… que raio de comparação!

O que o Cris­ti­ano R. faz com os pés, faz o Al J. com a voz. Olhem só que 2!

O Michel Petruc­ci­ani tinha um metró­nomo na cabeça. Para quem gosta de bons docu­men­tá­rios, aqui está a home­na­gem que o Mezzo lhe fez com Char­lotte Ram­pling, Stéphane Gra­pelli, Char­les Lloyd … and so on.

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Que solidão

À vossa frente, já me atrevi a ouvir a “Insen­sa­tez” de Maria Toledo. E lembro-me que ama­nhe­cia ou era a mais escura das noi­tes quando jun­tos ouvi­mos Maysa. Tal­vez tenham per­ce­bido, antes de mim, que é uma reli­gião, a minha reli­gião. Eu per­cebi hoje quando, da can­sada vida e voz de Dolo­res Duran, se come­çou a der­ra­mar a bio­gra­fia da solidão.

As vas­sou­ri­nhas var­rem os pra­tos e tam­bo­res da bate­ria, mas não var­rem as lágri­mas e a retó­rica mag­ní­fica do sofri­mento. Não acre­dito que nenhum homem che­gue a com­pre­en­der o que Dolo­res canta. Nos des­me­di­dos deva­neios épicos dos homens, a forma como Dolo­res canta as pala­vras que ela mesma escre­veu, é uma his­te­ria irreal, um ensan­guen­tado folhe­tim. É pre­ciso que uma mulher cante e outra mulher ouça. Dolo­res Duran namo­rou os homens. Não dor­miu com todos, mas dor­miu com mui­tos. Dor­miu até, por­que amou, um gar­çon de caba­ret. Mas quando que­ria que lhe ouvis­sem as novas can­ções, cantava-as às ami­gas. Foi ao tele­fone que can­tou “ai a soli­dão vai aca­bar comigo” a Maysa.

Maysa con­tou que ouviu e já não con­se­guiu vol­tar a falar. Cho­rou o dobro, o tri­plo do que os ver­sos de Dolo­res pare­ciam pedir, sufo­cada, estra­nha, ciente da infe­ri­o­ri­dade e da supe­ri­o­ri­dade de quem tem o segredo do romantismo.

Tom Jobim, Vini­cius, os homens, os artis­tas, os que “sabem o que fazem e o que dizem” che­ga­riam, mui­tas lágri­mas depois, à car­reira de Dolo­res. Que solidão.

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Nana e os Vendavais

 

O Monte dos Ven­da­vais”, de Andrea Arnold

Uma adap­ta­ção pro­fun­da­mente ori­gi­nal do clás­sico de Emily Bronte é, já por si, um triunfo — das 14 ver­sões ante­ri­o­res de “O Monte dos Ven­da­vais” (a pri­meira estreou em 1920), a mais pró­xima do olhar de Andrea Arnold tal­vez seja “Abis­mos de Pasión”, do mes­tre Luis Buñuel. Depois de “Red Road” e “Fish Tank”, que tra­ta­vam o sexo com uma urgên­cia bruta, ines­pe­rada, a bri­tâ­nica ataca o livro de 1847 numa vis­ce­ra­li­dade con­tem­po­râ­nea, recor­rendo a acto­res des­co­nhe­ci­dos, uti­li­zando a câmara à mão e não pou­pando na fúria das tem­pes­ta­des, venha ela dos céus ou da mente dos aman­tes amal­di­ço­a­dos. Não podía­mos estar mais longe de um “filme de época” com­por­ta­di­nho: Arnold estima os cená­rios reais, é fiel à rudeza da Ingla­terra cam­pes­tre, filma a Natu­reza como eco dos con­fli­tos huma­nos, reduz os diá­lo­gos ao osso e aborda a obses­são de Heath­cliff (o jovem actor negro Solo­mon Glave) por Cathy (Shan­non Beer), a filha do agri­cul­tor de Yorkshire que o reco­lhe das ruas, como um “amour fou” que pode­ria defla­grar em 2012 nas ruas de Lon­dres ou São Paulo. É um filme agres­sivo, por vezes cruel, de sen­ti­men­tos lan­ça­dos para a fogueira. Não o devem perder.

Nana”, de Valé­rie Massadian

 Con­si­de­rada uma enorme reve­la­ção cine­ma­to­grá­fica pela gene­ra­li­dade da crí­tica, este filme de estreia da fotó­grafa Valé­rie Mas­sa­dian, antiga cola­bo­ra­dora de Nan Gol­din, não é nenhum “Mou­chette”, a obra-prima de Robert Bres­son sobre uma ado­les­cente em luta pela sobre­vi­vên­cia. Mas é neces­sá­rio prestar-lhe aten­ção: melhor primeira-obra no Fes­ti­val de Locarno, é um tra­ba­lho rigo­roso sobre uma cri­ança de 4 anos que vive com a mãe na orla da quinta do avô, numa casa minús­cula como ela. Quando a mãe desa­pa­rece, Nana fica só, à mercê dos ele­men­tos, exposta a um mundo que lhe é gigante. Mas Nana está à altura da tarefa. Ela recria o mundo, efabulando-o, a câmara desce à sua dimen­são, a luz é natu­ral, os pla­nos são raros e de grande jus­teza. Há mar­gem ao impro­viso, que dura o tempo da rea­li­dade. Mas não se ilu­dam: “Nana” é o oposto do “olhar documental”. Insinua-se o enleio com os con­tos de fadas, se bem que o filme esteja longe do notá­vel “O Espí­rito da Col­meia”, de Vic­tor Erice. Falta-lhe o sexto sen­tido do encan­ta­mento. Antes, é exi­bida “Rafa”, a curta-metragem do por­tu­guês João Sala­viza que ven­ceu o pré­mio da cate­go­ria no último Fes­ti­val de Cinema de Berlim.

Publi­cado na revista “Sábado”

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A Nossa Filha

A carta tinha che­gado, incóg­nita, entre outras. Só ao fim do dia R repa­rou nela, enve­lope branco, amar­ro­tado, selo colado um pouco torto, ao canto supe­rior direito.  Den­tro, pala­vras escas­sas, anó­ni­mas, sem assi­na­tura: ” F está viva”.

A estra­nha carta apanhou-o velho, cabelo gri­sa­lho, sono­lento, a olhar o sol que se punha, junto ao mar, na pequena vila para onde tinha vol­tado, já sem a memó­ria da feli­ci­dade antiga. Tinham sido anos pas­sa­dos, a pele mar­cava o tempo em rugas e secura, as som­bras por baixo dos olhos tinham-se tor­nado fun­das, cinzentas.

Olhou outra vez a carta enro­di­lhada num papel amar­ro­tado. Expe­liu, len­ta­mente, uma bafo­rada de fumo do cigarro.

A esforço recor­dou F: alta, esbelta, silhu­eta coro­ada com uma cabeça de dese­nho oval, per­nas alon­ga­das num corpo cur­vi­lí­neo, dir-se-ia per­feito. O cabelo loiro, denso e vigo­roso, obri­gava a que fre­quen­te­mente pas­sasse a mão pela testa larga e branca, liber­tando os olhos pro­fun­dos azuis. Sabia bem que a olha­vam, mesmo os homens mais tími­dos, sabia bem que a dese­ja­vam, em esga­res denun­ci­a­do­res de uma von­tade mal escondida.

O verão tinha come­çado cedo esse ano, no ter­raço de um velho café, R. olhava as peque­nas casas bran­cas junto ao mar de pro­fun­deza azul. Sen­tiu uma som­bra que pas­sava, e um cheiro a lavanda colado a uma pele clara. Vol­tou no dia seguinte e lá estava ela, corpo recli­nado, a cara encos­tada para trás na cadeira com­prida, a dei­xar o sol quei­mar a pele destapada.

Como uma vaga de mar no inverno, a força da pai­xão arrebatou-os para um mundo estra­nho, mas doce. Tudo pare­cia dife­rente, os pas­seios noc­tur­nos pelas peque­nas ruas deli­ne­a­das por casas reves­ti­das em ripas de madeira; as árvo­res cui­da­do­sa­mente colo­ca­das sobre os estrei­tos pas­seios, as con­ver­sas no ter­raço, nas noi­tes mais frias do outono.

Parece que estou a ver a terra da lua” disse-lhe um dia F, a vida deli­ne­ada na amál­gama dos cor­pos uni­dos, entre len­çóis. “E vejo-nos, aos dois, lá em baixo…”

Depois, com a cer­teza de um dia que acaba, F desa­pa­re­ceu sem dei­xar rasto.

Foi numa manhã de Agosto, quente e húmida, o céu liso azul, e a mare­sia a entrar pelo quarto aden­tro. Durante dias R per­cor­reu cafés e bares, motéis e esta­la­gens, con­fi­ante que seria ape­nas uma brin­ca­deira da bela e imper­ti­nente companheira.

Durante anos R per­cor­reu a costa agreste do norte do país, entre as altas mon­ta­nhas cober­tas de neve e as ravi­nas de terra ver­me­lha que encon­tram o mar. Cora­ção deso­lado, uma dor fria, furi­osa de amor, enquanto vague­ava sem des­tino as lon­gas estra­das soli­tá­rias cer­ca­das de altos cedros e den­sos pinhais. A sua vida tinha-se des­mo­ro­nado como um cas­telo de areia na maré que sobe. Não estava pre­pa­rado, (nunca nin­guém está pre­pa­rado), para a rup­tura do amor, de um amor ver­da­deiro, forte como o dia que nasce.

Não longe dali, no ter­raço sobre a tarde enso­la­rada, F sen­tia dis­trai­da­mente as copas das árvo­res que dan­ça­vam, livres, com a brisa da tarde. Os olhos pas­se­a­vam entre o livro aberto levan­tado sobre os joe­lhos, e o corpo jovem de J, claro como o seu, ali à sua frente, a ser quei­mado por um sol violador.

Lembrou-se dos tem­pos, naquela mesma branca casa, sobre aquele mesmo céu azul, em que nada exis­tia para além de um amor pre­co­ce­mente belo, escon­dido dos olha­res por por­ta­das entre­a­ber­tas. E da juven­tude que lhe inun­dava o corpo. Em J via-se a si mesma, como tinha sido anos antes, sem este cabelo branco, sem este corpo envelhecido.

Bai­xou os olhos para o livro, não se con­se­guia con­cen­trar. Sen­tia R perto.

Ima­gi­nou então o que teria  mudado na sua vida se tivesse tido a cora­gem de lhe ter dito, antes de se ter ido embora, que J era, tam­bém, sua filha.

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As astúcias de Borges

A 24 de Junho de 1969, numa casa de Bue­nos Aires, um escri­tor cego acaba de redi­gir o pró­logo para o seu quinto livro de ver­sos. Eram, com toda a pro­ba­bi­li­dade, as 4 horas da tarde.

Tinham-lhe pedido que, nesse pró­logo *, a ante­ce­der um livro de “espe­lhos, labi­rin­tos e espa­das” fizesse uma decla­ra­ção sobre a sua esté­tica. Bor­ges, o escri­tor cego, decla­rou não ter nenhuma, mas atreveu-se a con­fes­sar as suas astúcias. Resumo esses oito hábi­tos humil­des que rejei­tam a arro­gân­cia bar­roca dos jovens.

  1. Evi­tar os sinó­ni­mos que têm a des­van­ta­gem de suge­rir dife­ren­ças imaginárias.
  2. Evi­tar his­pa­nis­mos, argen­ti­nis­mos, arcaís­mos e neologismos.
  3. Pre­fe­rir as as pala­vras habi­tu­ais às pala­vras assombrosas.
  4. Inter­ca­lar num relato des­cri­ções cir­cuns­tan­ci­ais que o lei­tor actual exige.
  5. Simu­lar peque­nas incer­te­zas já que se a rea­li­dade é pre­cisa, a memó­ria não o é.
  6. Nar­rar os fac­tos como se não fosse capaz de os compreender.
  7. Recor­dar que as nor­mas ante­ri­o­res não são obrigações.
  8. Recor­dar que o tempo se encar­re­gará de as abolir.

Lê-se e só ape­tece envelhecer.

* Pg 975 da minha velhi­nha edi­ção da Emecé Edi­to­res, Bue­nos Aires, 1974

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Lamento mas a realidade é mesmo tramada

E um mar­xista também

Não tive pesa­de­los supe­res­tru­tu­rais nem estou ata­cado, sos­se­guem, por nenhuma febre mar­xista. Mas acor­dei com uma irre­pri­mí­vel von­tade de vos suge­rir que uma ide­o­lo­gia, qual­quer ide­o­lo­gia, de “esquerda” ou de “direita”, corre sem­pre o risco de ser­vir como peri­gosa ben­gala inte­lec­tual. Enquanto sis­tema “arru­ma­di­nho” de ideias, enquanto catá­logo bem orga­ni­zado de valo­res ofe­rece, sem esforço de maior, uma inter­pre­ta­ção ins­tan­tâ­nea da rea­li­dade, uma mun­di­vi­são “prête-à-porter” que dis­pensa muito mais elu­cu­bra­ções. Basta jun­tar água. Nesse sen­tido, que tem tanto de redu­tor como de per­verso, uma ide­o­lo­gia é um ata­lho, pro­fun­da­mente cómodo, para o pen­sa­mento. Ou, pelo menos para um suce­dâ­neo de pen­sa­mento. Arruma o real em gave­tas, etiqueta-o, cataloga-o, afasta dúvi­das e hesi­ta­ções, dis­pensa angús­tias e, sobre­tudo, ofe­rece a nar­có­tica ilu­são das gran­des con­vic­ções e toni­tru­an­tes certezas.

Para­do­xal­mente ou tal­vez não, uma ide­o­lo­gia, qual­quer ide­o­lo­gia, é par­ti­cu­lar­mente efi­caz nos pri­mei­ros está­gios de con­sumo. Enquanto não ganhou no cere­belo uma espes­sura mínima, enquanto a rea­li­dade não teve tempo de atra­pa­lhar a geo­mé­trica orga­ni­za­ção men­tal, enquanto não se abri­ram ainda fis­su­ras na per­fei­ção do sis­tema, em suma enquanto a dúvida – eterna rameira – não pas­sou ao contra-ataque.

Segu­ra­mente tam­bém não por acaso, é nos recém-convertidos (e, con­cedo, nos mais pobres de espí­rito) que é mais efi­caz a tera­pêu­tica ide­o­ló­gica. O fer­vor quase reli­gi­oso da cer­teza, o êxtase orgas­má­tico da ausên­cia de dúvida, nunca são tama­nhos como nos pri­mei­ros está­gios de ade­são ide­o­ló­gica ou nas cabe­ci­nhas mais pre­gui­ço­sas. A estrada de Damasco tem esse encanto. Basta pen­sar em todos quan­tos pas­sa­ram dos mar­xis­mos, dos maoís­mos, dos trot­kis­mos, para os con­ser­va­do­ris­mos, os libe­ra­lis­mos (ou vice versa) para que se com­pre­enda bem o que digo.

É pois che­gada a altura de per­gun­ta­rem: “está tudo muito bem, já per­ce­be­mos que que­res pas­sar por inte­lec­tual, mas isso vem a pro­pó­sito de quê?”. E eu, pimba. Vem tudo isto, pasme-se, a pro­pó­sito do governo. Cresce em mim – lá está — uma incó­moda dúvida, uma afli­tiva sen­sa­ção. A ideia que esta­mos perante um governo pro­fun­da­mente ide­o­ló­gico, por­ven­tura o governo mais ide­o­ló­gico dos últi­mos vinte anos. “E que mal tem isso?”, per­gun­tam vocês. “Não eras tu que há pou­cas sema­nas te insur­gias con­tra uma visão exclu­si­va­mente tec­no­crá­tica da poli­tica? Não és tu, ainda por cima, que te dizes libe­ral?” Pois, digo eu, gosto de polí­ti­cos com norte, de polí­tica com con­vic­ções e valo­res e acre­dito que esta é mais tri­bu­tá­ria da ética do que da ciên­cia. Mas con­vém, se não for pedir demais, que a con­vic­ção ide­o­ló­gica seja sufi­ci­en­te­mente espessa, sufi­ci­en­te­mente reflec­tida, mini­ma­mente tes­tada para poder inter­na­li­zar a dúvida, sofisticando-se. Para poder con­vi­ver com a con­clu­são tra­mada de que a rea­li­dade é sem­pre com­plexa demais para se dei­xar ficar, sos­se­ga­di­nha, arru­mada em gavetas.

Uma gaita, é o que é. Mas as coi­sas são o que são. O Mundo está par­ti­cu­lar­mente peri­goso, a rea­li­dade complica-se e não pára qui­eta. Por mais incó­modo que isso seja, há que sair dos espar­ti­lhos inte­lec­tu­ais mais aper­ta­dos. À esquerda e à direita.

 

Visão de 17.5.2012

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Que bela equipa …

« As esta­fe­tas são pro­vas uti­li­za­das no atle­tismo e na nata­ção e con­sis­tem na divi­são da dis­tân­cia a per­cor­rer por um deter­mi­nado número de atletas, cabendo a cada um cum­prir uma parte igual do percurso. No atletismo, no fim de cada percurso, os cor­re­do­res têm de entre­gar um tes­te­mu­nho (um bastão) ao colega que ini­cia a cor­rida seguinte. A pas­sa­gem do tes­te­mu­nho é feita em anda­mento e num espaço limi­tado de dez metros. Contudo, o atleta que recebe o tes­te­mu­nho pode come­çar a cor­rer dez metros antes. Esta fase da cor­rida é muito importante, pois uma má sin­cro­ni­za­ção pode dei­tar tudo a per­der. 
Estas pro­vas são, no atletismo, as únicas onde há tra­ba­lho de equipa. 
As cor­ri­das de esta­feta apa­re­ce­ram por volta de 1880, nos Esta­dos Uni­dos da América, quando os bom­bei­ros de Nova Ior­que resol­ve­ram orga­ni­zar com­pe­ti­ções de cari­dade onde, a cada 270 metros, passavam o testemunho, na altura uma ban­deira.
O tes­te­mu­nho uti­li­zado era de madeira e tinha 30 cen­tí­me­tros de comprimento, mas depois deu lugar a um de plástico. Mais tarde, passou a ser uti­li­zado um cilin­dro metá­lico ainda mais leve.
As pro­vas de estafeta estrearam-se nos Jogos Olímpicos na edição de 1908, em Londres.

in http://www.infopedia.pt/$estafetas 

Não sei se pode­mos con­si­de­rar o nosso ‘Museu das Cur­tas’ uma esta­feta. O que é que acham?                                                                                                                             :-)    

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Do Fundo do Coração

 Quando fil­mou One From the Heart (1982), Cop­pola era o cen­tro do mundo. Vinham vê-lo pere­gri­nos ale­mães (Wen­ders, Her­zog, Syber­berg), fran­ce­ses (Godard e Berri), ingle­ses (Michael Powell), jugos­la­vos (Maka­ve­jev), rus­sos (Bon­dart­chuck), sem esque­cer os pro­lon­ga­men­tos ori­en­tais de que Kuro­sawa é o exem­plo maior. O mundo con­ver­gia para Hollywood e um pla­teau da Zoe­trope bas­tava para o con­ter. Mundo e palco pare­ciam ser uma e a mesma coisa: Do Fundo do Cora­ção não faz senão ence­nar essa seme­lhança.
O texto que se segue foi escrito para ser lido depois de se ver o filme na Cine­ma­teca. Sem o filme à mão…

One From the Heart acende-se como a luz. A ideia de que estou perante um filme novo é uma evi­dên­cia irre­pa­rá­vel. Tanto se me dá como se me deu que isso custe aos que só con­se­guem ver o “novo” numa his­tó­ria novi­nha em folha e que, por isso, con­si­de­ram (o que dou de barato) que a “his­tó­ria” de One From the Heart tem res­pei­tá­veis bar­bas. Tanto se me dá como se me deu que isso custe aos que só con­se­guem des­cor­ti­nar o “novo” em cinema de “pura rup­tura” e que nem sequer admi­tem que o filme que “conta uma his­tó­ria” possa ser novo.
One From the Heart é novo na arte de criar simul­ta­nei­da­des tem­po­rais, é novo no modo como “viaja” de um espaço a outro, e é novo mesmo no modo como asso­cia a música à ima­gem — o que quer dizer que é tam­bém o mais belo (senão o único) melo­drama desta década.

A his­tó­ria, repito, poderá ser a mais velhas das his­tó­rias — num tempo em que todas as his­tó­rias já foram con­ta­das, por­que não houve nenhuma que não lem­brasse ao diabo — mas nunca nin­guém se tinha lem­brado de con­tar a velha his­tó­ria de One From the Heart à velo­ci­dade da luz. Em One From the Heart, quando se passa de uma cena à outra, não se passa neces­sa­ri­a­mente de um plano a outro. De resto, em One From the Heart não se passa. A simul­ta­nei­dade das opções não se ima­gina, não se deduz nem se infere: vê-se. E vê-se logo.
No mesmo plano (con­ceito arcaico alta­mente insa­tis­fa­tó­rio) chocam-se, por exem­plo, as infi­de­li­da­des de Hank e Franny. Mais ainda, e essa é a suprema audá­cia, não chega a ser certa que seja a efec­tiva infi­de­li­dade recí­proca que vemos: é pos­sí­vel que este­ja­mos a ver a ideia dessa infi­de­li­dade, tal como a avi­sada cons­ci­ên­cia de cada um dos aman­tes a projecta.

Para ser sin­cero, pouco me inte­ressa que Fran­cis Ford Cop­pola tenha sido o pri­meiro a con­tar assim uma his­tó­ria e as ideias dessa his­tó­ria. Esse subli­nhado era ape­nas um recurso retó­rico. Agora que ele a tenha con­tado, pela pri­meira vez, à velo­ci­dade da luz e com tão belís­sima feli­ci­dade, só não é tão bonito como quando se des­co­bre pela pri­meira o amor por­que isso foi Grif­fith e foi Ford (no cinema, o amor foi des­co­berto duas vezes pela pri­meira vez), muito embora con­ti­nue a dar a mesma von­tade de mor­rer.
Há pes­soas a quem o facto de Cop­pola ter feito irrom­per o “novo” atra­vés de meios “novos” pro­voca um risi­nho ner­voso. A mim dá-me uma espé­cie de satis­fa­ção silen­ci­osa e apai­xo­nada. Ponho-me à escuta e dou a pala­vra a Cop­pola: “Apli­car e fazer um novo uso da tec­no­lo­gia — um novo modo de fazer um filme — poderá impli­car uma nova maneira de pen­sar um filme. Há uma nova área de con­teúdo das his­tó­rias que se torna aces­sí­vel atra­vés de uma nova tec­no­lo­gia… Ainda não des­co­bri um nome para isso: ‘cinema elec­tró­nico’ não é na ver­dade cor­recto e uma coisa como ‘vide­o­vi­sion’ soa a cam­pa­nha publi­ci­tá­ria. Tes­tar tudo atra­vés dos écrans de vidro, mani­pu­lar os cená­rios e as cores, ver muito antes do tempo, de certo modo, como é que tudo irá sur­gir no grande écran. De modo curi­oso e tal­vez con­tra­di­tó­rio, o uso de um maior número de téc­ni­cas torna a rea­li­za­ção de um filme mais pes­soal. Não é pre­ciso ser-se tão abs­tracto agora.
Na ver­dade, dis­po­nho agora dos meios que me per­mi­tem sentar-me e tra­ba­lhar como se fosse um roman­cista, ou seja, pra­ti­ca­mente sozi­nho, tra­ba­lhando na minha ima­gi­na­ção aquilo que o filme poderá vir a ser. Estou obvi­a­mente a encur­tar a expli­ca­ção, mas a pura ver­dade é que posso sair da minha sala de tra­ba­lho direc­ta­mente para a sala de pro­jec­ção e vê-lo”.

As coi­sas gran­des e novas nunca pare­cem gran­des e novas, o que tal­vez expli­que o gigan­tesco flop comer­cial que foi One From the Heart. As coi­sas gran­des e novas pare­cem sem­pre peque­nas e fami­li­a­res, pare­cem muito sim­ples e sem con­sequên­cias, e só se dá conta delas quando já trans­for­ma­ram tudo à nossa volta. Suce­deu com One From the Heart onde não só tudo é fami­liar, como tudo o que vemos só podia ser como vemos que é. Essa impres­são de neces­si­dade é um bra­são de nobreza. Por exem­plo, ver­mos que tudo foi fil­mado em estú­dio, com a repro­du­ção de uma Las Vegas em mini­a­tura que riva­liza em per­fei­ção com o ori­gi­nal, leva-nos a pen­sar que todo o cinema devia obri­ga­to­ri­a­mente ser feito em estú­dio e que o con­trá­rio é uma detes­tá­vel per­ver­são.
Tam­bém nos esque­ce­mos que nor­mal­mente, no cinema, para cada cena, se pre­para uma deter­mi­nada ilu­mi­na­ção e pas­sa­mos a acre­di­tar como­vida e can­di­da­mente que, num filme, a ilu­mi­na­ção é musi­cal e deve ter uma linha meló­dica que sirva o ritmo das emo­ções, como na cena em que Fre­de­ric For­rest #dirige” os car­ros da Rea­lity Wrec­king como quem dirige uma orques­tra, ou na pro­di­gi­osa manhã que se segue à noite de amor com Nas­tas­sja Kinski, ou nessa como­vente “desa­fi­na­ção” que é a can­ção de Hank no aero­porto, ou por fim (no exem­plo que deve sem­pre ser o último argu­mento de quem esteja per­di­da­mente apai­xo­nado pelo filme) na peque­nina e deli­ci­osa fan­ta­sia que é o regresso de Teri Garr a casa: a incrí­vel inti­mi­dade da cena, desse impos­sí­vel regresso, faz com que a veja­mos menos com os olhos e mais com as mãos, como se o filme nos viesse, feito cai­xi­nha de música, parar às mãos.

 One From the Heart é o con­flito entre a luz e a escu­ri­dão, entre o dia e a noite, entre a cidade e o deserto. Claro que, por causa disso tudo, é tam­bém o filme do con­flito entre as cores: “o con­flito entre a púrpura-azul-verde, cores da intro­ver­são, e o vermelho-laranja-amarelo, cores da extro­ver­são, é rea­vi­vado. O filme é a repre­sen­ta­ção, pelas cores do espec­tro cro­má­tico, das emo­ções e dos esta­dos de alma que carac­te­ri­zam os momen­tos da nossa vida…” disse Vit­to­rio Sto­raro, o direc­tor de foto­gra­fia. Ainda mais belo que o estudo car­te­si­ano das pai­xões, acres­cento eu.
Tão belo como os mais belos Min­nelli no tra­ta­mento da cor, One From the Heart reen­con­tra o esplen­dor do melo­drama na fabu­losa música de Tom Waits e Crys­tal Gail, com­ple­mento sonoro (melhor seria dizer, um alter-ego) no novo tipo de pro­fun­di­dade de campo inven­tado por Cop­pola (a pro­fun­di­dade de campo em Orson Wel­les é “new­to­ni­ana”, enquanto no Cop­pola de One From the Heart é “eins­tei­ni­ana”)… Mas para quê rei­vin­di­car mais méri­tos for­mais? One From the Heart é ao mesmo tempo o tea­tro, a fábula, o conto de fadas, a pres­ti­di­gi­ta­ção de um plano em que Nas­tas­sja, feita “cir­cus girl”, desa­pa­rece como “spit on the grill”. Como se não bas­tasse o fogo-de-artifício de tanta ilusão.

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Uma história Mariana

MARIA ABRIU AS PERNAS E PUFF. Ainda a par­teira lavava as mãos, já o médico estava de boca aberta, o marido des­mai­ado no chão e a coisa cá fora. Nem houve tempo para o pro­ver­bial ‘Faça força!’. A coisa saiu gasosa, sem esforço e para espanto de todos.

A gra­vi­dez de Maria tinha sido leve. Dema­si­ado leve e des­com­pli­cada. Embora a sua bar­riga fosse enorme, Maria não tinha sen­tido o peso e os incó­mo­dos que tinham afli­gido as suas ami­gas. Nem enjoos nem per­nas pesa­das nem sequer tinha aumen­tado de peso. Na ver­dade Maria nunca sen­tiu abso­lu­ta­mente nada, o que tal­vez pudesse ter sido enca­rado como augú­rio do que aí vinha. Tam­bém não aju­dava o facto de Maria, con­tra o bom con­se­lho do seu Manuel, ser uma espé­cie de hippy da Inter­net, daque­las que tudo lê desde que cheire a mís­tico e alter­na­tivo, e tenha recu­sado toda e qual­quer inter­ven­ção médica. Nem amni­o­sin­te­sis, nem eco­gra­fias, nada. Para Maria a cri­ança nas­ce­ria em casa ou na rua ou no carro ou em qual­quer esta­ção de metro. A natu­reza segui­ria o seu curso. Seria ela a ditar a sua lei e o seu tempo sem a inter­ven­ção arti­fi­cial de médi­cos e médicas.

Aben­ço­ada inter­net que tanto ensina’ assim pen­sava Maria. Mas no fim o cagaço acor­dou o bom senso e, quando Maria sen­tiu uma con­tra­ção­zita que na ver­dade mais pare­cia um arroto, o Manuel lá a con­ven­ceu a ir à mater­ni­dade para con­cluir esta gra­vi­dez e-mística com uma certa apa­rên­cia de normalidade.

Ainda assim nin­guém estava pre­pa­rado para o que se seguiu. Muito menos Manuel, o pai moderno e cora­joso que tinha deci­dido pegar o parto de caras, de olhos bem pos­tos na vagina da mulher que espe­rava ver abrir-se, des­co­mu­nal, e regur­gi­tar o rapaz que tanto ansi­ava. Chamar-lhe-ia Zé como o seu pai, ou Joa­quim, como o avô. Tinham falado sobre isso e tido, inclu­sive, algu­mas dis­cus­sões aca­lo­ra­das. Maria que­ria olhar pri­meiro a cara do recém nas­cido e dar-lhe um nome ins­pi­rado nas expres­sões e nos tre­jei­tos que fizesse. Manuel temia que o filho aca­basse Buda, Shar­pei ou Rato (mui­tos recém nas­ci­dos pare­cem ratos pela­dos à nas­cença) ou Rata, Deus os livre, no caso de ser uma menina. Mas não. Seria Zé ou Joa­quim e, se fosse rapa­riga, então a mãe pode­ria dar azo aos seus deva­neios e chamar-lhe, Flor, Cereja, Anona ou fruta da época. Rapaz ou rapa­riga logo se veria. O que o casal não con­tava era que não fosse nem uma coisa nem outra.

Maria abriu as per­nas e puff. Puff lite­ral­mente. Puff foi o que se ouviu enquanto a sua grande bar­riga se esva­zi­ava como um balão. E, por entre as per­nas de Maria, soprada por uma vagina que se man­teve sem­pre impá­vida e serena, saiu uma lin­dís­sima nuvem. Uma nuvem branca, pequena e linda. Um floco de vapor pri­ma­ve­ril que de ime­di­ato subiu e pai­rou na sala de parto. Uma nuvem deli­cada que todos admi­ra­ram de boca aberta; bem mais bem aberta que a vagina da Maria que, para a parir, pre­ci­sou ape­nas de bocejar.

E então Maria olhou para a nuvem e pen­sou em que nome lhe dar. Ainda teve que pen­sar um pouco, pois nem todo o nome é nome de nuvem. Podia ser Ascen­são ou então Apa­re­cida. Nuvem Apa­re­cida não ficava mal. Mas não era a cara dela. Outro nome a Maria havia de encon­trar. E encontrou:

— Manel, — disse a Maria quando o pobre pai da nuvem final­mente reto­mou o sen­tido — não é linda a nossa nuvem Clara?

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Já passaram 5 meses …

5 meses depois by riVta

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As sombras de Burton

Nos bons tem­pos teria dito cobras e lagar­tos deste filme de um vam­piro oito­cen­tista e uma bruxa muito, mas mesmo muito boa. Nos tem­pos que cor­rem, come­cei a con­tar pelos dedos os momen­tos gour­met e foram:

- não é qual­quer um que se atreve a abrir com os moody blues e as melo­sas, deli­ci­o­sas noi­tes de cetim branco;

- é pre­ciso ser-se um des­ca­ra­dís­simo artista para mudar logo a seguir a agu­lha dos moody blues para a sea­son of the witch, man!!!

- a rein­ven­ção do alca­trão, esse piso bizarro;

- andar um tipo enfro­nhado numa espé­cie de livro de são cipri­ano à pro­cura da letra dia­bó­lica e, saído do cai­xão, dois sécu­los depois, des­co­brir num mefis­to­fé­lico M, num certo néon, a fonte de todo o mal;

- a apa­ri­ção bronca do fabu­loso Jac­kie Earle Haley a anun­ciar que esta­mos em 1972– que grande actor;

- um vam­piro não con­se­guir des­co­brir, já não digo uma cama, mas ape­nas um canto decente para dor­mir confortável;

- a mara­vi­lhosa cena de cul­tu­ral clash face a um tele­vi­sor: “What sor­cery is this? Reveal your­self, tiny songs­tress!

- um filo­só­fico vam­piro, num rebate pós-charro, des­pa­char com grande lim­peza e ape­tite uma dúzia de retar­da­dos hip­pies dos anos 70… (e o espec­ta­dor ado­rar a chacina);

- a gene­rosa apa­ri­ção de Alice Coper, the ugli­est woman I’ve ever seen, para hor­ror de Johnny Depp;

- o momento em que a câmara se fixa em Johnny Depp e uma ren­dida e devota Helena Bonham Car­ter ajoelhando-se sai de campo (sim, o filme é lubri­ca­mente depravado);

- michelle pfeiffer…

Bem sei que as doses vêm ser­vi­das em tem­pos dese­qui­li­bra­dos, mas há guilty ple­a­su­res pelos quais tudo se des­culpa. Já não via um filme capaz de saber ser camp há alguns anos. Ah, grande Tim Burton.

 

 

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E a menina, tem alguma love experience para contar?

Está deci­dido: resolvi colec­ci­o­nar num caderno rela­tos de love expe­ri­en­ces. Com algu­mas con­di­ções: que sejam con­ta­dos pela voz de mulhe­res, que a expe­ri­ên­cia não dure mais do que alguns segun­dos ou minu­tos e que não impli­que neces­sa­ri­a­mente – embora tam­bém não exclua à par­tida — aquilo em que estão a pensar.

A deci­são deveu-se, claro, à razão de sem­pre, à apa­ren­te­mente ina­tin­gí­vel aspi­ra­ção a apren­der qual­quer coi­si­nha, por insig­ni­fi­cante que seja, sobre os inson­dá­veis desíg­nios da sedu­ção feminina.

O exer­cí­cio come­çou com uma casta Debo­rah Kerr, numa noite de calor algu­res pela costa oci­den­tal mexi­cana, com um inqui­si­dor com cara de Richard Bur­ton a bra­ços com angús­tias quanto à sua voca­ção de ser­vi­dor da Igreja. Anda­vam igua­nas por perto e, à mesma hora da con­fis­são, a umas cen­te­nas de metros de dis­tân­cia, uma Ava Gard­ner — já qua­ren­tona mas mais volup­tu­osa do que nunca — entretinha-se com dois nati­vos locais, a cha­pi­nhar à beira-mar.

Ter­mi­nado o desa­bafo da Kerr, con­fesso o que todos os homens con­fes­sa­riam no meu lugar: que desisto dos meus nobres pro­pó­si­tos de colec­ci­o­na­dor e que me estou nas tin­tas para ten­tar per­ce­ber as mulhe­res. E que o que quero mesmo é ir a cor­rer para a beira-mar, para per­gun­tar à Gard­ner se pre­cisa de ajuda. E mais não digo.

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Uma vez, tive uma pequena

Na semana pas­sada, de acordo com o Público, o mais atra­pa­lhado de todos os gran­des jor­nais em lín­gua por­tu­guesa, o Banco Cen­tral da Noru­ega, que recen­te­mente desfez-se de toda sua par­ti­ci­pa­ção nas dívi­das por­tu­guesa e irlan­desa, tam­bém redu­ziu sua par­ti­ci­pa­ção de títu­los em libra ester­lina de 10% para 10%.

Fan­tás­tico, o Público cria um novo con­ceito: o de que empate é redu­ção. Que isso deve ter algo a ver com o estado aní­mico de seus reda­to­res nos últi­mos tem­pos, não se des­carta. Mas até soava bem. Lem­brava uma daque­las redun­dân­cias que Ger­trude Stein maneja com perí­cia de ourives.

E no entanto, depois, aler­ta­dos pelos pró­prios comen­tá­rios dos lei­to­res, as cifras muda­ram: “11% para 10%”. Quem não tivesse visto o surto de sur­re­a­lismo do empate-redução toma­ria essa redu­ção de 1% por um des­ses feti­ches quase eró­ti­cos. Se bem que 1% em casos assim é uma dinhei­rama e tanto. E que Ger­trude Stein uma vez disse: “já fui pobre e já fui rica. É melhor ser rica”.

O que não escapa à aten­ção é o fato de os noru­e­gue­ses ao mesmo tempo que se des­fa­zem de títu­los euro­peus de dívi­das con­de­na­das, inves­ti­rem mas­si­va­mente em títu­los norte-americanos e dos emer­gen­tes: Bra­sil, México e Índia, nesta ordem. A Noru­ega res­ponde por um dos PIB’s per capita mais ele­va­dos do mundo. E sem pro­du­zir muita coisa, além de algum ole­o­zi­nho ali no Mar do Norte, uns cepos de madeira para pôr na lareira, algu­mas cifras, um bocado de baca­lhau, muito out­sour­cing, para não falar de tédio e uma angús­tia exis­ten­cial do tama­nho de ati­ra­do­res de elite auto-adestrados.

O prin­ci­pal ges­tor do Banco Cen­tral noru­e­guês, por sinal, são fun­dos de pen­são. (Aliás, os mes­mos aci­o­nis­tas majo­ri­tá­rios de empre­sas robus­tas como a Petro­brás e por aqui). Pou­cos recor­dam tam­bém que as dis­cre­pân­cias de renda na Noru­ega são um tanto irri­só­rias. Esses fato­res, con­tudo, não se apon­tam, pois vão de encon­tro aos pri­va­tis­tas de plan­tão. E seria mais ou menos como indi­car que a exce­lên­cia, a crème de la crème do mundo capi­ta­lista, é gerida por fun­dos de pen­são de ex-funcionários públi­cos, apo­sen­ta­dos em estado de social wel­fare. E, logo, é de se pre­su­mir que esses fun­ci­o­ná­rios ganhas­sem um tanto melhor do que o Bra­desco ou mesmo os ban­cos públi­cos pagam aos seus fun­ci­o­ná­rios, seguindo a car­ti­lha mais ou menos neo-liberal pela qual reza Frau Mer­kel e rezava um Mon­si­eur Sar­kosy que parece haver dei­xado bem pouca sau­dade, a des­peito da can­tante consorte.

Mas a per­gunta sim­ples, ainda não quer calar: afi­nal, de onde a Noru­ega retira tanta pros­pe­ri­dade? E não vale dizer que é dos olhos azuis e gri­ses de suas bem nutri­das moçoi­las. Ou do petró­leo e do gás do Mar do Norte, que não assoma à super­fí­cie assim aos bor­bo­tões. O mesmo óleo que os árabes pos­suem em quan­ti­da­des muito mais, diga­mos, bor­botô­mi­cas. E nem por isso são mais prós­pe­ros — embora tal­vez pos­suam mais cava­los árabes puro san­gue. E bor­bo­to­mi­zem mais ao mundo a pros­pe­ri­dade de seus emi­res, vizi­res e xei­ques, que, por outro lado, não exis­tem na Noruega.

Cer­ta­mente a pros­pe­ri­dade do país de Ibsen e Munch não vêm da madeira de suas coní­fe­ras, que segundo Len­non sequer dá para acen­der direito. E aque­cer um pouco, no caso de um caso extra-conjugal. E, logo, não deve ter qual­quer ser­ven­tia na indús­tria dos fósforos.

É, faz tempo que eco­no­mia e non­sense pare­cem habi­tar a mesma vivenda. Ou sair por aí aos bei­jos e seli­nhos como Audrey Hep­burn e Gre­gory Peck num feri­ado romano. Ou serem tão esqui­zói­des quanto os que foram con­de­na­dos a viver seis meses enfur­na­dos na noite con­tí­nua de um des­ses fior­des nos cafun­dós do Polo. Naquela atmos­fera insana, que se atesta nos fil­mes do vizi­nho Berg­man. É certo que, em casos assim, ao menos a pre­sença de uma Audrey, sem mais, nos com­pen­sa­ria bem melhor das pola­ri­da­des de tão ímpio clima. Mesmo com aque­ci­mento cen­tral. Agora, tam­bém, se vivês­se­mos em tem­pos mais sin­ce­ros, e, por­tanto, poli­ti­ca­mente incor­re­tos, daria para sair por aí asso­bi­ando Norwe­gian Wood? 

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Sei que estás aí

 

Sei bem que estás aí, que arras­tas os pés em torno de mim. Nua, semi-nua, vai­dosa de ruiva. Sei que te com­pra­zes em ver-me assim. Amar­rada ao último ester­tor de vida que é esta cadeira. Cor­reias de cabe­dal, untada de morte para que a des­carga não falhe. Sei que estás aí algu­res. No olhar buro­crá­tico do Marshall, no ner­voso miu­di­nho da tes­te­mu­nha sem nome, na tris­teza infi­nita da tenente M. que se afei­çoou ao meu silên­cio com cheiro de velha. Sei que espe­ras adi­vi­nhar em mim um último esgar de arre­pen­di­mento, um sobres­salto de medo, um ins­tante de com­pai­xão. Desengana-te. O meu cora­ção está fechado no sem­pre. E olha que são já trinta anos, sem tirar nem pôr. A mãe que um dia late­jou em mim mor­reu con­tigo, na poça de san­gue em que te esvaíste, na bala pra­te­ada da velha Brow­ning que her­dei do meu pai, na mão tré­mula que naquele dia foi a minha. E desde então não mais tremi, não mais tre­me­rei. Não tenho futuro, não sei o que é o pas­sado, ima­gino inten­sa­mente o pre­sente. Sei que estás aí e não te temo.

Esconjuro-te. Sonho-me longe daqui, desta cadeira de metal, desta luz com uma fri­eza aguda de morte, desta flo­resta de eléc­tro­dos, deste ins­tante que pre­cede o nada. Sonho-me no Maine, no Maine da minha e da tua infân­cia, a cadeira é afi­nal de pau, o car­rasco és tu, vai­dosa de ruiva, nua semi-nua. A pali­dez pal­pi­tante daquela mal­dita lâm­pada apagou-se e vol­tou a ser o sol lân­guido de fim de Agosto. Os fios eléc­tri­cos fazem-se finís­si­mos ramos de pinhei­ros bati­dos pela brisa sal­gada do Atlân­tico. A luz da morte que aí vem é o fais­car suave do Farol, além, no fim da ense­ada. Lembras-te? Lembras-te, minha filha? Sei que estás aí. Que arras­tas os pés em torno de mim. E não te temo. Muito menos me arrependo.

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Dar a volta por cima

 Vi “Antó­nio das Mor­tes” no cinema Fla­mingo, no Lobito. A auto­ria é do sin­cré­tico Glau­ber Rocha, tão mata­dor de can­ga­cei­ros que fez um filme para matar Corisco, outro para matar Coi­rana. Mal sabia, nesse ano de inde­pen­dên­cia, quem era o bra­si­leiro que fil­mava san­gue como só Godard fil­mou san­gue e que encos­tava cada cena a can­ções que, ali onde elas can­ta­vam, qual­quer um chorava.

Antó­nio das Mor­tes”, tam­bém cha­mado “O Dra­gão da Mal­dade Con­tra o Santo Guer­reiro”, tinha mui­tas can­ções. Uma, “Dar a Volta Por Cima”, é ines­que­cí­vel. Se algum dia tiver de aju­dar alguém que pre­cise de ajuda mas não queira que lhe dêem a mão, estenda-lhe essa can­ção. Parece críp­tico: mas basta ouvir os ver­sos falando de um homem de moral que morde a poeira do chão e percebe-se logo.

Antó­nio é jagunço, assas­sino: a soldo de coro­néis para matar can­ga­cei­ros des­co­man­da­dos. O Bra­sil do pas­sado, tal­vez a Europa do futuro. Como o jagunço, tam­bém o can­ga­ceiro pode ser um cri­mi­noso a mando. Só que, quando deixa de ser­vir um senhor, o can­ga­ceiro con­ti­nua cri­mi­noso e converte-se num telú­rico espí­rito livre. O can­ga­ceiro brota do seco Nor­deste como o mais obs­ti­nado dos arbus­tos. O crime dele agarra-se ao ser­tão, à crespa pai­sa­gem. A sede dele sabe onde encon­trar a sobrante, rara, gota de água. O can­ga­ceiro é gémeo de uma Natu­reza mise­rá­vel e inós­pita. Comun­gam a escas­sez, o desapossamento.

Uma sebenta capa cin­zenta a cobrir-lhe o corpo vasto, espin­garda assas­sina colada à mão, Antó­nio, que em “Deus e o Diabo na Terra do Sol” já matara Corisco, her­deiro de Lam­pião o prín­cipe dos can­ga­cei­ros, volta agora e volta para matar Coi­rana, o último rebelde. Por­que lhe pagam. É um jagunço: serve os que têm, matando os que nada têm. É esse o mani­queísmo antro­po­fá­gico do filme de Glau­ber. Como num wes­tern cruel de Pec­kin­pah. Com mais música, uma música ino­cente e impi­e­dosa, cami­li­ana. De cordel.

Quando a voz sam­bista de Noite Ilus­trada canta “dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava”, vemos Antó­nio na sua estrada de Damasco, no meio de camiões de luz, a sofrer a con­ver­são e a mudar de campo. Os negó­cios de polí­tica pas­sam a ser com os outros, os dele só com Deus, o Deus mís­tico dos que nada têm.

Na única, bre­vís­sima con­versa que tive com Glau­ber devia ter-lhe per­gun­tado por­que é que a lágrima que no cinema do Lobito juro ter visto Antó­nio cho­rar, nunca mais a encon­trei ao rever o filme. Glau­ber ligara do hos­pi­tal para a Cine­ma­teca, a dias de mor­rer tão jovem. Atendi-o por aci­dente e ouvi-lhe mais a nítida res­pi­ra­ção arfante do que a lon­gín­qua voz. Não o podia cansar.

Ainda hoje pro­curo a lágrima que Antó­nio das Mor­tes cho­rou só para mim num cinema de Angola. Uma lágrima de dois lados. De um lado peni­tên­cia, do outro esperança.

Publi­cado no Expresso a 12 de Maio. Sábado que vem, há uma enxur­rada erótica.

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Pedro Calapez

Cabe agora a Pedro Cala­pez, modi­fi­car a nossa “face” do nosso blog. Seja bem vindo!
A sua arte, dese­nhada, pin­tada, ima­gi­nada, dis­pensa apre­sen­ta­ções, mas que­re­mos agra­de­cer ter aceite par­ti­ci­par, tris­te­mente, nesta letrada saga, tal­vez não tão dis­tinta dos ter­ri­tó­rios do dese­nho, da pin­tura, da escul­tura.
São tra­ba­lhos onde se sente a pre­sença de uma arqui­tec­tura, mesmo que con­fun­dida na pers­pec­tiva dos espa­ços dese­nha­dos. São super­fí­cies negras ris­ca­das por linhas bran­cas, for­mas deli­ne­a­das sobre bases de cor. Fun­dos ver­me­lhos e linhas ras­ga­das que se abrem em espaço.
Há man­chas cor­ta­das que assu­mem a tri­di­men­si­o­na­li­dade, uma pin­tura que salta da tela. Ou tra­ços gor­dos, cheios e vazios, em super­fí­cies pris­ti­nas de alu­mí­nio. Há ainda as ins­ta­la­ções exte­ri­o­res aos espa­ços de gale­ria e muse­o­ló­gi­cos.
Há sobre­tudo o dese­nho, cali­brado e cui­da­doso que define con­tor­nos ou man­chas, o con­traste da linha com a super­fí­cie colo­rida. Há Matisse, há Hans Hoff­man, mar­ca­dos por uma idi­os­sin­cra­sia sem­pre pró­pria.
A cor, essên­cia em mui­tas das telas e tra­ba­lhos, vive lado a lado com o preto e o branco. Geo­me­tria, orga­ni­ci­dade, linha e man­cha, não se extin­guem entre si, antes se sobre­põem. O tra­ba­lho que deixa e per­mite uma nova inter­pre­ta­ção. A nossa e pro­va­vel­mente do pró­prio artista, e agora a dos pró­prios lei­to­res. Seja bem vindo.

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Antes de olharem lá para cima, olhem um segundo aqui para baixo

Importam-se de levan­tar ligei­ra­mente a cabeça e olhar lá para cima? Para onde? Essa é boa, para mim, claro, para a minha cara de Escre­ver é Triste. Daqui a um minuto, por obra e graça da minha Rita, eu vou ficar com outras cores. Pintou-me não digo quem. Desta vez, pedi ajuda a um dos meus Tris­tes. O Ber­nardo vai dizer tudo, quem é quem e como é bom quem, por ser quem não sendo eu nin­guém, foi meu pin­tor.
Agradeço-lhes e agra­deço tam­bém ao Nuno que tra­tou de tudo, tratando-me tão bem.
E se antes de olha­rem lá para cima, olha­rem um segundo aqui para baixo, pode ser que aqui em baixo adi­vi­nhem o que vai estar lá em cima.

 

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À meia-noite

Quando os meus Tris­tes sos­se­gam, inquieto-me eu. De repente, sinto um des­con­tro­lado impulso para mudar a casa. Como acho que todo o gesto deve ter uma vibra­ção sim­bó­lica, vai ser à meia-noite. Agora gosto muito da sala como está. À meia-noite como será?

 

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A segunda história da luz do sol

- Podia ser ele, não podia, mommy?

A cabeça branca da mulher levantou-se levis­si­ma­mente. O olhar desviou-se na direc­ção ino­cente da fita de alca­trão. Uma ligeira tre­mura das mãos fez osci­lar o livro que lia. Res­pi­rou fundo e um vago sor­riso aflorou-lhe a pali­dez dos lábios.

- É muito cedo. Vinha sem­pre mais tarde, querida.

A miúda sentou-se no muro da varanda, o braço esquerdo, tenso, a sustentá-la. Ficou a olhar, loura e fixa, para o ponto da estrada por onde pas­sava o auto­mó­vel. E insistiu.

- Vinha a que horas, mommy?

O sopro do vento era manso. As árvo­res esta­vam tão qui­e­tas como a mulher. A copa verde não se mexia. O cabelo branco dela, cor­tado curto, preso atrás, podia ser o de uma está­tua. A mulher demorou-se no meio da tarde. Como se não hou­vesse tempo, ape­nas o sol escal­dante, qui­eto. Se alguém esti­vesse a vê-las, tal­vez pen­sasse que a mulher mais velha não responderia.

- Quando a luz do sol come­çava a mur­mu­rar outra história.

A miúda mexeu-se sem se mexer, saindo clan­des­tina da absurda imo­bi­li­dade. A cabeça dou­rada con­ti­nuou presa à estrada em fogo, mas os olhos roda­ram, de esgue­lha, à pro­cura do sen­tido fugi­tivo da frase que se sol­tara da boca da mulher de cabeça branca. Havia nos olhos da miúda uma pressa que a calma ardente da tarde iludia.

- Mom, qual his­tó­ria? Nunca me contaste.

A mulher dei­xou pas­sar o sopro recto, agudo, do auto­mó­vel na estrada. Espe­rou que a geo­me­tria da casa se ajus­tasse de novo, isós­ce­les, à aba­fada copa do bos­que. Tinha o livro na mão, o olhar numa via lác­tea. No incen­di­ado silên­cio da tarde, o pas­sado encheu-lhe o corpo de facadas.

- Ele dizia que a luz do sol conta cada dia duas his­tó­rias. Pri­meiro, a his­tó­ria da luz que se levanta e cami­nha. Depois, bai­xi­nho, num mur­mú­rio, a segunda, a his­tó­ria da luz que se deita. Ele che­gava sem­pre quando a luz do sol come­çava a con­tar a segunda história.

Qual­quer coisa, tal­vez um grão de areia de um tempo antigo, aca­ri­ciou a juven­tude da miúda. Os ombros, o ven­tre ado­les­cente, comoveram-se. Um fré­mito, uma lágrima rolou-lhe do corpo. Tinha cres­cido num segundo. Uma velhice doce, minús­cula, entrara nela como um desejo.

A mulher de negro fechou os olhos e a ima­gem viúva de um homem recortou-se nas cores for­tes do cre­pús­culo. A ale­gria desor­de­nada de um corpo saía pela porta da pick-up que esta­ci­o­nara à beira da casa. O homem chamava-a, já com a miu­di­nha nos bra­ços. Gritava-lhe can­ções com as mãos maci­ças, prometia-lhe a festa da segunda his­tó­ria da luz do sol.

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O Piano com as teclas partidas

“Um piano com as teclas par­ti­das, rode­ado de água, tal­vez num pequeno lago. O dono do piano chega até ele, com água pelos tornozelos.” (*)

Há tex­tos assim. Que se diriam escri­tos no sem­pre. Afo­ga­dos numa memó­ria adi­vi­nhada. Hoje che­guei a casa angus­ti­ado e fui direito a ele. Sabia-o ali. A tocar bai­xi­nho. Soli­tá­rio. Per­dido no maru­lhar muito azul da minha biblioteca.

E ele lá estava de facto, virado do avesso, a dedi­lhar bai­xi­nho a tris­teza imensa de um piano sem teclas.

(in O Piano, Short Movies. Gon­çalo M. Tavares.)

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