Os Livros Amarelos

Amanhã, chegam às livrarias os “Livros Amarelos”. Olhem bem para eles. Quem se lembrou da cor amarela e do cortante da capa (aquele rasgão que deixa ver a cor das guardas) foi o meu designer gráfico, o Ilídio Vasco, que respondeu assim à minha ideia de reunir dos textos de autores diferentes num só livro. Vai ser a menina dos meus olhos pelos tempos mais próximos. De tão apaixonado decidi apresentá-los com o texto que aqui vai.

 

Pessoa_UnamunoVamos abrir um buraco no cadáver de Fernando Pessoa e vamos abrir um buraco no cadáver de Miguel de Unamuno. Para quê abrir buracos em cadáveres, perguntarão os leitores? Para lhes insuflar vida, respondo eu.

Tomemos nos braços o cadáver de Pessoa, o seu «Banqueiro Anarquista», por exemplo. O que acontecerá se, por esse buraco, lhe insuflarmos o sopro da boca de Oscar Wilde chamado «A Alma do Homem sob a Égide do Socialismo»? Arranquemos ao túmulo, piedosamente, o cadáver do espanhol Miguel de Unamuno pegando-lhe pelo buraco que dá pelo nome de «Portugal, um povo suicida» e disparemos lá para dentro o tiro que espatifou os miolos do português Manuel Laranjeira e a que ele chamou «Pessimismo Nacional». Há mais vida num tiro suicida do que numa longa existência canalha!

De que morte e de que vida é que estamos a falar? Estamos a falar de textos que o respeito atirou para um cemitério chamado literatura. A melhor forma de matar um texto, a melhor forma de matar a criação é catalogá-la e engavetá-la.

Matemos a morte, regressemos à vida! Para dar vida a contos, a romances, a poemas e a ensaios é necessário abrir-lhes um buraco por onde entrem outros textos. A melhor forma é rasga-los à discussão. A melhor forma é pintá-los a uma cor inesperada e insólita.

Hoje, a minha ediotra, a Guerra e Paz inicia uma viagem de devassa ao cemitério que é o património literário da humanidade. É mentira, os textos não estão mortos. Às nossas escondidas, nos escusos vãos das bibliotecas, os textos literários fazem uns com os outros coisas inconfessáveis. Era preciso caçar-lhes essas relações clandestinas. A Guerra e Paz editores criou o paparazzo da história da literatura e do pensamento. Chama-se Livros Amarelos e é uma nova colecção. A colecção que revela as relações comprometedoras de textos célebres.

Célebres, célebres, muito bons, muito bons, mas metidos a um canto, e isso é exactamente o que esta colecção quer veementemente rejeitar, contrariar e desmentir. Livros Amarelos é uma colecção de textos que se erguem de um salto, afectivamente activos.

Esta é uma colecção que, ao contrário de muitos planetas e de tantas estrelas, se pode ver à vista desarmada. São livros de 15 por 21 centímetros e são amarelos. Completamente amarelos e pintados à mão nas três faces do miolo. Custa um dinheirão ao editor? Custa, mas é bonito que se farta. E não são só livros bonitos. O Ilídio Vasco rasgou-lhes a beleza, com um corte elíptico e alongado que deixa ver uma faísca de vermelho ou verde ou azul, conforme a cor que as guardas do livro, debaixo da capa, venham a ter.

São os Livros Amarelos, amarelos por serem voyeurs, amarelos em vénia à Yellow Book, a revista que, na Londres do século XIX, foi o primeiro sopro de vida desse modernismo que ainda hoje, no século XXI, se nos cola à pele, como grafismo de Ilídio Vasco, autor do design, grita nestes livros.

Saem, agora, os dois primeiros. Num, o «Banqueiro Anarquista», de Fernando Pessoa, dialoga com «A Alma do Homem Sob a Égide do Socialismo», de Oscar Wilde. Entre os dois textos, intrometem-se 60 páginas com a biografia dos autores e um texto que vai por trás do anarquismo dos autores, tortura-os com perguntas e tenta desesperadamente estabelecer as relações deles. Escrevo-o eu mesmo, este vosso Triste Manuel.

O outro livro junta «O Pessimismo Nacional», de Manuel Laranjeira, insólito médico e autor português, que escreveu uma carta ao amigo espanhol Miguel de Unamuno e a seguir se suicidou, levando o perplexo filósofo espanhol, em «Portugal, um Povo Suicida», a desesperar face à psicologia dos portugueses, esse povo vizinho que tem na morte a solução para a crise espiritual e a bancarrota financeira. Passaram cem anos e podia ser hoje, é o que Helder Guégués também diz no texto em que ressuscita o suicida português e o anti-falangista espanhol.

Nasceu uma nova colecção, os Livros Amarelos. Em cada livro dois textos de dois grandes autores. Podem ser novelas, contos, poemas ou ensaios. Um intrometido «estudo» contemporâneo virá sempre lançar a rede que liga esses dois textos clássicos. Em Setembro, o próximo livro, amarelíssimo, juntará «A Célebre Rã Saltadora do Condado de Calaveras», de Mark Twain, e «Rikki-Tikki-Tavi», de Rudyard Kipling. Mark Twain e Kipling trazem rãs, cães, cavalos, ratos-alfaiates e najas, as cobras-capelo. E um mangusto. O mangusto, já se sabe, tem bons dentes e é imune ao veneno das cobras mais peçonhentas. Saídos do cemitério e regressados à vida, é mesmo de um mangusto que os proteja que os Livros Amarelos estão a precisar: bem vindos ao século XXI.

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Parece impossível

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Cortesia da Wikipédia

O que comemos quando comemos um OVO


1- Conquilha ou casca, 2- Membrana externa, 3– Membrana interna, 4– Calaza, 5– Albumina exterior, 6– Albumina média ou clara, 7 – Membrana vitelina, 8– Núcleo, 9– Gérmen, 10– Gema amarela, 11 – Gema branca, 12– Albumina interior, 13 – Calaza, 14– Câmara de Ar, 15 – Conquilha ou casca.

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Passei a tarde com a Isabelle Huppert

Foi nestas águas, cintilantes águas de Schubert, que a Isabelle e eu procurámos as asas
que nos hão-de fazer escapar à passagem do tempo

Passei hoje quase duas horas a conversar com Isabelle Huppert. A despesa da conversa foi toda dela. Temos a mesma idade, descobrimos que temos quase os mesmos interesses. Apanhei-a depois de um recente divórcio e contou-me que anda a dar aulas de filosofia a miúdos e miúdas de Liceu. Mostrou-me os livros de Levinas, que se fartou de anotar (escreve nas margens o que eu sou incapaz de fazer), e confessou-me uma paixão tão assolapada como inconfessável por Martin Buber. É engraçado, chegou a militar três anos no Partido Comunista, como eu passei dois anos de romance com o maoísmo. E, ainda mais engraçado, é que nós, os que deixámos para trás um “ismo”, qualquer “ismo”, gostamos de ser muito exactos e minuciosamente precisos a dizer o tempo em que andámos apaixonados e enfronhados no delicioso erro. Do marido, professor de filosofia também, que a deixou por uma mulher mais nova e porventura menos filosófica, nem é bem queixar-se, mas disse-me a Isabelle, com um sorriso trocista, que ele nunca mudou e continua a pensar exactamente como quando tinha 18 anos.

O ex-marido, já disse, é de filosofia e, outro sorriso meio-triste dela, empertigava-se um bocadinho por causa da relação dela com um chuchu, um aluno dela, meio radical, metódico, implacavelmente lógico. O radicalismo do jovem aluno levou-o a trocar a cidade pelo campo. Está, com a namorada e uns amigos alemães, a fazer queijo numa quinta, onde também tem burros. Foi visitá-lo, claro, mas já lá não volta tão depressa. Desiludiu-a um bocadinho a sistemática devoção dele pela Escola de Frankfurt, chata como a potassa, verdadeiro iceberg sempre à procura de flutuar nas mais amenas águas do capitalismo. Mas a coisa azedou mesmo quando o viu torcer-se, devoto, pela eslovena futilidade auto-satisfeita de Slavoj Žižek. A Isabelle riu-se maldosamente para dentro quando descobriu que o moço tinha para lá perdido um calhamaço do Raymond Aron.

O que mais nos aproximou, ideologias à parte, foi a aceitação da vida. A professora Huppert gosta mesmo de ensinar e gosta de ver os perplexos 15 e 16 anos dos miúdos porem-se a fazer perguntas e começarem a ler, desconfiados, os mesmos velhos livros de sempre, dos mistérios de Platão às estranhas confissões de Rousseau. Descobri nela uma aceitação da vida a que me apeteceu aderir. Vi-a a entoar uma canção de embalar ao neto que a filha mais velha acabou de lhe dar. E vi-a mergulhar nas cintilantes, espelhadas águas desse rio em cuja margem nos sentámos a conversar. Passava o rio e passava o tempo, águas de um e horas de outro em que não voltaremos a banhar-nos.

P.S. – Se me disserem que tudo isto é mentira e que eu não me banhei com Isabelle Huppert nas águas deste rio, pedir-vos-ei para irem aos cinemas ver L’Avenir (O que Está por Vir). Hão-de ver que, por ruelas e portas travessas, o que vos contei é a mais cristalina verdade. Mas que bela conversa, Isabelle. À plus tard chérie.

Porque é que as velhas canções, ouvidas ao pé de uma mulher que fala connosco
dos dias, do amor e da vida, passam logo a ser novíssimas canções?
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Tabacarias VI

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Epicur, hmm, tanto prazer

EPICUR

Pode quase dizer-se que é uma revista Escrever é Triste. Mas a revista chama-se EPICUR, já está nas bancas e é dedicada ao Verão e aos prazeres. Se têm de a comprar e ler? Mas estamos a brincar ou quê! Como é que se atrevem a não ter já este número em casa?

Reparem. O Pedro Marta Santos é responsável pelo conteúdo e escreve, claro. Muito e bem. Mas a Eugénia de Vasconcellos também. Tem uma crónica – Pró Menino e Prá Menina – que começa assim: “Era miúda, teria doze anos quando os Salada de Frutas, pela voz de Lena d’Água, inundaram as rádios e as ruas com o refrão olha o robot, é pró menino e prá menina, olha.”

Convidaram-me para colaborar neste número e eu fui logo a correr, com uma bola de futebol atrás. A crónica tem Eusébio a abrir e a chutar: “O pé esquerdo de Eusébio é a mão direita com que escrevo esta crónica. Escrevo à mão, aparo da caneta a raspar o papel, como o pé de Eusébio a aflorar, veloz manso e forte, a relva.

E agora que se voltou a falar de passaportes: não é uma revista, é um passaporte para o prazer. Feita pelos meus amigos Mário Rui de Castro e Pedro Marta Santos.

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300 escudos

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Não sei se foi por causa do Brexit, mas fui à estante buscar O Vermelho e o Negro de Stendhal. Afinal, o herói, Julien Sorel, se bem se lembram, cumpre até uma ingrata missão, ao arrepio das suas convicções, em Londres. Mas a pergunta que interessa é esta: há quanto tempo é que eu já não abria a minha bela edição de O Vermelho e o Negro?

Abri-a e caem de lá, desamparados, 300 escudos. Uma velha nota com a efígie de Camilo, as outras duas, a gozar comigo, com a poética cara de Bocage. Foi hoje, no dia em que a Inglaterra, entre should I stay, should I go, ala que se faz tarde, se foi embora. É um sinal?

Mas que raio me deu para meter três notas de 100 escudos, há uns 14 ou 15 anos, no meio de um livro. Andaria então a nadar em dinheiro? Não as guardei como souvenir, que não faz o meu género. Foi o calculista Julien Sorel que as rapinou para, agora que, como ele, vamos a caminho da pena de morte, eu me louvar nelas e com elas?

ESCUDOS

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Um salto surrealista

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Se o espírito do Cintra está nalgum lado é na imagem deste corpo que se desloca a caminho do nada a que chamam deserto

Vi-o dar um salto surrealista, de tomara André Breton. Foi assim que o conheci, no Festival da Figueira da Foz. Nasciam os anos 80, na sala do Casino exibira-se um filme, “Rita”, e levantara-se um escarcéu que nem Quixote e Sancho Pança. Na escadaria, esgrimi argumentos com o Eduardo Prado Coelho: ficámos como ouriços-cacheiros prontos a disparar espinhos. Ele era de uma teimosia de veludo e eu, então, um provocador de martelo e escopro. Demo-nos, depois, como Deus e os anjos, quando lhe publiquei o último livro da sua vida.

Veio meio mundo a correr para o debate na sala onde o padre Vieira Marques, director do festival, pusera uma bruta coluna de som, com um sopro capaz de derrubar o prédio do outro lado da rua.

Ainda não conhecia o herói desta crónica. Sabia que era mais de meio surdo e vi que se encostava à coluna. Na sala, o Eduardo aninhou o saber na cadeira, veio o realizador, José Ribeiro Mendes, os dois metros de António-Pedro de Vasconcelos faziam já um elegante fio de sombra sobre as miúdas cinéfilas. O rijo debate ia começar e alguém ligou o som. Oh, meu rico Deus, ouviu-se um estampido de acordar o mundo. É que não foi um PUM, nem um BANG, foi o trovão do nada a converter-se em tudo. E o discretamente encostado à coluna Manuel Cintra Ferreira voou, cabelos no ar, para o centro da sala, num salto de Nelson Évora.

Foi assim que Deus me apresentou o Cintra, a que faço o favor de não chamar apenas crítico de cinema, tal era a devoção que tinha à religião de escuro, luz e sombras que praticava em catacumbas do seu Algarve, do Porto, Figueira, Tróia, Vila do Conde, mas sobretudo de Lisboa e Paris. Amava o cinema, comia-o, bebia-o, fumava-o, dormia com ele. Prodigalizava-lhe mimos perversos: o cinema, já se sabe, é como os gatos, e o que quer é ronronar.

Ficou uma amizade para a vida e para estes seis anos que o Cintra já leva de outro mundo. Derreto-me, agora, de nostalgia por esses anos 80, a Antónia, já casada comigo, a aturar o mercurial Vieira Marques, dono de um Festival que, de Marguerite Duras a Jim Jarmusch e Werner Schroeter, foi um caminho marítimo para outros cinemas. De “Rita” nunca mais se ouviu falar: nem eu o quero voltar a ver para pensar que ainda hoje é o belo filme que, numa explosão, me apresentou o Cintra.

manuel cintra ferreira

O Cintra em fotografia que julgo ser do Chico Grave. Devem estar juntos numa cabine de projecção lá no céu

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A Europa precisa de um divã *

exit from the eurozone: golden star fallen from a blue wall

Cada um tem direito às suas manias, às suas obsessões. Eu não sou exceção e, perdoem-me a arrogância, o tempo há de dar-me razão. O génio do homem começa aliás a voltar a ser reconhecido. A Europa, permitam-me, pois, que me deixe de coisas e volte à carga com o meu amigo Zweig, “sucumbiu a uma grave crise psíquica”. Era ele que o dizia, não era eu. A Europa precisava de uma “desintoxicação moral”. Era em 32 e depois foi o que se viu. Dizia-o em 32 e repetiu-o em 34. Não se ficava pelo diagnóstico, propunha-lhe a solução, e a solução, lucidíssima, premonitória, clarividente, era a unificação. Não chegou a vê-la. Suicidou-se-lhe definitivamente a esperança a meio da guerra. Eram saudades a mais de um mundo de ontem que nunca mais verdadeiramente seria. Não foi a tempo de de saber que, apesar de tudo, alguma coisa aprenderiam os pais fundadores da União. Foi preciso, é a triste realidade, mais um sem dizer de sofrimento, para que o sonho se fizesse. Mas fez-se. Contra a guerra. Não se iludam. Tudo o mais era pretexto.

Agora está tudo à rasca. E com razão. A Europa pode muito bem estar por dias. E não me venham fazer contas à libra, muito menos me venham explicar de que lado da Mancha fica a mercearia que mais perde com a coisa. O ponto não é, nunca foi, verdadeiramente esse. O ponto foi, e continua a ser, a paz. Mas a intoxicação moral da Europa voltou. A crise psíquica agudiza-se num novo surto. Chamem-lhe crise dos refugiados, chamem-lhe renascer dos nacionalismos. Chamem-lhe falta de cultura, idolatria das finanças. Chamem-lhe pulsar dos populismos ou tentação dos autoritarismos. Dêem-lhe o nome que quiserem. O que eu quero saber é o que será da Espanha a seguir ao Brexit? O que será da Bélgica? O que será a Áustria, o que será a Finlândia, o que será a Hungria sem as amarras dos valores Europeus que, já doentes, tivemos medo de passar a escrito numa constituição?

Agora está tudo à rasca. E agora vão ficar ofendidos comigo. Porque está longe de ser simpático, muito menos politicamente correto afirmá-lo. A ideia de que democracia mais direta é mais democracia é uma das ideias mais estúpidas do final do século XX. A ideia populista que tudo deve referendar-se, a ideia maniqueísta de que todas as questões têm uma resposta dicotómica, que todo o sim tem o seu não, são ideias – repito – tão primariamente atrativas como estúpidas. A democracia demoliberal em que vivemos não renasceu de forma representativa por acaso. Nem por impossibilidade de fazê-la direta. Nasceu representativa em nome do refrear das tentações populistas, dos imediatismos, das pulsões irrefletidas, dos medos atávicos. A democracia, tal como até aqui a conhecemos e foi funcionando, nasceu em nome da possibilidade de erguer consensos, em nome da possibilidade de negociar com pragmatismo, em nome de uma crença em lideranças capazes de unir os povos em torno de propósitos comuns e que não se refugiassem, a toda a hora e a todo o momento, na simples auscultação da opinião publica. A coisa parece elitista? Menos democrática? Pouco simpática? Contra o ar dos tempos? Seja. De uma coisa podem estar certos. A Europa, inacabada, imperfeita, disfuncional, mas, apesar de tudo, unida que nos deu um dos maiores períodos de paz que alguma vez conhecemos, jamais se teria feito à força de referendos. A ironia é que pode ser que agora acabe aos pés desse mecanismo populista que nenhuma liderança ousa já afrontar. A Europa sucumbe a uma grave crise psíquica porque a democracia sucumbe a uma não menos grave. Nem uma, nem outra, por falta de cultura, sabem verdadeiramente quem são.

* Este texto está na Visão de 24.6. Pessimista, eu?

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Brexitem-se e depois não digam que não avisei…

Catarina Henriqueta, filha, esta gente desgraça-se, agora referendam o irreferendável... que grande falta de chá.

Catarina Henriqueta, filha, que grande veneta, esta gente desgraça-se: agora referendam o irreferendável… que grande falta de chá!

Por grande culpa do nosso Guilherme Godinho lembrei-me do Brexit. Ó Guilherme! venha cá se faz favor: confesso não ter por hábito andar por aí aos pontos de exclamação a chamar pessoas pelos posts, mas tem de ser: é para continuarmos a converseta dos comentários ali do post de baixo num, como direi, contexto referendário?

Olhe que a nossa menina, perdão, a nossa infanta Catarina, não era para pagodes – tendo ela ou não bigodes, isso não sei…

A Catarina de Bragança, coitadita, contrataram-lhe as núpcias com Carlos ii, vá, Charles – enfim, o nome não augura um leito de felicidades conjugais, fechem-se os olhos e salve-se a pátria…E lá teve de se deslargar para Portsmouth, Inglaterra, passar lá a friagem de Maio, e suportar humidade e falta luz, uma desgraça anglo-saxónica, porque entre Portugal e Inglaterra os tempos estavam, como dizem os chineses e não é um elogio, interessantes.

Ora, Catarina não era a flor mais amada de Inglaterra, católica e tal e mais não sei quê, nem coroada foi: para rainha consorte, teve, acho, um azarucho do caneco. Mas vingou-se. À portuguesa. Vamos contar as coisinhas inglesas que são, ó, pasme-se, portuguesas:

  1. O chá inglês é português. Quero dizer é chinês, nós trouxemo-lo para a Europa no século xvi. A malta bebia chá barato como se fosse a banha da cobra, e que fazia bem a tudo e lailailai, devia ser chá verde, e ninguém ligava pevide. Porém Catarina Henriqueta que levou uma fartura de chá carote no dote, elevou-o a hábito, e vá de convidar as amigas para um cházinho à tarde. E agora diz que é inglês – que falta de tea!
  2. A marmelada, filhos! Os ingleses chamam marmelade, palavra tão portuguesa como o arigato japonês, à geleia de laranja, fruta solar que Catarina Henriqueta, só porque lhe dava na veneta, recebia de Portugal. Gosta de geleia amarga? Pois fique sabendo que era feita com laranjinha azedada na viagem e servida às inimigas mais queridas… É para aprender a não chamar marmelada à geleia, coisa boa e tão docinha e de travo ácido por causa das finas casquinhas de oranges que se lhe acrescentam, hoje, como então. Viu?
  3. E que dizer dos bons modos ingleses? Sofreram um upgradezinho que não foi brinquedo quando a nossa Catarina Henriqueta, noutra veneta, os pasmou a comer de garfinho… Pois, a nobreza inglesa comia delicadamente à mão.
  4. Eu não fumo. Portanto, se andasse pela corte, palpita-me que também não haveria de andar de caxinha de rapé. Todavia, o belo vício do tabaco também é obra da nossa menina. Atchim!
  5. E para não chatear muito, só mais duas coisinhas de nada: porcelana à mesa e ópera. Antes da amiga Catarina, haver havia, mas não era em Inglaterra.
  6. Resumido: amigo inglês, o Brexit não te convém.
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Um editor sem preconceitos

A Visão chega-me a casa, semanalmente, bem embrulhada e pasme-se com o paradoxo, fresquinha. Ora, hoje, estava eu de sofá, tranquila a desfolhar páginas quando, zás! o condottiere do nosso Escrever é Triste, o meu rico editor, me aparece à frente. Eu, autora em pânico com os prazos impossíveis que o tirano impõe, perdão, eu, autora penitente por conta de imperdoáveis atrasos editoriais e posts em dívida, e um tudo nadinha paranóica, penso: raios, big brother is watching me! Mas não, mea culpa, mea maxima culpa… É uma linda e justa página de mérito fonsecaciano. Porquê? Porque é o nosso condottiere e é um editor sem preconceitos.

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Passam os meus vivos a meus mortos

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Pode parecer que mergulhei numa fase de insuportável e depressivo egocentrismo. Como se não tivesse mais nada para entreter os meus dias. É e não é verdade. Passo apenas em revista as gavetas. Rasgo, deito fora, sobretudo quando recebo notícias de que os meus vivos vão passando a meus mortos. Agora foi a Mitas, professora de História no Liceu Almirante Lopes Alves, no Lobito. Ela, como eu, em 1974, acreditou na dipanda. Ela, com marido e família, quando os carcamanos atacaram, fez o recuo para o Sumbe,  no meio de uma coluna anárquica, vivendo o 11 de Novembro de 75, sem ter a certeza do que poderia acontecer-nos na madrugada seguinte. E pus-me a pensar: quando já não houver ninguém que, por um momento, com humana simpatia, tenha posto os olhos em cima da cara que está ali em cima, poderá ainda dizer-se que está viva aquela cara? Quando já não houver ninguém que tenha aberto a porta da casa a um miúdo como eu era, quando já não houver ninguém, que, como a Mitas, tenha posto no gira-discos a Sagração da Primavera para que os meus tapados ouvidos maoístas ouvissem Stravinsky, quando já não houver uma família que tenha sorrido, complacente, a ouvir-me perorar, pesporrento e quase em francês, sobre o Weekend do Godard, que olhos serão os olhos que estão atrás das lentes escurecidas daqueles óculos. Quando os meus vivos passam a mortos, morre de mim o que só eles ainda faziam vivo. 

 A Mitas, maternal, gostava e ria-se do caracol que me enfeitava testa. Lembrei-me, por isso, desta fotografia e deste texto.

Entre as orelhas e a cabeça a proporção começava, enfim, a estar equilibrada. Não tenho a certeza, mas julgo que, se não eram 16, seriam 17 anos. As patilhas sous les pavées la plage antecipavam anos de revolução. A pele imaculada ou é mérito de inocente photoshop ou apenas esse eterno segundo que separa o acne da adolescência da irreversível e sórdida queda na idade viril. O lábio superior a ameaçar o demasiado fino, mas ainda antes de passar a “ui, tão fino, deve ser má pessoa!”. O lábio inferior quase com espessura de áfrica; o nariz direitinho antes da cana rachar a murro ou noite de bebedeira repondo a origem marrana; o queixo a não deixar que se adivinhe futura papada, que agora a barba esconde; o pescoço a exibir-se antes de, em poucos anos, a compressão da cervical o afundar no meio dos ombros.  Sobre a testa, tão natural, como toda a gente então via e hoje ninguém acredita, a natural e revolta onda australiana do caracol de cabelo castanho quase preto. As lentes acastanhadas a tapar os olhos castanhos, a cintilar de verde. Não havia futuro, só a plenitude, cheia, abundante, de presente.

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Evening Flower

Evening Flower

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Diz que é, vá, temperamento!

Bichos felizes não cortam os pulsos...

Bichos felizes não cortam os pulsos… Vivem obcecados. Porque estão a escrever. Porque não estão a escrever. Porque, e se não conseguem escrever? E o que fazer quando não se escreve? 

Se é verdade que a poesia integra em si os contrários, encontra o equilíbrio das polaridades, e revela o ângulo agudo por onde a harmonia se deixa ver mesmo quando é do inferno que se espreita, também é verdade que o poeta, tubo de ensaio onde todos estes processos decorrem, é uma criatura diferente da poesia, ainda que se pareça com a poesia que faz. O poeta é sempre um bicho do excesso e da falta, à vez, ou em simultâneo. E encontra, tem a sorte de encontrar, e um monte de vezes por dia, a harmonia no poema ou na vida.

Isto para dizer que este não é um desses momentos. É dos outros. Do excesso e da falta, em simultâneo. Quando, portanto, se encontra, não o equilíbrio, mas o desequilíbrio. Passou-se comigo. E com o meu rico editor que, muito de vez em quando, até parece ter paciência de santo. Não posso jurar que tenha sido exactamente assim. Todavia não juro que tenha sido de outra maneira.

Eu, de jornal na mão, a resumir a notícia ao meu rico editor que, muito de vez em quando, até parece ter paciência de santo:
– Já viu?! É uma antologia de poetas de língua portuguesa, contemporâneos, a ser publicada na Argentina. Gostava de ter um poema aqui, vá, dois ou três.
O meu rico editor que, muito de vez em quando, até parece ter paciência de santo:
– Mas leia lá outra vez o título da obra, Eugénia… Não é Poetas Suicidas?
– Se é só por causa dum detalhezinho desses, posso ir ali matar-me!

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Tabacarias V

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CONSTRUINDO UM NOVO DIA (*)

 

Ontem, no Centro Cultural Português de Maputo foi lançado o livro: CONSTRUINDO UM NOVO DIA, iniciativa e organização da Embaixada de Portugal em Moçambique e edição do INCM.

O prefácio ficou a cabo do Embaixador de Portugal que agora cessa funções, José Augusto Duarte e que deixará saudades junta da comunidade portuguesa e dos moçambicanos pelo seu carácter, dinamismo e forma de trabalhar.

Este trabalho elogia os moçambicanos agraciados com ordens honoríficas portuguesas desde o 25 de Abril de 1974 até hoje. São na realidade 28 personalidades das artes, das ciências, da política e dos negócios e, leia-se bem, o Parque Nacional da Gorongosa; eu destaco o ÚNICO fotógrafo merecedor destas honras: Ricardo Rangel (http://alexandrepomar.typepad.com/alexandre_pomar/2009/06/rangel.html), um dos pais da fotografia contemporânea em Moçambique.

O álbum, com importantes testemunhos de moçambicanos e portugueses, é acompanhado por um extenso conjunto de fotografias, sobretudo retratos, com autores tao diversos como os meus amigos Mauro Pinto, Filipe Branquinho e José Cabral, ou Naíta Ussene, João Costa e Luís Bernardo Honwana (entre muitos outros).

As únicas fotografias que não são retratos, espante-se, são do Honigod, esse fotógrafo maldito que por aí deambula e com quem me cruzo às vezes.

Faz com detalhes do Índico, porque as fotografias têm todas uma estreita relação com o mar, a separação entre o conjunto de insígnias atribuídas pelos presidentes Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva.

Ora… A expressão do fotógrafo bipolar de um determinado Moçambique, ajudada pela pena de Rui Knopfli, Eduardo White, Filipe Nyusi e Nóemia de Sousa ficou assim:

 

Dunas IV, Calanga. Moçambique, 2014. (c) Honigod.

Dunas IV, Calanga. Moçambique, 2014. (c) Honigod.

 

Remos IV, Calanga. Moçambique, 2016. (c) Honigod.

Remos II, Calanga. Moçambique, 2012. (c) Honigod.

 

Redes I, Tofo. Moçambique, 2014. (c) Honigod.

Redes I, Tofo. Moçambique, 2014. (c) Honigod.

 

Remos IV, Calanga. Moçambique, 2012. (c) Honigod.

Remos IV, Calanga. Moçambique, 2012. (c) Honigod.

(*) Ao Embaixador José Augusto Duarte, grande diplomata e maior amigo.

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