Svilar

foto de A Bola online, com a devida vénia.

De certeza que já vos aconteceu. Falo daqueles silêncios súbitos e inexplicáveis. E dizemos: «Passou um anjo.» Hoje, quando acabou o Benfica-Manchester, vendo as imagens dos jogadores das duas equipas a cumprimentarem-se, senti uma súbita e inexplicável comoção. Não era bem uma vontade de chorar. Ou talvez fosse. Uma coisa é certa, era a minha pequena maçã de Adão a subir e a entupir-me a garganta e era uma alegria orgulhosa a espalhar-se no peito. Se quiserem e se me deixarem usar o cliché, estavam a passar anjos. Sobretudo quando Lukaku, o avançado do Manchester, foi ter com Svilar, o menino que guardou a baliza do Benfica, e lhe falou com a mais humana das gentilezas. Via-se nos olhos e nos gestos desse ciclópico e belo Lukaku que ele só queria injectar confiança, amor próprio, na quase criança com que falava. E, a seguir, Lukaku abraçou Svilar como um irmão mais velho abraça o maninho caçula.

Hoje, Svilar, que deu um passo atrás em falso e com isso sofreu um golo que se envergonha tanto de ser golo que ninguém o comemorou, descobriu o valor da bondade. A bondade tem a cara de todos os jogadores do Manchester e do Benfica que o abraçaram. E a bondade de todos eles, rapazes com 25 ou 27, mesmo 30 anos, tem uma explicação. Começa na bondade de Svilar. Mourinho – e quando Mourinho acabou de falar já eu estava em transe melodramático -, Mourinho, rendido a um bem e beleza platónicos, ensinou-nos que a bondade com que toda a gente estava a cobrir o erro de Svilar não era uma bondade compadecida e muito menos compungida. Essa bondade era só a bondade de quem, reconhecendo a magnífica exibição de Svilar, a forma como se entregara com amor ao jogo, com amor ao futebol, ousando e arriscando, sabia que ele tinha sido tão grande e perfeito, que permitia, convidava até a que lhe dissessem «ah, e houve aquele passo atrás…»

A palavra portuguesa «desportivismo» nem é feia, mas a palavra certa é inglesa: o Estádio da Luz, depois do jogo, balneários incluídos, foi invadido por uma onda de «fair-play». Diria que se apoderou de todos um honesto amor ao jogo e que o Estádio da Luz se transformou num miraculoso «field of dreams». E a minha maçã de Adão que subia e descia, ligeiramente descontrolada, estava assim, descontrolada como uma rosa-dos-ventos, por temer que o tempo se tivesse descomandado e eu tivesse regressado à minha infância e a essa forma de ver o futebol com alegria, mais alegria na vitória, mas alegria ainda mesmo na derrota, por se ter jogado com entrega honesta. Liguei ao meu amigo Abílio, que vive em Joliette, no Canadá, para o ver no facetime e para nos lembrarmos, ele do Sporting e eu de rubra camisola berrante, quando, no muro que dividia, mas não separava as nossas casas,  discutíamos as glórias de Azevedo e Travassos, Coluna e Eusébio. Gostava de convidar Svilar, tão menino como nós éramos, a juntar-se à conversa.

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Sim, senhor ministro

Não poderei jurar que se tenha passado exactamente assim…

Não lhe as dou, já disse, não dou!

 O nosso Primeiro:
– Senhora ministra, apresente a demissão.
A ministra demissionária:
– Pois muito bem, apresento a demissão e apresento as armas: estão na Chamusca, mas as munições, santa paciência, já lhas dei aqui há uns meses, não as aproveitou e agora, temos pena, fico com elas.

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Quase!

Está quase! Está quase! Afirmam, perguntam-me, tocam-me na barriga olhos cheios de esperança. Acariciam o mundo, mãos de linhas tortas e direitas, carregadas de passado e desejosas de futuro, de um bom futuro. Abençoam e abençoam-se neste cruzamento onde tudo é possível, onde tudo está por acontecer (que maravilha!) e repetem-se,  É rapaz, não é? Os rapazes deixam as mães bonitas. Está quase! Está quase.
A barriga redonda, empinada, torna-se muitas vezes um confessionário ambulante. Nesta sede de Humanidade reinventada, vêm procurar água benta e deixam correr águas passadas. As minhas, é verdade, estão quase quase a rebentar. É pra quando? Qual o dia?
É quando ele quiser. Não há data. Para nascer  apenas é preciso a vontade do bebé e a disponibilidade da mãe, não um calendário. Nas voltas que já lhe demos esquecemo-nos que não há dia para nascer. Nem para morrer. Contudo, celebramos para nos tornarmos imortais.
Já fiz rins, pulmões, neurónios, unhas, olhos. As minhas veias transportam quase o dobro do sangue. Há um lago e dois corações batem dentro de mim. Duas almas que me dão vida. Uma viagem de 9 meses feita a dois em permanente companhia. Ele vive dentro de mim e isto é quase inacreditável. Só é verdade porque o sinto, mais e mais a cada dia que passa.
Já fizemos o que tinha de ser feito – mãe e filho estão prestes a nascer.
Nesta recta final, o filho prepara-se para enfrentar a Humanidade. Ganha coragem para o primeiro fôlego. A mãe em jeito de ritual de combate anunciado, alimenta-o com mezinhas e outras magias. Dá-lhe super poderes para vencer. É preciso magia para se poder viver, meu filho.
Os dinaussauros extinguiram-se e do gelo já pouco resta, mas os grandes predadores continuam. Os humanos, a maior ameaça, lideram imbecilidades.

Num dia que de Outono nada tem, Portugal, o teu país, meu filho, é comandado pela besta humana e lavrado pelo fogo até ao mar. Neste e nos próximos dias há que ter e encontrar coragem para te deixar sair de dentro de mim.

A grande mãe, a mãe de todos nós tem de ser cuidada, tratada com carinho, livre da pressão do lucro e novos rebentos farão uma floresta ainda maior.

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O fogo

É muito difícil escrever posts alheios à realidade que os portugueses viveram nas últimas 48 horas. Sobretudo porque, poucos meses depois, se repetiu a mesma tragédia, se sucederam outras e novas mortes e se choraram novas lágrimas sobre lágrimas já derramadas. O fogo, esse fogo que arde e exuberantemente se vê, é um dos terrores e dos fascínios da humanidade. Fonte de vida e de progresso vital para fazer da humanidade a humanidade que somos, converte-se por vezes em nemesis, como se o mal decidisse, vingativo, fazer a sua intempestiva aparição.

O fogo é brutal e majestoso. Este vídeo do canal Arte, só imagens, sons e música, faz-lhe justiça e devora-nos: love is a burning thing.

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Um Rapaz aos toques no céu

E se eu vos dissesse que ontem chorei para dentro? A ocasião era de festa, eu não esperava por esta memória que a Marta guardava, e por pouco não saí lesionado. Mas Benfica é Benfica e eu fiz de mim Eusébio com o joelho escalavrado. Não há cá substituição. Uma surpresa do tamanho da Luz e tu ali, meu Rapaz de Veludo, a convocar todos os pelados do Mundo. Todos os golos que marcámos, as fintas que não fizemos, o relvado imenso que era a soleira da porta da casa do pais. Uma chama que não se apaga e é feita de uma dor imensa. Saíste-me uma bela papoila. Sentado ao canto, num tempo que não sei qual foi, mãos nos joelhos, olhar macaco de tanta malandragem que estava por vir.

Chorei para dentro. Mas um choro dos rijos e dos felizes. Sei que estás equipado, a fazer cuecas aos santos e a marcar golos no teu céu.

 

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Uma noite no Soho

Hoje não vou ao cinema. Iria, se me prometessem que lá estavam Francis Bacon e Lucian Freud. Digo-vos quem são. São dois tipos que se revoltaram contra o futuro. Haverá quem diga que são ou eram dois pintores e eu, com a arrogância dos ignorantes, insisto: eram dois tipos sentados pantagruelicamente no presente. Comiam o presente, embebedavam-no e fodiam-no como quem respira, desvairado. Jogavam nas corridas, andavam à porrada, mergulhavam em champagne e caía-lhes o corpo exausto nas cavalariças, ao lado dos cavalos que tanto amavam.

Se eram amantes? Se isso não meter sexo, eram. Bacon, descendente do filósofo homónimo e empirista, era homossexual dia e noite, com vincada preferência por homens mais velhos que lhe arriassem forte e feio. Freud, neto do seu psicanalítico avô, era mais novo treze anos e preferia afundar-se na primordial e perlada fonte feminina. Caroline Blackwood, mulher de Freud durante parte dos anos de vida louca com Bacon, dizia: “Jantei quase todas as noites do meu casamento com Bacon. Ah, e também almocei.”

Sim, gostavam de jogar nos cavalos, de se atirar sem rede para os bares do Soho e frequentar vigaristas, ladrões, putas, chulos e mais gente prendada, mas o cimento dessa vida gelatinosa era a paixão pela pintura figurativa que cultivaram como flor de preço.

Ora lembrem-se: aquele tempo era um tempo que prometia arte abstracta para toda a santa e imóvel eternidade. E Bacon, primeiro, e Freud com ele, sentaram-se no presente, com o passado entre as pernas, pintando retratos de pessoas, nus com chapéu, papas aos gritos, meninas com cão branco, a carcaça de um boi no talho. Tenho de dizer: estilhaçaram o raio do futuro. Ainda há dias, quatro anos, que interessa, o “Três Estudos de Lucian Freud”, em que Bacon pintou o amigo num delicado equilíbrio de luz e ouro, atingiu o francamente estúpido recorde de 120 milhões de euros, o que, a meu ver, já é mesmo gozar e humilhar o futuro.

Na arte e nas noites do Soho, e ai de quem veja alguma diferença entre elas, o que os uniu foi um paradoxal optimismo niilista. Tinham os músculos carregados de energia, de uma força nietzschiana, amoralíssima. Queriam, por junto, luxo e luxúria: pintavam, comiam, bebiam, esmurravam e eram esmurrados como quem faz amor. E eu, hoje, já nem preciso de ir ao cinema.

Publicado no Expresso, sábado, dia 7 de Outubro
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Não me posso queixar (fim)

(Capítulo 1)
(Capítulo 2)
(Capítulo 3)
(Capítulo 4)
(Capítulo 5)

 

6

— O amigo não tem uma moedinha?
— Aposto que é para beber?
— Na verdade é para comer. Para beber já estou aviado. Quer provar?
O amigo olhou desconfiado para o vagabundo.
— É um Grand Cru de Montrachet — assegurou o vagabundo. — Sente-se que eu tenho dois copos. Só me falta uma perdiz de escabeche. Este Chardonnay ia lindamente com perdiz de escabeche. Para isso lhe pedia uma moedinha.
— Você trata-se bem.
O amigo sentou-se nas escadinhas e agradeceu o copo.
— Estava mesmo a precisar dum copo.
O amigo vinha abatido do velório do morto. Não por causa do velório. O amigo gostava de velórios. Velórios são uma belíssima oportunidade para conversar e contar balelas. “Então como vão as coisas? Vão óptimas”, e lá se larga a balela. Mas desta vez o amigo não estava óptimo. E sentia a falta do morto. De todos os seus conhecidos, o morto era o único que ainda lhe ouvia as balelas, e ele estava com grande necessidade de contar uma. Os claustros de confortáveis poltronas com vistas desafogadas sobre jardins com patos, a que tinha acedido através de portas que se abriam magicamente, e onde se sentava em amena cavaqueira acenando concordâncias e gerindo silêncios simpáticos e encorajadores do trabalho e das decisões de outros – que lhe admiravam os fatos feitos à medida, as camisas brancas de colarinho recuado e os sapatos castanhos como manda a etiqueta italiana – eram coisa do passado. O amigo tinha sido educadamente dispensado.
— Venho de velar um morto — disse, sentando-se.
— Fale-me lá disso.
— Morreu depois ter enfiado as mãos numa caixa com formigas da Amazónia.
— Não me diga. Então foi disso que ele morreu.
— Foi sim. Não sei onde tinha a cabeça. Deixou-se, com certeza, embarcar naqueles rituais neo-hippies que agora se fazem, aquelas coisas do tipo ayahuasca e assim, mas este foi radical demais. É preciso tomates para enfiar as mãos num formigueiro de Paraponera da Amazónia. Diz que é a pior dor do mundo. Agora está morto.
— Ao morto! — disse o vagabundo levantando o copo de Montrachet. Brindaram em pesaroso silêncio que, no entanto, não resistiu às expressões de agrado com o Montrachet.
— Hum, que belíssimo vinho.
— É um dos grandes vinhos do mundo — declarou o vagabundo.
— Não conhecia. É de onde?
— Da Borgonha. Nasce nuns meros oito hectares em Montrachet.
— Meros e mágicos — disse o amigo reverente e apreciador. — Você percebe disto. Imagino que bebe muito.
— Bebo desde sempre, desde o princípio do vinho, por assim dizer. Este foram dois velhos amigos de Puligny, o Pierre e o Arnolet, que mo deram a beber há muito, muito tempo. Ainda o sítio se chamava Mont Rachaz e eu ouvia queixas na Abadia de Mezières. Mas fale-me lá do morto.
Indiferente ao que ouvira, e que tomou como coloquialismos dementes, absolutamente adequados a quem emanava uma tal aura vagabunda, o amigo começou:
— Era um tipo bizarro, o morto, mas ninguém o imaginava assim tão bizarro…

O morto fora encontrado nu e sem sentidos na banheira de sua casa, coberto de hormigas veinticuatro. Foi encontrado pela senhora-a-dias logo às nove da manhã, que era a hora a que sempre chegava, pontual, para começar a limpar. Nessa manhã não foi excepção: chegou e começou logo a limpar.
“Ai dr., valha-me Deus, agora adormeceu na banheira coberto de formigas” exclamou a Dona Berta que logo o cobriu de pó mata-formigas da Bayer e deu graças ao Senhor de não se tratar de outro bebé. De imediato as hormigas veinticuatro deambularam pela casa cobertas de pó branco morrendo pelos cantos num estertor venenoso. Depois foram varridas e deitadas no lixo de onde foram posteriormente recolhidas pelos inspectores da PJ para análise. Só mais tarde, dando-se conta de que o morto afinal não dormia, ligou ao INEM que enviou uma equipa especializada em partos complicados. Enquanto o médico chegava e não chegava, chegou tarde, dona Berta dedicou-se a investigar a origem do formigueiro que, desconfiava, se situava em casa do vizinho do 2º: um grandessíssimo porco, como era reputado na vizinhança.
A causa da morte, de acordo com o médico legista, foi um choque circulatório que se seguiu a uma síncope vasovagal. A incomensurável dor provocada pela neurotoxina da Ponera, descrita no índice de Schimdt como pura, intensa e brilhante, igual a caminhar sobre carvão em brasa com um prego espetado num calcanhar durante vinte e quatro horas, terá sido demasiada para um coração que não era mesmo grande coisa. Aparentemente o morto tinha mesmo problemas concretos no coração e não apenas os do foro ficcional metafórico.
— Era um homem corajoso, o morto — disse o vagabundo.
— Era sim, um bom homem com um bom coração que era mau — disse o amigo. — Um pouco calado e quase sempre meio deprimido, mas um bom homem. Ouvia muito. Faz-me muita falta, sobretudo agora que eu precisava de ouvido.
— Não me diga que tem queixas dolorosas? — perguntou o vagabundo enquanto estendia a garrafa do belíssimo Montrachet. O amigo estendeu o copo vazio.
— É mais angústias. Mas verdadeiras angústias, no entanto.
— Azar! — exclamou o vagabundo recolhendo a garrafa e deixando o amigo pendurado de copo vazio. — Eu não faço angústias. Só queixas dolorosas. Se tivesse dores…
— Por acaso tenho — disse o amigo algo envergonhado. — Dores de mulher. Dores no tronco, e no pescoço, e nos membros. Às vezes difusas, outras vezes intensas, parece que queimam. E são sempre acompanhadas de perturbações do sono e do humor. Dizem que é fibromialgia. Uma doença de senhoras, veja bem. Por isso me queixo tão pouco.
O vagabundo voltou a estender a garrafa e encheu os copos.
— Ora, ora. Queixe-se à vontade que é para isso que aqui estamos. Eu não estou cá para julgar. Isso é o outro.

 

Fim

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O nosso editorial

Recordamos a leitores novos do Escrever é Triste o nosso editorial. O espírito do Escrever é Triste é lúdico e essencialmente baseado na troca de prazeres. Ou seja, e simplificando, CHATICES NÃO. Pedimos expressamente que não haja comentários  ad hominem, só com o propósito de ofender. Bem sabemos que há uma certa frequência da “rede”, da bloga e das redes sociais que está animada desse espírito de mal-dizer e carroceiro. Lamentamos mas, exactamente por querermos marcar a diferença, excluiremos comentários que sejam arbitrariamente ofensivos.

Honra seja aos nossos leitores, já levamos 6 anos de publicação e têm sido raríssimas essas situações. Surgiram agora duas excepções. Pedimos a esses frequentadores do blogue que não queiram ser mesquinhos agentes de discórdia, cujo único prazer é o de destruir aquilo de que não conseguem participar.

E o nosso editorial é:

Editorial

1.   Somos um blog colectivo pessoalíssimo.

2.  Misturam-se, no “Escrever é Triste”, duas correntes de fundo: o prazer desinteressado da escrita e o risco de exibir formas íntimas de ver o mundo.

3.  Escrever-se-á de tudo, desde que sejam gostos: de livros ou de filmes, de pintura ou de música, de ideias ou de comportamentos, do quotidiano ou de utopias.

4.  Para se escrever de tudo, tudo serve: uma lembrança de infância, um acontecimento em curso, um farrapo de conversa que se ouviu, uma efeméride, a actualidade, a pasmosa variedade do que se publica na “rede”. A única exigência é que esse tudo seja convertido numa voz, a voz de quem escreve.

5.  Haverá três modelos de posts, graficamente distintos:

a)         os posts livres, em que os autores abordam temas, ideias, episódios, gostos e sobre eles discorrem, em geral escrevendo, nalguns casos desenhando ou fotografando;
b)         os posts de ficção, de que uma variante será um desafio mensal lançado por um dos autores;
c)         os posts curtos, numa linha de escrita automática, rápidos, confessionais ou não, declarativos e, porventura, intempestivos. Em vez de gastarmos no psicanalista…

6.  Os autores do blog têm convicções políticas muito distintas e veementes. Não prescindem delas, mas prescindem de utilizar o blog para o exercício de política partidária.

7.  Os comentários dos leitores são bem vindos. São abertos, sem nenhuma censura prévia. Excluir-se-ão, a posteriori, os que sejam arbitrariamente ofensivos ou completamente deslocados dos temas tratados.

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Ontem cantei o corpo eléctrico

 

 

Ontem, a convite do Nuno Miguel Guedes e do Alex Cortez, cantei o corpo eléctrico do Walt Whitman nos Poetas do Povo. Numa sessão dedicada à América. Uma belíssima sessão onde tive por companheiros a Isabel Lucas, o João Morales e o José Luís Peixoto.
A versão do “Eu canto o corpo eléctrico” que cantei, traduzi-a eu. Uma trabalheira, para arranjar as palavras certas e, mais importante, os ritmos certos. Não queria ter tido tanto trabalho — até porque ler aquele texto, não sendo actor nem locutor, é, em si mesmo, obra. Mas como só tinha a versão original, e nenhuma livraria telefonada tinha um exemplar para me vender, teve de ser.
Tive como cábula algumas versões encontradas na rede, mas eram brasileiras e não me pareceram certas; para além da utilização de prenomes, gerúndios e expressões que são do sul.
Fiquei contente com a tradução. Já com o cantar nem tanto. É difícil dizer, é difícil ler em voz alta. Noutros tempos, a leitura em viva voz, e antes disso o dizer de memória grandes histórias e poemas, era uma forma de entretenimento. Lia-se e dizia-se em voz alta para audiências que não o sabiam fazer. Depois, com a aumento da literacia, a coisa caiu em declínio. Hoje, dizer um poema ou contar uma história concorre com o narrador interno de cada um. É uma luta desigual. É preciso ser-se profissional. Ainda assim, com vinho e sem vergonha, nos Poetas do Povo atrevemo-nos.

Também cantei um texto do Almeida sobre a América. Um inédito informalmente encomendado pelo Nuno. Aqui o deixo.

 

 

Sex. In America an obsession. In other parts of the world a fact.
(Marlene Dietrich)

 

I never had sex in America

Aprendi sexo na América, aqui, em tardes de cinema.
As primeiras tumescências devo-as à Ingrid Bergman, à Joan Fontaine, à Grace Kelly.
Às vezes, quando me imaginava a enfiar a língua na boca da Ingrid Bergman, ou da Joan Fontaine, ou da Grace Kelly,
elas que tinham sido modelos da minha mãe e de muitas mães,
sentia-me errado, culpado, porco, pecador
— elas tinham os mesmos penteado, as mesmas roupas e a mesma pose da minha mãe e de muitas mães, apenas a luz era melhor nos filmes;
mas logo passava porque a minha mãe não era americana.

Quando o Whitman escreveu Eu Canto o Corpo Eléctrico,
o Antero de Quental escrevia À Virgem Santíssima, Cheia de Graça, Mãe da Misericórdia.
Oiçam:

N’um sonho todo feito de incerteza,
De nocturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza…

Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade…
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na natureza…

Um místico sofrer… uma ventura
Feita só do perdão, só da ternura
E da paz da nossa hora derradeira…

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa…
E deixa-me sonhar a vida inteira!

Não há sexo nisto.
A minha mãe não era americana. A Ingrid Bergman sim.
Como americanas eram as mamas e os lábios com que sonhava. Americanas loiras, felizes, dispostas.
Ainda assim, nunca fiz sexo na América.

Um dia, no 1285 da Avenida das Américas em Manhattan, lá em cima, num gabinete de canto longe da rua,
eu e um outro negociámos o nosso peso em ouro.
Eu já tinha o meu ouro. O outro, mais leve do que eu, discutia a injustiça da diferença. Resolvi sair:
— Vou lá para fora flirtar com as tuas assistentes — disse ao Andrew, contente que estava com os meus 84 quilos.
Eram quatro: uma Ingrid, uma Joan, uma Grace e uma outra.
— Nem penses — respondeu o homem do ouro e da balança.
Fecharam-me num gabinete por causa dos assédios, e dos processos por causa dos assédios.
Um gabinete de uma só janela que vertia sobre a avenida aonde passavam americanos e americanas que podiam fazer sexo comigo se quisessem.
Mas nunca fiz sexo na América.

Nem em Março de 1998 em L.A..
No Baked Potato, ouvi o John Pizzareli dedilhar o My Funny Valentine na guitarra.
Não havia fumo no clube. Foi a primeira vez que ouvi jazz sem fumo.
Fumei cá fora, no beco, junto à entrada dos artistas. Fumei com eles
— até os artistas fumavam cá fora, em 1998 em LA.
Depois jantámos no Mondrian, eu e dois espanhóis feios e malvestidos.
Um deles tinha ar de Guardia Civil de aldeia da Estremadura,
apenas lhe faltava o chapéu ridículo de dormir encostado à parede.
No Sky Bar encontrei-as todas: as Bergman, as Fontaine, as Grace Kellys, as Jane Russels, as Dorothy Strattens;
eram todas brancas, mesmo as pretas e eram todas pretas, mesmo as brancas.
Nasci para isto, pensei. E bebi e falei.
Os espanhóis, barrados à porta, ficaram fora a olhar para dentro: cabisbaixos, salivantes, mas cabisbaixos. Derrotados.
Também eles tinham sonhado enfiar as suas línguas castelhanas na boca da americana Bergman, da americana Dietrich, da americana Loren, da americana Grace.
Tive pena deles, à porta, olhando de fora para dentro com olhos de rafeiro sevilhano.
Devia ter percebido o augúrio: jazz sem fumo, noite sem sexo.
Nunca fiz sexo na América.

Nem quando voltei a L.A. e enchemos limusines de mulheres brancas e pretas
e dos amigos delas brancos e pretos
e festejamos na suíte do hotel, aos saltos nas camas, até à expulsão.
Nem quando dormi no Waldorf-Astoria em Nova York, depois de uma noite em que fui gado premiado,
e bebi no bar onde estava o Alberto do Mónaco rodeado de Ingrids, e Fontaines, e Roussels.
Nunca fiz sexo na América.

Três vezes aterrei em Denver e subi as Rocky Moutains
pela estrada 70 em direcção a oeste, emparedado em desfiladeiros nevados
— os mesmos desfiladeiros que serviram de cenário a John Wayne em True Grit,
e por onde, muito antes, passaram milhares de colonos europeus à procura da Califórnia.
Eu, e os que comigo iam, nada procurávamos a não ser as montanhas e a paz que delas exala.
Black Hawk, Goergetown, Silverhorne, Frisco, Brekenridge, Vail, Beavercreek, Mineton, Aspen.
Milhas e milhas americanas.
Milhas e milhas americanas aspirando o ar rarefeito e a sativa que se compra em lojas de cruz verde.
E em todo lado apareceriam Ingrids ternas e recatadas, Marlenes e as Marlyns provocadoras e sorridentes, Joans e Dorothys lascivas.
Milhas e milhas a viver o sonho — o dos poetas da minha adolescência.
Milhas e milhas pela estrada fora — mas sem sexo.
Nunca fiz sexo na América.

Também não fiz sexo em Dallas, onde estive quatro horas entre aviões.
Aproveitei para ir a um outlet nas redondezas do aeroporto
onde havia uma enorme livraria. Queria comprar tudo o que fosse Cormac McCarthy em inglês, farto que estava de o ler reescrito pelo Paulo Faria.
E foi lá, no outlet, que vi o fim do mundo.
O fim do mundo é gordíssimo, obeso, disforme;
os corpos, no fim do mundo, explodirão colesterol e banha de porco e de porca, ridiculamente.
O fim do mundo só dá aflição, nenhuma tesão.
Mas elas estavam lá, brancas e pretas, as Ingrids e as Graces:
— Olá, não te lembras de nós?
— Desculpem, não estou a reconhecer-vos.
— Conhecemo-nos nas tardes de cinema.
A gordura rebentava-lhes pelas costuras. Ou rebentaria, se as calças e os collants de viscose tivessem costuras.
America the beautiful, o catano.
Não, em Dallas, entre aviões, não havia condições.
Nunca fiz sexo na América.

Nem em Brooklin, onde as falas das Ingrids e das Joans são só ênfase e afetação cultural.
Nem em Miami, onde o calor e a branca anestesiavam o interesse.
Nem em Providence, onde o trabalho anestesiava o interesse.
Nem em Port Chester, onde o Eric estragou tudo.
Eric o comediante, Eric o chalaceiro, Eric o punchliner.
Duas horas a seduzir uma Ingrid e uma Joan,
enxutas delegadas a um congresso de propaganda médica no hotel onde estávamos;
e quando finalmente ia ter a minha noite de cinema na América,
o Eric pôs-me o braço por cima, deu-me um beijo na boca e anunciou que era hora de nos recolhermos.
Everything-for-a-joke-Eric, tão americano como a Ingrid, e a Grace, e a Dorothy.

Nunca fiz sexo na América. (From sea to shining sea.)

Almeida

 

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O gato de Schrödinger

O Gato de Schrödinger

Lá fora, a constante de trânsito
num motor único, a obra,
intermitente, ao lado.
Por cima, mais alto, nas copas das árvores,
pássaros conversam noutra língua.
O ouvido, deste campo de vozes,
colhe o que quer. O meu pensa querer a passarada.
O ouvido é como a razão:
não percebe que ao dizer sim está a dizer não.
Trânsito. Obra. Trinado na pontinha das asas:
este é o mundo, sem sim nem não.
Dou um passo para trás.
Observo que me observo observadora.
Enquanto isso, do outro lado da rua,
no penúltimo andar do prédio calcário e branco,
de pano azul, um rasgo de céu claro na mão, a empregada, fardada,
agora limpa o vidro da janela por fora.
Sou esta que vê e esta que escreve.
E estas mãos no teclado são minhas também.
E nada disto que sou eu contém aquilo que também sou,
a fonte comum onde somos juntos, eu e tu, pano e céu e sons.
Mas também não impede que tenha de tomar o antibiótico
e voltar a enfiar-me na cama.

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A triste invisibilidade

 

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Sunday dreams, jardim & black coffee

sunday dreams

Começar por onde? Um passo. Outro. E outro. Assim. Andar e nem saber que se anda.

Tudo é novo à minha volta. Tenho outra vez dois anos e a vida é um lugar grande. Já tinha cafés onde ir, um com e o outro sem sumo de laranja natural, aqui mesmo ao pé da porta. Hoje acrescentei o terceiro. Já percebi que é o meu preferido. É no jardim. E um quarto, de facto, há um quarto: sempre fui de café-café, mas a minha mãe ofereceu-me para casa nova uma Nespresso e lá comprei um saco cheio de Arpeggio e Indriya. No entanto, e porque Deus também é outra mãe, ali ao fundo da minha rua, da minha nova rua, há uma velha loja de café. Café mesmo, em grão, em pó, daquele que se vê e toca e cheira. E cafeteiras. Amanhã passo lá a bisbilhotar tudo que o aroma do café acabado de fazer, a fugir da cozinha, a espalhar-se pela casa, é uma alegria que o dia ganha logo cedo.

Então, um passo atrás do outro, com a senhora do Google Maps a falar-me ao ouvido, lá fui. Era mesmo do outro lado da rua, mal começou a falar, calou-se. Ri-me de mim, claro. Ontem, quando precisei dela para me dizer se saía do túnel pela direita ou pela esquerda, estava muda, e dei por mim em cascos de rolha. O que vale é que os cascos de rolha eram da Lisboa de antes de me ir embora e consegui perceber onde estava – se passei, um dia que tenha sido, a pé por um lugar, não me esqueço dele. E perder-me não me atrapalha, sempre me perdi em todo o lado e nem por isso deixo de ir dar ao sítio certo.

Tinha esta ideia de que, quando regressasse a Lisboa, o meu jardim seria o mesmo que foi o da minha avó quando ela cá viveu, o da Estrela. Não. O meu jardim é o da Gulbenkian. Que saudades. E nem sabia. Todo domingueiro. Calha bem: I’m hangin’ out on Monday my Sunday dreams to dry, não é menina Ella?  Gente estendida na relva a dormir, pais e filhos e cadeirinhas a passear por entre os bambus e os papiros encostados ao lago, os patos quá, e nem rasto da quebra de natalidade e da taxa de divórcio.

Antes vi as exposições. Pareceu-me que estava na loja. Ando eu à procura de um tapete e aquele não ia malzinho. E os belos Cães de Fo também marchavam para cima do meu livreiro. Como não trouxe a minha caixa chinesa, a vitrine com secretária portátil e o resto, olha, também não era pior… Gostei de rever o amor centauro de Rubens e o cão, um Cavalier King Charles que lá está com a sua linda dona. Do lado moderno, reencontrei a juventude politizada de Pomar, e uma peça de que gosto tanto, dos anos cinquenta. A modernidade, bem se vê, já tem uns anos valentes.

Mas o tempo avançou e, de repente, já era muita gente. Dei a volta toda e fui beber café ao outro lado. Pus-me eu a ver os bonecos emoldurados quando estes bonecos vivos reproduzem os outros, com cheiro, textura, temperatura, e drama dentro que a gente nem sabe. Do anfiteatro estive a vê-los, ao sol, à sombra, a ler. Os turistas e os lisboetas. E encontrei um cantinho de sombra e verde e água, onde nem a gente sabe onde está. Dois miúdos aí de nove anos, lado a lado, ele loirinho, ela morena, mais que cinematográficos, e sem qualquer adulto vigilante, atiravam pedrinhas à agua. Há mil anos naquele gesto. De certeza, no princípio, também o terei feito, todos o fizemos. Onde está esse que fomos?

Gosto deste silêncio. Como quase não tenho voz, estou afónica outra vez, há simetria entre a voz com que o mundo me fala e voz com que lhe respondo.

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Péssima estreia, filha, péssima estreia

Si tu vois ma mère

A minha televisão é mais inteligente do que eu: queria o Sidney Bechet mas não o tinha trazido na mudança, o pc está com o som esquisito, e ela, toma Sidney Bechet. Salvou-me a vida.

É verdade, mudei-me finalmente. Nem sei como, com tanta coisa junta. O meu tio tão doente e depois tão morto – sim, a morte é uma gradação ascendente antes de ser um ponto final. E o caos da transportadora? Tudo se resolve. Até a morte vem por catálogo, à sala, vestida de agente funerário, facilitar a sobrevivência de quem fica. É só outra transportadora, afinal – não tinha pensado nisto.

Também não sei como, mas em três dias mal medidos e uma viagem pelo meio, tenho uma casa quase em ordem. Melhor. Uma vida quase em ordem, sem pontas soltas, nada por rematar – tive aulas de lavores, aprendíamos a bordar, de bastidor e fio de seda, ou Ponto Cruz ou de Assis. Era muito pequenina. Depois o colégio terminou os lavores, acho que os deram por fascistas e anti-feministas. Ainda não arrumei aqueles papéis obrigatórios nos dossiers, a certificação do gás, a Via Verde, sei lá o que mais.

A minha avó era assim, mas em bom. Dizia Faça-se! apontava, aquilo, fora dali, já não posso ver o raio daquelas cortinas, estão uma vergonha, e apareciam feitas novas cortinas mesmo que fosse só ela a ver a vergonha. Eu não digo Faça-se! Faço, paciência, ou nada acontece.

Hoje, pela primeira vez, pensei, ainda bem que a minha avó está morta.

Dos outros, não sei grande coisa. De mim, sei pouco todavia um pouco mais. Para que vivemos, para quem? Acho que é para fazermos o que cá viemos fazer o melhor possível e que a nossa família, e os que amamos, se orgulhem disso e de nós. Se não conseguirmos, ao menos que não lhes causemos embaraços.

Aqui estou, neste azul Alasca, sem pontas soltas, nem remates por dar, aula de lavores terminada, tudo feito e nada para mostrar, e por entre o Sidney Bechet, de facto, desde o trânsito parado na ponte que só me ouço a perguntar o título de Chatwin, o que faço eu aqui? E na voz claríssima da minha avó, as palavras do avô Afonso, o avô de Carlos da Maia, péssima estreia, filha, péssima estreia.

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Talvez o careca fosse o Senhor Pinto

Quem é que, naquele tempo, tinha uma cabeça mais lisa e alva do que o deserto do Namibe? Tenho de perguntar ao Abílio e ao Simão, meus mais-velhos dos felicíssimos anos 68 e 69 da Luanda colonial. Talvez o careca fosse o Senhor Pinto, Mr. Magoo da minha remota rua. Sentava-se ao volante do caquéctico e negro Volkswagen e, de fora, só se via a calva elipsóide da sua cabeça. Foi o primeiro carro de condução autónoma que vi circular, deixando atrás de si um alvoroço de gritos, buzinadelas, gente a salvar-se saltando muros: “Abre, muadié!”

O careca não tinha prestígio, é o que, compungido, quero dizer. O careca ou era o velho, nesses tempos pré-viagra em que não se ia novo para velho, ou então o careca era o chorado menino de sua mãe, novíssimo, máquina zero, chamado à tropa para mata-mata, se não morres tu.

Eu tinha um caracol. Tombava displicente sobre o lado direito da testa e acalento a longínqua e meiga ideia de que terá mesmo despertado alguns precoces instintos maternais. Por mais afagos com que o tenha enrolado algum gentil e adolescente indicador, esse saudoso caracol era uma sentinela. Protegia as generosas entradas que prefiguravam a calvície por chegar. A pérfida e vergonhosa calvície.

Uma matinée espatifou essa Weltanschauung. Tanto se dá que tenha sido no Cinema Império, na Casa do Alentejo ou no São Domingos dos padres capuchinhos. Foi na Luanda negra que parecia branca, no começo de uma noite cálida, em que nem sequer se sentia o intestino rumor da obstipada História. Toda a História, sobretudo a que, então e nossa, era tão adolescente, se silencia face à dimensão faraónica de Ramsés II. O filme era “Os Dez Mandamentos” e quando a cabeça de Yul Brynner encheu o ecrã, a glória do close-up arrancou-nos um entusiasmo apopléctico. Não havia só a careca burra e velha. Estava ali, lisinha e em grande plano, a careca inteligente e real, a redonda cabeça perfeita, brilhante espelho de poder e glória. A careca de Yul Brynner, egípcia, glabérrima, sem pêlo ou cotanilho, era soberba obra humana, delicadamente traçada à navalha.

Nessa matinée, nem sei se dava a mão a alguém, o meu displicente caracol encrespou-se. Yul Brynner era o Nietzsche que, morte de Deus capilar, remetia a cabeça à sua irremediável e tentadora solidão primordial.

Publicado no Expresso, sábado, dia 30 de Setembro

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uma madrugada assim

onde estamos quando nos sentimos

em casa?

 

região de densidade

esfera animada

bairro cósmico

 

ética do espaço

estar aqui?

 

parti-me,trágica, ao meio.

Não havia nada

 

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