Original

Vem de ser o primeiro, e vai até aquele que é supostamente único, idiossincrático, até excêntrico.

O original que se renova, sempre único, é uma das maiores contradições na  existência de cada um de nós, ela própria original e única.

De uma balada escocesa “The Bonnie Lass of Fyvie-O”, no longínquo ano de 1794, ao primeiro álbum de Dylan, de 1962, até aos Grateful Dead.

Só que com Garcia “and the boys” cada versão é … original…

Para ouvir com um copo na mão a olhar o mar…de olhos fechados (esqueçam o vídeo…)

 

E de seguida,  agora com um (outro copo)…aqui não há guitarra (minuto 2.00) mas um lamento prístino (original?) que faz a alma chorar…

 

 

 

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Olha, vou ao Nimas

Daqui a nada, às 21:45, vou estar no Nimas. Falar no Nimas. A quem lá for ver “O Homem da Câmara de Filmar”. Vou ser eu a falar e o danado e veloz espírito deste tipo

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a fazer-me caretas por trás. Ainda por cima, sinto-me órfão. Vou sozinho. Custa-me, agora que me habituei a ir a todo o lado com o bando do Escrever é Triste. Se houver por aí um Triste que queira vir falar do Vertov, bora lá. Venham mais cinco! (A propósito, sabiam que o “Venham Mais Cinco” do Zeca é que que foi a primeira canção a ser escolhida para senha no 25 de Abril? Mas como estava proibida na Renascença, e para não levantar suspeitas, avançou o Grândola…). Olha, apareçam.

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Ah! Mas eu sou velho

Há tipos que jantam, que fazem anos, que bebem copos.
Há tipos que vão ao Rock in Rio e a concertos variados.
E os que vão à ArcoLisboa ou mesmo ao Cais das Colunas
mirar inglesas (agora é mais francesas, acho).
E eu que não saio da banlieue!
Apanha-me o reumático, as entorses, as articulações
– meu Deus! as articulações, palavra quase tão feia como entrosamento,
muito usada no futebol e que também me faz falta.

A mim falta-me, sobretudo, a falta que isso me fez!

Ah! Mas eu sou velho
Já gozei que me fartei!
Não aguento nem mais uma paródia…

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So Good

Chuck Mangione (29 de novembro de 1940 )
Voz de Don Potter

Um tema que levaria para uma ilha deserta com um carregador solar da Wenger, empresa responsável pelo canivete suíço. Um amplificador de som descartável também vinha mesmo a calhar:

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FEELS SO GOOD (1977)

There’s no place for me to hide
The thoughts of all the times I cried
And felt this pain
That I have known
Because I needed just to hear
That special something

And then one day
You just appear
You said “hello”
“Let’s make love along the way”
Your name’s music to my heart
I’ll always really love you

Feels so good when I’m with you
I can’t believe you love me too
With you it feels like it should feel
With you it feels so good

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A casa de pedra

 

Desculpa, minha filha, não volta a acontecer.

Tia, minha titi, o mês a acabar o dinheiro a acabar e gosto tanto de si.

Dora adorada, não vais gostar de ler isto, já devia ter-to dito há tanto tempo.

Tanto afinco na escrita e agora isto. Vai a casa cheia de letras e papel lá dentro. Cada vez mais cheia. Histórias seladas a cola ou saliva. Ou seriam só contas da água e luz? Da água e da luz era um bom título. Menos bom era o lado de as pagar. Mas agora não adianta, só a pedra sabe o que lá vai dentro.

A tia Dora apoquentada bem procurou por todo o lado. Mas acontece nas melhores casas, até nas maiores: perdeu-se a chave.

a. a casa e as cartas

Numa curva da estrada, avistada por tc

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Guarde mesa para dois, Senhor Armindo

armindo almeida

Não voltarei a falar com o Senhor Armindo. A última vez que falei com ele, foi ao telefone. Na voz, percebi que, ao sorriso que se adivinhava mesmo pelo telefone, se misturava a presença de uma dor que já não se sentia capaz de vencer. Não imaginei que tudo acontecesse tão depressa. Mas agora sei que não voltarei a falar com o meu amigo.

Foi nos meus tempos da SIC, logo em 92, ou a seguir, em 1993, que comecei a frequentar “O Fiorde”. Para quem não saiba, é um restaurante de Tires, uma espécie de segunda cantina para muitos dos jornalistas, produtores, programadores e directores do famoso canal de Carnaxide. E onde continuei a ir nos meus tempos de Valentim de Carvalho Filmes e de Guerra e Paz editores.

Não era só que se comesse bem e por preços honestíssimos. Havia arte e calma. Arte e calma que emanavam de um homem, do Senhor Armindo, esse patrão que aprendi a admirar e se tornou meu amigo. Falemos então de comida. A feijoada de gambas, as iscas cortadas finíssimas, à lâmina diria, o pato com arroz no forno, (os míscaros, hmmm) eram pequenos monumentos de simplicidade e bom gosto, uma suave e discreta festa de sabores. E havia o raríssimo cozido à portuguesa. Quando decidia fazê-lo, em certos e irregularíssimos sábados, não se cabia no restaurante e juntava-se uma pequena multidão à espera no largo em frente. E havia, depois, a melhor lampreia à bordalesa que se podia comer em restaurantes da Grande Lisboa.

O Senhor Armindo geria tudo isto com calma e inteligência transmontanas de quem já vivera muito. O nome do restaurante tinha o seu toque de mistério. O meu amigo andara embarcado em navios de cruzeiro pelos confins das costas escandinavas. Seduziu-o o azul escandinavo, a paisagem que uma réstia de sol põe loira, e encerrou esse capítulo chamando ao seu restaurante “O Fiorde”. Se eu tivesse um restaurante chamava-lhe Angola. Ou Luanda-Lobito.

Era um homem que estava de bem com as suas memórias. Gostava, por isso, de conversar. Falámos muito. Sentava-se comigo à mesa e ficou amigo de amigos meus do Canadá, do Algarve, do Porto. Alguns voltavam só para o ver, já nem me vindo quase ver a mim: diziam-me que ele inspirava tranquilidade. A minha filha, nesses anos 90, era uma criança e confiava em tudo o que ele pusesse na mesa, como se estivesse a comer comida da avó.  E nem a avó, nem as tias, lhe farão umas farófias como as farófias do “Fiorde”, as melhores do mundo. Eram as farófias que convenciam a minha filha? Não só. Há pessoas que têm uma franqueza no olhar que faz os miúdos confiarem logo neles.

Quando o Senhor Armindo se reformou e deixou o Fiorde, ainda tentei voltar ao restaurante, mas – os simpáticos novos donos que me perdoem – já não conseguia estar ali sentado. “O Fiorde”, para mim, não era um restaurante, era a casa do Senhor Armindo, onde ele me recebia, onde decidia o que comíamos, bebíamos e, tantas vezes, de que coisas falávamos.

Eu estou de bem com a minha memória do Senhor Armindo, do meu amigo de fiordes e de aventurosos mares dos vikings. Vou lembrar sempre a sua serena conversa amiga, o telefonema ao “doutor fonseca”, como ele fazia questão de me chamar. “Olhe que amanhã tenho cá lampreia, fui busca-las lá acima. Guardo-lho mesa para quatro?” Guarde mesa para dois, Senhor Armindo, temos de pôr a conversa em dia.

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Porquê? Porque não?

Yoshitoshi, Ishiyama Moon-Lady Murasaki, 1889, British Museum

Yoshitoshi, Ishiyama Moon-Lady Murasaki, 1889, British Museum

Murasaki Shikibu foi uma mulher admirável, fora do tom, fora do tempo, igual a nenhuma. Viveu há onze séculos – parece mentira e é verdade -, entre o fim dos anos novecentos e os primeiros mil da nossa era, no Japão, na cidade de Heian-Kyo, hoje Kyoto, à data uma civilização florescente, no pico do período Heian, portanto, sob o forte impacto da cultura chinesa.

Depois da morte do seu marido, foi chamada à corte da imperatriz Shoshi, a segunda esposa do imperador. Murasaki, muitíssimo culta e inteligente, dominava o chinês escrito e falado, coisa que não fazia parte das atribuições culturais femininas: o chinês era a língua burocrática, política, erudita e masculina – o japonês não teve, antes do contacto com a China, um sistema de escrita. O japonês era a língua coloquial e feminina, mesmo na poesia. Aliás, a língua japonesa é devedora da mulher, mais particularmente das poetas japonesas que a elevaram da expressão oral à literária. Terá sido na corte que Murasaki escreveu o primeiro romance da história da literatura, género que inventou com Genji Monogatori, A História de Genji. Não havia aquele modo de escrever, nem havia aquele conteúdo na escrita. Para além do romance, escreveu poesia e manteve um diário através do qual muito ficou dos hábitos da época e da corte, da sua vida, da natureza volta, em detalhes de minuciosa observação – a diarística era comum entre as poetas japonesas: quem não conhece O Livro de Cabeceira, Makura no Soshi, da sua contemporânea Sei Shonagon que estava ao serviço da primeira esposa do mesmo imperador Ichijo?

Derivo.  Era só para dizer que há uns anos escrevi uns mínimos textos, linhas, a que chamei The Lost Art of Conversation: as regras que Murasaki Shikibu não escreveu para as fotografias de Nobuyoshi Araki.

Porquê? Porque não? Enfim, vou plasmá-las aqui, a essas regras.

Araki, nosso contemporâneo, dispensa apresentações. Mas aqui tem duas: um Está Escrito que lhe fiz e  um belo texto do nosso Manuel S. Fonseca.

Já volto para The Lost Art of Conversation.

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O que é arte?

A semana passada, mas podia ter sido ontem, alguém deixou um par de óculos no chão de uma sala do Museu de Arte Moderna de São Francisco. “Deixar” é um termo porventura negligente para descrever a forma estratégica como os óculos foram postos no chão. Ora vejam:

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Bem colocados, como peça isolada, à distância certa da parede, óculos armados, prontos a ver e pedindo para serem vistos.

O resultado foi que os visitantes do museu se renderam e foram juntando  – chegou mesmo a haver telefonemas a Joe Berardo – fotografando e, porque há sempre um gemido filosófico a emergir da multidão, especulando sobre se estes “real eyes” ali perdidos não eram metáfora das “real lies” com que a vida brutalmente nos afoga.

A notícia, mais completa e isenta, está aqui. Mas o que me interessa sublinhar é que um par de óculos não é sempre necessariamente um par de óculos, como a pequena multidão no MOMA da inteligente cidade de San Francisco tão especiosamente observou. Repetia, no século XXI, um gesto que ficou perdido na poeira atómica do século anterior e que eu, nostálgico, recordo agora.

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ps – Eh pá e vejam se animam o CAM. Façam um acordo com a Óptica das Avenidas!

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Um conto na gaveta

 

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Todo o processo de engavetamento foi demasiado complexo para que eu o consiga explicar precisamente. Mesmo que o quisesse fazer, e entendesse as leis gerais do encolhimento que obrigatoriamente precede o engavetamento de uma pessoa, estou convencido de que a explicação não caberia no espaço limitado que me foi destinado ao entendimento das coisas do mundo. Não perderei tempo, portanto, a explicar o modo como fui diminuído ao ponto de caber numa gaveta; até porque dele não me apercebi. Se o leitor estiver interessado, por certo conseguirá encontrar informação pertinente sobre a física e a química da coisa em múltiplos textos e ensaios: é profusa a literatura sobre o fenómeno da diminuição. Esta narrativa é apenas uma pequena crónica do meu engavetamento. Direi, no entanto, que em altura alguma bebi de um frasco cujo rótulo suplicasse Drink Me, nem, que eu me tivesse dado conta, estive sujeito a um campo de partículas redutoras, do tipo das criadas pelo Dr. Henry Pym, o famoso biofísico e autoridade mundial em mirmecologia

A minha diminuição e posterior engavetamento foi um processo lento e inconspícuo. Não muito diferente do que acontece quando crescemos. Durante o crescimento também não estamos cientes da rápida e constante divisão celular, nem sentimos o corpo a aumentar. Só quando o processo se conclui, e por comparação com as evidências fotográficas e videográficas do que antes éramos, percebemos que crescemos. O tempo do crescimento é sempre, no máximo, um adágio suave — embora, à posteriori, o recordemos como um alegro vivace. Foi este o ritmo do engavetamento, um embalador e suave adágio que culminou numa gaveta. Na verdade, só me dei conta do tamanho que tinha, e da gaveta onde estava, quando esta foi fechada e o céu deixou de pairar sobre a minha cabeça. Foi nessa altura que, em pânico, percebi que só por fora se abrem gavetas.

Uma vez engavetados bem podemos empurrar a gaveta que o melhor que conseguimos é nada. É da lógica e da física. É como empurrar um carro parado estando lá dentro. Não sai do sítio. Mesmo tomando balanço, e lançando-nos com toda a força contra a parede frontal, apenas conseguimos um ligeiro estremecimento, e um dorido ai.

Nos primeiros tempos, engolido no mais preto dos pretos que é o preto que faz dentro de uma gaveta fechada, vivi pânico e raiva. Escorreram-me lágrimas pela face e sangue pelos punhos esfolados do martelar violenta e sonoramente a madeira. De nada serviu. Não abriu, nem ninguém me acorreu. Impossibilitado de abrir a gaveta onde me deixei engavetar — lá dentro retido por força da magnífica lei que condena qualquer objecto a manter o seu estado de movimento ou repouso até que uma força exterior o altere — resignei-me à pequenez e vivi do que a gaveta tinha para me dar. Até ao dia em que também a resignação se esgotou. Mas lá iremos.

A minha gaveta era uma gaveta cheia de tralha. Não sei se toda a tralha é memória ou se toda a memória é tralha, mas na minha gaveta toda aquela tralha lembrava. Tralha acumulada durante anos, objectos guardados em consequência de algum juízo de utilidade que o tempo tinha esquecido. Porque razão teriam sido guardados canhotos de bilhetes de avião, de concertos e filmes? recibos de farmácia, notas fora de circulação, botões, clips e trocos de todo o mundo? atacadores, elásticos, relógios sem pilha, pins e crachás? Tralha que podia e devia ter sido deitada ao lixo, como tudo o que não serve, mas que por qualquer razão tinha sido mantida naquela gaveta onde eu me deixara engavetar. Era essa a tralha que me rodeava e da qual eu agora vivia.

Uma das consequência do liliputiano processo foi ter tornado toda a tralha numa tralha ciclópica. Dois canhotos de bilhete de avião de uma viagem a Roma, por exemplo, outrora insignificantes pedacitos de cartão, tornaram-se memórias gigantes, bastante maiores do que eu. Os sons e as estátuas de Roma, as camas de hotel e as mesas de restaurante que eu lembrava eram agora memórias onde eu me recordava pequeno, muito pequeno, como se as tivesse vivido já assim, diminuto, e não como um homem inteiro. Um lápis ruído na ponta, com o nome de uma empresa onde outrora trabalhara, tomava as proporções de um tronco de árvore caído no chão que todos os dias atrapalhava os meus passos pelos recantos desarrumados da gaveta. E depois havia atacadores, onde me embaraçava; canetas secas, incapazes, para o resto das suas vidas, de desenhar qualquer palavra; bilhetes de concertos, guardados para mais tarde convocar o momento de euforia a que tinham dado aceso. E fotografias. Fotografias que convocavam memórias felizes tornadas tristes naquele espaço confinado. Fotografias em papel. E nas fotografias as caras eram gigantes e perturbadoramente presentes. Sobretudo aquelas cujos olhos tinham olhado para dentro da câmara e que agora olhavam para dentro de mim. Havia ainda borrachas, alguns comprimidos soltos, cuja composição desconhecia, bulas de medicamentos, um termómetro, um canivete suíço, cuja dimensão relativa à minha pequenez tornara obsoleto, uma pequena lanterna de leitura, que muito jeito me deu, notas e lembretes tornados irrelevantes com o tempo e ainda muito pin e crachá. Tralha, tralha e mais tralha.

E de quem era a culpa do engavetamento? Esta pergunta ainda hoje me parece estúpida, mas a verdade é que lhe dediquei uma imensa quantidade de tempo tentando descobrir o culpado. Havia apenas três suspeitos possíveis; três suspeitos capazes de me engavetar, com motivo e oportunidade: o mundo, eu e Deus. O mundo tinha oportunidade e motivo, bem como eu. Já Deus, tendo oportunidade e motivo, e meios mais que suficientes para o fazer, não se conseguindo provar a sua existência dificilmente poderia integrar o lote dos suspeitos. Eliminei-o. Ficaram apenas o mundo e eu. Primeiro culpei o mundo. Mais tarde desatei a culpar-me a mim. E depois, como nenhum destes desgastantes processos mentais, que ainda assim foram longos, surtisse qualquer efeito prático, desisti do jogo da culpa e prostrei-me. Fiquei quieto, deitado numa borracha verde e coberto por um feltro de limpar as lentes de óculos. Deitei-me, bem no meio da tralha, e dormi sem querer acordar nunca. Não sei ao certo o tempo exacto da minha neurótica hibernação — havia dois relógios na gaveta mas nenhum tinha pilha — mas foram seguramente semanas, senão meses.

Até que também a prostração passou e chegou o tempo de arrumar a tralha para que pudesse, no mínimo, viver no meio dela. Tarefa difícil, com memórias tão grandes. Mover uma fotografia, por exemplo, pode ser uma tarefa para um dia inteiro: primeiro porque é grande, depois porque nos lembramos do tempo em que havia céu e brisas frescas, tão diferente deste tempo e deste lugar que cheira a gaveta fechada. Aos poucos e à força, literalmente à força, porque a tralha é coisa que se arrasta, lá fui pondo ordem na casa que era a gaveta. Graças à pequena lanterna, consegui ver e trabalhar, e finalmente arrumei a gaveta, coisa que adiara a vida toda. Fotografias num canto, junto com os canhotos de bilhetes, os pins e crachás e os recibos e facturas várias: chamei-lhe o canto das memórias. Ao fundo, objectos absolutamente inúteis, uma espécie de zona de arrumos. As moedas, num toque de estética, empilhei-as a servir de colunas. Para um dos cantos empurrei a borracha verde e chamei-lhe quarto.

Enquanto a pilha da lanterna durou, e pude olhar a tralha, vivi de memórias, aguardando o dia em que alguém ou alguma força exterior abrisse a gaveta. Quando acontecesse, subiria um monte de carteiras e caixas de fósforos de restaurantes que tinha arrumado em forma de escada junto à parede frontal da gaveta, e fugiria mal ela se abrisse; para crescer de novo até ao tamanho de gente. Por ter essa fé, por acreditar na tal força exterior, nunca me dediquei a divisar outra solução, outro esquema para me desengavetar. Antes, resignadamente, entretive-me com o que a gaveta tinha para dar. E quando me fartava das memórias que tinha, usava a tralha para imaginar outras: memórias futuras.

A partir de um botão branco, imaginava uma camisa lavada, vestida para ser usada num jantar, e imaginava o jantar e a mulher que sorria do que eu dizia, e as mãos da mulher, com quem jantara, a abrir a camisa, sofregamente, arrancando o botão. Com um clip entretinha-me a contorcer formas como se fosse um artista a trabalhar o metal — numa espécie de terapia ocupacional — para, no outro dia, desfazer aquela forma e contorcer outra; às vezes pareciam animais, outras vezes plantas, outras vezes coisa nenhuma, apenas formas estranhas que se tornavam hipnóticas por serem nada e com nada se parecerem, evocando assim quase tudo. Duas chaves que por lá estavam esquecidas, há muito separadas das fechaduras das portas que abriam, inspiraram-me viagens de porta em porta. Andava por caminhos ladeados por todos os edifícios que a minha memória conseguia convocar; todos os edifícios que vira pelo mundo fora alinhados numa mesma rua: casinhas alentejanas seguidas de palácios venezianos, seguidos de modernos edifícios de vidro e betão, seguidos de barracas de chapa, seguidas de elegantes arranha-céus; quase todos com portas apenas normais. Mas de quando em quando, no meio desses caminhos, lá aparecia uma fachada que era toda uma porta, uma porta gigante com uma fechadura gigantes onde estava inscrito o nome Fábrica de Chaves do Areeiro. E eu, num esforço hercúleo, levava a chave à fechadura e ela não servia. Ou então entrava e não rodava. E eu seguia o caminho até dar de caras com outra fechadura gigante que também não se deixava abrir. E assim caminhei dias a fio, deitado na minha borracha verde, por uma rua interminável com todas as casas da minha memória. E assim sobrevivi; numa dieta de pensamentos e memórias.

Um dia a pilha começou a falhar anunciando o regresso ao preto. Foi quando resolvi pegar fogo à gaveta e à tralha toda. A perspectiva de voltar ao preto, onde não há nada a não ser nós próprios sem tempo nem espaço, aterrou-me. Ao lembrar-me dos primeiros tempos de lágrimas a escorrer pela cara e sangue pelos nós das mãos com que martelava a madeira, tornou-se evidente que ninguém me desengavetaria. Teria que ser eu a ter uma ideia. Quando a lanterna falhou, tive-a. Não há como o preto para ver a luz.

A ideia era simples: sem gaveta não há engavetado. Se eu pegasse fogo à tralha toda, e o que não faltava era tralha para arder, a gaveta arderia. Com tanta caixa de fósforo de restaurante, com tanta fotografia e canhoto de bilhete e notas soltas e fora de circulação, conseguiria fazer uma bonita fogueira. E a gaveta arderia até se desfazer.

E eu?

Bom. Não sei. Por enquanto estou bem. Mas ou ardo com a gaveta, o que é sempre uma possibilidade, ou escapo-me quando ela colapsar. Em qualquer caso sairei da gaveta. Com mais ou menos cicatrizes da tralha que está a arder, desengavetar-me-ei. É esperar para ver. Por enquanto a gaveta arde.

 

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Formas improváveis

E então ela diz-me, decerto volta a casar. É só querer. E eu a pensar, querer? A pensar sem futurismos. Hoje. Nem considerei os mecanismos misteriosos da paixão nem a relojoaria amorosa. É só querer?

Eu quis. Quando era pequena parecia ser um míssil teleguiado. Não tinha vontade alguma de puzzles, Lego, carros. Nada. Só serviços de chá e bonecas, casas de bonecas, roupas de bonecas, baptizados de bonecas, o chorão, o carro do chorão, lindo, em tamanho real e lençóis bordados. E sapatos, carteiras, ganchos de cabelo, vestidos. E as bicicletas, as correrias, subir às árvores, as aulas de ballet, a música e os livros. Melhor do que isto só se já fosse crescida e casada, tivesse a minha própria casa e serviços de chá, e os meus próprios livros. Muitos livros. Estes eram os meus planos: ser escritora, casada, passear de bicicleta, ter uma casa-biblioteca, e viajar a reboque do meu marido, de máquina de escrever a tiracolo – não havia computadores quando eu era pequena, só a minha Hermes Baby.

É preciso entender que um casamento são pelo menos dois, em regra muitos mais, há família de um lado e família do outro, anos e anos de hábitos, de faz-se assim e assado e, de repente, há quem faça cozido e frito e nós não, não, não! Há quase sempre filhos de primeiros casamentos, e cães, gatos, manias.

Depois dos quarenta é tudo sinal verde, go, go, go, a morte já existe em todos os dias da vida, se não for agora é quando? Não se pode perder tempo com merdas e o que eu quero é escrever, e tenho vinte anos de atraso. Vinte.

Para quê iludir? O amor é uma presença. A companhia desejada. Para comer um gelado, ir ao cinema, passear de mãos dadas, treinar. Beijar na boca e ler junto. O amor é o melhor que há. Portanto, casar, casava, se fosse com a concretização da minha ideia de amor e casamento. E que homem terá a minha ideia, não a dele, de amor e casamento?

Então, não é querer. A ser alguma coisa é um milagre do santo Drummond: onde não há jardim, as flores nascem de um/secreto investimento em formas improváveis.

Ainda assim, sem milagres que amanheçam de novo as antigas manhãs, não é mau não ser casada, apesar de ser egoísta: posso andar de calças de yoga o dia todo, passar meia hora a fazer uma máscara ao cabelo. E levar uma semana a encontrar um verso.

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veste a saia

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Sidney Pollack, o homem que pôs Dustin Hoffman de saias

Hoje, canto o improvável.

Dustin Hoffman começou a mudar de sexo antes de começar a filmar “Tootsie”. Lembram-se? Hoffman interpretava um actor desempregado por causa de um feitio inconsensual, entre o semi-perfeccionismo de Passos Coelho e a semi-improvisação de António Costa. A saia que Coelho ou Costa não vestirão, vestia-a Hoffman, em “Tootsie”, para conseguir o papel de Dorothy, a resoluta administradora de um hospital. A improvável saia, vestido e collants, tudo assentava bem ao corpo de homem de Hoffman, fazendo dele (ou dela?) uma das mais deliciosas matrafonas do cinema dos anos 80.

Para aceitar ser essa mulher, Hoffman exigiu que Sidney Pollack, o realizador, interpretasse ele próprio o papel de agente de Dorothy. Disse-lhe Hoffman: “Syd, arranjes quem arranjares, bem me podem mandar vestir uma saia que eu não a visto. Mas se fores tu o agente e me disseres ‘veste a saia!’, visto logo a saia.” Pollack mandou-o bugiar. Estava em casa, e toca à porta um estafeta com um ramo de muitas rosas tão vermelhas como o meu SLB. Leio-vos o cartão que vinha junto: “Por favor, sê o meu agente. Com amor, Dorothy.” Aceitavam, não aceitavam? Assim aceitou o improvável Pollack.

Foi um cartão de visita com essa doçura que outro Sidney exibiu na vida e nos filmes. Falo de Sidney Poitier. Fez uma bela carreira de actor negro em território branco. No teatro, estreou-se num pequeno papel numa peça do americaníssimo Aristófanes. Foi em “Lisístrata”, comédia em que as mulheres gregas inventaram a greve ao sexo. Fechavam-se em copas enquanto os homens não negociassem a paz que pusesse fim à guerra do Peloponeso.

Fechassem as mulheres o que fechassem, Poitier tinha que abrir a boca para dizer doze linhas. Casa cheia de mulheres gregas e de críticos teatrais, Poitier sobe ao palco e varrem-se-lhe as réplicas. Pior, misturam-se. Um actor lança-lhe a primeira frase e Poitier responde-lhe com a oitava linha que tinha para dizer. Fala seguinte e Poitier atira-lhe com a quinta. À sua volta, Poitier só via actores a revirar olhos. Saem as críticas. Um triunfo: “Mas quem é o jovem actor que aparece brevemente no primeiro acto, tão divertido e exuberante, numa palavra, encantador?”

A verdade do cinema é estar aberto à improbabilidade que, consta, é a maior verdade da vida.

TO SIR, WITH LOVE, Sidney Poitier, Christian Roberts, 1967

Vinte anos depois, em Sir With Love, quando as saias já eram minis.

Publicado no Expresso, no passado sábado

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O império contra-ataca

july liberty

É preciso dar ideias verdadeiramente fracturantes a Donald Trump. Acabar com a numeração árabe e regressar à numeração romana. O império contra-ataca.

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E.T. the Extra-Terrestrial

 

Não tive a sorte de me cruzar com um deles no céu da minha infância. E se calhar não estou a dizer a verdade toda. Seja como for, já escrevi aqui, há uns bons anos, sobre o E.T. de todos os ETs. Era uma resenha de um texto escrito para a Cinemateca nos anos 80. Voltei agora, mais de 30 anos depois, ao velho texto, dei-lhe uma volta e aqui o deixo. Fica em casa.

ET

A afectividade dinâmica vai de bicileta

A primeira vez que alguém pôs o dedo na ferida (já vão perceber de que ferida falo) foi logo no Festival de Cannes, em 1982, a seguir à projecção de E.T., na conferência de imprensa que se seguiu. Transcrevo das actas:

“Jornalista: Como é que foi feito E.T.?
Spielberg: E.T. foi feito com amor!”

Isto era o tipo de resposta que John Ford podia dar no tempo em que os franceses gostavam de westerns e Jean Luc Godard era o nome de um crítico de cinema. Hoje não é resposta que se dê em lado nenhum e muito menos em França. Não admira que o moderador tenha moderado o cineasta de Ohio:

“Henry Behar (o moderador): Acho que as pessoas querem saber mais do que is­so…
Spielberg: Ah! (pausa) Foi feito com amor por todos nós e acima de tudo por um homem chamado Carlo Rambaldi.”

A resposta de Spielberg não satisfez gregos e muito menos troianos e eu abstenho-me, excepção feita à referência a Rambaldi, responsável pela caracterização. Ao louvar o caracterizador italiano, o cineasta sublinhava o nódulo central do fil­me, esse ponto donde irradia a ideia que determina o argumento, a fotografia, a iluminação e os cenários. Ou seja, na minha opinião (neste caso, e por uma vez, devidamente do­cumentada e nada intuitiva) Spielberg punha o foco no bonequinho, o E.T. propriamente dito.

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Uma “nice creature” à altura do olhar infantil

E é neste ponto que o dedo entra na ferida. Vejamos: a altura do E.T. (feito para olhar nos olhos o protagonista do filme, Henry Thomas) foi a chave para estabelecer como ponto de vista de todo o filme a altura do olhar de uma criança. Este não é um filme medido pela medida do olhar adulto e é por isso que tantas vezes deixamos de ver os rostos aos adultos de tanto serem enquadrados pela cintura. E toda a iluminação do filme, sobretudo a primeira meia hora, por causa desse parti-pris de Spielberg, que só queria que a cara do E.T. fosse revelada muito mais tarde, no que é o primeiro clímax do filme, é determinada pelo boneco, mostrado em contra-luz e em silhueta, num traba­lho admirável de backlighting de Allen Daviau. Também os interiores da casa de Elliott, em especial o armário da roupa, foram desenhados para essa dimensão infantil que o E.T. e Elliott partilham e que (mais uma vez e de tão secreta intimidade) não admite a intromissão de adultos. Mesmo o tom que domina toda a narrativa, um certo lirismo magoado, muito próximo da inconfessada e contraditória felicidade com que às vezes vivemos um instante de infelicidade ou de perda, desse tom, quem dá testemunho, e quem, ao longo do filme, o vai pontuando, são as quarenta expressões que o italiano Rambaldi modelou na borracha esponjosa do seu boneco (e que Allen Daviau, com os cam­biantes da sua iluminação, aumentou para o dobro, segundo Spielberg).

Esta ordem de argumentos recebe da “aparente desordem dos factos” um inesperado e revigorante fôlego, assim que se presta atenção à história “externa” de E.T., isto é, à sua génese e produção. Tenham paciência e deixem-me voltar atrás e contar quase tudo. Por mais estranho que pareça, tudo começou com a sugestão de um europeu, François Truffaut impressionado com o talento de Spielberg para dirigir os garotos de Close Encounters. “You should do a film with kids.”

_extra-terrestrial

You should do a movie with kids

A ideia ficou e deu origem a um script que foi mudando sucessivamente de nome (Growing Up, After School, A Boy’s Life) para depois se desintegrar num projecto de ficção científica mais conven­cional que se deveria chamar Night Skies, a ser produzido por Spielberg, com realiza­ção de John Sayles, devendo Rick Baker (o homem de Landis para as metamorfoses do lobi­somem no American Werewolf) construir os “extra-terrestres”, que seriam cinco e tão mauzinhos como piranhas. Mas Spielberg teve uma visão e a visão correu com as malvadas piranhas. No deserto do Sahara, quando filmava Raiders of the Lost Ark, caiu na cabeça de Spielberg, vindo do céu, como o principezinho de Exupéry, a forma do pequeno personagem que viria a ser o E.T.

Spielberg telefonou a Sayles: “Vamos mudar tudo.” Mas Sayles não embarcou na visão e foi assim que Night Skies, Sayles e os cinco horríveis extra-terrestres saíram desta história. Ficou Baker, que se dispôs a trabalhar numa nice creature. Mas logo no primeiro en­contro que tiveram, confrontado com as doçuras celestiais que saíam da boca de Spielberg, o mínimo que se ouviu Baker dizer foi “Falem com o meu advogado”. Tentati­vas de conciliação foram feitas, mas o facto é que por questões de ordem técnica (or­çamentos e prazos) ou de ordem criativa (e eu sublinho, porque foi para chegar aqui que suei estes parágrafos), Spielberg e Baker passaram o tempo aos berros, até que, loud and clear, e à frente de Baker, Spielberg mostrou quem era o patrão dizendo: “Vão chamar Rambaldi”. Foi, que se saiba, o único murro na mesa que Spielberg deu na vida.

Era a segunda vez que Spielberg mandava chamar Rambaldi. A primeira fora em Close Encounters, e também então para substituir um american guy. Não se trata apenas de uma “feliz coincidência”. A coisa tem, digamos, fundamento filosófico: para um americano é da ordem natural do mundo que a figuração de um extra-terrestre no cinema seja feita numa base negativa. Um alien é o mal (ou pelo menos os “monstros do Id”) que vem aos trambolhões do cosmos. Atrás desta ideia há décadas de cinema (muito dele brilhante e extremamente inventivo) que criaram uma imagem ao extra-terrestre. Não se mudam estas coisas por dá cá aquela palha.

Mudou Spielberg e foi o primeiro. Começou com o redentor Close Encounters, um dos mais belos filmes da década de 70. Repare-se, não obstante, como ele se deteve, justamente, no limiar da representação dos novos (e agora benignos) extra-terrestres, concebidos por este Carlo Rambaldi, de que estamos a falar, e premonitórios na sua forma (só em silhueta entrevista) do E.T. Quer isto dizer que Spielberg quis mudar (e mudou) toda uma tradição icónica, com implicações éticas e cosmológicas, termos que uso com toda a pompa, circunstância e seriedade, embora me custe vir bater as asas para estes ga­lhos onde são mais as vozes do que as nozes. Mas para que essa mudança ocorresse foi preciso a Spielberg prescindir de Baker e procurar um europeu. Não está em causa o ta­lento, está em causa a atitude. Sem isso não se teria chegado à figuração das nice creatures? Não digo tanto – chegar-se-ia, que a “visão” já estava na cabeça de Spielberg. Mas sem Rambaldi talvez fosse um bocado mais para o tarde do que para o cedo.

Sp ET

A visão e a cabeça

Isto dito, ainda fica tudo para dizer sobre E.T., um dos mais belos filmes dos anos 80, e sobre Spielberg, que tenho como uma das figuras maiores do cinema americano. O filme, lembram-se bem, foi objecto de (alguma) polémica, fazendo gastar quase tantos rios de tinta como toneladas de “kleenexes”. Ambas as coisas com inteira razão. Não chegam os dedos de duas mãos para contar as se­quências antológicas. Assim, de cor, cito: a por­tentosa abertura na floresta; a sequência do primeiro encontro entre E.T. e Elliott; o milagre do dedo luminoso da “criatura”; a sequência da bebedeira e do começo do compor­tamento mimético de Elliott na escola; a coreografia dos desencontros do E.T. com a mãe, Mary; as sequências dos voos das bicicletas; a órfica despedida. São cenas com uma intensidade emocional (e uma bondade emocional) cuja fluência e articulação narrativa (e a expressão é paupérri­ma para dar a noção de combinatória que no filme perpassa) só poderia ter sido dado pelo cinema, a mais ingénua das artes.

E teríamos que voltar outra vez a falar da mudança de atitude: enquanto uns não conseguiam deixar de olhar angustiados para o céu (“Keep watching the skies!”), com medo da destruição que há-de vir em discos voadores, outros, ou melhor, Spielberg, que vale por uma data deles, construiu em E.T. um filme cujo grande dispositivo é uma “afectividade dinâmica”, combinada com uma visão extremamente realista da “suburbia” americana (o que E.T. mostra dos miúdos e da família é sempre sociologicamente pertinente). E.T. não é, nesse sentido, o conto de fadas pelo qual quase sempre foi tomado. Neste filme não há nenhuma fantasia, como havia no Fei­ticeiro de Oz, ou como havia nos filmes de Disney. É por isso que a “Variety” não podia estar mais enganada quando disse que E.T. era o “melhor filme de Disney que Disney não fez.” Os melhores filmes de Disney são os de Disney, porque E.T. não é filme que se alimente da fantasia que alimentava o Tio Walt.

Toda a fantasia é solipsista, coisa de que E.T., ancorado fisicamente no bem ou mal chamado mundo real, não pode ser acusado. O cinema de Spielberg aceita a desarmonia do mundo, ao contrário de sécu­los de arte que demandaram a busca da “harmonia do mundo” para que a felicidade como utopia pudesse emergir dela. Aceitando a desarmonia do mundo (o pai ausente, o conflito adultos-crianças), o milagre de E.T. reside no facto de, no caos, na desordem dos factos, ser possível a felicidade. A lição não é nova, mas nos anos 80, E.T. foi o filme que a mostrou com mais encantadora mestria e sem nenhum ressentimento.

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A Revolução Cultural

Faz neste mês de Maio 52 anos. Um terramoto começou a varrer a China. Ondas desse terramoto haviam de sacudir o mundo, a começar, dois anos depois, pelo famoso Maio de 68. Incensado pela intelectualidade ocidental, em particular pela universidade francesa, com destaque para Vincennes VII, o conceito transgressor e anti-autoritário da Revolução Cultural chinesa foi uma pura ilusão. Por trás, estava uma férrea vontade ditatorial e uma impiedosa utilização da violência e da tortura. É o que este livro agora publicado, vem lembrar e discutir.

Capa

E não me venham falar de Homem Novo

 

A Revolução Cultural

Em Maio de 1966, Mao reuniu o Comité Central, dessa reunião saindo uma proclamação, a Notificação de 16 de Maio, que é, de facto, a primeira proclamação da Revolução Cultural, tal qual Mao a idealizava. É uma proclamação ideológica denunciando a existência de inimigos dentro do Partido – “os que levantam a bandeira vermelha para se oporem à bandeira vermelha”. A única forma de reconhecer esses terríveis inimigos internos, insectos que minam a revolução, seria através do potente telescópio que é o pensamento de Mao Tsé-tung. O Pequeno Livro Vermelho, esse pequeno objecto, de capa plástica, que Lin Biao viera, ao longo dos últimos anos, a enfiar no bolso de cada um dos soldados do Exército de Libertação do Povo, era a preciosa lente desse potente telescópio.

A essa primeira proclamação, segue-se o regresso à actividade política pública. Mao faz um comício na praça de Tiananmen, em que junta um milhão de apoiantes e, num acto simbólico e lendário, mergulha, depois, nas águas do rio Yantsé, mostrando a sua disponibilidade para a batalha que se vai seguir.

Em Julho, Mao confronta directamente Liu Shaoqi no plenário do Comité Central. Interrompe-lhe o discurso com desdém, olha-o com desprezo. Acusa-o de contra-revolução. Os delegados não respondem da forma entusiástica que Mao esperava à sua diatribe. Decide, por isso, radicalizar.  Vira-se para as “massas populares” representadas pelos jovens Guardas Vermelhos e dá-lhes um conselho: “Bombardeiem o Quartel-General.” É o apelo à insurreição.

De Pequeno Livro Vermelho na mão

De Pequeno Livro Vermelho na mão, milhares de estudantes, que se auto-intitulam Guardas Vermelhos, e que posteriormente passam a constituir uma organização paramilitar, vão pôr a China em pantanas nos anos que se seguem. Mao legitima os Guardas Vermelhos, como Hitler legitimara os seus SA. Lança-os como cães de fila sobre os líderes do partido primeiro, sobre os professores e as direcções das escolas e das universidades depois, sobre todas as formas de autoridade e de estabilidade, a culminar na própria família, convertendo os filhos nos carrascos dos pais. Aponta-se um dedo e diz-se “valor burguês” e um metálico arrepio de medo percorre a espinha do acusado: já nada há a fazer. E não bastará, agora, reconhecer a culpa. É exigida a humilhação moral, que é só a antecâmara das mais heteróclitas punições físicas. A par dessa ululante devastação moral e física dos dirigentes, dos intelectuais, professores, artistas ou escritores, campeia um exacerbado e pasmoso culto da personalidade de Mao Tsé-tung. Ele é agora um deus na terra. Pode pedir vidas em sacrifício para consolo da sua boca sedenta de sangue, pode pedir (e pede) virgens para consolo desse eros-thanatos que lhe domina o baixo-ventre.

A Revolução Cultural, a Grande Revolução Cultural Proletária, feita por adolescentes, razoavelmente burros e fanatizados por Mao, suportada na retaguarda pelas sinistras espingardas do Exército que Lin Biao tinha na mão, foi um reino de Terror e vandalismo. Milhões de chineses viram as suas vidas roubadas e destruídas. Um milhão de mortos pavimentou essa estrada amarela de aniquilação de valores económicos, de valores morais e de valores culturais.

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DAYDREAMING

dreamers, they never learn/ beyond the point of return/it’s too late, the damage is done/ this goes beyond me/ beyond you

E assim os Radiohead devolvem-me a nostalgia da alma atormentada em busca de algo maior.

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