O fogo

 

 

Nada nos prepara para a tragédia, para a horrível morte, que o fogo – sempre sobrenatural, inclemente e imparável – causa. Não há consolo para a indiferente fúria com que tudo consome. Podemos apenas lembrar que o cantou o épico Homero, na Ilíada, nestes versos que Frederico Lourenço pôs na língua portuguesa em que agora amaldiçoamos as chamas, e o que nelas julgamos ser maldade e traição.

Assim disse; e Hefesto ateou seu fogo sobrenatural.
Primeiro surgiu o fogo na planície e queimou os mortos
numerosos que ali jaziam, chacinados por Aquiles.
Toda a planície ficou ressequida; a bela água, impelida.
Tal como quando na época da ceifa o Bóreas seca
um pomar há pouco irrigado e alegra-se o cavador –
assim ficou seca toda a planície e os mortos foram
queimados. Mas depois virou a chama brilhante contra o rio.
Arderam os ulmeiros e os choupos e os tamarindos;
Arderam o lódão e os juncais e a junça, que crescia
com abundância à volta das belas correntes do rio.

“Be fire with fire” foi a frase que Shakespeare pôs na boca de um bastardo. Poderemos, como ele parece dizer-nos, aprender a ser fogo com o fogo? E tempestade com a tempestade, raio com o raio, trovão com o trovão? Morte com a morte?

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je suis un autre 2

Saí cedo.

Gosto das manhãs frescas, da luz quebrada, do silêncio em redor

Cheguei na maré baixa quando a água desce e o pântano fica quase raso.

Olhei em redor.

Descalcei as sandálias.

Mergulhei os pés e as mãos na água

Procurei o lodo.

Escorregadio, mole. Lama, barro.

Enchi os baldes, e transportei-os para o sítio onde á água era mais baixa.

Devagar depositei o sedimento. Os estratos iam-se acumulando.

O corpo foi tomando forma.

 

Aquela ilha era o meu corpo.

A terra rodeada de água.

O céu imenso como mortalha.

imagem de Ana Mendieta

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Quando o Céu desce à Terra

 

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Genéricos, titles, credits – por onde começam os filmes

Devia falar-se mais dos genéricos dos filmes, aqueles dois minutos com o título, os nomes dos actores e dos autores, quase sempre essa primeira coisa que aparece quando as luzes da sala se apagam. Alguns, no passado não muito distante, chegaram a ser obras-primas. Revisito prosa, que escrevi a 28 de Outubro de 1989, na revista do extinto Semanário. Quase só de memória (e a minha, confesso, não é grande coisa). Hoje, a poder tropeçar online com milhares deles, teria sido outra fruto. Não tenho é tempo, que esta vida é uma escravatura, valham-me Jesus, Maria e José.

O famosos genérico conceptual de Carmen Jones

Por onde os filmes começam
Manuel S. Fonseca

 Mesmo quando os genéricos eram um simples desfilar de nomes sobre um fundo neutro — momento de transição óptimo para os espectadores limparem o último catarro ou sussurrarem para o lado uma ponta pendurada de má língua — havia já nos bastidores mais sangue do que em Macbeth e mais traições do que no Hamlet. Em 1910, Carl Laemmle, um dos patrões de Hoollywood, roubou Florence Lawrence, uma das grandes vedetas da época, a um estúdio rival. Para rentabilizar a nova aquisição, montou uma jogada publicitária perversa, pondo a circular na Imprensa a notícia da sua morte num acidente de viação. A seguir, desmentiu o facto atirando para as costas largas do estúdio rival e de «outros inimigos» o opróbrio dessa falsa informação, anunciando que a actriz seria a star do seu filme seguinte. E foi a soletrar o nome de Florence Lawrence no genérico desse filme que o público começou a lançar astros para o sétimo céu, transformando implicitamente os genéricos dos filmes em feiras de vaidades e cenários de clamorosas injustiças.

Os actores disputaram, com a ferocidade de «primas-donas», os primeiros «títulos» dos credits. Para satisfazer egos exaltados, os genéricos começaram a «estender-se», convertendo-se numa lista de nomes semelhante a um deserto que se atravessa para atingir o oásis. De vez em quando havia vítimas. De insolação, claro. Houve, por outro lado, quem fosse fulminado pelo terrorismo todo-poderoso dos produtores: sobretudo realizadores corridos a meio do filme e argumentistas torpedeados.

Apostados em provar que o cinema é «arte colectiva» e que um laborioso carpinteiro vale o mesmo que os lábios de Kim Basinger, os genéricos começaram, nas décadas clássicas, a ser um «atraso de vida». Era preciso descobrir uma fórmula mais incisiva de começar o espectáculo. Era preciso que a seguir ao «logótipo» do estúdio houvesse uma imagem que excitasse, que «engatasse», que impedisse os americanos de se levantarem para comprar pipocas e que impedisse os latinos de começar uma urgente e interminável conversa. Num filme de Preminger, adaptação pretíssima da ópera de Bizet, aconteceu a revolução. Com efeito, para o genérico de Carmen Jones, um designer industrial, um tal Saul Bass, em perfeita identidade e sintonia com o realizador (quando estes foram os mais ríspidos adversários da introdução de novidades nos genéricos, por os julgarem interferências em obras que eram exclusivamente suas), desenhou um símbolo gráfico, uma rosa, que sugeria o romance no filme. «E se lhe déssemos movimento?» perguntou Bass a Preminger. Por detrás da rosa surgiu então a chama encarnada. Foi a rosa flamejante de Bass e foi o começo de uma nova era.

É evidente que no mudo tinha havido cuidados e bom gosto, tentando conceptualizar o filme pelo genérico: lembro Metropolis de Fritz Lang com os arranha-céus, as grandes rodas dentadas e êmbolos da maquinaria industrial, o relógio controlador e o vapor da sirene a marcar a mudança de turno dos operários. E também houve excepções notáveis no cinema «clássico», desde o «filme negro» (o supremo exemplo de Big Sleep de Howard Hawks, com as silhuetas de Bogart e de Lauren Bacall, os dois cigarros no cinzeiro e as duas colunas de fumo a dar o tom ao filme), ao épico (o lettering arrebatador de Gone With the Wind a rolar pelo ecrã maior que a vida), passando pelo «musical» (em Singin’ in the Rain os protagonistas de costas, gabardinas amarelas, chapéus de chuva negros, contra um fundo azul, até se virarem para cantar as estrofes do tema que dá título ao filme, enquanto os nomes se inscrevem, em amarelo vivo, no guarda-chuva de cada um: et por cause, chove a cântaros).

Para todos os efeitos foi com Saul Bass, nos anos 50, que os genéricos se descobriram novos e com vida nova, juntando mais um nome, o do autor dos titles, aos colunáveis no genérico. Bass nunca mais parou e nunca mais parou de nos surpreender. O braço desarticulado do O Homem do Braço de Ouro em que pela primeira vez um tipo se injecta no cinema (Frank Sinatra, vejam bem), os fragmentos de um cadáver em Anatomia de um Crime, a pétala a converter-se em lágrimas em Bonjour Tristesse, o I que se coça com a insuportável comichão dos Seven Year Itch, são títulos de uma nobreza que culmina nos grafismos sintéticos com que brindou Hitchcock em Vertigo, Intriga Internacional e Psycho (neste caso, além do genérico, Bass pré-concebeu e filmou a famosa sequência do assassínio de Janet Leigh no duche).

Os maravilhosos genéricos de Hitchcock

Bass procurou a síntese gráfica dos temas principais de cada filme. Abstractizou, fragmentou e deu ritmo a genéricos que passaram a ser pequenos filmes autónomos. Descobriu um ofício e inaugurou vocações. Depois dele floresceram génios capazes de pintar tão bem como Degas, capazes de exprimir nas primeiras imagens de um filme a mesma esquizofrenia de um quadro de Munch. Nalguns casos, os genéricos foram tão longe que só lembramos os filmes por causa deles (A Volta ao Mundo em 80 Dias, ou a segunda versão de A Carga da Brigada Ligeira). E outros ficaram tão míticos como míticos eram os heróis dos filmes a que serviam de antecâmara: o diafragma que se abre para deixar aparecer a silhueta de 007, inventado por Maurice Binder, os genéricos da Pantera Cor-de-Rosa criados por Friz Freleng, as fotografias com que Wayne Fritzgerald compõe a abertura de Bonnie e Clyde e Jean Fouchet (o melhor dos franceses)  nos faz entrar em A Noiva Estava de Luto.

No cinema europeu das últimas décadas, mesmo em genéricos, Godard foi imbatível na ironia e na simplicidade dos meios: as letras azuis e vermelhas na abertura de Pierrot le Fou, aparecendo ao ritmo da música, por ordem alfabética para depois os nomes dos actores e do realizador se apagarem ficando só o título do filme inscrito em azul, até se reduzir apenas aos dois «0», inspiraram muitas soluções posteriores e na tradição desses jogos verbais está o recente trabalho de Almodóvar com o genérico de Mujeres al borde de um ataque de niervos.

Na América, talvez Dan Perri seja hoje o grande expoente da tradição que vem dos subtis trabalhos gráficos dos anos 50. O título Star Wars a aparecer como uma grande nave espacial torná-lo-ia famoso (New York, New York, Os Encontros Imediatos, American Gigolo são outras tantas provas da sua inteligência), mas é na concepção fabulosa do genérico do Touro Enraivecido, com a silhueta do boxeur num fundo cinzento-azulado desfocado, num ringue cujas cordas barram horizontalmente o écran e entre as quais se vem inscrever em letras vermelhas o título do filme, que Perri prova a sua singularidade; o flash súbito, minimal, de uma máquina fotográfica, ao fundo, é só a exibição final do seu toque de classe.

É por aqui que os melhores filmes começam. Quando o primeiro título aparece já os salteadores estão em busca da arca perdida.

Um top ten possível

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A arte nem pode, nem antipode

A fúria com que, em “Red River”, Montgomery Clift e John Wayne esmurram as ventas um do outro não é de esquerda nem de direita. Os murros deles não são políticos. Nem é político o rabo de Marilyn Monroe, que em curtas cenas de 20 segundos, desreprimiu o recalcado baixo-ventre do cinema, a cores em “Gentlemen Prefer Blondes” e a preto e branco em “Some Like It Hot”, por obra e graça do bom olho de Hawks e de Wilder.

Filmes, poemas, romances, pintura, mesmo a do comunista Picasso, não são políticos. Não me venham dizer que a poesia é anti-poder ou pró-poder. O poeta pode ser fascista ou comunista. Maiakovski ou o dúbio Aragon eram comunistas, Ezra Pound era fascista e T. S. Eliot talvez andasse lá perto; o pluralíssimo Pessoa, se alguma coisa fosse, era de direita, e o queixinhas Ginsberg uivava parvamente à realidade. Mas se são poetas é porque a poesia deles continua a transfigurar a modesta realidade política que na vida os entretinha.

Camões cantou o Gama em “Os Lusíadas”, mas um só olho de Camões criou em dez cantos um herói que o real e cruel Vasco da Gama, ocupado com a canela e a pimenta, não reconheceria. Como não reconheceria o Gama que Robert De Niro teria sido se algum desmiolado estúdio americano tivesse decidido pagar a Samuel Fuller o filme com que o queria incensar.

Poemas, filmes e romances seriam muito pequeninos se reduzidos à deslavada ideia de serem anti-poder. Nem há mal intrínseco em haver poder, essa humaníssima realidade. E os males que escorram do exercício do poder são para se lavar na cama real da política. Mas as traições e as conspirações de Shakespeare, as bruxas de Macbeth e o fantasma de Hamlet, o arrebatado discurso de Marlon Brando com o cadáver de Júlio César aos seus pés, já são da matéria dos sonhos.

A beleza de poemas e filmes, de canções e pintura está na sua esplendorosa inutilidade. A grandeza das artes está na individualíssima convulsão que precisam de nos provocar se quiserem ser arte: uma convulsão íntima, vergonhosamente espiritual e libidinosa. Os nossos melhores cantores de intervenção, no PREC, quiseram servir uma forma utópica de poder. “E se eles ganharem?” perguntou um amigo meu a um, que era genuíno e grande. “Bom, temos de ser os primeiros a fugir”, respondeu.

A Winchester de John Wayne, a voz e a guitarra da canção não são armas de serventia. Seja do poder, seja do antipoder.

Publicado no Expresso, sábado, dia 10 de Junho

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Sarita Montiel

Esta apologia de Sara Montiel, já tem 25 anos. Publicou-a o velho Expresso, a 21 de Março de 1992, e julgo que foi logo a seguir a uma visita de Sarita a Lisboa, que fez a sala da Cinemateca encher-se até ao tecto.

Cara, decote e voz
Manuel S. Fonseca

TINHA truques. Na Cinemateca, numa das maiores apoteoses com que o público de Lisboa brindou uma estrela convidada, Sara Montiel, 64 anos, muito pouco vestida, e toda em rosa, num estilo que Almodóvar copia em «mui-to-po-bre», contou um dos seus truques favoritos. Filmava com Gary Cooper. A cena era iluminada por um gigantesco projector de arco. Os olhos de Cooper eram só um traço, incapazes de se abrirem, tão violenta era a luz. Sara, pelo contrário, lá estava de olho arregalado. Cooper quis saber como é que ela conseguia. «Tenho um truque», disse ela. «Diz-me qual é», pediu-lhe o galã. «Não é de dizer, é de fazer», explicou ela, levando-o para um canto. Puxou de um frasquinho e deitou umas gotas em cada um dos olhos de Gary Cooper. «Anestésico», segredou Sarita a um Cooper que, durante quatro horas, passou a ter faróis em lugar de olhos.

A carreira de Sara Montiel deve começar a ver-se pelo meio. Os primeiros anos foram anos de chover no molhado, filmando para poder  continuar a levar o pão à boca. de Ti Quiero Para Mi (1944), a sua estreia aos 16 anos de idade, até Pequñeces (1950), nem ela pareceu interessar a câmara, nem os espectadores viram nela, e no que dela se podia ver, motivos para sobressalto.

Essa primeira fase espanhola já estaria esquecida e enterrada, se o caso de popularidade de Sarita não tivesse, explodido, inopinadamente, na fase que se iniciou com El Ultimo Cuplé. Maltratada e mal paga, Sarita Montiel deixou, em 1950, a ingrata, espúria e mesquinha Espanha, procurando emprego e papéis mais adequados no então florescente cinema mexicano. Começou com Necessito Diñero e acabou com Yo no Creo en los Hombres, passando por Cárcel de Mujeres, títulos suficientemente sugestivos para descrever o topo de ficção populista e as personagens primárias que incarnou.

Foi por esses anos, de 50 a 54, que a sua presença começou a ganhar na tela parte das qualidades eróticas que seriam trampolim para a fama ibérica e latino-americana qualidades que entretanto pôde exercitar em Hollywood, primeiro no conhecido Vera Cruz, de Robert Aldrich, ao lado de Burt Lencaster e de Gary Cooper, e logo a seguir em Serenade, de Anthony Mann (com o qual se casou), e em Run of The Arrow, de Samuel Fuller. O sol da Califórnia foi, todavia, de pouca dura.

Em Espanha lembram-se, então, dela, convidando-a, em 1957, para um filme que ninguém queria fazer e muito menos alguém queria pagar. O que ninguém adivinhava é que a carreira de Sarita Montiel estava, nesse momento, naquele ponto exacto onde repousa toda a virtude, a meio. E ainda menos poderiam adivinhar que esse filme, El Ultimo Cuplé, parecendo ser durante a rodagem quase uma humilhação para quem o fazia, se iria converter no maior sucesso popular do cinema espanhol, obrigando a apreciar a nova luz tudo o que Sarita tinha feito para trás e, sobretudo, criando expectativas para tudo o que a actriz iria fazer daí em diante.

 Cara, decote e voz foram os três vértices do sucesso de Sarita, por obra e graça de El Ultimo Cuplé, convertida em avatar do erotismo ibero-americano, para uso de quarentões a cauterizar casamentos no mínimo enfadonhos. La Violetera, Carmen la Ronda, Mi Ultimo Tango e Reina del Cantecler tornaram-na, no final dos anos 50 e no começo da década de 60, objecto de devoção e de peregrinação das classes mais desfavorecidas, nas tintas para os dramas ideológicos ou de acção social que a sociedade espanhola politizada vivia. Hoje, seja como fenómeno «camp», seja por recuperação cinéfila, mais ou menos historicista, Sara, a bela Sara, voltou a despertar as velhas «loucuras de amor». «Esa mujer»!

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Em Paris, a acanalhar

Se hoje fosse a Paris e tivesse de escrever sobre um lugar será que ainda escolheria, como escolhi, há 38 anos, um bar mauvais genre, estando-me-nas-tintas para o fulgor e fausto da novíssima ópera acabada de estrear?
No velho Semanário foi assim, em Março de 1989, e com o singelo título “Locais” que contei o que era andar à noite para os lados da Bastilha. No dia seguinte ia entrevistar Dominique Sanda.

Locais
Manuel S. Fonseca

Há muitos anos o 14 juillet também era uma festa no Balajo. Mas a pompa e circunstância burguesas do Bicentenário não comoveram ninguém na velha discoteca da Rue du Lappe. Apesar de ser pertíssimo da Bastilha, os frequentadores continuaram canalhas e o cenário cor-de-rosa.

É a dois passos da nova ópera. Desce-se a Rue du Lappe, apertada como uma travessa do Bairro Alto. Quase a meio, o néon dança rock entre as estrelas. Entra-se — consumo obrigatório, gravata e casaco exigíveis — e começa a viver-se perigosamente. Regra número um: nunca ninguém se olha nos olhos.

O Balajo não se chamou sempre assim nem teve sempre este ar mauvais genre. Foi fundado em 1936 por um auvergnois — na boa tradição de muitos restaurantes de Paris — e chamava-se Petit Bal Vernet. Ninguém sabe por que portas e com que voltas se chegou ao nome actual. Hipótese duvidosa, talvez o nome tenha que ver com a aquisição do local por Jo France e com a popularidade que le bal à Jo passou então a ter. Com efeito, Jo alargou a sala, dando-lhe a sua actual dimensão e, para decorar o interior, convidou Jean Mahet, criador do cenário do Moulin Rouge tal como hoje existe e também do cinema Grand Rex, ambos monumentos classificados.

Jean Mahet, ao fundo da sala, a querer quase romper o tecto, traçou uma skyline que tanto pode ser Paris vista de Montmartre (talvez do Sacré Coeur), como um pastiche amável do cenário de um musical de Busby Berkeley. Nas paredes laterais, Mahet rasgou vitrinas, perdendo os pruridos cosmopolitas e abrindo lugar a intimidades propiciatórias: são três grandes «janelas» de iluminação indiscreta expondo, de azul a rosa, a lingerie que Michèle Morgan poderia ter usado em Quais des Brumes. Na parede em frente, Mahet cedeu e, baixando a decoração para o nível do olhar humano, abandonou a estilização ou a alusão insidiosa: dois mitos, Bogart e Bardot, têm direito a citação explícita.

Muito mais do que a nova ópera, o Balajo é — ainda é — o símbolo do quartier de la Bastille. Dizer Balajo era o mesmo que dizer Bastille ou o mesmo que dizer Rue du Lappe. Jean Gabin vinha aqui ouvir acordeonistas espontâneos, como em Lisboa já se ouviu fado vadio. Rita Hayworth dançou ao som de «Mon legionnaire». Só Robert Mitchum não chegou à sala de baile: parou no balcão e perdeu-se (de «Mimi peau de chien» a «Avec son tra la la») a ler os títulos de canções rabiscados no espelho do bar de entrada.

Hoje, o patrão — má cara e pouco fiável — é um antigo lutador de catch as catch can. Criou dias especiais. Às sextas e sábados, o «disco» prova que os anos 70 já passam por «retro». Às quintas é a noite branché: os meninos bem vêm acanalhar-se procurando criar para a posteridade a lenda de uma escolaridade turbulenta.

Fermé le mardi.

p.s. – Não me arrependo de ter escolhido o Balajo. Voltou a estar na moda, cheio de uma dinâmica excitada, como se pode ver nesta reportagem da televisão francesa, que não desmente o que há 38 anos eu consegui sacar ao pessoal rijo dos anos 80. E já não fecha às terças – agora, santo Deus, é ao domingo.

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O Senhor da Aflição sou eu, que estou aflito*

O gordo à direita sou eu. Seguem-se o presidente da Câmara de Vila Nova de Paiva (a terra do Malhadinhas e dos meus avôs), José Morgado Ribeiro e Paulo Neto, aquilinista consagrado na zona. À esquerda Joana e o marido Aquilino Machado (o neto) e o presidente da Câmara de Moimenta da Beira, José Eduardo Ferreira. Ao meio, o presidente da Câmara de Sernancelhe, Carlos Silva Santiago. O vinho é “Terras do Demo”, claro, da Cooperativa de Távora, em Moimenta (recomenda-se o espumante da mesma marca)

 

O que de mais importante há para dizer sobre ‘O Homem da Nave’, foi já dito por estes senhores, meus fidalgos, como dizia o Malhadinhas. O senhor da Aflição sou eu, que estou aflito

E os senhores são, além do nosso presidente aqui de Moimenta e do editor da Bertrand, Eduardo Boavida, o Aquilino Machado – que ainda há de ser meu primo, tão afastado como o Caramulo está daqui, mas unido no entendimento de que é necessário revigorar a obra do seu avô, mestre das palavras e mestre da vida.

Sobre ele, o neto, tenho apenas uma vantagem: conheci-lhe o avô que fugiu da vida faz hoje 54 anos. Conheci-o pouco, mas a marca indelével da sua mão na minha cabeça ainda cá a sinto. Tão viva quanto aquela manápula que no cinquentenário da sua morte, ali na casa de Soutosa, quando eu referi – havia um advogado comunista, dramaturgo, por sinal estagiário do meu tio Álvaro – essa manápula se abateu sobre o meu ombro e a figura de Jaime Gralheiro ficou enorme à minha frente e disse na sua voz forte: “Havia e ainda há!”.

Também já partiu o Jaime, assim como o meu pai, que fez da Bertrand a sua casa tantos anos e que tanto conviveu com Aquilino, para já não falar do meu avô, que a Dona Gigi, avó do Aquilino, disse, em entrevista publicada por António Valdemar, ser o único homem em quem o Mestre confiava plenamente – dedicou-lhe em letra impressa os Cinco Reis de Gente, as memórias da meninice.

O outro senhor é Álvaro Domingues, académico da Universidade do Porto, geógrafo, como este Aquilino neto, minucioso, curador e investigador da vida do campo. Os geógrafos gostam de Aquilino porque ele – em minha opinião – além de escritor é descritor. Também ele disse o que deve ser dito desta Serra de onde se avistam todas as serras que vale a pena avistar. Di-lo o autor na introdução, mas Álvaro Domingues, que é académico não esquece o essencial: os homens e a sua natureza.

Não esquece a característica de homem que foi o autor, a quem chama (e bem) rebelde crónico ou lobo sem coleira – aquele a quem se grita ‘Á coa’, como o Gil Sapateiro ensina o filho, para depois o enganar e fazê-lo saltar da lura onde se metera.

Mas Álvaro Domingues faz mais do que isso – e tiro-lhe o meu metafórico chapéu – porque desmonta a mitologia romântica em volta do aldeão. Bem sei eu que ela é tão falsa como Judas, ou mais, porque os autores desta patranha, fossem os que ele cita, como Jules Michelet ou António Feliciano de Castilho, fosse ainda o nosso Eça que se desconchava em ‘A Cidade e as Serras’ admirando a paisagem e os odores de uma sopa bem cozinhada, ou não conheceram a aldeia ou mentiram com os dentes que puderam.

Eu por aqui andei a matar o tempo. Coisa de que ele se vinga pois ele é que me mata agora. Tipo pescarreta, mais do que caçarreta. E andei como pude, se pudesse descalço, não por falta de sapatos, mas para imitar os sobrinhos do padre Lucas ou os netos do Luís e da Florinda até me ir embora com o ar descrito num destes capítulos, quando vai o doutor Anacleto e outros tantos, além do estudante.

O Homem da Nave é granítico, daqueles de antes quebrar que torcer. Faz e diz isto e aquilo e também o seu contrário, como todos, mas não tendo o gesto por incoerência, nem por oportunismo, mas por astúcia do momento. Consegue, apesar de tudo, manter intacta, como ar da nossa serra de Leomil (ou da Nave que não sou eu a meter-me nessas disputas geográficas), a pureza de intenções e uma certa candura que jamais o abandona.

Já velho, interrogado a propósito de “Quando os Lobos Uivam” por um brutamontes que lhe dispara: “O Senhor é português?”, confessaria mais tarde, já em casa, a Dona Gigi, sua mulher: “fosse eu mais novo e tinha-me virado ao homem partido aquilo tudo”. Não era um ferrabrás, mas também fora um ferrabrás. Diz ele, da sua própria terra: “Nas imediações havia povos, bárbaros de todo, governados pela lei da selva, onde se matavam uns aos outros com sobranceria e inaudita fereza”.

E, como escreve noutro dos livros do Quinteto – e aqui fica o quinteto da Beira – composto pelos livros Os Avós dos Nossos Avós // Aldeia // Geografia Sentimental // Arcas Encoiradas,// O Homem da Nave (socorro-me do académico Valdemar para esta taxonomia), como escreve nas ‘Arcas Encoiradas’.

“A fazendinha de regadio produzia-lhe o linho de que fazia os lençóis, a camisa, os sacos, as calças de Verão e até a mortalha. As ovelhas davam-lhe a lã de que urdia o burel em que talhava a andaina, capucha, barrete e meiotes. Este burel, batido nos pisões, com mais pisadura ou menos pisadura, adaptava-se aos diferentes graus da sua necessidade: impermeável para a chuva; leve para as festas; rala – a chamada serguilha – para aventais; entretecido com trapo, para mantas da cama. Noutros tempos eram os pastores que confeccionavam os botões, recortando-os no chifre, atrás do gado. À parte as brochas para os tamancos e o cabedal para as encoiras, o serrano estava-se marimbando para o filibusteiro. Que mais precisava ele? Não precisava de remédios, e se adoecia era tratado pelos simples à maneira dos lusitanos.”

Podia, desta obra, retirar a parte da carta de Ludovina Jesus para o Brasil. Cito de cor: o porco, com sua licença, está magro e tivemos de o matar antes que se fosse. Já a vaquinha se vai portando em termos. Era este o mundo, o idílico mundo que alguns persistem em nos vender.

Ora bem. “Deus nos guarde de parrafo [parágrafo] de legista, infra de canonista, etc de escrivão e récipe [receita] de mata-são [mau médico]”. Eis as coisas que eu ainda hoje utilizo para me proteger do mundo e me abrigar na Nave, ou em Leomil, que é mais próprio, se não for numa fraga da Lapa, onde a Nossa Senhora fez mais milagres que pensamos.

Sim, nós – eu digo estes nós de coraçao aberto e orgulho cheio – somos assim: manhosos, mas gente de boa cepa, talvez um pouco puxada ao exagero, de exaltações rápidas, perdões imediatos, sonhos grandes, pequenos feitos e coração puro.

Ó Aquilino, tens aqui, Mestre, no teu neto, um homem que ainda pode ter umas costelas valentes daquilo que tu – meu querido, bom e paternal amigo – assim como eu, por todos os costados da zona, ainda tenho. Sei que as terras foram e são selvagens, do Marau, acusado de passador de moeda falsa e de bater na mãe, ao Zé da Custódia que parecia aviar os pardais como quem mata piolhos, terras de analfabetos e brutos, mas onde um aperto de mão tem o valor de um contrato em tabelião.

Quereis mais sobre a Nave? Subia-a! Como fez o Mestre que por aqui andou escondido com o filho Aníbal, Ide aos locais que ele diz, onde nunca a bota da lei calcou. Não sei se ainda há lugares assim, mas quero acreditar profundamente que sim. Que vos tenho, meus amigos, acaso a fúria das bestas de Lisboa me queira perseguir ou fazer mal.

O homem da Nave é o Mestre e sou eu. Sou eu pelo meu bisavô e pelo meu avô, que aqui andaram; pelo meu pai que se foi há dois anos, pela minha família que é a vossa família.

*extrato da apresentação de ‘O Homem da Nave’ junto à capela do Senhor da Aflição, perto de Soutosa, Moimenta da Beira, a meia encosta entre a casa de Aquilino Ribeiro e o cume da Serra da Nave

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Isto o que é?

isto o que é?

Vou mudar de casa – vendi a minha, que por acaso até era bastante decente, o ano passado. No dia um de Agosto. Via-se o mar e a serra da varanda do quarto e da varanda da sala. Da janela da cozinha, o jardim maduro com a piscina em frente, e a buganvília roxa, um nó de ramos e flores pérgola afora, à direita. A biblioteca verde, sim, verde, e fui eu quem a pintou prateleira a prateleira, como é possível, fazia horas extra como quarto de visitas. Mas quais visitas?

Estava a quinhentos metros da praia – medi.

Raramente usava carro, só quando chovia ou não tinha outro remédio. A minha linda Peugeot bastava-me. Durante anos fui feliz ali, com o Cão e aquele grande silêncio que fazia o mar ouvir-se pela chaminé da lareira com as gaivotas a ladrar-lhe por cima, e foi só nessa altura, pouco depois de me ter mudado, em pleno Novembro, que percebi porque lhes chamavam cães do mar.

No Inverno, parecia que as ondas me queriam entrar pela porta, o Cão rosnava-lhes de olhos semi-cerrados, deitado ao comprido no braço do sofá, e assim mesmo, sem medo daquele grande lobo, a maresia comia o verniz, a madeira, oxidava o puxador e o que mais apanhasse. Na Primavera vá de reparar tudo. Houve o ano que tive de pôr aquele chumbo de porta blindada a levar uma folha nova tal não foi o estrago. E o ano em que mandei fazer uma estante à face da lareira, a carreguei de livros de poesia, de número atrás de número de NYREV e sabe Deus o mais que assinava e devorava, e enfiei para lá uma televisão fora de moda que mal via a menos que ligasse o dvd. O que gostei daquela estante onde tinha de me empoleirar para chegar ao fundo da prateleira de cima… E dos filmes em looping na velha TV? Na altura fazia planos de comprar a poesia toda, logo a começar pela da Assírio e avançando depois horizonte adiante até ao princípio do tempo. Quem tem a poesia toda? Não sei. Mas num aniversário ofereci-me a Rosa do Mundo para mentir que era eu.

Apesar de ter mandado pintar a casa quando foi comprada, era novinha em folha e estava lambida de um branco que deitava sombras cinzentas, tive de a mandar pintar logo de novo para corrigir o disparate da cor escolhida. Ficou do exacto tom. Sempre fui uma exacta apesar das pilhas de livros pelas cadeiras, mesas, sofás. A exactidão faz-me bem. A minha mãe dizia que abrir os meus armários lhe dava nervos: quais militares alinhados, as minhas chávenas todinhas de asa à direita… Mas ó. Tinha pássaros e ramos e ninhos e flores, insectos e folhas desenhados à mão livre, assim, em locais inesperados, mal se viam até que apareciam súbitos, junto ao rodapé, ou ao lado da porta, a entrar em voo pela janela, e apanhavam toda a gente de surpresa. Era a bicheza local, uma pega azul, duas poupas bebés, borboletas, um louva a Deus, a cistanca, os juncos…  É para que saibam que não se sabe realmente. Pois não? E o verdadeiro ninho de andorinhas lá em cima dispensou-me do Bordalo excepto na cozinha.

Cresci numa casa. Nunca me habituei a apartamentos. Aquele apartamento era uma casa a fingir no último piso: as escadas para o andar de cima, a ausência de esconsos, os tectos altos, a vista desafogada, a ilusão do jardim, emprestavam-lhe o ar de casa casa. E o acesso era por galeria. A galeria, vá-se lá saber se por ser mais ilusionismo, desta vez o de um passeio de acesso à entrada, deixava-me feliz. E o silêncio. Acho que já disse o silêncio. Silêncio suficiente para ser acordada todas as manhãs pela passarada na guarda de ferro da varanda. Era ali que vinham. De todas as guardas de todas as varandas, era ali que reuniam ao toque de alvorada enquanto o Cão se espreguiçava e eu fingia que dormia. Ai que coisa boa ter um Cão, pássaros na varanda e uma almofada onde adormece todo o ruído, e não ter futuro. Não esperar nada. Viver hoje. Só hoje. Só um dia de cada vez como aquela gente diz nos filmes nas reuniões dos A.A..

Isso mudou. Foi sorrateiramente. Primeiro uma coisa. Outra. Pensava e amanhã? Quando o tempo começa a ganhar densidade, existir não chega. Faltam pessoas. Uma ideia de vida. A perspectiva de ser além de existir. E mais outra. Quando se juntaram todas as coisas pareceu que um dia mudou quando foram tantos dias para mudar, a correr subterrâneos. E foi-se o silêncio e com ele foi-se ser e mais nada. Não gosto de dividir paredes. Muito menos quando se tornam esterofónicas, histericofónicas. E tenho um defeito – quero dizer, tenho mil. Um grande defeito, por ser mansa, não se percebe, nem eu percebo, que a coisa vai e vai e vai e um dia de tanto ir não volta. Não há nada a fazer. Fechei a porta. Nunca mais.

No dia um de Agosto, pouquinhos anos depois do nunca mais, vendi a minha casa. Porém a saga, a saga de arranjar casa em Lisboa já estava em curso há que tempos. E foi por causa dela, ali, a desempacotar caixotes de isto o que é? que encontrei a escritura original do apartamento de antes deste onde vivi com o meu lindo Cão, o apartamento de antes de haver O Cão, a escritura do meu primeiro lugar de pessoa crescida de dezoito anos, tantos, meu Deus, onde outra eu viveu uma vida que misteriosamente foi minha e onde nada aconteceu como fora planeado ou sequer imaginado. Nada. Só surpresas de rodapé ou a entrar pela janela.

Agora vou para a minha terceira casa fora de casa. Planos? Só a cor exacta das paredes e a aguarela que encomendei do meu Cão.

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As pernas do Imperador

 A revista Epicur é muito boa. Fazem-na, sabendo o que fazem, amigos meus, o Mário Rui de Castro e o Triste Pedro Marta Santos. Escreve lá a Triste Eugénia de Vasconcellos. E escreve lá também este vosso terceiro Triste, como se estivesse em casa.
Vem aí – está só a despir-se para a ocasião – a revista de Verão. Mas o que quero dizer é que me deixaram ir a Viena passar o Carnaval e dançar na Ópera. Foi o que escrevi no número de Primavera. Leiam, sim? Ou dancem, pronto.

Baile na Ópera
Manuel S. Fonseca

José tinha duas pernas. Não é fácil saber de que gostam as pernas de um imperador. Mas não ouso atirar-lhe às pernas a mesma acusação que me atrevo a cravar na sua mão direita. A mão de Francisco José era uma mão relutante. Já as pernas imperiais tinham dançado dezenas de bailes e ainda a sua mão direita hesitava assinar o decreto que a boa sociedade de Viena lhe pedia.

Vou já dizer ao que venho, mas mesmo antes de dizer seja o que for, é preciso proclamar um princípio ab ovo: Viena gosta de dançar. Deixemos o imperador Francisco José de pernas amarradas, enquanto damos corda às nossas para uma breve viagem no tempo. Em 1814, a Europa estava como a Europa há-de estar daqui a cinco anos – basta que tudo corra mal e já se sabe que tudo o que pode correr mal acaba mesmo por correr mal. Ou seja, tal como hoje, em 1814, a Europa estava de pantanas. Napoleão, afamado corso com gosto pela artilharia, fizera um inter-rail avant la lettre, ou uma espécie de Erasmus militar, bombardeando, em estágios semestrais, a extrema Rússia, a Prússia de dignos bigodes, a alva Polónia e o coração da Europa que era o império austro-húngaro. Fora, enfim, derrotado, e mau grado ainda ter vindo, como as galinhas a que minha mãe cortava o pescoço, a estrebuchar no que foi o seu último governo de Cem Dias, a Europa veio a Viena parlamentar para acabar com as guerras de Napoleão e com as guerras dos futuros Napoleões – entenda-se, sempre que a Europa queira ser Europa terá de vir a Viena parlamentar!

Um Congresso reuniu as potências, a Rússia, a Prússia e, entalada entre as duas, a Polónia, mais a Áustria, a manhosa Inglaterra e a depauperada França e não vos maço com a lista dos países satélites que vieram para ouvir e calar. O que fizeram os congressistas? Dançaram. Houve bailes todos os dias para todos os gostos. Bailes de cerimónia e, sobretudo, como convém a um Congresso, bailes de máscaras. Um filme dos grandes estúdios alemães da UFA, a que Hitler apagaria o brilho e o gosto germânico pelas brumosas fantasias, recordou, no século XX, essa explosão lúdica de pernas, braços e corpos.

O filme é de 1931 e chama-se O Congresso Que Dança. É muito mais Cinderela do que histórico e político. Toma liberdades de conto de fadas e mostra a paixão do Czar, incógnito, por uma jovem austríaca que lhe oferece flores. Ao contrário das outras cabeças coroadas, o Czar obstina-se na recusa a bailes, dizendo: “Não vim a Viena para ver bailados e muito menos russos.” Não dançou de uma maneira, dançou de outra, nos ternos braços da bela e mignonne Lilian Harvey, a actriz que, e perdoem-me os hífenes, a Europa via então como a mulher-criança, o paraíso-feito-mulher, num arrebatamento avant-pedophilie que outro vienense, o pintor Egon Schiele, não desdenharia.

Pares de pernas tão iguais e tão diferentes

E por já não haver czares a apaixonarem-se por floridas plebeias, voltemos a pôr os olhos na mão direita de Francisco José. Acaba de assinar o decreto que autoriza o que sempre rejeitara: uma soirée na esplêndida Ópera de Viena. Soirée é um termo ambíguo, que não contempla necessariamente um baile. Mas à meia-noite, na noite de 11 para 12 de Dezembro de 1877, o ardor bailarino de centenas de pernas de homens e mulheres austríacos, pares de pernas tão iguais e tão diferentes das pernas de Francisco José, venceu o preconceito e pôs a Ópera a dançar, como já se dançava, com loucura de fin-de-siècle na Ópera de Paris.

Hoje é quinta-feira, dia 23 de Fevereiro de 2017. É a última quinta-feira antes do Carnaval e da pungente quarta-feira de cinzas e eu vou a pé, a caminho da Ópera de Viena. São sete horas da tarde e da porta dos imponentes hotéis, do Bristol, do Sacher, desabrocham mulheres-crianças, musas de branco, lolitas que, mais do que o paraíso-feito-mulher, diria serem uma doce tortura-que-se-fará-mulher. Saem à rua e julgam ter os pés no chão, mas enganam-se. Transportam nelas uma alegria que as faz levitar. Sorriem para toda a gente, para mim também, e o sorriso delas, tão branco e primordial, desarma nuclearmente o mundo. Como se a inocência voltasse a ser possível. Há uma onda de luxo, de dinheiro resplandecente, a caminhar da rua pedonal Kärntner para o Opernring, uma vaga de perfume que sai do Sacher Hotel para dar os cinco passos que o separam da entrada da Ópera.

Sinto que devo já esta explicação aos meus leitores: estas miúdas vêm debutar. Musas ou nereides, chamam-se Franziska, Sabine, Hanna ou mesmo Eva e hoje, na vida delas, vai ser o primeiro dia em que à luz chamarão luz e à noite chamarão noite. Vão ter a sua noite de luz, o dia primeiro. E eu pensava que não, mas falando com elas descobri que afinal sabem: debutando, continuam uma tradição que é maior do que elas, o rito de passagem de meninas a mulheres.

Volto brevemente às pernas de Francisco José, imperador da Áustria e rei da Hungria, Croácia e Boémia. Com um ultimato à Sérvia, fora ele a começar a I Grande Guerra, um baile de metralha e gás mostarda com milhões de mortos, uma carnificina dançante. Abalado, calvo e velho, o imperador sente um derradeiro esticão nas pernas a 21 de Novembro de 1916, e é a última coisa que as suas pernas sentem. Rígido, o império aguenta-se de pé mais dois anos. Depois, uma burguesia industriosa, respondendo à crise da derrota na I Guerra e ao desmembramento do Império, substitui a velha ordem e proclama a república.

Uma prodigiosa alquimia criada por Johann Strauss

A Áustria não deixou, porém, de dançar – bem vos avisei, a Áustria adora dançar. Em 1921, apenas três anos depois do Império, pernas republicanas dançavam valsas, quadrilhas e polcas na vasta sala da Ópera, como antes as tinham dançado as pernas aristocráticas. E, em 1935, sob o alto patrocínio da decidida mão e robustas pernas do Chanceler Federal, tem lugar, com as actuais características e com este nome, o primeiro Baile da Ópera de Viena, com a apresentação à sociedade de uma centena de meninas que, em poucas horas, uma prodigiosa alquimia desenvolvida por Johann Strauss transforma em mulheres.

Estou em Viena e também eu vou debutar. Enganei a fome com uma apressada garrafa de água e um par de inevitáveis salsichas, um dos 2.500 pares de salsichas que o baile comeu. Trago vestida, saiba-se, a melhor e mais cara camisa que já vesti na vida. Descobri que, de tão fanadíssima, não vinha na mala a velha camisa de cerimónia que tenho desde os primeiros Globos de Ouro. Fui comprar uma no Sir Anthony, men’s best adress, dizem eles seguros do que dizem, o que a minha carteira amargamente comprovou. Recorrendo ao meu melhor inglês, bem sugeri something less expensive, língua-de-trapos que foi recebida com um sorriso complacente e um of course not, um “claro que não” acompanhado de conversa consoladora, em que o magnânimo funcionário de Sir Anthony me revelou compras de clientes meia hora antes de o baile, com contas caladas, que essas sim fariam do homo economicus que eu sou um homo galacticus, seja lá o que isso possa ser.

Entrei agora na sala da Ópera e não há ninguém nos camarotes. Somos só umas 20 pessoas na sala a que retiraram a plateia e abriram o palco para a transformar num imenso salão de baile, e meti conversa com Valentin, neto de bascos de uma aldeia encostada a Biarritz, segunda geração na Áustria. Conta-me que já é a quarta vez que cobre o Baile da Ópera para a ORF, a televisão austríaca. Explica-me o alinhamento do espectáculo, os hinos da Áustria e da Europa primeiro, depois a entrada das debutantes com os padrinhos, o ballet, as interpretações do cantor que este ano será Jonas Kaufmann, tenor alemão. Valentin é novo mas, sem menosprezar a ascendência basca, é um austríaco orgulhoso e jura-me que o baile é muito mais do que um evento cor-de-rosa ou uma festa. Acredita no cerimonial, no valor simbólico, atrevo-me eu a dizer, e na comunhão plena das cinco mil pessoas que ali se vão juntar. Quando o mestre-cerimónias gritar “E agora todos valsam!” também ele irá dançar com a namorada que há-de chegar.

A libertadora beleza de um decote

Nada do que Valentin disse me preparou para o que a seguir aconteceu. Uma hora e quarenta minutos antes de serem declaradas abertas as hostilidades o salão está cheio. Uma pequena multidão alinha-se e esfrega-se atrás de uma corda vermelha que uns pajens ou escudeiros operáticos seguram. A sala da Ópera de Viena parece o Mar Vermelho dos Dez Mandamentos, de Cecil B DeMille, na cena em que Moisés separa as águas. É entre essas duas alterosas barreiras humanas que o espectáculo vai ter lugar. Não cabe mais ninguém e as minhas costas convivem com o peito ameno de duas gentis japonesas. Nem eu podendo dar um passo à frente, nem elas podendo recuar um passo atrás, não tenho a certeza de que, bem contadas as nuances, as jovens japonesas não fossem três. Vieram com dois jovens austríacos que, no ano anterior, tinham, eles mesmos, debutado, se assim se pode dizer de um rapaz. Gabam-se da experiência com uma excitação e uma alacridade de meninas. E se primeiro me apetece passar-lhes uma reprimenda viril, ouvindo as reacções deliciosamente musicais das macias japonesas, só me resta invejá-los. Explicam às deslumbradas jovens do país do haiku e de Mizoguchi a tensão e a exigência das coreografias e dizem-lhes que houve mesmo um dos rapazes que desmaiou.

Não chegou o venerando imperador do Japão, mas chegou o Presidente da República da Áustria. A sala ouve o hino de pé, os camarotes iluminados, mil e trezentas garrafas de champagne patrioticamente recolhidas nos frapés, casacas e condecorações tão orgulhosamente erguidas como o comovente peito feminino assoma da beleza viva desses libertadores decotes que, santa paciência, Deus não abençoa mais do que eu. Sem decote, Christine Lagarde, a patroa do FMI, está no camarote à minha frente e olha, como eu, para esta sala que, de pé, ouve o hino da Europa. Claro que é sobretudo uma festa, mas também se vê logo que há, nesta sala, um pouco mais do que uma festa. Há aqui uma forma de vida, a que afluem tradição, o gosto do êxito e do bem-estar, um habituado convívio com a riqueza e com os prazeres sem sobressalto a que gerações de revoltados Rimbauds chamaram simplesmente burgueses.

Muito perto passa o Danúbio, estrada vertebral da Europa Central, que atravessa ou se roça por treze países, desde que irrompe na Floresta Negra até que, em delta, se afoga no Mar Negro. É o Danúbio que está, afinal, na sala da Ópera, o antiquíssimo poder das suas águas, fonte de vida, da humilde fertilidade da agricultura às fulgurantes indústrias, parteiro de aldeias e da sumptuosa arquitectura das cidades. Um rio é o pai das Musas, se é que a voz de Johann Strauss tem alguma autoridade e os meu leitores me deixam pedir-lhe ajuda.

A palpitação rubra de quem experimenta a felicidade

Há cento e oitenta meninas que entram na sala, de puríssimo branco, tules, sedas e organdi, luvas de manga longa. Tiaras de diamantes na cabeça. Brincos de pérolas. Vêm como um rio, apresentar-se à sociedade. Estão a dois passos de mim e trazem nas caras a palpitação rubra de quem está a experimentar a felicidade. Umas fecham quase os olhos, outras seguram neles a lágrima centrípeta que nunca deixarão cair. Karin, por exemplo, é igual a uma moça de Matosinhos, rosada, cabelo negro, mais farta do que magra, pujança a que os 18 anos de hoje dão graça e que os anos futuros converterão em peso. Tem a pele fresca, de um verniz cristalino, mas os nervos, a ansiada tortura de num só dia passar a ser mulher, puseram-lhe nas costas nuas duas borbulhas vermelhas e púberes, que a maquilhagem tenta disfarçar e os meus dedos podiam, se esticasse a mão, afagar para as acalmar. Se ela precisasse… Mas não precisa. Karin e as outras debutantes entregam-se agora, com precisão, mas não de relógio suíço, a uma coreografia. Os pares delas, os rapazes, ajoelham-se numa cortesia de cavaleiros medievais. Recitam-lhes com o corpo cantigas de amor, uma rosa de prata na mão. E elas hão-de responder-lhes, depois, com igual vénia, o corpo em forma de cantiga de amigo, as costas da mão oferecidas ao primeiro beijo. A sala não resiste a esta delicadeza, quase pueril, e vem abaixo com o maior aplauso da noite, a que logo responde a valsa de Strauss, o Danúbio Azul. Os neurofisiólogos vieram há pouco garantir que, estimulado pela música, um feto de 6 meses já dança. Os 180 pares de debutantes, que estão na sala da Ópera de Viena, ao contrário do Imperador Francisco José de pernas relutantes, ainda eram fetos e já dançavam. Dançam e vê-se que pensam com o corpo, braços e pernas, peito e ventre. Como se a música, que os pés deles elegantemente pisam, tivesse sido a sua primeira linguagem.

Dançam o Danúbio Azul e já nada os separa da multidão que assiste, dos pais e das mães que dos camarotes os comem com os olhos, do Presidente da República que os acolheu, dos 71 anos da actriz Goldie Hawn que veio fazer companhia ao milionário Richard Lugner – por 500 mil euros, se cobrar o que o ano passado cobrou Kim Kardashian. E que interessa a moeda vil! Uma valsa levou os jovens pares de uma margem à outra do rio. A sociedade já os recebeu e o mestre-cerimónias grita então, “Alles Walzer”, os cordões vermelhos desaparecem e todos valsam. Mais de um terço dos cinco mil cento e cinquenta convidados, mil pares pelo menos, evoluem no chão da sala da ópera de Viena. A dança, essa liturgia de júbilo, esse prelúdio que arrasta os corpos, adormecendo-lhes a violência para neles acordar a vontade de fusão, toma conta de Viena. Era capaz de jurar que já vos tinha dito isto: Viena adora dançar.

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O monstro da lagoa azul

Foi assim por acaso, como tantas coisas por acaso: andava à procura de outas fotografias e deparei-me com esta que foi parar àquela pasta por engano. As minhas amigas pequeninas na Lagoa Azul.

Naquela tarde tinha-as levado em expedição científica para a Serra de Sintra. Instrumentos de registo: blocos e lápis de cor. Instrumentos de observação: pernas, olhos abertos, lanche e maior fome de descoberta. Os meninos não ficaram na foto porque já tinham partido à descoberta. Voltaram e desenharam ninhos e patos. O mais pequeno coloriu o monstro da Lagoa Azul, que tem talvez vinte patas e é vermelho fluorescente. Um desenho científico muito realista. Não percebo como não existe a lenda do monstro da lagoa azul, porque é muito mais impressionante que o do Loch Ness e este pelo menos existe mesmo. Não fotografei o desenho e isso é que é de lamentar, agora não há prova.

De lamentar mais ainda é o facto de estar agora sentada numa secretária a trabalhar, numa redacção sem janelas nem vista para nenhuma praia ou lagoa. neste domingo de sol.

“Escre­ver é triste”, não é Drummond de Andrade? “Impede a con­ju­ga­ção de tan­tos outros ver­bos”, só fica espaço para esta redacção sem janelas e umas notícias sem graça.

O que você perde em viver, escre­vi­nhando sobre a vida. Não ape­nas o sol, mas tudo que ele ilu­mina. Tudo que se faz sem você, por­que com você não é pos­sí­vel con­tar”.

E fico a olhar, parada, para a fotografia da Lagoa Azul tirada há sete anos. Agora as minhas amiguinhas já estão grandes e naquela idade de descobrir uma Lagoa Azul como a do filme. E de mergulhar como no filme e explorar outras coisas sem as desenhar nem escrever. Há dias em que escrever é triste à brava, caramba. Ou não. Um dia alguém se lembrará de fazer um blog com esse nome e aí é que vai ser uma alegria. As minhas amiguinhas iriam logo pôr um big smile a fechar a coisa e assim já tínhamos um monstro sorridente a boiar neste texto.

 

 

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A cegonha, o rinoceronte, a bicicleta, O Cão e eu

A CEGONHA, O RINOCERONTE, A BICICLETA, O CÃO E EU

Tenho uma bicicleta de que gosto muito. Uma Beach Cruiser que veio substituir a Peugeot preta que adorava e me roubaram.

No tempo inicial da Peugeot, ainda vivia no Paraíso mas trabalhava que me fartava, à hora de almoço ia treinar, ao fim do dia idem aspas, chegava a casa morta, e aquele passeio de bicicleta, a volta completa que fazia com o Cão pelo Éden, então um cachorrinho, e o mundo em silêncio de pessoas, só voz de pássaros e de árvores e ervas, a voz grave do mar ao fundo e a do sal perto, logo de manhã muito cedo, deixava-me de bem com o que viesse. No Outono, punha-se a vida em cores de Turner e os pneus rodavam sobre o chão de folhas como quem pisa um dos céus que ele pintou. Na verdade, um dia, num desses dias de Turner, o passeio de bicicleta deixou-me de mal com tudo.

Íamos os dois, o Cão e eu, os grandes companheiros. Foi quando vimos uma enorme cegonha com a asa direita partida, pendida, no meio da estrada, a andar -mal se tinha de pé. Estacámos todos. O Cão. A cegonha. Eu. Toda a gente sabe que sou uma mariquinhas do pior. Fiquei logo doente, aflita e cheia de e agora o que é que eu faço… Mas alguém consegue ver um bicho assim belo, aquele porte alto de orgulho e não ser mariquinhas também? Queria ir ajudar a cegonha. Não queria assustar a cegonha. A vida imóvel à espera do primeiro gesto. Mexi-me em câmara lenta. Desci. Bicicleta no descanso. Cão no cesto – shhh… ouviu, Cão? Mal ponho o pé na estrada ao lado da ciclovia, a cegonha faz um arranque baixo, em esforço, pousa lá à frente, e eu que não digo um palavrão ainda que escreva todos, penso merda, merda! não consigo fazer nada pela cegonha, ainda ficou pior do que estava. Ponho-me a ligar para todo o lado a ver se alguém me salvava a cegonha. E de repente, o primeiro carro na estrada e ela desaparece.

Não tenho, nunca tive, e se o passado é um bom preditor do futuro, nunca terei força para fazer face a estas coisas, as me fazem chorar, acho que dos nervos de não fazer nada – a impotência mata-me, seja ao perto ou ao longe. Não aguento, é físico. Lembro-me de estar no ginásio, na televisão em frente da passadeira passava um documentário de vida selvagem. Estava desatenta, sabia lá que os selvagens ali éramos nós… Só percebi quando os vi a serrar o corno a um rinoceronte e o deixaram vivo, a morrer lento, a esvair-se em dor e sangue. Na altura treinava muito. Chegava a ficar nauseada do cansaço. Nunca se comparou à náusea que senti naquele momento. Porque não matá-lo? Pelo preço da bala.

Isto, que nunca passa, passou. Foi mais ou menos por esta altura, a 23 Maio, a espreitadela da redenção. Em 2009. Desse dia de Primavera já a cheirar a Verão por todos os lados, fez-se um Inverno como poucos. O céu começou a baixar o seu chumbo sobre o azul e era já um tecto baixo de chuva incansável e grossa. Relâmpagos majestosos. Um choque de beleza bruta – qual Turner qual o quê… Lixem-se, não trocava aquele momento nem pelo meu Musée d’ Orsay. Do lava-loiça por baixo da janela onde estava, obviamente a lavar a loiça, via, em frente, o jardim com a buganvília roxa a escorrer água pétalas fora; em frente, os telhados turquesa de uma construção antiga nunca tinham sido tão claros e limpos como contra aquele chumbo todo e a minha cabeça teórico-imaginativa pôs-se logo a magicar na descrição da cidade edificada por Akhenaten ao início do seu reinado, a que terá tido telhas daquele turquesa quando, de repente, a beleza prática me lixa o lirismo teórico. Trovões como poucas vezes na vida. Relâmpagos. Rios de chuva. As cores saturadas de vida contra o mundo neutro de cinza a saltarem aos olhos. A a natureza a dar show e eu espectadora feliz. Quando volto a olhar para a direita, encostada à primeira trave da pérgola da buganvília, altíssima, forte, encharcada de não poder voar naquele rio cortado de relâmpagos, uma cegonha. A cegonha?

Já não moro no paraíso. O meu querido Cão já morreu – se neste instante chovesse o céu todo como naquela tarde, mesmo sem cegonha, sem buganvília e sem tectos azuis havia de voltar a pô-lo no parapeito da janela, perto os dois um do outro de nariz no vidro.

Porém chegaram hoje o selim, o cesto e os manípulos novos que encomendei na Amazon para a minha bicicleta. Talvez esta noite sonhe com um rinoceronte possante a passear nos meus sonhos.

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O Stradivarius de Sternberg

 

 

“Pernas, voz, fumo ou só um nome: Marlene. Morreu esta semana, podia morrer na próxima, ou nunca. Era eterna.” Escrevi estas duas frases para encabeçar o artigo que, três dias depois da sua morte, publiquei no Expresso.
Passaram 25 anos. E ou eu estou a ficar mesmo muito velho, ou Marlene me parece hoje mais viva e mais próxima do que nesse já distante 1992.

Em Witness for the prossecution, de Billy Wilder

 O Stradivarius de Sternberg
Manuel S. Fonseca

«It took more than one man to change my name to Shangai Lilly»
Marlene Dietrich em O Expresso de Xangai

CADA violinista tem o Stradivarius que merece. Os sete nomes do Stradivarius do realizador Josef von Sternberg (metáfora que paga direitos de autor ao ensaísta inglês John Baxter) foram, sucessivamente, Lola Lola, Amy Jolly, X-27, Shangai Lilly, Helen Faraday, Catarina II e Concha Perez. Abram chaveta para estes nomes, sete vezes mudados, e, na pontinha da seta, encontram a fonte misteriosa dessas múltiplas incarnações: Marie Magdelene Dietrich von Losch a quem nos habituámos a chamar — pateticamente às vezes, como às vezes por ela chamava o professor Rath, em O Anjo Azul — Marlene Dietrich.

Marlene foi sete vezes Stradivarius nas sete vezes em que Sternberg, por ela e com ela, compôs as sinfonias chamadas Anjo Azul, Marrocos, Fatalidade, O Expresso de Xangai, Vénus Loura, A Imperatriz Vermelha e The Devil is a Woman (o único que, bizarramente, não estreou em Portugal). Não lhes querem chamar sinfonias? Pois bem, podem muito bem, se assim quiserem, chamar-lhes filmes. Não foram, arrisco eu, filmes que obriguem a correr a passadeira vermelha reservada aos génios da história do cinema. Sternberg talvez tenha sido sempre um capítulo secundário do romance dos grandes autores. Quero lá saber! Ou melhor, quiseram lá saber as gerações e gerações que, com a imagem fabulosa de Marlene, nesses filmes e por esses filmes, se iniciaram no sacrossanto mistério da sexualidade.

Em Morocco, de Sternberg

Pernas, voz e fumo constituíram a trindade do mistério Marlene — Miss Dietrich, se quisermos pôr agora a nota de pudor que o passamento, esta semana, em Paris, aconselha. Pernas, voz e fumo foram os materiais com que Sternberg, nos filmes mencionados, moldou o mito de Marlene. O mito ganhou asas: a asa direita do exotismo; a asa esquerda do perigo.

Essa imagem, construída nos filmes dos anos 30, e que persistiu, durante décadas, como imagem poderosa das mais acabadas fantasias libidinais da nossa cultura, foi carregada por Sternberg com todos os ingredientes mais óbvios: todos aqueles sete filmes estão povoados de chapéus, penas, véus e máscaras, símbolos sexuais de «pára, arranca», tão imediatos como, para um automobilista, o vermelho e verde de um semáforo. Do guarda-roupa de Marlene poder-se-ia dizer, como Lawrence Grant diz a Clive Brook, em O Expresso de Xangai, queixando-se da inusitada companhia feminina que os rodeia no comboio em que viajam: «Well, sir, I suppose every train carries its cargo of sin, but this train is burdened with more than its share!» (Bom, senhor, suponho que todos os comboios levam a sua carga de pecado, mas este comboio vai sobrecarregado com mais do que pode!)

fotografada por Cecil Beaton

O QUINHÃO de pecado na roupa de Marlene — ou na falta dela —, o quinhão de pecado nas pernas, na voz e no fumo que sempre a cerca parecem ter sido carga a mais. Foi, pelo menos, o que, com algum humor, ela confessou em centenas de entrevistas, particularmente no filme que Maximilian Schell lhe dedicou, em 1984. «I wasn’t erotic, I was snotty.» Talvez fosse só fanhosa, talvez nem fosse grande actriz, talvez tenha sido só o corpo presente das mossas negras de von Sternberg: «Nós, os alemães — e é ainda Miss Dietrich quem o afirma, a pensar, retrospectivamente, muito retrospectivamente, na sua relação com o seu cineasta demiurgo — queremos sempre ter um chefe, queremos ter alguém que nos diga o que temos de fazer. »

Todo esse cortejo de negações de Marlene Dietrich, relativamente à sua carreira e à sua relação com Sternberg, só reforça o mistério da sua imagem no ecrã. Não, não, «Marlene sou eu» não era afinal ela, jurou Miss Dietrich até à hora da sua morte. Se não era, então porque pareceu a Cocteau que, naqueles filmes, ela respirava como um peixe tropical? E porque jurava Hemingway que a voz dela, bastava só a voz, partia o coração de um homem? «De um homem!», disse o ingénuo Hemingway — mais tarde, e com maior conformidade aos factos, alguém lhe emendaria o dito: «Muitas mulheres, segundo uma velha piada, têm género, mas não têm sexo. Com Marlene, o oposto anda mais perto da verdade. Ela tem sexo, mas não tem um género particular.»

Se calhar não são só precisos muitos homens para mudar o nome de alguém para Shangai Lilly. Afinal, Marlene quem era? Terá sido só a coisa mental de Sternberg, essa coisa que ele concebeu fatalmente mulher, tantas vezes a mais masculina das mulheres — nessa ambiguidade, subtilmente sugerida, residindo o insuportável quinhão de pecado de Marlene? Seja como for, fosse Marlene «eu» ou «outra», é sobretudo ao peso desse pecado, e dos fantasmas desse pecado, que nos curvamos na hora da sua morte.  

I wasn’t erotic, I was snotty

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As ancas de John Wayne

Era mais fácil falar das pernas de Angie Dickinson, mas vou obrigar-me a só olhar para o cinturão, coldre e colt de John Wayne. Sei do que falo, xerife foi a primeira coisa que fui na vida, revólver à cintura, uma longa cana de mamoeiro a fazer de Winchester. Também fui índio e bandido, mas xerife era a minha devoção, meio John Wayne, meio Buck Jones, insofismável semi atestado da minha caretice infantil.

O cinturão de Wayne, de que não tiro os olhos, atravessa em lento bamboleio o “Rio Bravo”, que Howard Hawks filmou, em 1959, a fechar a década em que um vivíssimo amarelo, mais amarelo do que o “Cristo Amarelo”, de Gauguin, se derramava nos melhores westerns. Amarelíssima era a camisa de Joan Crawford em “Johnny Guitar” e do mesmo glorioso amarelo era a blusa de Feathers, personagem de Angie Dickinson que, em “Rio Bravo”, mostra os negros collants a Wayne.

Mas não é dos collants e das pernas louva-as Deus de Angie Dickinson que venho falar. Se tenho palavras é para o cinturão, coldre e colt que cingem as vastas ancas de Wayne. Foi por causa desse xerife e do sólido andar dele que Hawks fez o filme.

“Rio Bravo” foi a arma de que Hawks puxou para abater William Wyler, autor do célebre “High Noon”. Medíocre, como quase todos os filmes célebres, pensou Hawks. “High Noon” tinha um xerife, Gary Cooper. Prendera um poderoso facínora e um regimento de fora-da-lei vinha atacar o acossado xerife e resgatar o seu führer ou secretário-geral. Gary Cooper ia, de porta em porta, tentando montar a sua geringonça. Todos lhe viravam as costas, até a branca e radiosa noiva, Grace Kelly.

Ouçam a zanga épica de Hawks: “Um bom xerife não vai pela cidade, como galinha tonta a pedir ajuda a toda a gente para ser salvo no fim pela noiva quaker.” Os heróis de Hawks são profissionais e estão sentados nas suas angústias: Wayne na solidão, Dean Martin na bebida, Walter Brennan na perna coxa, os 18 anos de Ricky Martin num “que-se-lixismo” inocente. Buscam a redenção individual, encontram-na no grupo, salvando a cidade cercada, num filme quase sem grandes planos.

Para xerifes diferentes, filmes diferentes: os planos de “High Noon” estão cheios de significado, os de “Rio Bravo” estão cheios de alegria; os enquadramentos de Wyler são a régua e esquadro, os de Hawks são uma festa de cor. Ah, no Lloyds of London, um milhão de dólares segurava as pernas de Angie Dickinson.

Publicado no Expresso, 3 de Junho

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A Eugénia foi ali fazer uma visita

A Eugénia foi aqui fazer uma visita. Levou o cão e encontrou uma cegonha. Foi de bicicleta e estenderam-lhe um tapete vermelho. Chove muito nesta visita da Eugénia. Rios de chuva e relâmpagos. Não há nada mais bonito do que um texto tempestade. Que sorte que tiveram os nossos amigos do Delito de Opinião, esse aqui, que por acaso é lá, que ela agora visitou. Que bom que é ter visitas e um passo de cegonha.

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