A culpa é do Cupido!

a culpa é do Cupido!

Não percebo o que raio fazem as pessoas quando não estão a trabalhar. Não consigo atinar com essa história da identidade não estar no trabalho. Onde está, então?
Para mim tudo é trabalho mesmo que não esteja a escrever, sei que vou escrever; se estiver mar dentro com o sol a dar-me nos olhos nem o prazer da água me desvia a seta permanentemente apontada à folha: aliás, tenho a certeza, esta frechada é a de Cupido porque se penso em não escrever, e se por vezes penso, lá se vai tudo ao ar para vir tudo abaixo – tenho sorte, dura pouco esta insanidade temporária que qualquer tribunal aceitaria.
Da última vez que me deu, jurei à Nossa Senhora que tenho no quarto que ela não poria os pés na minha nova casa, nem ela nem São João, padroeiro dos escritores, nem Santo António, nem o registo, e vou pôr o terço no oratório como se me tivesse esquecido dele, fica tudo aqui, não quero nem a medalha que a minha avó me deu, nada, acaba-se agora tudo. Tudo! E eu que não digo um palavrão, ainda que escreva todos, mandei Deus e os Anjos e os Santos a lugares inconfessáveis. Pior, a Nossa Senhora também. Passei-me:
– Nem mais uma linha. Nada. Não existes! Melhor, nunca exististe, ouviste?!
Comigo é assim, aniquilação total e retroactiva… E isto com uma imagem de Nossa Senhora que, quando saí da minha casa, nem veio com as mudanças, trouxe-a eu, com todo o cuidado. Assim, com esta fúria toda nunca me tinha dado. Sinto mesmo alguma satisfação por, ao longo dos anos e graças a uma trela curta, ter domesticado a fera de temperamento que me habita. Mas ela de vez em quando foge… É a minha cruz, este feitio de gato que quando se assusta, eriça o pêlo para parecer maior do que é e ir direito aos tigres. O meu Cão fazia isto aos cavalos, até se apoiava só nas patas traseiras… – tantas saudades meu Lindo Cão.
Odeio não escrever. Ou não pensar em escrever o tempo todo. Fico no limbo. Percebes? Não sei o que fazer comigo. Tropeço em mim. Muito menos sei o que fazer com a transparência em que me ponho se não escrevo, se o preto não se inscreve no branco da folha. Ser invisível é não existir e assistir à não existência. É horrível. A culpa é do Cupido, Nossa Senhora, deixa-me cega, louca, faz de mim táubua de tiro ao Álvaro, não tem mais onde furar. Cupido, teu olhar mata mais do que bala de carabina, que veneno estriquinina, que peixeira de baiano, teu olhar mata mais que atropelamento de automóver, mata mais que bala de revórver, e faz-me ser mais má que TU!

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je suis un autre 3

I’m lost

 Originalmente não era minha intenção falar deste assunto. Encontro-me numa encruzilhada.

Minha intenção é clara? Não.

Tenho a certeza.

Neste mundo tudo (o que é bom ou mau)

é  fruto de paixão.

 Por outro lado estou satisfeito. Nada tem importância.

Estás enganado. O barco vai na velocidade máxima. Estamos progredindo, mas nada muda.

Não é navegação. É sonho.

Olho para mim. Uma paisagem inteiramente nova. Esqueço-me de esquecer.

 

Richard Gerstl (1883-1908) pintor vienense influenciado por Klimt. Íntimo do casal Schonberg inicia uma linha mais pessoal e próxima do expressionismo. Amante de Matilde Schonberg é descoberto e abandonado. Suicida-se pouco depois deste desfecho. Tinha 25 anos.

 

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A vida das pequeníssimas coisas

A VIDA DAS PEQUENÍSSIMAS COISAS

Um Golias chamou-me micróbio.
Não foi o primeiro. Não será o último.
É natural: a água não tem cabelos,
não se pode segurar, as palavras
são um rio, um rio só pára quando é mar.
E ainda há a questão da minha impureza
lexical, da insubmissão formal e
uma grande desnecessidade de aval.
No fundo sabem, eu tenho recursos
estranhos nos bolsos como David e
os heróis da bd – vêm assim como
as fortunas de um bolinho chinês que
se esfarela. Não desfazendo das frases que
orientais vão ao forno,
os meus invisíveis recursos secretos
têm raízes no céu, como eu que sou
uma inexorável máquina de escrever,
mil vezes mais pequena que
qualquer micróbio,
ínfimas partículas de letras no comboio do tempo,
lugar de origem e de destino
escritos no bilhete. É Deus quem dá.
Nós? O que somos nós, se não formos isto que
liga o Céu e a Terra,
o Totem que vivo respira e
o seu avesso que o Tabu sufoca?

 

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De Larkin ao Físico Prodigioso

o primeiro Larkin: por subscrição

Podia tê-lo feito por via institucional, através dos meios neutros, digamos assim, da Guerra e Paz editores, mas não quis. Decidi meter-me pessoalmente, aqui no blog, no facebook e afins, no pedido de subscrição em curso para que nasça uma edição, que espero muito bonita, do Físico Prodigioso, de Jorge de Sena, com ilustrações (magníficas) de Mariana Viana, que já fizera outras magníficas ilustrações para Os Passos em Volta, de Herberto Helder.

E fi-lo, metendo literalmente as mãos na massa, também por me apetecer repetir – como um danado macaquinho de imitação – uma tradição literária que tanto me comove, como me faz sorrir. Explico-me. Um editor inglês, Reginald A. Caton, cuja história controversa e editorialmente gay só por si merecia um post, criou a editora Fortune. Mas a fortuna da Fortune não era, se quisermos acelerar, grande coisa. Em vez de investir, Reginald fazia os seus autores desunharem-se para angariar leitores. E foi assim que, em 1934, pela primeira se publicaram em livro 18 poemas de Dylan Thomas. Os leitores pagaram o livro e o editor publicou-o a seguir, levando a crítica a dizer que aquele livro era “o tipo de bomba que explode quando muito de três em três anos“.  Como foi assim, em 1945 que, pela primeira vez, a poesia de Philip Larkin, no seu The North Ship, apareceu em livro. Dois dos maiores poetas do século XX viram as suas obras nascer da subscrição dos leitores. Hoje, no meio da devastadora crise do papel, os leitores têm de voltar, como o fizeram os leitores de Thomas e de Larkin, a criar os seus autores.

Nesta subscrição que estou agora a fazer está – já decidi – o embrião de uma comunidade, Os Amigos da Guerra e Paz. Quero criar uma comunidade de leitores que possa decidir que livros quer ver feitos – sobretudo alguns livros maravilhosos que, todos os custos somados, não terão viabilidade se apenas os atirarmos para o circuito livreiro. Em breve, no novo site da Guerra e Paz editores, que aparecerá em Outubro, e no blog que lá vão encontrar (Letras, Labirinto e Livros), darei notícias.

Entretanto continuo, como o Reginald e como a Fortune Press a tentar palmar-vos uma parte pequenina da carteira. Não se vão arrepender: o Físico Prodigioso de Jorge de Sena,  «sustentado pela força do amor que tudo manda, e pelo ímpeto da liberdade que tudo arrasa», dará aos vossos olhos e às vossas mãos um renovado prazer de ler, um renovado prazer de tocar.

o prodigioso Sena: por subscrição

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Russell Crowe e eu

Tu sabes, Russell, que um pai é um tipo atra­pa­lha­dís­simo

Façam como John F. Kennedy, não me perguntem o que tenho de parecido com Russell Crowe, perguntem antes o que tem Russell Crowe de parecido comigo. Em “Fathers and Daughters”, melodrama piegas em que só eu, um crítico de Newark e aquele povo mais dado ao mês de Agosto chorámos, Crowe tem uma filha. Na vida real, é pai de dois rapazes, mas só o cinema lhe deu o que a mim a vida já não me tira, ser pai de uma filha.

Tu sabes, Russell, que um pai é o tipo atra­pa­lha­dís­simo – a mãe a gri­tar da cozi­nha “muda-lhe a fralda, estou a fazer a papa” – que pela pri­meira vez, come­çando com toa­lhe­tes per­fu­ma­dos, dois dedos já sujos (oh meu Deus, como aquilo se mete debaixo das unhas), o len­çol bran­qui­nho da cama em último recurso, lim­pou o rabinho ao filho ou filha, sol­tando grrs! e outros horrores guturais, doido por ir afo­gar o susto e o cheiro nuns finos da tasca de cara­cóis da esquina.

 Mas há coisas, Russell, que só mesmo uma filha. Uma filha sabe que tem um pai quando ele, em delírio, lhe fala de coi­sas hor­rí­veis, que ela não quer ver nem em sonhos: vinte e dois tipos a cor­rer atrás de uma bola, foras-de-jogo, cla­mo­ro­sos erros de arbi­tra­gem. E esse pai sabe que é pai por­que a ouve exclamar “PAI!”, num tom maiúsculo, entre o desa­bafo e o começo de femi­nina fúria, que é quase um juan­car­lista por­ qué no te cal­las. O tipo que a seguir se cala, garanto-te, Russell, é um pai.

E olha, Russell, o pai de uma filha é o tipo que já não sabe se há-de rir ou cho­rar, quando lhe ofe­rece uma Bar­bie e a filha, que sabe muito bem, com um raio de um imenso cari­nho escon­dido, que ele é pai, lhe diz: “Que bom, é a quinta Bar­bie afri­cana que me dás.”

Não te sintas rejeitado, Russell, mas pai é o ter­ceiro excluído, o que ouve a mulher dizer, “agora, vai lá para den­tro que a tua filha e eu pre­ci­sa­mos de con­ver­sar as duas.”

Pai de uma filha é um tipo sem jeito, fac­tor essen­cial para a filha o reco­nhe­cer como pai. E ape­sar da canhes­trice e do ostra­cismo de género a que é submetido, um tipo sabe que é pai. Esse peque­nino amor con­des­cen­dente de um beijo na testa, de uma fes­ti­nha mais à bruta que nos faz cair os ócu­los – ficam-te bem os óculos, Russell –, é uma forma feminino-filial de nos dizerem: “Coi­ta­di­nho, és meu pai.” É um amor do tama­nho de um bago de arroz. Mas é um bago de arroz-doce.

ficam-te bem os óculos

Publicado no Expresso, sábado, 23 de Setembro

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Não me posso queixar (3)

(Capítulo 1)
(Capítulo 2)

3

— Hoje podemos falar dos males e das dores do coração?
— Concretamente?! — exclamou o vagabundo com perplexidade perante a recaída do morto.
— Talvez hoje me pudesse queixar da incapacidade de amar para além da volúpia inicial da carne. Uma volúpia que, uma vez saciada, dá lugar a um vazio que cresce como cresce o negro de um poço quando não chove…
O morto fez uma pausa para deixar soar o símile. O vagabundo retirava o estanho do gargalo da garrafa e preparava-se para sacar a rolha. O morto continuou.
— … e em redor desse vácuo tudo seca irremediavelmente, e o coração definha como definha um músculo que não é exercitado, e dói uma dor que não se sente, nem corpo, nem nos nervos, nem na carne, mas antes no fundo do poço, por assim dizer.
O vagabundo arregalou os olhos ao céu, suspirou tédio pelo nariz e fez saltar a rolha da garrafa com um pop eloquente.
— Não tínhamos combinado esgotar antes as dores que doem? — perguntou o vagabundo.
— Tínhamos, é verdade, mas eu pensei que talvez hoje pudéssemos…
— Eu preferia esgotar as outras dores, as que doem mesmo. Isto é, se tiver mais queixas dessas.
— Este fim-de-semana doeu-me um cotovelo — disse o morto e mostrou-o inchado, um trambolho na articulação do braço direito.
— Olha, aí está um clássico. Fale-me lá disso.
À hora combinada, o morto apareceu para se queixar, e o vagabundo lá estava sentado nas escadinhas com o mesmo desleixo e pose displicente, como se nunca de lá tivesse saído. Apenas a garrafa de vinho branco tinha mudado outra vez. Esta tinha um rótulo medalhado. Também havia um copo de pé longo e um balde de plástico com água e pedras de gelo para manter o vinho na boa temperatura.
Durante as últimas semanas, e depois de um auspicioso primeiro mês, as dores de que o morto se queixava, ao contrário do branco, vinham a decair de qualidade, drama e emoção. Eram meras dores de cabeça, ou uma “incomodativa” dor no externo, como que provocada por um peso, ou um torcicolo resultado de uma corrente de ar frio que soprou pela janela durante a sesta, ou uma dor na garganta inflamada por um imprestável micro-organismo sem nome, ou uma picada de vespa na mão que tinha alastrado de articulação em articulação até ao ombro transformando-se num inchaço quase perigoso, que tivera de ser tratado com anti-histamínico e antibiótico; enfim, banalidades sem intensidade. A última queixa com algum interesse tinha resultado de um corte profundo na unha do indicador, a todo o sentido do dedo, separando a unha em duas metades iguais. A mutilação, que o médico declarou permanente dado o sentido do corte – a unha cresceria, para sempre, em duas metades distintas, como se fosse um casco de cabra –, que acontecera enquanto cozinhava uma refeição tipo gourmet para amigos, ocupação de acordo com as tendências da actualidade, foi narrada com detalhe vívido e atenção aos pormenores que foram muitos e sanguinolentos. As dores, que o morto sentiu aguçadas e penetrantes como o fio da faca japonesa, e que quase lhe provocaram uma reacção vasovagal, deram uma sessão de belos símiles, hipérboles e comparações inusitadas; a uma boa sessão, a mais interessante que o vagabundo ouvira nas últimas semanas. Mas, tirando a unha em forma de casco de cabra, nenhuma das últimas queixas tinha tido qualquer interesse. O processo atingira o marasmo. Hoje seria a dor de cotovelo.
O vagabundo encheu o copo, suspirou e recostou-se para ouvir a queixa.

Inadvertidamente, o morto tinha batido o cotovelo com violência contra a esquina de uma estante enquanto rearrumava livros procurando, pela enésima vez, uma ordem lógica, irrefutável e prática para o seu acervo bibliográfico que era considerável. Já tinha tentado a ordem alfabética, que resultara numa ilógica mixórdia de temas; já tinha tentado a ordem alfabética dentro de outra mais vasta, a dos assuntos, mas a biblioteca revelara-se maçadora e previsível, com a personalidade de uma livraria de centro comercial; também já tinha tentado arrumar os livros por nacionalidades dos seus autores, mas esbarrou com o Nobokov. Ultimamente, e porque era um ser sensível e visual, tivera a ideia de arrumar as lombadas por tons: blocos inteiros de amarelo, junto a outros laranjas, depois os avermelhados, os rosas, até chegar aos azuis, para concluir com um bloco de lombadas pretas. Quando terminou a tarefa, que lhe levou boa parte de dois dias, e toda a estante era um arco-íris de lombadas, o efeito cromaticamente previsível não foi do seu agrado. Irritado, resolveu recomeçar tudo de novo, o que lhe levou mais uma boa parte de outros dois dias, arrumando os livros por assuntos, ainda que mantendo as lombadas ordenadas por espectros de cor: um arco-íris de ficção, um arco-íris de História, uma arco-íris de poesia, um arco-íris de ciência, outro de filosofia. Uma biblioteca fragmentada numa colorida de manta de retalhos que era, afinal, como a sua cabeça funcionava. Quando procurava um livro, lembrava-se sempre e em primeiro lugar da cor dele. Os Heinleins, por exemplo, eram todos cinzentos. A trilogia do Smiley, do Carré, era preta. Os Karamazov eram esverdeados, como verde era o Crime e o Castigo. Já o Idiota era azul e por essa razão encontrou o seu lugar junto de duas Agustinas, das obras completas do Azimov, do Hitchiker’s Guide to the Galaxy e de uma colectânea de contos do Elmore Leonard. Não muito longe encontravam-se os azuis clarinhos, e entre eles O Coração das Trevas e a Odisseia que partilhavam o mesmo azul celeste quase brumoso. Curiosamente, o Vitória partilhava o mesmo vermelho tinto da Ilíada.
— Algum sentido há-de ter esta coincidência — disse o morto fazendo um silêncio meditativo que fez cair a cabeça do vagabundo, acordando-o.
— Continue, continue – disse o vagabundo, disfarçando interesse e reenchendo o copo.
Foi quando estava a arrumar um livro de um novíssimo autor da velhíssima escola necroliterária – cujos seguidores fazem carreira imitando escritores mortos – livro que lhe fora oferecido, mas que não tinha lido nem fazia tenção de ler, que bateu violentamente na esquina da estante. A dor no cotovelo, logo no cotovelo direito, foi fulminante como o foi o inchaço que se lhe seguiu. De imediato abandonou a tarefa, maldizendo o autor mais a quem o editou, para se recostar no sofá com o cotovelo apoiado num saco de gelo durante a boa parte de mais dois dias; impossibilitado de jogar ténis, de produzir rimas sobre as suas angústias – o que fazia manuscrevendo com uma caneta de aparo, de modo a aportar aos emasculados queixumes uma genuinidade de fim de século (XIX) –, de erguer um livro, sequer, ou mesmo de puxar pelo macaco, tarefa a que se dedicava com a mesma regularidade com que os seus intestinos trabalhavam.
— E como é que resolveu a coisa? — perguntou o vagabundo olhando concentrado para a garrafa de branco que ia a pouco menos de meio como a sessão. — O cotovelo ainda dói?
— Dói. Dá-me ideia que vai doer sempre. É o género de coisa que já não passa nesta idade. Sei que aqui e ali a dor de cotovelo reaparecerá. É inevitável — disse o morto.
Ainda assim não era caso para a cortisona. O velho diclofenac 100 mg, de libertação prolongada para não acicatar a úlcera, parecia ser suficiente. Mas o ténis nunca mais seria o mesmo. Algo que implicaria com a sua rotina, e sem a sua rotina sentia-se perdido. O morto havia enchido todas as horas do dia com as mais diversas actividades para evitar pensar naquilo que devia fazer. Agora, havia mais quatro horas da semana para se dedicar ao nada.
— Talvez arranjar outra dor mais forte? — sugeriu o vagabundo, enquanto pegava delicadamente no pé do copo fazendo rodar o vinho.
— Como assim?
— Se tem mais tempo para se dedicar a dores sem sentido – e note que digo sem sentido apenas porque não se sentem na carne, nem na pele, ou seja, através do sistema nervoso, não que não façam sentido para si, de um modo significante, mas, a certo nível, por certo muito básico, não fazem sentido para o seu corpo, senão sentiam-se a sério – talvez devesse, para se entreter, arranjar dores maiores.
O vagabundo fez uma pausa para dar um golo e esvaziar o copo. Depois voltou a enchê-lo com o que restava na garrafa, ofereceu ao morto, que declinou, e continuou:
— Parece-me que essa dor de cotovelo é uma dor menor. Uma dorzinha, apenas capaz de produzir lamúrias e não queixas viris. Quando combinámos estas sessões foi para ouvir queixas e não lamúrias. Queixas de consequência, queixas com drama e enredo, que comovam quem as ouve, que arrepiem e impressionem. Esta dor, de que hoje se queixou, é uma dor medíocre, e o inchaço apenas um altinho no cotovelo que parece ser onde você guarda o ego. Se vamos continuar este trabalho, de uma forma séria, preciso de dores épicas que resultem em queixas agonizantes. Para a próxima sessão quero que me traga uma dor heroica, uma dor miserável, das que não se aguentam. Caso contrário é porque não tem nada de que se queixar. Nem vale a pena aparecer.
— Está a dizer-me que devo provocar uma dor em mim mesmo, de forma masoquista?
— Mas não é isso que tem feito toda a vida com todas aquelas dores que não se sentem na pele? Essas dores do coração, e da alma, e do ser, e do fundo do poço e mais ó caralho?
O morto ficou calado, aturdido com a violência das observações. Seria mesmo assim? Seriam as dores poéticas, dores que ele convocava em si mesmo? Uma espécie de mortificação psicológica para combater, subconscientemente, a frivolidade a que votara a sua vida?
— É essa a tarefa para a próxima semana. Arranjar uma dor que doa. A nossa hora acabou.
— E como é que eu faço isso?
— Sei lá, procure que há-de encontrar qualquer coisa: cilícios, coroas de espinhos, camas de pregos, chicotes de rabo-de-gato com nós na ponta. E estes são apenas clássicos. Estou convencido que também a mortificação sofreu um upgrade nestes tempos mais digitais. Procure na internet.
Ficaram calados, cada um com os seus pensamentos. O morto dobrado sobre si, com os cotovelos nos joelhos e cabeça apoiada nas mãos, pensava em chicotes de rabo-de-gato com nós na ponta. O vagabundo, olhando o balde onde jazia a garrafa vazia de vinho branco medalhado, dava-se conta de como ele era feio, o balde, de um verde muito rasca como só o plástico conseguia fixar.
— São cinquenta euros.

(continua)

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A Criação

Estreia hoje, na RTP 1 (imagine-se, num canal sério, dedicado ao grande serviço público), uma série que escrevi e que foi realizada pelo Sérgio Graciano com a produção da Até ao Fim do Mundo. Chama-se A Criação e é uma comédia, ou melhor, será uma comédia se tiver alguma piada. Eu rio-me com quase todas as cenas, mas a verdade é que eu me rio por tudo e por nada. Siso não é a minha cena.
O universo é o das artes comerciais – a publicidade, o design, o marketing – e os protagonistas, o anunciante e a agência criativa, são bichos: um Urso, uma Galinhola, um Leão, um Cão e um Corvo, uma Ratinha, uma Girafa, uma Ovelhinha e um pequeno Robot; o que faz d’A Criação uma fábula sobre a farsa da criatividade. Digamos, pois, que se trata de uma fábula farsola.
Numa recente entrevista ao Fernando Alvim, sobre humor, o querido administrador da RTP, Nuno Artur Silva (Deus o tenha e guarde por muitos e bons anos a encomendar séries), disse que esta série era um OVNI. Belíssima definição. Claro que pode ter sido uma maneira de não se comprometer, uma vez que não se sabe que reacção ou reacções a série incitará, nomeadamente junto da polícia do PC, mas o que, penso eu, o Nuno quis dizer é que sendo um OVNI, não se sabe o que vem lá dentro: se o ET, se o Alien. Pois eu digo-vos: o que vem dentro do OVNI é um Alien feroz, mas com o aspecto querido do ET.
Também o estimado director de programas da RTP 1, Daniel Deusdado, durante a apresentação da série no São Jorge, como é do protocolo do lançamento de objectos culturais de manifesto interesse público, disse que a série era difícil porque os bichos falavam, mas não abriam a boca; outro facto que, claramente, indicia a sua natureza extraterrestre. Talvez por essa razão, a série aterrou às 11 da noite de terça feira (dia de Liga dos Campeões), longe de qualquer nobreza horária, como tinha mesmo de ser. Afinal os OVNIS aterram sempre longe da cidade, em locais ermos e esconsos, para serem descobertos, apenas, pelos mais intrépidos e curiosos exploradores. Ainda assim, para os que preferem bola (o que, a avaliar pelo número de programas com gajos a falar do assunto, é o país todo) a série estará disponível no RTP Play, http://www.rtp.pt/play/p3847/e306670/a-criacao, onde há um botão que permite andar para a frente de modo a passar mais rápido pelas partes embaraçosas.

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Uma comunidade de editores

Venho convidar-vos a gastar o vosso dinheiro.

E se calhar já comecei mal: o que eu queria era convidar-vos a serem editores de um livro. Têm ouvido as notícias sobre a crise de jornais e revistas e sobre o fim do papel. Não é a mesma coisa, mas os livros também mudaram. E é urgente começar a pensar novas formas para os fazer.

Quero fazer uma edição especialíssima do Físico Prodigioso, de Jorge de Sena, essa novela erótica que tanto antecipa tudo o que o que hoje balbuciamos sobre a questão do género – identidade, sexualidade, paixão e morte – e queria juntar-lhe a pintura de Mariana Viana. Tenho o texto e tenho 23 exaltantes ilustrações. E tenho já este livro virtual que aqui vêem (é só, ainda, o mono):

Mas para o fazer, capa a ouro, armada em vários painéis como se fosse um políptico, papel de alta qualidade para a pintura, temos de criar uma comunidade de editores. Eu preciso que os amigos do livro, os que gostam de obras diferentes, invulgares, os leitores de Jorge de Sena, os bibliófilos em busca de raridade, subscrevam já esta obra para que passe do estado virtual ao real.

Haverá 200 leitores em Portugal  que queiram ser co-editores deste livro? Se eu estou a pedir? Estou, mas estou sobretudo a pedir-vos que dêem, aqui, o primeiro passo para criarmos os Amigos da Guerra e Paz (é a minha editora, bem sei) e que, juntos, futuramente, façamos este e outros livros de que gostamos. Vamos decidir sobre os livros que queremos ver feitos. Vamos plantar livros de que gostamos na paisagem editorial!

as ilustrações são de Mariana Viana, expressamente concebidas para o livro

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E pluribus unum

De vez em quando, um bocadinho de cooperação não só não faz mal a ninguém, como é capaz de nos trazer melodia, ritmo e great fun.

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1934

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Uma lista conservadora

  1. A boa moral

Abomino, pelo aborrecido que me palpita ser, a ideia de um mundo libertino. Defendo, por amor ao insidioso pecado, o modelo conservador que Jean Renoir recomendava aos seus financiadores: “É do interesse dos produtores manterem um adequado padrão moral, sem o que os filmes imorais deixarão de vender.”

  1. A apetecível costureira

Em “Man Hunt”, filme de Fritz Lang sobre um caçador inglês que queria matar Hitler, a heroína fazia o troitor, se a expressão ainda diz alguma coisa. Os censores mostraram a Lang o cartão vermelho. “Tivemos de lhe pôr uma máquina de costura no quarto, para que parecesse uma modista e não uma puta”, queixou-se Fritz. Abençoados censores: a máquina de costura, pedal, tampo e agulhas, conferem ao jogo de ancas da personagem uma duplicidade erótica que a mais santa puta não alcançaria.

  1. Seda e jóias

Já andei de chinelos, calções rotos e flores no cabelo. Ainda hoje estremeço de vergonha a pensar nesses anos hippies – haja Deus que nunca desisti do banho diário. É verdade que Chaplin filmou a tão bonita Paulette Godard tisnada e pobre. Mas ela pisava como uma rainha, por jamais ter esquecido o conselho de De Mille: “Lembra-te que és uma estrela. Nunca atravesses a rua para despejar o lixo, a não ser que vás coberta de seda e jóias.”

  1. O bom gosto

É inevitável pecarmos. Mas nem todos reúnem os atractivos físicos ou os meios materiais para prevaricarem com variedade e ardor – hèlas! Resta-lhes a riqueza da imaginação. Homens e mulheres tiveram em Greta Garbo a amante de sonhos inconfessáveis. O jornalista Alistair Cooke redimiu-os desse pecado: “Ela dava-nos um consolo: já que a nossa imaginação tinha de pecar, ao menos que o fizesse com o mais irrepreensível bom gosto.”

  1. A coerência moral

Há lições morais no imoralíssimo “Design for a Living”, de Lubitsch. Dois homens e uma mulher, lindos, cheios de humor, fazem um acordo de cavalheiros: sexo entre nós, não. Mas há uma noite em que ela, Miriam Hopkins, está sozinha com um deles, Gary Cooper. Acende-se-lhe um fogo nada fátuo e já se revolve, provocadora, no tão bom sofá: “Bem sei que temos um acordo de cavalheiros – sussurra ela –, mas devo confessar que não sou um cavalheiro.” A coerência moral talvez não seja um valor absoluto.

Publicado no Expresso, dia 9 de Setembro

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Não me posso queixar (2)

(Capítulo 1)

2

— Hoje trago-lhe gota — disse o morto que chegou coxeando.
O vagabundo aguardava-o nos degraus das escadinhas tortas. Parecia que nunca dali saíra nem mudara de posição. Tudo nele era igual: o mesmo aspecto, a mesma roupa imunda, o mesmo olhar esperto, a única excepção era a garrafa de branco, que tirou do casaco que lhe servia de manta. Esta tinha um rótulo conhecido.
— Vamos lá ouvir essas queixas — disse o vagabundo visivelmente satisfeito.
Havia um mês que se encontravam nas escadinhas. Nunca o vagabundo esperara que o morto fosse tão assíduo e pontual, nem que esta lucrativa relação durasse. Mas ele ali estava de novo, à hora combinada, pronto a desfazer-se em queixas. E trouxera uma queixa dolorosa, sentida na pele, e não uma dor hiperbolizada para dar sentido a angústias banais. Fora esse o trabalho do primeiro mês: substituir queixas banais e sem drama digno por queixas com verdade escatológica. Acabar com os foros de drama urdidos pela palavra, onde angústias se fingem dor, pondo o verbo ao serviço dos verdadeiros ais. E ais era o que o morto trazia.
Não era a primeira vez que tinha um ataque de gota. Já no passado fora afligido por esta maleita velha de séculos mais literários. Desta vez o destino e os Deuses imortais tinham-se conjugado para lhe proporcionar um padecimento épico, quase religioso, que durou todo um fim-de-semana. Um fim-de-semana de imobilidade e dores de uma plenitude tão acintosamente aguçada e tão aguçadamente insuportável que, para as descrever, teria de recorrer a um vocabulário e a um imaginário tão vetusto e de antanho como a condição de que sofria. E ainda sofria, quando chegou à sessão, mesmo já passados alguns dias; mas também era grande o orgulho que sentia na sua dor de verdade. Afinal, como o vagabundo lhe tinha feito ver logo nas primeiras sessões, citando hinos a Deuses antigos, é sofrendo que o insensato aprende porque a dor obriga a reflectir.
— A culpa é da carne — disse o morto — literalmente da carne, que não é fraca, mas antes gorda. E também do álcool, pois sem o bom vinho não vale pede darmo-nos ao prazer da carne. O meu bisavô dizia que para o pecado da carne, quanta mais carne melhor.
Daí a gota. Doença de príncipes e reis, os poucos que no passado comiam proteína em quantidade suficiente para alimentar o privilégio da maleita. O morto também gostava de carne. E também tinha reis e duques como antepassados longínquos. Deles herdara a predisposição para a gota, para além um solar no Minho – que partilhava com mais um cento de primos e cuja decrepitude (do solar) disfrutava três dias por ano – e uma ligeiríssima, embora não incapacitante, imbecilidade. Esta última provocada por uma educação excessivamente orientada para convenções sociais de modo a evitar-se qualquer pensamento inusitado, original e, assim, desconfortável. Enfim, toda uma herança que vinha, como é norma nestes casos, atada com um nome carregado de pesadas expectativas.
— Mas vamos à dor propriamente dita — disse o vagabundo, reorientando a conversa. — Queixe-se lá, homem! — concluiu e bebericou um trago do bom branco, bem mais aceitável do que o vinho das últimas sessões.

Durante o fim de semana, no almoço anual com os primos, tinha-se entregue ao tinto, à perdiz e ao javali. Já sabia que ia ter um ataque de gota, mas como dizer não ao tradicional repasto e desiludir a família? Dizer não era comportamento que dominava mal. Nunca tinha aprendido a recusar. Fora educado no salamaleque do positivismo, da boa cara e da concordância. Não, não se dizia (a não ser para admoestar cães e criados). Para mais, há anos, desde que se conhecia, que comparecia a este almoço. Não podia recusá-lo e muito menos sentar-se à mesa e pedir um prato de tofu, ou uma saladinha verde, ou beber apenas limonada. Era um almoço de família, com caça, vinho, pão alentejano e queijos absurdamente gordos e salgados. Uma tradição. E as tradições, como aprendera, eram para ser honradas, mesmo as que provocam a acumulação de cristais de ácido úrico nas articulações dos dedos dos pés. E, no íntimo, embora não o admitisse, não queria deixar passar a oportunidade de experimentar o épico sofrimento da gota e ter assunto que partilhar nas escadinhas. Foi o que aconteceu, muito para além das suas expectativas e por causa da bisavó.
Quando a dor começou, o morto estava ainda na herdade onde tinha almoçado com os primos e onde resolvera passar todo o fim-de-semana, que era dos grandes. Também a herdade era das grandes, embora já tivesse sido maior. Mas os comunistas, primeiro, e as dívidas contraídas pela imperícia dos primos para o trabalho, depois, haviam encolhido os hectares. Manteve-se a casa, no entanto, e com ela uma aparência de dignidade antiga encarnada pela bisavó. Uma mulher de preto, magra, baixa e curvada, daquelas mulheres que vivem a vida toda em dor e não morrem nunca. Era a bisavó que dirigia a casa e tudo organizava com espartana austeridade de que era exemplo a recusa em tomar anti-inflamatórios. Nem um havia nas muitas gavetas das muitas cómodas escuras que ensombravam os muitos quartos mal iluminados por causa do calor. Nem esteroides, nem não esteroides. Nem colchicina, nem alopurinol, nem probenecida. O único consolo para as dores, em toda a casa, eram crucifixos. Restou, assim, ao morto suportar a dor vociferando.
“Foda-se, já sabia que esta merda ia acontecer. Foda-se, caralho, puta que pariu a gota!”
Nas primeiras doze horas, enquanto os aguçados cristais de ácido úrico se incrustavam na articulação do dedo grande do pé, aumentando as dores, os impropérios, que iam crescendo de volume, cor e frequência, ecoaram pelos corredores obscurecidos da casa chegando, inevitavelmente, aos ouvidos da bisavó, a senhora dos crucifixos, que correu a admoestá-lo veementemente fazendo-o saber que a sua ordinária impaciência ofendia o Senhor. O Senhor, dizia ela, com toda a certeza tinha-lhe enviado a dor nos pés como medida das suas transgressões passadas que – ela sabia-o bem e, portanto, Ele também o sabia – eram muitas e graves; e que tinha de a suportar, a dor, com satisfação e sem anti-inflamatórios, pois ela era uma dádiva do Altíssimo pelas dívidas dele; e que também o Senhor tinha, por todos nós, suportado a dor que as cavilhas Lhe tinham provocado nos pés quando o pregaram na Cruz. E acrescentou, para terminar o sermão, que a gota, de que o defunto bisavô também sofrera como medida, porventura, do pecado das putas a que se dedicava todos os anos na Primavera – quando mentia que tinha de ir a Sevilha mandar fazer umas botas novas, e depois voltava lá para as provar, e depois para as ir buscar, num total de duas semanas de cada vez durante as quais torrava metade dos proventos do ano – que a gota, dizia ela, sofrida por ele, que era o que mais se parecia com o bisavô, com abnegação, vontade e sem anti-inflamatórios, como queria o Senhor, acabaria por saldar as dívidas e salvar as almas dele e do defunto. Não era por acaso que era gota, e que era nos pés: era por causa da mentira das botas e do pecado das putas, disse a bisavó.
E a verdade é que a parábola das botas e das putas em Sevilha assentava como uma luva à situação; do mesmo modo que, outrora, as botas assentaram como luvas nos pés do bisavô, pois era em Sevilha que havia os melhores sapateiros. A dor parecia resultar de umas botas justas, forradas por dentro com dezenas de pequenos e aguçados pregos de medida seis por seis. Um padecimento bíblico.
— Meu Deus! — exclamou o vagabundo, que tinha estado suspenso nas palavras do morto.
— Pois foi em Deus que pensei durante todo o fim-de-semana. Sem anti-inflamatórios era tudo o que me restava. E perguntei-me muitas vezes se a dor é coisa do diabo ou do bom Deus.
— E a que conclusão chegou?
O morto ponderou a resposta, deixando o silêncio da velha cidade tomar conta das escadinhas. O vagabundo emborcou mais um golo do muito razoável vinho e soltou um pequenino arroto.
— Não cheguei a conclusão nenhuma — respondeu o morto. — Continuo a debater: será a dor um modo do bom Deus nos remeter ao caminho, castigando o corpo pelos desvios, pelos atalhos e estradas secundárias que nos levam à concupiscência e ao pecado? Ou será a dor um divertimento do diabo, que tem no humano o seu parque de diversões? Ou, ainda, será o diabo, que me cravou os pés com pregos afiados, apenas um ajudante do Senhor, um subempreiteiro, por assim dizer, a quem o Senhor delega esta empresa menor, estes trabalhos que são o padecimento dos mortais, enquanto Ele se dedica às grandes tragédias e cataclismos?
— Belíssimas perguntas, mas a hora acabou. São cinquenta euros.
— Já?
— É verdade. O tempo voa quando se o passa bem.
— Para semana à mesma hora? — perguntou o morto.
— Aqui estarei — respondeu o vagabundo recolhendo as notas no sobretudo.

(continua)

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Manifesto Revolucionário aspas aspas

Abaixo a discriminação. Não sei o que deu aos grandes líderes e educadores das massas ortográficas, mas isto é inaceitável. Querem acabar com as aspas curvas. Discriminar desta forma as aspas inglesas, lá por ter havido o Brexit, fere os meus mais profundos sentimentos igualitários. O que têm afinal a mais as aspas latinas? Que poder autocrático lhes reconhece superioridade sobre a curvilínea elegância das outras?  E onde é que, em nome de Deus, o angular é melhor do que o curvo?

O que farão a seguir os grandes líderes, na sua vertigem trumpo-norte-coreana? Acabar com o hífen? Não permitir que se chame cerquilha ao cardinal, negar três vezes o pé de mosca, a meia-risca, o ápice ou a chaveta? Ou obrigar-nos a todos a usar o ponto de interrogação invertido?

E se os sinais gráficos são agora sujeitos a este tratamento classista, praticamente czarista e pré-outubrista, o que acontecerá aos sinais diacríticos, ao mácron ( ¯ ) e à braquia ( ˘ ), ao gancho polaco ( ˛ ) e, sobretudo à paixão da minha vida, a querida e biunívoca diérese ( ¨ )?

É com um temor e tremor ortográfico que apelo aos nossos melhores espíritos para que, com um ponto de exclamação, contenham os seus Linguistas e Gramáticos Plenipotenciários, não digo com ponto final, mas aplicando-lhes um par de colchetes.

Abaixo a luta de classes no reino da Ortografia!

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Dr. Fonseca, que é lá isto?!

Ao contrário de certos uns que fazem gosto em ser acusa Cristos, eu que não sou de intrigas e sou praticamente uma santa, acho que quem tem telhados de vidro e se põe a cantar e a abanar-se debaixo de um regador ou lá o que é, não devia deitar pedras ao nosso Norton que anda lá fora a lutar pela vida.

E para que não levantem falsos testemunhos, é verdade, confesso, esta rapariga trabalhadeira que engoma para fora, e ó para mim, nem uma queixa que o canto é um lamento, sou euzinha da Silva, perdão, de Vasconcellos, acompanhada por aquele senhor dourado que entregam todos os anos no Dolby Theatre.

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Pra te fazer feliz

Eu não quero estar aqui a levantar falsos testemunhos, mas há gente que leva uma vida dupla. Acontece a quase qualquer um. Não se espera é que amigos nossos nos escondam atrás de um uma cortina, não digo de ferro, mas de vinil, talentos e prodígios que deviam partilhar connosco. Descobri agora que o Pedro Norton anda, com novo penteado, e fingindo que encolheu para caber, escondido, atrás de um violão, a dar show no Brasil, cantando a solo.

Ei-lo:

Pode não parecer, mas Pedro Norton só há um, o do Escrever é Triste e mais nenhum. Já nos podias ter contado, Norton!

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