O Bailarico das Noivas

Trabalho sobre foto original da BUS  Orlanda.

Recolhem bens, chama-se BUS e é uma associação de solidariedade social. Partilham trabalho voluntário e resistem ao frio e ao calor num armazém cedido pela CMC.

Esta semana abriram um caixote com dez vestidos de noiva, novinhos em folha, para variar do que é habitual receberem: mesas, cadeiras, armários, utensílios de cozinha, candeeiros, sofás, mesinhas de cabeceira etc… que recebem para dar a quem precisa.

Um vestido de noiva não é fácil de distribuir e não é um bem essencial. Habituadas a reciclar, decidiram colocar os vestidos no OLX a um preço simbólico. Não perderam tempo. Despiram a roupa que traziam de casa e ajustaram os seus corpos velhos a estes vestidos novos. Dançaram, brincaram e riram-se muito da figura que fizeram. Depois de registar o momento, editaram no photoshop e colocaram no ” compra e venda” online.

Eu roubei uma foto linda, fiz o mesmo mas … com as cabeças no lugar. Ora vão espreitar.

 

Publicado em Post livre | 1 Comentário

Feliz Agosto

Antes do eterno Agosto, e para que não digam que não sou amiga e lailailai, sempre vos reafirmo, minhas lindas, que os homens são umas bichezas de outra raça. Isso não significa, porém, a leitura de estudos da psicotreta, ou mesmo científicos, muito menos a revisitação de clássicos da etiologia de Os Homens São de Marte, As Mulheres de Vénus. Tudo quanto é preciso saber sobre a guerra dos sexos está neste excerto de Grease, explícito e implícito. Não precisa de agradecer.

Publicado em Post livre | 6 Comentários

O amor das mulheres

Foi em 1994, e as mulheres, nesse tempo, ainda podiam falar dos homens com amor. A voz, que tem a delicadeza lírica dos tímidos autênticos, é a da actriz Mary Steenburgen. A graça balbuciante dela infiltrou na sala, cheia de mesas e convidados em festa, um silêncio clandestino e brando. Mary fala de Jack Nicholson, a quem o American Film Institute dá um prémio de vida e obra. E revela, sobressaltando a sala, que já adivinhava, mas não esperava ouvi-lo, que se conheceram na cama.
Se eu soubesse escrever uma crónica nunca teria começado por aqui, que é o mesmo que marcar um golo no primeiro minuto e perder o jogo no fim. Mary conta que estudara para actriz na Neighborhood Playhouse School of Theatre. Resultado: há cinco anos que servia à mesa em cafés manhosos de Nova Iorque. Desesperada, meteu-se num avião e foi a L.A., à Paramount, a uma audição para “Goin’ South”, um dos filmes que Jack Nicholson realizou. A directora do casting disparou-lhe um rotundo não: procurava actrizes famosas ou modelos mais boas do que milho transgénico.
Mary tinha os desenganados olhos enterrados no chão, quando viu um par de sapatos entrar no seu campo visual e uma voz, que ela sabia muito bem de quem era, perguntar. “Veio falar comigo?” Mary baixou mais a cabeça, meteu a mão à frente dos olhos e acenou que não. “Não veio ver-me?”, insistiu a voz. “Hã… hã”, foi a nega que fugiu da garganta de Mary. “E porque não?”, disse um Jack curiosíssimo, a tentar ver a cara que o emaranhado cabelo escondia. “Não trouxe script” justificou ela, olhando-o por fim.
Ele mandou-a voltar dois dias depois, com um texto. Num estúdio gigante, um só foco de luz ao meio a recortar uma cama gigante, deitava-se Jack. Mary meteu-se na cama e fizeram a cena da manhã seguinte a uma noite de amor.
Não é só a gratidão, é o tom de voz e o olhar com que Mary termina o discurso: “Jack, como te disse em “Goin’ South”, para um fora de lei foste um bom amigo.” Nicholson tem ao lado Candice Bergen, Shirley McLaine, Faye Dunaway, Rebecca Broussard, Madeleine Stowe. Sobe ao palco, fala e cala-se, cala-se e fala, emocionado, cinco minutos. E é Candice Bergen que deixa sair as lágrimas que Nicholson reprime. Todo o amor que deu, está ali, devolvido e líquido, nas lágrimas e olhares daquelas mulheres.

Publicado no Expresso

Publicado em Post livre | 7 Comentários

Hay uno espejo que te aguarda em vano

Imagine. Tem um desejo. Ou uma dor profunda. Uma alegria, um assombro da beleza espreita-o enquanto vai na rua a passear com o seu filho pela mão. Ou tem consciência dessa mão pequenina encaixada e segura na sua e percebe que a felicidade lhe está a dar um murro no estômago. São experiências também dos sentidos. Acordam-nos. São, portanto, experiências estéticas por oposição a experiências anestésicas, experiências de não sentir – já reparou que, estética e anestesia, com excepção do prefixo, são palavras com o mesmo étimo?

Agora dê mais um passo. O passo é olhar para essa experiência. Interrompê-la com o pensamento, essa soma da organização dos sentidos, das emoções, dos sentimentos e da informação, onde o que é demasiado quente, a razão arrefece – ou caótico, ou obscuro, ou sabe Deus – e devolve de forma a que possa ser pensado. A perspectiva mudou: é um observador, reflecte. Há alquimia nisto. Um eu é o outro rimbauniano. A matéria transforma-se noutra. Sim…

Alterar a perspectiva que tem do desejo ou da dor profunda ou da felicidade aguda é o que permite o poema, ou a pintura ou a música. A alquimia. O que permite a arte é outra coisa: é o fim da anestesia de quem lê o poema ou vê a pintura ou ouve a música. E ainda há a liberdade de aprender a gostar, de Dante ou de Mozart, ou de Paul Klee; também é aprender a sentir. Nem sei se a vida não é a oportunidade de nos apropriamos progressiva e amorosamente do seu território.

Isto porque estava a ler um poema de Borges. Límites. Borges, tal como nós, apenas de forma mais evidente, não morreu todo ao mesmo tempo: os olhos morreram primeiro: ficou cego. Acontece muito. Conheço um homem cujo braço direito morreu aos nove anos preso numa nora. Ele continua vivo e forte e amputado a caminho dos setenta. Eu própria já morri imenso, a minha memória então, é ela própria assassina. Hoje, sei que já vivi mais do que viverei. Para todos os lugares onde nunca voltarei, ou conhecerei, estou morta ou nunca nasci. E para as pessoas com quem jamais estarei. Acontecimentos desfazem-se à força de nunca terem existido. Há sempre o dia em que a morte já é maior do que a força da vida. Leva-nos. Y hay uno espejo que te aguarda en vano. Não conheço melhor pretexto para mudar de perspectiva.

Publicado em Post livre | 8 Comentários

O poema ensina a cair?

 

  • Cuidado, Teresa, ai meu Deus!

Tarde demais? Para quê palavras quando o desequilíbrio já tomou conta da acção?

Já vou em voo lançado, a patinar no ar como nos desenhos animados, a pensar em câmara lenta, como é que nestas fracções de segundo cabem tantas palavras, explode pensamento acumulado, tinha de ser eu, sempre a escorregar na portuguesa calçada mesmo de sapatilhas calçadas.

Com queda para a queda

 

Mas não riam já, ainda não caí, ainda vou no ar, a pensar no poema que tinha acabado de ler, na raiz medida, eu com queda para tanta coisa mas não para a poesia, a pensar no ar (um bom sítio para o pensamento) que, afinal, se o poema ensina a cair, eu que tantos tenho lido ultimamente, eu literal não literata, para que lado me lanço, vou de mão ao chão? Vou de ombro, para proteger a mão? Vou de cara, para proteger o ombro? Afinal que ensina o poema que ensina a cair?

E cá vou eu ainda no ar, a pensar nos solos, a perder o chão…mesmo ao lado da menina que tornou mais repetida essa irrepetível linha de Luiza Neto Jorge, por ter com ela baptizado uma página de poesia.

O Instagram, esse espaço aparentemente tão pouco poético, ganhou poemas fotografados, uma forma infalível de dar a ler versos a quem está viciado em fotos de telemóvel.

 

Ainda estou em voo, a patinar no ar, a esbracejar em desalinho, cara quase no chão e no último momento caio em mim, recupero a pose, lamento informar-vos que ainda não foi desta. O poema ensina a cair? A pensar na raiz, terá sido por tanto me ser dado a ler que me salvei da queda?

 

Obrigada, Raquel Marinho.

A esta hora ainda estaria a pôr soro na ferida.

 

Publicado em Post livre | 5 Comentários

O grande educador

Em “The Big Sleep”, quando Bogart sai de uma livraria, atravessa a rua e se refugia na livraria em frente, toda a cena é só alusão e vénia a Stanley Rose, fundador das duas. Uma antes, outra depois de ser preso por piratear uma antologia de humor escatológico. Da segunda, vituperava os sócios, pelos quais, generoso, se ofereceu à prisão, e que depois o traíram, deixando-o no cárcere e ficando-lhe com a quota da livraria primordial.

Na segunda livraria, invocando a procura de edições tão raras que nem existem, Bogart encontra a mais doce e lábil das livreiras. Deus terá criado muita coisa, mas essa cena, em que a livreira corre um estore, solta os cabelos e quando se vira já está sem óculos, fazendo Bogart tirar do bolso uma firme garrafa de bourbon, essa cena, dizia, criou a atracção gravitacional dos corpos, a sedução e a plenitude do sexo. E Deus nem foi para ali chamado, que o estore estava bem corrido. Uma coisa é certa: antes, o sexo não existia e estou para saber como se terá a humanidade reproduzido nos séculos pretéritos.

Todavia, o que me interessa nessa cena é a garrafa de bourbon. Chandler, que escreveu “The Big Sleep”, Faulkner no argumento, Hawks na realização, mentiram. A garrafa de bourbon não se bebia na livraria do choque afrodisíaco. Foi na outra, na primeira a que Bogart vai, que Stanley Rose inventou o back-room.

A garrafa de bourbon era o sacrário dessa sala das traseiras: à volta dela ouviam-se actos de contricção, hossanas e porventura uma salve-rainha. Eram líricas e líquidas orações masculinas. Tanto saíam da boca de Nathanel West, Steinbeck, William Saroyan, como de Dashiell Hammett, ou dos campeões do mutismo que eram Faulkner e Scott Fitzgerald ou da gárrula boca inglesa de Aldous Huxley. Aos escritores juntavam-se actores, Edward G. Robinson, os Barrymore, Marlene Dietrich e Marion Davies. O surrealismo pôs ali um pé e multiplicaram-se olhos para ver exposições de Matisse, Chagall, Klee, Braque, Picasso e Miró.

Sem fronteiras entre filmes, livros e pintura, Hollywood era culta e Stanley Rose o grande educador. Dava livros e esquecia-se de os cobrar. Corre que nunca leu ele mesmo um livro, mas levava os leitores à caça e aos bordéis mais bizarros. Morreu novo. Saroyan, último amigo, jura que foi de “copos, putas e solidão”.

Publicado no Expresso

Publicado em Post livre | 3 Comentários

outros cadernos-nápoli

Corre sangue napolitano nas minhas veias.
Tenho o meu lugar nesta cidade mesmo se quem lá não vive ali não pertence.
Parece- me uma das mais caóticas cidades europeias. Cidade geográfica , enigmática .Um paraíso colocado na boca do inferno, labirinto habitado por demónios.

Gosto de deambular nas suas vielas , viccos estreitos , percorro séculos de história , ruas calçadas de lava, desço à boca da baía , aquele arco de água que se estende do Posillipo até ao Vesúvio , e que banha o Castel’ dell Uovo .
Mergulho no tempo , numa longa e mesclada história europeia .

Neste lugar entalado entre dois vulcões , um , uma montanha ,outro, um lago , nasce , vive e morre um povo telúrico. Anárquico .

.

Renato Caccioppoli. Napolitano.
Ò genio como era conhecido. Nasce em 1904.
Filho de um siciliano e de mãe russa , neto de Bakounine .
Figura incontornável da Nápoles da primeira metade do século XX .
Professor na universidade Um génio da matemática.
Alto, esguio , belo e louco. Apaixonado pela musica, pelos números , pelo amor.

Ò genio .Vivia em Chiaia , no palazzo Cellamare , onde antes dele viveram Casanova , Caravagio , Goethe. Tocava piano e todo prédio vibrava de emoção , fazia silencio para o poder ouvir.
Os seus amigos eram Neruda, Eluard , Moravia , Elsa Morante,
Encontra um dia Gide ,jantam juntos . Gide no seu Jornal comenta a sua mente brilhante.

Filiado no partido comunista em plena época fascista , passeia frequentemente com o jornal l’Unitá metade dentro ,metade fora do bolso da gabardina.
Mussolini decreta uma série de leis anti populares- proibição de falar napolitano , interdito pendurar roupa fora de casa, nos estendais , nas varandas. Proibido mendigar e proibido circular com cães de pequeno porte – caniche , basset. Considerado pouco viril.
Renato encomenda uma gaiola e um galo. Leva-o para casa . E passeia-o todos os dias com uma trela.

Faz escândalo. È admirado.
Por vezes pega no galo ao colo, pára em frente de uma lápide , uma estátua e faz-lhe uma preleção.
Ò genio visita com o animal os sítios onde encontra os amigos, cafés ,bares. Todos tem preparado uma espiga e água para o galo.
A cidade prepara-se para a visita e encontro de Mussolini e Hitler. As ruas enchem-se de gente.
Renato atravessa a multidão, pára em frente aos dois lideres que fazem a saudação fascista.
Começa a cantar a Marselhesa com versos adaptados à situação , em napolitano.
Dois agentes do OVRA aproximam-se , pegam lhe pelos braços e levam-no preso. A tia , irmã da mãe , bem relacionada com o regímen consegue libertá-lo.
Renato tem cada vez mais comportamentos bizarros. Saí das aulas, passeia o galo. Encosta-se a uma parede, deixa-se deslizar por ela abaixo, senta-se no chão e pede esmola.
É preso e libertado várias vezes. A mulher deixa-o.
Continua a dar aulas , mas a sua excentricidade cria-lhe uma relação especial com os alunos.
Certo dia , no Gamberinus toma o seu cognac com amigos, e falam de um aluno que tenta por fim à vida cortando os pulsos. Tentativa falhada.
Renato explica como se deve fazer – coloca-se uma pequena almofada entre a arma , o revolver, e o queixo. Inclina-se a cabeça , encostada ás costas do cadeirão. E dispara-se.
Três dias depois passa ao acto. A empregada doméstica encontra-o sem vida.
Na almofada uma pequena mancha de sangue.
Ò génio morre a 8 de maio 1959.

Caccioppoli está desde 1985 no mapa do Universo ,das estrelas. O asteroide 9934 que circula entre as orbitas de Marte e Jupiter tem o seu nome.

Publicado em Post livre | 6 Comentários

Casamentos políticos e outras infidelidades

 

Os bombeiros deitaram abaixo a porta do apartamento, abriram caminho com os machados como se estivessem numa selva; talvez a carpete de zebra, os quetzais embalsamados, as cadeiras Luís XVI com pés como patas de leão e a vitrina de armas antigas os tivessem confundido.

Quando li este parágrafo da María Gainza, n’ O Nervo Ótico, pensei logo que a fotografia do Honigod se adequava à descrição. Ou terá sido ao contrário?

Que estranha ordem de factores esta que mistura a cronologia das memórias.

O querubim e as carpetes de zebra, (c) Honigod, 2018.

Publicado em Post livre | 4 Comentários

Hienas, Hollywood e livros

Homenagem à livraria de Rose

Lá vou chatear as hienas que em pleonástico bando sempre uivam a Hollywood. Tenho de dizer a verdade: é de véu e flor de laranjeira o amor de Hollywood pelo livro. Quando a cidade era victoriana, o século XIX a encostar a cauda ao fogo do século XX, Los Angeles polia as pestanas nas livrarias concentradas na Rua Seis, espécie de Betesga da Baixa angelina, por onde passava um eléctrico que, se não era, parecia o 28 de Lisboa.

Foi em cima do cadáver dessa Baixa que nasceu e viveu Hollywood. E não se ponha nostálgica a hiena ululante: os livros refloresceram. Nos anos 20, com indomável ardor, Hollywood lia muito mais do que hoje se instagrama, se feicebuca ou se tuíta. Expeditos livreiros irrompiam, nos anos 20, pelo esplendor nascente dos estúdios de cinema. Carregavam malas atravancadas de parágrafos e papel. Vendiam tudo e ponto final, que os produtores, realizadores e argumentistas tinham colossal e histórica fome de tramas. O livreiro ambulante é que nunca se tramava: mesmo que não lhes vendesse livros, a ignaros executivos e a líquido pessoal obtuso encasquetava-lhes alçados álbuns de pornografia ou, nesse tempo de Proibição, uma jusante garrafa de Bourbon.

Vindo ao mundo entre o pasto e as vacas de Matador, pascácia cidade ribatejana do Texas, Stanley Rose foi um desses ungidos livreiros. Da Sátiro, livraria que, com dois sócios, plantou ao lado do Brown Derby, restaurante da mais selecta Holywood, Rose fez uma encantada caverna de Ali-Babá: mundo dourado de histórias, janela escancarada a poetas e artistas de vanguarda, cofre a transbordar de edições raras.

Leituras de Miss Monroe

Chaplin comprava tragédias gregas; Ronald Colman, herói de “Lost Horizon” e “The Prisoner of Zenda”, fisgou primeiras edições de Shelley, Keats, Oscar Wilde; John Barrymore aboletou-se com monumentais edições sobre o mar; a monomania de Rudolph Valentino eram livros de armas e armaduras.

A Rose prenderam-no um dia. Os sócios, com mãozinha dele porventura, piratearam e venderam uma antologia de humor escatológico. Só Rose era então solteiro e sem filhos. Assumiu a culpa, a contar com multa a dividir por todos. Saiu-lhe a indivisível prisão. É onde se vêem os amigos do peito e o dos sócios não foi um caloroso peito amigo. Traição velha pede crónica nova. Para a semana.

Book Soup: a esta eu fui.

Publicado em Post livre | 4 Comentários

sentado no nada

     clareira cósmica

   floresta

opaco negro

pó e distancia

profundo cerúleo

luz vedada

sentado no nada

dançam pirilampos

Publicado em Post livre | Deixe o seu comentário

Os vidros duplos da nossa inocência

No canto inferior direito desta tela (1565), que é, cópia ou original, de Pieter Bruegel, há umas pernas que se agitam e chapinham no mar verdíssimo, numa agitação tão inócua como anónima. São as alvas pernas de Ícaro. Podiam ser as nossas. Tal como Ícaro, batemos as asas para fugir do labirinto e temos (mal seria, se não tivéssemos) a tentação de voar roçando-nos pelo sol.

Um homem, um herói, vem dos céus aos trambolhões e despenha-se nas águas, ali, junto à costa. Nem essa coisa prodigiosa de voar, nem o heroísmo da fuga, nem o splash do corpo que se despedaça nas águas sobressaltam a rotina do lavrador, a do pescador, a da nau que navega orgulhosa e indiferente.

Em 1938, já Hitler cavalgava uma onda de terror, o poeta inglês W.H. Auden escreveu sobre esse abafado silêncio em que se camuflam os mais terríveis acontecimentos. Abafa-os a minuciosa e árdua teia do nosso dia a dia, o hábito de concentrarmos o olhar no nosso jardim ou pátio, o obstinado rigor de cumprirmos as nossas obrigações. Não há, nesta ignorância do sofrimento alheio, nenhum desprezo. São os vidros duplos da nossa inocência que nos fecham num castelo interior, as high windows de que, noutro poema, nos falou Philip Larkin.

E já falei de mais. Talvez hoje tenha tombado um ou mais Ícaros no adjacente oceano das nossas vidas… Da minha ou da tua. E eu só queria que lessem o poema de Auden enquanto olham para a pintura de Bruegel.

Musee des Beaux Arts
W. H. Auden

Sobre o sofrimento eles nunca se enganaram,
Os velhos Mestres: que bem compreendem
A sua humana posição : como tudo acontece
Enquanto alguém come ou abre uma janela ou caminha apático;
Como, quando os idosos esperam reverentes e apaixonados
Pelo milagre do nascimento, há sempre
Crianças que não se interessam particularmente, patinando
Num lago no limite da floresta;
Eles nunca esquecem
Que mesmo o mais horrível martírio deve seguir o seu curso
De algum modo numa esquina, num lugar inócuo
Onde os cães prosseguem a sua vida de cães e o torturador de cavalos
Coça a sua inocência atrás de uma árvore.

No Ícaro de Bruegel, por exemplo: todas as coisas viram as costas
Displicentes ao desastre: o homem do arado pode
Ter ouvido o estrépito, o grito desgarrado,
Mas para ele não foi uma queda importante: o sol brilha
Como deve ser nas pernas alvas que se afundam na verde
Água, e o barco sumptuoso e delicado, que deve ter visto
Essa coisa prodigiosa, um rapaz a cair do céu,
Tem um rumo traçado e navega tranquilo.

tradução minha, que foi o que se arranjou.

Musee des Beaux Arts
W. H. Auden

About suffering they were never wrong,
The old Masters: how well they understood
Its human position: how it takes place
While someone else is eating or opening a window or just walking dully along;
How, when the aged are reverently, passionately waiting
For the miraculous birth, there always must be
Children who did not specially want it to happen, skating
On a pond at the edge of the wood:
They never forgot
That even the dreadful martyrdom must run its course
Anyhow in a corner, some untidy spot
Where the dogs go on with their doggy life and the torturer’s horse
Scratches its innocent behind on a tree.

In Breughel’s Icarus, for instance: how everything turns away
Quite leisurely from the disaster; the ploughman may
Have heard the splash, the forsaken cry,
But for him it was not an important failure; the sun shone
As it had to on the white legs disappearing into the green
Water, and the expensive delicate ship that must have seen
Something amazing, a boy falling out of the sky,
Had somewhere to get to and sailed calmly on.

Publicado em Post livre | 8 Comentários

A ímpar sala de cinema

Era fim de tarde e uma guerrilheira lufada de Inverno feriu a primaveril Feira do Livro. Ia dizer olá ao João Lopes, camarada da remota aventura da Cinemateca. Ele apresentava um livro – “Cinema e História” – e arrastava a debate, outros dois companheiros, o João Adelino Faria e o Nuno Artur Silva.

A conversa foi de inteligência calorosa, amiga e amena. Nasceu um consenso: cinema e televisão já se fundem nos processos de produção, financiamento, argumento, mesmo difusão. Que bom termos hoje acesso instantâneo a qualquer Bergman, em tablet que seja.

A acenar que sim, subi o Parque e o vento guerrilheiro lembrou-me a ímpar sala de cinema. Onde é que vi o beijo lírico de James Dean a Natalie Wood, no “Rebel Without a Cause”, os dois encostados ao escuro cósmico de um planetário? Onde vi a mulher do irmão de Ethan, em “The Searchers”, acariciar o capote militar do cunhado, olhar afundado no passado? Vi o “Rebel” no ecrã popular e interminável do cinema Império, em Luanda, e vi John Wayne na grandeza aristocrática do Auditório 1 da Gulbenkian. Em salas de cinema, a flutuar num escuro uterino.

Essa experiência é irrepetível em smartphone, tablet ou televisor. A narrativa, a compreensão dos requebros de realização, a contemplação do rasgo dos actores, estão nas pequenas telas: vemos, ouvimos e conhecemo-las. Mas o que não está nos encolhidos ecrãs quotidianos é a experiência física, sensorial e psíquica, que o escuro da sala de cinema e a sua solidão nos oferecem. A sala é a mãe do estremecimento íntimo, do espanto gutural, que se vertem em prazer e angústia.

 Do que falo é do choque emocional que é sermos espectadores em posição fetal e tombarem sobre nós rostos, corpos, acções do tamanho de deuses. Do que falo é dos close-ups dos mais belos olhos e bocas que humanos já viram, a vazarem luz e tantas sombras nessa nossa alma peregrina, que não sabe já se reza, chora, canta ou ri. Fetos noutras cadeiras, estão outros espectadores, e apodera-se da sala uma pasmosa tensão, um impudor pantagruélico. O cinema é, então, real, maior até do que a vida: experiência de maturação emocional tão forte como os melhores traumas ou as mais breves alegrias das nossas pobres ou ricas existências.

Agradeço a três amigos terem-me feito pensar. Agora, vou ler o livro do João. Em papel.

Publicado no Expresso

Publicado em Post livre | 6 Comentários

Deitei-me na cama e chorei

Para o Mário Portela Martins (1951-2018)

Eu agora lembro-me de jogar futebol com ele, num terreno que era também a pista de aterragem do aeroclube. Estava lá o meu pai, que já era velhote (devia ter na altura uns 42 anos). E o Mário jogava bem, fazia fintas boas, enganava-nos com os olhos e o corpo, dançava.

Foi o meu único cunhado. O único é uma forma de dizer, que tive mais, mas foi o primeiro, e o mais verdadeiro. O mais bondoso, provavelmente.

Vejo-o com amigos comuns, nos bailes do casino da praia (não julguem que era um casino a sério, jogava-se mais King e Sete e Meio e os conjuntos de baile eram sempre mais ou menos locais. Até eu toquei lá…) Mas era o que tínhamos…

Depois lembro-me que ele estava num daqueles corredores enormes de uma casa da Avenida da República, que já não existe, onde morava o meu avô. O seu filho, meu sobrinho, tinha uma doença estranha e rara, da qual foi integralmente salvo pelo professor Miller Guerra, amigo da família, salvo erro quando era deputado constituinte pelo PS. O Mário não tinha a barba feita e parecia que envelhecera 10 anos. Eu não sabia o que lhe dizer, não tinha aprendido a linguagem dos afetos. Nessa noite, no meu quarto, que era ainda em casa dos meus pais, chorei pelo destino do meu sobrinho, que é hoje um homem de meia idade, sobre o bastante gordo e com ar saudável.

Não foi por se separar da minha irmã que deixou de ser meu cunhado. Além de pai de meu sobrinho éramos amigos há tantos anos, daquela praia onde era quase sempre Inverno (dizem que as alterações climáticas lhe foram benéficas). É aí que o vejo, sentado no muro de uma vivenda, que já não existe, a fazer caretas à minha irmã, e ela, como as meninas da altura (embora a minha irmã nunca fosse uma menina da altura) a fazer-se despercebida, mas tão mal que começaram a namorar. Casaram cedo porque nasceu o filho e a ela fartou-se da vida difícil da mãe que trabalha e estuda, ainda que a nossa mãe (que aí continua passados os 90 anos) fosse também mãe do Miguel. E vejo-o com um 2Cavalos e com o miúdo, nós aflitos sem saber que na vida tudo passa, e ele sempre com um sorriso e uma piada.

E depois eis que ele se casa de novo. E vejo-o com a nova mulher e um novo filho, irmão do meu sobrinho, que nunca recuperou de um estrangulamento do umbigo à hora do nascimento e foi deficiente profundo todos os quase 30 anos que viveu. Lembro a comunicação entre aquele pai e aquele filho até à hora do filho morrer. Lembro de como envelheceu mais, das doenças que iam surgindo, nele, na mulher;  e recordo o orgulho que tinha do meu sobrinho, que sendo de fisionomia parecido com a mãe, a minha irmã, é da fibra do pai, e fazia um esforço para jamais se ir abaixo.

Lembro a coragem e a alegria com que um terceiro filho nasceu viçoso e saudável. Hoje um jovem homem de barbas e como isso os regenerou até onde foi possível. Eram cinco: ele e a mulher, o seu filho e meu sobrinho e os dois filhos do casal.

E agora vejo-o, já com o meu sobrinho crescidote, a arranjar com carinho uma pequena casa – semi-praia, semi-campo, no meio de pinhais a um quilómetro do mar. Casa que foi aumentando com as necessidades.

E vejo-o com o neto – que é meu sobrinho-neto – e que o adorava. Que o quis ver sempre, doente ou saudável e depois disso.

Era o Mário. Foi cremado hoje. A sua mulher confidenciou-me que ele quis um funeral igual ao do João, o filho ambos que apenas sabia rir para quem gostava dele. E assim foi.

O meu sobrinho deu-me a notícia ontem e, apesar de ao longo destes resumidos 49 anos ter aprendido melhor a linguagem dos afetos, de ter conseguido dizer-lhe quanto gostava do pai dele, a minha reação foi igual à que tivera há mais de quatro décadas. Deitei-me no meu quarto, e chorei.

Publicado em Post livre | 4 Comentários

Naoshima. A ilha no teto do Mundo. (*)

Quando, quatro horas e cinco comboios depois de sair de Kyoto, fui largado na estação de Uno amaldiçoei o Ricardo. Tinha arrastado cinco pessoas para um lugarejo industrializado e cinzento na costa do mar interior de Seto. Pela frente, até ao nosso destino final em Naoshima, esperava-nos ainda um ferry com uma decoração deprimente. “Anita vai ao barco” disse alguém.

Tadao Ando, nome maior da arquitetura japonesa, autodidata vencedor de um Pritzker, confessou ter tido o mesmo tipo de deceção angustiada com o lugar. “Fiquei desapontado pela dificuldade de acesso a esta ilha isolada e pela natureza devastada pelas atividades industriais metalúrgicas que constituíam o ganha-pão dos habitantes do lugar”. A deceção não durou muito tempo. Estávamos em 1987 e Ando tinha sido desafiado pelo bilionário Soichiro Fukutake a embarcar no seu sonho. “Queria fazer de Naoshima, no mar interior de Seto, um polo cultural que valorizasse a natureza e que pudéssemos orgulhar-nos de mostrar ao Mundo”. Os olhos brilhavam-lhe e Ando deixou-se comover. Juntos haveriam de embarcar numa aventura extraordinária que dura há mais de 25 anos. Muito mais do que arquitetura. Trata-se de “fazer um lugar”. Aberto a todas as possibilidades da arte, da natureza e do ser humano.

No princípio era o sonho. Japão, 2018.

Também a nossa deceção foi coisa fugidia. Não há estados de alma que resistam ao Benesse House Museum. Museu, hotel de dez quartos, edifico minimal onde se cruzam espaços interiores e exteriores com a elegância única dos projetos de Ando. Princípio e fim de todos os caminhos em Naoshima. Logo a seguir à receção, em direção ao quarto, na escuridão silenciosa de um vão gigantesco de cimento polido, um murro intermitente em forma de néon de Bruce Nauman. Kill and die. Suck and Live. Ora azul, ora verde, ora um negro absoluto para se voltar a fazer amarelo e depois roxo. E a coisa era só o princípio. A partir das seis o museu era só nosso. Noite dentro, noite espantosa. Christo, Giacometti, César, Basquiat, Klein, Wesselmann, e o diabo a quatro. Só para nós, cruzando em total liberdade os espaços austeros de Ando. Todo o tempo do Mundo. E nós, subitamente miúdos de tanta liberdade, por pouco não fizemos derrapagens pelos corredores desertos.

Kill and Die. Japão, 2018.

Mas foi preciso esperar pelo dia seguinte para perceber todo o alcance do conceito de “fazer um lugar”. Em Honmura, lugarejo minúsculo a poucos quilómetros da Benesse House, o quotidiano continua a fazer-se intocado. Ou quase. No contexto do Art House Project ali lançado, sete artistas contemporâneos (Miyajima, Ando / Turrell, Rei Naito, Sugimoto, Senjyu, Suda e Otake) foram desafiados a intervencionar outros tantos edifícios abandonados e espalhados pelo acaso da história na aldeia.  O projeto haveria de ser um marco fundamental na transformação de Naoshima. Mais do que preservar casas centenárias, mais do que expor a criação artística, o projeto haveria de conduzir ao crescimento orgânico de um novo modelo de comunidade marcada pelo cruzamento harmonioso entre “o novo e o velho, o rural e o cosmopolita, o residente e o visitante”. A ideia, generosa utopia de Fukutake e Ando, era aliás precisamente essa: “devolver vida e esperança aos habitantes de uma aldeia ameaçada pelo despovoamento e pelo envelhecimento da sua população”.

O lugar fazia-se, de facto. E nós fazíamos parte dele. Mergulhámos – mergulhar é a expressão exata – na escuridão profundíssima da casa Minamidera concebida por Ando para albergar as indizíveis ilusões luminosas do norte-americano James Turrell e do seu projeto Backside of the Moon. Nunca antes experimentáramos o negro absoluto, nunca antes tínhamos visto a luz fazer-se matéria. Será assim o lado negro da lua? Vamos. Temos de ir andando. E lá fomos. Em pasmoso silêncio. Subimos a colina fronteira à aldeia para nos deter na contemporânea recriação do santuário Go’o onde Hiroshi Sugimoto (esse mesmo, o fotógrafo do tempo exposto que já encontrara na noite fria de um dos pátios exteriores da Benesse House)nos conduziu, amparados na segurança dos seus espantosos degraus de vidro bruto, até ao que eu ia jurar ser o centro da terra. “Esta viagem está a ficar cada vez mais barata”. Ou nós mais ricos, não sei dizer. Sei que voltámos às trevas quase absolutas na casa Kadoya reconstruída no mais tradicional dos estilos japoneses e onde Tatsuo Miyajima substituiu o soalho por um negro lago interior onde uma galáxia invertida de LEDs vermelhos e verdes contava, incessante e circularmente, de um até nove. E já a manhã se fazia tarde, quando nos deitámos (terei sido só eu?) no silêncio horizontal da casa Ishibashi mesmo à beira da cascata de papel desenhada por Hiroshi Senju. Por mim, teria adormecido.

A cascata de Hiroshi Senju. Autor desconhecido.

Mas o melhor estava para vir. E o melhor foi de novo projetado por Tadao Ando em 2004. O Chichu Art Museum é um edifício sem um exterior. O que é outra forma de dizer que é um edifício totalmente enterrado numa das colinas de Naoshima, preservando integralmente o espaço natural circundante. Só do céu se observam as largas aberturas geométricas que rasgam o edifício em triângulos e cubos de nada que ora são pátios espaçosos, ora permitem a projeção de luz natural nalgumas das suas salas. O museu é dedicado à exposição permanente de três artistas: o impressionista Claude Monet e os contemporâneos Walter di Maria e James Turrell (que já víramos na casa Minamidera) que trabalharam com Ando na conceção do Museu. A escolha destes últimos não é obviamente obra de um acaso. A escala, claro. E a natureza como inspiração.

Monet está representado por cinco óleos da sua série Nenúfares (o maior dos quais com dois por três metros) e o espaço que os alberga é pensado de acordo com o plano arquitetónico que o próprio pintor, já semicego, concebera para as suas grandes décorations: paredes sem ângulos, luz natural e indireta, uma brancura intensa feita de estuque e mármore de Carrara (curiosamente da mesma pedreira que servira Michelangelo). Se aqui estivesse, Monet estaria descalço, tal como nós. E haveria de reconhecer o espaço infinito, a ondulação incessante da água e o lento crescer das plantas do seu jardim em Giverny.

Monet em Naoshima. Auto desconhecido.

James Turrell está representado com três obras. Mas é Open Field, mais que qualquer outra, que nos marca de fora indelével. Estamos frente a uma escadaria que nos conduz a uma imensa tela azul. Subimos os degraus a medo e somos convidados a penetrar a tela. O espaço que projeta é de dimensão inescrutável e nós flutuamos no azul que de novo se faz matéria. Mais do que espreitar o lado escondido da tela, mais do que olhar a arte a partir do seu reverso, penetramos a luz que é objeto. Passa um minuto, dois talvez dez. Somos miúdos outra vez.

O azul de Turrell a fazer-se espaço. Autor desconhecido.

Mas o dia caminha rapidamente para o fim e é preciso visitar ainda Di Maria. Apressados, cruzamos o pátio triangular em que Ando rasga as paredes de dozes metros de altura com uma fenda que nenhuma estrutura suporta. Estamos nas profundezas da colina e a porta parece minúscula. Mas eis que – espanto, surpresa inomináveis –  esta se abre para um vão colossal e para uma escadaria sumptuosa. No fim do primeiro lanço de escadas, antes ainda de estas continuarem a sua caminhada até à parede de betão que marca o fim do espaço, uma gigantesca esfera negra de granito, impecavelmente polida, reflete a luz indireta que nos chega através de uma abertura escondida nas extremidades do teto abobadado. Á nossa volta, pousadas nas paredes maciças, um sem número de paralelepípedos de madeira dourada parecem fazer as vezes de santos estilizados nesta enorme catedral afundada. Tudo é peso, tudo é leveza e só a marcha implacável do tempo nos tirou dali para fora.

A catedral soterrada de Di Maria. Autor desconhecido.

Ia jurar que foi ainda ali, sentado à saída do indiscritível Chichu Art Museum, que me cruzei, num qualquer livrinho, com as palavras com que Tadao Ando celebra o sonho do Sr. Fukutake. “A vontade do homem é por vezes, literalmente, capaz de furar a rocha e de mover a montanha.”

(*) Originalmente publicado na revista Visão onde me estreia nestas andanças da reportagem.

Publicado em Post livre | 5 Comentários

Guarda che luna

GUARDA CHE LUNA

Há um grau de conhecimento que é de fogo.
Há algum tempo disseram-me em coro:
a tua poesia é de liberdade.
Olhei e não vi.
Querer ser livre não é ser livre.
Um desejo não é uma realidade:
é mesmo o que a realidade não é.
Não passaram assim tantos dias,
passaram os suficientes:
hoje, além de saber que todos morreremos, e ai,
para tão grande amor tão curta a vida,
sei, ao contrário de Agostinho da Silva,
que também eu morrerei. Que chatice.
Então, ouve, e sabe isto:
a dez mil mares de distância
não se partilha o mesmo escuro
e a lua que crescente se levanta diante da minha janela,
Vénus ao lado,
não é a lua à tua janela, nem com Vénus do lado,
a dez mil mares de distância, o céu não é
o nosso tecto, meu e teu, não é.
Quando a tua morte te disser olá,
podes atravessar a grande água,
e ganhar a montanha depois:
ser não é reagir, é agir em nome próprio
depois de saberes como te chamas.
Este é o nome da liberdade.
Isso e ter compreendido que o mínimo grão de areia
entre o médio e o polegar
tem a exacta imensidão do mundo:
quando a noite levantar, alta, o crescente
e o brilho de Vénus,
estaremos debaixo do mesmo tecto,
donos do mesmo céu, tu e eu.

Publicado em Post livre | 5 Comentários