poema escondido

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À distância do lugar comum

Costumava cozinhar. Com prazer. Fazia de um tudo, o que comeste? e como é que fizeste? sabia-me bem de ouvido e certo e sabido, era bom. Ou porque via num programa qualquer e vá de ir experimentar. Cozinhava só porque sim – a melhor maneira de fazer o que quer que seja. É como gostar de alguém. Gosta-se porque se gosta. É verdade, a pessoa pode estar carregadinha de virtudes e fica-se contente, claro. Mas a gente gosta porque sim.

Quando vim para esta casa, a placa do fogão disfuncionou. Tive de esperar que chegasse outra. Viessem montar. E o frigorífico e o diabo a quatro em latas de conserva até me fartar e descobrir que nunca me fartava do que sempre gostei: salmão fumado e biqueirões em vinagre, obrigada tio Domínguez, uma sopa e um sumo de laranja no café, uma saladinha na Gulbenkian, de vez em quando, para desopilar entre o verde e os patos, e amêndoas, nozes… Voltei a beber leite. Vigor. Com a raríssima excepção de um bife grelhado, não cozinho. Até parece que estou a ouvir em maiúsculas dentro da minha cabeça: NÃO COZINHO. Um reclame luminoso. Pior. Nem vontade tenho de cozinhar. Nada. Nicles batatóides. Frigorífico imaculado. Placa novíssima. Até o meu rico café de cafeteira deixei de fazer.

As pessoas mudam. Não tanto que não as reconheçamos, nos reconheçamos. E talvez sejam fases. Levei anos sem fim sem saber sequer estrelar um ovo… Comecei a cozinhar tardíssimo. Mas nem é isto. É a distância. As referências, mais que a placa do fogão, disfuncionaram. Lembro-me de ser miúda e amar perdidamente um autor, ler tudo, reler, e depois, um dia, caneco, olha as dobradiças do texto de fora, e pronto, acabou-se, não há nada a fazer.

Hoje tive uma visão extraordinária. Estava  quase a chegar à Gulbenkian quando, na estrada, uma ligeiríssima descida, de pé na bicicleta a aproveitar o embalo, composto mas muito informal, de blazer azul escuro e um perfeitíssimo panamá de toquilla, um tipo dos seus sessenta e muitos ou mesmo setenta, desliza diante de mim a gozar o dia. Aposto, mas aposto, que rapaz fazia igual sem saber que gozava – isto, meus senhores, é William Blake em carne e osso, inocência e experiência. Estou à distância do meu lugar comum. As dobradiças da vida estão pelo lado de fora. E há coisas, uma pessoa sente, primeiro é isto, nunca voltarão, depois aquilo, nunca voltaremos: é como se tivéssemos partido mar fora, de navio, e da amurada nos despedíssemos de nós no cais. Agora, o segundo acto.

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Ano da Farsa de 2017. Impressões

20 horas
Será um actor? Será um figurante? Será um jornalista? Não. É a noticia propriamente dita.
— Estamos aqui no meio do fogo com dificuldade em respirar. Há pouco estávamos ali no meio do fogo e disseram-nos para sair porque já era difícil respirar. Agora dizem-nos para sair porque estamos aqui no meio do fogo e já não é fácil respirar.
Há anos que se fazem autopromoções dos serviços noticiosos mostrando estoicos jornalistas caminhando pelas ruas no meio das pessoas concretas, às vezes de capacetes e coletes anti-bala, determinados, afirmando procurar a verdade indo ao fim do mundo. Jornalistas heróis do acontecimento, exibindo coragem, exibindo acção, exibindo-se.
E o que retiro do que vejo, oiço e leio?
Muito pouco. Muito conteúdo, mas pouca informação: pouco número relevante, pouco facto, pouca ou nenhuma distância, muita opinião mas pouca, muito pouca lógica. Hiperbolizo, claro, mas muito pouco.
Ó pressão financeira. Ó dívida impagável. Ó audiências fragmentadas. Ó rede inclemente. Ó tempo que não voltas pra trás. Que outras soluções terão as redacções senão acompanhar o esbardalhamento do mundo esbardalhando também?

Conteúdos
Passeio junto ao mar. Nas rochas, com o cabo da Roca ao fundo, duas amigas fazem conteúdos uma da outra. Fotografam-se em pose de conteúdo. Irão parar ao Instagram, elas e as fotografias, e serão “gostadas”, com toda a certeza; ou elas ficarão tristes, talvez até deprimidas.
O homem que preside à República abraça velhas chorosas, ele próprio quase choroso — aposto que chorava, se chorasse. Cai um aviãozinho. O homem que preside à República é um dos primeiros voyeurs a chegar ao local, e logo chegam as câmaras fazedoras de conteúdos. Depois faz a barba no barbeiro em frente às mesmas câmaras; mais um conteúdo. O homem que preside à República estás em todos os ecrãs, porque é onde está todo o mundo. Não são afectos, são conteúdos. Sou um conteúdo, logo existo.

Caça aos bruxos
O Trump é apanhado a dizer que agarra gajas pela cona e é eleito. Um juiz cita a bíblia e códigos fora de validade, passando a culpa do criminoso para a mulher que foi vítima, e continua a julgar. As instituições democráticas e os protocolos que as sustentam protegem trogloditas. Não admira que a turba procure justiça alternativa na praça pública.
O método, que não comporta garantias, porque o ruído não deixa ouvir e a cegueira não deixa ver, é o mesmo de séculos passados, actualizado apenas com uma hashtag.
É verdade, não é verdade? Pouco importa: nome é aventado, é culpado; é gajo, é bruxo; é bruxo, é para queimar.
De novo a “revolução cultural”. Desta vez o conflito não é etário, é entre géneros; a praça pública não é na rua, é o ecrã; e a delação é feita com os polegares, em vez de dedo em riste, como me lembro de ver em cartazes chineses. Mas continua a ser delação e acusação indefensável perante a turba.

Estúpido
Os meus poços e furos secaram. A falta de água é uma tragédia que quem vive na cidade ainda não entende. Entenderá, tarde demais.
Hoje está bom tempo, dizem da cabine da rádio pela manhã. O céu está azul, o mundo soalheiro, ninguém molha os pezinhos.
Não, não está bom tempo, estúpido. Está tempo de morte. O gado não tem comida, as hortas definham, as castanhas são pequenas, os pinhões poucos, as árvores não dão fruto. A terra endurece e não se deixa fender. E tudo arde, e morrem pessoas. O cinzento, a cor da água no céu, é cor rara e de pouca dura.
Não, não está bom tempo, estúpido. E não, a culpa não é do governo. Nem é da direita, nem da esquerda. Não chove, o clima está a mudar, o mundo está a mudar. A espécie, na sua expansão, consome a casa onde vive.

Abelhas
Este ano a vespa asiática fez a sua aparição fulgurante nos campos. O resultado é um genocídio de abelhas e, com ele, um trágico distúrbio de todo o sistema.
As abelhas, em zonas onde a vespa asiática progride, deixaram de sair para o trabalho e optaram pelo suicídio colectivo. Deixam-se ficar nas colmeias, não saem, não trabalham, deixam-se morrer nos seus próprios termos, a serem mortas por vespas assassinas. O drama, para as plantas e para os animais que delas se alimentam, é a polinização não acontecer: resulta menos cereal, menos fruta, menos mel, menos azeitonas.
O apicultor, perante a recusa das abelhas, e face ao iminente suicídio colectivo, resolveu alimentá-las, ele próprio, nas colmeias: para que não morram, para que, ainda assim, façam mel.
Enquanto isso, um pouco mais a sul, grandes camiões espanhóis transportam contentores cheios de abelhas que largam nos olivais de cultivo intensivo, para que elas os polinizem. E os abelharucos coloridos, que por cá fazem a Primavera e o Verão, largam eufóricos dos fios suspensos para um festim, parecendo dar graças aos espanhóis que trouxeram as abelhas. Mas os espanhóis sacam das caçadeiras e abatem-nos, para as poupar.
O apicultor, que alimenta as abelhas suicidas, sabe que o mundo está pior.
A fé na ciência e no progresso imparável, a fé de que a geração seguinte sabe mais, a fé de que os que virão encontrarão solução, a fé de que isto vai melhorar sempre é apenas fé: religião, alienação, dogma milenar.

Vozes
No início de 2017 encontrei-me com Günther Mole (talvez o maior artista contemporâneo sem obra visível) na esperança de trazer comigo um pouco do seu pensamento impossuível.
Fiz-lhe perguntas. Ele parabolizou:
Falou-me de um sítio quentinho de quentinhos costumes onde os habitantes se aquecem com uma grossa manta de padrões repetidos que urdem com zelo secular.
O sítio, coberto pela manta que se move docemente como uma seara se move ao vento não indo a lado nenhum, estende-se por uma planície de quilómetros quadrados; e o movimento é criado pelos habitantes que, aninhados no quentinho sob o céu cobertor, se afadigam na quotidiana tarefa de acrescentar mais e mais metros à manta.
Uns urdem, outros tecem, outros reparam pedaços de manta puídos pelo tempo e por onde entra o azul do outro céu. Outros copiam os padrões para os ensinar aos que chegam ao quentinho da manta. Outros supervisionam o trabalho dos que tecem e outros, ainda, diligentes, corrigem os erros que acontecem: qualquer desvio ao padrão, qualquer ponto mal dado é de imediato corrigido por inspectores do padrão da manta. Mas são raros, os erros. E é raro haver quem neles insista. Há histórias de quem, por erros repetidos ou teimosia em urdir diferentes padrões, tenha sido convidado a abandonar o quentinho da manta e largado ao frio, sob o luminoso céu azul.
Mas são histórias contadas às criancinhas que nascem quentinhas debaixo da manta, criancinhas que cedo aprendem a geometria e os padrões do céu que vêem para que, chegada a sua vez, os urdam também.
“Estar ou não estar quentinho” conclui Günther Mole. Ou ouvi-o concluir, pouco importa.

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Aos amigos

Aos amigos 1

Aos amigos 2

Aos amigos 3

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a troco de uma moeda

para além do sol, da luz

rodo para Norte.

                      ela vivia lá.

não te vás embora.

 

Arbor-tristis

de noite, no escuro,na floresta

eclodirá a flor.

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quando as palavras não chegam

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Água para a flor

ÁGUA PARA A FLOR
O rei Samuel chorava e chorava a traição de Saul:
que engano… engano como se fora escolhido?
Samuel, apesar de rei, não sabia que a liberdade
subordina a decisão.
Deus, todo Verbo, só queria avançar, e de ver Samuel parado
no desgosto do tempo já ido,
a dar de comer à dor, há-de ter-se fartado.
Quem rega ervas daninhas quando as flores morrem de sede?
E, porque era Deus, mandou-o.
Samuel, porque era rei, obedeceu.
E foi à Casa de Jessé, dar água à flor,
as mãos em concha, elegê-la.
Foi à Casa de Jessé onde, desconhecido de si mesmo,
morava o rei dos reis,
o ungido.
Dele seria o que Saul quisera perder.
Mas Samuel antes de ser rei era um homem.
E um homem escolhe com os olhos porque só vê
o que está diante dos olhos.
Pensou Samuel que o amado de Deus era Eliabe. Alto. Forte.
Eliabe não era. E Deus explicou.
Pensa com o coração. Ama com a cabeça.
Vê como uma mulher vê.
Então, de nada serviu a Jessé desfilar Abinadabe,
depois Samá, e cada um dos seus sete filhos,
pois Samuel via como tu e eu e Deus.
E quando não havia mais filhos para apresentar,
inquiriu. E finalmente trouxeram-lhe David,
que andava nos montes a apascentar cabras, David,
onde a linhagem de Cristo se abre.
A vida não é diferente disto:
a água é para a flor.
Não se pode perder o futuro a chorar o passado –
crescem ervas daninhas ao sal das lágrimas.
É preciso que Saul parta para entregar o trono a David.
É preciso saber que Eliabe não é David.
E só no pequeno há espaço
para o infinito habitar.

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Um branco par de cuecas

“O realismo existe. É uma coisa.” É o que Harry Dean Stanton assevera – que é mais do que dizer – em “Lucky”, o mais belo filme do ano, garantem os meus olhos, coração e alma, se o velho Harry Dean não me convencesse de que a alma, ao contrário do realismo, não é uma coisa, logo não existe. Qual escola de Frankfurt, qual caneco, se posso também eu asseverar, este filme existe e é uma coisa.

Se esperam filosofia, não se prendam, que só vou falar de velhice e da linha de horizonte. Lembram-se do paleio de escola primária sobre conteúdo e forma? Conteúdo e forma fundem-se como um centauro em “Lucky”. O filme é essa coisa, com corpo cavalar e pernas de velhice montadas pela periclitante humanidade de um velho de 90 anos a roçar-se na imortalidade. A velhice de “Lucky” está em tudo, na paisagem do deserto, na indecifrável imobilidade dos cactos, no silêncio das ruas da vilória sem nome, fundada no mesmo ano em que Platão fundou a sua caverna: passam por esta vila do Arizona as mesmas fugazes e iluminadas sombras desse grego inaugural que foi, como sabem, o inventor do cinema.

Numa cena vemos um branco par de cuecas e alva camisola interior a regar, de mangueira na mão, um jardim. O escanzelado corpo que sustenta cuecas, camisola interior e mangueira é o corpo da velhice. Chapéus e botas, parece um corpo agreste, que hesita entre estar zangado consigo mesmo ou zangado com os outros. Mas à medida que deambula pelas cavernas da vila – a casa de Platão, perdão, de Harry “Lucky” Dean, um café-restaurante bom para fazer palavras-cruzadas, uma vaga mercearia mexicana, um nocturno barzeco onde não se pode fumar –, o que vemos é uma velhice socrática, que interroga e se interroga, com a serenidade e aceitação a que a realidade dos cenários empresta mais graça do que densidade. Assim Platão o queira, hei-de morrer a achar mais graça à graça do que à densidade.

“Lucky” é um filme de alegorias. Uma sobre uma tartaruga; a outra sobre o mais belo dos sorrisos. Tartaruga e sorriso – e é outro centauro – fundem-se no final de um filme em que a linha de horizonte me fez pensar em John Ford, num Ford que o realizador de “Lucky” tivesse ido buscar à imensa nostalgia de um certo filme de Peter Bogdanovich. Tudo velho, velho como o cinema, essa coisa que existe e é linda.

Publicado no Expresso a 8 de Dezembro de 2017

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She Walks in Beauty

Fizemos ontem seis anos. Seis anos de Escrever é Triste. Nas ausências, na menor frequência, pode alguém julgar ouvir um requiem?

Eu acredito que «she walks in beauty». E que Escrever é Triste, nesta sua actual fase de recolhimento e paz, continua a ter esse mesmo coração «whose love is innocent».

 

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A Revolução de Outubro e a superioridade moral

A GQ escolheu a Revolução de Outubro como um dos seus temas do último número. A jornalista Marta Talhão fala de dois livros, o meu e outro, “A Revolução Russa, Cem Anos Depois“, de vários autores, entre os quais Francisco Louçã. E entrevistou-me a mim e a Louçã. É um trabalho bem feito, no conteúdo e na forma, de bem paginado que está. E que belo título a Marta Talhão escolheu para o seu trabalho: Paz, Pão e Terra. Deixo-vos a minha entrevista. Para a compararem com a de Francisco Louçã vão ter de comprar a revista. Garanto-vos que são bem diferentes.

Na sinopse do livro, diz que este é um livro de factos. Considera que são muitos os factos desse tempo hoje ignorados?

Os factos foram, durante muitos anos, omitidos, apagados e torpedeados. Mas houve historiadores, como Richard Pipes e Orlando Figes, que obrigaram as narrativas heróicas da revolução a confrontarem-se com os factos. Depois, o fim da União Soviética, a que a glasnost e a perestroika de Gorbachov conduziu, vieram a determinar a abertura dos arquivos do regime comunista. E são os factos que sempre lá estiveram, mas que foram metidos debaixo do tapete da história oficial, que hoje fundamentam a desmistificação das versões em missa cantada da revolução. Os factos mostram que a revolução de Outubro afasta do poder a esquerda, as várias esquerdas, contra as quais o golpe é feito. Os factos mostram que o partido bolchevique, depois partido comunista, era mais do que minoritário e que mesmo pensadores marxistas os consideravam uns alucinados da História.

Cem anos depois, ainda se sentem hoje ecos da Revolução?

A Revolução de Outubro determinou o mapa da Europa. A Europa que somos, com esta tensão tão viva entre a Rússia de Putin e a União Europeia ainda é um eco bastante audível dela. A Revolução de Outubro foi um Brexit avant la lettre. Esse golpe populista pôs a Rússia fora da Europa e influenciou a forma como as tensões políticas se extremaram na Europa o que deu gás (ou ainda mais gás) à emergência do nazismo. Num cenário de “what if”, se a Rússia tivesse evoluído para uma democracia, após a queda do poder autocrático, o que teria acontecido? Teria havido a II Guerra Mundial? Que cenário geo-estratégico teria sido o da segunda metade do século XX, certamente diferente da Guerra Fria e da ameaça de guerra nuclear que assombrou esses 50 anos?

Do seu ponto de vista, foram mais as conquistas ou os efeitos nefastos resultantes da Revolução?

É difícil ver conquistas num processo de terror que durou décadas. Todas as conquistas foram pesadas: a indústria cresceu com trabalho forçado, a unidade territorial e a expansão da Rússia com a criação dos países satélites do Leste são o resultado de uma repressão desmedida, com milhões de mortos e com a suspensão dos direitos humanos. Todas as conquistas do proletariado que o Manifesto Comunista de Marx e Engels entusiasticamente advogava foram conseguidas e adquiridas pelos proletariados dos países democráticos sem o sofrimento hediondo e repugnante que os totalitarismos sempre provocam, e que o totalitarismo soviético provocou a uma escalas assustadora.

De que forma acha que o estudo mais aprofundado desta temática nos pode ajudar a definir melhor os caminhos a seguir enquanto sociedade em pleno século XXI?

Reflectir sobre estes pontos é essencial. Leva-nos a recusar os populismos de direita e de esquerda. E obriga sobretudo a esquerda a pensar que não tem nenhuma superioridade moral.

Ainda resta algo dos ideais e da esperança inicial da Revolução?

Tenho a certeza de que muitos dos revolucionários bolcheviques tinham uma vontade real de mudar o mundo e que a isso os impelia sobretudo o profundo desgosto e a revolta que as injustiças do czarismo causavam. Esse ideal é humaníssimo e não vejo nenhuma razão para abdicarmos dele. Mas é forçoso hoje pensarmos que a mudança pela mudança é um caminho para a catástrofe. Não há mudança sem a consciência da tradição. Não há mudança que não tenha de ser alicerçada numa História e num saber que é pertença da humanidade. A mudança que rasga todas as tradições, que se arroga a autoridade de destruir de forma maniqueísta outras classes e grupos humanos, étnicos ou religiosos, não é mudança é puro prazer de destruição.

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pavilhão 101km

Chama-se Alexander Brodsky.É russo.

E um dos arquitetos vivos mais conhecido.

Discípulo da arquitetura visionária, foi um dos pilares do grupo “arquitetos de papel”.

 

Convidado pelo centro cultural Puskin House , a manifestar-se sobre o acontecimento do centenário da revolução russa, evento quase silencioso, pegou no papel e desenhou…

Ali está, frente ao centro cultural nos jardins de London Bloomsbury Square, a sua triste e sombria cabana/vagão, cor de carvão.

Pequeno pavilhão, sem portas nem janelas, estrutura de metal, paredes e teto de feltro negro.

Frágil, muito frágil.

Entra-se deslizando, escorregando por debaixo das paredes. Cabana sem chão.

No interior, suspensos nas paredes, molhos de poemas impressos, folhas de papel.

Vibram ao som do vento, misturando o seu som com o das folhas que caem das árvores.

De longe, do remoto e obscuro longe, murmuram, chegam, debaixo das paredes, de dentro das pedras, as palavras dos poetas Mandelstam, Tsvetaeva, Shamalov, todos deportados, emigrantes interiores.

 

 

                                   Esperança abandonada                           O ruido do tempo,

…Como é a tua vida como turista na terra,

                                        …Perdidos nas noites estreladas, no jardim,

             …Os corpos devolvidos á pedra, não à terra,

pedra que guarda e revela os segredos,

                                                                                   …Capela de estrelas,

                                                                                                                          chão polido pelas lágrimas

 

 

Nos topos da cabana /vagão, vídeos projectão imagens de trilhos de comboios

que levam para longe , para um apavorante longe.

 

Alexander Brodsky batizou este espaço de Pavilhão 101km , Further Everywhere.

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Ombro a ombro vão

 OMBRO A OMBRO VÃO

O meu avô deseducava-me com primor e, socialista para a infância,
dizia em tu cá tu lá, anda, vamos ao cinema.
Eu gostava de ir. Havia outro mundo por trás da cortina, plasmado no ecrã.
Outro mundo. Era a preto e branco o mundo adulto,
de tanta vida ali mesmo entre o bem e o mal,
ficava tudo cinza fronteira assim-assim em pasmoso preto e branco.
E enrolado em fumo, paixões, honra e seu contraditório,
ou o orgulho e a humilhação: o preto e branco da vida na zona cinza fronteira
presta-se ao desfile dos pares antitéticos:
o ódio enfia as unhas do desprezo
no músculo mais tenro onde o amor suspira ainda.
Não recordo o título. Nem a trama. Penso que seria a Dietrich pois tínhamos
visto o Anjo Azul antes e as coisas aconteciam por ciclos, como aliás
sempre acontecem – o problema é quando não percebemos o padrão…
Tenho ideia de que, prostitutas, ou talvez não, rondavam acampamentos de militares.
Da Legião Estrangeira? E seguiam-nos.
E uma mulher, que não era puta nem de seguir quem quer que fosse, por amor,
acaba, ao fim do filme, no deserto, seria? o sol de frente, a seguir, também ela,
o homem da Legião por quem se apaixonara. Era cantora de cabaret. Era isso!
Não sei o que pensei. Só o que senti. Nem sabia o nome desse sentimento:
vergonha alheia.
E tristeza… Não sabia que aquilo existia, aquilo de alguém ir pelo deserto,
a arrastar uma mala, e a alma, pois escreve-se com as mesmas letras,
pela anagramática lama em que se tornou. Uma mulher livre. Uma escrava, afinal.
Os pares também vêm por dentro: a minha avó deseducou-me com esmero:
anti-clerical, enfiou-me num colégio católico até à pontinha dos hábitos negros,
corvos litero-bíblicos, obrigada por São Pedro que falava do eu e do outro eu,
daquele que tinha de morrer mil vezes por dia para que o outro eu tivesse vida.
Ai da besta sem trela…
Depois de se saber, não se pode não saber.
Este é o presente da maçã serpentina.

Não sou São Pedro. Mas fui ao cinema. Se tens ouvidos, ouve:
fecha a boca à tua fome ou ela devora-te!

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A beleza interior

Publiquei este post noutro blog, o Livro, Labirinto e Letras. Lá só escrevo praticamente sobre os livros da Guerra e Paz editores, que é minha e que oito esforçados e talentosos trabalhadores tudo fazem para tornar melhor. Se republico o post é só para ter o prazer e ver a escrita de Jorge de Sena e a pintura de Mariana Viana aqui estampados, uns dias antes deste Escrever é triste fazer 6 anos.

A beleza interior

Já dissemos, desta edição de O Físico Prodigioso, tudo o que sobre as soluções tipográficas se pode dizer. Mas, por mais espectaculares e inovadoras que sejam essas soluções, a força deste livro vem do excepcional valor da escrita de Jorge de Sena e da pintura de Mariana Viana, que com esse texto dialoga.

Mais do que mil qualificativos sobre este livro erótico, que tanto antecipa as discussões de género que atravessam o mundo contemporâneo, convido-vos a ler três excertos e a olhar para três das magníficas ilustrações de Mariana Viana. Silêncio, que escreve Jorge de Sena:

«Não havia, nem ao longe, sinal de gente. Ficou então completamente nu. Mas, quando ia para entrar na água, e já os pés lhe estavam dentro dela, ouviu de leve um riso casquinado que, quase desde o berço, lhe era familiar. E, arqueando as sobrancelhas numa expressão de tédio, recuou para a fina erva, e alongou-se no chão languidamente. Com paciência, num abandono indiferente, com a cabeça pousada nos braços, deixou que o Diabo se desesperasse invisível sobre o seu corpo. Carícias prolongadas que leves lhe corriam pela pele, beijos sussurrados que o mordiam pelo corpo adiante, mãos que se obstinavam no seu sexo, durezas que se encostavam nele tentando penetrá-lo… — era o costume, desde que primeiro se soubera homem e se despia todo, e se estivesse só. Sofria aquilo como um vexame inapelável que o não excitava, e nem sequer lhe dava horror ou repugnância. E que, até certo ponto, o divertia de algum orgulho por paixão tão teimosa e tão ridícula, a que não encontrava em si mesmo, por mais que se observasse, a mínima correspondência que a justificaria.»

«Nua sobre o lençol branco, Dona Urraca não se moveu nem abriu os olhos. A sua pele tinha uma cor marfinada, que se destacava na brancura e ao mesmo tempo parecia alastrar-se nela. O pescoço era longo, e magro como os ombros. Mas da cava peitoral das clavículas os seios avançavam fortes, ainda que descaídos, em curva e contracurva, que mamilos crespos, largos e escuros, coroavam. Depois, a cinta era estreita, e as ancas, ossudas e largas, espetavam levemente as pontas de seus ossos, de que a barriga fluía redondamente como que precipitando-se no umbigo que parecia aquele buraquinho a meio de uma água que se esgota. E, numa onda que se encurvava, o ventre descia para uma altura cuja outra encosta um negro matagal cobria, sumindo-se no fino vale das coxas unidas. Os braços vinham magros até ali, terminados por longos dedos de compridas unhas. As coxas, então, afunilavam-se para os joelhos aguçados, e as canelas eram magras, com a barriga pousada ao lado. Mas os tornozelos eram de todo frágeis, e só os pés se alteavam tensos, os dedos entreabertos e recurvos.»

 «Retendo a respiração, encostou-se à parede e esperou. Agora, ela vinha vindo, como se esperasse que ele estivesse pendurado qual tapeçaria. A mão dela encontrou-lhe o ombro, que apalpou cravando-lhe as unhas. E logo o outro braço lhe rodeou a cabeça, puxando-lha para os lábios entreabertos que gorgolejavam saliva. Toda ela se lhe colou violentamente, esfregando-se contra ele. E, sentindo-se sorvido por beijos calcados e intermitentes, ouviu que ela lhe dizia rouca:
— Assim, assim, quero-te assim invisível. Vem.
E ele, cujo corpo era todo uma tensão que estourava, segurando o gorro para que lhe não caísse, deixou-se despir por aquelas mãos que todo o percorriam, sem deixarem recanto que não perscrutassem com dedos interrogativos, para o que ela se abaixava e levantava em volta dele, beijando-o por toda a parte; e, cerrando os olhos, deixou-se ser levado para o leito onde, invisível o corpo mas não o prazer que sentia, perdeu de todo a virgindade.»

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Deambulação maniqueia: o visível e o invisível

Há o visível e há o invisível. Temo que se queixem de algum exagero conceptual nestas crónicas. Ora, eu prefiro ser rude e apontar com o dedo a ser acusado de conluio com qualquer dos falecidos filósofos franceses dos últimos anos. Com um dedo aponto para Greta Garbo, com outro para Marilyn Monroe.

É lendária a invisibilidade de Greta Garbo. Era, se quisermos, uma anti-Marcelo, que nunca lhe roubará, por mais rouco que um dia esteja, a patética réplica: “I want to be alone.” De tão ausente, quando Garbo aparecia, logo um véu zen amansava a sala. Patrões dos estúdios, tipos de vozeirões tonitruantes, mesmo os nossos CEO das telecomunicações ou de empresas do audiovisual converter-se-iam em modelos de delicadeza e sottovoce, se por engano fossem convidados a vê-la.

Até os méritos de Garbo eram invisíveis. Hollywood demorou cinco anos a descobrir que ela falava. E foi preciso um alemão, Ernst Lubitsch, para descobrir que ela ria. Garbo já mostrara a Lubitsch sorrisos tristes, trocistas, alegres, francos, gentis, mesmo sarcásticos. Contara-lhe até, com divertida ternura, que acompanhara o maestro Leopold Stokowski, um dos seus amores, em digressão a Nova Iorque. Ela esforçava-se por passar despercebida. E ele, a fincar a ponta dos pés na fama, também. Só que, e vejamos o doce sorriso de Garbo, a ele ninguém o reconhecia mesmo, o que lhe provocava uma fúria de primeiro-ministro. Lubitsch adorou a ligeireza narrativa de Garbo e queria-a a fazer “Ninotchka”, o filme de três soviéticos que, controlados por uma vigilante camarada, acabam por se corromper em Paris. Mas saberia ela rir?

Pediu para rir no dia seguinte. E assim foi: “Ernst, estou pronta.” Riu. Era um riso de encher de sol uma manhã de Inverno e, já Lenine tinha morrido, Garbo foi a camarada Ninotchka, a comunista que até os comunistas gostariam de amar.

Em Marilyn tudo era visível. Era tanto o esplendor das formas, que punha uma sala aos gritos, fosse a entrar, fosse a sair. Ainda Marilyn tinha um só pé no estrelato e uma actriz da aristocracia hollywoodiana, Constance Bennett, vê-a a sair de uma daquelas festas de champanhe e vaidade. Todos os olhos se pregaram na ondulação das costas de Marilyn. Bennett, ofendida por tão móvel visibilidade, disse: “Esta putinha tem todo o seu futuro atrás dela.”

Publicado no Expresso, dia 1 de Dezembro de 2017

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Espelho Teu, Espelho Meu

ESPELHO TEU, ESPELHO MEU

Um homem não consegue perceber
isto de sapatos e carteiras – nem precisa…
Nem isso nem o espelho da Madrasta da
Branca de Neve onde nos vemos todos os dias
e todos os dias ouvimos dele: claro que há alguém!
Alguém mais belo, mais jovem, mais fresco,
alguém mais risonho, mais feliz e mais amado
por ser mais belo, mais jovem, mais fresco.
Não percebem nem quando dizem de si mesmos:
já não sou quem fui…
Os espelhos deles somos nós, não eles,
e se têm cabelos brancos
são sexy, e se têm rugas é experiência –
a mulher ama melhor.
O nosso espelho, a puta da madrasta, são eles.
Eles que ficam encandeados, e disfarçam
tão bem como um veado na estrada quando lhes passa
um decote ao lado, um bom cu, e nós diante deles, à mesa,
a fingir que não vemos a ponta de um corno, melhor,
a fingir desconhecer o par de cornos porque
também sabemos que somos o decote de alguém.
E compramos sapatos e carteiras. Um homem que amemos
é um cabrão omnipotente – felizmente, isso, também não percebe,
como nem sonha que, se batermos com o salto
e atirarmos com a carteira, a casa vem abaixo e não há
braços de homem que a ponham de pé.

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