Aos órfãos do Escrever é Triste

Pois é, afinal já se podem matar saudades. Para nós, os leitores que não ficamos bem se não lermos uma prosa, um post, um poema da Eugénia de Vasconcellos, há um blog, que é só dela, que nos ajuda a resolver o problema. É o Cabeça de Cão, vivo e latir e uivar desde Junho de 2012. Está lá tudo, posts, sugestões de livros e até as capas dos livros de que é autora ou co-autora.

Fica a promessa: em breve há notícias. Seja para anunciar blogues individuais, seja para dar conta dos avanços do novo projecto colectivo.

 

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O último voo?

Têm este olhar espantado de tinta fresca, como se tivessem ficado assim desde o último toque do pincel.
Puro engano.
Posso garantir que mal se lhes viam os olhos, linhas mínimas, quando voaram comigo na bagagem de uma viagem a Africa.
Dentro deles trinados da Guiné, essa porção pequenina de terra e ilhas encantadas, corações e dentes brancos, mercados e mancarra, mangas e trovoadas tropicais, irans e pássaros doidos.
Para lhes criar ninho numa prateleira tive de desalojar poetas, que agora vivem, desalinhados, quase secretos, no andar de cima. Divertem-se na esplanada, mais à fresca.
De vez em quando titilam copos de vinho ardente, voam palavras como ibis sagrados. Palavras de encher o olho.
E os olhos dos bichos a crescer, num desatino de asas.
E eu a mirar as aladas habitantes desta floresta de vozes. Livros em fila indiana, em caminhada sem fim.
Grandes atletas, os livros. Resistem às suas histórias, sobrevivem apesar das histórias. E das despedidas dentro delas.
Mas Tia Escrever, que fazer com um Adeus, quando o voo não pára?
Quando o voo não nos pára?
Os olhos dos pássaros cada vez maiores. É para te ver melhor, minha Tia?
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Voltaremos

Acaba aqui o Escrever é Triste. Acaba sem choro, ranho ou ranger de dentes. Servimos, Tristes, a eunuca tristeza que Carlos Drummond de Andrade tão bem viu na conjugação do verbo escrever. Escrevemos, fotografámos, pintámos. Fomos aleatórios, contingentes, fortuitos. Sem rei, nem roque, sem mais objectivos do que encontrar nisso um estreitíssimo corredor lúdico. Sete anos servimos, sete anos fomos servidos. Abrimos a porta, há sete anos, só porque era bom abrir. Fechamos agora a porta, sete anos depois, só porque é muito bom fechar.

E também porque somos uns Tristes roídos a pontos de insatisfação. Não nos move a ambição de querer mais, move-nos o inquieto desassossego de querer outra coisa. Queremos a coisa que já temos, deixando de a ter para a voltar a ter. Porque ter a coisa que já temos desfigura a coisa que já temos e queremos voltar a ter a coisa que já temos com a pureza que tinha antes de ser a coisa que já temos. Diletância de baixo-ventre, dir-se-ia.

Despedimo-nos. E ao «muito obrigado» que os 16 Tristes estão a gritar aos leitores que em nós e por nós se roçaram, queremos juntar outro grito: «Voltaremos.» Ainda não podemos dizer como. Em breve, aqui mesmo, e por outras vias, benignas ou iníquas, diremos quando, onde e como. E quem para fazer o quê.

Sabemos que não sabemos o que queremos: nem queremos acabar, nem queremos continuar. Queremos ser e fazer qualquer coisa e queremos a coisa: um sítio que seja o sítio do futuro, que seja o sítio em que caiba, inteira a Tristeza Total, a insatisfação permanente, a mais acrisolada Tradição, uma senhora Libido de rebimba o malho, que faça até o volupiano Baudelaire encostar o cu à parede. Estamos com uma hiperbólica vontade de fazer. E de desfazer. Queremos que se foda o futuro e é, por isso, que queremos e temos futuro.

Até amanhã.

ps – E despeço-me também do Pedro Norton, Teresa, Pedro Bidarra, Pedro Marta Santos, Bernardo, Maria João, Henrique, Vasco, Diogo. O mais certo é, amanhã ou depois, eles virem aqui deixar também o “último post”.

ps 2 – Para efeitos de facebook, e para que o post circule, tive de substituir a foto do Pedro Norton e mudar sub-título. É uma tremenda ironia no último dia, no último segundo, termos caído aos pés do bom comportamento vigente. Ora foda-se.

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Voltaremos

Queremos o que quer esta fotografia de Pedro Norton

Voltaremos: queremos o futuro e queremos que se foda o futuro

Acaba aqui o Escrever é Triste. Acaba sem choro, ranho ou ranger de dentes. Servimos, Tristes, a eunuca tristeza que Carlos Drummond de Andrade tão bem viu na conjugação do verbo escrever. Escrevemos, fotografámos, pintámos. Fomos aleatórios, contingentes, fortuitos. Sem rei, nem roque, sem mais objectivos do que encontrar nisso um estreitíssimo corredor lúdico. Sete anos servimos, sete anos fomos servidos. Abrimos a porta, há sete anos, só porque era bom abrir. Fechamos agora a porta, sete anos depois, só porque é muito bom fechar.

E também porque somos uns Tristes roídos a pontos de insatisfação. Não nos move a ambição de querer mais, move-nos o inquieto desassossego de querer outra coisa. Queremos a coisa que já temos, deixando de a ter para a voltar a ter. Porque ter a coisa que já temos desfigura a coisa que já temos e queremos voltar a ter a coisa que já temos com a pureza que tinha antes de ser a coisa que já temos. Diletância de baixo-ventre, dir-se-ia.

Despedimo-nos. E ao «muito obrigado» que os 16 Tristes estão a gritar aos leitores que em nós e por nós se roçaram, queremos juntar outro grito: «Voltaremos.» Ainda não podemos dizer como. Em breve, aqui mesmo, e por outras vias, benignas ou iníquas, diremos quando, onde e como. E quem para fazer o quê.

Sabemos que não sabemos o que queremos: nem queremos acabar, nem queremos continuar. Queremos ser e fazer qualquer coisa e queremos a coisa: um sítio que seja o sítio do futuro, que seja o sítio em que caiba, inteira a Tristeza Total, a insatisfação permanente, a mais acrisolada Tradição, uma senhora Libido de rebimba o malho, que faça até o volupiano Baudelaire encostar o cu à parede. Estamos com uma hiperbólica vontade de fazer. E de desfazer. Queremos que se foda o futuro e é, por isso, que queremos e temos futuro.

Até amanhã.

ps – E despeço-me também do Pedro Norton, Teresa, Pedro Bidarra, Pedro Marta Santos, Bernardo, Maria João, Henrique, Vasco, Diogo. O mais certo é, amanhã ou depois, eles virem aqui deixar também o “último post”.

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O último dia.

No último dia, nas últimas horas e nos últimos minutos não estava a conseguir fazer o último login para escrever o último post. Tive de criar uma nova password para aceder pela última vez ao Eet.

E assim foi… e assim será.

Com saudade. <3

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As despedidas são Tristes

Foto Telmo Sá

 

O grande salão vai fechar. 

As matines e o quente romântico das luzes que me faziam dançar no tempo e perdê-lo.

Os livros estão agora prontos para receber o pó. 

Os discos encravaram.

A caneta rebentou. Tingi a alma  de azul. 

O relógio ficou-se por ali, sem rugas.

A para sempre Tia, sempre é tanto tempo Tia!!!, é quem tem a chave e em breve fechar-se-á dentro do salão. As portas vão fazer barulho e a tristeza nunca mais será a mesma.

Os primos vão continuar!

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Despedida

Queridos companheiros desta Triste aventura,
Tristes leitores, companheiros também,
muito obrigada – bem sei, é com outra despedida que me despeço…
Agora, fazemos como na canção:
On s’endormira puisque tout sera le grand sommeil.

 

DESPEDIDA

Podes ficar com os Teus exércitos
e suas espadas flamejantes,
arcanjos à frente,
anjos ao centro,
voz do Espírito adiante;
e com os Teus milagres,
protecções, provações, profecias;
e com a inamovível montanha –
a semente de mostarda, devolvo-Ta.
Pelo baptismo, renunciamos ao mal,
pela vida ao bem prometido.
A ti, e eu chamava-te Amor,
lugar onde amanheciam todos os prodígios,
devolvo-te os futuros cancelados
como qualquer outro voo.
Aos meus pares, amados iguais
neste pacto de sangue a preto e branco
a correr pelas páginas:
aprendi, para o bem, o que não vem,
e para o mal, a que renunciei,
sou ímpar, estou só.
Nada mais tenho a devolver
além do corpo de hoje, amanhã pó.
Fecho a porta. Entrego a chave.
Adeus.

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Nada se perde tudo se transforma

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Carta aberta ao Presidente Marcelo

Hoje, à meia-noite, fecha o Escrever é Triste. Mas ainda é tempo para causas, sobretudo se a causa for o prazer de ler.

Recebi, do editor da Guerra e Paz – e que parecido é ele comigo -, esta carta, que não posso deixar de reproduzir.

CARTA ABERTA AO PRESIDENTE MARCELO

A Sua Excelência, o Presidente da República Portuguesa

Excelência,

Dê-nos mais bebés. O país inteiro, Senhor Presidente, pede-lhe mais bebés, e a Guerra & Paz, Editores, por razões egoístas, mas benignas, junta-se ao coro. Dê-nos mais bebés, Presidente Marcelo! Conhecendo e admirando o seu espírito voluntarioso, não lhe pedimos que seja o Presidente a fazê-los, pondo em alvoroço milhares de lares portugueses. Mas conhecendo todos, e todos admirando a sua veia inovadora e o seu azougado dinamismo, pedimos-lhe que inicie uma campanha que lance os portugueses e as portuguesas nos braços uns dos outros para que uma nuvem de mil cegonhas cubra os céus de Portugal.

Atrevemo-nos a sugerir que, a partir de agora, o Presidente Marcelo, num acto de discriminação positiva, só faça selfies com casais que apresentem sinais exteriores de estado interessante. Estamos certos de que, num salto de fé, um milhão de portugueses se apressaria a mergulhar na cálida enseada em que é preciso mergulhar-se para que nasçam bebés, com o mesmo entusiasmo e lírica graça com que já o vimos a si mergulhar nas fecundas águas de tantos rios e praias de Portugal.

Eis, senhor Presidente, o lema para a próxima fase do seu mandato: «Já se fazem, outra vez, bebés em Portugal.»

Permita-nos, Senhor Presidente, que confessemos as nossas razões particulares para o termos vindo desinquietar nestes propósitos. Vaidade de pais babosos, achamos que temos a mais bonita colecção do mundo de livros infanto-juvenis. Chama-se «Os Livros Estão Loucos» e foi feita à sua imagem e semelhança: são livros cujo exterior, pintado à mão, causa logo o mesmo oh! de espanto e alegria que o belo bronzeado do seu rosto provoca aos portugueses; por dentro, são livros tão imprevisíveis como o Senhor Presidente, nem sempre vão escritos por linhas direitas e podem até obrigar os jovens leitores a andar com a cabeça à roda se os quiserem ler, como o Senhor Presidente faz tão bem a jornalistas ou a políticos.

Mas que livros são esses, exige-nos agora saber? São clássicos, como clássicos são os melhores modelos que inspiram a sua acção política. «Os Livros Estão Loucos» são adaptações de Shakespeare ou de Cervantes, por exemplo, o Robinson Crusoé, o Romeu e Julieta, o Oliver Twist ou o último, o Dom Quixote. Tal como o Senhor Presidente tem adaptado a Portugal as lições dos grandes estadistas do passado, colorindo-as à sua maneira, nós adaptámos estes clássicos de forma a que os jovens leitores, dos oito aos 14 anos, tenham aqui a mesma sensação de frescura e aventura que o Presidente Marcelo teve, pequenino e bem antes de ser Presidente, quando se atirou pela primeira vez às bravas ondas do Guincho.

A Guerra e Paz, Editores, em pouco mais de um ano, fez nove filhos, estes livros que estão cheios de aventura, de irreverência, de cores e até de algumas provocações. E veja, estimado Presidente, com os seus próprios olhos, se não são bonitos! Há uma geração que está já a lê-los. Mas não queremos que, amanhã, estes livros fiquem tristes, na solitária estante, sem os leitores que merecem ter. Presidente Marcelo, dê-nos hoje os bebés que hão-de ler estes «Livros Loucos» amanhã.

Presidente, aconselhe o nosso Primeiro, mande recado ao Parlamento: que os portugueses se amem para que o país se encha de alegria e possamos voltar a ver as ruas cheias de risos e filas e filas de felizes catraios a cantarem «Que linda falua, / que lá vem, lá vem, / é uma falua, / que vem de Belém.»

Dê mais bebés a Portugal, Presidente. Nós já temos os livros que os hão-de encantar. «Os Livros Estão Loucos» do presente sonham com os jovens leitores do futuro, e o futuro está na sua mão.

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O frio Novembro do Colorado

Enquanto Charlton Heston baptiza Jesus nas águas do Jordão, nós, os Tristes, vamos administrando a extrema-unção ao Escrever é Triste. Um dia, diremos: «Lembras-te, foi no Verão quentíssimo e longo de 2018!»

O mergulho baptismal nas águas do Jordão foi essencial para o êxito do cristianismo. A imersão nas águas desse rio, pelas seguras mãos de um nadador-salvador como era São João Baptista, só podia ser redentora, salvífica e lustral. Eram águas cálidas de um Médio Oriente sufocante. Mergulhava-se de túnica vestida e era tão bom como Deus achava que era boa a Sua Criação – que, não desfazendo, não é má de todo.

E, voltando às águas, é verdade, se me perdoam o sibilino desvio, que ainda hoje se atiram pessoas vestidas para a piscina com propósitos menos refrescantes, e em festas que julgo terem pouco de cristãs, passe embora serem organizadas sob o signo do amor a qualquer próximo.

As águas sagradas do Jordão chegam a 28º Celsius e não andaria longe disso o mar da Praia do Sol ou da linha de costa sudeste do Mussulo, as duas praias em cujas águas eu lavava os dilemas em lume adolescente com que fiz a minha primeira despedida do magnífico e maternal catolicismo.

 Terei visto, por essa altura, entre 1967 e 1969, “The Greatest Story Ever Told”. O filme é de George Stevens, o mesmo George Stevens que um dia, nos anos 50, pôs Montgomery Clift a bater a melhor bola de bilhar que já alguém bateu ou baterá a Elizabeth Taylor. E talvez não fosse já o mesmo George Stevens, passe embora o facto de Charlton Heston, que no filme é João Baptista, mostrar mais o redondo peito do que a Taylor o mostrava no saudoso “A Place in the Sun”.

Jesus Cristo era o herói suave e épico desse “The Greatest Story Ever Told”, que juro ter visto no Miramar, a baía de Luanda em fundo. E, pelo menos em Luanda, Jesus, no filme, era sueco. O imenso Max Von Sydow emprestava a Nosso Senhor Jesus Cristo os olhos azuis e a pálida pele pré-rafaelita de uma Elizabeth Siddal. Falava inglês com sotaque viking, em atroz incompatibilidade com o Espírito Santo, que lhe recusou o dom das línguas. Dizia, “Eu sou a Ressurreição”, metendo um “z” e roubando nos “érres”, o que mais magoou as minhas feridas dúvidas metafísicas.

O rio Jordão, conta Charlton Heston, filmaram-no no frio Novembro do Colorado. Quando Heston enfiava a cabeça dos fiéis na água gelada alguns emergiam inconscientes ou quase sufocados. Enregelado, disse ele a Stevens: “Se Jesus tem nascido no Colorado, o cristianismo não vingava, juro-te eu.”

Publicado no Expresso. Sabbath. Sabate. Sabá.

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último caderno

 

 

 

poema do fim

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do Grito Fundacional …. à Morte Anunciada….

 

ESCREVER É TRISTE (14.12.2011 – 15.09.2018)

 

Quem acompanha o EéT sabe que este blog é vivo, orgânico, animal.

O EéT nasceu, cresceu, viveu, resistiu, tomou algumas drogas legais (outras dependerão da jurisdição), maturou como os bons tintos e está na hora de ser aberto.

Parece que o W. A. Mozart (1756 – 1791), que já cá andou há muitos anos, e era especialista em música para vivos que choram mortos, adivinhava que o EéT precisava de uma homenagem fúnebre.

Parece também, palpita-me, mas agora não posso precisar com certeza absoluta, que escreveu um REQUIEM para nós.

E consta ainda que, presciente, o H. V. Karajan (1908-1989) o interpretou  (https://youtu.be/ia8ceqIDSJw ) – também – para nós, com a força telúrica que só ele sabia sofregamente sorver aos seus dirigidos.

Oiçam! Oiçam Tristes! Oiçam. É pouco menos de uma hora que perdem, mas é uma noite que ganham! Eu ouvi com uns auscultadores bestiais e alto, não fosse acordar os 25 andares subtropicais!

Abri o vinho, tinto, porque para estas coisas o branco não dá, e ouvi melancólico, Triste. Com os pelos eriçados, confesso, embora seja mentira, que a determinada altura verti a lágrima da praxe… Foi então que pensei e disse: Mas, o que é isto? Um homem desta idade cabisbaixo? Não!!! Se é para morrer não quero autópsia! Se é para morrer que “batam em latas”, “batam em latas”, como dizia o outro que tenho a mania de citar!

Agarrei-me ao youtube e aqui vai disto! Uma noite temática! Foi só curtir pela madrugada fora! Só queria que me saísse branco!!!!!

Logo para começar deparo-me com o mestre Cid no Festival Eurovisão da Cancão de 1980 a dizer adios adieu auf wiedersehen goodbye  (Um grande, grande amor) (https://youtu.be/VKk3PvZYXiQ) Oiçam! Oiçam Tristes! Oiçam. Oiçam que eu também ouvi! Já sei que estava nas nuvens e com vinho, mas ouvi!

Como se precisasse de mais alguma inspiração, passei para a Música no Coração, (OMFG!!! Com esta revelação já estou a ver o chorrilho de convites para ser DJ em casamentos de primos e sobrinhos! Da Foz ao Estoril, de Moledo à Comporta, da Granja a Cacela Velha) e foi aí que dei comigo a cantar uma versão Family Guy da família Von Trapp: So long, farewell auf wiedersehen goodbye, (https://youtu.be/ldzPAf9EUOQ) e alto! Alto e com o risco de acordar os vizinhos subtropicais!

No meio desta insensatez, lá tive um rasgo de razão, sempre era um dia de semana, e nestas latitudes a labuta começa cedo, e fiz um exercício de contenção.

Do mais íntimo dos âmagos soltei um gemido ululante:

SE É PARA ACABAR ENTAO ACABA-SE!

E o vinho realmente estava nos últimos tragos; e isso é que não pode ser!

SE É PARA ACABAR, A COISA SÓ PODE ACABAR COM FUTURO!

SE É PARA MORRER, QUE SE MORRA COM SANGUE NOVO!

PIM PAM!

Telefonei ao Francisco Mendes Moreira (https://www.instagram.com/franciscomendesmoreira/?hl=pt ), que por ser novo tem cabedal para ter 4 filhos, estar a um sopro de ser pai do 5.o, e ainda assim passar as madrugadas a pintar que se farta, e pedi-lhe:

Epá Francisco! Estou à rasca! Quero escrever um pequeno texto para um grupo de malfeitores que me adoptou, – eu um rapaz tão sério, imagina! -, e preciso de usar uma obra tua! Eu sei que andas a bombar e que és o gajo mais solicitado da cantadeira, que não tens tempo para as encomendas porque és dos melhores pintores que tenho visto! E isto não sou só eu que o digo, pah! Há para aí vultos das artes, coleccionadores, críticos, pintores novos e consagrados, artistas plásticos em geral que fazem o pino para te elogiar, porque TU mereces! Eu sou um desses! Não quero parecer sabujo, mas empresta-me um daqueles pastéis de óleo fantásticos que tens a dizer FIM! Pode ser?   

E o Francisco, com a simplicidade de quem vive próximo dos deuses, que é como quem diz: deixa-te de tretas que eu tenho que dar almoço a 4 miúdos! Disse:

Claro!

E aqui está! O Francisco emprestou-me/nos o FIM para comemorar esta crónica de uma morte anunciada!

Francisco Mendes Moreira (1979), Coimbra, Portugal. S/ título. Pastel de óleo sobre cartão, dimensões variáveis.

The End.

 

PS 1: Claro que esta história é só uma história e que não estive para aqui a ouvir esta cangalhada toda; fiquei-me pelo Mozart aos berros. Ou será que não?

 

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memória de tempos antigos

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O gato, o caos e um rio

Há, atrás dos ossos deste gato, mais esquinados do que a fotografia deixa perceber, uma história de bullying. Assédio, violência e descriminação. Os outros gatos, mais androceus, talvez mais convictamente quadrúpedes, e sei eu lá bem o que digo, batiam-lhe – uma firme patada felpuda – não o deixando chegar à comida. Alimentou-o a Antónia, pervertendo as regras da concorrência – a subsídio, diria. Não sei se fez bem ou mal e se há o bem ou o mal na forma de alimentar gatos. Temo que, abdicando a espécie da sua propensão predadora e da sua posição de topo na cadeia alimentar, esteja para estalar uma doméstica luta de classes entre felis catus.

O pátio rectangular, reminiscência almorávida ou almóada, sei lá eu bem que que nada sei, é um geometríssimo retrato negro do céu. Convida-nos a sentarmo-nos entre quatro arbustos oblíquos e uma limpa folha de água. Em cima, a mesma noite, o mesmo caos que encheu de breu o cérebro e a sensibilidade turva de Hesíodo, a mesma divina desordem que entesou Ovídio e que tira toda a tesão ao homem moderno.

Diz o poeta que toda a profissão é hidrográfica. O rio flui, cria ilhas, sufoca ilhas, é o arquipélago de caprichos, que vai de Martin Sheen a Marlon Brando, em Apocalipse Now, a jangada que encosta a cabeça loura de Marilyn Monroe ao peito animal e lírico de Robert Mitchum, em The River of No Return, o inexistente oriente roubado a uma hipotética enciclopédia por Jean Renoir, em The River. E eu a fingir, injusto, que ainda sonho com a foz do Cuanza, depois de tanto anos a beber a arcaica e majestosa beleza do Tejo.

 

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Serena? Não me parece…

JK Rowling, Nicki Minaj, a sério? Eu se fosse o Harry Potter ia-me já queixar de ter apanhado com um raio nos cabides! E se fosse uma anaconda, ó Nicki, apresentava queixa ao Pan…

Os muito puros que me perdoem, mas bom senso é fundamental: não, esta não é uma questão racial; não, esta não é uma questão de género; esta é uma questão de manipulação ao serviço da discriminação positiva e do politicamente correcto.

Toda a gente, aqui e ali, ao longo da vida se portou mal. Perdeu o controlo. Foi impulsivo. Ou mesmo, no pior dos casos, foi-se um filho da puta. Acontece. Não se planeia. Não se deseja. Fica-se aquém. Mas acontece. Ninguém de bom senso se orgulha desses momentos da sua vida. Se possível, oferece-se reparação. Somos falíveis. Mas esforçamo-nos. É assim.

Claro que estou a falar de sua alteza sereníssima, perdão, transtornadíssima, da tenista Serena Williams e do circo que se levantou em torno da palhaçada em campo. (E se, por ventura, estiver a contar as micro-agressões verbais deste texto: filho da puta; sua alteza; palhaçada, sempre adianto, que essa outra ficção do politicamente correcto, também aqui não colhe.)

Quando, de impulsos fora de controlo, Serena parte a raquete, ainda se está no reino do justificável, não é bonito, porém é justificável: é um jogo, vai perder, tem a adrenalina a mil e a energia pede escoamento. Não correu da melhor forma esse escoamento, deu-lhe para mcenroear… olha, azarucho, venha a penalização, e pronto.

Agora, dirigir-se a Carlos Ramos, de dedo em riste, a gritar que trabalhou muito para chegar ali, que é mãe de uma filha para quem é um modelo irrepreensível de comportamento, que ele a penaliza porque ela é mulher, e para rematar, chamar-lhe mentiroso e ladrão, isso, não. Não. Não. E vergonha maior, a Associação de Ténis Feminina fazer disto uma questão de género. Não há género nisto, há comportamento. Um comportamento justamente penalizável dentro do regulamento. Um pedido de desculpas devido.

Pior. De cada vez que uma mulher grita discriminação de género como Pedro gritava lobo sem que lobo houvesse até que lobo houve e ninguém acreditou, presta um deserviço à mulher. Todas e, venha a polícia feminina, todos, portanto, mulheres e essa espécie a quem se atira ao alvo quando se quer ficar bem visto nas colunas de opinião dos jornais, os homens, mais uma vez, todos nós, pessoas, em regra, trabalhamos muito para chegar onde chegamos, o que quer que isso seja, e não nos vitimizamos por isso. Fazemos o melhor que podemos para sermos bons referentes para filhos, sobrinhos, ou o miúdo no passeio por quem não atravessamos o vermelho para peões numa rua deserta não vá ele fazê-lo um dia e vir um daqueles tipos que nem se sabe de onde. Não me passa pela cabeça, como não passou pela cabeça da minha mãe, muito menos da minha avó, eleger o homem como inimigo para resolver as inadequações sociais ou profissionais que são da minha responsabilidade: o modelo opressor/oprimido decalcado do marxismo para o feminismo está caduco. Que feminismo e pseudo anti-racismo são estes, de gente como J.K. Rowling e Nicki Minaj que querem a censura de um cartoon de Mark Knight, para o Herald Sun, a falsos pretextos?

Querem brincar às vítimas de moinhos de vento? Brinquem. Eu, quando perco a cabeça e parto as minhas raquetes, peço desculpa.

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