Ren Hang RIP

Em 2013 vi pela primeira vez uma fotografia de Ren Hang, apaixonei-me! Lembro-me de pensar de forma muito ingénua “um dia vou fazer uma exposição deste gajo!” Vou? Ia! Porque ele já foi! Suicidou-se esta manhã em Berlim com 29 anos.

No dia 20 de Fevereiro fez a sua última publicação a fotografar para a PURPLE Fashion Magazine.

Fotógrafo, escritor, poeta visual e uma mente livre.

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cubik sky

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Brad em Lx

Eu não vou estar lá. Vou estar a discutir, na RTP3 com a serenidade “imposta” pela Ana Lourenço e com a cordialidade inteligente do Miguel Vale de Almeida, a vida, o mundo, e o que mais nos aprouver. Eu não estar lá mas não deixaria de estar por nenhuma outra razão. O CCB recebe amanhã o Brad Mehldau trio e, acreditem em mim que já os ouvi várias vezes, vai valer a pena. Mehldau é o melhor pianista de Jazz da actualidade. Vá, o Keith Jarrett faz-lhe uma olímpica sombra. Mas não há mais.

Ponham esse rabos a mexer. A ocasião é única e, se mandasse no CCB, garantia a devolução integral do preço dos bilhetes no caso de não ficarem satisfeitos. Assim como assim só posso fazer uma recomendação: vão por mim. Mas vão

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Cash

Há muito que se podia dizer sobre Johnny Cash. O Bernardo saberia dizer muito mais do que eu. E a Ana Rita, claro, a Ana Rita que me deu a ouvir pela primeira vez “The beast in me” ou “Delia’s gone”. Ambos sabem explicar-vos, melhor do que eu, o que por ele fez Jack Rubin, mais para o fim da vida, com a American Recordings. Foi uma espécie de ressurreição em vida. Cash é dos poucos génios incompreendidos em vida que foi reconhecido …  justamente, em vida. Rubin é uma espécie de Cristo e Cash é o seu Lázaro. Resgatou-o da etiqueta de cantor country com todas as conotações “foleiras” a que provavelmente os nossos preconceitos não resistiriam.

Mas eu tenho um carinho especial por este Live at St. Quentin. Não é qualquer um que leva uma prisão á redenção.


Mas concedo que é com Rubin que, devidamente polido, ascende ao musicalmente correcto.


Porque raio somos tão cheios de preconceitos? Tão prestes a etiquetar? Cash lá saberá. Onde quer que esteja.

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Incrível

– Incrível.A diferença que faz pensarmos se está meio cheio ou meio vazio!

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A Vaca Vitória

“Eu sou a tua Mãe, que criou os teus membros e as tuas belezas” disse a deusa vaca Hathor aos egípcios (ARAS 1:87).

Na Escandinávia, a vaca primordial Audhumla lambeu os blocos de gelo salgado abrindo o abismo até chegar a Bury, o antepassado dos deuses; enquanto o seu leite, correndo como quatro rios, alimentou Ymir de cujo corpo se formou o mundo.

Na Lusitânia, Vaca Vitória paira plácida e tutelar sobre os estádios que se aninham sob a sua barriga, enquanto nós, benfiquistas e equipa, mamamos das suas tetas gordas e pendentes sobre a relva verde, como bezerros deleitados que no fim arrotam GOLO!

Eu gosto de vacas. Sempre gostei. O tamanho, o olhar plácido que nos dirigem na beira da estrada enquanto ruminam indiferentes, o modo sereno e sem pressas como se deslocam, as tetas grandes, cheias de leite, que badalam enquanto caminham. E, sobretudo, a indiferença e a falta de medo. Nem se mexem quando chegamos perto ou quando buzinamos, insistentemente, para que saiam da estrada. Também gosto de ovelhas e cabras, cada uma rem a sua personalidade especial, mas não são vacas. Vaca é vaca. Vaca é polissémica. Para além do leite e dos bifes que dá, dá-nos também muita expressão e muito dizer, que nem cabras nem ovelhas produziram ao longo dos tempos. “Mão de vaca”, “voltar à vaca fria”, “fazer uma vaquinha”, “vacas gordas e vacas magras” e, a minha preferida desde terça-feira, “o Benfica teve uma granda vaca”. E voltou a ter ontem, em Braga. Era altura de abraçarmos a vaca como mascote, mais uma: chamávamos-lhe VACA VITÓRIA.

Na terça-feira fui à Luz com um amigo. Vou pouco. Sou um benfiquista discreto, de sofá. Só vou ver jogos com amigos — na verdade só vou quando me convidam (mão de vaca, lá está). Ir à Luz, ou a qualquer outro estádio, mesmo que a preguiça me tente reter a maior parte das vezes, é sempre agradável, porque, quando vou, o Benfica quase sempre ganha. Não foi sempre assim. Quando era mais novo, quase sempre perdia e por isso deixei de ir. Não por superstição, mas porque não me dava gozo. Perder não me agrada. Mas ultimamente ganha quase sempre que vou. Nos últimos três anos, terei ido cerca de uma dúzia de vezes e só assisti a uma derrota. Saio sempre bem-disposto, até porque os meus amigos têm acesso a zonas vip e a camarotes onde se come e bebe à vontade; e, como tenho a sorte de ter amigos bem-humorados e que percebem de futebol, assisto a um jogo bem comentado, sem os pedantes comentários pseudojornalísticos dos comentadores das televisões. E foi assim que terça-feira fui com um amigo à Luz ver o encontro da liga dos campeões contra o Dortmund. E que jogo. Nunca um jogo tão miserável me deu tanto gozo. Direi mesmo: nunca uma merda de jogo me pôs tão bem disposto. Saí de lá com um sorriso fixo que durou até de manhã. Quando acordei, doíam-me as maçãs do rosto. Era de rir durante o sono.

“Foda-se” foi a expressão mais usada durante os noventa minutos. Exclamei-a tantas vezes que devo ter batido o meu record pessoal do impropério. Disse foda-se mais vezes que no filme “O Lobo de Wall Street”. É mesmo possível que tenha batido o record do mundo. Foi um “foda-se” por cada passe falhado e por cada bola perdida. E, ainda assim, e depois de tanta exaltação, saí a rir. Não um sorriso de felicidade, mas um sorriso de manha, um sorriso sacana. O Benfica ganhou no dia em que pior o vi jogar. Parecia um clube da distrital a jogar contra o Benfica: um embaraço técnico táctico, inepto como um clube amador. E, ainda assim, ganhou. E ganhou como? Com uma granda vaca. Ontem vi o Braga-Benfica na televisão. Outra grande vaca. A mesma vaca, a Vaca Vitória. Vi o jogo em alta definição e, posso estar enganado, mas pareceu-me que o Mitroglou, depois de marcar, tinha bigodes de leite, e escorria-lhe um pingo branco pelo canto da boca.

É altura do Benfica e os benfiquistas abraçarem a Vaca Vitória como mascote. Para além da Águia Vitória, que durante a semana treina na Luz o voo que entusiasma os adeptos ao domingo (e na sexta, e no sábado, e na segundo, e na terça e na quarta), o clube devia acrescentar uma nova mascote. Uma vaca leiteira que durante a semana pastaria no relvado. Uma vaca branca de manchas avermelhadas: uma granda vaca. E devia fazer merchandising: peluches, pijamas para os pequenos benfiquistas, balões. A sorte devia ser (porque é) um território do Benfica.

A Águia Vitória, a Vaca Vitória e o Rui Vitória. Uma benfiquista trindade.

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Vamos ii

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A retrete de Gina

Este estomatológico post do Manuel trouxe-me à memória uma história antiga. Contou-ma um amigo uns anitos mais velho do que eu. Estamos na província. No alto  Minho. Talvez nos anos 50, não sei ao certo. Na fita (era assim que a minha avó dizia) Gina Lollobrigida pavoneia-se em négligé. Talvez lavasse, também ela, os dentes. Escovava os cabelos, por certo. Um quarto todo rendas e brocados. Erótico é dizer pouco. Langorosa, vagarosa, dirige-se para a cama. Vai deitar-se numa nuvens de penas e linho. Tudo é pasmo, sofreguidão. O tempo suspende-se. O silêncio é absoluto. É a isto que chamam eternidade.

É então que, na segunda plateia, alguém dá de si: “Ó Gina num mijas?”

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Ela cospe-lhe!

Eu já vi Michelle Pfeiffer lavar os dentes. Al Pacino também. Tanta intimidade requer uma confissão: lembro que tentei encavalitar-me na cadeira da primeira fila com a mesma encantada displicência com que ele se encostava à porta da casa de banho dela. A escova dançava na boca de Pfeiffer. Pacino e eu acompanhávamos os semicírculos da escova de dentes num adocicado enlevo colgate. A porta aberta da casa de banho e o disciplinado ritmo da escova no alvo esmalte dos incisivos de uma mulher, roçando a macia ternura da sua gengiva, anunciam ao homem em visita que é, agora, lá de casa.

Foi a II Guerra que revelou a escova de dentes ao povo americano, ainda Pfeiffer não nascera. Em 1943, Bette Davis terá sido a primeira a lavar os dentes num filme. Foi em “Old Acquaintance”. Nesse ano, em “The More, the Merrier”, o mundo viu também Jean Arthur a cuidar alegremente da higiene oral. Eram bocas e escovas assépticas. Faziam crescer uma espuma moral sorridente, sem sombra de pecado.

Não sei se Jean Arthur emprestou a escova de dentes a Marlene Dietrich. Depois de a guerra acabar, em 1946, filmaram juntas “A Foreign Affair”, para o mais sarcástico dos cineastas, Billy Wilder. E talvez a escova não fosse a mesma, porque, jura Wilder, elas não partilhavam nem um espelho: “Tenho no filme uma mulher que não se consegue olhar ao espelho e outra que não consegue parar de se mirar!”

  Marlene fazia uma ex-nazi. Tomava um capitão americano por amante. Nunca mais ninguém lavará os dentes como Marlene os lavou. O capitão vem de visita e faz-lhe pequenas provocações amorosas. De repente, Marlene apanha-o a jeito e borrifa-lhe a cara com aquela lava branca que tinha na boca. “Ela cospe-lhe”, revoltou-se Charles Brackett, o argumentista, amigo de Wilder. E tiveram uma discussão muito pouco dentífrica. Mas era essa intimidade, a decadente obscenidade da cena, que Wilder queria num filme que era o seu luto pela família morta nos campos nazis.

O filme passava-se em Berlim. Billy Wilder filmou a cidade escavacada. Falou com uma alemã que arrastava a depressão e a vergonha no meio das ruínas: “Há uma coisa boa – disse-lhe ela – os Aliados vão voltar a ligar o gás.” Uma vaga de compaixão assolou Wilder: “Ah, a senhora vai poder fazer uma refeição quente, não é?” E logo a sombra de mulher que falava com ele: “Não, não. É que assim já me posso suicidar.”

Publicado no Expresso, sábado, dia 11 de Fevereiro

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Um seixo a fazer sexo. (*)

ó pa eles com o coisa na coisa

Não é nada um calhau, seu bruto insensível. A estatueta que aqui vê está exposta no British Museum em Londres. Tem cerca de 11.000 anos e foi encontrada no leito de um rio, perto de Belém, na Palestina. Num lugar chamado Ain Sakhri. Pelo menos foi o que disseram ao abade Henri Breuil. Teria sido descoberto por um Beduíno que fazia o caminho de Belém até ao Mar Morto.

Se não percebe mesmo o que é eu dou-lhe uma ajuda. Mas fico ligeiramente preocupado consigo, deixe que lhe diga. Trata-se, veja lá, da primeira representação conhecida de um casal a praticar sexo. Ah pois é. Responde-me você, irritado, que não lhe encontra grande potencial onanístico. E eu sou obrigado a dar-lhe razão. Mas sabe que mais? Também não me parece que fosse essa a ideia. Digo eu que, não sendo arqueólogo como o abade, também não nasci ontem.

Digo-lhe, para que não diga que eu não disse, o que vejo. Vejo sexo. Vejo o coiso na coisa  ou a caminho dela, como ia jurar que, algures, alguém escreveu. Seja como for, dizia eu quando você me interrompeu com esse esgar, vejo sexo e vejo amor. Vejo um abraço terno e vejo um beijo sem peso.  Vejo sexo delicado e  ternura macia. Sexo feito poesia, se me permite a liberdade. Um poema mineral. Olhe bem para esta elegância curvilínea. Olhe bem para este erotismo arredondado. Repare na fragilidade pétrea deste abraço que a humanidade repetiria milhares, milhões, de vezes. Repare neste espasmo que é amor verdadeiro, é imobilidade e é sempre. Nesta explosão de paixão que as voltas do vento e da chuva resolveram que se fizesse imortal. Continua sem ver nada? Deixe lá. O problema deve ser meu. Devo estar a ficar velho. Talvez só mesmo um tipo a caminho de velho se comova com um seixo a fazer sexo.

(*) A história deste seixo descobri-a num livrinho maravilhoso de Neil MacGregor chamado “A history of the world in 100 objects”. Algo me diz que vou voltar a falar dele.

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Trump e o resgatar do Liberalismo (*)

Anda para aí uma grande confusão sobre a legitimidade de Trump e dos seus atropelos a muitos dos valores fundamentais das nossas sociedades ocidentais.

Não quero dar lições de ciência política a ninguém mas permitam-me que tente contribuir para este debate tentando clarificar duas ideias geradoras de grandes equívocos: Democracia e Liberalismo. Embora estes dois conceitos tendam, nas nossas sociedades ocidentais, a concretizar-se, na praxis política, de forma complementar (por isso falamos em regimes demo-liberais) a verdade é que cada um deles fornece uma resposta diferente a uma pergunta diferente.
A Democracia responde a uma pergunta tão simples quanto antiga: Quem deve governar? E responde de forma inequívoca: a colectividade dos cidadãos, o povo. O povo (defini-lo historicamente dava pano para mangas e para outra história) é a única fonte de soberania admissível em democracia. Pode governar de forma direta ou indireta. Pode deliberar por maioria, por maioria qualificada, ou até por unanimidade. Mas não há dúvida sobre quem, em última análise, governa.
Já o liberalismo reponde a uma pergunta muito diferente: quem quer que seja que exerça o poder, quem quer que seja que governe, fá-lo com que limites? Ou, dito de outra forma, qual é a esfera do político? Qual é a esfera relativamente à qual se podem tomar decisões políticas (sejam elas democráticas ou autocráticas)? A resposta, mais uma vez é cristalina: todos nós temos direitos fundamentais (naturais?) que são prévios à instituição de qualquer regime ou sociedade políticos. Existe portanto uma esfera de inviolabilidade de direitos individuais que nenhuma maioria democrática pode pôr em causa. A “tirania da maioria” tem limites. E esses limites são os direitos fundamentais (à vida, à propriedade, etc.) que são habitualmente consagrados por via constitucional.
É evidente que na longa história da construção dos regimes demo-liberais algumas tradições deram mais ênfase à componente democrática e outras à componente liberal dos nossos regimes políticos. Correndo o risco de uma simplificação excessiva, diria que a tradição continental (maioritariamente de raiz francesa) tende a acentuar a componente democrática dos regimes demo-liberais e a exaltar a soberania popular. Já a tradição de raiz inglesa (e americana) acentua a preocupação com a limitação dos poderes do Estado, exalta a importância dos direitos individuais prévios à constituição das sociedades políticas, da separação de poderes, das constituições.
Simplifiquemos para chegar ao que nos interessa. A tradição inglesa e americana tende a sublinhar o valor da liberdade. A tradição continental tende a defender o valor da igualdade. Acontece que existe uma permanente tensão entre estes princípios democráticos e liberais. Nas suas versões extremadas (digam o que quiserem os franceses com a sua “Liberté Égalité, Fraternité“) as duas tradições são mesmo incompatíveis: o liberalismo é incompatível com a democracia ilimitada. Já Hayek dizia (e cito mais ou menos de cor): “uma das maiores questões a que a teoria política terá de dar uma resposta é a de encontrar uma linha de demarcação entre os campos em que os pontos de vista da maioria devem prevalecer e os campos em que os pontos de vista das minorias devem prevalecer“.

Voltemos pois a Trump. Não há dúvida nenhuma sobre a sua legitimação democrática (o regime americano é o que é, e os colégios eleitorais fazem parte das regras do jogo democrático).  Mas tenho as maiores das dúvidas sobre a legitimidade liberal de muitas das suas decisões. O homem está a tentar edificar um regime democrático profundamente iliberal. E é importante que isso se perceba. Por muito que custe a alguma esquerda que, de tanto recorrer ao insulto neo-liberal, perdeu a noção de que o liberalismo político não se opõe fundamentalmente ao socialismo ou à social democracia, mas ao totalitarismo, a verdade é que a única receita para combater Trump é mesmo o Liberalismo. O resto, lamento, é conversa.

(*) Ninguém nasce ensinado e muito do que aqui aprendi, se é que o aprendi bem, aprendi-o com José Manuel Moreira nos idos de 90 quando me deu para usar as sextas à noite e os Sábados de manhã a estudar ciência política no IEP  da UCP. Para quem se interesse por estas coisas palpitantes recomendo a leitura de “Liberalismos: entre o Conservadorismo e o Socialismo”.

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Assassínio de presidentes. Uma tradição americana

 

 

Houve vinte tentativas de assassínio de presidentes do Estados Unidos. Quatro tiveram sucesso: Abraham Lincoln, James A. Garfield, William McKinley e John F. Kennedy foram todos mortos a tiro. Suspeita-se, ainda, que mais dois foram envenenados: Zachary Taylor em 1850 e Warren G. Harding em 1923.

Dois presidentes foram feridos, Theodore Roosevelt (na condição de candidato) e Ronald Reagan. Desde John F. Kennedy, todos os presidentes, com excepção de Lyndon B. Johnson sofreram tentativas de assassínio — curiosamente, e segundo os teóricos da conspiração, LBJ foi um dos responsáveis pelo complô para assassinar Kennedy — embora, com a excepção de Reagan, todas as tentativas tenham sido particularmente ineptas.

Embora algumas nasçam de conspirações e enredos políticos, a maior parte das tentativas foram levadas a cabo por lobos solitários de pistola em punho, claramente com problemas mentais e uma ligação especial ao divino que lhes permite ver o anti-cristo. Eis algumas.

Em 1835, um pintor chamado Richard Lawrence, disparou duas pistolas sobre Andrew Jackson. As pistolas não funcionaram e o presidente, dando-se conta do sucedido, alçou da bengala e deu uma tareia perpetrador. O homem endoidecera, pensa-se, devido ao efeito da inalação das tintas que duranta anos usara para pintar casas. Com o passar do tempo e o crescer da insanidade, convenceu-se ser Ricardo III, rei de Inglaterra, e credor de dinheiro que o presidente se recusava a pagar-lhe. No seu demente delírio pensou que, matando o presidente, o vice-presidente honraria a dívida imaginária. E assim vai de comprar um par de pistolas e disparar sobre o presidente. Falhou. Depois de julgado foi internado num hospital psiquiátrico até ao fim da vida.

Piores sortes tiveram assassino e vítima em1901. Às 16.07 de uma sexta-feira de Setembro, o presidente William McKinley cumprimentava populares e visitantes no Templo da Música em Bufalo, no âmbito de exposição Pan-Americana, quando o Leon Czolgosz, um autoproclamado anarquista, desempregado e militante, se aproximou e disparou dois tiros de uma pistola de calibre .32. Uma das balas alojou-se no estômago. O presidente McKinley morreu uma semana depois, de septicémia. Czolgosz foi executado na cadeira eléctrica.

O presidente McKinley apareceria anos mais tarde, em 1912, mas já lá vamos.

Depois da morte de McKinley, o Congresso determinou a obrigatoriedade dos serviços secretos protegerem o presidente. Já tinham sido assassinados Abraham Lincoln e James A. Garfield.

James A. Garfield foi assassinado por um tal Charles Guiteau, um escritor de discursos mentalmente perturbado e extremamente ofendido com o presidente por este lhe ter negado o lugar de embaixador em Paris. Guiteau estava convencido que tinha sido ele, e o brilhante discurso que escrevera, e que o então candidato lera apenas duas vezes, o responsável pela eleição do presidente. E como recompensa queria o posto de embaixador em Paris. Não o obteve. Antes obteve um .442 Webley, um revolver com punho de marfim — declarou mais tarde que, com punho de marfim, a arma seria uma peça mais bonita para figurar no museu — e disparou dois tiros sobre o Garfield na Baltimore e Potomac Railroad Station. O presidente morreu onze semanas mais tarde, devido a complicações (foi antes dos antibióticos e das, hoje, habituais normas de higiene médicas). Guiteau, embora diagnosticado com a doença bipolar por efeito da sífilis no cérebro, foi enforcado.

Também por razões de insanidade John Warnock Hinckley Jr. tentou assassinar Ronald Reagan com um revolver Röhm de calibre .22. Hinckley era fã do filme Taxi Driver e ainda mais fã de Jody Foster, que há anos perseguia e queria impressionar. Assassinar Reagan foi a ideia que teve.

Uma das minhas histórias favoritas é a da tentativa de assassinato do presidente Theodore Roosevelt. Tem todos os ingredientes: o doido, a pistola da ordem e um discurso milagroso. A história conta-se em três penadas:

John Flammang Schrank, nascido na Baviera, mas a viver nos E.U. desde os nove anos (um emigrante, portanto), foi um pacífico e amável taberneiro de Nova Iorque até aos seus trinta e tal anos. Vivia com os tios, os pais tinham morrido quando era novo, e tinha uma namorada. Mas depois os tios morreram, e morreu a namorada também. John, de coração despedaçado, vendeu tudo e errou durante anos pela costa leste. Tornou-se religioso, um estudioso da bíblia, que debatia com fervor em parques e jardins, e escrevia poesia.

Em 1912 — e de acordo com documentos encontrados no próprio Schrank depois da tentativa — o fantasma de William McKinley visitou-o e pediu-lhe para vingar a sua morte apontando para uma imagem de Roosevelt. Na noite de 14 de Outubro, em Milwaukee, quando Theodore Roosevelt saía do hotel onde tinha jantado e se dirigia a um comício para ler um discurso de cinquenta páginas, Schrank disparou uma bala de um Colt Police Posite Special de calibre .38. A bala bateu na caixa dos óculos e furou as cinquenta páginas, dobradas, do discurso que Roosevelt tinha no bolso. O maço de papel impediu a bala de chegar ao pulmão. Com a bala alojada nas costelas, Roosevelt, literalmente salvo pela oratória, seguiu para o comício e discursou.

Schrank foi, mais tarde, diagnosticado com as habituais insanidades mentais e passou o resto dos seus dias internado num hospital psiquiátrico.

E podíamos ficar aqui a noite toda, mas já se percebeu a moral da história: que não falta gente disposta e pronta a ver o anti-cristo na Casa Branca. É uma tradição americana.

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l’amour fou

Frida , o corpo dilacerado com lanças (muitas vezes ferida),   viveu o êxtase do amor,as visões cósmicas , imóvel, deitada, apagada.

 

Descreve assim
o seu sentir por Diego,

«espelho da noite.

os teus olhos espadas verdes dentro da minha carne.

ondas entre as nossas mãos.

todo tu no espaço cheio de sons – na sombra e na luz. 

tu chamar-te-às AUTOCROMO aquele que capta a cor.

eu CROMOFORD-aquela que dá a  cor.

Tu és todas as combinações de numeros.

A vida

o meu desejo é entender a linha, a forma, a sombra, o movimento.

tu preenches , eu recebo.

a tua palavra percorre todo o espaço e chega ás minhas células que são os meus astros e vai até ás tuas que são a minha luz.»*

eu chamo-me TERRASIENA QUEIMADA e guardo entre as mãos as BRASAS do eterno Fogo

*texto e imagem de Frida Kahlo

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14 de Fevereiro

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E assim se faz uma tarde

Pois é, a chuva e o frio não convidam a meter o pé fora de casa. Há o Almada para ver? Bem sei. Mas as filas à porta da Gulbenkian aconselham outro dia. E o Amadeo? Está visto e bem visto. Por sinal numa visita guiada que foi um modelo de como se deve comunicar arte ao público. Há uma mão cheia de filmes a acenar aos Oscares? Bem sei. Mas eu queria era ver o Vendedor do quase-proscrito-pelo-Trump Asghar Farhadi e, talvez para fazer a vontade ao Trump, já o tiraram de cena. E o Benfica? Já jogou e bem. Que se fique em casa então. A fazer o quê? A ouvir, ver e ler o melhor que 2017 nos trouxe até à data. Por essa ordem, I See You, Broadchurch e Depois do Fim. O tempo não chega para tudo? Chega e sobra para se ouvir e voltar a ouvir, vezes sem conta, o recém-estreado álbum dos (The) XX, a confirmação, se alguém ainda tivesse dúvidas, que Romy Madley Croft, Oliver Sim e Jamie “XX” Smith são, atualmente, os mais elegantes representantes dos novos caminhos da pop britânica. Regalados os ouvidos, é tempo para nova evidência do esmagador avanço que a televisão já leva sobre o cinema no que à qualidade da ficção toca: Broadchurch, série inglesa inicialmente transmitida na ITV e agora estreada na Netflix. Um crime drama passado no fabuloso cenário da costa de Dorset, que se arrisca a deixar-nos pregados ao écran o fim de semana inteiro, ao longo dos 16 episódios que compõem as duas temporadas (e consta que vem aí uma terceira). Absolutamente imperdível, para viciados ou não. E, porque a vida, hélas, não é só música e ficção, e há, para quem não tenha reparado, uma guerra de civilizações a ser travada lá fora, venha, por último, o também magnífico Depois do Fim, do jornalista Paulo Moura, que relata os seus périplos como correspondente de guerra, ao longo dos últimos 25 anos, por sítios tão inóspitos como a Argélia, o Iraque, a Tchetchénia, Caxemira, Kosovo, Afeganistão e por aí fora. Que a História não acabou quando Fukuyama o prenunciou, já estamos hoje, a essa mesma distância de 25 anos, fartos de saber. Que as ideologias também não morreram, isso também é já uma evidência, no pressuposto de que o islamismo – como movimento que pretende conquistar e manter o poder político para impor a Sharia – é uma ideologia e não uma religião. O que talvez ignorássemos é o que Paulo Moura nos demonstra brilhantemente: que, ao longo deste último quarto de século, não assistimos a outra coisa que não a um acontecimento que dá lugar a outro que dá lugar a outro e assim sucessivamente, numa espécie de determinismo histórico em que os mesmos protagonistas se repetem, em lugares e em tempos diferentes.

E assim se faz uma tarde.

 

Wook.pt - Depois do Fim

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