Sentado na sua cadeira alta de espaldar móvel, que mandara construir a um marceneiro amigo quase tão velho como ele próprio, o pintor deu por terminado o retrato da sua mulher Luísa, marcando a tela no canto inferior direito com um carimbo que talhara pessoalmente. A data, apenas o ano, foi desenhada com a mesma tinta usada no carimbo – um método de identificação que Zargo reputava de infalível no que tocasse a possíveis falsificações.
Divertia-se com o facto de já terem sido encontrados em leilões dois quadros falsos que lhe eram atribuídos – o «expressionista tardio» bem sucedido e mimado pela crítica duma forma que por vezes o incomodava. Não que fosse humilde, longe disso. Mas, com 96 anos por concluir, queixava-se à mulher e amigos, meio a sério meio a brincar, que «aquilo soava a efeito Manoel de Oliveira» – e isso irritava-o profundamente «porque ele sim, é velhíssimo!…»
Verificando de novo a marca carimbada com que assinava os quadros, apressou-se a retocar com uma espátula mínima um rebordo com excesso de tinta – a sua tinta, uma misteriosa mistura onde, diziam os entendidos, havia por vezes pó de ouro, resina de cedros azuis do Líbano e alcatrão, entre outras extravagâncias de cariz pictórico.
Zargo nunca contradisse as várias recitas elencadas. A bem dizer nunca comentou sequer o assunto.
Luísa não mostrara grande entusiasmo com o retrato: «Pareço uma girafa com cara de catatua cigana!», reclamara dois dias antes, durante uma reunião de amigos naquele mesmo estúdio. E depois quase se zangara quando Zargo, para gargalhada geral, concordara com ela – cheio de mimético espanto e ruidosa manifestação de júbilo.
Mestre Zargo enxaguava pincéis em terebintina quando três toques na porta do estúdio lhe indicaram que Luísa se encontrava do lado de fora com notícia buliçosa. Nenhuma outra razão a levaria a interromper o seu trabalho – estava assim estabelecido entre eles, existindo apenas um dispositivo electrónico instalado numa pulseira vistosa que o pintor usava no braço esquerdo, destinada a avisar da sua morte iminente caso não aparecesse ali alguém rapidamente para o salvar mais uma vez.
Era um fiteiro incurável, dos que faz gala nisso.
– Entonces?, qué pasa??!…, inquiriu Zargo enquanto esfregava com vigor as mãos num pano absolutamente borrado de cores variadas.
– Ora bem, temos lá fora um enviado do Guterres que quer muito falar contigo…
– O de Timor?… Não, o de Timor é o Gusmão… O da ONU?, dos refugiados?…
– Sim, Álvaro, o dos refugiados… O homem quer falar contigo por causa duma campanha qualquer…
O velho expressionista tardio estacou, o rosto marcado pela estranheza, para depois dizer num repente:
– Não estou para ninguém, diz-lhe que estou doente…, subitamente doente! Não me apetece aturar políticos hoje. Aliás, nem hoje nem nunca…
A expressão sorridente e um pouco malandra de Luísa manteve-se enquanto, com um gesto quase militar e sem uma palavra, entregou um cartão-de-visita ao marido.
Já desconfiado, Álvaro Zargo retirou da cara e orelhas o complexo artefacto de múltiplas lentes que utilizava para pintar, substituindo-o por uns enormes óculos de tartaruga e lentes bifocais. Depois pegou com dois dedos em pinça no agora misterioso cartão-de-visita, com o gesto brusco de quem tira à força.
Olhou o cartão, aproximou-o, leu melhor, até que desatou a rir com gargalhadas tais que Luísa apressou-se a entregar-lhe uma estratégica caneca com chá frio, não fosse engasgar-se.
– Como é que é isto???… Atanísio Brás Ovelha??? Este nome é um poema histriónico inteiro, carai!…
– Também imaginei que gostasses…
Já na vasta sala de estar, onde dominavam um piano de cauda ladeado por uma bela harpa dourada e uma grande lareira encimada na chaminé por uma impressionante máscara africana, Zargo observou rapidamente o indivíduo moreno de meia idade que aguardava a sua aproximação com deferência de chefe de mesa.
Depois de cumprimentar o visitante e de o convidar a acomodar-se num dos grandes maples forrados a losangos de coiro verde enxadrezados a castanho, Zargo escolheu para si o sofá, recostando-se quase deitado num amontoado de almofadas de seda indiana grossa.
Depois disparou:
– Ora diga-me lá uma coisa que eu sempre quis saber: o dr. Guterres…
– Engenheiro… rectificou Atanísio Brás Ovelha com um leve sorriso condescendente.
– Pois, isso… Mas diga-me lá: o engenheiro Guterres é mesmo de ascendência timorense?… Aquele zigoma…, dá ares disso, não é?…
Confundidíssimo, o enviado da ONU Brás Ovelha tartamudeou um «não faço a menor ideia», quedando-se num silêncio expectante.
– Ok, isso também não tem importância nenhuma, era só uma curiosidade de, digamos…, de especialista em caras. Mas então ora diga lá ao que vem!… Na verdade estou curioso pois não consigo imaginar… Se é para alguma doação o melhor então é falar com a minha secretária, que por acaso até é a minha mulher…
– Não, mestre Zargo, não é isso que o senhor comissário da ONU para os Refugiados deseja pedir-lhe. O que ele quer de facto é que o senhor faça parte duma lista de personalidades que não gosta de armas, que repudia…
– Alto lá!, interrompeu com ímpeto o velhote, que já sobrevivera a seis tentativas da Morte. – Não posso fazer parte dessa lista de forma alguma! Eu gosto de armas! Quero dizer…, de algumas armas, claro, porque há outras que são feiíssimas…
Atordoado com a inesperada revelação, Brás Ovelha ainda tentou repudiar a realidade ali escarrada pelo velho:
– O senhor está brincando, não é?…
– Qual brincando qual carapuça! Não brinco com coisas sérias – ou pelo menos nem sempre… Então eu tenho uma Purdey que foi do rei D. Carlos, uma Winchester 44 do tempo das cóboiadas, uma Luger Parabellum igualzinha às que já toda a gente viu nos filmes neo-realistas a matar montes de italianos infelizes, durante a guerra!… Gosto de armas sim, gosto!
O silêncio chumbara o tempo, e todo o som do mundo parecia ter fugido pela larga boca da lareira, onde uma série de ferros negros, ganchos, tenazes e correntes, tudo acumulado em suspeito acaso, aparentavam formar vagas letras e mesmo símbolos quase familiares.
– Como há-de imaginar, não vou correr o risco de subscrever uma coisa dessas – que acho louvável, claro – para depois fazer figura de idiota… Lá como o D. Juanito com os elefantes…
Novo embaraço silencioso.
– Já agora, deixe-me dizer-lhe uma coisa, prosseguiu o pintor. – Eu não tenho nada contra essas campanhas da ONU, teoricamente até apoio…
– Como assim «teoricamente?»… O tom retórico mostrava que o enviado Brás Ovelha se sentia irritado com a situação, talvez mesmo um pouco humilhado.
Zargo apercebeu-se disso, segurando a resposta no momento em que Luísa surgiu com a crónica caneca de chá de que o marido nunca se separava. Depois arrancou:
– Em primeiro lugar teoricamente porque não pode ser praticamente, não é verdade?… Depois, porque a acho tão eficaz como…, como era aquele anúncio?… Ah! Como caçar moscas com uma carabina! Até vem a propósito, veja lá…
– Eu peço desculpa…, se eu tivesse sonhado que o senhor…, bem, que o senhor é a favor das armas…
– Alto lá!!… Eu não disse nada disso!, quase gritou Álvaro Zargo, ao mesmo tempo que batia com a bengala no chão de forma repetida, fazendo com que o pobre emissário de Guterres se encolhesse um pouco no grande maple que quase o abraçava. – Eu sou absolutamente contra a existência da maioria das armas, detesto guerras e acho uma loucura a proliferação de armas entre a população em geral. Isso é uma coisa. Outra é que fábricas de armas e quem as comercialize são coisas que continuarão a existir enquanto houver guerras e ódios entre os homens – e isso, meu caro dr Ovelha…
– Sou engenheiro…
– Sim, claro, mas quero eu dizer…
– Eu entendo o que quer dizer, mestre Zargo. Mas faz-me confusão que seja contra as armas e tenha várias… Afinal, o que gosta nelas?…
O velho bebericou pensativamente na sua caneca ornamentada com um grande veleiro full rigged de três mastros, desenhado a azul cobalto. Por fim disse:
– Sabe que a AK-47, aquela metralhadora ligeira russa, é considerada um objecto de culto do ‘design’ contemporâneo? Eu por acaso tenho uma, lindíssima, toda em madeira vermelha…, perfeita. Só não tem o espigão para não poder disparar, impuseram-me essa condição para a poder ter em casa. Mas tenho uma culatra suplementar… Ehehhehe!…, riu Zargo com ar acanalhado. – Já a Purdey é uma obra-prima de engenharia, qualidade de mão-de-obra, elegância – é perfeita! A Parabellum é um ícone da II Guerra, indispensável em qualquer boa colecção de armas modernas. A Winchester são os filmes, claro, além de ser uma arma bastante indestrutível…
Nova pausa silenciosa.
– É claro, todas elas mataram gente, ou pelo menos foram fabricadas para isso… Salvo a Purdey, que é para caçar… Ah, pois! E também fui caçador em tempos, está a ver… Mas são contentores de história, da história da vida e da morte dos animais que todos nós somos, não é verdade?…
Porque, afinal de contas, não são as armas que matam, já que praticamente de tudo se pode fazer uma arma: um carro, uma faca de cozinha, uma panela de pressão, umas embalagens de detergentes e afins, um produto químico de venda comum, até uma mulher pode ser uma arma! Ou mesmo um homem…
O senhor certamente sabe disto: existiram várias campanhas de desarmamento das populações em África, mas disso apenas resultou que muitas dessas populações fossem depois chacinadas por todos os que não fizeram a mesma coisa… Ao desarmar as pessoas que até são susceptíveis de serem desarmadas está-se simplesmente a colocá-las mais à mercê de quem não é desarmável de todo, por convicção. Porque o que mata é quem usa a arma, e quem a usa está oficialmente representado na sua ONU…, e muito provavelmente contribui com verbas animadoras para esta vossa campanha tão humanista quanto inútil. É assim que eu penso, caro engenheiro Ovelha.
– Desculpe-me, mas com essa ideologia o senhor podia facilmente pertencer à NRA…
– Outro engano! Abomino essa malta! Mas percebo-a no argumentário. Não se trata de ideologia, antes de simples facts of life – como dizem os beefs…
– Simples???, inteiriçou-se todo o bom do Brás Ovelha. – Tremendos, quer o senhor dizer!…
– Tremendamente simples, sem dúvida.
– O senhor é um cínico, deixe-me que lhe diga.
– Claro que deixo. Mas clássico, que eu cá não vou em modernices…