Se essa rua fosse minha…

 

…De olhos arregalados de espanto se iria encher essa rua de vistas largas


E a muitos se trocariam as voltas, antes de trocar as pernas

Outros, hipnotizados, iriam admirar-lhe a delícia e delicadeza de pormenores. Talvez inventassem para ela uma canção.

Se essa rua, se essa rua fosse minha, com pedrinhas e brilhantes e mãozinhas de amantes,

muitos parariam para um copo de água, ao verificar a evidência.

É que essa rua, comprida de vistas e arredonda nos cantos,

e muito bem frequentada, diga-se de passagem

em verdade se diga também

que essa rua… é mesmo a minha rua.

Alguém duvida?

 

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Manhattan Diaries (I)

Is that the Chrysler Building? (c) Honigod, 2017.

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Atitude

Eu sei que se tiver medo assusto-me com mais facilidade.

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Jerry Lewis

Vou ser-te franco, Jerry, pensei que já tinhas morrido. Com a alarvidade do teu O Morto Era Outro, de 1969, vais responder-me que o meu problema é ainda ninguém se ter dado ao cuidado de me avisar de que bem morto estou eu. E estou. Onde é que está o candengue que eu era quando tu pela primeira vez me falaste – me atropelaste, melhor seria dizer –, tinha eu 11, 12 anos, no cinema da 7ª esquadra, em Luanda, já 8 ou 9 inteiros anos passados sobre o puro e rebelde assalto do 4 de Fevereiro?

Tu perguntas-me, com a tua americaníssima ignorância, que raio foi ou é o 4 de Fevereiro? E eu pergunto-te que raio de ideia te passou pela cabeça para me apareceres assim, a tentares esquizofrenizar-me, numas cenas Professor Julius Kelp, corpo todo retorcido, a pingares um recalcado desejo pela Stella Stevens, e noutras cenas, em fatos rutilantes, voz de rythm and blues, um Buddy Love sedutor, mentor, sexy e cantor?

Sim, encontrámo-nos nas Noi­tes Lou­cas do Dr. Jer­ryl, a que chamaste The Nutty Professor. E tu, Jerry, era dois em um: de dia, o míope, cor­cunda e alu­ado prof. Julius Kelp e, à noite, depois de meteres à boca uma con­ve­ni­ente mis­tela aluci­no­gé­nea, eras o ego­ma­níaco e sedu­tor Buddy Love. Há quem diga que eras, num dos teus eus, um auto-vexatório Jerry e, no outro eu, a zur­zida cari­ca­tura de Dean Mar­tin, com quem tinhas feito dupla e uma daquelas amizades que nunca acaba.

Com o meu engas­gado estilo de Julius, logo me ape­te­ceu roubar-te a fama e o pro­veito de Buddy Love: esbo­fe­tear humi­lhan­te­mente quem me con­tra­ri­asse e tra­zer sem esforço as fres­cas bocas das lou­ras ado­les­cen­tes à minha boca. Não deves ter gostado nada de mim, mas eu gos­tei de ti, Jerry: per­ten­cias ao tempo em que vivía­mos e, sobre­tudo, pare­cias do tempo em que sonhá­va­mos viver.

Ado­rei, desculpa repetir-me, esqui­zo­fre­ni­ca­mente As Noi­tes Lou­cas do Dr. Jer­ryl. Por ser um sonho de miúdo. O que eu que­ria era o que tu fazias no filme: ter outra e des­co­nhe­cida iden­ti­dade, ser o irre­cu­sá­vel, irre­sis­tí­vel, melhor de todos, entrar na dis­co­teca (ui, e logo o Pur­ple Pit; sim, lá na rua, logo lhe chamámos o pitinho púrpura) e a orques­tra parar, todos os olhos fixa­dos no pro­di­gi­oso fato azul celeste de cola­ri­nhos pre­tos, colete branco, camisa rosa e gra­vata azul-escuro com que, feito Buddy Love, irrompias, dei­xando esga­ze­a­dos os tam­bém azu­lís­si­mos olhos da Stella Ste­vens que, essa manhã, o estra­bismo de Julius sonhara des­pir de todas manei­ras e melhor feitio.

Sei bem que não sabes, mas deixa-me contar-te, agora que já não podes partir-te todo à minha frente, a rir-te ou, pior ainda, a gritar como gritavas no The Ladie’s Man. Quando o João Bènard me convidou para a Cinemateca, o primeiro ciclo que organizei, com o João Lopes, foi em tua homenagem (ou à tua custa, dirás tu).  Não minto. Tens aqui a capa do catálogo que é de Julho de 1981.

A sala da Cinemateca tinha ardido e fomos fazer o ciclo ao Quarteto, ainda eu estava longe de saber o amigo do peito que o Pedro Bandeira Freire acabaria por ser. O catálogo é humildemente deslumbrado, quase uma plaquete estudantil, de 52 páginas, a custarem uns caros 80 escudos, que os teus luxos pagam-se. Mas era, se um catálogo fosse a foz de um rio, um delta de amizade. O que não copiámos e traduzimos dos Cahiers du Cinèma (sim, aquela revista que embrulhou os filmes no papel celofane que põe os teus reticentes compatriotas de olhos em alvo), pedimos aos amigos que escrevessem, a começar pelo Camacho Costa: “Era uma vez um palhaço, tinha um nome e um rosto e um corpo. O resto era só a alegria de se descobrir mergulhado nessa vertigem imensa que é inventar do outro lado a nossa própria loucura.” E convidámos, o João e eu, dois Gabriéis. O João, um psicanalista, o José Gabriel Pereira Bastos. Eu, um filósofo, o José Gabriel Trindade Santos, meu eterno professor. Escrevemos também nós. E lembro-te o que o João Lopes começava por dizer: “Herbert H. Heerbert, o “homem das mulheres” de Jerry Lewis, tem medo do cão que ruge, esse “Baby” (bebé) que tantas preocupações traz à sempre presente e dominadora Mrs. Welenmelon.”

O João Lopes tinha razão: tinhas medo desse cão, Baby, que não podia soltar-se, nem ver-se E nem era preciso que Mrs. Welemelon te tivesse prevenido. O rugido de Baby e a fome insaciável de Baby perseguiram-te a vida toda, os filmes todos. Baby, o cão, está agora à tua espera. Deus só pode ser esse bebé que ruge. E o céu é, de certeza, um cenário quase tão prodigioso como o de The Ladies Man. O que Baby, ou Deus, não sabe é o susto que vai levar quando descobrir que tu és o que és e o que não és. E o que és? Julius Kelp ou Buddy Love?

 

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O poder e os lírios do campo

Foi um beijo paz na Terra aos homens de boa vontade, mas ia caindo o Carmo e a Trindade. Quem me disse, na longínqua Luanda dos meus 12 anos, que numa noite dos Oscars a mediterrânica Anne Bancroft beijara o lírio do campo que era Sidney Poitier? Terá sido o Cesarito, que a minha mãe achava ser o meu amigo mais bonito, para logo ele se rir, pois, pois, por eu ter nariz de branco, não é?

O Cesarito era a cara chapada de Sidney Poitier e do que eu gostava nos dois, era da serena e irónica afirmação de igualdade. Poitier tanto podia ser, como foi em “Blackboard Jungle”, um professor, ou ser o handy-man que foi em “Lilies of the Field”, filme que lhe deu o Oscar e o beijo de Bancroft.

Mas nem é de Poitier, nem do escândalo americano desse beijo, nem das camionetas de correio de ódio que Bancroft recebeu, que quero falar. Nem sequer das ameaças de morte que o beijo a Poitier fez desaguar em casa dela. Quero falar de empoderamento, um palavrão horroroso. Sem usar a palavra ou as jeremiadas que se lhe colam com cuspo, Anne Bancroft foi mulher e fortíssima. O nome verdadeiro, Anna Maria Luisa Italiano, era já todo um programa. Cabelo pretíssimo, pele morena, maçãs do rosto tão altas que de lá se podia ver a terra inteira, boca e nariz com a perfeição que as orações dos catolicíssimos pais encomendaram a Deus, Hollywood obrigou-a a mudar de nome e ela escolheu Bancroft. Da lista proposta era o único que não parecia apelido de stripper. Olhos de fumo, voz de fumo, quando estremeceu em Hollywood foi triunfar na Broadway, obrigando o cinema a voltar, humilde, pedir-lhe que regressasse e se imortalizasse como Mrs. Robinson, no “The Graduate”, de Mike Nichols.

Na Broadway, ia a meio de um monólogo e uma espectadora levantou-se para sair. Interrompeu-a: “Querida vai sair? Por favor, meu bem, estou mesmo a acabar. Dê-me só mais uma chance!” E houve outra espectadora que tossia, tossia, até acabar por se levantar. “Já não era sem tempo – disse-lhe Anne –, beba uma água ou qualquer coisinha.”

Casou para a vida com Mel Brooks. Foi Anne que o pediu em casamento e ele não tinha, então, um vintém. Mel contava que, no restaurante, ela lhe passava notas por debaixo da mesa para ser ele a pagar. Mas assumia o poder: “Isso é gorjeta a mais. Calma lá, é o meu dinheiro!”

Publicado no Expresso, sábado, dia 12 de Agosto

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Crepúsculo (1)

 

Milton Avery   Spring in the Mountains, 1960

 

Afinal não era isto. Não era nada disto, pensou.
Sentiu uma comichão no pé, o ar seco irritava-lhe a pele.

O sono fazia falta, por tudo e por nada resmungava.

O vento quente empurrava a dança  das folhas verdes claras nos choupos esguios, alinhados pela linha do riacho que corria com vagar sobre o leito de pedra e lama escura, limos azulados como cabelos.

Nos momentos que conseguia travar os pensamentos deixava-se levar. Os olhos fechavam-se, o odor do whiskey velho, da madeira húmida, flutuava no ar, as risadas e vozes desapareciam ao fundo, o respirar da serra, sonolento também, tornava-se murmúrio.
A sensação estranha de que a vida passava-lhe ao lado, passara-lhe ao lado. As mãos secas lembravam a pedra texturada , rugosa, da rocha que não se partia, do tronco de árvore duro que injecta raízes e seiva por entre as ranhuras. Que força pode ser maior que esta? A da vida que rebenta nos intervalos do nada?

O silêncio tinha ajudado durante os primeiros meses, deu-lhe tempo de se preparar para o retorno.
E as árvores e o espaço. Sabia bem poder desentorpecer as pernas nas longas caminhadas solitárias pelo trilho sinuoso dos abetos e carvalhos, onde a sombra negra criava humidade na terra escura.
M. vinha visitá-lo de quando em quando, trazia jornais e algumas notícias do mundo que tinha deixado. Nunca se sentia totalmente à vontade, e sabia que M. também não. Mas gostava de ouvir o ruído do motor a aproximar-se ao longe, dando tempo de sair para a varanda e esperá-la cá fora, já com o sol da tarde a marcar as sombras no soalho de madeira.

O mais difícil era ficar entre ter de contar tudo e não se querer lembrar de nada. Se esquecesse, pensava, não haveria nada para contar. Mas esquecer também o assustava, perder parte daquilo que era, ao esquecer-se daquilo que tinha sido.

Uma das coisas mais estranhas era o tempo. De um momento para o outro já não se lembrava de ter sido novo, criança, de calções, e os pés suados na meia grossa de lã. Já não se lembrava de ter sido adolescente, livre como toda a vontade de ser livre. As memórias lentas, pesadas, a vida que passava com um filme mudo, numa estação de comboio onde a chuva batia no tecto de vidro.
Mas não era isto que tinha esperado.

 

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Romance do fundilho das calças

Como é que os escritores escrevem? À mão? Ainda à velha máquina de escrever? No teclado de um portátil? Por ditafone?

Eu sei como escrevia Agustina. Dos três livros de que fui editor, recebi rolos de papel com aquela letra miudinha, hieroglífica, se assim, faraonicamente posso dizer, que está na imagem e que foi preciso decifrar e transcrever. Soube , por acaso, que a essa mesma árvore genealógica pertence António Lobo Antunes, que gosta, papírico, de escrever em pequenas folhas semi-porosas. À mão, com a divina mão, exactamente como Agustina.

Não é nenhuma traição dizer que a Eugénia de Vasconcellos, Triste neste blogue, como o Norton, o Monteiro e até eu, terá escrito o seu tão bonito Quotidiano a Secar em Verso nos blocos da papelaria Fernandes, esses antepassados da Moleskine, e de certeza que já me enganei, mas é de propósito para ver se ela vem aqui corrigir-me, que já não bloga há um século.

Agora vejamos, o escritor sua quando escreve? Fuma, bebe, sofre ou ri? Escreve na cama, na cozinha ou no discreto escritório? A circunspecta revista Spectator publicou este artigo,  no qual dá a palavra a autores contemporâneos. Pedia-vos o grande favor de lerem e de me dizerem se é giro. Sucede que fiquei agarrado no preâmbulo. O autor do artigo conta que Kingsley Amis jurou que a maior parte do trabalho de um escritor passa pela forma como o fundilho das calças se lhe adapta ao assento da cadeira. A hipótese é sedutora. E quem em seu perfeito juízo não prefere ficar dois ou três dias agarrado a uma hipótese sedutora, negando à partida uma ciência que desconhece?

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respeita meu crespo

« todos estes estilos eram efémeros.  Desejei que se transformassem em obras de arte,

fixando a sua passagem»

Ojeikere , fotografo nigeriano

 

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O homem mais livre de Portugal

(Escrevi este texto no DN em Novembro de 2011. Volto a escrevê-lo hoje, que um  faccioso, racista e candidato o ameaçou de porrada)

O João Quadros, escritor, humorista, guionista e twitterista é, provavelmente, o homem mais livre de Portugal. Não sei se haverá alguém tão livre como o João Quadros, mas mais livre não há de certeza. Há muita gente livre no café ou à boca pequena, há muita gente livre lá em casa e muita gente livre pensadora. O João Quadros é um livre pensador, sim, mas em voz alta, no Tubo de Ensaio da TSF e à boca grande, com a ajuda do Bruno Nogueira.
Todas as manhãs, numa espécie de Krave Maga criativo, o João Quadros ajuda-nos a libertar as nossas vidas do debilitante bom senso lusitano expondo, com toda a liberdade, o ridículo que viaja pelos media e pelas nossas vidas; o ridículo dos anunciantes, da publicidade, dos políticos, dos agentes culturais, das televisões, dos clubes, enfim, das nossas mais estúpidas convenções. E, aparentemente sem tabus, pois não há quem não seja escrutinado, analisado e ridicularizado quando é essa a pena.

O João Quadros é tão livre que se libertou da última grilheta da criação que é o bom senso. Não é fácil e não é para todos, num país que dá mais valor ao bom senso e à conformidade do que à diferença e à liberdade. Mas é necessário, uma vez que foi graças ao nosso proverbial bom senso que aqui chegámos, alegremente, e é graças a ele que estamos agora, tristemente, a ir ao fundo. Com o aperto, com a austeridade com a pobreza virá o medo; com ele vai a liberdade e com ela a criatividade, que é a liberdade de opinar, de criticar, de fazer diferente, de pensar diferente, de ser diferente. E o país está cheio de medo. Os media amplificam-no e, por entre previsões de catástrofe e de pobreza, somos ainda culpabilizados de tudo, por comentadores, políticos, empresários com culpas e sem escrúpulos e que pensam como o seu dono, o estrangeiro.

Um dia destes, vai a ver-se, e a liberdade é apenas mais um subsídio que se pode cortar aos bocadinhos, um luxo de ricos que nós, os pobres católicos da outra Europa, também temos que cortar. “Pobres diabos, têm liberdade a mais e, claro, tinha que dar nisto!” pensará o alemão e o anglo-saxão. E pensam, com eles, os que por cá se julgam de lá e sente, no íntimo, que só por estranho capricho divino foram postos nesta terra. Para muitos destes, a liberdade é algo que temos a mais e que usamos irresponsavelmente.
São tempos estranhos estes onde muitos, com medo de perder os seus clientes, os seus empregos, a suas empresas, os seus investimentos, forçam as colunas em vénias e sorrisos até ao chão. São inúmeras as histórias que vou ouvindo de pressões, ameaças e chantagens, de gente sem princípios nem educação, de empresários e funcionários que se dedicam a tentar vergar quem ainda está de pé.

O João Quadros é um exemplo para todos os que trabalham na criação e na comunicação, porque não verga, porque é livre. A liberdade é um valor central que não é só da ordem da abstracção. Não, a liberdade é um valor económico na ordem dos milhões, a liberdade faz dinheiro. Para se ser criativo e fazer diferente, para inventar e, assim, criar valor, é preciso ser-se livre e sentir-se livre. Como o João Quadros, o homem mais livre de Portugal.

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Emotion trumps reason

 

 

 

 

 

 

 

Não há palavras que traduzam bem este título. Ainda assim há um ponto a ser feito por ele que tentarei explicar o melhor que sei.

Não há racional no fascismo nem no racismo. Há ideias. Ideias que nascem de vísceras a pensar. Há sangue a ferver. Há emoções, descargas de adrenalina e paixões negras. Há hipotálamo a decidir, o mais reptiliano dos órgãos do sistema nervoso. E há homens que sofrem metamorfoses e se transformam em violentas ratazanas que vêem ratos em todo o lado e os atacam só porque o cheiro do mijo é diferente do seu. Como aconteceu recentemente em várias partes do mundo: em Loures, por exemplo, ou no Pontal.

Hoje, na esquerda, e até na extrema esquerda, há mais razão. Mas só razão. Só há argumentos lógicos, só há planos, decisões racionais, abstracções, mapas e maquetes onde ninguém vive, teorias e dogmas urdidos em lógicas irrefutáveis e sem coração.

Houve um tempo, que ainda vivi, em que a esquerda pensava com as vísceras e com o hipotálamo. E havia algum bom-senso e racionalidade na direita. Depois a esquerda conquistou quase todo o quarto poder e a cultura, e tornou-se complacente para com a razão desprezando a emoção (o belo, o terno, o épico, o lamecha e todos os géneros que não sejam só logos); tornou-se académica. E a direita, que viu as suas razões serem preteridas pelos media e pela cultura, tornou-se visceral e reptiliana.

As decisões viscerais e reptilianas matam. As decisões racionais e dogmáticas matam.

Dustin Lance Black, argumentista da belíssima série When We Rise, dizia há tempos, em entrevista à BBC, que só se conseguem convencer pessoas pela emoção. Eu diria que não se convence ninguém de nada, que as pessoas não se convencem, convertem-se. Não é expondo argumentos perfeitos de racionalidade (se é que os há), encadeados por lógicas irrefutáveis, que se convence quem não quer ser convencido. É sentindo o argumento e vivendo-o, ainda que de modo vicariante – não ensinando de cátedra, que é o que hoje, maioritariamente, fazem as esquerdas; é fazendo as pessoas chorar, emocionar-se e enraivecer-se; é abrindo-lhes o coração, porque o coração é o trunfo para chegar à razão. É esse o papel da ficção.

Curiosamente foi assim, criando novas ficções e túneis de realidade por onde correm ratazanas, que a direita mais reptiliana chegou ao poder na América. Enquanto as esquerdas, sobranceiras, achavam que bastava ter razão.

 

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O busto de Fonseca

O padre Fonseca (José Maria da Fonseca) nasceu em Évora, em 1690. Tomou os seus votos em 1714, em Roma, onde vivia. Era Franciscano e o papa Bento XIII promoveu-o rapidamente a Procurador Geral da Ordem. Serviu-se da sua posição para estabelecer laços diplomáticos fortes com o rei de Portugal D. João V, que serviu como Ministro Plenipotenciário. O monarca português, no entanto, transferiu os seus favores dos Franciscanos para os Jesuítas, a partir de 1740, obrigando o padre Fonseca a regressar a Portugal e a servir sob as  ordens do Bispo do Porto.

Antes de regressar a Portugal, Fonseca deixou ao Museu Capitolino este busto sensual e belíssimo, o que diz muito, ou seja, diz tudo, sobre o gosto de um autêntico Fonseca. O busto desta mulher flaviana atesta o gosto de Fonseca pelo longo pescoço de uma mulher, pelos cabelos apanhados, que realcem a testa resplandecente, as altas maçãs do rosto. E não vou dizer nada da sofisticação do penteado, que hei-de arranjar um vídeo que diga tudo muito melhor do que eu.

Ora, aqui está

 

E mais aqui

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Nanni Moretti

 

 

 

Fartei-me de escrever no Expresso em Março de 1992. Lembro-me que já estava de férias na Cinemateca – as últimas. Tinha as malas prontas para começar na SIC, a 1 de Abril, trabalhador nº 11, como consta da primeira lista de pessoal edo meu cartão de funcionário. Fosse como fosse, decidira que havia incompatibilidade (o nanni morettiano que eu era!) entre ter funções directivas na programação de cinema e séries de uma estação televisiva e escrever no Expresso, sobre ficção ou política televisiva e cinematográfica. A dar as últimas, em Março, esgadanhei-me todinho. E fiquei, depois, quase 15 anos sem escrever uma linha que se visse…

Este artigo elogiava um ciclo que Cinemateca então programou e nele se fazia uma amena defesa de Nanni Moretti. Ainda hoje, e depois de ter visto, gostando um niquinho, Habemus Papam, e, gostando muito, La Mia Madre, pouco mudaria sobre o que disse de Moretti, que pela primeira vez vira, seis anos antes, na Cinemateca da UCLA, em 1986. Aqui vai, a velha prosa.

Obra vicentina
Manuel S. Fonseca

«O CINEMA e Uma Geração Italiana» é como se chama o ciclo que a Cinemateca dedica, de 21 de Março a 13 de Abril, ao novo cinema italiano. Integrando somente filmes produzidos entre 1987 e 1991, os organizadores abriram, todavia, uma excepção a essa regra cronológica, para apresentarem a obra integral de Nanni Moretti, cuja carreira começou em 1975, com um filme em 8 mm, intitulado Io Sono un Autarchico.

Sem aspirar a elevar-se a esse panteão onde, histórica e consensualmente, hoje se arrumam as figuras tutelares de Rossellini, Visconti ou Fellini, a obra de Moretti (realizador, actor e produtor) revela uma personalidade própria — de temas e de estilo — na qual não é difícil descobrir alguns motivos que justificam o acompanhamento cuidado da retrospectiva.

Às vezes conseguidos, às vezes muito conseguidos, por vezes relativamente falhados, os filmes de Nanni Moretti têm em geral um valor muito particular, o do amor pelas personagens que põem em cena. Rotulado como um cineasta de comédia, Moretti evita a caricatura como método e o cinismo como ponto de vista. Mais ainda, não são os outros o alvo da sua ironia, mas sim ele mesmo e o sistema de crenças que constitui a sua ideologia. Chamando as coisas pelo seu nome, temos então que Nanni Moretti é comunista e que os dramas dessa militância se convertem na fonte dramática dos seus filmes.

Em suma, Moretti dá o corpo ao manifesto: «As obsessões, as nevroses, a raiva, os entusiasmos de Michele partem de mim», disse ele, referindo-se à forma como imaginou e interpretou a figura de Michele, o protagonista de Palombella Rossa. Por isso, por ser uma obra de bondade (vicentina, dir-se-ia), é muito feio, como já vi em mais do que um comentário, servir-se de Moretti para apontar dedos ameaçadores. «La messa è finita.»

Cómico da palavra, em cuja mecânica ao argumento de um personagem se contrapõe sempre o contra-argumento de outra, Moretti procura evitar que a intenção crítica, visível nessa forma de organizar o discurso, descambe em azedume. Nostálgico muitas vezes, o mais que lhe acontece é ser também, por vezes, amargo. Amargo mas gentil. Essa perda das grandes ilusões que não deixa, ainda assim, de reter um grau de crença razoável na inteligência, reflecte-se na atitude de Moretti face à produção de filmes. Em 1986, fundou uma casa produtora, a Sacher Film, cujo objectivo, como ele afirma, tem sido o de «produzir filmes não banais e com uma identidade», como os de Daniele Luchetti e de Carlo Mazzacurati, realizadores igualmente presentes neste Ciclo.

A identidade do cinema de Moretti passa por uma defesa intransigente do individual, nos seus aspectos mais peculiares e privados. Se acreditarmos nas justificações dele, La Messa è Finita nasceu do seu desejo secreto de se ver como padre e vestido de sotaina; em Sogni d’Oro e Bianca, uma obsessão tão particular como a dos sapatos pode ser tema de um monólogo; os chocolates são um «guilty pleasure» recorrente.

Não são grandes razões, as que se alinharam em defesa de Moretti? De facto, não são. Mas são as que correspondem ao fundamento da acção de Moretti como produtor. «Apesar de tudo, no horror da indústria italiana, parece-nos existir um pequeno espaço para o cinema inteligente», disse Moretti falando de outros jovens cineastas. Era como se falasse de si próprio.

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CANTI

(Falarei de janelas)

Gaspar David Friedrich

CANTI

 

A  norte     Montanha

Nu      jardim         talvez        um     dia

O   Vento    a      Àrvore

Kshksh     kshish     kshish

ferrugem           coruja

vasta    amarga     pele     escura

Thun               hum                  dhum

1000      800         1

 

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É proibido casar bêbado

“ – A paixão é um instante de desvario. Pessoas que casam por paixão deviam ser consideradas inimputáveis, e esses casamentos anulados.

– Não está mal visto – concordei.

– As pessoas só deveriam ser autorizadas a casar estando lúcidas. Não entendo porque, sendo proibido conduzir bêbado, não é proibido casar bêbado, ou apaixonado, o que é a mesma coisa. Um casamento não é assim tão diferente de um carro. Mal conduzido, pode ferir muita gente, a começar pelos filhos (…)”

José Eduardo Agualusa, em “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”

 

Finalmente, consegui pôr de lado esta minha insuportável mania de questionar a espantosa facilidade com que, nos dias que correm, o Direito Canónico, aparentemente, permite a anulação de casamentos celebrados à luz das suas regras (os católicos, bem entendido). Afinal de contas, eu é que não estava a ver bem a questão. Mea culpa. Foi a minha deformação profissional de advogado – neste caso, segundo alguns dos meus interlocutores na discussão, de “advogado do diabo” em sentido literal – que me levou a insistir no absurdo de tornar nulo um casamento – é isso mesmo, como se ele nunca tivesse existido aos olhos de Deus – de dez, quinze ou vinte anos, com filhos atrás de filhos, sem qualquer vício na formação da vontade que não fosse o de uma das partes, ou ambas, se ter(em) apercebido, ao fim dos ditos dez, quinze ou vinte anos, e dos tais filhos atrás de filhos, que tudo não passara de um engano. Ora, pois claro, se gostavam um do outro quando casaram e agora já não gostam, é porque estavam enganados – quanto ao outro ou quanto a si próprio – nesse momento em que se terão vinculado e juraram gostar um do outro, aos olhos de Deus, até à eternidade. Pois então, se não há hipótese de divórcio (essa aberração dos casamentos civis), anula-se e pronto, não se fala mais do assunto, nunca estiveram casados, os tais filhos atrás de filhos passam a ser bastardos (até porque foi um engano o ato de procriação que os fez nascer) e mais nada.

Como é que não percebi antes. Foi preciso vir o José Eduardo Agualusa, no seu último “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”, explicar-me tudo de forma tão cristalina. “É proibido casar bêbado, ou apaixonado, que é a mesma coisa”. E quem o faz é inimputável. Afinal, o vício da vontade sempre esteve lá. Grande nabo fui eu como advogado em todas as discussões acesas que travei a propósito da anulação de casamentos de pobres ex-nubentes bêbados.

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Os pianistas

 

 

 

Por razões que não vêm ao caso, mas que um dia destes se hão-de ver, o comunismo caiu-me em cima e ando soterrado em literatura ensaística de Outubro. De 1917. Comecei com Lenine. E não, não é o Lenine da Cinemateca que, já um dia contei, a minha mulher em lágrimas, entrando pelo gabinete do João Bénard da Costa, anunciou em soluços: “Morreu o Lenine, João.” E logo ele, atrapalhado por a saber tão comunista: “Oh Antónia, caramba, já morreu há que tempos.” E a Antónia, prontamente: “João, não é esse, é o nosso Lenine.” Não é com esse saudoso e macilento Lenine, presença permanente nas sessões da Cinemateca, vigilante de todas as gralhas e falhas nos texto que a Cinemateca publicava, que me ando a entreter. É mesmo com o Vladimir, o Ulianov e bolchevique. Li-o, li-lhe biografias, li ensaios sobre a economia russa, sobre 1905 e 1917, e vou agora quase no fim das memórias do seu figadal adversário, Kerenski.

Para arranjar tempo para ler tudo isto, precisei de ler, ver e ouvir derivas e outros sonhos. Podia dizer que fui ver o Paterson do Jarmusch, e fui, mas isso é o que direi no Expresso de sábado que vem.  Adiante.

Mas o que quero dizer é que ainda bem que antes de ir ver o Paterson já andava a ler, e continuo, O Pianista de Hotel, de que é autor o Rodrigo Guedes de Carvalho. E não é autor coisa nenhuma, porque até páginas 201 deste Pianista os autores deste livro são os olhos de uma personagem e os ouvidos de outra.  O romance que esses ouvidos e olhos escreveram, substituindo-se ao Rodrigo, seu pretenso autor, apanham-me no momento certo da minha vida. Também os meus olhos e os meus ouvidos ganharam vida própria, ficando muito mais velhos do que eu, e por isso se sentem irmãos dos ouvidos da personagem do Pianista que ouve vozes que mais ninguém parece ouvir (e a própria personagem tem algumas dúvidas) e dos olhos da outra personagem que vê uma mãe que a parva, parvíssima objectividade garante rotundamente já estar há muito morta e enterrada.

Um dia perguntarei ao Rodrigo, cujos olhos e ouvidos ainda são muito mais novos do que ele, quem lhe contou este segredo da autonomia federativa de olhos e ouvidos, mas a páginas 201, e se o suspense, uma trama de linhas paralelas e uma prosa sóbria fazem as delícias do vosso palato narrativo, vão ver este hotel e ouçam o pianista.

Má fortuna de outro pianista, Júlio Resende, são os meus descomandados ouvidos que o andam agora a ouvir. Estranhando pessoanamente a heteronímia com que aqui Alexandre Search o absorveu. tenho de dizer ao Júlio que até o Lenine (o de 1917, não o da Cinemateca), obstinado fã da Apassionata de Beethoven, se exalta com ele, intrigado com a forma como, quando toca, o corpo de Resende se desfaz, a cabeça em voo picado pelos ombros abaixo, os braços em câmara lenta de cinema mudo.

E já tinha ouvido e hei-de sempre ouvir Fado & Further, onde se ouve a voz de quem ali nem canta, fantasmas dos meus sonhos e dos meus medos, dessa estranha forma de vida que é o século XXI a debruçar-se sobre o século XX.

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