O velho Lua Nova

 

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Durante a lua nova, a maré está vazia pela manhã e de novo ao fim do dia — lua nova e lua cheia maré vazia às oito e meia, diz-se — e a amplitude, pela força gravítica combinada do Sol e da Lua, é grande, deixando expostos, na vasa, extensos areais. Também durante a lua nova o tempo, normalmente, muda: às vezes muda para melhor, outras vezes para pior. Na verdade apenas muda, porque o bom tempo de uns é o mau tempo de outros. Por fim, durante lua nova, as noites são escuras. Estando a Lua e o Sol do mesmo lado, a luz é reflectida para outras paragens, excepto a que incide numa pequena nesga, uma espécie de sorriso lacónico com muito pouco dente. Como o sorriso do velho Lua Nova.

O velho Lua Nova foi, no seu tempo, um conhecido psicopata de identidade desconhecida. A sua obra e modus operandi, amplamente divulgados pelos jornais que se dedicam ao crime e ao sangue, e que o baptizaram com feliz pertinência, foram, durante décadas, assunto de conversa nos cafés da costa, e causa de dores de cabeça nos corredores da Judiciária, que nunca conseguiu resolveu o caso nem encontrar o psicopata cujas vítimas apareciam mortas no areal durante a maré baixa em tempo de lua nova. Depois, com o passar dos anos, o velho Lua Nova deixou de operar. Perdeu o desejo, e quando perdeu o desejo perdeu também a vontade de matar. Os crimes do Lua Nova deixaram de ser assunto e acabaram esquecidos. Hoje, nem na internet se encontram, existindo apenas em microfilme, na Biblioteca Nacional, e na memória do velho artista.

Foi precisamente numa noite de lua nova que Marília se deixou engatar pelo velho Lua Nova. Um velho ainda mais velho do que era costume, mesmo para Marília. Mas bastou a encantadora nesga branca, um sorriso feito de impecáveis e luminosos implantes dentários, e uma voz cava e rouca, cheia de confiança e bom humor, para que Marília se deixasse arrebatar e abrir uma excepção ao princípio de não comer nada com mais de setenta anos.

Olá sou o Zé, mas podes chamar-me Lua Nova.
Marília riu. O homem tinha ares de profissional da costa, pescador, talvez.
Eu sou Marília, mas podes chamar-me Tua Neta.
O Lua Nova riu, mostrando a encantadora nesga branca.
E Lua Nova porquê? perguntou Marília visivelmente ofuscada pelo sorriso do velho.

Marília era uma velhófila. Sempre o fora, clandestinamente, como é recomendável numa preferência que tem o seu quê de estigmático. A velhofilia, não sendo prática proibida, não é, infelizmente, actividade acarinhada pela sociedade, levando os muitos e muitas que a ela se dedicam a fazê-lo discretamente, no recanto de restaurantes rascas e no recato de hotéis de estrada, longe de olhares detractores. Quando se vê um velho com uma miúda (e as mulheres são todas miúdas quando se é muito velho) desdenha-se a relação, chamando porco ao velho, e puta à mulher. Afinal porque razão andará uma mulher tenra com um homem que já cheira a morte, senão por motivos transacionais? Paixão não será, seguramente, nem tão pouco vontade de constituir família. E a ser química, tratar-se-á, com toda a certeza, da química da decomposição e da senescência, uma química depravada e com cheiro a morte.

Mas era exactamente o cheiro a morte e a decadência que atraíam Marília: as carnes flácidas, os glúteos mirrados que deixam de segurar as nádegas que livremente se abatem em refegos sobre as pernas, as peles com textura de cabedal coçado e os tomates até ao joelho. Marília era devota da decadência. Não só em homens, mas em todo o seu esplendor. Gostava de perdizes podres e de carne muito maturada. O seu aroma favorito era o mofo, o cheiro a casas velhas e armários fechados. Vestia roupa em segunda mão, frequentava alfarrabistas e lojas tradicionalmente decrépitas (de preferência com velhos malcriados ao balcão). Até a música de que gostava era de outros tempos; e o velho Sérgio Godinho, homem muito antigo mas ainda capaz de erguer a guitarra, era um dos seus ídolos. Era uma inclinação. Marília gostava do cheiro a morte, e os homens velhos cheiravam-lhe a morte.

Sorrindo, o velho Lua Nova disse-lhe que em tempos fora contrabandista. Marília olhou-o, bovina, e imaginou-o personagem de um romance neorrealista, outra das suas poeirentas paixões.

Sou um psicopata reformado, disse. Em tempos matava gente em noites de lua nova e deitava os corpos ao mar. Depois o mar devolvia-os pela manhã, na maré vasa. Fui um psicopata famoso, com páginas nos jornais, acrescentou com um sorriso encantador.
Marília riu-se da balela. E agora o que faz?
Agora conto as histórias de como matava gente em noites de lua nova como esta, acrescentou voltando a mostrar a nesga branca.
Marília sorriu mais uma vez com provocante timidez e salivou onde tinha que salivar.

Mas era verdade, o Lua Nova estava velho e apenas tinha memórias e histórias para contar. Desejo, nem vê-lo, embora Marília lhe despertasse qualquer coisa que já não sentia há muitos anos: se era desejo de foder ou de matar, não sabia, mas que era desejo, era.
Marília tinha artes e delas se usa para extrair prazer dos velhos, o prazer que raras vezes era múltiplo, mas eram histórias que procurava nos seus engates. E este tinha histórias, e de um género que Marília nunca tinha ouvido: contrabandistas, assassinatos, cadáveres na praia, vinganças e retribuições… Que soubesse, era o seu primeiro psicopata. Podia dar-se o caso de ter havido outros velhos bandidos na sua vida, afinal já tinha engatado velhos políticos e homens de negócios, dois géneros de tal modo viciados em poder que raramente resistem ao charme da mulher nova, mas descaradamente e sem fingimento corgulhoso da profissão de bandido, este era o primeiro. E estava desejoso de contar as suas histórias.

Marília levou-o para casa, despiu-o, despiu-se e abocanhou o enrugado pau do velho Lua Nova. Um pau que, surpreendentemente e sem hesitação nem moleza, revelou um esplendor invejável em qualquer faixa etária. Por fim, Marília deixou-se comer com prazer. No fim, marcaria no seu livro de memórias lúbricas, as noites que passaram juntos, com cinco estrelas, pontuação rara, comprovando que melhor do que um velho, é um velho bandido.

Durante duas noites, à lareira, comeram-se tantas vezes quantas as histórias que o Lua Nova contava. A narrativa despertava-lhes o desejo, e dele foram tiraram partido os dois nas noites que ali passaram. Um desejo de um tipo novo para Marília, algo que nunca tinha sentido antes, mas que o velho Lua Nova conhecia bem demais.
Na madrugada do segundo dia, quando já não havia mais histórias para contar, apareceu de novo um cadáver deixado pelo mar no extenso areal formado pela vasa da maré.

 

 

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Praga de rãs invade Portugal

Mas onde é que já se viu isto? Temos o país cheio de rãs!

 

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Milhares de rãs saltadoras estão a ser vistas por todo o país. São invulgaríssimas rãs amarelas e, estranhamente, caminham (ou saltam) em direcção às cidades. A concentração em Lisboa e no Porto confere, diga-se, um bizarro colorido ao caos do trânsito e da vida urbana.

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O fenómeno é acompanhado por um outro movimento mais subreptício. Têm surgido nos jardins das mais ricas mansões portuguesas dezenas de clandestinas e perigosas cobras capelo. As autoridades, num raro gesto de eficaz previsão, tinham importado, de países exóticos, várias famílias de mangustos que conseguiram, até agora, deter as investidas reptilíneas. Os corajosos mangustos, com saltos heróicos, decepam as ofídias cabeças para alívio e sossego das numerosas famílias em perigo

A Guerra e Paz editores, estranhando o silêncio da comunicação social, vem alertar a opinião pública para estes insólitos acontecimentos. Portugal está a ser assolado por uma invasão animal. Saltam bichos de cada esquina e há lutas homéricas nos mais belos jardins portugueses. Aguarda-se e exige-se um sério pronunciamento das autoridades, a começar pela mobilização das Forças Armadas.

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Falavas com a Lua

juan_bautista_nieto_-_el_beso-Andas a evitar o J   e ele não me larga, a querer saber o que se passa,   o que foi que fez, o que aconteceu lá em Barcelona, ou Madrid já nem sei exactamente…Logo eu porra, que tenho pouca paciência para tricas e fofocas…

O que é que se passa mesmo?

– Nada!

(Espera um minuto que acendi um cigarro e tenho de ir abrir a  janela ).

-Bem não é isso que o J me diz…Ouve lá liga-lhe!

Vai beber um café com ele, sei lá, mas o gajo está mesmo atarantado…

-Hum…não percebo porquê…

(Espera um pouco que vou tirar a camisola…  está calor e húmido…)

-Olha… eu é que estou a ficar sem paciência, e digo-te o que lhe disse a ele: resolvam a vossa vida mas deixem-me em paz! A sério,  mais parecem uns meninos pequeninos…

-Hum…

Eu não percebo de que se queixa ele…

Eu estou bem…aqui deitada a fumar um cigarro.

Nua sobre a cama…

Se quiseres aparece.

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Frase Saloia

“Temos de ser uns para os outros.”

Eu gosto de frases saloias.
São geralmente bem intencionadas.

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Uma Bela Lição Sobre o Espírito e a Matéria

 

Os primeiros trinta e cinco minutos são uma boa introdução ao número, se não tiverem tempo vale a pena ouvir a história que começa aos 34:00m – dura pouco tempo até ao minuto 38:31

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Anos 20: filmes nos olhos

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nuvem e gloriosa lua

Os loucos anos 20 tinham filmes nos olhos
Manuel S. Fonseca

Meteu-se pelos olhos ocidentais dentro e o olho do mundo nunca mais foi o mesmo. Há uma imagem de “Un Chien Andalou”, que resume exemplarmente tudo: dois dedos abrem bem as pálpebras do olho de uma mulher, uma mão segura uma navalha de barbear. No plano seguinte, uma apressada nuvem passa pela gloriosa lua cheia, roubando-lhe luz, recortando-a de sinistras sombras. Novo corte, novo plano, e já vemos, num raccord arrepiante com a nuvem lunar, a lâmina dilacerar impiedosamente o globo ocular da mulher. Esse plano cru e sangrento, que os espanhóis Luis Buñuel e Salvador Dali conceberam nas suas artísticas e retorcidas mentes de 1928, é a melhor metáfora para o que o cinema dos anos 20 fez aos olhos do mundo e do Ocidente em particular. Rasgou-lhes a inocência.

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o olho ímpio

O mundo vinha de uma Grande Guerra. Na Rússia, a revolução bolchevique criara a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, enquanto a Alemanha passava pelo agónico esplendor da República de Weimar, em cujas catacumbas já o rato nazi se alimentava de todo o lixo que para lá caísse. Uma vontade de crescer e mudar bombeava o coração de um mundo a florir em contrários: eram os roaring twenties, potentes na sua mecanização, na explosão do automóvel, rádio, aviões, electricidade, telefone, no crescimento das bolsas, na exponencial concentração urbana. E essas cidades apocalípticas tinham o que estavam mesmo a pedir: a esfusiante e sexualizada disseminação do espectáculo popular, da música e da dança, do teatro, do café e do cabaret.

Paraísos numa sala escura

O cinema chegara, hesitante, no virar do século. Ainda começou por ser coisa de voyeur, caixa de imagens numa colunazinha para dentro da qual o espectador solitário espreitava por um óculo. Era a visão peeping tom de Thomas Edison, americano arrivista, a fingir que nada sabia da projecção em sala, convivial e francesa, que os irmãos Lumière inauguraram, a 28 de Dezembro de 1895, no salão indiano do Grand Café do hotel Scribe, no nº 14 do Boulevard des Capucines, em Paris.

Nascia a inconfessável sala escura. Estavam lá 33 espectadores e o que viram deixou-os em estupor e transe. Numa tela, reproduzia-se o mundo e a luz do mundo, o mundo e o movimento do mundo, o mundo, as coisas e as pessoas do mundo. Numa tela aparecia o espelho, a cópia, mas também a re-criação do mundo. O poder inventivo do homem roçava o ombro pelo poder criador de Deus. A omnisciente potestade criara o mundo em sete dias, agora o ardiloso homem criava paraísos à velocidade de 24 imagens por segundo.

A ágil língua americana do cinema

Saltemos, à mesma velocidade, vinte anos. Estamos em 1920 e o cinema é cada vez mais uma indústria, a ganhar, desde 1915, as conspícuas cores da arte. Um americano, D. W. Griffith, agarra a epopeia pela garganta e arrasta-a para dentro de um filme, Birth of a Nation, fixando os princípios da linguagem cinematográfica – plano, sequência, montagem paralela –, habilitando o filme a transformar-se na mais popular e legível forma narrativa do século XX.

E o primeiro filme de 1920 que escolho é mesmo desse Griffith, desse americano que inventou o suspense cinematográfico, pondo a correr na tela duas acções paralelas e obrigando o rabo do espectador a saltar na cadeira, ao mostrar primeiro a imagem de uma desprotegida heroína em fuga e na imagem seguinte um monstruoso perseguidor, o que cria no nosso espírito o temor de que a besta esteja cada vez mais perto de trucidar o anjo.

Way Down East leva a fórmula melodramática de Griffith ao sublime. Lilian Gish, figurinha tremente e frágil em que o corpo de mulher é só pura inocência, apaixonou-se pelo filho do patrão e ele, como todos nós, por ela. Amor indesejado que o patrão não aceita, expulsando-a da sua quinta, no meio de uma tempestade de neve e fim do mundo. O amado, mal descobre, parte para a salvar, lançando-se a um rio que o monstruoso inverno encheu de perigos e armadilhas, de gigantescos blocos de gelo em convulsão, levados pela loucura paroxística dos rápidos. Chegará o amado a salvar a coisinha amada? É uma sequência pasmosa, tão épica como a primeira estrofe de Os Lusíadas, tão lírica como um soneto de alma gentil.

Title: WAY DOWN EAST • Pers: GISH, LILLIAN • Year: 1920 • Dir: GRIFFITH, D.W. • Ref: WAY002AN • Credit: [ UNITED ARTISTS / THE KOBAL COLLECTION ]

Lilian Gish on the rocks

O cinema americano, nesse começo dos anos 20, instalara já as bases do que, depois, viria a ser a sua matriz hegemónica: empresas cinematográficas sólidas, a figura do produtor dinâmico e investidor, os talentos do realizador, que Griffith define e consagra como protagonista criativo do filme. O cinema americano complementa tudo isso com a invenção do actor-ídolo. Um produtor, imigrante húngaro-judeu, Adolph Zukor, tirou da sua inocência empreendedora um rosto e um corpo, os de Mary Pickford, e fez dela «a noiva da América». E fez-se a star.

Ao heroísmo, à identificação do espectador com os nobres valores da beleza e do sonho que a star representa, o cinema americano acrescentou o riso, a anárquica acção burlesca. Arrisco dizer que o mundo nunca tinha rido tanto e tão bem. Sobretudo nunca o mundo inteiro tinha rido ao mesmo tempo. Dois actores obsessivos, Charlie Chaplin e Buster Keaton, conferem ao riso a ingenuidade e iniquidade, inteligência e irreverência que seduziriam mesmo as mais transgressoras vanguardas da arte e pensamento europeus. Chaplin e Keaton, Charlot e Pamplinas, foram cantados e reverenciados pelos surrealistas, claro, mas sobretudo pelo imenso povo a que damos o singular nome de humanidade.

A Alemanha vai à guerra pela calada da noite

E onde é que estava a Europa? Alguma já estava na América e, nesses anos 20, muito mais Europa haveria de imigrar para a nascente e crescente Hollywood. Mas havia também Europa na Europa e havia mesmo grandes cinematografias europeias. Superando as cinematografias escandinavas, exímias na utilização psicológica da paisagem nos anos 10, superando o cinema italiano que nessa década cruzara o vanguardismo futurista com a invenção do blockbuster, de que foram exemplo Quo Vadis e Cabiria, monumentais filmes históricos, a Alemanha foi, ao longo dos anos 20, uma cinematografia capaz de disputar a primazia ao cinema americano.

Perdida a I Guerra, os alemães criaram, em 1918, um conglomerado de produção, a UFA, para o qual desenharam uma estratégia quase militar de ataque ao mercado, fundada num objectivo de propaganda nacional. Mas a intervenção de um dos principais accionistas, o Deutsche Bank, trouxe depressa o estúdio para o modelo empresarial, focado no entretenimento. Com um produtor «à americana», Erich Pommer, a UFA transforma-se no maior estúdio do mundo, e atinge a produção anual de 600 filmes. Nos corredores do estúdio acotovelavam-se stars como Emil Jannings e Pola Negri, realizadores como Ernst Lubitsch, F.W. Murnau, Fritz Lang e G.W. Pabst.

Na memória colectiva, ou pelo menos na memória dos cinéfilos e historiadores de cinema, dos filmes alemães que venceram a barreira do tempo, que aroma é que, hoje, deles se evola? Eis o que o meu nariz tem para vos dizer: cheiram a fantasmas, cheiram a noite e a medo. É esse o perfume alemão dos anos 20 por oposição ao heroísmo, melodrama e riso, por vezes cruel, dos americanos. Que a vossa pituitária não tema: é um grande cheiro, é um cheiro para a eternidade.

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Caligari, aleatório e irracionaç

Venham e visitem comigo o Gabinete do Dr. Caligari, filme de Robert Wiene que inaugura essa gloriosa década alemã. É um filme de feira e hospício, de sonâmbula adivinhação e de loucura. Nessa atmosfera de fundo sucedem-se os crimes, tão aleatórios como irracionais, características que reforçam o terror que aquelas imagens nos inspiram. Este é um terror como nunca se vira, projectado pelo cinema, diferente do terror do romance gótico, que a literatura inventara no século XVIII. Começa antes da própria acção do filme, no seu estranhíssimo estilo visual.

O mundo que o Gabinete do Dr. Caligari oferece não se parece com o nosso mundo. As casas e as ruas são de uma deformação aterradora e porém bela, se pudermos chamar belo ao que é sinistro e bizarro. São casas e ruas geométricas e curvadamente ameaçadoras, tão curvadas como os retorcidos actores que emprestam, como Conrad Veidt empresta, o corpo às personagens. É um prodigioso trabalho de estúdio, uma concepção arquitectónica que nos espeta oblíquas agulhas de medo, mesmo antes de sabermos o que vai acontecer. A realização é retrógrada, alguns passos atrás da agilidade americana desses anos, mas os cenários, puro design em estúdio, geram os ambientes que tornam ainda mais perturbante a história de um sonâmbulo a sair de um caixão, a história de crimes inexplicáveis, doutores loucos ou de loucos que chegamos a pensar serem doutores.

Devemos a Hermann Warm essa inovação. Era um artista ligado à revista modernista Der Sturm e trouxe outros dois pintores, Walter Reimann and Walter Röhrig, para o filme. O Expressionismo punha, assim, um pé na história do cinema, enchendo Caligari de desenhadas sombras e de gráficos augúrios de fatalidade e dessa desordem física e mental que gera monstros, num forte contraste com a luz californiana do cândido Grifitth.

Já estamos a ver os nazis que aí vêm?   

Não era o único estilo do cinema alemão. A par desta novíssima intervenção dos decoradores e dos seus dominantes cenários pintados, um outro tipo de filmes, quase intimistas, aproximava-se da realidade contando-a só com luz e sombras e dando primado às personagens, por mais humildes que as personagens fossem. É esse o caso do velho porteiro de O Último dos Homens, de Murnau, que o peso da idade afasta da esplendorosa e nobre entrada do hotel onde pontificava, para o mergulhar em servil limpeza nas humilhantes latrinas de umas caves sem glória. Ao estilo chamou-se Kammerspiel, mas essa música de câmara não deixava de ser pessimista, tão pessimista como o exuberante Expressionismo. Era um pessimismo despojado, de uma violência trágica, que submetia as personagens à inexorável vontade do destino. Lembro A Morte Cansada, de Fritz Lang, filme do alegórico diálogo de uma jovem noiva com a Morte. A maiúscula Morte roubou-lhe o amado e só o devolverá à vida, se a noiva salvar do já certo fim um de três seres humanos que, como três trémulas velas, estão em risco de se apagar.

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a tão pequena maiúscula morte

Falar do grandioso e arrepiante cinema alemão dos anos 20 é falar do fantasma de Nosferatu, do pacto com o diabo do Fausto, das sociedades secretas de As Aranhas, desse demoníaco e manipulador Dr. Mabuse que corrompe, destrói e mata. São filmes negros, de uma escuridão de breu rasgada a raios de desesperada luz. Os espectadores enchiam as salas para os verem com um excitado frémito de horror. E o que estavam a ver? A memória do homérico sofrimento das trincheiras, da carne para canhão, do passado ainda tão recente da I Guerra? Há quem diga que viam já o futuro próximo, tanto estes filmes parecem antecipar o mal e a barbárie nazis. Mas é sobretudo o presente que os inspira, esses anos da envenenada República de Weimar, da Alemanha de joelhos no pátio das nações, da maré vergonhosa de desemprego, dos sórdidos bastidores políticos em que a violência comunista e nazi era um tapete estendido só para ser calcado pelas botas sujas do caos.

Matam-se os arcanjos, riem-se os anjos

Ia dizer que na América não era assim. Mas há um filme que me desmente. Chama-se Greed. E não se sabe muito bem que filme é esse. É do tamanho de uma pirâmide plantada no meio da história do cinema. Um monumento à rapacidade e à crueldade humanas. Para quê contar-vos a história: o tema é o nauseabundo dinheiro e mistura-se-lhe ciúme, crime e o Vale da Morte no deserto do Mojave. E é preciso saber o que se passou com a produção: Stroheim, o realizador, filmou mais de 80 horas de película e montou um filme de dez horas. Armou-se, entre ele e o produtor, Irving Thalberg, a mesma guerra que entre os arcanjos Gabriel e Lúcifer, entre a mais megalómana liberdade artística e a implacável realidade financeira. Os espectadores viram apenas um filme de duas horas e meia, montado por Thalberg. Quem ganhou, Gabriel ou Lúcifer? No filme, ganha a bestialidade humana, na talvez única tragédia negra que o cinema americano fez nos anos 20. E quem seria esse Stroheim que a fez tão dantesca e escabrosa? Alguém me descobre uma certidão de nascimento dele?

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Keaton prova que o espaço é absurdo

Não era este o cinema americano dos anos 20. Cruéis embora, os filmes de Chaplin e Keaton, inseridos numa tradição de burlesco, que já vinha dos anos 10, faziam o mundo rir. Não é que o humor deles não tivesse gags de sem dó nem piedade. Tinha. Realizadores e actores, controladores ferozes das obras que fizeram, Chaplin e Keaton incarnam eles mesmos operários, delinquentes, fugitivos, em obras-primas como The Kid e The Gold Rush, ou como Sherlock Jr. e The General. Se Chaplin reinventa um ser humano em que se casam a maldade e o lirismo, Keaton reinventa o espaço e o que nele é a absurda acção humana. (Ah, e já chegou a certidão de nascimento do tal Stroheim. Nasceu em Viena, no meio da Mitteleuropa, Erich von Stroheim de seu nome completo. Fala alemão. Bem me parecia que o negrume de Greed tinha sotaque.)

Louise Brooks, minha Nossa Senhora

É altura de levantarmos a ponta de outro lençol. O cinema meteu a humanidade na cama. O grandíssimo plano – o glorioso e gigantesco close-up dos mais belos rostos de homens e mulheres que a humanidade já vira – nimbado a cendrada luz em telas de dez metros, estarreceu os espectadores cativos do escuro das salas e das cadeiras em que se enterravam e dissolviam. Em 1924, morria Lenine, que tanto defendera o cinema como a mais importante das artes para a revolução, e um sueco, Maurice Stiller, criava Greta Garbo, em Gösta Berlings Saga. Depois, um alemão, Pabst, abriu a Garbo, em Berlim, a estrada de sofrimento da Rua Sem Sol, que havia de ser a sua sina. O erotismo de Greta Garbo, que logo a seguir Hollywood rapta, é feito de solidão e dor, de um consentido e procurado masoquismo. Foi a essa beleza macerada que homens e mulheres se renderam, fiéis, em todo o mundo. Uma Nossa Senhora de aflição no baixo-ventre. Pode beijar, fumar um cigarro aristocrata, reclinar-se em cama lânguida, mas no fim é a imagem dela, solitária, indefinível, que persiste. Greta Garbo, The Temptress, Flesh and the Devil ou Divine Woman, foi só essa pura imagem, como muitos místicos gostariam de ser só puro espírito, sem nunca o terem conseguido.

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loulou: ela quer, ela faz

O tónus erótico do cinema dos anos 20 tem mais de uma centena de grandes intérpretes, de Rudolfo Valentino, John Gilbert e Douglas Fairbanks a Gloria Swanson, Clara Bow, Norma Shearer, Vilma Banky, Asta Nielsen. Mas se destaquei a Garbo, deixem-me reservar uma palavra cheia das mais perversas intenções para Louise Brooks. Percebeu-se o que dela podia vir em A Girl in Every Port, de Howard Hawks. Entrava pelos olhos dentro: a beleza dela era de uma mundo que ainda estava por nascer. Moderna, um corpo e uma sexualidade seguríssima de si – e a deixar, inseguríssimos fosse do que fosse, todos os homens sentados na sala escura. Pabst roubou-a a Hollywood e fez dela a Lulu de A Boceta de Pandora. Tal como a Garbo, Miss Brooks ficou para o resto dos seus dias amarrada à personagem de mulher fatal, a essa personagem de mulher ainda tão jovem, mas de intrincada psicologia, riquissimamente sexualizada, de êxtase e ruína, de desejo, concupiscência e consumação. O rosto e os gestos de Lulu dizem o que dizem: ela quer, ela faz. E revelam que ela sabe que o quer é complexo e não linear. O que ela quer é da ordem do quântico, como a física que essa década então desenvolveu.

Revolução, vale de lágrimas e um beijo

Os anos 20 viram nascer o cinema revolucionário soviético, de que Eisenstein, Dziga Vertov, Pudovkine e Dovjenko são os expoentes. À extraordinária beleza de alguns filmes, de O Couraçado de Potemkine, filmado no ano em que Hitler publicou o Mein Kampf, à Mãe e a Arsenal, os soviéticos oferecem uma mais-valia ao capitalista cinema mundial: um conceito revolucionário e dinâmico de montagem.

potemkin

potemkin, o fusil e a sombra

A França já tinha Renoir e extasiava-se com o megalómano Napoléon, de Abel Gance, a acção da história exibida em três imagens paralelas e simultâneas. E tinha os vanguardistas, como Germaine Dullac, Epstein, Delluc e Man Ray, a quererem fazer um cinema de puras formas, género que Marcel L’Herbier leva ao acúmen no cínico e imparável L’Argent, combinação prodigiosa da montagem soviética com uma narrativa quase sinfónica, que dão uma visão obscenamente sexualizada do dinheiro.

O cinema mudo estava no céu. Em 1927, já em Hollywood, o alemão Murnau filmou Sunrise, um dos mais belos filmes de sempre, e Fritz Lang, ainda em Berlim, assinou o futurístico Metropolis. E, no entanto, apareceu um filme a anunciar, sem nenhuma ponta de exagero, a morte do mudo. Um filme meio pedestre, O Cantor de Jazz, trouxe uma inovação fatal: pôs um actor, Al Jolson, a cantar e a falar. Os espectadores ouviram e já não quiseram outra coisa.

Haverá ainda dois anos de obras-primas do cinema mudo. Escolho, para fechar, um filme francês, Passion de Jeanne d’ Arc, do dinamarquês Dreyer, com alguns cenários gigantescos e outros miniaturizados, conforme a cena o exigia, o rosto dos actores, e sobretudo o da tão bela Falconetti, convertido em paisagem dolorosa, como na cena de martírio em que rapa todo o cabelo e chora um inteiro vale de lágrimas. Diz-se que, no fim da cena, Dreyer veio ao pé dela, recolheu com um dedo uma das lágrimas, levando-a aos lábios. Beijava nessa lágrima a última lágrima do cinema mudo.

dreyer

falconetti, a tesoura e o martírio

Este artigo foi publicado na revista Visão História (Julho 2016)
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De anjos e outros seres aquáticos

 

Oh gente do mar alto, errante de marés e luas diversas. Oh habitantes desse espaço que imita o azul do céu. Oh leitores de Borges e dos seus reflexos. De capas de livros vos falo, de seus títulos e lombadas, nestes barcos-livro, deus os livre.

(Também podia dizer que sou de listas, nada a fazer. Pretas e brancas nas t-shirts, cinzentas na vida e assins. E de outras listas como esta: embarcações e seus baptismos – a saga da colecção continua).

anjo-da-guarda-dez-2011-524

Minha companhia, avistada por tc em Monte Gordo

Que romance se esconde por detrás de cada capa? Que energia se concentra e expande vinda de um título? Rei e senhor das águas, que livro é um barco?

Tementes a deus e ao diabo, através do nome também os batéis se transformam em protectores. Mas depois há os anjos vaidosos: vão na proa a ver-se ao espelho (depois distraem-se e é assim que elas acontecem, afinal havia outro).

anjo-ao-espelho

Olha para mim!

Capa e contracapa, lombada perfeita. Do lado de lá, páginas incógnitas resguardadas pela ilustração. Que coisa vem lá, minha companhia, de noite e de dia?

A fé, avistada por tc na Ilha Terceira, Açores

Pelo sim pelo não, não vá o diabo, mais vale jogar pelo seguro e transportar consigo o mais alto título da nação marítima.

Claro que os descrentes estão por todo o lado. Ou os desiludidos?

barco-sempre-c-deus-vende-se

Vende-se, na Carrasqueira, foto de tc

Ou será que leram o post do tio M.S.Fonseca?

E já está mais que na hora de ligar motores, fechar o calhamaço e pôr-me na alheta. Não somos de ficar parados. Ala que se faz tarde.

depressa-carrasqueira

Depressa e bem, há quem?

 

 

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A correr

voto_2– Não olhes para mim assim. Vou já a correr votar.

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ÁLVARO, do Fim (*)

 

A árvore genealógica de cada um é a árvore genealógica de cada um. Há linhagens brilhantes ao longo de gerações e gerações e casos de irregularidade profunda. A regra é a aleatoriedade, daquilo que me foi dado a observar, pelo menos.

Falo-Vos de uma surpresa que tive há pouco tempo, de uma mulher que descende das melhores genealogias das artes cénicas brasileiras, e que manteve o azul clarinho do sangue da família; a Fernanda Torres.

Para quem sabe alguma coisa do teatro, do cinema e da tv brasileira a Fernanda Torres é uma grande actriz. É uma grande actriz que carrega o fardo de ser filha dos também grandes actores Fernando Torres e Fernanda Montenegro; como podem ver são muitas arrobas de peso. Mas, ainda assim, julgo que todos somos unanimes em considera-la da craveira dos pais.

Esta senhora, agora deu-lhe para escrever, e bem. Da pena saiu-lhe o FIM (Companhia das Letras / Penguin Random House Grupo Editorial, Lisboa 2015), um conjunto de cinco contos e um epílogo.

E, como isto de EéT não é para todos, transcrevo-Vos um trecho do final do primeiro conto, “ÁLVARO *26 de Setembro de 1929 + 30 de Abril de 2014”, por ser das melhores descrições de um momento, aliás de um instante, que já li, neste caso do Triste (“F”)fim:

“… Tem um carro subindo a rampa, vem no embalo, melhor aceleras as pernas. É a desnaturada do 704, está fugindo dos cachorros, vai viajar, covarde. Acho que ela não me viu. Não, ela não me viu. O carro deu aquele voo no fim da subida, ela vem descacetada, está no celular, não notou que eu estou aqui. Larga essa porcaria e presta atenção no que está na sua frente! Eu! Eu estou na sua frente! Ah! Finalmente reparou, vai frear, se atrapalhou. Como assim, se atrapalhou? Está nervosa, é bom mesmo ficar nervosa. Quantos anos tem essa incapaz? Ela fez exame psicotécnico? Pode dirigir com essa idade? E os cachorros da área de serviço? Freou! Achou o freio, estou ouvindo o cantar dos pneus. O carro continua andando; como assim, continua andando? Derrapou? Não vai parar? Está fora do alcance dela? Ela me encara com ar de pena e fecha os olhos pra não ver o que vai fazer comigo. Abre o olho, desgraçada, vem ver o que você aprontou. Por que é que eu não te denunciei para a Associação Protetora dos Animais? Eu devia ter desconfiado que alguém que trata assim o próprio cachorro não tem respeito à vida humana. Já sinto a lataria a roçar o tergal da calça.

 

Love, Lisboa 2012. (c) Honigod

Love, Lisboa 2012. (c) Honigod

 

Um pulo. Há quantos anos não dou um pulo? Dobro a perna direita, estico a esquerda e me jogo pra frente. Anda, a lataria no tergal! Andar deixou de ser um acto inconsciente. Aciono os comandos. Dobro, estico, estou no ar, me preparo para a aterrissagem, a ponta do pé toca a pedrinha, relax o peso… está solta? Como assim, está solta? Eu jogo o meu esqueleto em cima do pedregulho e ele solta? Quem foi o relapso que socou isso aqui? Cadê? O empreiteiro? Cadê o perfeito, que não aparece? Não tem mais volta, o pé torceu, estou caindo, o carro passa raspando, mas a gravidade já me puxa em direcção ao paralelepípedo. A queda. A minha queda, aquela que vai me fazer ter saudade do dia em que contava os passos no caminho do consultório do Mattos. De uma hora para outra serei tia Suzel. A mão arranha o chão, tenta aparar, não consegue. O cotovelo esfola, o quadril sai do lugar e a cabeça se precipita no granito bruto do meio-fio e bate, como um badalo de sino de igreja.”

O “Fim”, Triste, não acaba aqui, mas é um bom teaser para uma segunda-feira.

 

(*) A quem me deu a conhecer este livro.

 

 

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Não, não sou a única

Encostada ao pano de vidro, o despegar das nuvens mantinha-me absorta nos meus pensamentos.

Tinha pouca memória das aulas de geografia mas sabia que o algodão branco que se afastava lentamente eram gotículas de água condensada suspensas.

Será que os miúdos ainda aprendem estas coisas na escola, pensei.

Continuava entretida com o vagar das nuvens quando me ocorreu que o amor também se achega assim devagarinho.

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Nastassja Kinski

Descobri hoje, em 2016, trinta anos depois. Foi por causa dela que fui, pela primeira vez, à América, em 1986. Tinha-a visto comer morangos na Europa, à mão de Roman Polanski. Depois via-a em «One From the Heart».

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morangos. serão silvestres?

Durante anos, e num catálogo da Cinemateca, enganei-me a mim mesmo. Pensei que viajava até Hollywood por Francis Coppola. Jurei que só me assistiam razões formais para eleger «One From The Heart» como um filme do século. Que era a simultaneidade de dois espaços no mesmo plano, que era a simultaneidade de dois tempos no mesmo espaço, que era, em boa verdade, a erosão do próprio conceito de plano, que eram todos  esses mal amanhados gadgets académicos-deleuzianos, que me faziam amar lancinantemente esse filme de um casal em crise, homem e mulher prontos a traírem-se, ela pelo tanguista Raul Julia, ele pela circus girl chamada Nastassja Kinski.

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A recostada e frágil beleza

Hoje sei que só me moviam motivos sublimes. Esta imagem, a da mais bela circus girl que os grandes olhos do mundo, e os meus mínimos olhos, já viram, a imagem da mulher tão desprotegida, toda a sua frágil gentileza recostada no banco traseiro de um descapotável parado no meio de um deserto, foi essa imagem de desamparada beleza que o meu espírito e o meu pobre corpo quiseram salvar, cientes da fuga de Frederic Forrest, o actor que, ofuscado por tudo o que nela é sublime, a abandona.

Gil Eanes navegou para vergar o Cabo Bojador, Bartolomeu Dias partiu para afrontar o Adamastor. Eu parti, e como Colombo, que julgando chegar à Índia descobriu a América, cheguei a Francis Coppola, quando tudo o que eu queria era sentar-me no banco traseiro de um descapotável, sereníssimo, ao lado de Nastassja. Sei hoje que, quando lá cheguei já ela tinha voltado para a nua Europa de onde eu saíra.

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voltamos sempre à nua europa

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E hoje?

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A felicidade cerziu-se de azul.

 

 

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Sempre soube que este dia ia chegar. Sempre? Desde o dia em que deixei pela última vez aquele cais azul. O cais de todas as minhas memórias. E o que é certo é que hoje, nem de propósito, acordei com um estranhíssimo latejar na frontes. Uma dor de uma intermitência azul, também ela. Julgo que a pálpebra esquerda tremia à mesma cadência. Um zunir de vespa. E o olho, por baixo, fazia-se ora baço, ora artificialmente cristalino. Depois foi o ombro que, tomado de espasmos, se deslocou. Para onde já não me lembro. Sei que a tatuagem ficou indizível. Da cor da saudade mas escrita de trás para a frente, e com as duas últimas letras dobradas por baixo da omoplata.

Fazia-se tarde. O lavatório estava já de pé e eu deixei a correr a água, fresca, morna, durante longos minutos. Salgada, azul petróleo. Os raios mergulhavam, paralelos, para logo se entrelaçarem, dourados, frenéticos numa dança à moda de Klimt. A minha mão esquerda fez-se preta e deslizou, suave, lenta, rasgando o viés da superfície. Fazia as vezes de uma jamanta esquecida e eu esqueci-me da torneira. Até hoje não sei dizer-vos se, tal como na profecia e no livro do outro, a enguia chegou a sair. Também pouco importa.

A cabeça outra vez. Um Avé Maria distante cicatrizado nos tímpanos. O zunir descia pelo pescoço e durante uns minutos tive dificuldade em respirar. Era nevoeiro e era água muito espessa que me entupia a glote. Deduzi que era Março. Ou Abril. Ainda ia a tempo da gigante azul. Mas as veias, muito brancas, rasgavam-me os braços escuros. Veios minerais nos istmos de musgo verde. Uma dor aguda e eis que era agora o peito que tremia. Sísmico, vulcânico. Aqui e ali, a pele, papel de arroz, cedia em profundos rasgões vermelhos. Em profundos rasgões elétricos que voltavam a subir-me à cabeça. As memórias trocadas. Viagens que não foram minhas. A infância mais feliz de todas as infâncias felizes. O riso de maresia dos meus rapazes. A casa enorme dos mil primos. Ela, antes e depois de tudo. O pé direito encarquilhara-se, era craca, era rochedo. Do peito despontavam formas bizarríssimas. Milenares torresmos. Canais, veredas, vinhedos. Da cratera que ainda agora era o meu umbigo chorava-se um rio de terra de um negro ensurdecedor. Eu arfava, mudo de espanto, o eterno arfar dos baleeiros escondidos no mar. A dor era agora de basalto, uma dor de criação, imensa, primeva.

 

Nasceram-me os açores por baixo do peito. E a felicidade cerziu-se de azul.

 

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Uma Polémica Actual

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Se fosse possível olhar a nossa própria vida de fora, como que da lua, talvez pudéssemos caracteriza-lá mais objectivamente.

Olhamos para o mundo de hoje, cada vez mais individualizado, arbitrário, extremo, e temos dificuldade em descrevê-lo objectivamente. Felizmente que podemos contar com os relatos de outros que, por razões diversas e distintas, conseguiram, por uma ou mais vezes, sintetizar a forma como a sociedade se organiza, ou descrever a forma como o poder altera a relação entre os seres humanos.

Soenitsyne teria todas as razões para desaparecer numa solidão, também ela falsamente segura, depois de ter passado oito anos num campo de concentração da antiga União Soviética.
O que espanta ainda hoje, quando vemos a esquizofrenia do discurso político e social, extremado, demagogo, é a enorme objectividade que Soljenitsyne mantém mesmo quando relata episódios da sua amarga e duríssima experiência como prisioneiro.

Este pequeníssimo livro, composto de discursos que o autor pronunciou na Universidade de Harvard em 1978, é disso um grande exemplo, conseguindo fazer uma crítica duríssima à sociedade que o negou, mas também lembrando que o ocidente, termo muito usado nestas conferências, estaria a desenvolver formas de relacionamento sociais limitativas e problemáticas.

Muitas das suas palavras têm eco hoje mesmo, no nosso Portugal e na nossa Europa, nesta deriva sociológica que não augura nada de bom para um futuro próximo.

Já nessa altura existia uma crítica ao “modelo” ocidental, que embora legítima, resultava numa tendência para aceitar ” a perigosa e falsa corrente do socialismo” .

Só que a crítica ao Ocidente também é feita, e desde logo o autor declara para que não existam dúvidas:

” Nenhum dos presentes, espero, me irá suspeitar de ter procedido a esta crítica parcial do sistema ocidental com a única finalidade de, em seu lugar, dar a primazia à ideia do socialismo.
De modo nenhum. Revestido da experiência do país do socialismo realizado, não proporia de maneira alguma uma alternativa socialista. É que,todo o socialismo, tanto em geral como em todos os seus matizes , leva sempre ao aniquilamento universal da experiência espiritual do homem, ou ao nivelamento da humanidade na morte…”

Palavras duras mas não hipócritas. Porque não julguemos que temos aqui mais um discurso demagogo e interesseiro, idêntico a tantos outros aos quais estamos, infelizmente, tão habituados.

Existe sim um olhar crítico é orientado, independentemente de todos os “ísmos” da moda. Porque não existe uma solução fácil ou milagrosa:

” Não, não posso recomendar a vossa sociedade como ideal para a transformação da nossa…o sistema ocidental, no seu estado actual de esgotamento espiritual , não apresenta qualquer atractivo.”

Centrando o seu argumento no que ele define como o enfraquecimento do carácter do homem,  Soljenitsyne apresenta já os sintomas de uma sociedade doente , ameaçada , ” no declínio das artes e na ausência de grandes estadistas.” Estávamos em 1979.

Na falta de vontade e de coragem Soljenitsyne via cada vez mais o conservadorismo ocidental tomar conta de uma sociedade que deixava pouco a pouco de ter moralidade para se apresentar como modelo a qualquer outra.

Este não é um livrinho fácil. Atira-nos à cara a responsabilidade pela luta por uma sociedade mais justa, mas onde será sempre necessário acreditar no metafísico, já que o homem científico, centrado em si mesmo,  dera bem a conhecer os seus desígnios.

” O mundo hoje , se não está em vésperas da sua própria perda, está, pelo menos, numa viragem da história…esta viragem exigirá de nós uma chama espiritual, uma subida para uma nova altitude de vista e para um novo modo de vida em que a nossa natureza física terá deixado de estar entregue à maldição como na Idade Média, mas na qual a nossa natureza espiritual terá também deixado de estar calcada aos pés como na era moderna.”

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Minecraft de retrete

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Uma cidade?

O meu sobrinho mais novo está numa fase de algum interesse escatológico – não, não me estou a referir ao Apocalipse, ao tempo das Revelações. Em simultâneo, adora Minecraft – um videogame de construção em 3D no qual tem de conseguir recursos, construir, manter e defender o mundo criado por si.
Veio ter comigo a correr, segurou-me na mão:
– Depressa, depressa, venha ver!
Diante da urgência, largo texto que escrevia e fui. Para minha surpresa, levou-me à casa de banho. Apontou a retrete e disse com orgulho:
– Tanto! Fiz uma cidade…

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