Pas de Deux

Alegoria

Esta coi­si­nha sublime chama-se “Ale­go­ria da Visão e do Olfacto”. Foi pin­tada em 1618 por Jan Bru­eghel o Velho e Peter Paul Rubens. Em con­junto. Engen­dra­ram pelo menos 23 outras coi­si­nhas subli­mes a dois. Um tra­tava das figu­ras huma­nas, o outro das pai­sa­gens. A prá­tica era comum na pin­tura fla­menga do século XVII. É uma esplên­dida ale­go­ria do período que atra­ves­sa­mos. Ima­gi­nem o Lobo Antu­nes e o Gon­çalo M. Tava­res na escrita de um romance em par­ce­ria. Ou o Oli­veira e o João Bote­lho a fil­ma­rem lado a lado. Tal­vez cada tempo tenha os auto­res que merece.

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A felicidade

 

A feli­ci­dade é como a beleza, não é fácil de encon­trar. Não basta saber ler e escre­ver, nem se par­ti­lha, nem se auto-ajuda. A feli­ci­dade como a beleza é uma expe­ri­ên­cia inte­rior, longe da ágora, dis­tante da demo­cra­cia. Sofre-se. Contempla-se. É psi­quiá­trica, a roçar a lou­cura. A feli­ci­dade como a beleza é um sonho obs­ti­nado, uma ilíada de nau­frá­gio e fra­casso. A feli­ci­dade como a beleza é a-geográfica: nem é pre­ciso sair de Lis­boa, nem viver em Lis­boa. A feli­ci­dade como a beleza é ter­ri­vel­mente difí­cil, insuportável.

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There’s no place like Home

 

 

American-Gothic-Comes-to-The-City

Em res­posta ao Museu das Cur­tas do primo, sobre a peça ‘Ame­ri­can Gothic Comes to the City’, de Steve A. Fur­man ins­pi­rada na pin­tura de Ame­ri­can Gothic de Grant Wood da colec­ção do Art Ins­ti­tute of Chicago.

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Belo cu

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Não tenho gran­des dúvi­das sobre o que exclama a mente mas­cu­lina (se é que o mas­cu­lino tem mente e não ape­nas um inchado hipo­tá­lamo a fazer de cére­bro) perante a parte de trás desta Afro­dite Kal­lipy­gos. Tal­vez o bra­si­leiro exclame “Bela bunda”, num arre­medo mais redon­da­mente poé­tico decor­rente da ali­te­ra­ção dos bes, mas nós, os lusos, excla­ma­re­mos, sem ver­go­nha, “Belo cu”.
A dúvida que me assalta é com o grego: kal­lipy­gos que­rerá dizer “belo cu” ou “belas náde­gas”? A dúvida, que os meus mais clás­si­cos com­pa­nhei­ros se apres­sa­rão a escla­re­cer, assalta-me desse inco­men­su­rá­vel repo­si­tó­rio do conhe­ci­mento uni­ver­sal que é a inter­net e onde a expres­são apa­rece de todas as boas manei­ras e maus fei­tios.
Entre­tanto, enquanto a res­posta fun­da­men­tada pelo saber dos clás­si­cos chega e não chega, vamos à Afro­dite, dita Vénus pelos roma­nos, da belís­sima parte de trás que na está­tua é ver­da­dei­ra­mente a da frente.

Esta está­tua é romana, do século I antes do nas­ci­mento do filho. Diz-se ser uma cópia em már­more de uma outra grega, em bronze, que estava num tem­plo para o culto de Afro­dite em Sira­cusa, na Sicí­lia. Sobre os tem­plos de Afro­dite muito have­ria a dizer e mais ainda a fazer se a nossa civi­li­za­ção fosse ainda aben­ço­ada com tais locais de culto, sem ter que se pagar para lá entrar como hoje ditam as leis do mer­cado. In illo tem­pore ia-se ao tem­plo de deusa do amor e as suas sacer­do­ti­sas tra­ta­vam de nos ali­nhar os cha­cras pondo-nos em sin­to­nia com o amor uni­ver­sal, aliviando-nos do stress, das más ener­gias e das ten­sões acu­mu­la­das depois de um dia inteiro a filo­so­far ou pele­jar con­forme a ocu­pa­ção de cada um. Seja como for esta Afro­dite Kal­lipy­gos, do belo cu (nunca é demais tra­du­zir os clás­si­cos), tem ori­gem numa lenda que aqui evocamos.

Conta-se que em Sira­cusa, duas belas irmãs, jovens e pas­to­ras, tal­vez moti­va­das pela inse­gu­rança com parte de si mes­mas, a de trás, e tendo dúvi­das sobre qual delas teria o mais bonito e bem feito rabi­os­que e, tal­vez, cha­te­a­das de morte com o pas­to­reio que não é das mais exci­tan­tes acti­vi­da­des para ado­les­cen­tes, resol­ve­ram mostrá-lo, o rabi­os­que, ao mundo para que ele, o mundo, deci­disse do argu­mento. A coisa pode muito bem ter come­çado assim:

“Ai tou pr’aqui tão, tão ente­di­ada.
Embora ali mos­trar o cu,
a quem pas­sar à beira estrada”

… terá dito a mais velha em metro jâm­bico que é como eu ima­gino que as pes­soas fala­vam na altura; mesmo as pas­to­ras.
Por acaso um rapaz, filho de um velho rico, pas­sou e viu os dois belos cus. Depois de os “apre­çar” deci­diu que o da irmã mais velha era o mais bonito e vol­tou para casa apai­xo­nado. De noite, não lhe vindo o sono por­que não lhe ia da cabeça a bonita e redonda visão, con­tou ao irmão mais novo que tam­bém terá sali­vado pela noite den­tro. No outro dia lá vol­tou o mais velho, levando con­sigo o mais novo, para vol­tar a apre­ciar, a apre­çar e a con­fir­mar o vere­dicto. O irmão mais novo dis­cor­dou: para ele o cu da mais nova era o mais bonito. Tam­bém ele ficou apai­xo­nado e tam­bém ele caiu de qua­tro (salvo seja por­que ainda é cedo na his­tó­ria para isso). Os dois fala­ram então com o velho e rico pai que, como era de espe­rar de um velho e rico pai, os que­ria casar com beti­nhas. Mas eles foram irre­du­tí­veis e lá o con­ven­ce­ram. E casa­ram. Elas fica­ram ricas e, diz a lenda, eri­gi­ram o tem­plo da Afro­dite Kal­lipy­gos, em Sira­cusa.
Assim conta o deip­nos­so­fista Ate­neu, ou melhor, assim conto eu base­ado no que con­tou o Ateneu.

Da está­tua ori­gi­nal, em bronze, não há ves­tí­gio. Esta, que é uma cópia em már­more do período moderno, foi encon­trada sem cabeça nem perna mas, por obra e graça dos deu­ses do des­tino, que a deca­pi­ta­ram, o cu manteve-se intacto. No século XVI reco­meça então a his­tó­ria desta bela está­tua e deste kal­lipy­gos.
A pri­meira res­tau­ra­ção foi feita no século XVI, por enco­menda dos Far­nese, e foi essa res­tau­ra­ção que fez da Afro­dite Kal­lipy­gos a obra prima que é; uma obra (re)restaurada e apri­mo­rada mais tarde, no século XVIII, por Carlo Alba­cini.
Como era e em que posi­ção estava a cabeça antes da res­tau­ra­ção não se sabe. O que se sabe é que o pri­meiro res­tau­ra­dor escul­piu a cabeça da Afro­dite a olhar para trás, para o soberbo tra­seiro, virando assim a está­tua ao con­trá­rio. De repente, e com este golpe de génio, a parte de trás pas­sou a ser a da frente; o que devia estar escon­dido pas­sou a ser o mais impor­tante e nós tornámo-nos tes­te­mu­nhas de um momento íntimo da deusa: um momento de inse­gu­rança divina subli­nhado pelo gesto tão femi­nino, tão casual e tão quo­ti­di­ano que é o de veri­fi­car se está tudo no sítio.
Está grande? Está des­caído? Está flá­cido? Está feio? Está gordo? Está magro?
Está óptimo pen­sa­mos nós ao olhar este kal­lipy­gos – ou qual­quer kal­lipy­gos, para o efeito.
Se ela esti­vesse a olhar para a frente, e igno­rasse o rabo exposto inad­ver­tida ou pro­po­si­ta­da­mente à admi­ra­ção uni­ver­sal, tratar-se-ia de des­ca­ra­mento –ou des­ra­ba­mento se me é per­mi­tido um neo­lo­gismo– embora fosse des­ca­ra­mento seguro de si e dos seus encan­tos, como é nor­mal nas deu­sas.
Assim trata-se de uma mulher como as outras. Uma mulher que tendo o mais belo e o mais bem feito rabo do mundo tem, ainda assim, que olhar para tirar as dúvidas.

Esta Afro­dite Kal­lipy­gos esteve sécu­los no Palá­cio Far­nese, em Roma, apro­pri­a­da­mente exposta na Sala dei Filo­sophi, rode­ada pelas está­tuas de dezoito gran­des filó­so­fos da anti­gui­dade.
Dizia o bardo dos ocu­li­nhos “que não há mais meta­fí­sica no mundo senão cho­co­la­tes.” Mas há. Há muita mais meta­fí­sica num kal­lipy­gos. Digo eu que tam­bém vejo mal.

 

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Vijay

Num mundo hiper-real de ten­dên­cias depres­si­vas, a música ainda tem o poder de nos sur­pre­en­der.  O ouvido deixa que os sons entrem, e a mente agra­dece embe­ve­cida. Sen­ti­mos um calor que arre­pia, uma sen­sa­ção de que os pés se levan­tam do chão. Pas­sa­dos minu­tos esta­mos, com os músi­cos, a via­jar, sem que tenha­mos de saber tocar.

É o bom de ouvir­mos música ao vivo, ali ao lado, a ver os dedos que mexem, o corpo que balança, sem tra­du­ções físi­cas ou sonoras.

Vijay Iver foi  artista jazz do ano em 2012, o seu trio foi grupo Jazz do ano, o último álbum “Acce­le­rando” foi álbum do ano. Mas nada disso seria impor­tante se Vijay e o seu trio não fos­sem eles mesmo, e genui­na­mente, músi­cos  supe­ri­o­res, e por isso tam­bém, com os pés bem assen­tes na terra.

O con­certo que deu na Cul­tur­gest foi uma lição de como a sim­pli­ci­dade é um sen­ti­mento, que pode ser musi­cal­mente complexo, e a música uma lin­gua­gem uni­ver­sal, ou perto disso, até por­que Vijay, filho de emi­gran­tes Indi­a­nos Tamil, repre­senta essa “glo­ba­li­za­ção” do Jazz que já chega à Asia e a Amesterdão.

E acor­da­mos con­ven­ci­dos de que afi­nal há uma parte do mundo que se move,  com força e ener­gia posi­tiva. Pre­ci­sa­mos é de ori­en­tar o olhar, digo o ouvido, para aquilo que inte­ressa. Por­que há muito ruído e baru­lho por ai.

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To the Wonder

 

OlgaAffleck

To The Wonder”.

Já vi duas vezes este Ter­rence Malick a que, em por­tu­guês, deram o título impos­sí­vel e impen­sá­vel de “A Essên­cia do Amor”.

To the Won­der”, filme de terra e água, de ascen­são e corpos.

Malick filma con­cei­tos e coi­sas, árvo­res, campo, uma esta­ção de ser­viço, uma cadeira num terraço.

Tenho de o ir ver de novo. Para subir os degraus de La Mer­veille, ainda mais bela aqui do que na Normandia.

Malick filma, escreve, pinta, com­põe emo­ções e corpos.

O corpo de Olga Kurylenko.

Tenho de o ir ver outra vez, para ter a sen­sa­ção de ple­ni­tude que só se tem a ver che­gar a alvo­rada na maré-cheia.

Tenho de o ir ver outra vez para sen­tir a dúvida e a certeza.

Tenho de o ir ver outra vez para que na polpa dos dedos per­passe a leveza de outra pele, o fruto do teu ventre.

To the Won­der” é um filme cató­lico e pro­tes­tante. A nava­lha que corta duas culturas.

Já vi duas vezes essa luz que recorta os dedos de uma mão con­tra o vidro frio de um vitral.

To the Won­der” é a luz que entra na pele e vai até à pro­fun­di­dade ver­me­lha desse míli­me­tro de carne onde tal­vez a alma comece.

To the Won­der” é o amor e o desa­mor. O sofri­mento de haver outras pessoas.

To the Won­der” é o vento, um cavalo que quer e não quer ser selvagem.

É Paris como­vente e frá­gil. É Paris suja. A Amé­rica honesta.

To The Won­der” é quando o amor nos ama e eu e tu somos um. Um só e depois, um irre­du­tí­vel depois, dois outra vez.

To the Won­der” é um filme onde se ouvem vozes. E lín­guas, poli­fo­nia amorosa.

Luz e lama. Cari­dade e vio­lên­cia. Um filme que reza por nós. A Europa e a América.

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Ray Manzarek. 1939 — 2013

Não obs­tante todos os mitos sobre Jim Mor­ri­son, e são mui­tos, poé­ti­cos e bons, a ver­dade é que foi Man­za­rek que tor­nou incon­fun­dí­vel o som dos Doors. Nunca mais se vai ouvir tocar orgão assim.

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Proposição sob a égide de Camilo Pessanha

Atendo o tele­fone,
as vozes que me tra­zem as pre­mên­cias da vida
e o sopro ambí­guo deste tempo mori­turo.
Leio e-mails rápi­dos e recebo à mesa tosca de pinho
(que se há-de que­brar, ela tam­bém)
as vozes aci­du­la­das que me che­gam da dis­tân­cia.
Depois sou a maga, a da colher de prata, a que pre­para o chá
e des­laça os dedos sem força a um por­vir ine­vi­tá­vel.
Retomo os res­tos das horas,
junto as fór­mu­las e os sími­les
que pre­en­chem as lacu­nas da memó­ria.
Reco­meço a meio da his­tó­ria
e peço aos deu­ses a bene­vo­lên­cia das pala­vras,
a épica regres­são a outros dias.
Não canto a astú­cia nem a cólera,
canto as lar­gas pon­tes sobre o tempo.

Canto das som­bras os meus lugares.

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Grandes Esperanças”

 

 

Charles Dickens retratado em "Dickens' Dream", Robert William Buss, 1875

Char­les Dic­kens retra­tado em “Dic­kens’ Dream”, Robert Wil­liam Buss, 1875

Per­der a capa­ci­dade de amar. De se doar ao outro. De expe­ri­men­tar o egoísmo no amor. De neste encon­trar altruísmo. Das con­tra­di­ções ine­ren­tes a quem ama tecer belo ren­di­lhado com o fio do quo­ti­di­ano eno­bre­cido pela inten­si­dade dum bom sentir.

Receio de amar. De se expor à pos­si­bi­li­dade de um fra­casso. De ser rejei­tado e, ainda assim, amar. Do amor não cor­res­pon­dido é dito ser o pior dos amo­res por­que esmo­rece, entris­tece quem o vive. A deses­pe­rança instala-se e com ela perece uma fatia do ser. Outra insiste em vivê-lo ainda que recal­cado e envi­ado para o incons­ci­ente. Para aque­les que con­se­guem pre­ser­var e gerir tal amor, a espe­rança não defi­nha. Estes são os que pos­suem “Gran­des Espe­ran­ças” de amar.

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Ine­vi­tá­vel arri­bar da memó­ria a novela “Great Expectations”/”Grandes Espe­ran­ças” de Char­les Dic­kens. Embora a força da obra seja mais abran­gente, as per­so­na­gens Pip (Finn) e Estella cons­troem uma repre­sen­ta­ção do amar sem retorno. Edu­cada por uma tia des­crente no amor, tam­bém ela rejei­tada, enru­gada pela idade e pelo enve­lhe­ci­mento da espe­rança de um dia amar e ser amada, Estella igno­rava o cami­nho para um afeto intenso e român­tico. Daí a indi­fe­rença pelo afeto de Finn. Toda­via, este amava pelos dois. Ideou enri­que­cer, con­quis­tar o mesmo nível social de Estella. Após inú­me­ras par­ti­das da vida des­cri­tas com a viva­ci­dade de Dic­kens, Pip atinge o pro­pó­sito sem desis­tir de Stella. Final­mente, a gélida Stella aprende com ele o cami­nho de um grande amor.

Na adap­ta­ção ao cinema, o filme de 1998 “Great Expec­ta­ti­ons” foi diri­gido por Alfonso Cua­rón em ambi­ên­cia deca­dente e sun­tu­osa. Gwy­neth Pal­trow é Estella, Ethan Hawke, Finn e Anne Bran­croft desem­pe­nha o papel de Ms. Nora Dig­ger Dins­moor, a tia. Quer o livro, quer o filme são obras que amo. Para eles reservo lugar nos ‘melho­res da minha vida’.

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O segredo do frangipani

 

Assim de repente, é um tem­plo para­lelo de aura volátil.

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Aura ou aro, o certo é que foi sob o seu tecto que recebi um chamamento.

“Vem daí.  Vens ou não?”

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Bem, podia ser por­que eu estava a comer uma bola­cha (só de olhar para o que falta subir uma pes­soa perde energia).

O Cha­ma­dor ainda aguen­tou em pose mais uma foto­gra­fia. Depois desa­pa­re­ceu como um espírito.

Eugé­nia, está a menina a ver, eu bem o cha­mei, “olha que eu tenho um cesto para te levar na bici­cleta”, mas parece mesmo que não há cães como o Cão.

 

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O chapéu-de-sol do amor

 

É verde como um fruto de dar dentadas.

E o rapaz trans­porta o verde como uma gigante maçã mor­dida, com som­bra e sem pecado. Eles intei­ri­nhos den­tro dela, ainda por nascer.

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Sigo os namo­ra­dos sem que­rer segui-los — só existe um cami­nho até ao topo.

Mas eles são o íman: o tem­plo de Wat Phou foi reli­gi­o­sa­mente cons­truído para o amor. Ou para a con­ti­nu­a­ção da espé­cie. Uma ala­meda de falos repete o tema a per­der de vista.

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E a vista cola-se ao topo da mon­ta­nha, a gigan­tesca linga que fez os pri­mei­ros dizer: é aqui. E os pri­mei­ros terão vindo no séc. V, e demo­ra­ram tanto tempo a ado­rar Shiva e a empur­rar pedras pela encosta acima que os últi­mos só aca­ba­ram uns oito ou nove sécu­los mais tarde.

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Agora são turis­tas e nati­vos que ama­ri­nham pelas esca­das, pelos vários pata­ma­res em que o san­tuá­rio do impé­rio Khmer se acres­centa, em Cham­pa­sak, no sul do Laos. É dife­rente dos pri­mos de Ang­kor Wat no Cam­bodja e igual­mente mere­ce­dor da dis­tin­ção de Patri­mó­nio Mun­dial. Com a van­ta­gem de não ter mul­ti­dões a abafá-lo.

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Os budas que ser­vem a ado­ra­ção actual não escon­dem a antiga ori­gem hindu das ruí­nas. Mas o escudo pro­tec­tor copia o dos namo­ra­dos (isto é fer­ti­li­dade por todo o lado, em sím­bo­los então é um enleio pior que o mata­gal em volta).

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Perdi-os, ou arran­ja­ram eles maneira de perder-se, na exu­be­rân­cia de pedras, vege­ta­ção e locais de culto. Recu­pero Adão e Eva na des­cida, sem parra mas com muita flor de fran­gui­pani. Per­di­dos um no outro e na difi­cul­dade da esca­da­ria. Este é um sítio onde nem a des­cer os san­tos aju­dam.  Anjos muito menos. E os chapéus-de-sol, pelos vistos, só atrapalham.

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Casou-se alguém quando Salazar morreu?

Nunta Muta

Uma mulher pode fazer tudo: pen­sar, falar, can­tar, calar-se até de vez em quando. Foi o que me ensi­nou Sacha Gui­try. Um povo não. Um povo cala-se, mesmo por um ins­tante, e há um ruído qua­drú­pede a esca­var as ruas, uma explo­siva bran­cura a furar os tímpanos.

Ia escre­ver sobre o silên­cio no cinema. Coisa selecta movida a Tar­kovs­kis e Berg­mans. Mas olhei e vi que as intes­ti­nas angús­tias deles são pre­sun­ções esdrú­xu­las. Basta compará-las com a can­ção lacu­nar que Alain Delon incar­nava no mais belo e silen­ci­oso dos fil­mes, “Le Samou­rai”, de Jean-Pierre Melville.

E não é dos fran­ce­ses que quero falar. Esta é uma cró­nica romena, sobre um filme, “Nunta Mută”. Em por­tu­guês, tra­du­zido à minha maneira, “Um Casa­mento de Silên­cio”, e tra­du­zido como deve ser, mas eu não gosto, “Casa­mento Silen­ci­oso”.

Passa-se no ano em que nasci, por feliz acaso o ano em que Esta­line, Pai dos Povos, mor­reu, estava a Romé­nia sob ocu­pa­ção ideológico-colonial sovié­tica. A acção decorre numa aldeia e, pre­li­mi­na­res à frente, no dia em que um homem e uma mulher vão casar. A pobreza da aldeia transfigura-se: a boda é a epi­fa­nia gas­tro­nó­mica dos pobres e opri­mi­dos. Há uma fan­ta­sia de car­nes, flo­res­cem bolos, o paraíso de um enso­pado. As pes­soas vestem-se como lírios amar­ro­ta­dos, mas felizes.

Eis que chega o comis­sá­rio sovié­tico que comanda o regi­mento ocu­pante. Esta­line mor­reu e as fes­tas ficam proi­bi­das. Não há boda para nin­guém – e per­gunto, ter-se-á casado alguém quando Sala­zar mor­reu? Um luto calado, sen­tado e virado para a frente deve esma­gar durante sete dias a aldeia, toda a Romé­nia, até Sar­tre em França, como diria Nel­son Rodri­gues se tivesse visto o filme.

O povo cala, sabendo que não vai comer. Mas o romeno é pelo menos tão manhoso como o por­tu­guês e Hora­tiu Mala­ele, o rea­li­za­dor, inventa uma longa cena tão hila­ri­ante como assus­ta­dora. O povo, às escon­di­das, leva as vitu­a­lhas para uma sala subrep­tí­cia. Repa­rem, não falei de clan­des­ti­ni­dade, o que impli­ca­ria acção polí­tica, disse às escon­di­das que é a forma de matar a gula e fazer a festa.

Na sala, à luz de velas, estão agora os con­vi­vas. Nem uma pala­vra, nem uma gar­ga­lhada. Falam por mímica, riem-se mos­trando os den­tes. Copos e gar­ra­fas envol­tos em pano para não tilin­ta­rem. Recolheram-se gar­fos e facas, come-se à mão. A peque­nina filar­mó­nica aba­fou os ins­tru­men­tos e toca sem som, o que, bem sei, faz cho­rar John Cage. Nada se ouve, um pio, um som – ape­nas uns bor­bo­rig­mos e o sub­ver­sivo pei­di­nho que um con­vi­dado segura nos míni­mos deci­béis, prolongando-o o mais sua­ve­mente pos­sí­vel para alí­vio de todos.

O romeno é manhoso, mas Esta­line mor­reu e há mor­tos com ouvi­dos de tísico. Têm mesmo de ver “Nunta Mută” para sabe­rem como acaba. Mas acaba. E é sem­pre tão mau o que acaba, como bom o que começa.


Aqui não vão ver como acaba, mas podem ver o que vale mesmo a pena

Publi­cado no Expresso, no sábado, dia 11 de Maio

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O canto dos cínicos

Sen­tado na sua cadeira alta de espal­dar móvel, que man­dara cons­truir a um mar­ce­neiro amigo quase tão velho como ele pró­prio, o pin­tor deu por ter­mi­nado o retrato da sua mulher Luísa, mar­cando a tela no canto infe­rior direito com um carimbo que talhara pes­so­al­mente. A data, ape­nas o ano, foi dese­nhada com a mesma tinta usada no carimbo – um método de iden­ti­fi­ca­ção que Zargo repu­tava de infa­lí­vel no que tocasse a pos­sí­veis fal­si­fi­ca­ções.
Divertia-se com o facto de já terem sido encon­tra­dos em lei­lões dois qua­dros fal­sos que lhe eram atri­buí­dos – o «expres­si­o­nista tar­dio» bem suce­dido e mimado pela crí­tica duma forma que por vezes o incomodava. Não que fosse humilde, longe disso. Mas, com 96 anos por con­cluir, queixava-se à mulher e ami­gos, meio a sério meio a brin­car, que «aquilo soava a efeito Manoel de Oli­veira» – e isso irritava-o pro­fun­da­mente «por­que ele sim, é velhís­simo!…»
Veri­fi­cando de novo a marca carim­bada com que assi­nava os qua­dros, apressou-se a reto­car com uma espá­tula mínima um rebordo com excesso de tinta – a sua tinta, uma mis­te­ri­osa mis­tura onde, diziam os enten­di­dos, havia por vezes pó de ouro, resina de cedros azuis do Líbano e alca­trão, entre outras extra­va­gân­cias de cariz pic­tó­rico.
Zargo nunca con­tra­disse as várias reci­tas elen­ca­das. A bem dizer nunca comen­tou sequer o assunto.
Luísa não mos­trara grande entu­si­asmo com o retrato: «Pareço uma girafa com cara de cata­tua cigana!», recla­mara dois dias antes, durante uma reu­nião de ami­gos naquele mesmo estú­dio. E depois quase se zan­gara quando Zargo, para gar­ga­lhada geral, con­cor­dara com ela – cheio de mimé­tico espanto e rui­dosa mani­fes­ta­ção de júbilo.
Mes­tre Zargo enxa­guava pin­céis em tere­bin­tina quando três toques na porta do estú­dio lhe indi­ca­ram que Luísa se encon­trava do lado de fora com notí­cia buli­çosa. Nenhuma outra razão a leva­ria a inter­rom­per o seu tra­ba­lho – estava assim esta­be­le­cido entre eles, exis­tindo ape­nas um dis­po­si­tivo elec­tró­nico ins­ta­lado numa pul­seira vis­tosa que o pin­tor usava no braço esquerdo, des­ti­nada a avi­sar da sua morte imi­nente caso não apa­re­cesse ali alguém rapi­da­mente para o sal­var mais uma vez.
Era um fiteiro incu­rá­vel, dos que faz gala nisso.
Enton­ces?, qué pasa??!…, inqui­riu Zargo enquanto esfre­gava com vigor as mãos num pano abso­lu­ta­mente bor­rado de cores vari­a­das.
Ora bem, temos lá fora um envi­ado do Guter­res que quer muito falar con­tigo…
O de Timor?… Não, o de Timor é o Gus­mão… O da ONU?, dos refu­gi­a­dos?…
Sim, Álvaro, o dos refu­gi­a­dos… O homem quer falar con­tigo por causa duma cam­pa­nha qual­quer…
O velho expres­si­o­nista tar­dio esta­cou, o rosto mar­cado pela estra­nheza, para depois dizer num repente:
Não estou para nin­guém, diz-lhe que estou doente…, subi­ta­mente doente! Não me ape­tece atu­rar polí­ti­cos hoje. Aliás, nem hoje nem nunca…
A expres­são sor­ri­dente e um pouco malan­dra de Luísa manteve-se enquanto, com um gesto quase mili­tar e sem uma pala­vra, entre­gou um cartão-de-visita ao marido.
Já des­con­fi­ado, Álvaro Zargo reti­rou da cara e ore­lhas o com­plexo arte­facto de múl­ti­plas len­tes que uti­li­zava para pin­tar, substituindo-o por uns enor­mes óculos de tar­ta­ruga e len­tes bifo­cais. Depois pegou com dois dedos em pinça no agora mis­te­ri­oso cartão-de-visita, com o gesto brusco de quem tira à força.
Olhou o car­tão, aproximou-o, leu melhor, até que desa­tou a rir com gar­ga­lha­das tais que Luísa apressou-se a entregar-lhe uma estra­té­gica caneca com chá frio, não fosse engasgar-se.
Como é que é isto???… Ata­ní­sio Brás Ove­lha??? Este nome é um poema his­trió­nico inteiro, carai!…
Tam­bém ima­gi­nei que gos­tas­ses…
Já na vasta sala de estar, onde domi­na­vam um piano de cauda lade­ado por uma bela harpa dou­rada e uma grande lareira enci­mada na cha­miné por uma impres­si­o­nante más­cara afri­cana, Zargo obser­vou rapi­da­mente o indi­ví­duo moreno de meia idade que aguar­dava a sua apro­xi­ma­ção com defe­rên­cia de chefe de mesa.
Depois de cum­pri­men­tar o visi­tante e de o con­vi­dar a acomodar-se num dos gran­des maples for­ra­dos a losan­gos de coiro verde enxa­dre­za­dos a cas­ta­nho, Zargo esco­lheu para si o sofá, recostando-se quase dei­tado num amon­to­ado de almo­fa­das de seda indi­ana grossa.
Depois dis­pa­rou:
Ora diga-me lá uma coisa que eu sem­pre quis saber: o dr. Guter­res…
Enge­nheiro… rec­ti­fi­cou Ata­ní­sio Brás Ove­lha com um leve sor­riso con­des­cen­dente.
Pois, isso… Mas diga-me lá: o enge­nheiro Guter­res é mesmo de ascen­dên­cia timo­rense?… Aquele zigoma…, dá ares disso, não é?…
Con­fun­di­dís­simo, o envi­ado da ONU Brás Ove­lha tar­ta­mu­deou um «não faço a menor ideia», quedando-se num silên­cio expec­tante.
Ok, isso tam­bém não tem impor­tân­cia nenhuma, era só uma curi­o­si­dade de, diga­mos…, de espe­ci­a­lista em caras. Mas então ora diga lá ao que vem!… Na ver­dade estou curi­oso pois não con­sigo ima­gi­nar… Se é para alguma doa­ção o melhor então é falar com a minha secre­tá­ria, que por acaso até é a minha mulher…
Não, mes­tre Zargo, não é isso que o senhor comis­sá­rio da ONU para os Refu­gi­a­dos deseja pedir-lhe. O que ele quer de facto é que o senhor faça parte duma lista de per­so­na­li­da­des que não gosta de armas, que repu­dia…
Alto lá!, inter­rom­peu com ímpeto o velhote, que já sobre­vi­vera a seis ten­ta­ti­vas da Morte. – Não posso fazer parte dessa lista de forma alguma! Eu gosto de armas! Quero dizer…, de algu­mas armas, claro, por­que há outras que são feiís­si­mas…
ak47Ator­do­ado com a ines­pe­rada reve­la­ção, Brás Ove­lha ainda ten­tou repu­diar a rea­li­dade ali escar­rada pelo velho:
O senhor está brin­cando, não é?…
Qual brin­cando qual cara­puça! Não brinco com coi­sas sérias – ou pelo menos nem sem­pre… Então eu tenho uma Pur­dey que foi do rei D. Car­los, uma Win­ches­ter 44 do tempo das cóboi­a­das, uma Luger Para­bel­lum igual­zi­nha às que já toda a gente viu nos fil­mes neo-realistas a matar mon­tes de ita­li­a­nos infe­li­zes, durante a guerra!… Gosto de armas sim, gosto!
O silên­cio chum­bara o tempo, e todo o som do mundo pare­cia ter fugido pela larga boca da lareira, onde uma série de fer­ros negros, gan­chos, tena­zes e cor­ren­tes, tudo acu­mu­lado em sus­peito acaso, apa­ren­ta­vam for­mar vagas letras e mesmo sím­bo­los quase fami­li­a­res.
Como há-de ima­gi­nar, não vou cor­rer o risco de subs­cre­ver uma coisa des­sas – que acho lou­vá­vel, claro – para depois fazer figura de idi­ota… Lá como o D. Jua­nito com os ele­fan­tes…
Novo emba­raço silen­ci­oso.
Já agora, deixe-me dizer-lhe uma coisa, pros­se­guiu o pin­tor. – Eu não tenho nada con­tra essas cam­pa­nhas da ONU, teo­ri­ca­mente até apoio…
Como assim «teo­ri­ca­mente?»… O tom retó­rico mos­trava que o envi­ado Brás Ove­lha se sen­tia irri­tado com a situ­a­ção, tal­vez mesmo um pouco humi­lhado.
Zargo apercebeu-se disso, segu­rando a res­posta no momento em que Luísa sur­giu com a cró­nica caneca de chá de que o marido nunca se sepa­rava. Depois arran­cou:
Em pri­meiro lugar teo­ri­ca­mente por­que não pode ser pra­ti­ca­mente, não é ver­dade?… Depois, por­que a acho tão efi­caz como…, como era aquele anún­cio?… Ah! Como caçar mos­cas com uma cara­bina! Até vem a pro­pó­sito, veja lá…
Eu peço des­culpa…, se eu tivesse sonhado que o senhor…, bem, que o senhor é a favor das armas…
Alto lá!!… Eu não disse nada disso!, quase gri­tou Álvaro Zargo, ao mesmo tempo que batia com a ben­gala no chão de forma repe­tida, fazendo com que o pobre emis­sá­rio de Guter­res se enco­lhesse um pouco no grande maple que quase o abra­çava. – Eu sou abso­lu­ta­mente con­tra a exis­tên­cia da mai­o­ria das armas, detesto guer­ras e acho uma lou­cura a pro­li­fe­ra­ção de armas entre a popu­la­ção em geral. Isso é uma coisa. Outra é que fábri­cas de armas e quem as comer­ci­a­lize são coi­sas que con­ti­nu­a­rão a exis­tir enquanto hou­ver guer­ras e ódios entre os homens – e isso, meu caro dr Ove­lha…
Sou enge­nheiro…
Sim, claro, mas quero eu dizer…
Eu entendo o que quer dizer, mes­tre Zargo. Mas faz-me con­fu­são que seja con­tra as armas e tenha várias… Afi­nal, o que gosta nelas?…
O velho bebe­ri­cou pen­sa­ti­va­mente na sua caneca orna­men­tada com um grande veleiro full rig­ged de três mas­tros, dese­nhado a azul cobalto. Por fim disse:
Sabe que a AK-47, aquela metra­lha­dora ligeira russa, é con­si­de­rada um objecto de culto do ‘design’ con­tem­po­râ­neo? Eu por acaso tenho uma, lin­dís­sima, toda em madeira ver­me­lha…, per­feita. Só não tem o espi­gão para não poder dis­pa­rar, impuseram-me essa con­di­ção para a poder ter em casa. Mas tenho uma cula­tra suple­men­tar… Ehehhehe!…, riu Zargo com ar aca­na­lhado. – Já a Pur­dey é uma obra-prima de enge­nha­ria, qua­li­dade de mão-de-obra, ele­gân­cia – é per­feita! A Para­bel­lum é um ícone da II Guerra, indis­pen­sá­vel em qual­quer boa colec­ção de armas moder­nas. A Win­ches­ter são os fil­mes, claro, além de ser uma arma bas­tante indes­tru­tí­vel…
Nova pausa silen­ci­osa.
É claro, todas elas mata­ram gente, ou pelo menos foram fabri­ca­das para isso… Salvo a Pur­dey, que é para caçar… Ah, pois! E tam­bém fui caça­dor em tem­pos, está a ver… Mas são con­ten­to­res de his­tó­ria, da his­tó­ria da vida e da morte dos ani­mais que todos nós somos, não é ver­dade?…
Por­que, afi­nal de con­tas, não são as armas que matam, já que pra­ti­ca­mente de tudo se pode fazer uma arma: um carro, uma faca de cozi­nha, uma panela de pres­são, umas emba­la­gens de deter­gen­tes e afins, um pro­duto quí­mico de venda comum, até uma mulher pode ser uma arma! Ou mesmo um homem…  
O senhor cer­ta­mente sabe disto: exis­ti­ram várias cam­pa­nhas de desar­ma­mento das popu­la­ções em África, mas disso ape­nas resul­tou que mui­tas des­sas popu­la­ções fos­sem depois cha­ci­na­das por todos os que não fize­ram a mesma coisa… Ao desar­mar as pes­soas que até são sus­cep­tí­veis de serem desar­ma­das está-se sim­ples­mente a colocá-las mais à mercê de quem não é desar­má­vel de todo, por con­vic­ção. Por­que o que mata é quem usa a arma, e quem a usa está ofi­ci­al­mente repre­sen­tado na sua ONU…, e muito pro­va­vel­mente con­tri­bui com ver­bas ani­ma­do­ras para esta vossa cam­pa­nha tão huma­nista quanto inú­til. É assim que eu penso, caro enge­nheiro Ove­lha.
Desculpe-me, mas com essa ide­o­lo­gia o senhor podia facil­mente per­ten­cer à NRA
Outro engano! Abo­mino essa malta! Mas percebo-a no argu­men­tá­rio. Não se trata de ide­o­lo­gia, antes de sim­ples facts of life – como dizem os beefs
Sim­ples???, inteiriçou-se todo o bom do Brás Ove­lha. – Tre­men­dos, quer o senhor dizer!…
Tre­men­da­mente sim­ples, sem dúvida.
O senhor é um cínico, deixe-me que lhe diga.
– Claro que deixo. Mas clás­sico, que eu cá não vou em modernices…

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A bicicleta nova

 

Uma linha azul ines­pe­rada. Eis o Mekong.

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O tom de barro é mais fre­quente na água. Mas a luz da manhã deve pôr pig­men­tos fres­cos nas coi­sas. As ilho­tas do rio pare­cem ves­ti­das de verde-festa. As rou­pas dos miú­dos no cais já tive­ram outras cores. Deitam um olhar fur­tivo à única oci­den­tal no areal terroso.

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O equi­lí­brio é uma arte que se aprende cedo nas mar­gens do Mekong no Sul do Laos.

Sacas, tijo­los e cocos ver­des amontoam-se na canoa estreita que faz a tra­ves­sia rente ao rio. Com 3 pas­sa­gei­ros e um ver­te­dor de água muito activo a bordo.  

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Na outra mar­gem, Cham­pa­sak é uma fileira de habi­ta­ções de madeira ao longo da estrada. A Indo­china fran­cesa regressa de cem em cem metros, nas ruí­nas de casas coloniais. Faltam uns bons qui­ló­me­tros para avis­tar o tem­plo de um impé­rio mais antigo.

O car­taz surge em boa hora, num anexo de pen­são: BY CICLE RENT. O ana­fado senhor da ofi­cina mos­tra todos os den­tes. Alu­gar uma bici­cleta velha custa o equi­va­lente a 1 euro; uma nova, 1,5. Deito o olho ao amon­to­ado de fer­ru­gem e cro­ma­dos poei­ren­tos ali ao lado. Viajo em con­ten­ção de cus­tos, mas 50 cên­ti­mos pare­cem um bom investimento.

- Vou levar uma bici­cleta nova!

- Good choice, good choice!

Pago e fico à espera. Ele também.

- You cho­ose one you like.

- Mas onde estão as novas?

- These are new!

 Sus­piro. Se as novas são estas, pre­firo não ver as velhas.  A menos má apresenta-se de pedais enfer­ru­ja­dos, o selim escor­rega, o gui­a­dor está torto, os tra­vões já foram. Mas é azul, caramba. E depois de limpa engana qual­quer máquina fotográfica. 

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E aí vou eu, a gui­nar e a chiar estrada fora. Os miú­dos na berma cor­rem ao meu lado durante algum tempo, sabai di, sabai di !!!!!, bom dia, bom dia, o sol cresce, o vento sopra, o cabelo voa, a mis­te­ri­osa mon­ta­nha tem­plo começa a ganhar forma ao longe.

E eu tenho uma bici­cleta nova. É pre­ciso mais alguma coisa para ser feliz? 

 

 

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Na rota de Lawrence da Arábia

Como cer­ta­mente per­ce­be­ram já pela belís­sima recep­ção que lhe dis­pen­sou o nosso PMS - e quem melhor do que o PMS para rece­ber com a pompa e a cir­cuns­tân­cia devi­das as len­das da His­tó­ria trans­for­ma­das tam­bém em len­das do Cinema? -, T.E. Lawrence está de volta às nos­sas salas de cinema. E isso fez-me recuar aos tem­pos não muito dis­tan­tes em que decidi seguir-lhe o rasto por ter­ras da Jor­dâ­nia e da Síria (tem­pos em que alguém ainda se podia aven­tu­rar por ter­ri­tó­rios sírios) e ao texto que então me ins­pi­rou o deserto que foi a sua casa.  

O invulgar deserto de Wadi Rum

O invul­gar deserto de Wadi Rum

Já era muito ténue a recor­da­ção que David Lean me dei­xara do deserto de Wadi Rum, tan­tos e tan­tos anos decor­ri­dos sobre a tarde em que vira o seu Lawrence da Ará­bia. Mas a minha memó­ria reti­nha ainda a sen­sa­ção de fas­cí­nio que trans­mi­tia o lugar em que o envi­ado de Sua Majes­tade con­ver­tido em guer­ri­lheiro Lawrence (Peter O´Toole no filme, num papel que mar­cou de tal forma que, a par­tir de então, ele se pas­sou a con­fun­dir com Lawrence e este com Peter O´Toole) reu­nira as tri­bos beduí­nas a cami­nho do assalto a Aqaba, pri­meiro, e depois a Damasco, na jogada de alto risco que deci­diu o futuro da pri­meira guerra mun­dial em todo o Médio Ori­ente e Penín­sula Ará­bica, então ainda sob domí­nio otomano.

Agora que aca­bei de tri­lhar pelo meu pró­prio pé (embora ins­ta­lado, já não no dorso de um dro­me­dá­rio, mas no con­forto e efi­ci­ên­cia de um 4x4) alguns dos cami­nhos per­cor­ri­dos por Lawrence nes­sas para­gens, con­sigo, mais do que nunca, com­pre­en­der o efeito ins­pi­ra­dor que o deserto sobre ele teve. É certo que Wadi Rum (vale do Rum) não é um deserto qual­quer, e não cor­res­ponde, segu­ra­mente, à ima­gem tra­di­ci­o­nal do deserto, que eu, como quase todos os que só o conhe­ciam dos fil­mes e dos livros, dele tinham. Difi­cil­mente se encon­trará no mundo ari­dez mais bela: a pla­nura, aí, está cer­cada por uma cadeia de ele­va­ções rocho­sas, de cores múl­ti­plas e for­mas e altu­ras várias, que tanto se abrem a hori­zon­tes a per­der de vista como se estrei­tam em gar­gan­tas onde o silên­cio é inter­rom­pido pelos sons mul­ti­pli­ca­dos pelo eco (tal como no filme com os gri­tos de Lawrence) das aves do deserto. Para quem, como eu, teve o pri­vi­lé­gio de vir de Petra, uma cen­tena de qui­ló­me­tros a norte, e jul­ga­ria quase impos­sí­vel ver igua­lada em tão curto espaço a gran­di­o­si­dade do espec­tá­culo da cidade escon­dida nas mon­ta­nhas da civi­li­za­ção naba­teia, o momento em que o cená­rio de Wadi Rum se começa a ofe­re­cer aos nos­sos olhos é avassalador.

Os beduí­nos, alguns deles des­cen­den­tes daque­les que acom­pa­nha­ram Lawrence até Damasco, por lá con­ti­nuam, ainda a criar cabras uns, outros, mais prós­pe­ros, ren­di­dos ao poten­cial turís­tico da região. Certo é que já não pilham cara­va­nas nem fazem explo­dir (como Lawrence, já na sua veste de guer­ri­lheiro, os ensi­nou) os car­ris da linha de cami­nhos de ferro oto­mana que tam­bém lá per­ma­nece, e que agora cum­pre ape­nas a fun­ção de trans­porte para Aqaba do fos­fato extraído das minas do deserto. A mirra, o incenso e o car­da­momo já não têm a impor­tân­cia que, outrora, as rotas cara­va­nei­ras lhe atri­buí­ram, mas os hábeis beduí­nos de agora – que domi­nam a tec­no­lo­gia de tele­mó­veis topo de gama e pre­fe­rem as pick-ups aos ances­trais dro­me­dá­rios – não des­pre­zam a curi­o­si­dade, feita de con­su­mismo pol­vi­lhado de cul­tura new age, que esses pro­du­tos des­per­tam nos turis­tas. E é com orgu­lho e pra­zer que eles se entre­gam à tarefa de mos­trar a pedra onde os naba­teus, de pas­sa­gem a cami­nho de Petra, ins­cre­ve­ram as suas pin­tu­ras rupes­tres ou o recanto onde Lawrence fixou a sua tenda. Se a His­tó­ria – quer a escrita pelos oci­den­tais, quer a que os aca­dé­mi­cos árabes divul­gam — hesita em tra­tar Lawrence como um herói ou um trai­dor, os beduí­nos, esses, não têm dúvi­das em considerá-lo como um dos seus, pelo menos para turista ver.

Não custa com­pre­en­der o dilema inte­rior com que Lawrence – pro­gres­si­va­mente trans­for­mado, disso parece não haver dúvi­das, num sim­pa­ti­zante da causa árabe, ainda que com liga­ções diplo­má­ti­cas espe­ci­ais a Ingla­terra — se foi deba­tendo à medida que as tri­bos beduí­nas, ao ser­viço do Prín­cipe Fai­çal de Meca (irmão de Abdal­lah I, pri­meiro Rei da Jor­dâ­nia, por sua vez bisavô do actual Abdal­lah II) pro­gre­diam no ter­reno, a cami­nho de Damasco. Como o pró­prio refe­riu, “é sobre a fé numa men­tira que nós os cha­ma­mos a baterem-se por nós e isso não sou capaz de supor­tar”. A men­tira era a da pro­messa aos hache­mi­tas de Meca de um reino pan-árabe, que incluía os ter­ri­tó­rios hoje deli­mi­ta­dos pelo Líbano, pela Síria, por Israel e pela Auto­ri­dade Pales­ti­ni­ana, pela Jor­dâ­nia, pelo Ira­que e pela Penín­sula Ará­bica, a cuja liber­ta­ção das tro­pas tur­cas os ingle­ses só pode­riam aspi­rar com o auxí­lio das tri­bos beduí­nas do deserto uni­fi­ca­das sob o comando de Fai­çal. Pro­messa que, como Lawrence se aper­ce­beu a deter­mi­nado momento (resta saber quando), os ingle­ses não esta­vam já em con­di­ções de con­cre­ti­zar, pois que, com o acordo Sykes-Picot de 1916, esses mes­mos ter­ri­tó­rios fica­ram des­ti­na­dos à par­ti­lha entre a Ingla­terra e a França uma vez con­su­mada a der­rota oto­mana. E que foi ainda agra­vada pela decla­ra­ção Bal­four que, pouco tempo depois (em Novem­bro de 1917), garan­tiu à comu­ni­dade judaica inglesa um “foyer” naci­o­nal na Pales­tina para o povo judeu.

Mesmo não con­se­guindo afas­tar a dúvida de ter, cons­ci­en­te­mente, cola­bo­rado num ardil para mobi­li­zar os árabes, não podem estes acusá-lo a ele, Lawrence, de não ter feito tudo para lhes per­mi­tir, ainda assim, uma frac­ção dos ter­ri­tó­rios que lhes foram pro­me­ti­dos. A ver­dade é que só a deter­mi­na­ção de Lawrence, ao mover mon­ta­nhas para ele e os seus beduí­nos toma­rem Damasco antes das tro­pas ingle­sas, criou as con­di­ções para que aos árabes res­tasse ainda um pré­mio de con­so­la­ção não des­pre­zí­vel: a admi­nis­tra­ção dos novos pro­tec­to­ra­dos ingle­ses do Ira­que ao pró­prio Fai­çal e do emi­rato da Trans­jor­dâ­nia (mais tarde, um Estado inde­pen­dente, o do actual Reino Hache­mita da Jor­dâ­nia) ao seu irmão Abdallah.  

A linha de caminho de ferro de origem otomana que Lawrence e os seus amigos beduínos fizeram explodir várias vezes

A linha de cami­nho de ferro de ori­gem oto­mana que Lawrence e os seus ami­gos beduí­nos fize­ram explo­dir várias vezes

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The good ones

The Good Ones são um trio de sobre­vi­ven­tes do geno­cí­dio no Ruanda des­co­ber­tos em Kigali pelo pro­du­tor Ian Bren­nan. O encon­tro  foi epi­fâ­nico, se é que a pala­vra existe. E o álbum foi gra­vado ali mesmo, às escu­ras, no jar­dim de um vizi­nho, com uma gui­tarra a que fal­ta­vam duas cor­das a fazer as vezes de baixo e uma segunda “desen­ras­cada” à pressa por um amigo. Aqui e ali, lá longe, por trás das vozes melan­có­li­cas de Kazi­gira e Jean­vier, aba­fado pelas melo­dias de Hiti­mana, pode ouvir-se o ladrar triste de um cão.

Um hino à paz nas tra­sei­ras de um país dila­ce­rado pela guerra. Ora oiçam lá:

 

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Do Senhor Cão para a Menina Gata


UM NAMORADO PARA A GATA DA NAMORADA SABEMOS DE QUEM

A Maria João não tem um cão
Não tem não
Tal­vez a culpa seja do namo­rado
Wit­ti­gens­tein é lixado
É tudo pala­vre­ado lugar pen­sado
Sen­ti­mento arru­mado em letri­nhas
Um alter ego de alfa­beto todo muito recto
Ora isso pede ore­lhas de gato
Agu­das aten­tas bicu­das agu­lhas
À rosa dos ven­tos por­que
De tem­pos a tem­pos a João é a Alice
Sem­pre a cair não pode subir
Tomou o gato por coe­lho
E foi atrás dele — que havia de fazer
Se era o menino dela toca a cor­rer
– Não é menino gato é Gata Menina
Corrige-me a mais que per­feita voz canina
– Obri­gada Senhor Cão
– Então
Insiste o Cão
– E se dés­se­mos um namo­rado
À Gata Menina da namo­rada sabe­mos de quem
Um gato letrado de facto e em fato e de laço
– Esta Gati­nha é uma Prin­cesa Menina
Tem de ser um Senhor Gato um Prín­cipe Filó­sofo tam­bém
– Pois está muito bem

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Desertinho Por Vê-lo

"Lawrence da Arábia", de David Lean

Lawrence da Ará­bia”, de David Lean

O que se diz perante a exce­lên­cia? Deixa-se que as luzes se apa­guem, olha-se em frente e abre-se a boca — de espanto. A seguir, recorda-se que a última gera­ção de espec­ta­do­res toma como certo que “Os Vin­ga­do­res” de Joss Whe­don é um épico. Os mais aten­tos tal­vez citem “Gla­di­a­dor”, de Ridley Scott. Mas Lean tinha o segredo dos épicos com­ple­xos e inte­li­gen­tes, onde o curso da His­tó­ria e os ges­tos inti­mis­tas se fun­diam como aman­tes em perigo de vida. E esse segredo mor­reu com ele. Começa no pro­ta­go­nista: T.E. Lawrence é um ofi­cial do exér­cito bri­tâ­nico (o filme é base­ado na sua obra mais céle­bre, “Os Sete Pila­res da Sabe­do­ria”) que, a meio da I Guerra Mun­dial, é man­da­tado para inves­ti­gar a revolta das tri­bos árabes de beduí­nos, no ter­ri­tó­rio hoje conhe­cido por Ará­bia Sau­dita, com vista ao com­bate do que resta do Impé­rio Oto­mano. Lawrence — o extra­or­di­ná­rio Peter O´Toole que, sem saber, nas­ceu para o inter­pre­tar — é um enigma. Tanto aldra­bão como herói sacri­fi­cial, é um mitó­mano com cora­ção de ouro, trai­dor e patri­ota, assas­sino sem remorso e pai adop­tivo de uma civi­li­za­ção, inte­lec­tual ensi­mes­mado, louco des­te­mido. “Lawrence da Ará­bia” é um mer­gu­lho no mar doi­rado do deserto, uma via­gem inte­rior, um gran­di­oso espec­tá­culo, uma febre pró­xima da inso­la­ção, uma tra­ves­sia crís­tica, uma fita de aven­tu­ras, uma carta de amor ao Nefud, uma lição de cul­tura árabe, e nas­ceu tanto do génio de Lean — não viu uma única cena durante toda a roda­gem, o filme estava na sua cabeça — como de uma suces­são de aci­den­tes, pró­prios à grande arte (Mau­rice Jarre não era o com­po­si­tor prin­ci­pal, Mar­lon Brando e Albert Fin­ney foram as pri­meira esco­lhas para pro­ta­go­nista). “Lawrence da Ará­bia” tem um dos melho­res “rac­cords” da his­tó­ria do cinema — quando o fós­foro nos dedos de Lawrence se trans­forma no sol abra­sivo da penín­sula -, uma das mais belas cenas (a apro­xi­ma­ção do she­rife Ali, inter­pre­tado por um jovem egíp­cio, Omar Sha­rif, a um poço de água, no mis­té­rio de uma mira­gem) e uma das mais emo­ci­o­nan­tes sequên­cias: o guia Gasim (I.S. Johar) sucumbe de exaus­tão durante a noite, cai do camelo, Lawrence apercebe-se tarde e volta ao inferno do Nefud para o res­ga­tar. Cinema? É isto.

 Publi­cado na revista Sábado

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Por um Presidente de todas as Nossas Senhoras

Eu, Hen­ri­que, nas­cido por Lis­boa mas cida­dão das Ter­ras do Demo (por laços de san­gue e de vinho), devoto da Nossa Senhora da Lapa desde que me conheço, venho por este meio pro­tes­tar com vee­mên­cia pelo facto de o senhor Pre­si­dente Aní­bal Antó­nio Cavaco Silva ter dis­cri­mi­nado posi­ti­va­mente a Nossa Senhora de Fátima em detri­mento da Nossa Senhora da Lapa, junto à nas­cente do Vouga (isto lido com pro­nún­cia de Viseu fica melhor, por­que é zunto à nacente do Bouga).

Fátima

A pri­vi­le­gi­ada de Fátima

 

Não sabendo se a Nossa Senhora é só uma, ou mais do que uma, ou ainda a mesma com várias ves­tes, entre elas a de Fátima e a da Lapa, ape­nas posso recor­dar que, se o senhor Pre­si­dente entende que a de Fátima é boa para ava­li­a­ções da troika, nenhuma leva a palma à da Lapa para doen­ças, ame­a­ças de cro­co­dilo, cai­mão e lagar­tos vários (salvo os, como eu, que são sócios do Spor­ting), além de sau­da­des moti­va­das pela emigração.

Lapa-1-Nossa_Senhora

A rene­gada da Lapa

 

Assim, não admi­tindo que haja Nos­sas Senho­ras que são filhas e outras que são ente­a­das, venho exi­gir a igual­dade que o Tri­bu­nal Cons­ti­tu­ci­o­nal con­sa­gra, tanto mais que olhando para as res­pe­ti­vas figu­ras não res­tam dúvi­das de qual das duas é a mais desfavorecida.

Vene­ra­dor, atento e obri­gado, sou de Vexas humilde criado

(assi­na­tura a rogo)

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Chorar à Benfica

Do alto dos seus seis anos, a cara lavada em lágri­mas, soluçou-me numa chama imensa: “Pai deixe-me mor­rer. Quero vol­tar ao pas­sado e não ter nas­cido.

Nin­guém me con­vence que há outra equipa no Mundo pela qual se possa cho­rar assim.

 

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