da proibição. Para que nada nem ninguém, nem mesmo um machado corte a raiz ao prazer tudo serve o anseio humano, até a radiografia de uma fractura ou de uma tuberculose.

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Beijos

 

 

 

Fui buscar este velho texto que estava enterrado há cinco anos no Escrever é Triste. É para quem ama Clint Eastwood e já viu “Um Mundo Perfeito” e é para quem, amando muito uma mulher, a beija no rabo.

Tu ama-la?” Vão no carro, Butch ao volante, Buzz enfiado no fato de Casper, o fantasminha feliz. Butch ainda tenta uma digressão distractiva: “Quem?” Mas a curiosidade de Buzz é obstinada e infantil: “A senhora que nos cozinhou os hamburgers…” E como é que se explica a uma criança quando é que um homem ama uma mulher.Butch e Buzz saíram a correr de uma espelunca de estrada, como a correr saem de todos os lugares em que entram depois de um pequeno golpe de destino os ter juntado.

Butch, presidiário em fuga, talvez fosse um tipo capaz de fazer o bem a toda a gente se soubesse como fazê-lo. Não se priva: faz o mal sempre que é preciso.

Buzz tem oito anos e nunca comeu algodão doce. A mãe, seca e solitária testemunha de Jeová, não consente e também não o deixa andar na montanha russa. Buzz dormia quando Butch e o criminoso que com ele fugiu da prisão lhe entraram em casa. Corre mal a invasão, como correrá tudo mal neste filme que de tudo correr tão mal tira a sua perfeição. Os dois bandidos levam-no, menino e de cuecas, como refém.

Buzz descobre em Butch o pai que nunca teve. O criminoso vê no miúdo o filho que nunca há-de ter. Por ele, mata o pedaço de má rês que é o seu companheiro de fuga. Veste-o e dá-lhe de comer. Ia dizer, se lhe dessem tempo, faria do miúdo um homem… E corrijo: mesmo no tempo que lhe dão, Butch faz dele um homem. Põe-no a comer doces, a conduzir um carro e a meter travões a fundo, a ter confiança no pequeníssimo pirilau que, garante-lhe Butch, está muito bem para a idade que tem. O filme, incorrectíssimo , é “A Perfect World” e filmou-o Clint Eastwood depois de o ter muito bem escrito John Lee Hancock.

Quando já quase tudo ensinou ao miúdo e lhe matou a fome de tanta fuga, Butch, que no filme é um portentoso Kevin Costner, descobre que tem mais fome do que a fome que no miúdo e nele já apagou. E Eileen, a senhora que cozinha hamburguers, não deixa de ser a senhora que Buzz pensa que ela é, por ter apetites que nem a mais abençoada cozinha sacia.

Mandaram o miúdo apedrejar, lá fora, o que lhe apetecesse apedrejar. E aqui voltamos à obstinada curiosidade infantil do primeiro parágrafo: Buzz espreita e vê Butch beijar a senhora que mata a fome. Quando Clint Eastwood nos deixa ver o que os inocentes olhos de Buzz vêem, já Kevin Costner beija a fundo o que mais ao fundo a senhora tem, até que, vendo que são vistos, páram estarrecidos.

Beijaste-a porquê?” Porque sabe bem, porque um tipo se sente bem, é o que Butch tenta explicar ao miúdo. “Mas beijaste-lhe o rabo, hã”, insiste, científico, o garoto, “Tu amas a senhora?” E, de repente, o adulto Butch percebe que está salvo: “Claro que a amo. Beijei-lhe o rabo, não beijei?!” Num mundo perfeito só devia ser adulto quem nunca perdesse uns inocentes olhos de criança.

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O enxovalho

Richard Dreyfuss é um choramingas, um cry-baby. Vi-o lavado em lágrimas na televisão irlandesa. Mas permitam-me que primeiro invective os portugueses. Temos a mania de que somos desenrascados, que o improviso para o português é como limpar o cu a meninos. Ora, apetece-me é mandar os portugueses falar com Spielberg. Começou a filmar “Jaws” e não tinha ainda guião acabado, nem tinha actores e – Jesus, Maria, José – nem tinha sequer tubarão. Um filho de portugueses, Joe “efeitos especiais” Alves, conta que tinham três tubarões mecânicos. Mexiam-se bem em terra seca, mas mal entravam na água, dava-lhes a paralítica.

Dreyfuss lembra-se de que nos walkie-talkies só se ouvia uma irritante voz distorcida a lamentar “corta, o tubarão avariou”. Preparavam-se e “corta, o tubarão avariou”. Houve um dia em que, tudo a postos no Orca, o barco que persegue o tubarão, os walkie-talkies rejubilaram: “O tubarão funciona, o tubarão funciona!” Actores em pé, todos nas marcações e logo a voz distorcida: “barco a afundar-se, barco ao fundo, abandonar barco.” Spielberg gritava ordens para salvarem primeiro os actores, mas o operador de som, Nagra nos braços levantados por cima da cabeça, só dizia: “Fuck the actors, salvem mas é o som.” Óbvio, “Jaws” foi o êxito que qualquer chinês sabe.

Agora, que de desenrascanço estamos falados, e nem o presidente Marcelo virá dizer que é idiossincrático traço nacional, queria falar de homens, dessa enfronhada camaradagem que desaba sobre alguns de nós e que as mulheres não conseguem compreender. Vejam “Jaws”. Estão três homens num bote à espera do tubarão. Robert Shaw conta-lhes como os japoneses afundaram o cruzador em que ia e como os tubarões fizeram dos marinheiros americanos um sangrento almoço festivo. Estabelece-se uma eléctrica empatia masculina e mostram uns aos outros cicatrizes de aventuras. Bebem, riem, cantam. As personagens de Shaw e Dreyfuss superam, por fim, a brutal rivalidade de classe que até aí levava Shaw a humilhar Dreyfuss. A graça é que essa rivalidade era real fora do filme. Shaw chamava-lhe “punk”, sem experiência de palco. Iam para uma cena, e ele segredava-lhe “atenção aos teus maneirismos”, arrasando Dreyfuss. Tanto enxovalho e foi a lembrar-se de Shaw que vi Dreyfuss feito Maria Madalena na televisão irlandesa. Para a semana conto porquê.

Publicado no Expresso no sábado, dia 29 de Julho
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