Não me posso queixar (3)

(Capítulo 1)
(Capítulo 2)

3

— Hoje podemos falar dos males e das dores do coração?
— Concretamente?! — exclamou o vagabundo com perplexidade perante a recaída do morto.
— Talvez hoje me pudesse queixar da incapacidade de amar para além da volúpia inicial da carne. Uma volúpia que, uma vez saciada, dá lugar a um vazio que cresce como cresce o negro de um poço quando não chove…
O morto fez uma pausa para deixar soar o símile. O vagabundo retirava o estanho do gargalo da garrafa e preparava-se para sacar a rolha. O morto continuou.
— … e em redor desse vácuo tudo seca irremediavelmente, e o coração definha como definha um músculo que não é exercitado, e dói uma dor que não se sente, nem corpo, nem nos nervos, nem na carne, mas antes no fundo do poço, por assim dizer.
O vagabundo arregalou os olhos ao céu, suspirou tédio pelo nariz e fez saltar a rolha da garrafa com um pop eloquente.
— Não tínhamos combinado esgotar antes as dores que doem? — perguntou o vagabundo.
— Tínhamos, é verdade, mas eu pensei que talvez hoje pudéssemos…
— Eu preferia esgotar as outras dores, as que doem mesmo. Isto é, se tiver mais queixas dessas.
— Este fim-de-semana doeu-me um cotovelo — disse o morto e mostrou-o inchado, um trambolho na articulação do braço direito.
— Olha, aí está um clássico. Fale-me lá disso.
À hora combinada, o morto apareceu para se queixar, e o vagabundo lá estava sentado nas escadinhas com o mesmo desleixo e pose displicente, como se nunca de lá tivesse saído. Apenas a garrafa de vinho branco tinha mudado outra vez. Esta tinha um rótulo medalhado. Também havia um copo de pé longo e um balde de plástico com água e pedras de gelo para manter o vinho na boa temperatura.
Durante as últimas semanas, e depois de um auspicioso primeiro mês, as dores de que o morto se queixava, ao contrário do branco, vinham a decair de qualidade, drama e emoção. Eram meras dores de cabeça, ou uma “incomodativa” dor no externo, como que provocada por um peso, ou um torcicolo resultado de uma corrente de ar frio que soprou pela janela durante a sesta, ou uma dor na garganta inflamada por um imprestável micro-organismo sem nome, ou uma picada de vespa na mão que tinha alastrado de articulação em articulação até ao ombro transformando-se num inchaço quase perigoso, que tivera de ser tratado com anti-histamínico e antibiótico; enfim, banalidades sem intensidade. A última queixa com algum interesse tinha resultado de um corte profundo na unha do indicador, a todo o sentido do dedo, separando a unha em duas metades iguais. A mutilação, que o médico declarou permanente dado o sentido do corte – a unha cresceria, para sempre, em duas metades distintas, como se fosse um casco de cabra –, que acontecera enquanto cozinhava uma refeição tipo gourmet para amigos, ocupação de acordo com as tendências da actualidade, foi narrada com detalhe vívido e atenção aos pormenores que foram muitos e sanguinolentos. As dores, que o morto sentiu aguçadas e penetrantes como o fio da faca japonesa, e que quase lhe provocaram uma reacção vasovagal, deram uma sessão de belos símiles, hipérboles e comparações inusitadas; a uma boa sessão, a mais interessante que o vagabundo ouvira nas últimas semanas. Mas, tirando a unha em forma de casco de cabra, nenhuma das últimas queixas tinha tido qualquer interesse. O processo atingira o marasmo. Hoje seria a dor de cotovelo.
O vagabundo encheu o copo, suspirou e recostou-se para ouvir a queixa.

Inadvertidamente, o morto tinha batido o cotovelo, com violência, contra a esquina de uma estante enquanto rearrumava livros procurando, pela enésima vez, uma ordem lógica, irrefutável e prática para o seu acervo bibliográfico que era considerável. Já tinha tentado a ordem alfabética, que resultara numa ilógica mixórdia de temas; já tinha tentado a ordem alfabética dentro de outra mais vasta, a dos assuntos, mas a biblioteca revelara-se maçadora e previsível, com a personalidade de uma livraria de centro comercial; também já tinha tentado arrumar os livros por nacionalidades dos seus autores, mas esbarrou com o Nobokov. Ultimamente, e porque era um ser sensível e visual, tivera a ideia de arrumar as lombadas por tons: blocos inteiros de amarelo, junto a outros laranjas, depois os avermelhados, os rosas, até chegar aos azuis, para concluir com um bloco de lombadas pretas. Quando terminou a tarefa, que lhe levou boa parte de dois dias, e toda a estante era um arco-íris de lombadas, o efeito cromaticamente previsível não foi do seu agrado. Irritado, resolveu recomeçar tudo de novo, o que lhe levou mais uma boa parte de outros dois dias, arrumando os livros por assuntos, ainda que mantendo as lombadas ordenadas por espectros de cor: um arco-íris de ficção, um arco-íris de História, uma arco-íris de poesia, um arco-íris de ciência, outro de filosofia. Uma biblioteca fragmentada numa colorida de manta de retalhos que era, afinal, como a sua cabeça funcionava. Quando procurava um livro, lembrava-se sempre e em primeiro lugar da cor dele. Os Heinleins, por exemplo, eram todos cinzentos. A trilogia do Smiley, do Carré, era preta. Os Karamazov eram esverdeados, como verde era o Crime e o Castigo. Já o Idiota era azul e por essa razão encontrou o seu lugar junto de duas Agustinas, das obras completas do Azimov, do Hitchiker’s Guide to the Galaxy e de uma colectânea de contos do Elmore Leonard. Não muito longe encontravam-se os azuis clarinhos, e entre eles O Coração das Trevas e a Odisseia que partilhavam o mesmo azul celeste quase brumoso. Curiosamente, o Vitória partilhava o mesmo vermelho tinto da Ilíada.
— Algum sentido há-de ter esta coincidência — disse o morto fazendo um silêncio meditativo que fez cair a cabeça do vagabundo, acordando-o.
— Continue, continue – disse o vagabundo, disfarçando interesse e reenchendo o copo.
Foi quando estava a arrumar um livro de um novíssimo autor da velhíssima escola necroliterária – cujos seguidores fazem carreira imitando escritores mortos – livro que lhe fora oferecido, mas que não tinha lido nem fazia tenção de ler, que bateu violentamente na esquina da estante. A dor no cotovelo, logo no cotovelo direito, foi fulminante como o foi o inchaço que se lhe seguiu. De imediato abandonou a tarefa, maldizendo o autor mais a quem o editou, para se recostar no sofá com o cotovelo apoiado num saco de gelo durante a boa parte de mais dois dias; impossibilitado de jogar ténis, de produzir rimas sobre as suas angústias – o que fazia manuscrevendo com uma caneta de aparo, de modo a aportar aos emasculados queixumes uma genuinidade de fim de século (XIX) –, de erguer um livro, sequer, ou mesmo de puxar pelo macaco, tarefa a que se dedicava com a mesma regularidade com que os seus intestinos trabalhavam.
— E como é que resolveu a coisa? — perguntou o vagabundo olhando concentrado para a garrafa de branco que ia a pouco menos de meio como a sessão. — O cotovelo ainda dói?
— Dói. Dá-me ideia que vai doer sempre. É o género de coisa que já não passa nesta idade. Sei que aqui e ali a dor de cotovelo reaparecerá. É inevitável — disse o morto.
Ainda assim não era caso para a cortisona. O velho diclofenac 100 mg, de libertação prolongada para não acicatar a úlcera, parecia ser suficiente. Mas o ténis nunca mais seria o mesmo. Algo que implicaria com a sua rotina, e sem a sua rotina sentia-se perdido. O morto havia enchido todas as horas do dia com as mais diversas actividades para evitar pensar naquilo que devia fazer. Agora, havia mais quatro horas da semana para se dedicar ao nada.
— Talvez arranjar outra dor mais forte? — sugeriu o vagabundo, enquanto pegava delicadamente no pé do copo fazendo rodar o vinho.
— Como assim?
— Se tem mais tempo para se dedicar a dores sem sentido – e note que digo sem sentido apenas porque não se sentem na carne, nem na pele, ou seja, através do sistema nervoso, não que não façam sentido para si, de um modo significante, mas, a certo nível, por certo muito básico, não fazem sentido para o seu corpo, senão sentiam-se a sério – talvez devesse, para se entreter, arranjar dores maiores.
O vagabundo fez uma pausa para dar um golo e esvaziar o copo. Depois voltou a enchê-lo com o que restava na garrafa, ofereceu ao morto, que declinou, e continuou:
— Parece-me que essa dor de cotovelo é uma dor menor. Uma dorzinha, apenas capaz de produzir lamúrias e não queixas viris. Quando combinámos estas sessões foi para ouvir queixas e não lamúrias. Queixas de consequência, queixas com drama e enredo, que comovam quem as ouve, que arrepiem e impressionem. Esta dor, de que hoje se queixou, é uma dor medíocre, e o inchaço apenas um altinho no cotovelo que parece ser onde você guarda o ego. Se vamos continuar este trabalho, de uma forma séria, preciso de dores épicas que resultem em queixas agonizantes. Para a próxima sessão quero que me traga uma dor heroica, uma dor miserável, das que não se aguentam. Caso contrário é porque não tem nada de que se queixar. Nem vale a pena aparecer.
— Está a dizer-me que devo provocar uma dor em mim mesmo, de forma masoquista?
— Mas não é isso que tem feito toda a vida com todas aquelas dores que não se sentem na pele? Essas dores do coração, e da alma, e do ser, e do fundo do poço e mais ó caralho?
O morto ficou calado, aturdido com a violência das observações. Seria mesmo assim? Seriam as dores poéticas, dores que ele convocava em si mesmo? Uma espécie de mortificação psicológica para combater, subconscientemente, a frivolidade a que votara a sua vida?
— É essa a tarefa para a próxima semana. Arranjar uma dor que doa. A nossa hora acabou.
— E como é que eu faço isso?
— Sei lá, procure que há-de encontrar qualquer coisa: cilícios, coroas de espinhos, camas de pregos, chicotes de rabo-de-gato com nós na ponta. E estes são apenas clássicos. Estou convencido que também a mortificação sofreu um upgrade nestes tempos mais digitais. Procure na internet.
Ficaram calados, cada um com os seus pensamentos. O morto dobrado sobre si, com os cotovelos nos joelhos e cabeça apoiada nas mãos, pensava em chicotes de rabo-de-gato com nós na ponta. O vagabundo, olhando o balde onde jazia a garrafa vazia de vinho branco medalhado, dava-se conta de como ele era feio, o balde, de um verde muito rasca como só o plástico conseguia fixar.
— São cinquenta euros.

(continua)

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A Criação

Estreia hoje, na RTP 1 (imagine-se, num canal sério, dedicado ao grande serviço público), uma série que escrevi e que foi realizada pelo Sérgio Graciano com a produção da Até ao Fim do Mundo. Chama-se A Criação e é uma comédia, ou melhor, será uma comédia se tiver alguma piada. Eu rio-me com quase todas as cenas, mas a verdade é que eu me rio por tudo e por nada. Siso não é a minha cena.
O universo é o das artes comerciais – a publicidade, o design, o marketing – e os protagonistas, o anunciante e a agência criativa, são bichos: um Urso, uma Galinhola, um Leão, um Cão e um Corvo, uma Ratinha, uma Girafa, uma Ovelhinha e um pequeno Robot; o que faz d’A Criação uma fábula sobre a farsa da criatividade. Digamos, pois, que se trata de uma fábula farsola.
Numa recente entrevista ao Fernando Alvim, sobre humor, o querido administrador da RTP, Nuno Artur Silva (Deus o tenha e guarde por muitos e bons anos a encomendar séries), disse que esta série era um OVNI. Belíssima definição. Claro que pode ter sido uma maneira de não se comprometer, uma vez que não se sabe que reacção ou reacções a série incitará, nomeadamente junto da polícia do PC, mas o que, penso eu, o Nuno quis dizer é que sendo um OVNI, não se sabe o que vem lá dentro: se o ET, se o Alien. Pois eu digo-vos: o que vem dentro do OVNI é um Alien feroz, mas com o aspecto querido do ET.
Também o estimado director de programas da RTP 1, Daniel Deusdado, durante a apresentação da série no São Jorge, como é do protocolo do lançamento de objectos culturais de manifesto interesse público, disse que a série era difícil porque os bichos falavam, mas não abriam a boca; outro facto que, claramente, indicia a sua natureza extraterrestre. Talvez por essa razão, a série aterrou às 11 da noite de terça feira (dia de Liga dos Campeões), longe de qualquer nobreza horária, como tinha mesmo de ser. Afinal os OVNIS aterram sempre longe da cidade, em locais ermos e esconsos, para serem descobertos, apenas, pelos mais intrépidos e curiosos exploradores. Ainda assim, para os que preferem bola (o que, a avaliar pelo número de programas com gajos a falar do assunto, é o país todo) a série estará disponível no RTP Play, http://www.rtp.pt/play/p3847/e306670/a-criacao, onde há um botão que permite andar para a frente de modo a passar mais rápido pelas partes embaraçosas.

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Uma comunidade de editores

Venho convidar-vos a gastar o vosso dinheiro.

E se calhar já comecei mal: o que eu queria era convidar-vos a serem editores de um livro. Têm ouvido as notícias sobre a crise de jornais e revistas e sobre o fim do papel. Não é a mesma coisa, mas os livros também mudaram. E é urgente começar a pensar novas formas para os fazer.

Quero fazer uma edição especialíssima do Físico Prodigioso, de Jorge de Sena, essa novela erótica que tanto antecipa tudo o que o que hoje balbuciamos sobre a questão do género – identidade, sexualidade, paixão e morte – e queria juntar-lhe a pintura de Mariana Viana. Tenho o texto e tenho 23 exaltantes ilustrações. E tenho já este livro virtual que aqui vêem (é só, ainda, o mono):

Mas para o fazer, capa a ouro, armada em vários painéis como se fosse um políptico, papel de alta qualidade para a pintura, temos de criar uma comunidade de editores. Eu preciso que os amigos do livro, os que gostam de obras diferentes, invulgares, os leitores de Jorge de Sena, os bibliófilos em busca de raridade, subscrevam já esta obra para que passe do estado virtual ao real.

Haverá 200 leitores em Portugal  que queiram ser co-editores deste livro? Se eu estou a pedir? Estou, mas estou sobretudo a pedir-vos que dêem, aqui, o primeiro passo para criarmos os Amigos da Guerra e Paz (é a minha editora, bem sei) e que, juntos, futuramente, façamos este e outros livros de que gostamos. Vamos decidir sobre os livros que queremos ver feitos. Vamos plantar livros de que gostamos na paisagem editorial!

as ilustrações são de Mariana Viana, expressamente concebidas para o livro

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E pluribus unum

De vez em quando, um bocadinho de cooperação não só não faz mal a ninguém, como é capaz de nos trazer melodia, ritmo e great fun.

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1934

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Uma lista conservadora

  1. A boa moral

Abomino, pelo aborrecido que me palpita ser, a ideia de um mundo libertino. Defendo, por amor ao insidioso pecado, o modelo conservador que Jean Renoir recomendava aos seus financiadores: “É do interesse dos produtores manterem um adequado padrão moral, sem o que os filmes imorais deixarão de vender.”

  1. A apetecível costureira

Em “Man Hunt”, filme de Fritz Lang sobre um caçador inglês que queria matar Hitler, a heroína fazia o troitor, se a expressão ainda diz alguma coisa. Os censores mostraram a Lang o cartão vermelho. “Tivemos de lhe pôr uma máquina de costura no quarto, para que parecesse uma modista e não uma puta”, queixou-se Fritz. Abençoados censores: a máquina de costura, pedal, tampo e agulhas, conferem ao jogo de ancas da personagem uma duplicidade erótica que a mais santa puta não alcançaria.

  1. Seda e jóias

Já andei de chinelos, calções rotos e flores no cabelo. Ainda hoje estremeço de vergonha a pensar nesses anos hippies – haja Deus que nunca desisti do banho diário. É verdade que Chaplin filmou a tão bonita Paulette Godard tisnada e pobre. Mas ela pisava como uma rainha, por jamais ter esquecido o conselho de De Mille: “Lembra-te que és uma estrela. Nunca atravesses a rua para despejar o lixo, a não ser que vás coberta de seda e jóias.”

  1. O bom gosto

É inevitável pecarmos. Mas nem todos reúnem os atractivos físicos ou os meios materiais para prevaricarem com variedade e ardor – hèlas! Resta-lhes a riqueza da imaginação. Homens e mulheres tiveram em Greta Garbo a amante de sonhos inconfessáveis. O jornalista Alistair Cooke redimiu-os desse pecado: “Ela dava-nos um consolo: já que a nossa imaginação tinha de pecar, ao menos que o fizesse com o mais irrepreensível bom gosto.”

  1. A coerência moral

Há lições morais no imoralíssimo “Design for a Living”, de Lubitsch. Dois homens e uma mulher, lindos, cheios de humor, fazem um acordo de cavalheiros: sexo entre nós, não. Mas há uma noite em que ela, Miriam Hopkins, está sozinha com um deles, Gary Cooper. Acende-se-lhe um fogo nada fátuo e já se revolve, provocadora, no tão bom sofá: “Bem sei que temos um acordo de cavalheiros – sussurra ela –, mas devo confessar que não sou um cavalheiro.” A coerência moral talvez não seja um valor absoluto.

Publicado no Expresso, dia 9 de Setembro

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Não me posso queixar (2)

(Capítulo 1)

2

— Hoje trago-lhe gota — disse o morto que chegou coxeando.
O vagabundo aguardava-o nos degraus das escadinhas tortas. Parecia que nunca dali saíra nem mudara de posição. Tudo nele era igual: o mesmo aspecto, a mesma roupa imunda, o mesmo olhar esperto, a única excepção era a garrafa de branco, que tirou do casaco que lhe servia de manta. Esta tinha um rótulo conhecido.
— Vamos lá ouvir essas queixas — disse o vagabundo visivelmente satisfeito.
Havia um mês que se encontravam nas escadinhas. Nunca o vagabundo esperara que o morto fosse tão assíduo e pontual, nem que esta lucrativa relação durasse. Mas ele ali estava de novo, à hora combinada, pronto a desfazer-se em queixas. E trouxera uma queixa dolorosa, sentida na pele, e não uma dor hiperbolizada para dar sentido a angústias banais. Fora esse o trabalho do primeiro mês: substituir queixas banais e sem drama digno por queixas com verdade escatológica. Acabar com os foros de drama urdidos pela palavra, onde angústias se fingem dor, pondo o verbo ao serviço dos verdadeiros ais. E ais era o que o morto trazia.
Não era a primeira vez que tinha um ataque de gota. Já no passado fora afligido por esta maleita velha de séculos mais literários. Desta vez o destino e os Deuses imortais tinham-se conjugado para lhe proporcionar um padecimento épico, quase religioso, que durou todo um fim-de-semana. Um fim-de-semana de imobilidade e dores de uma plenitude tão acintosamente aguçada e tão aguçadamente insuportável que, para as descrever, teria de recorrer a um vocabulário e a um imaginário tão vetusto e de antanho como a condição de que sofria. E ainda sofria, quando chegou à sessão, mesmo já passados alguns dias; mas também era grande o orgulho que sentia na sua dor de verdade. Afinal, como o vagabundo lhe tinha feito ver logo nas primeiras sessões, citando hinos a Deuses antigos, é sofrendo que o insensato aprende porque a dor obriga a reflectir.
— A culpa é da carne — disse o morto — literalmente da carne, que não é fraca, mas antes gorda. E também do álcool, pois sem o bom vinho não vale pede darmo-nos ao prazer da carne. O meu bisavô dizia que para o pecado da carne, quanta mais carne melhor.
Daí a gota. Doença de príncipes e reis, os poucos que no passado comiam proteína em quantidade suficiente para alimentar o privilégio da maleita. O morto também gostava de carne. E também tinha reis e duques como antepassados longínquos. Deles herdara a predisposição para a gota, para além um solar no Minho – que partilhava com mais um cento de primos e cuja decrepitude (do solar) disfrutava três dias por ano – e uma ligeiríssima, embora não incapacitante, imbecilidade. Esta última provocada por uma educação excessivamente orientada para convenções sociais de modo a evitar-se qualquer pensamento inusitado, original e, assim, desconfortável. Enfim, toda uma herança que vinha, como é norma nestes casos, atada com um nome carregado de pesadas expectativas.
— Mas vamos à dor propriamente dita — disse o vagabundo, reorientando a conversa. — Queixe-se lá, homem! — concluiu e bebericou um trago do bom branco, bem mais aceitável do que o vinho das últimas sessões.

Durante o fim de semana, no almoço anual com os primos, tinha-se entregue ao tinto, à perdiz e ao javali. Já sabia que ia ter um ataque de gota, mas como dizer não ao tradicional repasto e desiludir a família? Dizer não era comportamento que dominava mal. Nunca tinha aprendido a recusar. Fora educado no salamaleque do positivismo, da boa cara e da concordância. Não, não se dizia (a não ser para admoestar cães e criados). Para mais, há anos, desde que se conhecia, que comparecia a este almoço. Não podia recusá-lo e muito menos sentar-se à mesa e pedir um prato de tofu, ou uma saladinha verde, ou beber apenas limonada. Era um almoço de família, com caça, vinho, pão alentejano e queijos absurdamente gordos e salgados. Uma tradição. E as tradições, como aprendera, eram para ser honradas, mesmo as que provocam a acumulação de cristais de ácido úrico nas articulações dos dedos dos pés. E, no íntimo, embora não o admitisse, não queria deixar passar a oportunidade de experimentar o épico sofrimento da gota e ter assunto que partilhar nas escadinhas. Foi o que aconteceu, muito para além das suas expectativas e por causa da bisavó.
Quando a dor começou, o morto estava ainda na herdade onde tinha almoçado com os primos e onde resolvera passar todo o fim-de-semana, que era dos grandes. Também a herdade era das grandes, embora já tivesse sido maior. Mas os comunistas, primeiro, e as dívidas contraídas pela imperícia dos primos para o trabalho, depois, haviam encolhido os hectares. Manteve-se a casa, no entanto, e com ela uma aparência de dignidade antiga encarnada pela bisavó. Uma mulher de preto, magra, baixa e curvada, daquelas mulheres que vivem a vida toda em dor e não morrem nunca. Era a bisavó que dirigia a casa e tudo organizava com espartana austeridade de que era exemplo a recusa em tomar anti-inflamatórios. Nem um havia nas muitas gavetas das muitas cómodas escuras que ensombravam os muitos quartos mal iluminados por causa do calor. Nem esteroides, nem não esteroides. Nem colchicina, nem alopurinol, nem probenecida. O único consolo para as dores, em toda a casa, eram crucifixos. Restou, assim, ao morto suportar a dor vociferando.
“Foda-se, já sabia que esta merda ia acontecer. Foda-se, caralho, puta que pariu a gota!”
Nas primeiras doze horas, enquanto os aguçados cristais de ácido úrico se incrustavam na articulação do dedo grande do pé, aumentando as dores, os impropérios, que iam crescendo de volume, cor e frequência, ecoaram pelos corredores obscurecidos da casa chegando, inevitavelmente, aos ouvidos da bisavó, a senhora dos crucifixos, que correu a admoestá-lo veementemente fazendo-o saber que a sua ordinária impaciência ofendia o Senhor. O Senhor, dizia ela, com toda a certeza tinha-lhe enviado a dor nos pés como medida das suas transgressões passadas que – ela sabia-o bem e, portanto, Ele também o sabia – eram muitas e graves; e que tinha de a suportar, a dor, com satisfação e sem anti-inflamatórios, pois ela era uma dádiva do Altíssimo pelas dívidas dele; e que também o Senhor tinha, por todos nós, suportado a dor que as cavilhas Lhe tinham provocado nos pés quando o pregaram na Cruz. E acrescentou, para terminar o sermão, que a gota, de que o defunto bisavô também sofrera como medida, porventura, do pecado das putas a que se dedicava todos os anos na Primavera – quando mentia que tinha de ir a Sevilha mandar fazer umas botas novas, e depois voltava lá para as provar, e depois para as ir buscar, num total de duas semanas de cada vez durante as quais torrava metade dos proventos do ano – que a gota, dizia ela, sofrida por ele, que era o que mais se parecia com o bisavô, com abnegação, vontade e sem anti-inflamatórios, como queria o Senhor, acabaria por saldar as dívidas e salvar as almas dele e do defunto. Não era por acaso que era gota, e que era nos pés: era por causa da mentira das botas e do pecado das putas, disse a bisavó.
E a verdade é que a parábola das botas e das putas em Sevilha assentava como uma luva à situação; do mesmo modo que, outrora, as botas assentaram como luvas nos pés do bisavô, pois era em Sevilha que havia os melhores sapateiros. A dor parecia resultar de umas botas justas, forradas por dentro com dezenas de pequenos e aguçados pregos de medida seis por seis. Um padecimento bíblico.
— Meu Deus! — exclamou o vagabundo, que tinha estado suspenso nas palavras do morto.
— Pois foi em Deus que pensei durante todo o fim-de-semana. Sem anti-inflamatórios era tudo o que me restava. E perguntei-me muitas vezes se a dor é coisa do diabo ou do bom Deus.
— E a que conclusão chegou?
O morto ponderou a resposta, deixando o silêncio da velha cidade tomar conta das escadinhas. O vagabundo emborcou mais um golo do muito razoável vinho e soltou um pequenino arroto.
— Não cheguei a conclusão nenhuma — respondeu o morto. — Continuo a debater: será a dor um modo do bom Deus nos remeter ao caminho, castigando o corpo pelos desvios, pelos atalhos e estradas secundárias que nos levam à concupiscência e ao pecado? Ou será a dor um divertimento do diabo, que tem no humano o seu parque de diversões? Ou, ainda, será o diabo, que me cravou os pés com pregos afiados, apenas um ajudante do Senhor, um subempreiteiro, por assim dizer, a quem o Senhor delega esta empresa menor, estes trabalhos que são o padecimento dos mortais, enquanto Ele se dedica às grandes tragédias e cataclismos?
— Belíssimas perguntas, mas a hora acabou. São cinquenta euros.
— Já?
— É verdade. O tempo voa quando se o passa bem.
— Para semana à mesma hora? — perguntou o morto.
— Aqui estarei — respondeu o vagabundo recolhendo as notas no sobretudo.

(continua)

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Manifesto Revolucionário aspas aspas

Abaixo a discriminação. Não sei o que deu aos grandes líderes e educadores das massas ortográficas, mas isto é inaceitável. Querem acabar com as aspas curvas. Discriminar desta forma as aspas inglesas, lá por ter havido o Brexit, fere os meus mais profundos sentimentos igualitários. O que têm afinal a mais as aspas latinas? Que poder autocrático lhes reconhece superioridade sobre a curvilínea elegância das outras?  E onde é que, em nome de Deus, o angular é melhor do que o curvo?

O que farão a seguir os grandes líderes, na sua vertigem trumpo-norte-coreana? Acabar com o hífen? Não permitir que se chame cerquilha ao cardinal, negar três vezes o pé de mosca, a meia-risca, o ápice ou a chaveta? Ou obrigar-nos a todos a usar o ponto de interrogação invertido?

E se os sinais gráficos são agora sujeitos a este tratamento classista, praticamente czarista e pré-outubrista, o que acontecerá aos sinais diacríticos, ao mácron ( ¯ ) e à braquia ( ˘ ), ao gancho polaco ( ˛ ) e, sobretudo à paixão da minha vida, a querida e biunívoca diérese ( ¨ )?

É com um temor e tremor ortográfico que apelo aos nossos melhores espíritos para que, com um ponto de exclamação, contenham os seus Linguistas e Gramáticos Plenipotenciários, não digo com ponto final, mas aplicando-lhes um par de colchetes.

Abaixo a luta de classes no reino da Ortografia!

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Dr. Fonseca, que é lá isto?!

Ao contrário de certos uns que fazem gosto em ser acusa Cristos, eu que não sou de intrigas e sou praticamente uma santa, acho que quem tem telhados de vidro e se põe a cantar e a abanar-se debaixo de um regador ou lá o que é, não devia deitar pedras ao nosso Norton que anda lá fora a lutar pela vida.

E para que não levantem falsos testemunhos, é verdade, confesso, esta rapariga trabalhadeira que engoma para fora, e ó para mim, nem uma queixa que o canto é um lamento, sou euzinha da Silva, perdão, de Vasconcellos, acompanhada por aquele senhor dourado que entregam todos os anos no Dolby Theatre.

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Pra te fazer feliz

Eu não quero estar aqui a levantar falsos testemunhos, mas há gente que leva uma vida dupla. Acontece a quase qualquer um. Não se espera é que amigos nossos nos escondam atrás de um uma cortina, não digo de ferro, mas de vinil, talentos e prodígios que deviam partilhar connosco. Descobri agora que o Pedro Norton anda, com novo penteado, e fingindo que encolheu para caber, escondido, atrás de um violão, a dar show no Brasil, cantando a solo.

Ei-lo:

Pode não parecer, mas Pedro Norton só há um, o do Escrever é Triste e mais nenhum. Já nos podias ter contado, Norton!

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A dividir por um

 

 

A vida a dividir por um só é exaltante no Dictionnaire des Symboles, de Chevalier e Gheerbrant – há livros sobre os quais sabemos tudo desde o dia em que os vimos pela primeira vez. Foi em 1986. Na Buchholz. Capa muito mole. Agora que penso nisto, vejo: talvez esse seja o Princípio do Mal desta vida a dividir por um, ser um UM, já que as páginas são o portal para… nem sei, talvez para esse outro mundo ao lado do qual, este, que é tudo quanto temos, empalidece. Enfim, em algum ponto dei cabo disto, virei à esquerda e pus-me a ler onde dizia sentido obrigatório à direita para viver de facto, não alfabeticamente. Agora, olha, é tarde – lixe-se, é escrever e ter a contabilidade em dia.

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Bob cut

Atormentam-me as injustiças. Sobretudo se lhes dou involuntário acolhimento, uma vez que comprovadamente sou pura bondade, mesmo mais do que os corações de compota que são o Henrique Monteiro e o Pedro Norton, meus companheiros do blogue Escrever é Triste, se me desculpam a private joke. Para injustiças já bem basta o que eu disse da burguesia no meu orgástico, porém precoce, período anarco-maoista dos 20 anos e que, 40 anos de gabinetes calafetados, uns cargos assim-assim e um Audi de caixa automática, ainda não conseguiram redimir e apagar.

Enfim, a vida arma a todos as mais ínvias armadilhas, mas ter eu proclamado que o penteado à Lulu é obra e graça de Louise Brooks, quando afinal foi Colleen Moore que no cinema o inventou e lhe deu fama, pôs-me num magoado estado de espírito dostoievskiano.

A famosa franja desenhou uma nítida linha de horizonte sobre mil e uma lindas testas de mulheres, horizonte que era mais do que escolha cosmética e já lá vou. A esse penteado de franja geométrica, cabelos cortados direitos onde a cabeça acaba e o pescoço começa, a língua inglesa chamou-lhe bob cut, a francesa coupe au carré, a italiana caschetto ou acconciatura, a portuguesa um corte à Beatriz Costa, o que muito facilita a compreensão até a um habitante da Tasmânia.

Ora o problema não é linguístico, é só de reposição da verdade histórica. Colleen Moore foi actriz porque o pai fundador do cinema, D.W. Griffith, devia um favor ao tio dela. O tio facilitara, digamos assim, a passagem do controverso “Birth of a Nation” na censura. Griffith pagou: pôs a miúda a fazer perninhas nos filmes de Tom Mix. Não foram as pernas, mas sim a cabeça de Colleen a levá-la ao esplendor e luz perpétua. Para ser a protagonista de “Flaming Youth”, Collen fez um bob cut. A famosa franja era, naqueles anos 20, uma afirmação de desdém pela mortal chatice das convenções sociais. Usavam-na as rebeldes flappers, com muito rouge na cara, vestidos de terna é a noite e decotes de “é este o lado do paraíso”. Cheira a Scott Fitzgerald? Cheira, pois. Foi ele que conferiu dignidade literária a essa esfuziante abertura ao pecado: “Fui a faísca que acendeu esta juventude em chamas. Colleen foi a tocha. Que coisinhas pequenas nós somos para ter provocado tamanho turbilhão.” Ou não fossem, Fitzgerald, as coisinhas pequenas o sal da terra!

Publicado no Expresso, sábado, dia 2 de Setembro

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Não me posso queixar

1

— Não me posso queixar — disse o morto. — E tu como estás?
— Estou óptimo — respondeu o amigo.
Seguiu-se um silêncio do tamanho de um pequeno embaraço, mas o olhar educadamente convidativo do morto e um “Pois, já ouvi dizer” incentivaram o amigo a continuar dando conta das graças que destino sobre ele derramava com a mesma inevitabilidade e ritmo com que sucedem marés e estações do ano. Se era mesmo assim, se estava mesmo óptimo, saber-se-ia mais tarde quando alguém ciciasse ao ouvido do morto o que já todos desconfiavam: que afinal as coisas não iam assim tão bem. Disso sabia o morto que já tinha trocado muito retórico cumprimento ao longo da vida. Sentia-o pelo modo como o seu amigo narrava uma linear e inverosímil sucessão de eventos que se haviam conjugado para lhe entregar tudo o que ele tinha sonhado e que era, precisamente, tudo o que todos esperavam dele.
O morto também mentia. Mentia quando dizia que não se podia queixar. É claro que se podia queixar. Talvez até o devesse fazer. Mas não se queixou. Muito menos o faria diante de quem estava óptimo. Não ia estragar uma história de belas coincidências e de encontros felizes, de portas que se abriam magicamente revelando escadarias que conduziam a claustros de vistas desafogadas sobre jardins com patos, onde confortáveis poltronas aguardavam a amena e educada cavaqueira que era, afinal, o trabalho do amigo. É pecado, senão mortal pelo menos social, estragar uma boa balela. E queixar-se de quê? De ter os brinquedos todos? De ter boa saudade e aspecto? De ter o dinheiro que precisava? De ser dono do seu tempo e de si próprio? Do talento que Deus lhe tinha entregue e que os outros, generosamente, lhe reconheciam? O morto não tinha do que se queixar. Queixar-se da procrastinação? Das doenças do amor? Da concupiscência? Não eram assuntos que dessem boa conversa. Dariam livros, se houvesse paciência para os escrever bem, ou filmes, ou séries dramáticas, se se acrescentasse um twist malévolo, ou, mais provavelmente, comédias; mas conversas entre amigos de copo na mão, não. A queixa, em certos círculos, mais do que uma maçada, é falta de educação. A malta aguenta, faz boa cara e toma comprimidos. Por alguma razão se inventou a psicoterapia, todo um serviço dedicado à queixa e pago à hora; pois só recebendo, alguém se dispõe a ouvir lamúrias e estados de alma sem solução.
“Como vão as coisas?”, “Não me posso queixar”.

Nessa noite, terminado o serão em casa dos amigos, o morto deambulou sozinho pela velha cidade com o peito prenho de queixas mudas. Durante um bom par de horas percorreu ruas e vielas sem rumo, debatendo, obsessiva e infrutiferamente, pensamentos enredados num emaranhado de paradoxos e incoerências, como um cardume de peixes se debate nas redes, e quanto mais os debatia mais os pensamentos se enredavam e não iam a lado nenhum.
— Ó chefe, não me arranja uma moedinha para comer qualquer coisa?
Nos degraus tortos de uma escadinha que escorria por entre prédios velhos, um vagabundo barbudo e magro, de cara tisnada da rua e roupas comidas pelo sol e pelo sujo, estendia-lhe a mão. Um daqueles homens que teria, com toda a certeza, razões de queixa.
— É mesmo para comer? — perguntou o morto.
O vagabundo olhou-o. Não de olhos caídos e suplicantes, como é do protocolo da mendigagem, mas com um olhar penetrante dirigido aos olhos do morto e até para além deles, como que a tentar perceber o homem que o morto era.
— Na verdade é para beber — disse o vagabundo. — Mas se eu disser que é para beber ninguém me dá nada.
O morto puxou da carteira.
— Dou-lhe cinquenta euros se me ouvir queixar durante uma hora.
— Ó homem. Sente-se e comece.
O morto sentou-se nas escadinhas. O vagabundo tirou uma garrafa de vinho de dentro do casaco e ofereceu-lhe um trago.
— Não obrigado — declinou o morto. — Começo por onde?
— Sei lá, por onde lhe der jeito. O amigo tem dores?
— Tenho.
— Onde?
— Cá dentro. Daquelas que se sentem cá dentro. Na alma, por assim dizer.
— E das outras?
— Das outras?
— Sim, das que doem mesmo.
— Ultimamente tenho dores na coluna. Uma hérnia, dizem-me, cá em baixo na lombar.
— Queixe-se lá disso então — disse o vagabundo enquanto se recostava confortável no degrau e levava à boca a garrafa de vinho branco sem rótulo. O morto queixou-se da hérnia.
Não era coisa que o incomodasse todos os dias. Era mais nas semanas em que jogava ténis, talvez por o fazer em pavimento duro e rápido. Apesar de usar calçado apropriado, a mecânica da corrida, as súbitas mudanças de direcção e o peso dos anos, porque outro peso não tinha a mais, eram capazes de ser a causa das dores. É claro que também o facto de passar muitas horas sentado a ler, não obstante o fizesse numa cadeira desenhada com esmero por artistas italianos, pudesse ser apontado como estando na origem da deformação e da maldita hérnia.
As dores, quando as tinha, apanhavam-lhe toda a perna direita, e a inflamação, pois era de uma inflamação que se tratava, alastrava ao nervo ciático provocando-lhe um andar incómodo, doloroso e bamboleante que o tornava amargo, irritadiço e incapaz de trabalhar. Chegavam a ser tão incomodativas, as dores, que ia ao ponto de esquecer as outras, as verdadeiras, as da alma que eram a sua principal preocupação e, de certo modo, a sua ocupação. Depois queixou-se mais, descrevendo com pormenor as noites passadas em branco:
Quando se voltava na sua metade da cama, adjacente à metade permanentemente vazia como o seu coração, o simples rodar do corpo para mudar de posição desencadeava uma pontada aguda, brilhante como aço e muito dolorosa. Numa escala de zero a dez, daria um convicto oito ao padecimento. Era como se alguém lhe espetasse um agulhão na lombar. Como se um espectro maligno, que imaginava com aparência humana, mas textura e viscosidade de batráquio, lhe surgisse no sono e o penetrasse com um estilete acerado pelo buraquinho entre a L4/L5 provocando uma dor infinita na intensidade e esvaziando-o de toda a energia. A única solução era a insónia forçada. Não que não tivesse vontade de dormir, mas nessas noites de terror lutava contra o sono com receio de mexer-se involuntariamente e provocar o reaparecimento da criatura de estilete em punho pronta a penetrá-lo pelas costas, dolorosamente.
— Foda-se! — exclamou o vagabundo, emborcando mais um golo do vinho branco rasca. — E eu julgava que tinha problemas.
O morto continuou:
Só graças à cortisona, que tomava moderadamente, embora sem prescrição médica porque era amigo da senhora da farmácia, lhe era possível voltar a concentrar-se nas nobres e substantivas dores que eram fruto do desamor e da prostração; as dores imprescindíveis à sua tristeza. Só a cortisona lhe permitia esquecer a hérnia para se concentrar no entendimento das causas remotas das suas queixas mais poéticas. Causas que jaziam enterradas, estava convencido, em memórias infantis. Uma convicção antiga aprendida em tempos de modas mais freudianas. Sem o potente anti-inflamatório esteroide, seria impossível sofrer as dores estupendas, as que não doem, mas moem e dão sentido à tristeza.
— Abençoada cortisona — disse o vagabundo levantando a garrafa em homenagem ao fármaco.
Com verve e minúcia, o morto passou uma hora à volta da inflamação na coluna, descrevendo o padecimento com o auxílio de símiles, metáforas e vívidas alegorias cujos protagonistas eram quase sempre súcubos de estilete em punho.
— Súcubos?! — perguntou o vagabundo enquanto esvaziava a garrafa.
— Sim súcubos.
— Não deviam ser antes íncubos? Afinal é você o penetrado.
Que não. Que embora fosse ele o passivo sujeito da dor, os espectros malignos que o visitavam e o penetravam pelo buraquinho na L4/L5 sugando-lhe toda a energia habitavam corpos de mulher. Eram súcubos, os seres que se deleitavam a escarafunchar-lhe a hérnia. Embora, segundo a opinião de alguns especialistas, a hérnia não chegasse a ser uma verdadeira hérnia (com derramamento do líquido do núcleo pulposo) mas tão só uma protusão discal. Ainda assim muito incomodativa e fonte de amargo sofrimento.
— A nossa hora acabou — disse o vagabundo estendendo a mão para receber o estipêndio.
A sessão passara rápida. As queixas que enchiam o peito do morto estavam à porta e atropelavam-se para sair, mas a hora acabara.
— Acha que podíamos fazer isto mais vezes? Talvez uma vez por mês? — perguntou o morto. — Sinto-me um pouco mais aliviado, curiosamente, mas sinto também que ficou muito por queixar.
— Uma vez por mês? — ponderou o vagabundo olhando a garrafa vazia. — Se calhar agora, no início, não era pior se nos encontrássemos uma vez por semana. O que me diz, dá-lhe jeito?
— Pode ser — disse o morto. — Na próxima terça-feira aqui nas escadinhas à mesma hora?
— Combinado.

 

(continua)

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Tempos Modernos

Clutch, the name is Clutch not Clotch

Bolsa de mão, geralmente pequena: com ou sem alça.

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O actor onomatopaico

Rabo todos temos, mas a cauda que o distingue de qualquer um de nós é um privilégio de Christopher Walken. E, não obstante, se forem a atravessar a rua e ele vier do outro lado, mesmo que Walken venha a dar à cauda, não se iludam. Se ele dá à cauda, o melhor é mesmo não se lhe meterem à frente, que a cauda de Chris não é como a que um cão abana, feliz, a pedir mão no pêlo e festinhas.

Corro o risco de vos induzir em erro. Se um dia o apanharem em Matosinhos ou na serra da Agrela (já o apanhei em Tróia), fique claro que Walken gosta que lhe digam “olá”, um “Hi, Chris”, até um “Hi, honey!”, desde que não haja outras efusões ou intimidades. Dirá, seja que dia for, que é o seu aniversário. Gosta que lhe cantem os “Parabéns a Você”.

A cauda inventou-a o cómico Jay Mohr, num filme que fizeram juntos. Jay trouxe o seu cão ao estúdio e Walken ficou estarrecido por Jay lhe ter cortado a cauda. Disse, com vaga angústia, que queria ter uma. Poderia mexê-la e as pessoas fugiriam, percebendo que ele estava zangado. “Mas dar à cauda é pedir festinhas”, corrigiu-o Jay. “Só se fores tu”, cortou cerce Walken.

Jay ficou a pensar naquilo e, ao fim do dia, veio ter com Walken: “Chris, se te dessem a escolher, querias ter uma cauda ou poder voar?” “Pergunta tola – respondeu –, uma cauda, claro. Para voar meto-me num avião!”

Parece um diálogo bizarro, mas o leitor que sou do velho “Budismo Zen”, de Allan Watts, deita-se a adivinhar que, se Walken não atingiu já o nirvana, anda lá perto. Mesmo nos mais inopinados filmes de terror que fez, consegue dizer com avassaladora seriedade coisas que fariam rir o impassível Buster Keaton. Mas Walken fala e fica com cara de pau – se for preciso, leva o dedo à boca, ou faz com o lábio inferior um trejeito que segura e não deixa rir o lábio superior.

Bum, bão, pof, pof, barabum! Walken é o mais onomatopaico dos actores. Usa a linguagem, aliás, com uma expressiva rarefacção, soltando palavras solitárias. Diz “pinneaple” ou “stranded” e a palavra fica a vibrar na sala ou na rua, como uma cauda que continuasse a agitar-se depois de o cão ter desaparecido. Estava tudo no Nick que foi em “Deer Hunter” e, na cena que precede a roleta russa final, em que, como o realizador Cimino lhe pediu, para choque de De Niro, lhe cospe na cara. A fúria de De Niro é autêntica, o vazio de Walken total.

Se querem ver a cena em que Walken cospe na cara de De Niro vão mesmo ter de ver o filme todo.
Publicado no Expresso, sábado, dia 26 de Agosto
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