We will always have Miami

O Zé, com uma generosidade sem limites, meteu-se na maior empreitada de sempre. Resolveu dar graças aos cinquenta anos da sua vida cheia organizando uma visita à eternidade. Para o acompanhar, convidou os amigos. Amigos de sangue e de pele, do coração ou da razão, da infância e adolescência, do mar ou da terra, e de todas as escolas que frequentou, a da vida incluída. Tive a felicidade, há mais ou menos quarenta anos, de ter deixado o Zé copiar os meus trabalhos de casa. Começou numa manhã, ainda nos saudavelmente irresponsáveis anos 70, e, a partir daí, tornou-se um hábito: o hábito do copianço do Zé na meia-hora que antecedia o início das aulas e o hábito da amizade que, à conta disso, nasceu. Escusado será dizer que, de tanto aprimorar a arte do copianço – a coisa chegou ao ponto de ter inventado um artifício absolutamente infalível para esses propósitos, que batizou de “fisga-cábula”, ainda hoje usado nos mais prestigiados estabelecimentos de ensino por esse mundo fora -, o descarado do Zé aprendeu muito mais da vida do que aqueles que, como eu, sempre hesitaram em transgredir. Tanto aprendeu que decidiu dar aos amigos uma lição de como a vida deve ser vivida e celebrada. Fez suas as palavras de Drummond, essa coisa de fixar a eternidade em “tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata”, e levou-nos com ele para terras longínquas, dessas onde o tempo se suspende, onde, num genial truque de prestidigitação digno da já velha capacidade inventiva revelada com a “fisga-cábula”, nos pôs, a todos, e contei 38 com ele, a trocar juras de amor e pactos de sangue para selar esse momento único em que nos apresentou o mais indecifrável mistério da vida. Que mistério é esse, ficámos a sabê-lo aí, e conosco ficará para sempre. Talvez até já o conhecêssemos, mas essa é uma das caraterísticas do “eterno” de Drummond, o de nos fazer crer que a fração de segundo que dura é irrepetível. Certo é que, sem o Zé, nada disto teria sido possível. Foi Miami, foi South Beach, foi Little Havana, foi Wynwood, foi Delano (sorry, lapsus linguae, escapou-me o Delano em vez do Pestana).  Concedo que, tivesse sido Lisboa, Caparica, Cais do Sodré, Xabregas ou mesmo o Pestana Carlton (agora, sim), o truque de ilusionismo talvez não tivesse funcionado. Mas até por aí se viu a arte do Zé. Levar-nos para paragens onde o tempo não corre, onde não há relógio nem smartphone, para, longe de olhares terceiros, nos permitir, sob o seu alto patrocínio, um reencontro com aquilo que de mais precioso levamos desta vida – vai dar tudo dar ao tal mistério indecifrável de que já vos falei e mais não posso dizer.

Termino com uma advertência: estas revelações dos mistérios da vida podem conduzir a estados momentâneos da mais completa irracionalidade. No meu caso particular, há quem diga que me viu, numa vistosa embarcação ali pelas baías de Miami, a dançar Coldplay, que, como é do conhecimento público, é “só” a banda mais foleira do universo. Talvez seja o tal preço a pagar pela epifania a que a iluminada orientação do Zé nos conduziu. Pouco importa: desde que essa tua luz, amigo Zé, nos continue a guiar até ao fim das nossas terrenas existências, que venham todos os Coldplays da vida.

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Thank God we can’t tell the future. We’d never get out of bed.

Um dos grandes problemas da escrita, quero dizer, para quem escreve, é a puta da verdade. A verdade ela própria, sem factos alternativos nem pós coisa alguma, sequer pózinhos dourados. O problema da verdade na escrita, para quem escreve, é que só se pode dizê-la assim verdadeira na ficção. Mas a ficção tem o tempo dela e está-se bem lixando para o nosso horário – outra verdade, é que nem sempre se pode escrever ficção, e quem escreve não se pode perder em páginas com estados de alma e outras merdas do género.

Não fui eu quem disse, o coração, se pudesse pensar, pararia.

O melhor para quem escreve é não escrever e fechar a boca enquanto a ficção futura se pensa a si mesma dentro de si. É isso o que fazemos: ficamos quietos, fechamos a boca e esperamos. É isso o que fazemos quando sonhamos fazer alguma coisa de jeito enquanto o coração bate. E o tentamos. Se o conseguimos ou não, é outra conversa.

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Pelas iscas marchai, marchai.

A exceção que confirma a minha regra

Tenho uma sinistra confissão a fazer. Não gosto de chefs. Não é que adore chefes mas o meu problema são mesmo os chefs. Daqueles com estrela. O que é que querem? Cada um tem direito às suas esquisitices. Eu não gosto de moules invertidas nas sua espuma agri-doce. Nem de tempestades de caramelo flambé. Não gosto de leitão revisitado nem de trilogias de qualquer tipo. Ah! E não sei o que são rutabaga, canónigos, acelgas ou cherivia. É tudo coisa para ser muita bom mas eu tenho um fraquinho por iscas.

Não gosto de restaurantes sem carta ou com menus líricos. Fim de tarde mediterrânico, passeio pelo floresta negra, hors d’oeuvres da quinta, sinfonia algarvia. Quando era mais moço, a caminho do Liceu Francês, era grande apreciador dos mini pratos da pastelaria Docelindo onde comia de pé.

Não gosto que demorem mais tempo a explicar-me o que me vão servir do que eu levo a comer três croquetes gordurosos. E não troco um empregado com uma nódoa no avental por um tipo vestido de cangalheiro a esforçar-se por falar um francês manhoso. O João que eu cá sei, sabia todos as intrigas de Lisboa, explicou-me o que era um baby doll, e nunca precisou de ir a Paris.

Não troco uma boa imperial por nenhum champagne do mundo, gosto mais de Luso do que de Voss, e continuo sem conseguir perceber o que é que um Domaine de La Romanee-Conti Montrachet Grand Cru tem a ver com o Estudo em sol bemol maior “Teclas Pretas” de Chopin.

Pronto. Está dito. Desculpem mas estava com isto atravessado há anos.

 

 

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O eclético e a eclética luz da manhã

Eu amo o eclético. Talvez por me ver ao espelho no eclético. Tanto amo um filme de Godard como a starlet que é Elke Sommer. Gosto dos estúdios de Hollywood hoje como posso gostar de uma subversiva produção iraniana, quase sempre mais daqueles do que desta, mas gosto. Deliro com boleros, Schubert, bossa nova dor de corno ou jazz. Tanto gosto de Almada Negreiros como Júlio Dantas, PIM! Mais deste do que daquele, mas talvez seja só para embirrar, PIM, PAM, PUM! Eis o que tenho a dizer: no especialista obsessivo é que dorme toda a burrice.

Trago-vos, por isso, a eclética luz com que acordei esta manhã. Um raio de sol de violino, a brisa fresca de um acordeão. Um, toca-o Nigel Kennedy, violinista clássico, discípulo de Yehudi Menuhin. Nas teclas do acordeão deambulam os dedos de Richard Galliano, que tanto moram no jazz, como no tango. Aqui, juntos, roçam  o silêncio; aqui, juntos, mergulham numa intensa e humana algaraviada parecida com as minhas manhãs no mercado de Kinaxixe. São, juntos, a pura tristeza e a pura alegria.

Aqui, pura tristeza

Aqui, pura alegria

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A starlet

Gosto de starlets. Negá-las, seria negar a minha adolescência. E o cinema precisou tanto delas. O que seria de Botticelli sem Vénus, essa starlet do Olimpo? Peço desculpa aos mais fundamentalíssimos cinéfilos, mas de vez em quando faz-me falta um fim-de-semana com Elke Sommer.

Elke Sommer, uma alegria praticante para olhos católicos

Agora, a alemã Merkel já parece sexy mesmo à esquerda fracturante. Ora eu lembro-me que, grossos lábios pré-botox, grandes olhos de malícia infantil, nascida em Berlim quando pelo bigodinho de Adolf passava o desvairado sopro da expansão, houve outra alemã que, anos 60, trouxe esse thrill que põe um calor húmido na escusa respiração de uma sala de cinema.

Chama-se Elke Sommer. Fotografa com a descarada ingenuidade que a perfeição do corpo, todinho em 3D, mais acentua. Via-a, agora, em “Deadlier Than the Male”, hospedeira em avião privado, a levantar a saia para tirar um charuto, que uma liga lhe prende à abençoada perna. Dá-o a um passageiro especial e acende-lho. O homem puxa uma passa com o celerado prazer com que Boris Johnson apoiou o Brexit. Puxa a segunda passa e uma bala, que o charuto esconde, dispara-se, abrindo-lhe um insidioso furinho na nuca. Está, digamos, morto. De pára-quedas à James Bond e já de fato de banho, Elke salta. O avião armadilhado explode atrás dela. O que Elke mata, nesse filme…

Se esta fosse uma crónica séria, com o decoro de um vago respaldo académico, diria que Elke Sommer foi o epítome da starlet. Dito à maneira do miúdo que fui, e que com ela privou no escuro do cinema e na intimidade couché das edições vintage da Playboy de 1964 e 1967, direi que Elke, filha de pastor luterano, foi uma alegria praticante para os meus olhos católicos.

Numas férias com a mãe, elegeram-na Miss Turista, em Viareggio, com foto no jornal. Viram-na outros olhos católicos, os do Signor Bertelli, que lhe bateu à porta da pensão, convidando-a a filmar “O Amigo do Jaguar”. Viu-a, depois, Vittorio De Sica: atirou-a para as estrelas, ou seja, para a América.

Filmou com Paul Newman, Peter Sellers, Glenn Ford e James Garner, mas o incidente que a ressuscitou nos jornais foi ter pespegado com um processo a Zsa Zsa Gabor, outra starlet. Foram as duas domar bichos no Circo das Estrelas e Gabor disse a jornais alemães que Sommer estava na miséria, vivia de vender roupa e parecia uma avó careca de cem anos. Tudo mentira e Gabor foi condenada a pagar três milhões de dólares. Pior, a última palavra foi a da ingénua Elke: “Tiveram de vir quatro homens pôr Zsa Zsa em cima de um cavalo, tão pesado tem o imenso rabo.” Por mais que diga acomodar o posterior numas calças juvenis, a imagem dos homens a levantar Zsa Zsa já é um número de circo.

Se isto não parece um James Bond vou ali e já volto

Publicado no Expresso, sábado, dia 21 de Abril

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Mama Africa Clandestina

 

Como pode ser tão alegre e irresistível a música dos que sofrem? Como pode ter sorriso tão largo e bamboleante, tão íntima paz no olhar? A alegria e o consolo dos perseguidos enraivece ainda mais os persecutores.

Nasceu da luta a música de Miriam Makeba que chegou ao reggae, como intercalou nosso M.S.F  (“a Luta Con­ti­nua che­gou de Angola e Moçam­bi­que, via Miriam Makeba. Sem África, Demme nunca teria assi­nado em por­tu­guês, mas com can­tado sotaque jamaicano, o final dos seus fil­mes.”) e eu tinha de a trazer aqui para ser ouvida mais uma vez.

Mama Africa teve os discos proibidos a partir de 1952. Deixou a Africa do Sul por não haver hipóteses para uma cantora negra. Os negros, proibidos de beber, eram proibidos de cantar em bares nocturnos que serviam bebidas. E em 1958 uma nova lei proibia os artistas de actuar também nos espaços de cultura nas cidades. Banidas das rádios na África do Sul, as lojas de discos proibidas de vender os discos.

E apesar de banidas, as músicas continuaram a ser ouvidos. Clandestinamente.

Makeba abandonou o país em 1959.

Kaulesa, Mama. Rápido, não te deixes apanhar.

É num país frio como a Suécia que Miriam Makeba lembra a sua África Proibida.

Eram as canções que falavam da vida de todos os dias,  que tinham chegado a cantar nas escolas, que se tornaram-se ilegais.

Num país de opressão, a música nasce da luta ou a música é a luta?

A proibição morre, as canções de protesto e revolucionárias levantam-se e vivem. E a maior vitória é continuarem a ser ouvidas ainda e sempre, mesmo depois da morte dos autores.  Será eterna a transbordante alegria de Pata Pata.

 

 

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Jonathan Demme

Jonathan Demme à caça. Caçava bem

Por favor, deixem-me contar-vos como é que conheci, nunca o conhecendo, Jonathan Demme. Coisas do século passado, já tinha escrito sobre ele para o “Expresso”, a propósito de um filme estimável, “Melvin e Howard”, pequena delícia monocasta, todo feitinho em cima de um único e improvável fait-divers: quem o viu sabe que é o filme de um tipo que, na highway 95, pára para dar uma aflita mijinha e encontra estatelado numa valeta, se assim se pode dizer, o ultramilionário e incógnito Howard Hughes, que espatifou a moto em que vinha a zunir. Para começo de conversa é mais do que bem caçado. Jonathan Demme caçava e bem.

Poucos depois, e não foi para dar uma aflita mijinha, vou a Los Angeles. Aboletei-me, nesses anos 80 do século XX, em Westwood, bairro selecto e universitário, todo encavalitado na UCLA. E mergulhei nas salas de cinema.

Os cine­mas de que eu mais gostava fica­vam ao lado de uma gela­ta­ria drive-in. Lembro-me: de carro em carro, as sau­dá­veis per­nas das moci­nhas gira­vam, ágeis e velo­zes, em cima de patins. Transfigurados anos 80, na irreal Los Ange­les.

Naquele tempo, via os gené­ri­cos dos fil­mes até ao fim. Nesse cinema de Westwood, ecrã cheio de nomes, últi­mos acor­des da banda sonora, de repente leio em mili­tan­tís­simo português, “A Luta Con­ti­nua”. Por cima, a figura de um velho guer­ri­lheiro ou, quem sabe, um jamai­cano cer­zido a reggae.

Cheira-me a quê? A maboque ou ao cheiro forte de peixe seco no porto de Luanda?

Sem­pre des­con­fiei que o pas­sado se dana por nos pre­gar par­ti­das, mas nunca o ima­gi­nei a atropelar-me, em L.A., no “Something Wild”, de Jonathan Demme. O filme começa com Char­lie (Jeff Dani­els), exe­cu­tivo cer­ti­nho que esconde um grão de rebel­dia no mais acrisolado dos seus ven­trí­cu­los. Almo­çou rapi­di­nho e, revolta de menino, sai rapidinho sem pagar a conta. Lulu (Mela­nie Grif­fith) viu e gos­tou. More­nís­sima, franja negra a reiterar o nome, boca de fru­tos ver­me­lhos, Lulu vai dar guita à rebel­dia de Char­lie. Mal dá conta e Char­lie está como Deus o man­dou ao mundo, em sítio onde Deus não cos­tuma estar e se dis­pensa que esteja. Char­lie já tem um par de alge­mas a prender-lhe as mãos à cabe­ceira da cama, Lulu está de lábios e mãos livres, o indesculpável pecado das pernas, a dar-nos vontade de estar onde está, não sei se humilde ou humilhado, o rebelde Charlie. Chega de humildade e pequemos: com a guita com que estão, Charlie e Lulu voam tão alto como os papa­gaios da minha infân­cia. Coi­sas des­tas sabem bem e, depois de a lín­gua as tocar, quem é que quer saber de empre­gos e famí­lia. Char­lie já não quer e é nisto que o cinema dá vinte a zero à vida.

Se ela esta com a guita toda? Está!

“Something Wild” começa assim, ame­ri­cano, mas a grande surpresa vem no fim. A música do genérico amarra-nos o rabo à cadeira, e deixamo-nos ficar a ver os mil nomes dos técnicos até que, num por­tu­guês que nenhum americano na sala beijou, inalou ou fumou, surgiu um gigantesco “A Luta Con­ti­nua”. Onde, Demme, é que foste buscar isto, este “A Luta Continua”, que me fez chei­rar África e, de África, a more­nís­sima Angola, Lulu dos meus 20 anos? Nem emprego, nem famí­lia, lembrei-me da noite da independên­cia de Angola, 11 de Novembro de 1975, em Novo Redondo, a bater estrada, como Howard Hughes (querias, não querias?) a caminho de Luanda. Noite dor­mida em cama de estre­las, céu e mar, os miú­dos das Fapla a faze­rem das Kalaches o fes­tivo fogo-de-artifício. A luta con­ti­nua e, olha Char­lie, se aos 20 anos não fores anar­quista, aos 40 nem chefe de bombei­ros hás-de ser.

Enganei-me no sabor a África de “Something Wild”? Li, e acho que ainda anda pela Wikipé­dia, que a frase, repe­tida por Demme em “Mar­ried to the Mob”, “Silence of the Lambs” e “Phi­la­delphia”, seria tri­buto ao 25 de Abril. Estra­nhei: não parece, não é, a língua dele.

Vai daí, um dia apa­nho o Demme e o Neil Young a tro­ca­rem pra­ze­res per­ver­sos e cul­pa­dos. O Neil Young dizia os fil­mes favo­ri­tos dele, o Demme respondia-lhe com a sua lista de canções preferidas. E eis que o Demme esco­lhe o jamai­cano Big Youth e dele um álbum com título em por­tu­guês: “A Luta Con­ti­nua”. Big Youth e Demme falam o mesmo idi­oma, falam reg­gae. Ao reg­gae, a Luta Con­ti­nua che­gou de Angola e Moçam­bi­que, via Miriam Makeba. Sem África, Demme nunca teria assi­nado em por­tu­guês, mas com can­tado sotaque jamaicano, o final dos seus fil­mes.

Não me enga­nei quando, num cinema de L.A., a boca me soube a África. No fim do filme, já muda­dos, Char­lie e Lulu reencontram-se. Queixa-se ele de que ela não lhe che­gara a dizer adeus. Ela jura: “Claro, eu nunca te quis dizer adeus”. Nem eu à terra morena da luta continua, nem a ti Jonathan Demme, que ontem, dia 26 de Abril, nos morreste.

E a luta, meu kamba? Deixas-nos para aqui com o “Silêncio dos Inocentes”, o “Married to the Mob”, o “Philadelphia”, deixas-nos para aqui com o intenso, leve e adorável canibalismo familiar de “Rachel Getting Married”, mas e a luta, a luta não continua?

Komé ke é, meus? E a luta?

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Diários da Solidão (2)

James Turrell

Estes são os dias de leitura.

Talvez para saber mais um pouco de alguma coisa. Para quê não sabemos bem.
O fascínio do conhecimento convence-nos. Entender aquilo que estava escondido, perceber a ligação entre algo que aconteceu no passado e aquilo que vemos hoje, ou aquilo que imaginamos para o futuro .

Estes são os dias da leitura porque somos os últimos dos últimos….já não temos lugar aos ombros dos gigantes.

Já tudo se fez , já tudo se pensou , já tudo se escreveu…

E lemos maravilhas, e sabemos que não chegaremos lá, simplesmente porque ainda temos os olhos fechados num nevoeiro de dúvidas.

Estes são dias de leitura, porque queremos sentir sempre um pouco mais da vida.

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tempos felizes

25 abril 1974

Era eu uma jovem moçoila disposta a conquistar o mundo.

…e o mundo, o meu mundo, o meu Portugal, dava-me a melhor situação, quente, dinâmica , explosiva, romântica . A REVOLUÇÃO.

Tudo era possível e para mim nada era impossível.

Atravessava as ruas da cidade numa mobilete , e saltava de reunião na casa ocupada bem perto do Rato, ás do sindicato recente, ás do COPCOM ,ás do MLM…

Eram os tempos felizes, onde se misturavam sonhos e muitas ilusões.

Mas tudo era possível…

Tempos felizes

(que ninguém me tira)

 

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filha de saint’exupery

Não sei se foi de dia, ou a meio da noite.

A camada de pó cobria o caminho, tinham voado areias do deserto , poeiras.

Perdi o rasto e a razão. Fiquei assim. À espera. Pelo cheiro estava longe, sem noção do lugar,

Perdida?

 Ali perto o deserto

perdida ? ri!

Clap, clap clap, corro na chapa de lata.

Clap, clap, clap- ali escondida a gata.

Sim sim senhor besouro aqui sou e estou. Chega pra lá

Perdida, no sol de prata.

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Amusement Classique (em resposta Manuel S. Fonseca) sobre não comer Euridice

 

 

 

 

 

 

 

 

O que eu disse a Euridice
foi dito só por dizer
eu não sou como Aristeu
que apenas a quis comer

Também não faria a Orfeu
O que tentou Aristeu…
Deixá-la-ia
dolente
como a deixou a serpente
que a mordeu e a matou

E jamais iria ao céu
como fez o nosso Orfeu
o qual cantou para Caronte
uma canção de barqueiro….

No mundo dos mortos temo
Cérbero que é mais que um cão
E ainda mais temo o demo.
E depois, que ganhou ele
– O Orfeu com a sua lira –
Que perdeu a Euridice
Quando pensou a trazia
Do mundo fero do Hades?
Nada!

Apenas morreu também!
Foi morto pelas Mênades
Ao chamar por Euridice!
E foi quando Hades gritou:
bem te disse!…
quem entra neste meu mundo
não sai assim facilmente
já cá tenho a Euridice
já te tenho a ti, Orfeu
(também tenho o Aristeu),
porque a morte é infinita.

E Orfeu não mais cantou
Não mais chorou a desdita
Não mais perseguiu Euridice.
E não houve quem a visse
depois do que eu lhe disse
(que só foi dito por dizer).
Nem o Orfeu apareceu
nem Aristeu insistiu
nem Hades se redimiu
Mais ninguém a quis comer!

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O dia da liberdade livre

Este texto tem três anos. Acrescentaria só que a conquista da liberdade democrática em Portugal só se cumpriria com outra data, o 25 de Novembro, e com um rosto, o de Mário Soares, protagonista da luta contra o PC, UDPs e afins, todos veementemente alérgicos à liberdade não tutelada.

A caminho da liberdade

As notícias viajavam lentas. Vinham por caminhos ínvios. Na verdade, as notícias não viajavam: naquele tempo, deambulavam. Como se um tipo que saísse de Lisboa, para chegar ao Porto, tivesse de passar por Paris.

Estavam quase a bater as 4 da tarde, em Luanda. Ali, para os lados do Hospital Militar, encostado à Sagrada Família, eu gozava o remanso da Biblioteca Nacional de Angola que era bem dirigida pelo Prof. Carmo Vaz. Tinha, em cima da mesa, dois, talvez três livros. Um, era um concentrado vitamínico comunista chamado “Crítica ao Programa de Gotha”, em que Karl Marx, um vigoroso antepassado de Angela Merkel, ilustrava as massas sobre o que seria verdadeiramente a ditadura do proletariado e um partido da classe operária. Ao lado, humilde, estava um livro de John Lyons sobre outro dos meus bizarros interesses da época, a linguística. E ia jurar que fazia parelha com uma obra recente de Noam Chomsky. Era, como se vê, uma biblioteca bem apetrechada.

Interrompeu-me, então, o Jujú, um amigo do meu bairro, para me dizer ao ouvido, que a rádio sul-africana estava a anunciar que, nessa manhã de 25 de Abril, em Lisboa, os militares tinham derrubado Marcello Caetano. Foi assim que eu soube, em Luanda, uma caterva de horas depois e ao ouvido esquerdo, que a ditadura tão portuguesa de António de Oliveira Salazar, continuada agonicamente por Marcello Caetano, tinha chegado ao fim.

Não havia nada que a esmagadora maioria da minha geração quisesse tanto. Queríamos que aquilo acabasse. Queríamos a liberdade! Em poucas horas, com a galhardia e a felicidade de ter até um apurado sentido estético de marchar ao som de Zeca Afonso, uma acção militar acabou com um regime que tinha um inescapável tumor maligno a roer-lhe a alma institucional e a contaminar e a apodrecer a alma dos seus cidadãos: era um regime fundado na repressão da liberdade. Da liberdade de expressão e de opinião, da liberdade dos costumes.

Mas também nunca tive dúvidas de que querer a liberdade tem muitas caras. Lembro-me, no ano marcelista de 1973, em Lisboa, andava eu a roçar-me, em esquinas clandestinas, pela extrema-esquerda, de uma conversa perto da Avenida de Berna. A um então militante do éme erre, confessei, com candura angolana, quiçá colonial, que queria ter a liberdade de um concerto dos Jefferson Airplane (por causa da linda e selvagem Grace Slick), que queria participar numa manifestação vital à la Woodstock. O que eu fui dizer. Uma liberdade até à virilha, de resto ausente da “Crítica ao Programa de Gotha”, era coisa de vade retro. E levei com um sermão contra os concertos rock, a droga, essa permissividade decadente que era o amor livre. Ele tinha estado na Alemanha Ocidental, em Munique, e essa “decadência” era horrível. E o consumismo? Ui, alienação, alienação, já me estava a ver a ter de despir as minhas ofensivas levi’s ianques. Não há padrecas como os padrecas de esquerda ou de extrema-esquerda.

O episódio pode parecer caricato. É anedótico, sim, mas não é anedótico se se levar a sério o que tem por trás. Do MRPP ao PCP, a extrema-esquerda e sobretudo a esquerda comunista pró-soviética, lutaram feroz e corajosamente, mais do que ninguém, contra a ditadura de Salazar, contra a PIDE, pagando nas suas vidas e muitas vezes com o corpo, essa luta heróica. Há uma epopeia comunista! Mas o objectivo dessa luta não era a liberdade. Era sim, o fim da ditadura de Salazar para a substituir pelo regime que Marx descreve com todos os substantivos na “Crítica ao Programa de Gotha”: criar uma ditadura do proletariado e um modelo social no qual, a liberdade, esse luxo burguês, é dispensável porque está resolvida pela natureza do regime.

O dia 25 de Abril é para mim e para minha geração o dia em que a liberdade livre nasceu. E a liberdade livre não tem programa, nem dono. Veio de capitães, não tem que ter coronéis. “Cumprir Abril” é apenas viver a liberdade de sermos a sociedade que, no exercício da democracia, esse pobre, prosaico, mas insubstituível regime (por enquanto, pelo menos), queiramos ser. E, por mais exercícios de intimidação cultural a que sejamos sujeitos, a começar pelos da esquerda não-democrática e anti-liberdade, nós vivemos em democracia. E, agora, também em globalização, o que faz com que a nossa vida seja dura e exija de nós, não a cultura da queixa e do ressentimento com que facilmente se atraem moscas, mas uma competência, uma racionalidade e uma coragem que temos de ir buscar, numa pequena parte, ao nosso passado e, em grande medida, ao futuro.

Por obra e graça de uns capitães idealistas (mais uns do que outros, ou não fosse toda a vida humana um teatro de drama, tragédia e às vezes comédia), o dia 25 de Abril de 1974 foi o dia em que nasceu para nós a liberdade livre. Se fosse o dia em tivéssemos ficado sujeitos à obrigação de Portugal seguir um exacto modelo de sociedade, o 25 de Abril não seria evocado como é, e eu aqui também o evoco, o dia da alegria pura, da alegria de todos.

o dia da alegria pura

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Um livro que parecia um jornal

A 11 de Janeiro de 1992, poucos meses antes de entrar para a SIC, lembro-me de escrever que me desunhava para o Expresso, a que voltara, depois de uns anos a nomadizar pelo Semanário, Marie Claire e pela revista Face, que foi o único calote que levei em toda a minha vida de escriba. No Expresso, escrevia sobre cinema, mas também sobre livros, o que incluía até filosofia. Não é o caso da recensão deste livro que devo ter comprado na velha livraria Buchholz. O livro ainda hoje o tenho e, quando me falta assunto, é um precioso auxiliar para dar ignição às minhas crónicas cinéfilas. 

THE CHRONICLE OF THE MOVIES
Vários autores

Surpresa! Numa altura em que a tentação do ensaio se apoderou dos jornalistas, mesmo dos mais convictos, é reconfortante ver surgir um livro, como este The Chronicle of the Movies, fascinado, no formato, no estilo e no conteúdo, pelo conceito de jornal.

The Chronicle of the Movies é uma história do cinema sonoro, feita ano a ano, com duas páginas dedicadas a cada quatro meses. Menos interpretativo (ou até mesmo nada interpretativo) e mais factual, The Chronicle of the Movies organiza a informação em artigos sintéticos, devidamente ilustrados por fotografias a preto e branco que são mais referência do que espectáculo visual. Por exemplo, nas páginas que servem de «jornal» aos últimos quatro meses de 1939, a abertura pertence, claro, a E Tudo o Vento Levou. Um bom título «Dancing to Selznick’s Time» — encabeça um artigo sobre a estreia e o sucesso espectacular de bilheteira das primeiras semanas. O artigo ao lado, «Leigh’s Labours», narra as vicissitudes por que passou Vivien Leigh, desde o boicote que lhe foi movido pelas sulistas que não queriam ver aquela inglesinha a fazer de menina sulista, até aos encontros secretos com George Cukor, o realizador em cuja direcção a actriz depositava toda a confiança, apesar de Selznick o ter despedido no começo das filmagens. Em fundo de página e a três colunas, numa notícia sobre a estreia de Ninotchka, de Ernst Lubitsch, ficamos a saber que, finalmente, «Garbo Laughs!».

The Chronicle of the Movies é uma forma subtil de fazer história do cinema: as notícias, dadas embora no presente do indicativo e num estilo puramente informativo, denunciam já, quer na selecção dos assuntos quer na sua elaboração, um conhecimento posterior que um redactor da época, por falta de recuo histórico, evidentemente não poderia ter. Na sua redacção participaram seis conhecidos críticos e historiadores: David Shipman, Robin Cross, Tony Sloman, Adrian Tumer, Neil Sinyard e Alan Stanbrook.

Além das notícias, cada «jornal» quadrimestral apresenta várias selecções regulares, desde uma coluna de má língua — que pode ser a notícia do despedimento pela MGM, durante as filmagens de Viva Villa numa cidade mexicana, de um popular actor da época, Lee Tracy, por ter urinado da varanda do seu hotel para o meio da rua, atraindo as atenções e não só da população local—até às colunas de «box-office», nascimentos, casamentos e mortes.

O enormíssimo mérito de The Chronicle of the Movies está nas possibilidades que dá de barato ao leitor, sugerindo-lhe, a partir da simultaneidade temporal, o estabelecimento de relações históricas entre factos. Outra forma de utilização possível do livro é a de procurar nele o complemento informativo sobre o contexto de um período particular. O que é que acontecia em Hollywood, por exemplo, quando Otto Preminger se atreveu a estrear, sem a autorização prévia da censura, The Moon is Blue, um filme em que se ouviam as palavras «virgem» e «violação»? Lendo os «jornais» desse ano em The Chronicle of the Movies verificamos que os americanos viam então, «com uma torrente de emoções que nem a natureza era capaz de controlar», Marilyn Monroe em Niagara, enquanto From Here to Eternity, metia à justa nos preceitos do Código as inclinações ninfomaníacas de Deborah Kerr que culminavam na famosa cena na praia com Burt Lancaster, a rolarem abraçados nas salsas ondas. Ou seja, Preminger e o seu The Moon is Blue era só a ponta mais escandalosa do icebergue, porque o sopro gelado do sexo vinha de todas as direcções.

(Organização de  Julian Brown e Derek Elley, Hamlyn Publishing Group, Londres 1991, 448 páginas, 5170$00)

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Polícia no dia mundial do livro

Hoje, por ser dia mundial do livro, faço-vos um desafio.
Leiam “
Os Passos em Volta“, de Herberto Helder. É um livro de contos. Incursão rara do poeta na prosa narrativa. O mais próximo que ele terá estado de um romance.
Agora que já têm “Os Passos em Volta“ na mão, leiam um conto, o mais belo de todos os contos, leiam “Polícia“. Conta-o um português, clandestino, em Bruxelas, na iminência de ser, porventura, expulso.
E agora, que já leram “Polícia“, podem ler, embora não precisem, a piedosa e devota prosa que se segue.

Eu era então muito novo. Aprendi a sole­trar o amor nos onze pará­gra­fos das cinco pági­nas de um conto cha­mado “Polí­cia”. O amor ficou-me para sem­pre assim, a mulher nua dei­tada sobre um cober­tor, gotas de chuva a des­li­zar nos vidros da janela.

Em fra­ses cur­tas, que uma pequena e amá­vel iro­nia ace­lera, o conto des­creve Bru­xe­las, o papel ambí­guo de um pro­tec­tor petit Mon­si­eur Leclercq, antigo cola­bo­ra­ci­o­nista e fun­ci­o­ná­rio do par­tido comu­nista, a penú­ria do pro­ta­go­nista que alguns bis­ca­tes mal iludem.

É um clan­des­tino que fala. Tem uma voz serena, objec­tiva. Con­fia, percebe-se, no movi­mento que os tem­pos ver­bais dão às fra­ses: “Eu dese­java tra­ba­lho, ape­nas isso.” Ou então: “… o maior amigo do meu pro­tec­tor, um fla­mengo que amava a cer­veja forte, per­ten­cera à Resis­tên­cia.” Dese­jar, amar e per­ten­cer são os dína­mos de fra­ses humil­des, manu­ais dir-se-ia. As fra­ses vão por onde os ver­bos as mandam.

É um por­tu­guês e deam­bula pela cidade, perto da esta­ção, entre as luzes das ruas e o ruído dos com­boios de mer­ca­do­rias. Tal­vez por­que ter dinheiro no bolso seja tão aci­den­tal, o nar­ra­dor clan­des­tino poupa nos adjec­ti­vos. Escas­sez na vida que reper­cute na lumi­nosa escas­sez da prosa. Ainda assim, diver­tido ou ino­cente, autoriza-se (uma vez ape­nas, no pri­meiro longo pará­grafo de 42 linhas) um aceno con­tido de trans­cen­dên­cia: “Às vezes eu fazia com estes ele­men­tos estran­gei­ros um lirismo vaga­bundo e puro.

Eu era então muito novo e ao ler “Polí­cia” apaixonei-me pela ideia difusa de cidade, os vagos tra­ba­lhos tem­po­rá­rios, beber cer­veja, dan­çar num bar da Chaus­sée d’Anvers. Mas apaixonei-me sobre­tudo pela abso­luta cons­ci­ên­cia de si deste clan­des­tino a quem le petit Mon­si­eur Leclercq acon­se­lha a fugir para a França, Ale­ma­nha, meter-se num barco que saia de Antuérpia.

Con­ge­ni­ta­mente ide­a­lista, “Polí­cia” é um conto em que os con­tor­nos da cidade, a espes­sura dos vul­tos que pas­sam, das abun­dan­tes pros­ti­tu­tas, só ganham con­cre­ção den­tro da lin­gua­gem e da soli­dão do herói clan­des­tino. Quase ouço o nar­ra­dor responder-me: “Tam­bém me sen­tia absur­da­mente entu­si­as­mado com a soli­dão.” Tal­vez le petit Mon­si­eur Leclercq não saiba, mas se o clan­des­tino par­tir, a cidade desa­pa­rece. E não, não me parece que Mon­si­eur Leclercq o saiba: antigo cola­bo­ra­ci­o­nista e fun­ci­o­ná­rio do par­tido comu­nista, o monismo ide­a­lista é-lhe estranho.

Eu era então muito novo e nunca tinha lido uma tão incon­des­cen­dente cons­ci­ên­cia de si. Mais abis­mado fiquei ao ver, no segundo pará­grafo, o herói clan­des­tino criar uma segunda cons­ci­ên­cia, desen­can­tado comen­tá­rio de si mesmo. É uma manhã de Dezem­bro e chove, diz ele, para logo a seguir e pela pri­meira vez sur­gir, entre parên­te­sis, a segunda camada de cons­ci­ên­cia de si, filo­só­fica, quase sem­pre inter­ro­ga­tiva. Uma segunda cons­ci­ên­cia que é, por­ven­tura, mais o resul­tado de uma ele­gante dis­cri­ção, quase timi­dez, do que um arti­fi­cio lite­rá­rio. Leio e pergunto-me se o herói clan­des­tino não terá cri­ado esta segunda vaga da cons­ci­ên­cia de si como pre­texto para intro­du­zir Anne­ma­rie. É Dezem­bro e chove, diz ele, para logo deri­var, auto-comentando-se “(eu fala­ria depois a Anne­ma­rie da chuva lenta, paté­tica)”. E deixa-a ali, sus­pensa, mis­te­ri­osa, para só vol­tar a sentar-se ao lado dela, ou ela ao lado dele, 24 linhas depois.

Chove neste conto, “gotas de água a toda a volta”, e surge Anne­ma­rie, fran­cesa de Lyon, tão clan­des­tina como o nar­ra­dor por­tu­guês: “Anne­ma­rie sentou-se a meu lado. Vi logo que ela não podia estar mais só.” São duas abso­lu­tas cons­ci­ên­cias de si, irre­du­tí­veis, sen­ta­das ao bal­cão de um bar de Bru­xe­las, em frente a dois “belos copos de cer­veja fria”. Bebem na soli­dão um do outro.

Eu era então muito novo e pareceu-me peri­goso e sub­ver­sivo este clan­des­tino encon­tro de cons­ci­ên­cias num chu­voso fim de tarde estran­geiro. Seria absurdo que a polí­cia não os per­se­guisse. A polí­cia, esse dese­já­vel escru­tí­nio da ile­ga­li­dade, é a única forma de os dois clan­des­ti­nos terem a cer­teza que arris­cam a liber­dade. A única certeza.

Polí­cia” começa numa deli­ques­cente manhã de Dezem­bro, em Bru­xe­las. Ter­mina na noite desse dia, a mesma fria névoa lá fora e “um calor incon­ce­bí­vel” nesse quarto onde duas soli­dões falam “lon­ga­mente da chuva, do amor e das leis.

Em dois demo­ra­dos pará­gra­fos ini­ci­ais e nove mais cur­tos, poé­ti­cos, pará­gra­fos finais, “Polí­cia” é um lapi­da­dís­simo dia­mante nar­ra­tivo. O ritmo do fra­se­ado, a pre­ci­são lexi­cal, o dis­creto bri­lho meto­ní­mico, a fru­gal suges­tão ima­gé­tica estão inven­ci­vel­mente acima da tan­tas vezes pas­tosa nar­ra­tiva por­tu­guesa. É só lite­ra­tura, dir-me-ão aque­les que razo­a­vel­mente pen­sam ser a lite­ra­tura coisa pouca. Que inte­ressa? Eu era então muito novo e “Anne­ma­rie puxou-me para den­tro e amámo-nos sobre o cober­tor até de manhã.

As citações fui buscá-las à ver­são ori­gi­nal do conto, publi­cada pela Por­tu­gá­lia Edi­tora, em Março de 1963,  a 1ª edi­ção do livro. A que eu tenho, com a capa lá de cima. 

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Não lhes posso dar murros

A camisa branca de Mizoguchi, a blusa negra de Kinuyo Tanaka

A nostalgia da mãe. Tal como John Ford, em cuja boca nunca entrou e ainda menos saiu a palavra “nostalgia”, mas que tinha nostalgia de tudo, o japonês Kenji Mizoguchi reclama a nostalgia da mãe.

Foi o realizador de filmes como “A Vida de O’Haru”, “Os Contos da Lua Vaga” e “Os Amantes Crucificados”, a que a minha geração ajoelhou e rezou, mesmo sem saber nada do Japão na maioria dos casos, horda ignorante a que pertenço, e que escutar até às três da matina o cineasta Paulo Rocha, à porta da Cinemateca, a perorar sobre o sensual roçagar de um quimono não releva.

Mas deixemos a ignorante boca aberta com que lhe vimos os filmes, para ouvirmos Mizoguchi. O pai tinha um negócio e faliu. Correu mal e desatou a beber ou já bebia e correu mal. E se uma falência não é soneto que se cheire, a emenda foi pior. O pai vendeu a irmã de Mizoguchi a uma casa de gueixas, alindado termo étnico que usamos, com acordes de shamisen, para não lhes chamar putas.

Isto sim é o começo de um romance que nunca mais lhe largou a vida e a obra. Afirmava ser um homem violento e os filmes dele estão impregnados de funda tristeza. Há outros filmes carregados de tristeza na história do cinema, mas a tristeza de Mizoguchi é lentíssima, feita de longos planos e movimentos de encenação milimétrica. O perfeccionismo com que cantou essa tristeza, arrancou-o ele a golpes autoritários e murros dados a técnicos e actores. Com uma ressalva: “… mas se é uma actriz, por muito que me zangue, não lhe posso dar murros!”

Todo o autoritarismo gera lealdade e relações apaixonadas, como a de Mizoguchi com Kinuyo Tanaka, actriz de 15 filmes dele, que arrancou os dentes todos para, rameira de baixo coturno, parecer velha e desdentada no final da “Vida de O’Haru”, jurou Paulo Rocha.

Ninguém sabe se foi a nostalgia da mãe, se o trauma da venda da irmã, mas o fascínio pela mulher vítima, e um certo prazer na contemplação dela vítima é a cama em que mais vezes se deita o cinema de Mizoguchi. Das camas em que se deitou ele mesmo, sabe-se que levou a mulher à loucura e a meteu num asilo, passando a viver com a irmã mais nova dela. Andaria nisso o fantasma da irmã gueixa?

A nostalgia da mãe confessou-a com esta candura: “Gosto de mulheres gordas. Talvez por a minha mãe ser gorda e ter morrido, era eu ainda jovem. Parece ridículo dizê-lo, prefiro as gordas. Sim, atraem-me muito.”

Publicado no Expresso, no sábado, dia 15 de Abril
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