A tenra inclinação de Chaplin

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A inspiração de Chaplin e a inspiração de Nabokov

Já digo quem é, mas apanhei-o a falar e não o quero interromper: “Ela era uma grande e bela mulher com uns vinte e dois anos muito bem construídos. Tinha umas abóbadas superiores imensamente expansivas que o décolleté muito profundo do vestido de Verão tornava aliciantes e que, enquanto a conduzia a casa, desencadearam a minha mais libidinosa curiosidade…

O homem que assim fala é um homem a quem confiamos os nossos filhos. Legou à humanidade obras como “The Kid” ou “City Lights” que nos põem a alma a fazer solos de violino. Mas a música dos filmes dele não era necessariamente a que dançava na vida.

Faço um alerta: se trago à colação a vida sexual de Chaplin, pois era ele quem estava lá em cima a falar, é só por honra dessa vetusta firma, chamada arte. Talvez Chaplin tenha dançado de cama em cama, mas é a sua atracção por meninas extremamente jovens que vem ao caso. Primeiro foi Mildred Harris, que estaria entre os 15 e os 16 anos quando nasceu a inclinação dele por ela. Pretextando uma falsa gravidez, Mildred forçou-o a um casamento catastrófico. A caminho da conservatória, antevendo o que aí vinha, Chaplin disse: “Sinto um bocadinho de pena dela.

Se virem bem “The Kid”, hão-de ver um anjo de asinhas bem postas tentar o vagabundo que é Chaplin, também ele de brancas asas nas costas. Esse anjo é Lita Grey. Tinha 12 anos e a cara inocente que já o vagabundo enche de outros inocentes beijinhos. Três anos depois, Lita Grey devia ter sido a heroína de outra obra-prima, “The Gold Rush”, mas dava-se o caso de as jovens mulheres que andavam perto de Chaplin engravidarem. Foi o que aconteceu aos 15 aninhos de Lita. Chaplin, para driblar a punitiva lei, que o podia engavetar por 30 anos, casou com ela.

Muito mais ínvios do que os caminhos de Deus, só os caminhos da arte. O mais provável é que a grande História da Literatura nunca o reconheça, mas Lita Grey foi a fonte de inspiração de Vladimir Nabokov para criar a sua Lolita. Não é certo que o bigodinho que Nabokov promete a Humbert Humbert seja roubado à figura de Charlot, mas já é plausível que a tenra inclinação do herói do livro vá buscar material às realíssimas quedas em tentação de Chaplin. Ah, e Lita Grey era, de seu verdadeiro nome, Lillita. Lillita e Lolita: há nomes que não enganam.

As asas de Lita Grey

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A orgia parisiense

 

 

Arthur-Rimbaud-

As juvenis narinas de Jean-Arthur Rimbaud

Será que cheira a Revolução no mundo em que vivemos? Às juvenis narinas de Jean-Arthur Rimbaud cheiraram a revolução. Uma maiúscula e convulsa Revolução.

Havia meio ano que a Prússia se enfiara França dentro, ganhando batalhas e cercando Paris. Aprisionou Napoleão II e, em Janeiro de 1871, já a França tinha um governo republicano, os exangues políticos franceses estavam prontos a entregar Paris. Negociou-se um armistício, mas o povo de Paris recusou-se a entregar a cidade. Formou um governo popular e nasceu a Comuna de Paris. Foi essa a Revolução que o poeta Rimbaud cheirou. A Revolução tem um cheiro. É um cheiro intenso. É talvez, por isso, que dura pouco: não é um cheiro para a vida, é um cheiro de gritos, um cheiro de arrebatamento, de peito cheio de ar e bocas cheias de palavras. Nada é de ninguém, parecendo que tudo é de todos e uma arbitrária e insegura Igualdade espalha-se como um rio sem leito.

A Revolução a que Paris chamou Comuna durou dois meses. Levantou-se heróica a 18 de Março. A 21 de Maio, com a entrada dos “versailheses” na cidade, começa a semana sangrenta. Trinta mil revolucionários foram impiedosamente mortos. Franceses por franceses. Os communards pelos versaillais. Fuzilados, assassinados. Fuzilava-se um, logo outro. Como as cerejas, por ser tempo delas.

Rimbaud, tinha 17 anos, empolgou-se com os ideais da Comuna. Viu-os tombar com o fragor da cidade que o terramoto arrasa. Este é o poema que canta esses dias sangrentos. Entramos no poema por estrofes de um violento sarcasmo. Não me falem de ironia. Os versos de Rimbaud são de física repulsa. Ouvi falar de ironia e peço-vos que não falem de ironia. Estes são versos que cantam a cobardia, o impudor, a lerda infâmia. Nunca um exército, nunca um modo de vida foi ética e liricamente tão hediondamente retratado, como este exército de Versailles que conquista, estridente, a Cidade e inunda tudo de uma sujeira moral, sem sonho e sem ânsia.

Não há poema tão amargo e já tão desesperançado como este A Orgia Parisiense. Rimbaud ainda acena à cidade dolorosa com essa «cabeça e dois seios atirando para o Futuro», mas essa metafórica mulher já não franqueia o verso para vir aliciar a rua. O Futuro, se arde, é sinistramente, num azul gasoso e fúnebre.

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Os mortos são como as cerejas, não são?

A orgia parisiense
ou
Paris repovoa-se

Rimbaud

Oh, cobardes, ei-la. Vomita-vos a estação!
O sol enxugou com seu pulmão ardente
os passeios que ocuparam um dia os Bárbaros.
Esta é a Cidade santa, sentada a ocidente.

Vamos! Já se extinguiram os refluxos dos incêndios,
vede os cais, vede as avenidas, vede
as casas, o azul ligeiro que se irradia,
e que uma noite, o vermelho das bombas estrelou.

Escondam os palácios mortos nos nichos das pranchas!
O velho dia atarantado refresca os olhares.
Eis o rebanho ruivo de impúdicas ancas:
sede loucos, e sereis engraçados, sendo indignados.

Bando de cadelas em cio a comer cataplasmas,
o grito das casas de ouro reclama-vos. Roubai!
Comei! Eis a noite alegre de fundos espasmos
que desce à rua. Ó bebedores desolados

Bebei! Quando a luz chega intensa e louca
revistando a vosso lado os luxos faiscantes,
não ireis babar-vos, sem gesto, nem palavras,
nos vosso copos, olhos perdidos na branca lonjura.

Engoli! Pela Rainha de nádegas em cascata!
Escutai como soam os soluços estúpidos,
desgarrados! Ouvi como nas noites ardentes
saltam com estertores, velhos, fantoches, servos!

Oh corações sujos, Bocas abomináveis,
Mastigai mais forte, bocas fétidas!
Que tragam mais vinho a estes lerdos ignóbeis:
Derretem-se em infâmia os vossos ventres, oh Vencedores!

Abri as vossas narinas às supremas náuseas
Encharcai de venenos fortes as cordas dos vossos pescoços!
Pousando nas vossas nucas infantis as mãos cruzadas
O Poeta grita-vos: ah cobardes, sejam loucos!

Como escarafunchais o ventre da Fêmea,
ainda temeis dela uma convulsão
e o grito, asfixiando a vossa ninhada infame
sob o seu peito, numa horrível pressão.

Sifilíticos, loucos, reis, ventríloquos.
O que podem fazer à Paris puta,
as vossas almas e corpos, venenos e trapos?
Ela vos rejeitará, coléricos apodrecidos!

E quando estiverem de rastos, dilacerado nas entranhas,
Os flancos mortos, reclamando o vosso dinheiro, perdidos,
a cortesã escarlate de grandes tetas bélicas
indiferente ao vosso estupor, torcerá os árduos punhos.

Quando os teus pés tiverem dançado forte nas fúrias,
Paris! Quando receberes golpes de navalha,
Quando jazeres, retendo nas faces claras
um pouco da bondade da fera renovada,

Oh cidade dolorosa, oh cidade quase morta,
de cabeça e dois seios atirados para o Futuro,
abrindo sobre a tua palidez os suas mil portas,
Cidade que o Passado sombrio poderia abençoar:

Corpo remagnetizado por tão grandes penas
que voltas a beber a horrorosa vida! Tu sentes
brotar das tuas veias um fluxo de vermes lívidos
que pela luz do teu amor vêm rondar os gelados dedos.

E isso não é mau. Os teus vermes, lívidos vermes,
não estorvarão o teu sopro de Progresso
que as Estriges não fecharão o olho das Cariátides
onde caem lágrimas de ouro astral dos degraus de azul.

Ainda que seja terrível rever-te assim cobrida,
ainda que nenhuma cidade tenha sido mudada
numa úlcera tão hedionda em plena Natureza verde,
O poeta diz-te: «Esplêndida é a tua Beleza!»

A tempestade sagrou a tua poesia suprema;
O imenso bulício das forças vem em teu socorro;
A tua obra ferve, a tua morte urra, Cidade escolhida!
Junta estridências no coração desse pesado clarim.

O Poeta tomará o choro dos Infames,
o ódio dos Forçados, o clamor dos malditos
E os seus raios de amor flagelarão as Fêmeas.
Darão saltos as suas estrofes, olhai, olhai, bandidos!

– Sociedade, tudo está restabelecido: as orgias
choram a sua velha pieira no velho prostíbulo;
e o gás em delírio pelas muralhas incendiadas
arde sinistramente em direcção ao fúnebre azul.

tradução de Manuel S. Fonseca

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SLB forever. Cervi, Horta e pluribus unum

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Pois muito bem, foi o o pé do Éder, os patins do Diogo, os lisinhos e secos abdominais das maravilhosas mulheres do atletismo. É de campeões!

Entoou-se mais vezes o Hino do que num acampamento da canora e risonha Mocidade, e sem o cinzento fastio de antigamente. Supimpa!

Houve medalhas, o Presidente Marcelo já a ver tremido o seu franciscano orçamento, as ruas numa exaltação e romaria que faz inveja ao penoso Mundo em que vivemos. Ah, Portugal, Portugal!

Tudo isto enche-nos o peito de alegria. E de ar, para aguentar dois ou três minutos, sem respirar, debaixo da vaga de ecumenismo que submergiu Portugal e os portugueses. Deus seja abençoado!

Mas agora, pedia que respirassem fundo e descomprimissem – mindfulness. A partir de segunda-feira, depois destas férias patrióticas em que arrebatámos a Europa (e também um pouco Dili), voltamos à nossa raison de vivre. Não somos todos iguais, porque somos mesmo diferentes. Alguns de nós, estão a um passo de voltar a ver as camisolas vermelhas a deslizar pelo relvado. O SLB regressa. Por uma razão, o SLB é forever.

Já não vem o Gaitán, que passou seis hermosos anos a servir o SLB, como Jacob passou sete a servir Labão, só por Labão ser o pai de Raquel e ser ela serrana bela. Agora, presos pelo mesmo amoroso feitiço, chegam Cervi, André Horta, o renovado Salvio, o enfeitiçado Nelson sem medo, o misterioso Zivkovic. Nós, os que sabemos que SLB é forever, voltamos ao repetido prazer de ver jogar tão bem e ver ganhar melhor. Repetido prazer: jogar com a elegância de Fred Astaire, com o vigor de Gene Kelly. A dançar no relvado, como quem sobe a escadaria para o paraíso.

A caminho do 36. Deslarguem! Daqui para a frente, a festa é vermelha: bem vindos os convidados para a ceia do Senhor. SLB forever.

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Central Parque

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Já foi ao Central Parque com Joana Stichini Vilela e Pedro Rolo Duarte? Nem precisa sair do sofá… No programa emitido a 16 de Julho, o nosso Manuel S. Fonseca e a sua Guerra & Paz são convidados com António Lobato Faria, do Clube do Livro. E posso dizer sem mentir que o nosso Pedro Norton também lá está, a preto e branco, porém.

E se ouvir tudinho com atenção, vai descobrir os hábitos e diferenças entre os leitores, até sobre homens e mulheres. Há mais? Há, mas não conto.

Aqui tem o link para ver o Central Parque a gosto, olhe, com esta caloraça, al fresco.

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Um Mundo Dentro do Mundo*

Passar os dias no estúdio. O campo, a paisagem lá fora que muda com as estações, que se transforma com a luz, que hora a hora se vai desenhando numa vida própria. Passar os dias como se fosse um hábito. Criar um mundo dentro de outro.

Os mesmos lugares, de Chadds Ford em Pennsylvania, a Cushing, Maine, as mesmas casas e pessoas, a mesma terra , o mesmo afastamento dos grandes centros urbanos. Uma obra que nasce só, depois de mil horas de repetição e apuro, como um licor envelhecido numa pipa de madeira.

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o estúdio

Uma família ligada à pintura, à leitura, ao isolamento mas com a curiosidade que leva a descobrir outros horizontes. N.c. Wyeth, Andrew Wyeth and Jamie Wyeth, avô, pai e neto, todos ligados ao desenho, ao método de um trabalho rigoroso, repetitivo, contínuo. Uma tela em branco que vai sendo apurada, pouco a pouco, transformando-se, seja aguarela, óleo ou desenho.

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estudos para pinturas

Longe da azáfama do mundo da arte mas influenciando esse mesmo mundo lá fora. Aos vinte anos Andrew tinha-se tornado precocemente célebre. Na sua primeira exposição individual, na Macbeth Gallery , em Nova York, em Outubro de 1937, todas as suas aguarelas forma vendidas. Falava-se de Hopper, de Paul Cadmus mas nascia algo de novo também.

Pintava os modelos nas suas próprias casas ou ambientes “over and over again”.O seu realismo é paradoxalmente abstracto, como ele próprio dizia:

“I honestly consider myself an abstractionist…there is another core: an excitement that is definitely abstract”.

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Com a sua pintura “Christina’s World “, em 1948, chamou a atenção de Alfred Barr, o carismático director do então ainda jovem MOMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York, e nunca mais teve descanso. Manteve no entanto o mesmo modo de vida, da casa de Philadelphia para a casa de Maine, consoante a mudança do tempo e das estações, que se repetiam na sua obra.20160613_222837000_iOS

sinal na porta do estúdio

Christina existia, vizinha da casa dos Wyeth em Maine, assim como é real também a casa onde vivia com a sua família. Wyeth pintou-as a ambas por mais de 25 anos.

Em 1986 Wyeth aparece uma vez mais nas notícias ao serem revelados mais de 200 trabalhos que o pintor tinha desenvolvido em mais de 15 anos, em segredo, todos centrados numa outra personagem real da sua vida, uma vizinha de origem alemã Helga Testorf.

As publicações e exposições que se seguiram , e que deram origem ao catálogo “The Helga Pictures” tornaram Wyeth uma personagem ainda mais conhecida e até controversa por muitos criticarem o olhar de “voyeur” do autor perante o seu modelo.

Andrew   sobrevivia a tudo isso, enquanto que paradoxalmente continuava a passar todo o seu tempo entre as duas propriedades, por paisagens que lhe eram familiares e que nunca quis largar.

Morreu em casa com 91 anos, em 2009.

*Texto influenciado pela visita à exposição no Museu Thyssen “Andrew y Jamie en el  Studio”.
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Oscar Wilde anarquista

Esta pequeníssima deriva biográfica faz também parte do Livro Amarelo de que já falei aqui e cuja capa volto (enjoativamente) a plasmar no fim deste post. Garanto que é a última vez. Está dito e está escrito.

Oscar Wilde

 

A figura de Oscar Wilde confunde-se com um movimento muito específico da literatura e da arte da Inglaterra vitoriana. A esse movimento chamou-se Esteticismo. Pode, sem nenhum exagero, dizer-se que Esteticismo é o nome do meio de Oscar Wilde. O Esteticismo foi um movimento dos anos 80 do século XIX. Envolveu escritores, pensadores, pintores e proclamou a supremacia da arte sobre a vida, defendendo à outrance o ideal da arte pela arte, ou seja, a ideia de uma arte autónoma da moral e dos valores sociais. É um movimento hedonista e que chapa o seu hedonismo na cara da hipocrisia e farisaísmo da sociedade vitoriana.

Com Wilde, o esteticismo é socialista ou anarquista, se nimbarmos esse socialismo ou anarquismo de uma sensibilidade estética que redime a sociedade, dando ao Indivíduo a feliz possibilidade da plena expressão da sua potência. Três revistas foram os arautos desta mensagem esteta. A primeira foi The  Yellow Book (1894-97), concebida e ilustrada por Aubrey Beardsley, e a que a colecção que este livro começa foi buscar alguma inspiração.  A segunda era The Savoy (em que colaboraram W.B. Yeats e Joseph Conrada na década de 90, do século XIX) e a terceira The Dome (1897-98) ligando palavra e imagem, música e teatro. Foram, como se desse, símbolos do movimento Esteticista e Decadentista, um movimento que era também uma mensagem de sensualismo e boémia (a Savoy era dirigida por Leonard Smithers, um pornógrafo amigo de Wilde), tanto quanto Oscar Wilde foi sensualista e boémio.

Oscar Fingal O’Flaherty Wilde nasceu em Dublin, a 16 de Outubro de 1854. O pai era cirurgião, a mãe alimentava um salão literário e este irlandês viria a ser dramaturgo, poeta, romancista e ensaísta, depois de ter feito estudos clássicos, brilhantes, rezam os registos, em Oxford. Foi, simultaneamente, senhor de uma personalidade extravagante e exuberante a roçar o exibicionista. Conversava bem e provocava melhor. Essa originalidade seduziu, e muitas vezes escandalizou, a Londres onde foi viver.

Escrevera, em 1891, O Retrato de Dorian Grey, agora publicado em nova tradução pela Guerra e Paz editores. Mas o seu grande êxito começa quando, em 1892, Lady Windemere’s Fan, uma das suas peças, pejada de aforismos brilhantes, é levada à cena. Estreia, depois, e numa sequência ininterrupta, A Woman of No Importance, An Ideal Husband e The Importance of Being Earnest.  São comédias de costumes e de situação que lhe granjearam gigantesca popularidade e gigantesco proveito.

Casado com Constance Lloyd, pai de dois filhos, um episódio de paixão homossexual, levou-o à prisão, em 1895. Pela cáustica originalidade das suas respostas, é extraordinário o texto do interrogatório que, no julgamento, lhe é feito pelo advogado de defesa do Marquês de Queensberry, pai de Lord Alfred Douglas, o jovem amante de Wilde.

Se a condenação foi arrasadora para a reputação de Wilde (e também para o movimento decadentista e esteticista), a prisão amargou-lhe a vida. Libertado em 1898, troca Londres por Paris, depois de ver recusada a sua entrada na Sociedade de Jesus. Vive em condições difíceis, com apoio de André Gide. Morre em Paris, a 30 de Novembro de 1900, aos 44 anos, de uma infecção na orelha. “Morro acima dos meus meios”, terá dito ou diz a lenda que disse.

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Especial e para guardar

Edição especial para guardar

Nem o DN nem a linda crónica do nosso Manuel S. Fonseca merecem uma photo tão má, mas que diabo, sou uma Tia desconseguida da fotografia…

O nosso EET continua em festa, a celebrar a Nossa Selecção.
Na Edição Especial para Guardar, do Diário de Notícias de hoje, 17 de Julho de 2016, e guardar, já o sabemos, é ler muitas vezes e por muitos e muitos anos, temos o belo texto do nosso
Manuel S. Fonseca.

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Ler e pasmar e ficar feliz

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Há linhas escritas tão à frente no tempo que o nem o presente chega para o futuro que têm…

Teixeira de Pascoaes

“Camões é um abismo de tristeza, quer dizer: uma altitude lançada num sentido oposto ao do nosso esqueleto.”

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Fernando Pessoa anarquista

3D Book Banqueiro

Do Livro Amarelo em que juntei o anarquismo de Fernando Pessoa e Oscar Wilde, copio esta pequenina deriva pela biografia de Fernando Pessoa. Como é sabido, e aqui se confirma, o que Pessoa fazia era “outrar”. Se isso é uma profissão? É mais uma forma DE VIDA. Como sabem, melhor do que eu, “outrar” é ser intimamente outro. Todos o tentamos fazer. Não se ofenderão se eu disserque Pessoa fazia-o, digamos, muito melhor do que qualquer um de nós.

 

Fernando Pessoa, um esboço de biografia
Manuel S. Fonseca

Fernando António Nogueira Pessoa nasceu a 13 de Junho de 1888, em Lisboa. Foi também em Lisboa que morreu, a 30 de Novembro de 1935, já Salazar estava no poder em Portugal e já Adolf Hitler era chanceler da Alemanha. Perdeu cedíssimo o pai, que morreu tuberculoso. A mãe voltou a casar e Fernando, menino de sua mãe, foi com a família para Durban, onde fez os estudos secundários e chegou a frequentar o equivalente ao primeiro ano de universidade. Regressa a Portugal, sozinho, em 1905, com 17 anos. Matricula-se no Curso Superior de Letras, que depressa abandona. Nunca casou, nem mesmo com Ofélia, e deu-se maravilhosamente com dois tios e com os sobrinhos. Frequentou a Brasileira do Chiado e o Martinho da Arcada. Em 1915, participa no pequeno grupo que cria e lança, com competente escândalo vanguardista, a revista Orpheu, peça fundadora do modernismo em Portugal. Pessoa e o engenheiro Álvaro de Campos foram dois dos autores publicados.

Em 1917, publica na revista Portugal Futurista. Em 1924 publica a revista Athena, animada pelas principais máscaras pessoanas, Caeiro, Campos, Reis e Pessoa ele-mesmo. Em 1927, publica na revista Presença, lançada a 10 de Março desse ano. Em 1934 Pessoa publica o seu primeiro livro em Portugal, A Mensagem. Nestas aventuras de vanguarda acompanharam-no figuras como Mário Sá-Carneiro, Almada Negreiros, Santa-Rita Pintor, Ângelo Lima, Amadeu Souza-Cardoso, José Pacheco, António Ferro, Raul Leal.

Fernando Pessoa foi nacionalista e sebastianista, polemista político, pela sua boca ou pela boca de Álvaro de Campos. Foi também filósofo de ofício quando foi António Mora, ou por fatalismo e desassossego quando se assinou Bernardo Soares, intempestiva e futuristicamente quando calhou Campos e Ele-mesmo digladiaram-se intestinamente.

Foi complexo e simples. Tanto lhe deram arroubos sonoros, tonitruantes, uivos marinhos e um versolibrismo de grande fôlego à Whitman, como escreveu singelas quadras populares.

Fernando Pessoa, enquanto jovem artista, foi um defensor do movimento da Renascença Portuguesa, que integrou, PARA MAIS TARDE SER EXUBERANTEMENTE PAGÃO E AMORAL.

Escreveu novelas e sabia, como este livro bem demonstra, o que era ser o Banqueiro, que bem poderia ter sido, por tanto ter estudado o comércio e a contabilidade sobre o que deixou também prosa competente. Não se pode dizer que tenha tido muito êxito financeiro prático: levou à falência as duas empresas que criou, uma tipografia (Ibis) e uma editora e agência (Olisipo). Deu-se à astrologia. E o esoterismo deu-lhe a ele conselhos e vozes do além de que deixou testemunho.

Uma teoria: Fernando Pessoa estava rodeado de tipos que não sabiam escrever. Vieram ter com ele Caeiro, Reis, o engenheiro Álvaro, o escriturário Bernardo Soares. Não sabiam escrever. Pessoa decide então, fingindo que não, escrever por todos eles, dando a cada um estilo próprio. Outrar, ser outro, é esse processo de FIN GI MEN TO.

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Uma cama perversa

Já sabemos que isto com a América não vai lá com paninhos quentes. Bem pode a inspirada França inventar o cinema que a invenção acaba no colo americano.

Eu jurarei sempre pelos irmãos Lumière, mas Thomas Edison reclama, com tanto vasto descaramento como razão, ter sido o primeiro.

Sim, talvez o kinetoscópio de Edison já estivesse a provocar orgásticas convulsões aos espectadores, quando o cinematógrafo dos Lumière chegou à gare. Mas não filmaram a mesma coisa, nem da mesma maneira.

Edison, pioneiríssimo, fechou o kinetoscópio num estúdio: pano negro em fundo, os actores a moverem-se à frente da câmara, assim se fizerem, em 1894, curtos filmes de 20 a 40 segundos. Filmou ali a trapezista Alcide Capitaine, mulher perfeita. Fato justo de lantejoulas, Capitaine desdobra o ágil corpinho em acrobacias, que os 5 segundos que vi me autorizam a qualificar de pasmosas. Filmou mais mulheres: Anne Oakley, elegante, de Winchester na mão, pum-pum-pum, a estilhaçar umas bolas de vidro lançadas para a direita alta; a espanhola Carmencita dançou um vago flamenco; uma eventual marroquina, a dança do ventre. E homens? Há o exibicionismo do musculoso Eugen Sandow, pai do culturismo, e há combates de boxe.

Mulheres, tiros e punhos, era o que Edison oferecia ao público. Reconhece-se a matriz da futura Hollywood. Mas como é que Edison mostrava os filmes? Por um tostão, espreitando, em pé, para um óculo, o espectador tinha a visão solitária do filmezinho de 40 segundos. Não, não era cinema: Era, pelo buraco da fechadura, menos do que uma rapidinha.

Os Lumière converteram a câmara numa janela para o mundo, filmando a entrada de um comboio na gare; os mergulhos de um excitado grupo no mar; num terraço, o duche a baldes dos banhistas regressados da praia; o roubo dos cavalos a um cocheiro adormecido. Era o mundo, a realidade encenada. Depois, com um projector, mostraram os filmes a uma sala cheia de gente sentada e em êxtase.

Com os temas de Edison e a sala escura dos Lumière, de uma cadeira à outra faiscou uma rede de excitação íntima e colectiva, um fulminante raio de fuga e sensualidade. O acrisolado eu de cada espectador sonhar-se-ia outro à pala de um fluxo de luz e sombras derramadas num oscilante lençol branco. Nascera o cinema, cama perversa em que podemos ser quem nunca realmente seremos.

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A minha gente

A MINHA GENTE
à minha gente

Está um calor do caraças. Estava a trabalhar de gosto com este calor do caraças, a ventoinha voltada para mim, a arrumar uma linha após a outra, assim mesmo, como eu gosto, quando elas se escrevem sozinhas, sem a minha interferência – quero dizer, antes, andei para trás e para diante na cozinha enquanto comia uma peripatética banana doce que só da Madeira, e com os pensamentos a falar em voz alta dentro da cabeça, uma coisa entre um raciocínio e um dictafone mental.

Já a escrever, tinha, como mil vezes tive e terei, o canal Mezzo nas minhas costas tranquilas – nunca fui apunhalada por um concerto ainda que algumas sopranos me tenham arrepiado o bicho do ouvido. Quando terminei o texto, o concerto chegara ao fim e começara o intermezzo: de repente, desta malta que conheço tão bem, uma versão de Alfonsina y el Mar que me tinha fugido… eu que ponho flores a Mercedes Sosa de cada vez que digo o nome dela e em cada vez que a ouço ou penso, como agora, achei logo que era um presente seu para a minha colecção de alfonsinas – eu própria, se cantasse, a cantaria, muchas gracias, querida.

E pude esparramar-me no sofá de olhos fechados, só a respirar fundamente e a deixar o pensamento ir, ir por onde lhe apetecesse, de uma associação a outra… Na semana passada o meu médico, um diabo fluente em russo, regressou de umas férias em São Petersburgo e perguntei-lhe:
– Foi ao Mariinski?
E ele:
– Claro, três vezes. Entre isso e os dias que passei no Hermitage, já cagava cultura, mas queria aproveitar.
– Só ópera e concertos ou foi ao ballet?
– Fui, fui…
– Quem?
– A Vishneva, está velha, a gaja, deve ter para aí uns quarentas bem entrados.
– Está doido? Nem quarenta fez e tem muita perna ainda!
Eu que não digo uma palavra de russo também vou muito ao Mariinski, aqui no Mezzo. Foi assim. De associação em associação até que o pensamento me entrou nos seus próprios e insondáveis mistérios, que o mistério também é um escuro macio onde a alma se refaz e o mundo se inventa.

Eu escrevia. Sempre escrevi. E tinha medo. Também sempre tive medo. Escrevia para ser lida e tinha tanto medo de ser lida: e se não prestasse para nada? De vez em quando, aposto, quero acreditar, até o meu McCarthy há-de escrever uma porcaria qualquer. Mas então, eu era  de absolutos. Porque era jovem e tinha medo. Ou se prestava ou não. E se não prestasse? A vida, claro, servia-me a pedido, e ao meu medo dizia sim, o que é, de facto, um grandíssimo não, e nunca consegui publicar o que quer que fosse onde quer que fosse. Não em cada tentativa feita de susto ao sair do silêncio para a possibilidade de ser voz.

O amor, porém, é maior do que o medo. E se eu amo, e sempre amei a poesia. Então, enchi-me de uma coragem de empréstimo e vá de traduzir poetas sul-americanos numa mínima antologia pessoalíssima e de liberdade. Entre esses poetas, Alfonsina Storni, esta mesma aqui imortalizada em canto e em mar. Depois com o balanço fui-me aos norte-americanos para compôr a rosa. Ninguém quis publicar aquela versão-tradução Feitos de Norte e Feitos de Sul. Ninguém. E pela primeira santíssima vez, não me debulhei nem quis saber disso para nada. Nunca lhes amei a poesia melhor do que enquanto a escrevi em português numa febre lúcida e feliz. Um sopro.

Foi também a primeira vez em que, apesar do não, soube que estava tudo bem. Que tudo estaria sempre bem. Aquela gente, a das páginas e do canto, a da América do Sul e do Norte, e de qualquer lugar do tempo havido e por haver, era a minha gente, e a minha gente, tal como tinha vindo adiante para fazer caminho, had my back como eu a deles. E é por isso que me posso sentar de costas a escrever.

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Bruxas no ar

goya feiticeiras

as Bruxas no Ar, de Goya

Lembrei-me de uma pergunta estranhíssima que uma vez me fizeram: qual foi “o mais estranho melhor livro” que já leste?
Não era o pior livro, nem um livro de que não tivesse gostado. Respondi então como respondo hoje: li, no final de 1975, em Angola, “Sobre as feiticeiras”, de Jules Michelet, e é esse o livro, “o mais estranho melhor livro” que já li.
Michelet nasceu no fim do século XVIII e morreu, com 76 anos, no século seguinte. Era um historiador, mas era, sobretudo, um prolífico e elegante escritor. A inspiração dele, diz-se, era um bocadinho menos elegante. Quando lhe escasseava, Michelet ia a um urinol público perto de casa, enchia o peito do ar fétido e voltava a correr para casa, para mais cem páginas.

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a bela capa do livro

Sobre as feiticeiras”, publicado em 1862, é um livro metódico, de factos (os relatos dos julgamentos em massa e dos milhares de autos de fé de feiticeiras na Europa) e um livro de satânica exaltação da psicologia da feiticeira a quem, como diz Barthes, Michelet confere um sexo superlativo: casam nelas o poder do macho e o poder da fêmea.
Saint Beuve disse que Michelet era um chato.  Por mais humilde que seja a minha opinião, penso exactamente o contrário. Pelo menos em “Sobre as feiticeiras” não o é. Mostra-nos o cortejo de horrores a que elas foram sujeitas, mas mesmo quando as mostra nuas e meio-mortas, agarra na nossa mão e põe-na naquele sítio em que logo percebemos que a feiticeira é aquela que distrai Jesus da insipidez dos seus santos: “Deus nos livre – escreveu ele – de vivermos num mundo em que todos os rostos humanos, desoladoramente semelhantes, têm essa igualdade adocicada de convento ou de sacristia.
Michelet arrasta-nos para a delirante roda do sabbat com promessas de orgia e a certeza da dança. É provável que mesmo depois de lermos “Sobre as feiticeiras” continuemos sem saber o que é que, para além do humano, estas mulheres trazem dentro delas. E ainda menos: como é que “isso” entrou? E nem sequer: por onde é que entrou? Mas temos a certeza de que, por elas, vale a pena correr o risco das torpes labaredas de uma fogueira.

jules michelet

O fétido Michelet

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A dolente monotonia

O que é sedutor na dolente monotonia é a felicidade que ela provoca

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Nasceu em Bissau o pé direito que fez Portugal campeão

euro 2016

Reunidos em concílio, os deuses tinham decidido que a França seria campeã europeia. Os deuses já não se reuniam em concílio desde que Luis de Camões se lembre, e Luis de Camões deixou de se lembrar já lá vão praticamente cinco séculos.

Desta vez, os deuses decidiram por unanimidade. Mesmo Vénus, com um olho em Cristiano, deixou-se empolgar pelo hercúleo meio-campo francês.

Mas mesmo quando les jeux sont faits, há sempre qualquer coisa que va plus. A meio catrineta nau portuguesa parecia desgovernada e aos 17 minutos sofre um golpe baixo. Cristiano Ronaldo aparece tombado no campo de batalha. Um jogo que devia ser guerreiro, glorioso e épico é aflorado pela aflitiva cor púrpura da tragédia.

Os velhos deuses vacilaram. A França é uma grande equipa, reunia os favores olímpicos, mas desequilibrar assim as forças em presença pareceu, mesmo aos deuses amorais, uma afronta à estética. Aos 17 minutos, os deuses decidiram abdicar e entregar aos 22 jogadores que estavam em campo a decisão. O que se passou, a partir dos 17 minutos de jogo, no Stade de France foi humano, muito humano. E Portugal ganhou.

É empolgante ganhar. A mim convida-me sempre a um delicioso silêncio. Se me pusessem uma câmara de televisão à frente, não conseguiria falar, nem saltar aos gritos de olé, olé, nem berrar contra o adversário. Poria um bezerro sorriso de felicidade. Sabe-me bem a vitória. Soube-me bem ontem à noite (tão leve e fresco o champagne que se faz na bela França!) e sabe-me agora ainda melhor nesta manhã de férias, antes de meter os calções e ir para a praia. O cheiro da vitória pela manhã!

E não é de napalm o meu cheiro de vitória. Ganhámos à França e se eu amo a França. Gosto da língua, belíssima, apaixonada, veemente, cheia de sexys buraquinhos filosóficos. Gosto da Normandia e da Bretanha, do sol de Nice, Cannes e Saint-Tropez, dessas colinas milionárias e cosmopolitas, para não falar de Paris, margem esquerda ou margem direita, luz do mundo, que nos deu as cores de Cezanne e Degas e depois as de Picasso, Modigliani e Matisse. Gosto da França de Flaubert, Balzac e Rimbaud. Gosto de champagne, de Proust, célebre pasteleiro que tão bem, sem as saber fazer, fazia madalenas.

E gosto da selecção nacional francesa. Tricolor, sim, mas branca e negra também. Retrato vivo, em 2016, de séculos da odiosa, amorosa, torturada e por isso humana relação da Europa e de África. Estão ali onze jogadores, mas há uns bons séculos de história, subterrânea, nas veias deles.

É a grandeza da França que faz grande a vitória de Portugal. Alguns franceses terão dito que Portugal jogava um futebol nojento. Nem lhes responderia, mas alguns portugueses gritam agora que ganhámos à França de merda. Discordo. Ganhámos à grande e imensa França que guarda os modos de quem já foi Senhora do Mundo e ainda tem na cabeça acordes de Debussy e Bizet, ou não tivesse o hino mais bonito do mundo, no qual o de Portugal se inspirou.

E ganhámos à nossa maneira dramática. Caído o comandante, onze guerreiros portugueses souberam seguir o que o racionalíssimo treinador português – o extraordinário engenheiro – lhes dizia e foram, como um vinho que precisa de estágio, jogando melhor minuto a minuto. Se o jogo tivesse cinco horas, Portugal acabaria a jogar um futebol que nem Pelé ou Maradona saberiam jogar.

Ganhámos, disse, à nossa maneira dramática. Patrício, o nosso guardião, os centrais, o gigantesco William, o veloz Raphaël Guerreiro (único português a ostentar no nome um orgulhoso umlaut), o sábio e ardiloso Nani, o imprevisível e filosófico Quaresma, a quem se deve já pedir um livro, foram os meus heróis. E tu, Renato, mesmo no dia em que te conseguiram apagar, serás sempre o meu herói. Ou seriam, até aparecer o herói desmedido e libertador a que chamaremos Éder. E o momento histórico exige que sejamos rigorosos. O nosso herói chama-se Éderzito António Macedo Lopes e nasceu em Bissau, em 1987. Éder fez um jogo exemplar. O seu metro e oitenta e oito centímetros ganhou, que me esteja a lembrar, todas as bolas que disputou no ar. Ganhou, dando o corpo ao manifesto, todas as jogadas de bola no chão, ganhando a posição aos adversários, obrigando-os a derrubá-lo. Ganhava um livre a cada cinco minutos. E, por causa dele, o Stade de France inclinou-se e a bola, o maravilhoso esférico, passou a estar cada vez mais perto da baliza do imenso Lloris, e uma vez mesmo, com estrondo, na barra da baliza dele.

O que Éder fez no golo é só a confirmação da sua convicção e do poder de que vinha impregnado. Éder entrou em campo com uma missão: marcar um golo. Raphaël encarniçou-se a disputar uma bola, já no meio campo gaulês. Sacou-a e meteu-a em William, que de primeira a deu a Moutinho que a entregou a Éder. Está a uns vinte e cinco metros da baliza. Um defesa francês cai-lhe em cima e o ombro esquerdo de Éder aguenta-o. O francês cola-se-lhe como uma carraça, mas Éder já lhe ganhou a frente. Tem à direita outro francês que hesita. Já o parasitário francês da esquerda foi cuspido, incapaz de aguentar o poder que exala do físico de Éder. O da direita continua a hesitar e Éder já avançou dois metros e a bola agora oferece-se ao seu melhor pé, o direito. O francês da direita percebe o infinito perigo, mas, num dilema cartesiano, nem sai da posição, nem vai em cima do homem, e Éder, o homem, chuta rasteiro e cruzado para o seu lado esquerdo, a vinte e um, vinte e dois metros da baliza, quase colando a bola ao poste, tornando inútil o desesperado e belo vôo de Lloris.

A bola rolou nas redes da baliza francesa – «oh, ça fait beacoup de mal aux bleus», ouço dizer em francês – e o meu coração rende-se à beleza humana disto tudo, já não balouçam as redes, mas balouça enlevada a minha pequena alma portuguesa que o pé direito deste guineense de Bissau pôs em êxtase. Nasceu em Bissau o pé direito que pôs um povo inteiro em delírio.

Gritei golo e volto, agora, ao meu beatífico silêncio. Mas penso que ganhou a equipa que gosta mais de jogar à bola. Os franceses gostam, claro, e jogaram bem. Mas só gostam de jogar um bocadinho e não estavam preparados para passar ali a noite a jogar. Os portugueses, com Ronaldo a descobrir uma forma de jogar à bola fora das quatro linhas, estavam prontos para acampar no Stade de France e ficarem mil horas a jogar com prazer. Os franceses gostam tanto de jogar à bola como nós, mas nós gostamos de jogar à bola mais tempo. Fomos a selecção que jogou mais minutos, horas perdidas que foram horas ganhas. Também por isso somos campeões. De nós próprios e da Europa.

Éder

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A multidão que canta

A revista Epicur já saiu há três semanas e lembrei-me que , no dia anterior à final que Portugal vai ganhar amanhã, em Paris, à bela França, não ficava mal vir aqui dizer o prazer que é ir ver um jogo de futebol ao estádio. 

eusebio62

O pé esquerdo de Eusébio é a mão direita com que escrevo esta crónica. Escrevo à mão, aparo da caneta a raspar o papel, como o pé de Eusébio a aflorar, veloz manso e forte, a relva. Escrevo ao vivo como o pé de Eusébio chutava no paraíso que é, ao vivo, um jogo de futebol. É desse estádio cheio, da multidão que ulula, da multidão que venera, da multidão que canta, que eu hoje quero falar. Falar o quê?! Falar coisa nenhuma, deixem-me é incensar o prazer da multidão que canta.

Não há prazer comparável. Dizem-me que há multidões azuis e verdes. Mas a minha multidão é religiosa: vai à Catedral e, entre Céu e Terra, fica ali cantando como quem reza, vestida de vermelho.

Já ouço o político e o académico que rosnam o seu temor à multidão. A multidão é má. A multidão atropela-se. Imaginem a multidão no Louvre: as mil bocas da sua respiração embaciam os quadros, os mais gigantones tapam a vista da Mona Lisa aos mais baixinhos. A multidão de museu é uma multidão que faz de cada um o anão de si mesmo.

No estádio… quero dizer, na Catedral, a multidão é gloriosa. Canta toda para o mesmo lado, é toda da mesma altura, o que faz com que cada um veja com os olhos de todos. Quando Eusébio marcava um golo, ou agora Jonas ou Mitroglou, a multidão é rasgada pelo mesmo frémito estético. Não é igual à beleza superficial das montras da Avenida da Liberdade, é mais como a beleza feiticeira e sanguínea de Macbeth, como o sentimento épico dos primeiros versos de Os Lusíadas. E, de resignada e incorrespondida paixão, a multidão estremece quando os caprichos dos deuses fazem a bola embater com estrondo no poste da baliza adversária.

A desfraldada multidão vermelha da Catedral é carinhosa. A primeira vez que levei a minha filha a ver o SLB, tinha ela 6 anos. Baptismo na Catedral. Acontecesse o que acontecesse no relvado, a minha filha não parava de gritar. Expliquei-lhe: “Filha, só gritas quando a bola estiver nos pés dos nossos rapazes vermelhos, e só depois de passarem aquela linha de meio-campo, ao aproximarem-se da linha da área adversária.

Era muita linha e a minha filha ficou confusa. A bola já estava nos pés de João Vieira Pinto, menino de ouro da minha filha, e ela perguntou: “Pai, posso começar a gritar?” A multidão virou para mim um olhar crítico e regalou a minha filha com um sorriso protector. Eram velhos benfiquistas com anos de estádio, com doutoramento de multidão, e disseram num clamor: “Amigo, não seja ditador, deixe gritar a miúda! Grita, princesa, grita sem medo.” Foi a mais bela censura da minha vida: o coração chorava-me de alegria a cada vermelho grito da minha filha.

EPICURPublicado na revista Epicur, número de Verão

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