A parábola do chulo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Amém vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas irão à vossa frente para o reino de Deus.” Mateus 21:31

Quando chego e estaciono o carro ele já lá está sentado no seu Audi. É um modelo com muitos anos, nada que se compare aos novos usados, pelos gestores de topo. Ele é apenas um pequeno comerciante. Terá cerca de sessenta anos, veste roupas casuais, como um reformado de jardim, tem o cabelo curto e grisalho e cara de poucos amigos. Se tem ou não amigos, não sei, mas a cara que mostra no parque de estacionamento é séria e grave. Lembra um velho taxista da noite, testemunha de todo o género humano porque todo ele já lhe passou pelo banco de trás, como passa naquele parque e naquele bosque todo o género de homem. É cara de quem não está ali para brincadeiras.
No parque, rodeado pelas frondosas árvores do bosque, estão duas putas aliciando clientes. Trabalham para ele, presumo, porque em boa verdade não o poderia testemunhar com certeza judiciária. Mas ele está ali e elas também, e, de quando em vez, uma delas vai até ao carro dele, debruça-se na janela, ou entra para o assento do pendura, e ali ficam a conversar. São as duas baixinhas e não especialmente bonitas. Se calhar já foram. Ou sê-lo-ão fora das horas de expediente, sem aquela maquilhagem manifestamente excessiva para a inclemente luz de Lisboa e sem aquelas minissaias que as desfavorecem: são algo cheias, de pernas grossas que terminam abruptamente em roliços cus. Uma é negra, a outra é morena.
Como se fosse um pastor, ele, aparentemente, nada faz. Apenas olha em volta, toma conta e faz contas (presumo também). Quando chego, está sentado no carro a olhar e quando saio, uma hora e meia depois, sentado está: no mesmo sítio, com a mesma cara e o mesmo olhar. Diz-se que é o olhar do dono que engorda o boi. Pois apascentar putas parece ser o seu trabalho.
Os fregueses chegam de carro. A maior parte são carros comerciais, decorados com conhecidos logotipos, números de telefone e endereços de email de empresas; cuidadosas manifestações de identidade de prestadoras de serviços vários. Os seus condutores também ali vão para que lhes prestem um serviço. Um dos mais básicos e antigos do mundo. E ele, o apascentador, olha e factura.
Sempre que passo pelo seu carro em direcção aos campos, de saco às costas, o chulo olha para mim e eu olho para ele. Já estive muitas vezes tentado a acenar um discreto bom dia, afinal vejo-o duas vezes por semanas e, com a repetição dos olhares e a partilha do mesmo espaço, já somos conhecidos um do outro. Mas tenho escrúpulos. E ele, com aquela cara, também não esboça intenção de me cumprimentar.
Às duas mulheres falo um sorridente bom dia, sempre que nos cruzamos, e elas respondem-me outro, igualmente sorridente e coloquial. Não é um cumprimento profissional, de solicitação, é antes um cumprimento de pessoas que se encontram muitas vezes no mesmo sítio e, por essa razão, se fizeram vizinhas. Apenas uma vez me tomaram por cliente. Aconteceu na semana passada:

Continuar a ler

Publicado em Museu das Curtas, Post livre | 6 Comentários

A roçar-se pelo delírio

Queen Kelly era mudo, mas os intertítulos eram de gritos.

Aí estão eles, embrulhados na mesma cama: Kennedy, o pai de todos os Kennedys, e Gloria Swanson, a maior diva dos anos 20. Kennedy despachou o marido da Swanson para um dia de pesca no alto mar e mandou Rosa, sua mulher, ter o oitavo filho em Boston, longe de Hollywood. Livres, foi uma cama diária de três anos e não lhes chegava: levaram os lençóis para o cinema.

Kennedy era já o estratega financeiro de três grandes estúdios. Ficou também à frente da produtora de Gloria. Subiu-lhe, do baixo-ventre à cabeça, a vocação de produtor. Chamou o mais heterodoxo génio de Hollywood, Eric von Stroheim, e pediu-lhe uma obra-prima para o metro e cinquenta de mulher que o fazia roçar-se pelo delírio. O que Stroheim lhes contou aterraria o mais pintado.

Vejamos, Gloria Swanson seria, no filme, uma lindíssima noviça. Mas o noivo de uma rainha iníqua e louca poria nela a cobiça dos seus olhos lúbricos. Apontar-lhe-ia para os tornozelos a dizer que lhe caíra aos pés a mais íntima peça de lingerie. Ela, humilhada e em fúria, tiraria a cobiçada peça e, escandalizando as freiras, atirava-lha à cara. O príncipe cheiraria com vagar os folhos do troféu e raptaria a dona, imiscuindo-se-lhe na desprotegida inocência. Não quereria já casar com a rainha. A funestíssima soberana descobriria, chicoteando a já pouco noviça e expulsando-a do reino. A fugitiva de Cristo desaguaria em África, a dirigir com tal estúrdia um bordel, que lhe chamariam Queen Kelly.

A realeza, em Queen Kelly, é de chicote

A esta edificante história do próprio Stroheim, chamou ele “The Swamp”, pântano, se for mal traduzido, ou lamaçal, se quisermos ser autênticos. Kennedy e Swanson chamaram-lhe pêra doce. E meteram-lhe, primeiro um, depois todos os dentes. Foi a mais mítica de todas as catástrofes da história do cinema. Um vingativo acto de Deus.

Nas filmagens, Kennedy submergiu Swanson em generosidade e galantaria. Construiu-lhe um chalé, deu-lhe casacos de arminho. O mundo deles tinha a leveza de umas farófias do meu querido e falecido senhor Armindo. Mas o filme, “Queen Kelly”, foi um desastre sublime. E Kennedy voltou a financeiro, pondo-se ao fresco da pele de produtor. Swanson, sozinha, foi ver as contas. Devia um milhão de dólares, num rol que incluía o generoso chalé e os galantes casacos de arminho.

Será extrapolar muito dizer que começou aqui um certo penchant catastrófico da família Kennedy por Hollywood?

E depois venham falar-me de happy-ends

 Publicado no Expresso, sábado, dia 18 de Março

Publicado em Post livre | 3 Comentários

O terrorismo explicado aos adultos

Ó…. a nossa capital!

O colégio onde os meus sobrinhos estudam diz que é internacional e o ensino é em língua inglesa – com português e mandarim uma ou duas vezes por semana, não sei exactamente. Porém, de vez em quando, lá em casa da minha irmã ou em conversa comigo ou com a avó, saltam frases mais inglesas do que internacionais e de arrepiar as nossas ricas, republicanas e portuguesas orelhas, assim tipo: a nossa rainha faz hoje anos ou Londres, a nossa capital, é linda!

Adiante. Deve ter havido conversa no colégio sobre o atentado na ponte de Westminster e no Parlamento porque em casa houve um total blackout às notícias com desenhos animados em looping – os meus sobrinhos são ainda muito pequenos, um tem cinco anos, o outro oito.

Quando chegaram das aulas, e por isso é que digo, conversa houve e de certeza, o meu sobrinho mais velho para mim:
– Sabe o que são terroristas?
– O que são?
– São pessoas más que pensam que são boas que matam pessoas boas porque pensam que elas são más!
E o mais novo que, como direi, conjuga os verbos em português com desvio à correcção, acrescentou convictamente:
– E os terroristas atropelem pessoas nas pontes e ataquem pessoas por terra, mar e ar!

Publicado em Post livre | 4 Comentários

Pintas

 

 

A pinta de um tipo não se tira pelos livros que lê. Tira-se, vejam lá o paradoxo, pela pinta com que os lê.

Agora vou ali acabar o meu Robert Harris.

Publicado em Escrita automática | 7 Comentários

O riso de Agustina

riu-se, conspirou

Fui editor de três livros e um texto inédito da senhora Dona Agustina. Mas o que é ser editor de Agustina Bessa Luís? É, digo eu, estar sentado, olhos colados aos vivos olhos dela, os ouvidos presos à sua voz, que me parecia então, uma voz macia, de inflexões irónicas a roçar o infantil, exactamente o que, hoje, me continua a parecer sempre que a volto a ouvir num velho programa de rádio ou de televisão.

Foi essa voz que me respondeu quando lhe pedi que escrevesse sobre a pintura de Paula Rego, para um livro que eu imaginava um incêndio. Nesse livro, jurava eu, o leitor iria arder na reprodução da pintura de uma e na pólvora da escrita de outra. O livro, “As Meninas”, mas que também se poderia ter chamado “As Feiticeiras”, chegou às livrarias em Março de 2001.

chamou-se AS MENINAS. podia ter-se chamado AS FEITICEIRAS

 O culto de Agustina herdei-o de Antónia Fonseca, minha mulher, que me levou além da “Sibila”, esse lugar sobrenatural que enfeitiça e paralisa os leitores preguiçosos como eu. E o culto de Agustina mitificou-se com o que muitas vezes me contava João Bénard da Costa. Tudo se passou nos pastosos anos da ditadura, que foram o limbo da inocente Agustina. Ela, mulher pequena, com todos os sinais de ser dotada de dons sobrenaturais, não era de uns, nem era de outros. Uns e outros queriam ter valores políticos seguros e queriam que as artes fossem formas ancilares de um jurado ideal político. Mas havia uma revista, “O Tempo e o Modo”, onde João Bénard pontificava, caldo de um catolicismo progressista balizado pelas bondosas sete saias do Papa João XXIII e, também, embrião de uma esquerda não totalitária. A revista defendia os heterodoxos, gente de difícil classificação, que ia de Jorge de Sena a Ruben A. e a Sophia, passando ou chegando a Agustina. O João contou-me: as clandestinas esquerdas partidárias que se roçavam pela revista, indignavam-se com o louvor e defesa que nela se fazia de Agustina. As esquerdas, mesmo uma figura como Mário Soares, eram então, na primeira metade dos anos 60, adeptos do combate neo-realista, e era esse pântano de conformismo estético que era tido como revolução. Agustina não servia, nem era servida, à mesa dos partidos.

Vamos ao futuro. E o futuro continua a ser a escrita de Agustina. O desaustinado texto que Agustina escreveu sobre Paula Rego é, para mim, o melhor texto que um escritor português escreveu sobre um artista de outras artes. Agustina, à pintura de Paula, chama-lhe escrita e diz que essa “escrita” já estava pronta e acabada nas grutas de Lascaux e nas abóbadas de Altamira. Agustina escreve e decifra ou inventa segredos: o de Paula é o de ser obediente e aceitar o terror.

Lembro-me da primeira conversa ao vivo. Agustina recebeu-nos a chá das cinco na sua casa da travessa que saía da Buenos Aires, em Lisboa. Ficou para mais tarde o Gólgota, no Porto. Fiz-lhe uma proposta que ela não poderia recusar, riu-se, conspirou, falou de Saramago, de Israel, de Eugénio e de Manoel de Oliveira e disse que sim.

Dir-me-ia que sim tantas vezes como Pedro negou Cristo. Escreveu para o “Cântico dos Cânticos”, numa Bíblia, que editei em caixa de acrílico. Esse intróito de Agustina não é bem de apascentar açucenas e muito menos de amenos eflúvios erótico-dominicais. É um texto de camas, poder, ciúmes e traições. Qual metafísica! Um dia alguém tem de falar da radical materialidade de Agustina, que o título desse texto – “Um tijolo quente na cama” – descaradamente denuncia.

Ofereceu-me, depois, a sua autobiografia, a que ela aceitou que eu chamasse “O Livro de Agustina”, desde que conservasse como subtítulo “A Lei do Grupo”, seu título de primeira escolha. E, a um passo da doença a levar pela mão para o exótico jardim de rosas, cuja entrada temos medo de profanar, ainda me escreveu XII Óperas, de Viriato a Salazar, passando por D. João II, D. Sebastião ou Afonso Costa, num livro a que chamou “Fama e Segredo na História de Portugal”.

De Agustina guardo três livros e o maravilhoso riso. Um dia, depois da apresentação da autobiografia, deixara eu o carro, no Fórum Almada, colado a um poste do estacionamento, Agustina, a entrar, ficou presa, na estreita abertura que o poste concedia à porta. É que nem para trás, nem para a frente. Onde qualquer pessoa se irritaria, Agustina não conseguia parar as gargalhadas. Eu e o poeta Gil Carvalho, então meu sócio editorial, queríamos ajudar e dissemos-lhe: “Senhora Dona Agustina, temos de a segurar pelas pernas!” Genuinamente divertida, Agustina respondeu: “Puxem-me pelas pernas, rapazes.”

Texto publicado no Jornal de Letras

Publicado em Post livre | 10 Comentários

EPICUR, é Primavera

A EPICUR da Primavera já chegou às bancas. Tenho obscuríssimos interesses que me fazem vir aqui promovê-la. Dirigem-na dois amigos meus, o Mário Rui de Castro e o Pedro Marta Santos, esse Triste absentista que assina o editorial, no qual jura que a revista só tem um objectivo: a nossa felicidade. E eu acredito.

Depois, à página 30, aparece outra Triste, a Eugénia de Vasconcellos. A crónica dela tem um título que apetece logo soletrar: “As vogais do corpo”. A Eugénia aparece a fazer pontas numa aula de ballet e a Dona Maria Helena, professora dela, claro, surge de “eterna vara na mão“. Eu, se fosse aos meus Tristes leitores, correria logo a ler.

Confesso, nesta EPICUR abusei. Além da minha Triste crónica (“Eu andava então a fazer a revolução e tenho a certeza de que nem Che Guevara teve a liberdade de mijar ao vento de um 2CV em movimento…“), fiz dois artigos, um longo sobre o Baile da Ópera de Viena e outro sobre a pintura de Egon Schiele e as saias levantadas das mulheres dele, que talvez deixe ficar aqui, se me prometerem que compram a revista, que está com uma capa de se lhe acariciar o cabelo e que tem coisas magníficas para ler, como é o caso do primeiro artigo da secção de “long reading”, assinado pelo controverso Jaime Nogueira Pinto, em que ele sustenta uma tese: “Como a resistência à evolução tecnológica também pode ser uma marca de progresso.”

O Marta Santos que só me apetece matar por já não escrever uma linha, uma letra, neste blog, há um século, tem razão: às 122 páginas da EPICUR move-as uma só razão, tudo pela nossa felicidade.

Publicado em Post livre | 2 Comentários

El-rei Junot, de Raul Brandão

Dizem que é um livro de história. E eu digo que é um dos grandes romances do século XX português. Um romance esquecido, ignorado, confundido com um “relato” por quem não sinta o rio de lama da dramaturgia que lhe é subterrânea, por quem não sinta a violência estética e moral de cada frase. E eis a primeira: “A história é dor, a verdadeira história é a dos gritos. Eis a árvore na árvore todo o trabalho se congrega para produzir a flor.

Nunca os heróis e os vilões foram tão colectivos como em “El-Rei Junot”, romance que Raul Brandão publicou em 1912. São hordas que avançam e são hordas que resistem. As tropas de Napoleão rasgam Espanha e chegam, em dilúvio, a Portugal.

  “Avançam homens de todos os cantos da terra, mescla de inferno, que o grande imperador, como um mágico, fizera surgir dos basfonds da Europa. Desencadeara todas as paixões. Uns vêm para roubar, outros para matar. Há generais que querem encher-se, há-os que cismam neste gozo superior — a crueldade e a ruína. Saquear, dispor de vidas após vidas, romper num frenesi, aos urros, por uma cidade dentro, ouvir gritos de raiva, assistir ao grande quadro da destruição, é um espectáculo soberbo, cheio de imponência e beleza. Oh, há muitos destes voluptuosos! São exasperos em marcha, cóleras, infâmias, à espera de ocasião. Avante, avante! A Dor acorda e caminha…

Relato histórico? Mas quem é quer saber da História, quando a palavra é esplêndida, luxuosa, quando a frase exalta e se deixa levar, já não pela obrigação de enunciar, mas pelo prazer de se espantar, de se indignar, de nos pôr cara a cara com o sangue, com a morte:

A horda que avança não é bem um exército: é um jacto de cólera, de paixões, de dor estreme. Comanda-a um doido, Junot. Foi general, duque, olhou para o mundo do alto de um pedestal, com trezentos contos por ano, e galões de oiro da cabeça aos pés — foi toda a vida sargento. Ele manda, os outros obedecem. Segue-o a corte de aventureiros e soldados, quase todos imberbes, arrancados à França extenuada. Quantas dificuldades no recrutamento! Os homens desertam, mutilam-se, apedrejam os gendarmes, passam as fronteiras. A teta, à força de ordenhada, deita sangue. E com eles vêm polacos, velhos granadeiros, restos, bandidos de todo o mundo. O homem que todos os dias vive cara a cara com a morte, põe de lado as futilidades da existência: sua moral difere: o sofrimento humano não o toca: apressa-se a gozar.”

Raul Brandão, querendo saber, já não quer saber da História. A História ensina-nos que foi o Inverno, esse gélido general, e a Rússia, que derrotaram Napoleão. E se não foram? E se fosse o romance, o torrencial romance de Brandão, a ter razão e se, afinal, a derrota de Napoleão tivesse começado em Portugal, na portentosa e omnipresente chuva que tombou sobre os soldados de Junot, se tivesse sido a lama e os caminhos de lama de Portugal que devastaram os intrépidos franceses?

Chove sempre. Anos depois Thiébault evoca com terror esses dias de espanto e classifica a marcha sobre Lisboa — de fome, esgotamento, dilúvio e causa inicial dos desastres do império. […]Toda a noite atroz se ouvem gritos — outros gritos de morte respondem ao longe. São os que se despenham de penedo em penedo, os que tropeçam e se afundam nas torrentes — e o vento arrasta o clamor pelos ares. Acendem fogaréus, um bando de homens enconcha as mãos na boca e buzina: — Eh! eh! — mas da noite funda só responde o eco. Até aos primeiros livores da madrugada chegam os soldados-lama, e encostam-se uns aos outros como um rebanho amedrontado. Blasfemam ou atiram-se ao chão fartos de sofrimento. Alguns olham com idiotia e pasmo a claridade suja da manhã. E chove sempre.

E derrotou-os também um povo vencido. Ai dos vencedores, eis o que Raul Brandão nos tem a dizer, “Ai dos vencedores”. Junot já é rei de Portugal. A família real pisgou-se aceleradamente para o Brasil. Mas em cada viela, em cada barranco isolado, o ressentimento faz-se gente. Um povo terrorista espreita a oportunidade. Este é o povo de brandos costumes. Ouçam-lhe a crueldade, o som. O som. O som que só Raul Brandão, esse muito mais do que Griffith da língua portuguesa, lhe soube dar:

Frei João da Madre de Deus sabe que há franceses na Capinha. Encontra seis, estende um, aprisiona os outros. Cercam num lagar alguns soldados feridos: deitam-lhe o fogo: eles defendem-se até à última com urros pavorosos; os de fora riem com as bocarras estúpidas abertas. — E os sinos não cessam de tocar: o som grita, o som clama, o som ecoa… Não há a esperar piedade.

“El-Rei Junot” é um romance sem piedade. É literatura, mas, muito antes de um francês, Michel Leiris, ter dito que a literatura ou é tauromaquia ou nada é a não ser um exercício de salão, “El-Rei Junot” já era o romance que enfrenta os cornos do touro, as dores da História, Junot, os invasores, os cruéis camponeses, a corte, o sexo, a intriga, a traição.

Ao publicar este romance cumpri um dos meus mais velhos desejos – sonho com “El-rei Junot” desde 1986. O Ilídio Vasco fez-lhe esta capa azul povoada de negros mosquetes ingleses (ou são rifles franceses?) a que juntou um pingo de ouro. São 73 pingos de ouro numa capa que me enche o peito. Peço-vos que não fiquem pela capa. Entrem nas 330 páginas. Prometo que vão encontrar a língua portuguesa escrita em inteireza pureza, mas não vos prometo que encontrem um povo português de mãos limpas:

Em Viseu a plebe constitui uma junta, a junta dos prudentes, com uma escrita regular, com delações e saques, um livro de actas, e todos lhe obedecem. É outra Inquisição. Saqueiam-se os cartórios, assassinam-se os jacobinos — que muitas vezes são os melhores amigos da pátria. Em Moncorvo, em Guimarães, nos Arcos, rompem sedições, tumultos: — Morram os franceses e os judeus que os protegem! Sempre o mesmo grito insistente…

É uma pátria ensanguentada, feroz, de desespero — mas Pátria. Mata! mata! mata que é jacobino! mata que é judeu!

Junot, que ainda voltou a Portugal em 1810, caminha a passos largos para a loucura. Povo e rei parecem sonâmbulos e entram no domínio de outra tragédia maior. Um dia, tempos depois, oferece um grande baile e aparece aos convidados nu em pêlo e de espada a rasto, com todas as condecorações penduradas ao pescoço e luvas brancas na mão.”

Provem-me, leitores, que ainda vale a pena publicar grande literatura!

Publicado em Post livre | 5 Comentários

Chuck duck walk Berry

O que seria a vida sem heróis? Comovem-nos, convocam-nos, inspiram-nos, amparam-nos, riem-nos, choram-nos, viram-nos de um avesso que não sonhávamos ter. Eu tive a sorte de ter muitos. O maior de todos era o meu avô e não me canso de ressuscita-lo.  Um escritor sem caneta, um realizador sem película. O caçador mais docemente mentiroso que povoou a minha meninice.

Mas tive e tenho muitos mais. A lista, longa e fastidiosa, só a mim interessa porque só eu sei que sou feito deles. Mas hoje confesso-vos o Chuck.  Não tanto, devo dize-lo, porque tenha ensaiado, escondido, eu e o meu espelho, aquele número do duck walk. Vontade não me faltou e um dia destes talvez me encha de lata. Mas confesso-vos Chuck, dizia, porque foi com ele que aprendi que até os heróis precisam de heróis.

B Goode. E dá lá um abraço a quem sabes.

Publicado em Post livre | 7 Comentários

Grandes discursos: Ich Bin ein Berliner

Este é um livro de heróis. Um livro de batalhas, de vitórias e de derrotas. Nalguns casos de derrotas que vão até à morte. Mas às batalhas, à euforia da conquista, ao luto que caminha ao lado dos féretros, à proclamação do Bem contra o Mal, a tudo e em tudo prevalece a palavra.

Este é o livro da palavra dita, da palavra gritada de um púlpito, da arrebatada palavra que clama do alto de uma escadaria, à entrada do palácio que se assalta, junto a um muro ignóbil.

Este livro é da Guerra e Paz editores, aquela casa de livros com quem vivo já 11 anos de pecaminoso concubinato. Mas este livro também é, em pequena medida, um livro Escrever é Triste. Dito por Platão, Péricles, Marco António, Kennedy, Obama e Nelson Mandela, entre outros, este livro foi na verdade escrito por Henrique Monteiro, meu Triste companheiro nesta casa que roubou o nome a Drummond.

Henrique Monteiro apresenta o livro e apresenta, depois, cada um dos 23 grandes discursos que marcaram a História da humanidade, de Jesus de Nazaré e Cícero a Luther King, Gandhi, Churchill ou Salvador Allende e Ronald Reagan.

Este livro ouve-se. Começamos a ler e é a voz de Marco António (ou a de Marlon Brando no filme de Mankiewicz) que ouvimos gritar do alto da escadaria do Senado: “Amigos romanos, venho enterrar César, não fazer-lhe elogios!”. E já ouvimos os aviões a sobrevoar o palácio de la Moneda e Salvador Allende a dizer aos microfones da Rádio Magallanes: “Passam neste momento os aviões. É possível que nos crivem de balas.” E ouvir a voz do actor Ronald Reagan, nesse grande tempo em que os presidentes da América derrubavam muros em vez de os construírem, dizer em Berlim: “Secretário Geral Gorbachev, venha a este portão. Abra este portão. Senhor Gorbachev derrube este muro!”

Estas foram, como escreve Henrique Monteiro, organizador e autor dos textos deste livro, palavras que nos construíram. Foram as palavras certas para fundar a democracia, para fundar a reconciliação e o perdão, para fundar a liberdade e o pensamento. A História é conflito, a História é de tiros e de gritos? É, certamente que é. Mas a História é também de palavra. Dessa arte de as combinar e de as proferir com uma emoção irresistível, em agitação e urgência, mas com a firmeza de quem sabe que tem de dizer No passaran para que possamos nós também dizer Eu tenho um sonho. A História deixa dizer-se.

Este “Os Grandes Discursos da História” é um livro de Henrique Monteiro, aventura de que, como ele diz, eu fui cúmplice. Uma aventura familiar a que a minha filha, Rita Fonseca, se juntou, traduzindo (e quase tudo foi traduzido do inglês) os discursos.  O acompanhamento editorial foi do André Morgado, a capa é, está bom de ver, do Ilídio Vasco.

Publicado em Está Escrito | 1 Comentário

As mãos de um católico

Gloria, Gloria. Aleluia!

Sei lá se Joseph P. Kennedy gostava de cinema. Sei que nos filmes em que nós vemos sonho, ele viu ouro. Estou a falar do Kennedy pai dos Kennedys e o cinema, 1927, é o mudo dos estúdios de Hollywood dirigidos por judeus, que vendiam roupa em feiras do Relógio, da Rússia à Hungria, antes de desembarcarem na abençoada América.

A Kennedy, católico, já com sete pequeninos Kennedys, entrou-lhe no olho direito o reflexo dourado de Hollywood. Viu salas arrebatadas por drama e aventura, salas de joelhos no chão a venerar a luz e sombra de heróis e divas espelhados numa tela e percebeu: é o negócio do século! Não podia era ser percebido por tipos cuja experiência de gestão fora a de passar a ferro cem pares de calças num dia.

Kennedy vinha da Wall Street e fez entrada de leão. Convidou os dez maiores passadores de calças de Hollywood a virem falar a Harvard e fez, com os dez discursos, um livro com capa de ouro, que lhes ofereceu a seguir. Tinha-os na mão. Em quatro anos, Kennedy, o papá, inventou a verticalização dos estúdios, inundando-os de capital e assegurando o controlo da produção, distribuição e exibição.

Agora vejamos, aquele era o tempo de Gloria Swanson. Valia mais do que uma off-shore. Oito batedores de moto precediam o esplêndido carro que a levava, crianças nos passeios acenavam-lhe com bandeirinhas e flores, na sua mansão as casas de banho eram de mármore negro, as banheiras de ouro. Casara, em Paris, com o Marquis de la Falaise de la Coudraye.

“Não!”, foi o que ela disse ao contrato de um milhão de dólares com a Paramount. E metera-se a produtora dos seus filmes. Andava, agora, aos papéis. Foi ter com Kennedy, claro. Viram-se. Ele viu a mulher pequenina, um metro e cinquenta de estrelato, um anélito afrodisíaco de estremecer. Ela viu as belíssimas mãos louras dele, gestos a desenhar arabescos e dedos abertos a sublinharem um riso franco. Dali a nada, o tempo de meter o marquês francês num iate para um inteiro dia de pesca (e é, por isso, que as relações da França com a América são o que são), e as mãos dele já se escondiam nela, a boca na boca dela. Nas memórias, Swanson escreveu: “Era um cavalo selvagem a querer livrar-se das cordas, enérgico, a correr louco para ser livre.” E lembra-se do impetuoso clímax.

As contas? Vamos dar uma semana a Joseph P. Kennedy para ver a contabilidade e sábado que vem voltamos a falar.

Agora, mordam-me as mãos dele… e ainda não se tinham afogado no cisne, perdão, em Swanson

Publicado no Expresso, sábado, dia 11 de Março

Publicado em Post livre | 2 Comentários

António Lobo Antunes ou a literatura?

A Gala da SPA, Sociedade Portuguesa de Autores, devia ser – e foi, e é – uma festa dos autores e da literatura. A Gala deste ano teve um brinde extraordinário, uma dádiva dos deuses. Chamemos a esse deus António Lobo Antunes. Fez uma intervenção tocante, comovente, uma pequena pérola televisiva também. É tão bonito dizer que se pesa o livro de anatomia na balança da cozinha como dizer, com a voz que vem do coração, “eu nunca tinha visto uma mulher nua”, como fazer adeus na televisão ao Senhor Barata.

Na verdade, não foi António Lobo Antunes que foi à televisão, foi a literatura, com toda a sua emoção, que invadiu a televisão.

Publicado em Post livre | 7 Comentários

Entre as estrelas

Foi na noite de terça-feira, na Cinemateca. A casa, a que tanto deu, homenageou e bem Rui Santana Brito, que foi director da biblioteca e vice-presidente. Convidado para participar li este texto, versão mais alargada do que já aqui escrevera, quando o meu amigo Rui morreu.

Conheci o Rui Santana Brito há 35 anos, neste velho palacete mourisco, a que chamamos Cinemateca Portuguesa e que está aqui mesmo, atrás de mim, a ranger de memórias e a ranger de saudades.

Dessa primeira vaga que fundou a Cinemateca Portuguesa, o Rui foi o último a chegar. Já cá estavam, da velhinha Cinemateca Nacional de Manuel Félix Ribeiro, o José Manuel Costa, a Teresa Fernandes, o José Matos-Cruz. O João Bénard, pai da nova cinemateca, tinha-nos trazido, ao João Lopes e a mim, um ano antes. Trazia agora o Rui Brito, não para visionar filmes, nem para escrever as famosas folhas, que se pudesse o João Bénard escreveria todas, mas para assaltar a caverna de Ali-Babá que era a biblioteca, onde se encavalitavam as jóias e pedras preciosas a que chamamos livros, bem como o ouro que eram os Cahiers du Cinéma e a prata que eram todas as outras revistas de cinema.

A biblioteca precisava de um cinéfilo. Aqueles milhares de “livros-fantasmas”, as colecções dos Positif, Variety, Photoplay e Screen precisavam de atormentar, de assustar, de amar alguém. Eram fantasmas a precisar da sua Mrs. Muir e o Rui, de tão cinéfilo, não se importava nada e achava mesmo muita graça a ser a Gene Tierney dessa tão bela sala da biblioteca e de trazer aqueles milhões de fantasmas escondidos à vida!

Ficámos logo amigos – ficávamos logo amigos naquele tempo. Mais velho do que eu, o Rui não só sabia quem era Gene Tierney, como sabia quem eram actores que eu nunca tinha visto, actrizes a quem eu ignorava a devoção que lhes era devida, devoção que ainda hoje ando a pagar, em amortizações com protestos de arrebatamento e paixão. Não bastava amar a Lilian Gish ou a Grace Kelly, o Cary Grant ou o John Wayne, era preciso amar Eleanor Parker, Rossana Podestà ou Audrey Totter, para falar só de actrizes que ainda há poucas semanas o Rui defendeu, na última mensagem que deixou na página do facebook dele. Eu julgava saber o que era um realizador e um argumentista, aprendi com o Rui o que era o actor, o que era a actriz.

A homenagem que a Cinemateca Portuguesa hoje lhe faz é justíssima. Rui Santana Brito foi, será sempre, um cinéfilo de unhas e dentes, construtor desta casa. Podia dizer-vos mais coisas que o Rui foi. Podia dizer que ele foi o vice-director da Cinemateca, ao lado do João Bénard. Podia falar-vos da forma como ele organizou, fez crescer e embelezou o tesouro da biblioteca e o pôs nas mãos e à frente dos olhos de milhares de estudantes e cinéfilos.

Podia falar das contribuições em pesquisas, fotos e traduções que deu aos inenarráveis catálogos e ciclos da Cinemateca. Tudo isso lhe devemos e por isso estamos aqui. Mas o Rui, a estas coisas oficiais, com muita cerimónia e coisa e tal dizia-me sempre. “Manel, grrr!, isso é mesmo de engolir punhos.”

Deixem-me ser egoísta e ter com ele uma conversa pessoal. Rui, tu e eu cumprimos o que no “Casablanca” era só uma promessa. Não fomos viver para Brazaville, embora às vezes nos apetecesse, mas tivemos o princípio e o meio de uma bela amizade que não acaba aqui. Foi uma amizade forjada quase toda em diferenças, a minha calma e a tua impulsividade, as tuas opiniões vivas e directas contra a minha retórica ao retardador.

Mas uma amizade forjada também num tronco comum: procuravas nos filmes e nos livros uma dimensão essencial para a vida. A beleza. A beleza comovia-te. Tenho a certeza de que chorámos nos mesmos filmes, de que fechámos os olhos a ler os mesmos livros. E sei disso também, porque viajámos juntos, de comboio, de carro e de barco. De avião nada, contra os aviões, marchar, marchar, porque se o Rui tinha receio, a Antónia, minha mulher, fugia e foge dos aviões como os miúdos do Night of the Hunter fogem de Robert Mitchum. Mesmo assim, levámos a nossa cinefilia a grandes viagens. O Rui com o José Joaquim, que foi o amor da sua vida, eu com a Antónia, todos com a Natália, nossa Condessa, a sua mais fiel amiga, e com o nosso Manel Cintra Ferreira. A Madrid, a Paris, a Roma, a Florença, a Capri, a Marrocos. Mas também à costa amalfitana, à descoberta dessa morada dos deuses que se chama Positano.

O Rui reformou-se há dez anos e eu já tinha saído da Cinemateca em 1992. Continuámos juntos. Nestes últimos dez anos, em que eu escolhi publicar livros, o Rui esteve sempre presente nas minhas aventuras editoriais. Traduziu alguns dos melhores livros que publiquei, a começar pelas 900 páginas da História de Juliette ou as Prosperidades do Vício do abominável Marquês de Sade, para logo, resgatando-se dessa incursão blasfema e apóstata, me traduzir o críptico Rei Jesus, de Robert Graves. Traduziu, de Churchill, Os Meus Primeiros Anos, mas também Os Intelectuais, de Paul Johnson, O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde e A Ilha do Tesouro, de Stevenson.

Eu gostava tanto do que ele traduzia, que, para poder pôr o meu nome ao lado do dele num livro, pedi ao Rui para traduzirmos juntos O Principezinho. Levou-me à boleia e hoje posso mostrar o livro, com orgulho, à minha filha, que ele e o José Joaquim foram os primeiros amigos a ver, depois dela nascer.

Estamos hoje, na sala da Cinemateca a homenagear, numa segunda despedida, o meu amigo Rui Santana Brito, meu companheiro da Cinemateca de João Bénard, meu companheiro de viagens, meu companheiro de uns minutos de êxtase de fim de tarde na Ponte Vecchio, em Florença. A última vez que o vi, numa cama do hospital dos Capuchos, despedi-me dele com um beijo. Foi o único beijo que lhe dei e não sabia ainda que era um beijo de despedida! Contava amarrá-lo à promessa, que o fez sorrir, de que me acabaria a tradução de O Vermelho e o Negro, de Stendhal, que já ia a dois terços.

O Rui, intempestivo, foi-se embora. Só lhe perdoo por saber que foi juntar-se a Mrs. Muir, a Ava Gardner e Montgomery Clift, a quem a cadela dele, a Carmela, tem andado nos últimos tempos a morder as pernas. Se ouvirem trovões nos tempos mais próximos, não se assustem, é o reencontro do Rui com a Carmela, que estão a ouvir. Mas o reencontro não é só com a adorável e louca Carmela. É também o reencontro do Rui com a sobrinha e o cunhado que, com a irmã, Judy, formaram, além do José Joaquim, o núcleo familiar de que tinha tanto orgulho.

E esta viagem do Rui é, também, o reencontro com meia cinemateca, o Filipe Jacinto, o Senhor Gil e o senhor Alberto, o Luis de Pina, o João Bénard e o Manel Cintra Ferreira.

Rui, vais fazer-me uma falta dos diabos. E não é pelas traduções. O que eu quero saber é com quem é que posso agora conversar sobre um certo tipo de canções, por exemplo as versões do Tico-tico no Fubá, da Carmen Miranda ao Ney Matogrosso? Isto é que conta, são coisas destas que enchem uma amizade e uma vida. E, sem ti, Rui, a quem é que posso perguntar por intrigas, traições, ter um grande jantar de má língua à volta da vida das grandes stars, que me dê para cinco crónicas no Expresso? Contaste-me coisas que te vão dar alguns processos judiciais, se aí, entre as estrelas, houver processos judiciais.

Deves estar a olhar lá de cima com um bocadinho de pena por não estares aqui, vivo, prosaicamente sentado, na fila da frente, como merecias. Mas, por outro lado, que grande orgulho não sentirás, neste momento. Depois de tanto as teres amado na terra, estás agora entre as tuas estrelas, lá no céu. Um abraço, Rui.

Publicado em Post livre | 8 Comentários

outros cader5nos

Publicado em Post livre | Deixe o seu comentário

Santos e Pecadores

 

 

Algures no Financial District. Dubai, 2017.

Foi Oscar Wilde que o disse. Mas podia ter sido Santo Agostinho. Eu, que com jeitinho ali vêem, sou simultaneamente reflexo de pecaminoso passado e desesperança de um santo futuro. Graças a Deus.

Publicado em Escrita automática | 10 Comentários

Tantas saudades meu Lindo Cão

Quem teve tanta sorte com o seu Lindo Cão, meu querido Cão? Fui eu…

e eu que sou católica e praticante, e praticante e praticante, de tanto não acreditar na ressurreição dos mortos e na vida no mundo que há-de vir, espero, mal morra, ver no mundo que há-de vir, porque de tanto praticar ai dele se não vier, espero ver o meu Cão a correr para mim, aquelas corridas loucas de cão novo, as orelhas para trás, todas do vento, e eu ai que lindas orelhas de Peter Pan seu maluquete, e ele um salto daqueles de molas nas patas… Não há nada mais feliz do que um cão novo: todos os dias parece que descobriu o mundo na ponta do nariz, a farejar.

Tenho tantas saudades do Cão… Não queria que ele estivesse vivo porque gastou a vida todinha e já não podia mais, nem estar de pé, nem sentado, nem dormir, nem estar acordado, nem o coração já sabia bater e se ele estivesse vivo levava-o a morrer outra vez que gostava que fizessem o mesmo comigo.

O Cão, ó raça de Cão mais que independente! Qual colo nem meio colo, deixo que me faças umas festinhas e já está, o que eu quero é passear, andar a direito sempre frente, ladrar aos cavalos, em pé, que é lá isso de ter esse tamanho todo, é pateta, olhe que chego bem para si, ouviu?!

O Cão mais que independente passou um dia inteiro, o penúltimo dia, numa longa despedida, deitado ao meu colo, a cabeça pousada, sem força nem peso, encostada no meu ombro e assim toda a manhã do dia a seguir, mesmo antes de o levar para morrer. Acho que chorámos os dois o tempo todo  – mas deve ser mentira porque o Cão era um valente e eu nem por isso. E fomos pelo caminho mais comprido, a fazer render o céu azul, o mar azul, a volta que antes fazíamos de carro, só os dois, a cheirar as laranjeiras com maresia. A cabeça sempre no meu ombro. Nem um olhar para tanto azul, nem maresia nem laranjeiras, nada, só um cão velhinho, leve, embrulhado numa mantinha de velho e lá fui levá-lo para morrer antes de almoço.

Assinei um papel. O veterinário deu-lhe a injecção. Morreu ao meu colo. Não estremeceu. Não se sentiu. Só o coração de gasto é que parou. Não queria que estivesse vivo: é cruel a obrigação de sofrer só para durar.

Mas tenho tantas saudades do Cão… E já que não existem milagres, gostava muito que existisse pelo menos a vida no mundo que há-de vir. Só para ver o Cão a correr para mim aqueles corridas loucas de cão novo, as orelhas para trás, todas do vento…

Publicado em Post livre | 12 Comentários