Buddy “King” Bolden

O homem da fotografia viveu entre a década de 70 do século XIX e a década de 30 do século XX. Barbeiro de profissão (outra versão da história fá-lo editor de um pasquim de escândalos chamado Cricket), bêbedo muitíssimo competente, acabou os seus dias num hospital psiquiátrico do Estado do Louisianna. A foto, carcomida pela humidade, é o único registo que sobreviveu do homem e da sua obra. O que, convenhamos, é pena. «To say the least». Atendendo a que foi o primeiro a tocar uma música estranha, misto de blues, de gospel e de ragtime, a que anos mais tarde alguém chamaria … jazz.
A que soaria, exactamente, o som de Bolden? A que soa o som dos mortos? Para onde vai a música quando não fica capturada em purgatórios de vinil ou em infernos de bits e bytes? Existirá um Paraíso para a Música quando volta a ser pó? E um Inferno? Não consta que Dante e Beatrice fossem melómanos mas custa a crer que o destino da música seja nenhum. E se assim é, qual terá sido o destino da musica de Bolden? Ecoará no Paraíso ou o lugar é uma maçadora coutada para anjos, arcanjos e querubins e para a sua pueril música celestial? Prefiro acreditar que continua a tocar, eterna, roufenha, crioula, embriagada, numa sufocante cave do Inferno. E que, todas as noites, tem em Charles “Buddy” Bolden o espectador especial que nunca pode ter em vida.

O mais certo é que vá, eu também, morar para aqueles lados. Não tanto por causa dos dotes musicais que não tenho, mas por culpa de muitas outras histórias que, se me dão licença, prefiro levar comigo. Se houver lugar na sala hei de pedir um Gumbo, uma cerveja fresca, hei de sentar-me ao lado de Buddy Bolden. Depois, com um olhar de cúmplice, dou-lhe uma cotovelada e sussurro-lhe ao ouvido: “I thought I heard Buddy Bolden say, Funky-butt, funky-butt, take it away.

 

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Uma (espécie) de elogio a Trump

Deixem-me lá falar um bocado de política.Isto por aqui é proibido mas o Fonseca anda distraído.

Regressemos pois ao início. Trump aparece na corrida para as primárias do Partido Republicano como uma caricatura grotesca, uma bizarria americana que ninguém levou a sério. Depois foi o que se viu.

Durante toda a campanha para a presidência, contam-se pelos dedos das mãos as sondagens e o analistas que previram o desfecho final. A plausibilidade crescera, é verdade, mas ainda mais verdade é que a esmagadora maioria de nós não acreditou. Foi o que se viu.

Veio depois a ideia, bizarra vista do hoje, de que o Trump Presidente eleito seria profundamente diferente do Trump candidato. Foi o que se viu.

A equipa é que era. Quem verdadeiramente manda não é o Presidente. Trump vai ser moderado pelo seu gabinete. Está bem está. Hoje alguém acredita que de um cocktail de criacionistas, racistas, condecorados por Putin, céticos ambientais, militaristas furiosos e um genro ou outro, vai ser fazer da Casa Branca um santuário de sagacidade? Pois.

Ontem ainda, muita gente inteligente, um pouco pelo Mundo inteiro, jurava a pés juntos que a inaugural address seria o momento de reconciliação com a América. Uma espécie de epifania à la Soares com o seu Presidente de todos os Portugueses de 1986. Foi, repito-me, o que se viu e ouviu.

Em suma: Trump tem sido um dos políticos mais subestimados dos últimos tempos. Porque não tem um discurso sofisticado. Porque não tem um argumentário densificado. Porque tem um comportamento que parece – e sublinho o parece – errático. Sim. A franja também não tem ajudado. Mas o que é relevante é que Trump tem feito desse desprezo intelectual uma força. É Presidente e só por manifesta teimosia podemos continuar a achar que o conseguiu por acaso, por causa do Putin, da pós verdade, ou porque o sistema eleitoral americano é perverso.

Já vos explico onde quero chegar. Primeiro gostava de propor a hipótese de contrariar três mitos sobre Trump.

1 – Primeiro mito: “Trump não tem visão, estratégia ou pensamento. Bom, não diria tanto. Há uma diferença abissal entre não ter um pensamento estruturado e cartesiano e não ter pensamento. Trump não tem uma estratégia, muito menos um programa, em sentido estrito ou clássico. Não pensa em bullet points nem terá constituído um gabinete de estudos há dez anos. Trump é um primário, não é um primata. Tem um pensamento pouco estruturado, pouco elaborado. Mas tem pensamento. Uma ideia mal explicitada intelectualmente mas clara de onde quer chegar. E uma intuição finíssima sobre a forma de lá chegar.

2 – Segundo mito: “Trump é errático. Desenganem-se. Ser imprevisível não é sinónimo de ser errático. Podemos ser surpreendidos mas não podemos daí inferir aleatoriedade. Trump não errático. Trump é pragmático. Nesse sentido afasta-se da tradição secular de uma política americana que, cultivando e promovendo a diversidade, sempre se manteve ancorada nos valores funcionais liberais dos founding fathers. Parêntesis: a esquerda, num acesso de pós verdade, reescreveu o sentido da palavra liberal (acrescentou-lhe um neo que é uma forma de insultar como outra qualquer) mas vamos ter todos muitas saudades do liberalismo clássico americano. Volto à vaca fria. Trump é de um pragmatismo cortante liberto da canga dos valores liberais. Tem, já o disse uma ideia clara. To Make America Great Again não é, pardon my french, um mero slogan. É um programa intelectualmente básico mas nem por isso mais frágil de defesa intransigente e sem compromisso dos interesses económicos dos EUA. Para o cumprir com pragmatismo Trump recusa amarras morais, culturais ou históricas. Reclama total flexibilidade. Hoje a Rússia, amanhã a China. Visto assim não é de espantar que não goste da ONU, da NATO ou de qualquer outra instituição diplomática multilateral. Scrap all this shit. Trump não quer perder tempo a conversar com um Europa que não se entende a conversar sozinha. Não quer alianças nem compromissos duradouros. Hoje a Rússia, amanhã a China, repito. Não há aqui nada de errático. Há pragmatismo sem concessões.

3 – Terceiro mito: “Trump não é político. Nada de mais errado. Trump identificou com rigor quase científico (garantem-me que com rigor mesmo científico) a sua base política de apoio: os descamisados da globalização (curiosamente um público namorado por uma certa esquerda). Sabe muito bem com quem fala e olhe que não é consigo. Identificou com não menos precisão um inimigo externo para dar coesão ao seu eleitorado: o establishment supostamente corrompido de Washington que abrindo a América ao Mundo beneficiou ilegitimamente do comércio internacional e roubou emprego aos americanos mais desprotegidos (que ele próprio deva o seu sucesso a essa economia aberta ao Mundo não é coisa que faça qualquer confusão ao seu espírito pragmático). Deu-se ao trabalho de criar até uma América mitológica, em plena crise pós industrial, magnífica distopia tão afastada da realidade como subliminarmente eficaz. Trump será populista, será manipulador e será um líder de facção. Será radical e será divisionista. Mas se isso é não ser político então Mussolini era um burocrata maçador.

Concluo e digo finalmente ao que venho. Trump é mais inteligente, mais eficaz, e mais consistente do que temos querido crer. Poupe lá o insulto mais um segundo. Dizer isto não é um elogio. Serve tão simplesmente para dizer que quanto mais o desprezarmos mais perigoso se tornará. É altura de lhe darmos o crédito que merece. Só assim o combateremos.

Ridículo, ridículo, só mesmo o cabelo.

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As 30 magníficas de 2016

Não levem a mal o atraso. Andei sequestrado nestas primeiras semanas do ano. No cativeiro, só me permitiram um pequeno luxo. Podia levar comigo trinta canções. Que cumprissem as seguintes condições impostas pelos meus sequestradores: todas editadas em 2016, todas disponíveis no Spotify, todas de autores e intérpretes diferentes. Quanto ao mais, mandaria o meu gosto e o que ao meu ouvido conseguiu chegar. Assim que recuperasse a liberdade, deveria, a ordem foi clara, partilhá-las sem rodeios. Por mais que isso custasse a outros ouvidos, por menos representado que estivesse este ou aquele género musical, por mais pessoais que as escolhas fossem, deveria divulgar a lista imediatamente. Que me perdoem, pois, todos os excluídos que nela mereceriam estar. Que me perdoem Nick Cave, Bowie, Kanye West, Frank Ocean, Anohni, Alex Cameron e Angel Olsen, todos autores de álbuns que, não fosse a quota acima referida, teriam mais de uma canção na lista. Que me perdoe Beyoncé, cujo excelente Hold Up estaria de caras na lista, não fosse a rapariga e seu marido Jay Z terem aversão ao Spotify, enredado em guerras de concorrência com o seu Tidal. Uma saudação especial (sem favores ou quotas de espécie alguma, diga-se) para Branko, Capitão Fausto e Samuel Úria, os três portugueses da lista. Para quem a queira seguir pelo Spotify, basta que adiram à play-list “As 30 magníficas de 2016 by Diogo Leote”. Façam então o favor de disfrutar. E, para entrarem em beleza, comecem pela melhor canção do ano, If Rah, dos já veteranos Underworld (esta com direito a vídeo, a par da auto-excluída Hold Up, de Beyoncé).

  1. If Rah – Underworld
  2. Ultralight Beam – Kanye West
  3. Drunk Drivers/Killer Whales – Car Seat Headrest
  4. Distant Sky – Nick Cave & The Bad Seeds
  5. Daydreaming – Radiohead
  6. Blackstar – David Bowie
  7. A 1000 Times – Hamilton Leithauser + Rostam
  8. On Hold – The XX
  9. Reserva Pra Dois – Branko (com Mayra Andrade)
  10. Crisis – Anohni
  11. We The People – A Tribe Called Quest
  12. Happy Ending – Alex Cameron
  13. Shut Up Kiss Me – Angel Olsen
  14. Beautiful Strangers – Kevin Morby
  15. Let Me Get There – Hope Sandoval and the Warm Inventions (com Kurt Vile)
  16. Because of Me – The Avalanches
  17. Pink + White – Frank Ocean
  18. Cool Out – Matthew E. White (com Natalie Prass)
  19. Here In Spirit – Jim James
  20. NIV – Lambchop
  21. Cranes in The Sky – Solange
  22. Up to Anything – The Goon Sax
  23. Numbers – Daughter
  24. Theme for a Taiwanese Woman in Lime Green – Devendra Banhart
  25. Semana em Semana – Capitão Fausto
  26. Fool – Frankie Cosmos
  27. Happy – Mitski
  28. Ei-lo – Samuel Úria
  29. Bum Bum – Cass McCombs
  30. No Woman – Whitney

*Menção especial (for a do Spotify): Hold Up – Beyoncé

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Aforismo Surrealista XIII

 

 

Robert M. não tinha profissão conhecida. Não usava uniforme, não calçava botas envernizadas mas diz-se que também não aparava o bigode. Não era alto nem espadaúdo. Não era loiro e ninguém, na aldeia inteira, se queixava do seu mau hálito. Também nunca abria a boca. Facto absolutamente irrelevante para esta história, não era herói de Guerra nem nunca tinha entrado num lupanar. Não nascera na Turíngia mas uma vizinha com que antipatizava dizia, a quem a quisesse ouvir, que não tinha uma perna francamente mais comprida do que a outra. Irascível, um dia atirou-lhe um anti-romance à cabeça. Era um homem sem qualidades.

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desastres

«  Money make’s the world go round »

O artista espanhol Carlos Aires fala assim , na sua série DESASTRES  , da decadência e desmoronamento do mundo ocidental.

 

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Só o mundo

SÓ O MUNDO

E ninguém para nos salvar.
Só mundo. Quando, de repente,
não é uma força de bloqueio,
é uma corrente e a força do mar.
Não connosco, iogurtes fora de prazo,
mas com alguém, e a gente, espectadora
imprevista, assiste… ah é como se nascesse
de novo, e nasce! quando aquele ovo
de talento que se vê, cheira, sente,
eclode e as estrelas dizem sim.
Há o tempo em que sonhamos
os nossos sonhos, e acreditamos,
chama-se infância.
E o tempo em que os perdemos
de tanto os desconseguirmos.
E depois há o tempo, finalmente,
agradecido ao nosso Deus abstracto,
mais ou menos particular,
porque o sonho de alguém se fez facto
e os dias serão os das suas concretizações –
há lá beleza maior?
E esse é o tempo do primeiro adeus.

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Passou por Aqui…

William Tyler. Mais do que o guitarrista que durante anos tem acompanhado os Lamchop, Tyler tem vindo a fazer uma subtil carreira a solo, inspirado por uma América escondida, silenciosa , afastada das grandes cidades. A planície e a estrada , elementos há muito descobertos como centrais na identidade americana, são o alimento para uma musica simples mas marcante.

E apetece descobrir mais um pouco dessa paisagem , ou simplesmente pegar no carro e guiar.

Com  a música de Tyler a sair pela janela aberta…

Com  a música de Tyler a sair pela janela aberta…

(Tyler tocou na Casa do Intendente. )

Passou por aqui

Robert Stor. Talvez mais conhecido como curador do MOMA de Nova York, mas também director da Yale School of Art, em New Haven, e crítico de arte. Veio falar de AD Reinhart o pintor americano mais conhecido pelas suas dark paintings. Aparentemente negras e monocromáticas, um olhar mais cuidado revela profundezas criadas por camada sobre camada de tinta, muito diluída, sobre a superfície do canvas. Aos poucos o olhar habitua-se e descobre formas e ambientes, antes escondidos.

Vale a pena. Um sentido que se ganha com o tempo de contemplação. A surpresa de descobrir sempre algo mais, até do próprio autor, que podia alternar do mais sério tema com o desenho de “cartoons ” humorísticos.

 

 

 

 

 

(Stor falou no pequeno auditório da  Gulbenkian)

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Hopper é os meus olhos de miúdo

Está bem, está no seu direito. Mas eu estou-me borrifando para que ache que é um pintor de um realismo “fácil“. Está armado em intelectual. Deixe de ser pretensioso. Olhe, eu gosto. Minto. Gosto muito. Com a gostura de um miúdo. E explico-lhe porquê. Tem dois minutos? É que Hopper não é um pintor. É um grande contador de histórias.  Uma espécie de Steinbeck da costa leste.

Repare bem. Quem é a mulher de chapéu amarelo? Espera, sem qualquer esperança, um amante? É Novembro e lá fora as primeiras neves de NY já se fizeram lama. A mim parece-me ouvir uma gargalhada de bêbedo mais ao fundo da sala. Ouve? Daqui não o vemos. como não vemos o empregado, velho, gasto por um sempre de noites que nunca se fizeram amanhã. Lava um copo e pensa numa vida inteira que é azulejos pretos e brancos. Todos os sonhos de garoto desaguaram aqui, neste café de Manhattan. Nesse sentido fazem-se um. Ela também já foi mais nova. Acreditou no amor. Aceitou esperar. E hoje é Novembro e sente-se um casaco verde e cansado.

É tudo solidão, diz você. Não quero contrária-lo. Mas tem de olhar mais longe. Para o antes e o depois. Hopper não é um pintor. É um grande cineasta. O Pierrot já teve uma vida. Foi casado. Teve filhos. Uma família banal, quase chata de tão feliz. Olhe-o bem nos olhos e imagine os fotogramas que eles escondem. Está a vê-lo? A correr atrás de dois miúdos em Cape Cod? E o cão, vê o cão? É noitinha e a mãe dos miúdos, paixão de toda uma vida, acena-lhes da casinha branca. Todo ele é hoje. Pulsa vida e acredita que a felicidade é para sempre. A felicidade é um clam chowder no Maine. Está a ver o meu ponto? Há uma história, há um filme, atrás dos olhos tristes de Pierrot. É sempre assim com Hopper.

 

E digo-lhe mais. É verdade que há solidão. À superfície. Há desespero. Há desesperança. Em todos e cada um dos fotogramas que escolhe isolar a óleo. Só que é aí que reside o grande fascínio de Hopper. Onde você vê desespero, eu vejo redenção. O homem que ali vê pensou suicidar-se. Era 31 e a loja estava falida. Uma vergonha imensa de contar aos miúdos. Uma vergonha amarela, espessa de nuvens. Mas não tarda, são só mais uns fotogramas, é já no próximo capítulo, levantar-se-á. Trancará a porta da loja e regressará a casa. Decidir-se-á futuro.

Hopper é uma espécie de Deus pagão. Dá-nos a liberdade de fazer os milagres que a nossa imaginação permitir. E eu gosto dele com toda a alegria dos meus olhos de miúdo.

 

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O Expresso saiu de bandolete

Nesta página que o Nicolau Santos assina semanalmente, vem um poema da nossa Eugénia de Vasconcellos. As voltas que o mundo dá. Foi o Guilherme que o fotografou do outro lado do mundo, se acreditarmos que há uma linha do equador a separar o Norte do Sul. O reconhecimento do Nicolau à franca e intempestiva beleza deste poema – julgo que é a segunda vez que ele traz a Eugénia a esta página -, junta-se à boa crítica que o livro teve, a começar num belo artigo de José Mário Silva, em Abril, quando foi publicado.

O poema, se não o consegue ler na imagem que aqui reproduzimos, é este:

A merda da bandolete

Tinha uma bandolete,
fita preta e laço de seda.
Deixava-me a testa livre
e as ideias soltas
para teclar melhor,
sem interrupções
de cabelos ou mãos no rosto:
concentrada, reminiscente, ritmada,
teclava como quem ainda estivesse na aula de ballet:
jeté-coupé-coupé-assemblé-jeté-coupé-coupé-assemblé,
allegro, rápida, direita.

Era tão bonita a merda da bandolete
e partiu-se.
Tinha um amor e perguntei-lhe no dia em que a estreei:
gosta da minha bandolete? Comprei.
E de meu laço gosta?
Muito, puro preto de Rothko.
Foi-se a merda da bandolete
mais a merda do amor tão bom
aliterado ao ouvido com a história da arte
e os exercícios de barra e centro,
tudo jeté de uma penada, coupé, assemblé nunca mais.
Comprei uma bandolete
forrada de seda branco-pérola,
mas nenhum branco de Rothko
me prende o cabelo.
É só a merda duma bandolete.
Se o homem soubesse a falta que faz à mulher,
sentia-se um cabrão dum herói.

E este é o livro, O Quotidiano a Secar em Verso, que publiquei com gosto e admiração. Se querem que vos diga, ainda não se lhe fez, pela beleza e novidade da voz poética que traz, a justiça que lhe é devida.

 

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Secreto Investimento

SECRETO INVESTIMENTO

Não estou à mesa.
À mesa senta-se o establishment.
O que é que queres comigo?
Meu querido, eu contigo, não quero nada.
Não escrevo nos jornais, não apareço nos, ui-ui, audio-visuais,
não faço parte do clube dos poetas institucionais,
nem dos ensaístas, dos cronistas, enfim, dos escritores das feiras,
da procissão dos festivais. Nada. Nem dinheiro nem poder.
Só o secreto investimento em formas improváveis.
Então, o que é que tu queres comigo?
Não vou mentir-te: também eu procurei trabalho a escrever,
achei, cada um deve fazer o que traz para fazer.
Mas só por ser
uma anacrónica idiota pré-pós-verdade.
Eu ainda vivo há duzentos anos:
os artistas entram pela porta da cozinha,
e juntos comem uma refeição na sala dos criados –
o privilégio é serem ouvidos no salão depois de subirem
pelas escadas de serviço. Nos dias de hoje,
como sozinha rodeada de mortos por todos os lados.
Sei que há vivos. Onde estão vocês, porra, que não é fácil esta cozinha…
Queres que suba? Querem ouvir-me?
Meus queridos, data venia,
ide-vos à merda.

Pela parte que me toca, e há-de ser uma proverbial
costela arrogante, quem não se sente
não é filho de boa gente,
falta-me a vocação para ir na morte
embrulhada em mortalha de empréstimo
apesar da linhagem que honrada o foi,
um século após o outro –
como dizia a histérica incensada a métrica da treta sonética,
para ser cinza, pó e nada,
que alvorada é mentira, se for preciso, vou nua,
porque meus queridos, comigo não, de mim, mais nada
além do secreto investimento em formas improváveis.
Portanto, ide-vos à merda.

Este caldo navegável
em tudo vale o mesmo, em que tudo é permutável,
em que a semântica oculta o que não é negociável,
quando a mentira é pós-verdade, e um nobel folk pop…
elejam os vossos trumps, as marinas, os podemos, os erdogans,
e chamem documentário à limonada da Beyoncé, poesia e literatura
à vergonha que aí se vê, comam-nos e bebam-nos,
meus queridos, amém,
que os porcos comem-nos
e andam gordos.

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O sonho de Zweig (*)

Quando tento encontrar uma fórmula prática que descreva a época na qual cresci (…) penso ter encontrado a mais precisa se disser: foi o período áureo da segurança. Tudo na nossa democracia (…) parecia construído para durar para sempre, sendo o próprio Estado o garante dessa estabilidade. Os direitos que ele assegurava aos seus cidadãos eram ratificados pelo parlamento, representação livremente eleita do povo, e cada obrigação estava definida com precisão. (…) Ninguém acreditava em guerras, em revoluções e subversões. Todo o radicalismo, toda a violência pareciam já não ser possíveis numa época de razão.”

Embora pareçam e pudessem ser, estas palavras não são de hoje. São de Stefan Zweig, descrevem o mundo esperançoso que foi a sociedade austríaca do fin de siècle, e foram escritas no início dos anos 40, pouco tempo antes do suicídio do escritor. Numa altura em que o Mundo de Zweig já era de ontem, destruído pelos horrores da 1ª guerra mundial que se abatera – imprevisível e violentamente – sobre a Europa. Numa altura em que o mundo e a Europa mergulhavam já, outra vez, nos indizíveis horrores da segunda guerra Mundial.

Seguramente não por acaso, Zweig teve a lucidez profética, já em 1934, de pugnar por um qualquer tipo de unificação europeia que “pudesse atenuar as dificuldades económicas, reduzir os riscos de guerra e dissipar as inquietudes nascidas da ameaça de conflitos, que são elas mesmas uma das causas da crise económica”. A sua autoatribuída tarefa foi, até à sua morte, a de “fazer passar estas ideias da esfera das discussões estéreis à da ação criadora”.

As palavras, a utopia europeia e pacifista, o apelo à ação de Zweig, são de ontem. Mas, paradoxalmente, nunca voltaram a ser tão de hoje. A Europa é, sempre foi, um grande projeto de prosperidade, de democracia e de paz. Mas porventura, nunca como hoje, por entre a crise económica, as dúvidas de identidade, o ressurgir dos nacionalismos, as perplexidades das migrações, as ameaças do terrorismo, esteve tão ameaçada essa ideia. A ideia de que a Europa, a Democracia e a Paz não são acquis civilizacionais eternos, mas ideais permanentemente ameaçados que precisam de ser construídos e reconstruídos em permanência.

É esse o debate que importa relançar com vigor. É essa reflexão sobre o futuro da Europa, que saia da “esfera das discussões estéreis” para a esfera da “ação criadora” que importa fazer renascer com sentido útil e prático.

(*) Já tinha escrito uma boa parte deste texto, há uns anos, na Visão. Está – perdoem-me a imodéstia – mais actual do que nunca. Está agora na altura de passar para a esfera da acção criadora. Vamos falando.

 

 

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Aforismo Surrealista XII

 

 

Agostinho F. costumava passar na igreja todos os dias. À tardinha. Antes da missa das oito. Todos os dias a mesma pergunta. Há santos sem passado? A coisa atormentava-o. A dúvida, dilacerante, enchia-o de um roxo cardinalício. Há santos sem passado? Todos os dias sem resposta. Deus não passava por ali.

Um dia de Outubro aconteceu um milagre na peixaria de Hipona. Agostinho F. atravessou com pesada dificuldade, a multidão ululante. Chegou atrasado à igreja. No preciso lugar onde costumava sentar-se, rezava já, de joelhos, um par de pernas loiras. Altas, esguias, bronzeadas, irmanadas na fé. Tocou-lhes ao de leve. A medo. Do fundo da caixa de esmolas, soou uma voz rouca, cavernosa, irada, olímpica. Não há é pecadores sem futuro. Agostinho F. deixou-se coisas, beijou demorada e lascivamente a coxa direita e saiu para a rua com uma baguette quentinha a pulsar sob o sovaco.

 

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O deleite de Hitchcock

Somos todos Cary Grant. Já vamos a meio do filme e ainda não sabemos em que história estamos enfiados. Nem sequer que personagem andamos a representar.

Foi o que, para deleite de Hitchcock, Cary Grant lhe disse, já as filmagens de “North by Northwest” iam a mais de meio. A cara de Hitchcock abriu-se no doce sorriso de quem mete o dente a uma rabanada no Natal. O filme, que chamámos e bem “Intriga Internacional”, era mesmo sobre essa confusão. Que o actor Cary Grant estivesse completamente perdido só acrescentava autenticidade a uma intriga que faz, nesse filme de 1959, inveja à pós-verdade que nos arrastará por maus caminhos em 2017.

Os factos são límpidos: Cary Grant é, como só Cary Grant podia ser, um publicitário, um homem do marketing. E, se fosse hoje, podia até ter desenhado a campanha de Obama, só não podia, por se vestir tão bem, ter feito a de Trump.

Facto: Cary Grant é, no filme, um publicitário bon vivant. Mas as outras personagens de “Intriga internacional” não querem saber de factos. Por pura emoção – medo conspirativo, calculismo e manipulação –, duas partes em conflito, os espiões comunistas e a CIA, colam-no à inventada personagem de um agente na clandestinidade, envolvendo-o em rocambolescas perseguições que talvez lhe venham a custar a vida. E mesmo a opinião pública, essa distraída tia de Cascais que faz de mãe dele, deixa de acreditar no filho, nos veementes protestos e denúncias dele. Face à pós-verdade que são as mentiras dos espiões comunistas e da CIA imperialista, as verdades que o filho conta são maravilhosas anedotas, que fazem rir a adorável mãe e convertem “Intriga Internacional” numa obra-prima da comédia. Ou seja, quando verdades e mentiras estão tão bem misturadas como os ingredientes de um molho vinagrete, não há nada mais cómico do que dizer a verdade a um incrédulo. É o que Cary Grant descobre ao dizer a verdade à mãe ou a ingénuos polícias de rua.

Hitchcock confessou ter tratado o público do filme como se fosse um órgão gigante em que tocava uma nota e obtinha uma reacção. “Um dia, continuou ele, nem precisaremos de fazer um filme – implantamos-lhes eléctrodos no cérebro e eles gritam ‘ooooh’ e ‘aaaah’ e assustam-se e riem-se conforme o botão em que carregarmos. Não será maravilhoso?” Irá a vida, em 2017, roubar o filme que Hitchcock imaginou em 1959?

Publicado no Expresso, sábado, dia 7 de Janeiro

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preto no branco 1

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Eu acredito que Deus vê tudo

Lembro-me de ter escrito esta prosa no século passado, no extinto Semanário. A RTP 2, em Novembro de 1991, exibia um ciclo de filmes musicais com coreografias concebidas e realizadas por Busby Berkeley, génio artístico mais surrealista do que os surrealistas, mais freudiano do que Freud, mais warholiano do Andy Warhol. Um dos grandes espíritos livres do século XX. Não me arrependo de nada do que escrevi, muito menos das liberalidades eróticas que tenha tomado. Só tenho pena, como se costumava dizer, das que caíram no chão.

É bom possível que chova ( e já o número vai a meio)

Berkeley que Deus vê
Manuel S. Fonseca
 

 

Eu acredito que Deus vê tudo e que tudo o que Deus vê, vê melhor do que nós. Só há uma coisa que nós vemos tão bem e tanto como Deus: os números musicais concebidos por Busby Berkeley para os filmes da Warner nos anos 30. Berkeley filmou esses números do céu, do chamado ponto de vista de Deus. E se alguém vê menos, talvez seja Deus, por pudicamente querer evitar o chocante erotismo de dezenas de mulheres semidespidas dançando à beira de cascatas, ou de um interminável túnel de pernas (abertas) de coristas por onde desliza um rapaz, ou de milhares de namorados «pettin’ in the park» — como é que se diz em português? Vamos lá pelo homófono «petiscando no parque», ou deixamo-nos escorregar para a brejeirice farfalhuda da expressão «esfregando-se no parque»?

Berkeley filmou o que filmou para que víssemos tudo e o todo, numa multiplicação caleidoscópica de pormenores ou escolhendo a gloriosa visão do conjunto dada pelo olho de uma câmara que pode, se quiser, subir às nuvens. Com ele, a câmara pôde e quis. Uma câmara só, muito móvel, como era apanágio da «técnica Berkeley» criada, segundo a lenda, no primeiro dia em que entrou num estúdio de cinema e viu quatro câmaras a filmar, ao mesmo tempo e de ângulos diferentes, uma só acção. Olhou e disse logo que queria usar apenas uma, mandando as outras embora: «Depressa compreendi que, nos filmes, a única maneira de apanhar a audiência é através do “olho” da câmara. E com o “olho” da câmara eu podia ir onde queria», garantiu Berkeley.

E nós, onde é que queremos ir?

Em Orgia Dourada / Gold Diggers of 1933, Berkeley foi até onde quis. Como fora já em 42nd Street, o seu primeiro filme para a Warner, na qualidade de coreógrafo. Essa primeira obra reabilitou o filme musical «dançado» em Hollywood, e o sucesso de 42nd Street foi tão grande que a Warner pediu bis. No segundo filme, este Gold Diggers of 1933, a fórmula repetiu-se: há uma história de fundo à volta dos problemas de financiamento de um espectáculo em tempos de Depressão, história cuja realização é de Mervyn Leroy, e há depois vários números musicais, concebidos e filmados integralmente por Busby Berkeley, de «We’re in the Money», o espectacular número de abertura, reflectindo já os sinais de bonança do New Deal rooseveltiano, com as coristas a vestir (se assim se pode dizer) moedas de dólar como «cachesexe», dançando em cima de moedas ainda maiores, num cenário cujo fundo são outras e mais gigantescas moedas, até «My Forgotten Man», o último número do filme, «a grande parada de lágrimas», que só um cínico consegue ver sem comoção, como escreveram Tony Thomas e Jim Terry no “The Busby Berkeley Book”, número que talvez só seja dramaticamente superado por «The Lullaby of Broadway», a jóia da coroa da arte de Berkeley, pelo qual vamos ter de esperar até à exibição de Gold Diggers of 1935.

Na verdade, o número começa aqui

Gold Digger of 1933, não sendo a apoteose do erotismo berkeleiano, soma à associação
entre a carne e o dinheiro de «We’re in the Money», a disposição orgíaca de «Pettin’ in the Park», número que Berkeley aproveita para converter o Central Park num Jardim de Delícias, com um moderno Cupido a perder-se (ou a encontrar-se) na floresta de pernas de raparigas e com as famosas silhuetas de nus no vestiário. E «Shadow Waltz», número aparentemente querubínico, começando num genial movimento de câmara que revela um cenário povoado por um exército de violinistas diáfanas, também é, no final, no cenário negro, só com os violinos iluminados desenhando todos um único e imenso violino que evoca descaradamente o corpo de uma mulher, também é, dizia eu, a expressão de uma sexualidade mais vital do que perversa, mais inocente do que escusa, muito embora Jack Cole (coreógrafo de filmes de Gene Kelly e de Marilyn Monroe) se tenha referido às obsessões eróticas do cinema de Berkeley nestes termos crus: «Ele arranjava montes de louras e filmava-as de todas as maneiras aceitáveis para a classe média. Não as podia despir completamente, mas punha-as de pernas abertas e com os seios pendentes. Tudo aquilo era a sua maneira de olhar eroticamente para as mulheres esplêndidas, servindo a câmara de substituto do pénis». Dito isto, quem é que não é classe média e se atreve a não cair nos braços desse Busby Berkeley que nos espera de filme feito?

Um Berkeley de filme feito

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