Tom Hanks na São Silvestre de Luanda

Uma nota prévia. Quem me contou a lenda caluanda que subjaz a esta crónica foi o meu amigo Orlando C. Marques. Contou-a ele muito melhor do que eu a transformei em crónica. Por isso, advirto que o Triste resultado final só a mim me obriga. 

Ah, meu caro Tom Hanks, meu caro Tom Hanks, a verdade é que já não sei se os atletas foram desaguar na Rua do Casuno ou no Beco do Casuno, tão primos e contíguos eram rua e beco. Ruas quimbundas da Cidade Alta, que os registos guardam desde o século XIX, quando a iluminação de Loanda ainda se fazia a expensas do azeite de jinguba.

O que eu quero dizer é que ao vê-lo correr, feito Forrest Gump, uma multidão de seguidores atrás, sei o que o meu amigo só poderia ter sabido se os seus ancestrais açorianos em vez de irem pescar cachalotes para a América tivessem ido, como o meu pai, apanhar ociosos e retroactivos caranguejos nas praias do Cabo Ledo, a Quissama tão perto.

Agora veja, amigo Tom, Lopo de Moraes era um cabo-verdiano de caprichado cabelo liso e coração tão gentil como o do seu Forrest Gump, mas com uma velocidade de raciocínio de banda larga em fibra óptica, privilégio caluanda do final dos anos 50, inalcançável pelos rapazes das berças da América. A vasta Angola pedia corrida e, se de alguma coisa gostava, Lopo de Moraes gostava de correr.

Luanda tinha então a São Silvestre, disputada por volta da meia-noite, forma desportiva e pagã de meter na gaveta, ano a ano, o tempo. Lopo concorreu. Melhor, arrancou na frente. O calor tropical de Dezembro, uma brisa acidental, que por ali passava, emprestaram às pernas de Lopo a graça alegre da gazela de Catete. A alegria da corrida dele, como a do seu Forrest Gump, era contagiante. Conceituados atletas lusos, outros estrangeiros seguiam, se me permite a rima, as morenas pernas locais de Lopo de Morais. E ele subia, seguindo o percurso, à Cidade Alta. Estava a um passo da Rua do Casuno. Era ali a farra de fim de ano pela qual batia o coração de Lopo. Teria uma, talvez duas damas à espera? Ia dançar-se merengue e semba, rumba e samba?

Pois é, caro Tom Hanks, todo o seu Forrest Gump era pernas, mas este Lopo era sobretudo dado à macia doçura de um sentimento requerente de cálido seio humano. Veja-o, desviou-se do percurso e imbicou para a farra da Rua do Casuno, todos os atletas atrás dele. Desaguaram na dengosa festa para espanto das damas e indignada comoção da organização e do próprio São Silvestre. É lenda, diz você. É a vida, digo-lhe eu, quando à vida calha ser o cinema que Deus nos deu.

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Mas que grande insulto

Houve uma clamorosa fuga de informação e esta imagem vazou para as bocas do mundo. É uma fuga imperdoável, mas fugiu e o que fugiu, fugido está. A questão é: o que é isto? Será um livro? E o que é um insulto? Se um insulto já é um insulto, o que será um grande insulto?

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É verdade que és virgem?

Esta foi a minha última crónica na revista Epicur. Saiu no número de Verão, que infelizmente encerrou a revista. É um fecho injusto: o Mário Rui de Castro, que a geria, e o Pedro Marta Santos, que a dirigia, fizeram um belíssimo trabalho. Foi um prazer trabalhar com eles e parlamentar com a minha camarada cronista Triste, a Eugénia de Vasconcellos. Para fechar, fiz uma incursão nostálgica pela Hollywood de outros tempos.

É verdade que és virgem?

Por estranho que pareça, ser alemão não o impedia de ter um sofisticadíssimo sentido de humor. Chamava-se Ernesto. Lubitsch se quisermos falar a sério. Foi um dos realizadores que agarrou no cinema ao colo levando-o do planalto do mudo para os desfiladeiros do sonoro.

Aconteceu tudo na primeira esquina dos anos 30, já quase lá vão cem anos. Foi nessa altura que se pediu aos actores que, como os antiquíssimos animais, começassem a falar. Hollywood exigia-lhes até que cantassem. Foi assim que Lubitsch catrapiscou uma encaracoladíssima loura, altas maçãs do rosto, olhos rasgados, cara de saúde, boca boa, uma alegria juvenil, transparente. Soprano, cantava na Broadway. Jeannette MacDonald era a americana da porta ao lado, genuína, vital, virgem. Dos três qualificativos só este último está sujeito a especulação ou, como se dizia em Luanda, a mujimbos.

Entrem comigo no plateau de Love Parade, o primeiro filme que os juntou. O alemão Lubitsch era um perfeccionista e um tirano. Os actores faziam o pino se ele mandasse, até Maurice Chevalier, a outra estrela da companhia. Menos essa Jeannette, americana, saudável e impertinente. Despeitado, Lubitsch pregou-lhe uma partida. Ela abominava que a chamassem pelo diminutivo Mac. Uma noite, Lubitsch mandou que apagassem o nome dela da sua cadeira de actriz, deixando apenas esse execrável diminutivo. Às nove da manhã, Jeannette entrou no estúdio. Lubitsch olhava-a à distância, à espera da explosão de fúria. Ela percebeu tudo e fez vista grossa. Ele foi-se aproximando, «Olá Jeannette, temos de esperar, não te queres sentar?» Ela disse que sim e sentou-se sem olhar para o raio da cadeira, para funda decepção do antepassado de Angela Merkel.

No dia seguinte, Miss MacDonald serviu a vingança quente. Quando Lubitsch chegou à sua cadeira, o nome, Mr. Lubitsch, estava ligeiramente alterado. Em letras mínimas, lia-se Mr. Lu e depois, separada, em maiúsculas, a palavra BITSCH.

Lu foi como ela o passou a chamar. Mesmo no dia em que no camarim ele a provocou: «É verdade que és virgem?» «Quem quer provar o contrário?» desafiou-o ela. Ele encolheu-se e ela: «E a tua mulher, era virgem quando casaste com ela?»

Ficaram unha com carne e faziam vítimas. Um dia, num jantar em casa de Lubitsch, veio Greta Garbo. O realizador apresentou-a. «Como é o nome?» gritou Jeannette, do outro lado da mesa, fingindo-se surda. «Garbo», berrou Lubitsch. «Oh, Garvin», disse ela, deixando a diva sueca de boca aberta. Mesmo assim, Garbo foi educada: «Prazer em conhecê-la, como tem passado?» «Oh, adoro ir ao mercado», respondeu Jeannette. «Eu disse passado», corrigiu-a a Garbo. Já Jeannete olhava espantada para o prato: «Assado? Pensava que era grelhado». Lubitsch apontou discretamente para a orelha e Garbo disse-lhe em surdina: «Pobre mulher, como é que ela consegue cantar, se não ouve.» Para germânico delírio de Lubitsch, do lado de lá da mesa, Jeannette, com rasgado sorriso, murmurou também: «Bom é assim, vou abrindo a boca…» Greta Garbo nunca lhe perdoou.

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O sexo e o empurrão

Estão no Nimas e são filmes franceses. Os organizadores chamaram ao ciclo «Os Grandes Mestres» e balizaram-no com datas, a do Big Bang e a do Apocalipse, perdão, 1930, simbólica explosão do sonoro, e 1960, já a nouvelle vague fragmentava os hábitos narrativos e excluía do cinema o que a nova França ia excluindo da vida, a saber: a ingenuidade do quartier popular, a graça nonchalant do vígaro, os sonhos de ascensão social da costureira ou da criada, a sincera admiração da pequeno-burguesinha pelo descapotável novinho em folha com que um sedutor a tenta, o apetite inter-classista por uma sexualidade consentida, mas um bocadinho empurrada, como se, tal qual se engraxam sapatos, todos andassem, de escova e lubricidade, a puxar erótico brilho ao quotidiano.

Ia dizer que nunca mais o cinema francês voltou a ser genuíno, não fora ter eu aprendido com James Bond que nunca se diz nunca, isto para não dizer que também não me rendo à ideia de identidade, tantos eram já os sinais americanos que rasgavam os filmes franceses do pós-guerra. Aliás, essa admiração e mimesis foi afirmada e exaltada pelos corrécios da nouvelle vague que, mais do que ninguém, souberam estarrecer-se com a sublime virtude artística que o cinema americano conseguia inscrever no grau zero da mais simples narrativa, mesmo se nunca eles próprios conseguiram aproximar-se ou repetir esse milagre de haver Matisse e Piero della Francesca nos traços desencantados do rosto de um Gary Cooper e no escarpado horizonte de um western de Anthony Mann, sem que o western deixasse de ser um western.

Um dos filmes que o Nimas mostra é “Elena et les Hommes”. Dessa Elena disse Jean Renoir, seu criador, que era Vénus. Não estou certo de que os traços vulneráveis e manipuladores da Ingrid Bergman que é Elena, tenham sido desenhados por Botticelli. Mas na festa do 14 de Julho, reminiscência do quartier e do seu povo, Renoir encena tudo com mancha de Cézanne.

Na aparência, nenhum filme poderia ser menos representativo do cinema francês do pós-guerra. Tudo é, porém, francês: o povo que dança, o vinho, a erotizada sedução com que Elena esfrega cada um dos seus homens, pedindo que a beijem, dobrem, empurrem um bocadinho, para logo ela os desempurrar com a ironia e ligeireza que são a bandeira de França. Vamos ao Nimas?

Cézanne, claro

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A Guerra Fria em seis filmes

Agora que se fala da Paz Quente, apetece-me lembrar a Guerra Fria. Convidaram-me, aliás, a escolher seis filmes que lhe fizessem o retrato.  Tinha 800 caracteres com espaços para apresentar cada um dos que escolhesse. Escolhi estes:

The Thing (1951)

É o filme de um monstro que ameaça a humanidade. Mas donde vem essa “coisa”? Os anos 50 foram, na América, uma década de histeria colectiva. E tinham medo de quê, os americanos? Dos monstros do espaço ou dos prosaicos monstros comunistas vizinhos? “The Thing” é um dos primeiros filmes de ficção científica a dizer nas entrelinhas o verdadeiro medo da década, o medo da escalada da Guerra Fria.

O alien de “The Thing” é um monstro agressivo. Legitima assim, o ataque de um grupo de militares. A acção heróica deles não esconde uma viva desconfiança perante a ciência que tenta compreender o monstro. O apelo final do filme é um grito ineludível de propaganda anti-soviética: “Gritem ao mundo. Avisem toda a gente. Vigiem os céus em todo o lado. Vigiem sempre. Não deixem de vigiar os céus!”

North by Northwest
(Alfred Hitchcock, 1959)

Ninguém tratou a Guerra Fria com tão fina elegância como Alfred Hitchcock. Em “North by Northwest” é com delicadas luvas e imparável ironia que Hitchcock filma o imbróglio do monumental equívoco em que um inocente e nonchalant Cary Grant se vê envolvido por uma teia de espiões russos. Querem roubar da América um valioso, secreto e perigosíssimo microfilme que, ou Hitchcock não fosse Hitchcock, nunca saberemos o que continha.

Estava-se em plena corrida espacial, com os soviéticos em vantagem, e Hitchcock concebe espiões russos sofisticados, capazes de se mover nos ambientes mais sofisticados ou de assassinar um diplomata em plena ONU, sem deixar rasto. É a antítese da figuração ameaçadora que os filmes de ficção científica tinham oferecido desde 1951. A Guerra Fria entrava noutra fase.

One, Two, Three
(Billy Wilder, 1961)

Castigado por meter a pata na poça no Médio Oriente, James Cagney, na pele de executivo da Coca-Cola, é mandado a Berlim negociar um acordo que introduza a excelsa bebida americana na URSS. Secretaria-o uma adorável loira de 17 anos, filha do patrão, que às escondidas se casa com um jovem comunista de Berlim Leste.

Billy Wilder revisita alguns temas do argumento que escrevera para “Ninotchka”, de Lubitsch, nos anos 30, com gags arrancados aos choques ideológicos e comportamentais entre comunismo e capitalismo. A realidade atropelou-o: estava a filmar quando o Muro de Berlim foi construído, obrigando a equipa a mudar-se para Munique.

A velocidade dos gags é fabulosa: com misseis, tecnologia, corrida espacial, colonialismo, espiões e coca-cola não há cortina de ferro que aguente.

Dr. Strangelove or:
How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb
(Stanely Kubrick, 1963)

O título! Que trepidante montanha russa é o longo título original. “Dr. Strangelove” é um filme inclinado a mascarar em sátira o seu realismo obsessivo. Basta ver os seus aviões B-52, cuja tecnologia era, então, assunto de segurança nacional.

Kubrick filmou já depois de ter secado o cimento do Muro de Berlim (1961) e estando ainda frescas as cólicas que os misseis de Cuba causaram aos intestinos do mundo.

Estaria ao alcance de um lunático com poder largar a bomba? Estava. Os poderes americanos riram-se a ver o filme, mas foram a correr tapar os buracos que o sistema tinha.

“A minha mão faz coisas que eu não quero fazer” é talvez o resumo justo da desbragada demência de peripécias e personagens que no filme veneram o pesadelo nuclear. A mão voltou a andar por aí e não há Kubrick para nos fazer rir.

From Russia With Love
(1963, Terrence Young)

O inefável 007 foi o herói da Guerra Fria. Venceu-a com fantasia, humor e a mais capciosa tecnologia. Também com a contribuição dos seus inescapáveis dry-martinis “shaken, not stirred”, de alguns admiráveis biquínis e ao volante de um Aston Martin.

Este foi o segundo 007, e a produção, sabendo que, dos livros de Ian Fleming, o favorito do presidente Kennedy era “From Russia With Love”, escolheu-o: prémio ao vencedor da Crise dos Misseis.

SPECTRE, a organização criminosa que 007 enfrenta, era a disfarçada cópia da agência de espionagem soviética. Bond, James Bond ensinou o Ocidente a ganhar a guerra: com prazer, sentido de humor, cama, bons fatos, tecnologia mais esperta e até risonha. Pode discutir-se se 007 está do lado do Bem, mas é indubitável que o seu lado é o lado do bem-estar.

A Boy and His Dog
(L. Q. Jones, 1975)

Da barriga da Guerra Fria nasceu um novo género: os apocalípticos filmes pós-nucleares. Podia escolher-se “Five”, ou o “On The Beach”, por causa de Ava Gardner, até mesmo um dos “Planeta dos Macacos”. Prevalece a irreverência de “A Boy and His Dog”, filmado depois de russos e americanos assinarem o tratado de redução de armas nucleares.

Um rapaz e um cão sobrevivem à IV Guerra Mundial. Prodígio: o cão fala com o rapaz por telepatia. O rapaz procura comida; em troca, o cão fareja raparigas que o rapaz viola. É um mundo devastado e bárbaro. À superfície, tudo é necrófago e a fome impera. Nos subterrâneos, em biosfera artificial, há um mundo puritano de privilegiados. Com um problema: sem sémen, os homens são incapazes de reprodução. O rapaz vai ser útil. Assustadoramente útil, descobrirá depois.

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Eh touro lindo, touro preto, eh!

Ricardo Robles lailailai abaixo a especulação imobiliária e dona Bina e coiso, e vá, quase seis milhões se alguém fosse maluco de ir comprar. Catarina Martins e ai que não pode ser, bebés feios e capitalistas, e vá alojamento local e com dinheiro da QREN. Só falta descobrirmos que o deputado do PAN pertence aos Forcados Amadores de Santarém.

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Isto não é um prato de búzios

Ainda há pouco falei aqui de Elias dia Kimuezo. Aliás, num post em que ele veio cá cantar e tudo. Mas já tinha escrito, em Janeiro, esta crónica para a falecida revista Epicur. Trago-a agora aqui, à crónica, tiradinha do caixão. Um conselho: vai melhor com um prato de búzios e um fino inteligentemente gelado.
E há outra razão para eu vir aqui rasgar, noite fora. Não é que hoje, dez ou onze anos de ausências e desencontros em cima, nos voltámos a juntar, Abílio, Simão e eu, os três da vida airada desta crónica. Peço então que tenham a paciência de a ler.

Isto não é um prato de búzios
Manuel S. Fonseca

Não é Magritte quem quer, mas posso jurar-vos: um prato de búzios não é um prato de búzios. Aliás, só houve, em toda a história de humanidade, um prato de búzios. Comi esse prato de búzios em 1971, em Luanda.

Era a primeira vez que comia. Reparem, não é que alguma vez tenha passado fome. Fui alimentado por pais carinhosos que, à confiança, me deixavam sair à noite, desde os 15 anos, com dois amigos mais velhos, o Abílio e o Simão. Eu era a boca que eles levavam, a quem davam um fino gelado no Polana. Tinha é de mastigar um prego no prato, ou uma fatia de pão e presunto aquecidos no voracíssimo Baleizão. Eu era, portanto, alimentado em regime doméstico e em regime ambulatório. E era alimentado graciosamente. Tinha 17 anos e nunca pagara um angolar, cinquenta centavos que fosse, por uma travessa de camarões, uma perna de churrasco, o desfastio de um feijão com óleo de palma polvilhado a farinha de mandioca.

Naqueles tempos de guerra colonial, o Abílio era um refractário, o Simão um comando, isto para dizer as coisas de modo ameno, sem entrar em pormenores. Eles eram os melhores amigos e o que interessa é que me amavam como se eu fosse o maninho mais novo. Íamos de Volkswagen preto, de tasca luandina em tasca luandina. Bebíamos filosóficos copos de cerveja mais gelados do que o Pólo Norte, mais gelados mesmo do que duas páginas de Schopenhauer, se me perdoam a trivialidade.

A entrar eramos eclécticos: tanto entrávamos onde se cantasse o fado, como onde se dançasse um tangível e escrupuloso merengue. Tenho de confessar que uma noite me sentei inesquecivelmente. Jamais alguém se sentou como me sentei, quando me sentei ao lado de Elias diá Kimuezo, o cantor da pungente canção que é Ressurreição. Se quisesse poderia descrever cada nervura do tampo da cadeira, a textura das calças pretas de terylene, a forma como o meu rabo, sem que eu lhe pudesse dar ordens, se deixou ficar meio suspenso, incapaz de se afundar na inútil cadeira. Elias era a voz, a formidável solidão da canção quimbunda nos ouvidos de um branco. Diá Kimuezo tinha um fino na mão, eu outro; falou comigo e era o mesmo único e indivisível fino que bebíamos às três da manhã, num bar da estrada de Catete.

Mas volto a meter a mão onde tenho de a meter: não gastei um angolar, cinquenta centavos que fosse. O Abílio e o Simão, com uma fraternidade bêbada, pagavam tudo, os bilhetes no estádio dos Coqueiros, a ululante liberdade das praias da Ilha, copos e copos, a educação do infante – a minha.

Aos 17 anos, de bandeira, como se fosse um glorioso ponta de lança, cai-me no pé o emprego absoluto. Das 7 à uma, num hospital, com não sei quantas fisioterapeutas e um salário de brinca na areia. O primeiro que recebi – ó Luanda de um raio – convidei os meus dois irmãos mais velhos e, do nada, como um big bang, na sofisticada cervejaria Amazonas, nasceu e proliferou o prato de búzios. Paguei. Ah, que bonito o dinheiro cristalino, a moeda tilintante. E era o único prato de búzios da história da humanidade. Nunca mais nenhum me saberá tanto a liberdade, amor e mar.

ps – Hoje, o Simão contou-me que o Elias se esqueceu de um casaco estiloso no carro e durante dias andou à procura dele para lho devolver. Tal como o admirável O.C. Marx ainda há dias me lembrava que o Elias cantava no Kussunguila, buáte da Ilha, com pista de dança ao meio onde ainda evoluí em bailarinos passos e passes mágicos, todo armadinho de adolescência concupiscente. 

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eclipse

A passagem do Deus fugitivo

                                                        entre a casa do poeta

                                                                                                        e da linguagem

maravilha

fugaz clarão

(leva me para outro mundo
os bolsos cheios de cinzas)

 

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Em louvor do Panteão

Já me disseram que bem podemos meter o cânone de Harold Bloom no sítio que todos sabem. Virá uma tarde, àquela melancólica hora em que tomba lento no horizonte o crepúsculo dos deuses, e alguém me dirá que posso também meter no mesmo sítio os velhos filmes de Ford, a começar pelo “The Searchers”, os velhos Lubitsch, a acabar na “Ninotchka”, os velhos Hitchcock, começando e acabando no “North by Northwest”.

E Jesus me valha se eu em verdade, em verdade não vos disser, que anda alguma gentinha a confundir o cu com as calças. A confusão é velha, tem mudado muito de calças, mas pouco de cu. Os maiúsculos Grandes Livros e Grandes Filmes já não são a fonte de conhecimento necessária para este tempo, dizem. Quando eu, em Luanda, vinha a pé do Liceu Salvador Correia até casa, os quedes brancos enfiados em areais cor de acácias, já havia uns velhos corvos a crocitar a morte do saber burguês. Anunciavam o homem novo, com filosofia dicotómica e vermelha. Era uma filosofia sedutora, na sua simplicidade de bons e maus, mas mesmo quando andei de punhinho no ar e pequeno livro a substituir-me o bilhar de bolso, houve sempre um ponto inegociável: os velhos livros e filmes eram o panteão vivo a que sempre voltava.

A confusão crítica era e é a de reduzir esses grandes livros e filmes a repositórios ideológicos ou filosóficos. Ora, o cu marxizante, neo-realista, que assim os criticava, voltou agora na forma de cu ressentido, de género, etnicizante. Reduz tudo, cu e calças, a um saber ideológico, teórico-político. Escapa-lhe a humaníssima experiência estética: a ideologia nunca soube o que fazer com a ficção, com a indisciplina da emoção.

Os livros que Bloom elegeu, os filmes de Ford, Hawks, Renoir, Ozu, Dreyer, não são filosofia. São prodigiosos trabalhos de imaginação que geram emoções. Oferecem-nos acções e sentimentos que acordam em nós um músculo adormecido e rimam com as nossas vidas. Alguém nos terá amado da forma clandestina como a cunhada ama John Wayne, em “The Searchers”. Um dia partiremos, como Wayne, e enquanto desaparecemos no deserto que nos engole, uma porta há-de fechar-se, e nessa casa ficarão os que amámos e nos amaram, um velho casaco militar, a mesa a que não voltaremos. Não há cu ideológico que substitua tanta pena, saudade e dor.

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Muito antes pelo contrário

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Árvore de Vida

ÁRVORE DE VIDA

e nem é que não ame, amo, as virtudes
naturais ou de civilização, e as fragilidades, suas irmãs,
mas do inferno sonhar o nosso maior sonho,
o melhor sonho, é uma respiração funda, claríssima,
que nenhum abismo colhe, ali quando, entre camadas
de nada, nada, nada,
se chama à existência o que nunca foi –
e isto de crucificar a razão à verdade,
faz cair demónios e lança estrelas ao céu da manhã.
O hierofante és tu
quando, sem pompa sem adornos sem poder,
és um e pões a mesa para dois,
e sorris ao lugar ainda vazio,
árvore inequívoca, és tu,
e hão-de existir pássaros só para pousar
na vida dos teus ramos.

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Adeus, Jorge

O meu amigo Jorge Adib partiu. Foi um dos grandes directores da Rede Globo, muito mais próximo do velho Roberto Marinho, o fundador, do que se possa imaginar. E pouco me interessa o poder e influência que o meu amigo Jorge possa ter tido. Interessa-me a amizade que, de 1992 até hoje, ele me ensinou a cultivar. Conhecemo-nos em Las Vegas, no meu primeiro Natpe, era eu um aprendiz borra botas. E ele tratou-me como se eu fosse o pequeno príncipe perdido no deserto, com humor, com paradoxos, fazendo o que Saint Exupéry ensina que se deve fazer, cativando-me.

Saí da televisão há 13 anos. E não havia Natal em que, do Rio, da Esplanada Grill ou de casa, o Jorge não me telefonasse, sem outro interesse que não fosse a gentileza de me dizer que se lembrava de mim e que queria saber. De mim, da Antónia que conheceu numa das primeiras festas de aniversário da SIC, da minha filha.

Com ele aprendi tudo. Conheci muitos executivos americanos, franceses, italianos, espanhóis. Profissionais competentíssimos, de alto nível. Mas não conheci ninguém que soubesse tanto e que tanto estivesse pronto a  partilhar como o Jorge. Sabia tudo da televisão americana, brasileira e portuguesa. Poucas pessoa conheceram tão bem a televisão portuguesa, na sua transição do monopólio estatal para a televisão privada como Jorge Adib.

Partilhámos almoços, jantares, espectáculos. Até os programas que eu produzi, queria ver (e isso, querido Jorge, é mesmo insofismável prova de muito amor). Com ele e com a Marise Caetano, queridíssima amiga, vivi experiências únicas.  O que eu gostava de lhe ter dado um valente e último abraço. Dou agora, Jorge, com amor de amigo.

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A natureza é um vício: na cozinha do Eleven

Para grande desgosto meu, a Epicur, a revista dos meus amigos Mário Rui de Castro e Pedro Marta Santos, despediu-se dos leitores. Este foi o meu antepenúltimo artigo. Escrevi-o na cozinha do Eleven, ali no topo do Parque Eduardo VII.

A Epicur era quase uma revista Escrever é Triste. Basta lembrar que também lá escrevia a Eugénia de Vasconcellos. Com o Pedro e comigo, éramos três aqui da casa. E estava cada vez mais bonita, o raio da revista. 

A natureza é um vício: na cozinha do Eleven
Manuel S. Fonseca

Estou em pé, no meio da cozinha do Eleven, e levo à boca uma estrela Michelin. É uma simples sopa de cenoura, telúrica base camponesa a que uma via láctea de estilhaços de mexilhões confere um sabor de costa galega. Podíamos ficar por aqui, se um toque de gengibre não viesse abrir-me no palato a ferida memória africana, que a ternura do calamansi, essa doce e oblonga lima das Filipinas, logo acalma. Podia ser um simples prato de sopa, mas a cada colher deste creme de cenoura o meu palato experimenta a mesma serena alegria que invade os meus ouvidos quanto se deixam levar pelo My Favourite Things, de John Coltrane.

E se invoquei a música de Coltrane para o nostálgico e cosmopolita creme de cenoura com mexilhões, para falar da cozinha do restaurante Eleven tenho de invocar o santo nome de Duke Ellington, e da orquestra que o vi dirigir na Cascais Jazz de 1973. A brigada de uma dúzia de profissionais, que o chef Joachim Koerper comanda e inspira, funciona com a mesma serena agitação e disciplina que vi o encantatório Duke transmitir à sua orquestra. A harmonia do conjunto não impede o improviso e o solo de cada um: cozinha e jazz fundem-se.

Os olhos azuis de Joachim Koerper

O chef Koerper é inegavelmente alemão. O que nos obriga, sobretudo quando olhamos para a alegria infantil dos seus olhos azuis, a deixar cair a nossa preconceituosa ideia de rigidez germânica. O espaço físico da cozinha do Eleven foi muito bem desenhado, numa geometria de rigorosas fronteiras, mas quando chega o momento da acção triunfa um caos controlado e criativo. É uma aparente anarquia e julgo que, como Duke Ellington, Joachim Koerper só a estimula para que se evidencie ainda mais o seu conforto. Está ali, como se nunca dali tivesse saído, como se ali tivesse nascido.

Joachim nasceu em Saarbrücken, na Alemanha, a um passo da fronteira com a França. Com pena minha, negou que tivesse nascido numa cozinha. Mas foi na cozinha materna, aos domingos, que ganhou os primeiros pfennigs: ajudava a mãe a lavar a louça para, com os trocos, ir ao cinema. O pai e a mãe trabalhavam fora e, nesses anos 50 de redenção adenaueriana da pátria alemã, ir ao restaurante era um recurso diário. Joachim ganhou o hábito e o gosto, mas a primeira vez que cozinhou foi por obrigação. Mudaram-se para uma enorme quinta fora da cidade e o pai comprou animais, galinhas, pombos, uma vaca para dar leite, com que faziam manteiga caseira, e tinham mesmo um burro e um pónei. Agora imaginem a excitação do miúdo Joachim: o pai deixava-o acampar sozinho na quinta para cuidar da bicharada à solta. Levava consigo um camping-gás e foi nesse fogareiro que o chef de estrelas Michelin que agora é, cozinhou a sua primeira refeição, aos 8 ou 9 anos: uns sápidos ovos estrelados. À medida que os ovos estrelados melhoravam, conquistando a admiração da família, as notas escolares de Joachim iam baixando, por obra e graça da liberdade selvagem da quinta e do futebol: «não estudava, não estudava», confessa agora. Sem notas que lhe permitissem aspirar a ser médico ou engenheiro, mas já com invejável técnica para os ovos – «adoro ovos ainda hoje», jura o chef – fez uma visita de três dias a uma escola local de cozinha. Joachim entrou em êxtase e, sem que ainda o soubesse, nesse ano de 1966, estava a nascer a cozinha do Eleven.

Tal como os céus um dia estiveram sobre os ombros de Hércules, a sala do Eleven está assente nos ombros do Parque Eduardo VII e tem uma soberba vista sobre o mais belo rio do mundo – talvez seja mentira, mas deixo-vos o ónus do contraditório. Quem esteja sentado na elegância dessa sala, rodeado de pintura que parece saída de um museu de arte antiga, não imagina que a cozinha, de onde lhe chegam as regaladíssimas iguarias, esteja povoada de rapazes e raparigas com pouco mais idade do que a do chef Joachim quando foi fazer o seu curso de três anos num hotel sobre o lago Constança. Há portugueses e brasileiros, moçambicanos, colombianos e mesmo uma estagiária turca, de Istambul. O sub-chef, Marco Nascimento, curva dos trinta acabada de fazer, é quase terceira-idade ao pé dos outros. Vem todos os dias de Castanheira do Ribatejo e encara a cozinha como um campo de saber. Lê com a paixão de um Eduardo Lourenço e estuda com o afinco de um António Damásio; orgulha-se desta equipa e foi ele que louvou a participação do seu entremétier, Pedro Larcher, no concurso de S. Pellegrino, onde foi semi-finalista. Larcher está agora aqui, à direita do sub-chef, numa das bancadas da cozinha, mãos na massa, a preparar um knoedel de chouriço, clandestino encontro de massa de pão alemão com enchidos alentejanos, numa elástica harmonia de fazer inveja à Autoeuropa, se quiséssemos politizar esta reportagem.

O Parque Eduardo VII vai ser uma horta

Mas quero voltar ao ovo estrelado que mudou a vida de Joachim Koerper. Se bem se lembram, a galinha que o pôs era uma galinha da família e ficou, em frente a Joachim, a vê-lo cozinhar. Não há galinhas a andar por cima das bancadas da cozinha do Eleven, mas é só o que falta. O chef e os seus doze meninos e meninas são viciados – estão “agarrados”, acuso – em produtos naturais e frescos. A cozinha do Eleven começa fora do Eleven, em compras e encomendas de matérias-primas que tresandem a natureza, e não me admirava que um destes dias convertam o Parque Eduardo VII em horta, pomar e quinta.

Os meninos de Koerper, a garde manger, a carioca Natália Alves, com o seu assistente moçambicano Diogo, o saucier colombiano Mario Perdomo, a patisseur Patricia Godinho e a assistente Ana Canhoto, o ajudante Rodrigo Madeira e os estagiários Daniel Fortes e a Iulia de Istambul, sabem tudo de botânica, de ervas e nozes, de frutas e legumes, shiso, calamansi e rábano. Foi o chef que lhes meteu a adição. E atrevo-me a dizer que o chef exagera: a sopa de pedra que, num desarrincanço mágico, vai à mesa num daqueles balões de fazer café, leva até uma pedra lisa: eu ia jurar que é, ainda e sempre, a mesma pedra que há séculos usou o frade que a inventou.

Nem foi preciso o chef atirar a primeira pedra e já se levantava na cozinha um cheiro de paixão: o perfume do maracujá inundou aqueles 60 metros quadrados. Virei os olhos para a área da pastelaria, mas o chef corrigiu-me: se rescendia a paixão, a culpa era do lavagante, que se preparava para ir à mesa, com beterraba em texturas, mas coroado a cacau e maracujá.

Se Nossa Senhora era cheia de graça e bendita entre as mulheres, como a Avé-Maria atesta, o palato de um chef é, pensei eu, cheio de imaginação e bendito entre os homens. O chef, que já ali atrás me tinha corrigido o olhar, corrigiu-me agora o pensamento. O que comanda a criatividade de um chef não é o palato, é a cabeça, explicou-me. A cozinha é uma actividade científico-filosófica, expressão de livre associação e puro pensamento – esse que nenhum machado há-de cortar – e de uma conceptualização que, arrisco eu, ombreia com o dever moral do optimismo de Kant e vence o pessimismo de Schopenhauer. O palato pode e deve provar a combinação de lavagante e maracujá, mas foi sem prova ainda que a cabeça a imaginou e só esta nossa cabeça humana seria capaz de assim a imaginar. O palato é apenas uma ferramenta, a mesma ferramenta que num laboratório são os tubos de ensaio, a proveta ou o bico de Bunsen.

Um garfo cravado nas costas

Era assim antes, laboratorial, uma cozinha? O chef confirma-me que a cozinha mudou muito. Não era nada disto a cozinha do hotel de Berlim, com uma brigada de 40 pessoas, a que chegou, em 1969, com o seu diploma de cozinheiro. Mudaram os apetrechos, os fornos – as meninas e os meninos de Joachim trabalham quase com pinças, parecem cirurgiões. E mudaram os métodos: Joachim lembra-se de estar, em Berlim, a assar 14 frangos – «houve um boom do frango nos anos 60», ri-se – e de espetar, pecado capital, o garfo no peito de um dos tenros galináceos. «O chef estava ao meu lado e cravou o garfo dele nas minhas costas. Hoje não se pode fazer isso. Mas nunca mais me esqueci e fiquei amigo desse chef

O sofrimento da aprendizagem, a obsessão da pesquisa e a ousadia da inovação têm um único propósito: tirar prazer do prazer que se oferece aos outros. E rectifico como se estivesse a rectificar drasticamente um Orçamento Geral de Estado: Joachim Koerper, como os outros chefs de estrelas Michelin, quer oferecer prazeres sublimes aos seus comensais, texturados prazeres perversos sobre cama fetichista. O prazer perverso do chef Koerper podia ser as trufas, pretas e brancas, que o hão-de acompanhar para a eternidade. Mas não, o fetiche dele é o menu de lavagante. Tanto o combina com a sopa da pedra, como o junta a beterraba e maracujá. Também o faz acompanhar por um singelo molho de citrinos, ou, num luxo absurdo que roça o obsceno, sobre espinafres e shiso, o lavagante de Joachim alia-se a um troika de ostras, caviar e champanhe. Um descaramento ou despautério de sabores para bocas epicuristas, que é também, a meu ver, uma receita para a Europa que Angela Merkel e Emmanuel Macron sonham criar: o mais lídimo deleite consegue-se quando se junta a delícia natural dos países do sul à mais prístina técnica dos países do norte.

A cozinha do Eleven é a conjugação desses mundos. O clic, o «também quero fazer isto» – esse ousar cozinhar, ousar surpreender, que podia ser o lema de Koerper – aconteceu-lhe na Côte d’Azur, no mediterrânico Moulin de Mougins, três estrelas Michelin, onde o dirigiu o chef Roger Vergé.

A par das duas estrelas Michelin do restaurante Girassol, em Espanha, e das estrelas no Eleven, em Lisboa e no Rio, o orgulho de Koerper é a medalha de ouro individual, que arrebatou nas Olimpíadas de Culinária, de Frankfurt. Conta que foi uma tarefa homérica, três dias e três noites de um cozinheiro sozinho e sem sono. É essa imparável agitação que anima a cozinha do Eleven. Vejamos: um prato vem, vaidosíssimo e vazio, para a bancada do empratamento. Toda a brigada de cozinha lhe virá fazer vénia e protestar devoção. Um traz o knoedel de chouriço, quase uma miga que o sub-chef selou na frigideira e o rotisseur levou ao forno; outro traz a posta maior de bacalhau, outro a posta mais pequena; outro os delicadíssimos legumes verdes que o enfeitam, outro um sofisticado molho e por fim, o último fecha tudo com um fio de azeite que mais parece um silencioso colar de pérolas a cair no prato.

Comecei com jazz, acabo numa derivação lógico-filosófica: a cozinha do Eleven mostra-nos que já não existe “o prato unitário, o prato uno e indivisível”. O que há é um prato soma de múltiplas partes, uma arte combinatória que obedece ao axioma 8 da Dissertação da Arte das Combinações, escrito por Leibniz em 1666: «Todo e qualquer corpo tem um número infinito de partes; ou, como é comum dizer-se, é divisível infinitamente.» A cozinha do Eleven, infinita delícia dos olhos e do palato, é filosoficamente leibniziana, ou não fosse o chef um génio alemão.

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Me Tarzan, you Jane

Cortesias de selva

A ver se nos entendemos

A pedestre agramaticalidade de “Me Tarzan, you Jane” nunca foi dita por Johnny Weissmuller nesses pequenos ensaios fílmicos hollywoodianos que projectaram de liana em liana a filosofia de Jean Jacques Rousseau. Com uma cortesia de selva, Johnny bate no peito e diz apenas “Tarzan”, depois, à Wittgenstein, aponta o dedo para Maureen O’ Sullivan e diz “Jane”. Estamos apresentados.

Desenganem-se, podem ver “Casablanca” de trás para a frente, fazer o pino até, mas nunca ouvirão da boca sueca de Ingrid Bergman a mítica réplica “Play it again, Sam”. Não é que ela não peça música, mas o inglês que o argumentista lhe pôs nos singulares lábios pré-Ikea é bem mais sofisticado: “Play it once, Sam, for old times sake.”

E nem queiram saber o que o acaso faz pelos filmes. A frase «Vocês ainda não ouviram nada!», emblema de “Jazz Sin­ger”, pri­meiro filme sonoro, disse-a Al Jol­son a experi­men­tar os micro­fo­nes, sem saber que esta­vam a gra­var. Era uma profecia, perceberam todos. E a frase ficou no filme.

«I Want to Be Alone», esse “quero ficar sozinha”, roucamente anunciado por Greta Garbo, converteu-se na perfeita expres­são da ina­ces­si­bi­li­dade da primeira de todas as suecas. A réplica per­se­guiu a actriz, em múl­ti­plas vari­an­tes, desde o «I am walking alone because I want to be alone», inter­tí­tulo de um dos seus últi­mos fil­mes mudos, até às segundas inten­ções do «Vai para a cama, paizinho, nós queremos ficar sozinhos” com que, camarada comunista, em “Ninotchka”, alivia das obrigações laborais um velho mordomo, perguntando antes ao atroz capitalista que a está a tentar seduzir e por certo explora o pobre homem, “Você chicoteia-o?”, vigorosa acusação sindical que poria um toque freudiano no actual argumentário de um Arménio Carlos.

Em “La Fête à Hen­ri­ette”, a bela Hil­de­gard Knef generosamente estendida numa chaise longue, deixa correr a voz entre a sugestão e a elipse, jogando à gata e ao rato, com um homem em ânsias. Ela pergunta: “Em que está a pensar?” “Em que penso?” espanta-se ele.
“- Sim. Quer que lhe diga? Está a pensar no que eu estou a pensar?
– No que você está a pensar?
– Exac­ta­mente. E penso que se está a pensar que penso o que você pensa, não estamos longe de nos entendermos.”

Era para isto, para nos entendermos, que em tempos se fazia cinema.

Um princípio de entendimento

Publicado no Expresso

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