Filmes, marmelada e um funeral

Body Heat

Quem frequenta salas de cinema é suspeito. Exige-se-lhe que responda, com cara de Buster Keaton, a este questionário slapstick à la Proust iniciado a semana passada.

Filme para uma bela sessão de, digamos, marmelada no cinema
 Se é para estar de olhos abertos, mãos e dedos perscrutantes, “Body Heat”, “Sea of Love”, o “Cat People” do velho Tourneur. Se é para atacar às cegas, gemidos e mais do que sussurros, talvez duas cadeiras esmigalhadas, escolha “Transformers”, “Mad Max” ou o ruidoso “This Is Spinal Tap”. Não se desgrace: cuidado com os silêncios em filmes de Straub ou Manoel de Oliveira.

Filme para ver depois uma valente ruptura conjugal
Vai precisar de muita nostalgia e capacidade de se rir de si mesmo. Ponha-se nas mãos de Peter Bogdanovich, sabendo que a coisa só já lá vai com sessão dupla: “Last Picture Show” e “Texasville”.

Filme para ver um ano depois da morte da mãe
Deixe-se levar e lavar em lágrimas com o milagre e ressurreição de “A Palavra”, do dinamarquês Dreyer. Só para os de pouca fé é que uma morte é definitiva.

Ordet

Filme para ver um ano depois da morte do pai
Não há pai como o Donald Crisp de “O Vale Era Verde”. É abandonado por todos os filhos, menos um. Todos queremos ser esse humilde menino de sete anos, que pigarreia ao fundo da mesa para que o pai lhe diga: “Sei que estás aí, meu filho”.

Que filme ver depois de sair da prisão
Se sai com a sensação de que ainda merecia mais cinco aninhos de pena, “Goodfellas” vai saber-lhe bem. Se sai inocente como entrou, nada o ligando ao BES ou a palmanços de armas em Tancos, console-se com o “In the Name of the Father”. “Pickpocket”, de Bresson, é para ex-presidiários mais metafísicos.

Filme para curar qualquer depressão ou ressaca
Toda a gente dirá “Blues Brothers”. A mim o que me resgata do fundo do poço é a velocidade e os dois leopardos de “Bringing Up Baby”; ou os cães e a doce tecnologia da casa de “Mon Oncle”, de Jacques Tati.

Filme para um regresso à infância
No “ET” as lágrimas vieram-me de bicicleta, mas o bolo inteiro da infância, curiosidade, alegrias e medos, reencontrei-o no bando de miúdos de “Stand by Me”.

Filme para os meus amigos se juntarem a ver depois do meu funeral
“A Matter of Life and Death” na esperança de que haja engano lá em cima e possa ser recambiado cá para baixo.

Publicado no Expresso, sábado, dia 17 de Fevereiro
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lugar paralelo

Chão alheio
Constelação sem estrelas
Segredos  estagnados
Correntes silos velas

Marés águas
Fragmentos
No profundo coração
A mesma construção

Terra culta moribunda
Sem sopro imenso azul
Crua queda carne frágil
Casa pomar olival

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Há mil anos atrás

HÁ MIL ANOS ATRÁS

Há mil atrás, todos tivemos pai
todos tivemos mãe, avô,
avó também, há mil anos atrás
fizemos esqui de tapete
pelo corredor encerado
e demos quedas condizentes
com o riso acelerado;
e há mil anos atrás
brincámos em quintais,
subimos às árvores,
arranhámo-nos demais,
e fomos tão bem comportados
nos natais de há mil anos atrás.
Há mil anos atrás íamos ser
polícias, bailarinas, professores,
tirar amígdalas se fôssemos doutores
de diga trinta e três,
pois hà mil anos atrás não esperávamos a vez
de ser; há mil anos atrás tínhamos amigos e cão
e ninguém conjugava o verbo solidão.
Há mil anos atrás a vida era nossa,
nem sabíamos que tinha fim.
Há mil anos atrás o mundo era um sim.

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Sobre os Desafios

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Tempística

TEMPÍSTICA

É Inverno e a Primavera chegou. As árvores tão despidas na avenida,
lá em baixo, não sabem. É que há isto de não saber o que não se pode saber:
como pode a folha chegar antes da hora se tem hora para chegar?
Tudo é isto. Tempística. Tudo quando cabe entre a vida e a morte é.
Fora do tempo, nem folha, nem flor, a regra é a voz do Vento.
Não desceu Ele sobre Zorobabel  e lhe disse,
não pela força, não pelo poder, mas pelo meu Sopro Sagrado?
Tudo é isto. Tempística. Mesmo há pouco, estava a ouvir como nada muda além
da mudança – como gosto de pensar em bíblico, gosto em dança,
e no samba estamos todos em nossas pequenas revoluções previstas,
Nelson Cavaquinho, Cartola, Ataulfo Alves, Candeia, Barbosa, eu sei lá,
sei que o coração não tem actualização, não há upgrade sentimental,
nem pela força nem pelo poder,
se é Inverno e a Primavera lhe chega à avenida, não pode saber,
nenhum templo Zorobabel levanta antes do Vento dizer.
Que me perdoem o quadradismo e se eu insisto neste tema
– e logo cantado por Maysa –
mas não sei fazer poema ou canção que fale de outra coisa que não seja o coração.
Quando no Sopro a tempística chegar, minha musa, minha lira, minha doce inspiração,
você passa, eu acho graça, nessa vida tudo passa, e você passou também
e então vou levantar o segundo Templo de Jerusalém.

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Deixem ir o amador à coisa amada

Este texto foi uma encomenda. Escrevi-o com muito gosto e com um descaramento que se baseia numa ideia simples: os poetas, os pintores, os romancistas devem ser falados, interpretados e comentados pelos seus leitores, mesmo por aqueles que, como eu, só como amadores os comentem. Os amadores, na sua exaltada e infantil incompetência, nunca dispensarão os especialistas. Os amadores são como as criancinhas que um tolerante Cristo deixa vir a si. Mas mal do especialista que não deixe, magnânimo, sentarem-se os amadores aos pés da coisa amada.

saiba o mundo de Amor o desconcerto,
que já coa Razão se fez amigo,
só por não deixar culpa sem castigo.

O Século de Camões
Manuel S. Fonseca

Se o século XVI não foi português, nenhum outro virá a sê-lo. As caravelas lusíadas atravessavam os mares. Cabral chegava ao Brasil, o Gama à Índia. E Colombo e Magalhães, um tocando a América, o outro circum-navegando o mundo, foram trânsfugas que a Coroa portuguesa sentou no colo de Espanha. A ousadia não tinha limites: Albuquerque pôs o Oriente a ferro e fogo, estabelecendo um Império. O escuro e hirsuto português comerciou com o Japão, aliou-se ao etíope, bordou de fortes e feitorias a costa de África, fortificou-se em Tuen Mun com ambição de conquistar a China, do que o dissuadiu o terrível poder dos Ming e, num tratado desmesurado, dividiu com Castela, ao meio, o mundo por achar.

Foi nesse mundo novo, de especiarias e ouro, que nasceu e viveu Luis de Camões. No século em que pela primeira vez olhos europeus viram o Grand Canyon, a baía da Guanabara e toda a extensão do Amazonas, também os dele viram Ceuta, a Índia, a China, a costa de Moçambique, três oceanos, o pequeno mar que, depois de Gibraltar, separa e junta a Cristandade e o Islão, homens e mulheres de múltiplas raças, estranhas crenças.

E é este Luis de Camões, de vivência universalista, que, a par das viagens, explorações e conquistas, ou também como expressão delas, faz do século XVI um século português. Mais claramente do que qualquer outra voz do século, Camões sente e pensa esse mundo novo numa poesia de admirável expressão épica e lírica.

Camões partilhou literariamente o seu tempo com Garcilaso de la Vega, Juan de la Cruz, Teresa d’Ávila, Christopher Marlowe, Gongora, Miguel de Cervantes, Pierre de Ronsard, Torquato Tasso. Parcialmente contemporâneos, John Donne e Shakespeare pertencem, no essencial das obras respectivas, já ao século seguinte. Comparada com as dos expoentes literários do século, a obra de Camões iguala-as no plano da emoção e apresenta, porventura, um superior fulgor filosófico.

Habitantes desse século foram também, e por ordem de nascimento, Copérnico, Kepler e Ticho Brahe. Coube-lhes fundamentar uma ordem nova, deslocando o centro do universo conhecido, da Terra, que ajudaram a pôr em movimento, para o Sol. A missão de Lutero, outro contemporâneo, foi a de fragmentar a centralidade de Roma e a infalível entronização papal, enquanto Erasmo sublinhava a soberania da vontade e libero arbitrio como essenciais à condição humana. Também Maquiavel torna perceptível, pela primeira vez, a dinâmica em que radica o Estado, os mecanismos empíricos do governo das nações. Nem o Tempo escapou a essa onda avassaladora do novo: é neste século que se fixa o calendário gregoriano, acertando-se de vez o instável equinócio e corrigindo-se a medição do ano solar.

De quase nada sabermos biograficamente dele, não sabemos se, de Copérnico a Maquiavel, tudo ou parte disto foi de conhecimento directo de Camões. Mas sabemos que o ar  e o ambiente intelectual daquele tempo foram também o do poeta. O mundo que “Os Lusíadas” retrata, “com saber só de experiências feito”, é um mundo de triunfo do empirismo subjacente à revolução científica que os quinhentistas Francis Bacon e Giordano Bruno conceptualizaram. E em “Os Lusíadas”, os mares por onde navega a armada do Gama são os mares que o planisfério de Gerardus Mercator revolucionariamente então representou.

Sem renegar um saber clássico, conhecedor de Aristóteles e Platão, infiltrado de neo-platonismo, o movimento do amor para a razão faz da poesia de Camões uma esplêndida interrogação da condição humana em termos que talvez não tenha paralelo nas figuras maiores da literatura do século: “Quem será que não julgue por celeste / a causa donde vem tamanho efeito, / que faz num coração / que venha o apetite a ser razão.”.

A sensualidade camoniana tem, por certo, correspondência na erótica de Donne e no lirismo amoroso de Ronsard. Prescientes do dualismo que Descartes afirmará triunfante no século seguinte, os poetas proclamam a soberania do corpo, dando luminosa e às vezes urgente expressão a uma carnalidade que os distingue do ascetismo místico, por arrebatador que seja, dos avilenses Juan de la Cruz e Teresa de Jesus. Do mérito e superioridade da experiência física e plenamente erótica do amor, Camões deixou testemunho liminar: “Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, / Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.”

A liberdade erótica tem a sua expressão suprema na imaginária Ilha de Vénus, do Canto IX, povoada de Ninfas que “Nuas lavar se deixam na água pura”. Como prémio terreno para os heróicos trabalhos dos lusitanos “Em cristalinos paços singulares / … / Os esperam as Ninfas amorosas, / De amor feridas, para lhe entregarem / Quanto delas os olhos cobiçarem.” E não se nega aos sentidos o que os olhos cobiçam: “Acende-se o desejo, que se ceva / Nas alvas carnes, súbito mostradas”.

A par dessa exposta sexualidade, a poética camoniana exprime, ao mesmo tempo, uma consciência reflexiva e intelectualizada do “eu” que parece adivinhar o cogito cartesiano: “Que, como um acidente em seu sujeito / Assim coa alma minha se conforma / Está no pensamento como ideia / E o vivo e puro amor de que sou feito / Como a matéria simples busca forma”.

Rendendo-se consoladamente à palpável realidade de um impetuoso erotismo, Camões não deixa de ser herdeiro da tradição neo-platónica e, com ela, de uma cosmologia sustentada num mundo superior que não se reduz à realidade sensível. Por isso, se no épico as Ninfas vão “Nuas por entre o mato, aos olhos dando / O que às mãos cobiçosas vão negando”, o Camões lírico há-de cantar (ou já teria cantado) o quão cedo desses olhos a Alma gentil se aparta descontente.

Em Camões, o Amor assume ainda a forma de superior conhecimento do mundo, nele se fundindo o conhecimento de si e do outro que é transformar-se o amador na coisa amada: “Não tenho logo mais que desejar, / Pois em mim tenho a parte desejada”. Essa oscilação entre a clara e distinta objectivação da experiência e uma subjectivíssima fusão cujo conhecimento é inalcançável para a mente humana, dá lugar à, tão lúcida como angustiada, meditação camoniana sobre a condição humana que estes versos exprimem: “Que dias há que na alma me tem posto / Um não sei quê, que nasce não sei onde, / Vem não sei como, e dói não sei porquê.

Se o século XVI foi português, só o terá sido por nunca, como nestes versos, a poesia escrita em língua portuguesa ter estado tão adiante do que racionalmente noutras línguas do seu tempo se escrevia: “Morrendo estou na vida, em morte vivo; / vejo sem olhos, e sem língua falo; / e juntamente passo glória e pena.” Nunca mais a língua portuguesa voltou a ser um tão dramático palco de contrários, nunca mais, em sofrimento e glória, carne e espírito, voltou a viver uma dialéctica de permanência e mudança, mesmo e outro, como a que Camões lhe imprimiu.

Se bem me lembro, já depois de ter escrito este louvor camoniano, publiquei-lhe, na Guerra e Paz editores, estes três livros: uma edição popular de “Os Lusíadas”, para todos os leitores e para estudantes, muito fácil de ler, com notas de Helder Guégués; a “Contradança” com as cartas de Camões que sobreviveram e magnífica pintura; e um excelente estudo de Vasco Graça Moura sobre a fidelidade das imagens do poeta, “Retratos de Camões”. Hei-de voltar a falar aqui deles. 

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Primavera em Bucareste

Este foi o press release da Guerra & Paz. Posto isto: vamos todos à Roménia celebrar a Primavera em Bucareste? 

Eugénia de Vasconcellos, poeta portuguesa, autora da Guerra & Paz, foi convidada a participar na IX.ª Edição do Festival Internacional de Poesia de Bucareste, que se realiza de 16 a 20 de Maio, na Roménia. Autora de O quotidiano a secar em verso, publicado em 2016, Eugénia de Vasconcellos junta-se assim a um evento que, desde 2010, já recebeu a presença de mais de 350 poetas convidados. Dinu Flamand, poeta romeno, tradutor de Fernando Pessoa, traduzirá sete poemas que serão incluídos, em romeno e em inglês, na antologia a publicar em Bucareste. Recorde-se que, além de O quotidiano a secar em verso, seu livro de maturidade, a autora tem a sua poesia publicada na Catalunha (La Casa de la Compassió) e na Sérvia (Beijograd), tendo traduzido, em edições da Guerra & Paz, a poesia de Claude Le Petit (O Bordel das Musas) e criado a sua versão de O Cântico dos Cânticos, integrada na colecção Livros Amarelos.

Autora com uma qualidade rara na poesia portuguesa, Eugénia de Vasconcellos tem uma poesia discursiva e envolve-se, sem reservas ou receio, com a realidade e com o quotidiano. Intensa e irónica, por vezes mordaz, os seus poemas não deixam de ostentar um lirismo límpido, a roçar o religioso. Ao lado de contos de Lídia Jorge, Maria Isabel Barreno, Yvette K. Centeno e Clara Ferreira Alves, entre outras escritoras, um conto seu, «Rosa», foi incluído na obra Do Branco ao Negro, traduzida recentemente para o alemão. A autora de um livro de ensaios, Camas Politicamente Incorrectas da Sexualidade Contemporânea, publicará este ano, na Guerra e Paz, um novo livro de poemas.

Com Bucareste transformada na capital de poesia de todas as Primaveras, Eugénia de Vasconcellos junta-se a um certame que inclui leituras de poesia e jazz, representações, debates, painéis de discussão e projecções. Durante o evento será lido uma selecção de poemas da autora, em português, inglês e em romeno.

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Somos todos arguidos

Este é o primeiro volet de um inquérito cinéfilo. A continuação, segunda e última parte, podem lê-la no Expresso em papel de hoje – e poupem-me a essa enervante conversa de “ai, eu deixei de ler o Expresso, só leio de vez em quando online o New York Times”. Por amor da santa, querem matar-me e ao Henrique Monteiro à fome?

Mas quem é que não vai ao cinema para matar ou morrer? No cinema abraça-se, beija-se, acaricia-se, come-se. Come-se tudo. O cinema é a cama de toda a virgindade: ali se perde, ali se volta a ganhá-la. Agora que banqueiros, primeiros-ministros, mesmo juízes são interrogados, todo o cinéfilo deve preparar-se para ser arguido e responder a esta lista, batoteiro questionário de Proust, em que serei o primeiro a ser enxovalhado. Comecemos:

Filme com a melhor canção na boca de uma personagem?

O filme é “One From The Heart”, o aeroporto é o de Las Vegas e a boca é de Frederic Forrest. De virilidade encolhida, canta malíssimo, e portanto muito bem, “You’re My Sunshine” à mulher que o deixa e entra no avião com o amante. Também podiam ser sete bocas em luto redentor, as de Meryl Streep, De Niro e outros, a cantar “God Bless America”, no final de “Deer Hunter”, filme que dá bom nome ao patriotismo.

 Filme com a canção mais bem ligada à trama?

O “Casablanca” sufocaria sem o oxigénio de “As Time Goes By”. Mas isso é para quem só queira as doces mariquices de Deus. Se querem ter na espinha um arrepio do Diabo, ouçam o “Time Is On My Side”, no “Fallen” de 1998. O medo, o mal, a possessão demoníaca de Elias Koteas são tão arrebatadores que só apetece dizer “shit lá para o paraíso”.

Filme para ver antes de perder a virgindade?

Pondo logo de lado a megalomania de “Boogie Nights”, que o tamanho aqui complica, e em vez de escolher o óbvio “Summer of ’42”, se procura um lírico estremecimento e supremo êxtase, veja o italiano “Stromboli”, fusão de uma mulher, Ingrid Bergman, e de um convulso vulcão. “Monica e o Desejo”, de outro Bergman, Ingmar, prova que a Suécia é bem mais do que o mobiliário, pau e camas do IKEA.

Filme para ver depois de perder a virgindade?

Duas hipóteses. Correu muito mal? Ver o “Alien” pode ser a forma de compensação: vistas as coisas pelos olhos de Sigourney Weaver podia, afinal, ter sido bem pior. Mas se correu tudo entre melosas lágrimas e suspiros mozartianos, corra ao cinema e dance e cante na cadeira o “Singin’ in the Rain”. No caso de ser já jovem intelectual e, naturalmente, antiamericano, que para isso é que é há cursos de filosofia, mobilize-se para ver a bela “Lola”, de Jacques Demy.

Agora, o arguido tem direito a descanso. Para a semana há mais justiça.

Publicado no Expresso, sábado, dia 10 de Fevereiro

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Escola de Santidade

ESCOLA DE SANTIDADE

Talvez eu tenha sido como disse Paulo:
não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço.
Talvez tu tenhas sido como foi Pedro:
jamais me negarias para logo me negares, e mais uma e outra vez.
Talvez os santos nada tenham para nos ensinar.
Talvez o coração nada tenha para aprender.

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Abril

 

Há, perdida nenhures no meio do Índico, na costa moçambicana, uma praia mágica de difícil acesso e que termina num cabo. Na realidade termina numa ponta: a Ponta Abril.

Há meses, no meio de uma enorme tempestade um velho veleiro de madeira, com pavilhão das Ilhas Maurícias, propriedade de um sul-africano, mas governado apenas por um francês, sofreu um naufrágio. Perdeu o leme e encastrou-se nas rasas rochas acutilantes de Abril.

Deslumbrado pelo canto das sereias, como na história do outro Senhor, com demasiado lastro ou devido ao temporal, a embarcação jaz moribunda a vigiar a praia.

Conta a recente lenda que o francês, em poucas horas, com ajuda de habitantes locais, recuperou várias malas de dentro da embarcação e, em dois todo-terreno, desapareceu.

Sobre o conteúdo das malas especula-se até hoje: droga, diamantes, contrabando desconhecido? Só o francês desaparecido sabe.

Quanto a mim, uso a praia sempre que posso; sozinho. Caminho e dou alguns mergulhos entre a força das marés do Índico e a boa vontade dos tubarões que sei existirem nessas águas quentes, e que insistem em não tomar o mata-bicho à minha passagem.

A praia, extensa, é, como diria qualquer europeu, paradisíaca. Para um africano é apenas uma praia; a cor da areia não tem cor e a cor do mar também não. Para os tais europeus, a areia é branca e o mar é “de um azul cristalino”. Mas, na realidade, há apenas os cheiros, os volumes das dunas, as movimentações do mar e da maré, das ondas, do céu e das nuvens, ah… Essas nuvens com ©.

A Ponta Abril descansa… imponente, lambida pelo Índico sem cor.

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A mulher imperseguível

Jean-Pierre Léaud toma o petit déjeneur com a terna, suave, angélica, doce, amorosa e cheia de graça Claude Jade

Não sei o que pensava Camões, mas eu estou farto de mudança: invoco um tempo definitivo.  Não quero que nada mude. Num filme, “Baisers Volés”, de Truffaut, havia um detective que anunciava esse tempo sempre igual, perene.

Soluça-me a prosa de tão ansiosa sinceridade. É compreensível, estou a falar-vos da minha vida precária e mutante. Revejo-me, por antinomia, em Monsieur Tabard, comerciante de sapatos em “Baisers Volés”. Tabard julga que toda a gente o detesta ou odeia. Mesmo a porteira do prédio encolhe os desdenhosos ombros quando ele fala. E a mulher dele, que se veste com a rutilante beleza de um milhão de francos, ri-se de tudo o que ele diz, salvo quando ele diz uma piada.

A rutilante beleza de um milhão de dólares de Delphine Seyrig

Incomodado por essa conspiração permanente, que tanto o magoa, Monsieur Tabard quer mudar. Comigo é pior: anima-me a ideia de que toda a gente me ama, a porteira que não tenho, a minha mulher que, com a rutilante beleza de um milhão de euros, se ri, magnânima, das minhas raras graças. É uma crença insustentável, bem me avisa Mário Centeno. Tanto o milhão de euros, como o amor ubíquo.

Farei como Monsieur Tabard, que pediu ajuda a uma agência de detectives. Pedir-lhes-ei que investiguem o amor dos leitores, o amor até da menina que me serve a bica matinal. Ininvestigável é o incomensurável amor do presidente Marcelo.

É aquela avalanche amorosa que me faz temer a mudança. Não quero perder o omni-amor. Apetece-me apontar uma pistola ao tempo e gritar: “Não te mexas!” Volto, por isso, ao sossego de “Baisers Volés”, filme em que se tomava chá e se barravam torradas com manteiga ao pequeno-almoço.

Há um detective que persegue a outra mulher do filme, a terna, suave, angélica, doce, amorosa e cheia de graça Claude Jade. Claude Jade é a inocência, é o feminino que agora inexiste. É imperseguível, porque só pode ser amada como nenhum homem é já capaz de amar. A não ser esse detective.

O detective, no final, declara-se: “Toda a gente trai toda a gente. Mas eu não a deixarei nem uma hora.” A menina, essa Claude Jade mais macia do que uma fresca farófia, está espantada. Ele sossega-a: “É demasiado súbito para que a menina abandone as relações provisórias que a ligam a pessoas provisórias. Eu sou definitivo. Eu sou feliz.” Só é feliz quem é definitivo, imutável. Não sei é se isso é amor, se é a morte.

Publicado no Expresso no primeiro sábado de Fevereiro

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Nem fogo nem fogão

Meu amigo Vinicius, leia com seu sotaque, perdão, sutaqui,
esta não-feijoada para sua “feijoada à minha moda”

 

NEM FOGO NEM FOGÃO

De quando em vez,
alguém me sabe e tudo compreende:
agora mesmo,
teu poema de feijão, rede e gato
para passar a mão –
teu mesmo, Vinicius, pois então.
Porém, olha a falha, sem Cão…
Minha moqueca, minha histórica feijoada,
hoje são nada,
nem cozinho mais.
Se me perguntares,
que é isso menina,
assim, onde vais?
A ti, meu amigo, pergunto-te eu,
e tu, onde estás?

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Crepúsculo (2)

Richard Diebenkorn 1956

Não tinha de ser assim.

Não tinha de ser assim, parecia repetir para si próprio logo de manhã , a luz fresca da neblina a entrar pela janela sobre o vale, ainda adormecido, como lhe parecia o mundo agora que a barba branca lhe cobria o queixo, pelos hirsutos que picavam os dedos.

O ritual da manhã cedo repetia-se matematicamente dia após dia, manhã após manhã , esquecido dos tempos em que tinha sido o oposto de todo aquele controlo, de toda aquela rotina. Talvez tenha sido a força escondida do pinhal denso, ou o frio da rocha granítica, o calor do sol que aquece no inverno o soalho largo do chão do terraço, aberto sobre um mundo que não dependia dele, felizmente.
Fosse o que fosse , já não se lembrava daquilo que pensava ter sido, aquela cara que ainda via nos álbuns antigos de fotografias, cobertos de pó, as margens queimadas da luz que teimosamente insistia em perfurar a capa grossa de cartão. Era uma realidade desaparecida, indiferente até, povoada de personagens que pareciam fora de moda, datados, como se fossem uma raça já extinta.
E o que tinha nascido em sua substituição? Não um homem novo mas sim um velho homem, cansado, desorientado da vida, só, ainda à procura de qualquer coisa que não conhecia, qualquer coisa que lhe tinha sempre fugido, escapado.

Tudo poderia ter sido diferente. A vida não negoceia nem dá hipóteses a quem não a rasga sem piedade. Queres tornar-te mobília de quarto? Vais ver como se envelhece à velocidade da luz.
Para quê , e porque era ainda atormentado, agora que começava a sentir que fazia parte de alguma coisa.
Sentou-se com a chávena de café grossa no terraço que olhava a serra, agora que a luz apagava contrastes e tudo banhava uniformemente.

E começou a sentir saudades.
Só saudades. De nada em especial, mas de sentir que o tempo também tinha o direito de passar.

Não tinha de ser assim, parecia repetir para si próprio logo de manhã , a luz fresca da neblina a entrar pela janela sobre o vale, ainda adormecido, como lhe parecia o mundo agora que a barba branca lhe cobria o queixo, pelos hirsutos que picavam os dedos.

O ritual da manhã cedo repetia-se matematicamente dia após dia, manhã após manhã , esquecido dos tempos em que tinha sido o oposto de todo aquele controlo, de toda aquela rotina. Talvez tenha sido a força escondida do pinhal denso, ou o frio da Rocha granítica, o calor do sol que aquece no inverno a Madeira larga do chão do terraço, aberto sobre um mundo que não dependia dele, felizmente.
Fosse o que fosse , já não se lembrava daquilo que pensava ter sido, aquela cara que ainda via nos álbuns antigos de fotografias, cobertos de pó, as margens queimadas da luz que teimosamente insistia em perfurar a capa grossa de cartão. Era uma realidade desaparecida, indiferente até, povoada de personagens que pareciam fora de moda, datados, como se fossem uma raça já extinta.
E o que tinha nascido em sua substituição? Não um homem novo mas sim um velho homem, cansado, desorientado da vida, só, ainda à procura de qualquer coisa que não conhecia, qualquer coisa que lhe tinha sempre fugido, escapado.

Tudo poderia ter sido diferente. A vida não negoceia nem dá hipóteses a quem não a rasga sem piedade. Queres tornar-te mobília de quarto? Vais ver como se envelhece à velocidade da luz.
Para quê , e porque era ainda atormentado, agora que começava a sentir que fazia parte de alguma coisa.
Sentou-se com a chávena de café grossa no terraço que olhava a serra, agora que a luz apagava contrastes e tudo banhava uniformemente.

E começou a sentir saudades.
Só saudades. De nada em especial, mas de sentir que o tempo também tinha o direito de passar.

 

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Amor de sempre e para sempre, não estás

AMOR DE SEMPRE E PARA SEMPRE, NÃO ESTÁS

Meu Espírito, Minha Carne,
Meu Nome para a Alegria,
Minha Porta para o Amor,
Meu Amor:
não se pode amar sozinho:
a escuridão existe
e tu não estás aqui.

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De ouro a águia, de prata o luar

 

Eu e a minha águia.
Quando ela voa sinto-me livre.

Montanhas Altai, Mongólia Ocidental, foto de Joel Santos

Ela pousa e o meu corpo tem asas.
E não me lembro das montanhas que galgei, das horas geladas, dos anos de treino que passaram até a sentir como o meu braço direito. A minha vida sempre existiu com ela,  muito antes de eu existir.

Montanhas Altai, foto de Joel Santos

Que histórias de vontade, e de vaidade, e de sobrevivência,  se revelam numa foto? Que laços de sangue existem entre uma águia e o luar?

Montanhas Altai, foto de Joel Santos

Quem serão os cavaleiros da montanha? Que mistério se enredou nesta noite de lua cheia?

Uma foto perfeita pode deixar pistas para caminhar?

Tenho a sorte de o Joel Santos me ter emprestado estes retratos da Mongólia para brincar com eles. Tenho o azar de olhar para eles e não saber ler nem escrever.

 

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