Como Ulisses

COMO ULISSES

Sentei-me nas ruínas da minha casa,
essa verdade externa do meu interno amor,
o testemunho em pedra de desejo e de vida.
À minha esquerda, à minha direita, caídos
mortos sem combate, amontoados,
os meu líricos clichés e soterrado
debaixo deles, dos sonhos, dos planos,
dos pequeninos actos de adoração,
soterrado, o maior dos clichés, o pior
dos clichés, o coração.

Com um manto púrpura diante dos olhos
levantarei de novo estas paredes.

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Songs of a Lost Time

Título : Words

Autor : Neil young.

Álbum:  Harvest, de 1972.

Quem diria,  foi o álbum mais vendido nesse ano.

É o último tema do álbum, com um sub-titulo interessante : between the lines of age…

cada  um  tire os significados que quiser…

Gosto da forma como começa. Um acorde que fica, e logo um piano na batida da bateria.

Depois os trabalhos das guitarras, onde as notas que não se tocam, os silêncios, contam tanto como as notas que soam.

A voz de Neil Young entra com a “slide guitar” de Ben Keith, e com a mudança de ritmo que marca de forma subtil o tema.

O refrão que se enche com as vozes dos antigos companheiros  Graham Nash e Stephen Stills:

“When I look through he window and out on the road

They are bringing me presents and saying hallo

Saying words….words….between the lines of age. “

E é logo no seguimento do primeiro refrão que começa despercebidamente o passeio da guitarra , o enorme passeio da guitarra de Neil, que se transforma pouco a pouco em solo, subindo de tom, até atingir um choro agudo (3.45…)

Algo de triste, melancólico, ou simplesmente a musica que fica deixando o tempo passar.

 

 

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ZEITZ MOCAA I ou E lá estava o William Kentridge…

 

Ia eu pelo ZEITZ MOCAA – Museum of Contemporary Art Africa (https://zeitzmocaa.museum/) a fora com o Honigod e, eis senão quando, dou de caras com um vídeo instalação do William Kentridge .

Digo-lhe: Já viste isto? Fotografa pah!

E ele, submisso, a custo, lá conseguiu fazer a fotografia que partilho convosco.

 

William Kentridge’s Horn (c) Honigod

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Micah P. Hinson, Musicbox Lisboa, 14 de Novembro 2017

Repesco este velho post para vos dizer que este rapaz, amanhã, estará aqui. Ide!

Se gosta de Neil Young, Bob Dylan, Johnny Cash, Woody Guthrie, do mais novinho e meio-francês Charles Pasi, de Amy Lavere e de Seasick Steve, dos Lucero, vai gostar deste sacana. Bem sei, sacana não é palavra que use, mas não me ocorre uma melhor e alguma coisa me diz que esta alma está convencida que não é flor que se cheire.

Porquê? Não, não é porque beba como se vivesse a Lei Seca, fume, ou enfie drogas pelos orifícios que entende. Isso é natural quando é natural. É uma daquelas coisas.

James Christopher Monger diz que ele é um rapaz problemático formado na linha dura do cristianismo e da cadeia, tudo metas cumpridas, droga, álcool, bancarrota e viver atrás das grades, antes dos vinte anos.

Parece-me muito razoável que tenha sido antes dos vinte, pelo menos tanto quanto o mais fundamentalista dos cristianismos andar de braço dado com a morte – é outro nome para destruição, para o infame pecado. É um par antitético. Também são estas cisões que desgraçam a gente e a faz criativa, ou as mata, ou dois em um. Desgraçam quer dizer, graçam: são uma Graça, uma Bênção. Uns Cristos crucificados em pequenino. Não parecem, pois não? mas são. Olhe, o meu Johnny Cash é um. Vê? Se não fossem eles como é que chorávamos os nossos desgostos profanos por aquilo que nos é mais sagrado? É preciso que alguém sofra para nos levar o sofrimento ao colo, quero dizer, consolo – não estamos sós. Não são é cruzes que se usem ao peito, usam-se no ipod. E é preciso alguém que sonhe. Tenha esperança e outras irracionalidades que embatem contra o mundo e não se desfazem.

E o que é isso dos vinte anos de álcool, droga, cadeia? Se começasse a ser o que é depois dos 30, num de repente, talvez houvesse alguma coisa aí. Assim não, é triste, é feliz, bom e mau, é previsível. É lógico, perverso, mas lógico. E por nós homens e por nossa salvação descem dos céus.

Os alquimistas medievais afirmaram: o que toca no céu tem as raízes no inferno. O que Micah P. Hinson deixa no palco está em trânsito entre o Texas, com o fundo em Memphis, e o futuro em Jerusalém Celeste.

Micah P. Hinson tem  quatro ou cinco álbuns e já passou por Portugal algumas vezes. Já sabe, saloios de Memphis, Tennessee, ou dos quatro costados, é comigo. Enjoy.

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fogo baço

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Afinal, o que querem os homens?

AFINAL, O QUE QUEREM OS HOMEMS?

Os quinze anos de tosse e afonia de Ida Bauer
mal geridos por Freud,
quem não gostaria, oh tanto, das atenções
impróprias do amigo do pai, Herr K., note-se,
também marido da amante de Herr B., o pai,
fizeram-no depois perguntar:
afinal, o que querem as mulheres?
Um homem quer mamas, cu, pernas,
não necessariamente por esta ordem
já que cada um tem a sua própria
combinação de acesso: sem desejo
não há amor que se sustente
ainda que o… chamemos-lhe desejo,
se mantenha de pé sem amor,
mas isso são questões para Herr K. e Herr B.
discutirem com Herr Freud.
E logo seguir, e por esta ordem,
o que quer um homem?
Um palmo de cara, personalidade agradável
e maternal, caracter, sim, mas só se for pouco,
as virtudes tendem a ser um estorvo na cama
ainda que possam dar jeito in times of trouble –
se um tipo for preso, ou Deus nos livre.
Com isto, no tempo, se constrói uma mulher, uma amante,
um qualquer objecto feminino útil.
Thanks, but no thanks.

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Aforismo surrealista XIV

 

 

Quando Leão B. (mais tarde Leão T.) entrou pela última vez com vida no parque Lisky sentiu uma dor imensa num dos aros dos óculos. Súbita, metálica, de um tartaruga muito vivo. Pragmático, limpou o ouvido esquerdo com a unha de um mujik esfomeado que por ali andava e lançou-se ao Mar Negro.

Diz um jornalista americano que assistiu à cena que Leão B. nadou para cima de dez dias sem nunca se esquecer de cofiar a barbicha entre cada duas braçadas. A viúva de um Marechal que foi feliz para sempre haveria, muitos anos mais tarde, numa roda de amigas, de asseverar exatamente o mesmo.

Lembraria ainda o jornalista pertinente que naquela época do ano o calendário era ainda Juliano e Leão B. chegou atrasado ao médico. Viria mesmo a morrer nos trópicos de uma série de complicações nos óculos.

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A angústia da despedida

Ninguém se despediu como Sócrates. Condenado pelos juízes, feito o discurso de adeus aos amigos, já a rude taça de cicuta à espera dos seus lábios, as últimas palavras de Sócrates rompem entre a vida e a morte: “Agora é tempo de partir. Eu para morrer, vós para viver. Quem vai para melhor nenhum de nós o sabe, sabem-no talvez os deuses.»

Poucas coisas são tão belas como a angústia da despedida. Foi o que pensei ao ouvir as vozes das Sopa de Pedra. Cantavam “Adeus, ó serra da Lapa. Ó minha terra, ó minha enxada, não faço gosto em voltar.” E não é verdade, faremos sempre gosto em voltar. A invectiva da despedida é quase sempre raiva de nos despedirmos cedo demais.

Para esse fulgurante segundo da despedida, o cinema inventa cenas que “são os olhos de uma rosa, parecem os do meu bem”. É mesmo dessa lassa e estremecida inclinação melodramática que eu gosto no cinema. E nas outras artes também. “Além daquela janela dois olhos me estão matando, matem-me devagarinho.”

Lembro cenas de filmes em que, devagarinho, me deixei morrer. “Teremos sempre Paris.” O excesso de nobreza que leva ao colo esta réplica de “Casablanca” é a mentira com que Bogart desiste do amor e entrega a estóica Ingrid Bergman à desgraçada virtude de Paul Henreid.

O aroma de “Stand By Me” é de adeus. Despede-se do que se despede, como eu me despedi do meu bairro de Luanda, como eu, copiando Richard Dreyfuss, me despedi da inocência e da infância: “Nunca mais tive amigos como os que tive aos 12 anos. Mas, oh meu Deus, alguém os voltou a ter?”

Toda a despedida é um sussurro. No meio da multidão em Tóquio, Bill Murray murmura ao ouvido de Scarlett Johansson uma frase, um rumor ininteligível: “Lost in Translation” e ainda bem.

Junto o adeus europeu ao adeus americano: em “La Dolce Vita”, Mastroianni despede-se da tão luminosa rapariga que lhe faz adeus na praia. Que estará ela a gritar? “Não se ouve”, diz ele, escolhendo o vazio. E só se ouve o mar. Em “The Searchers” na mais pungente das despedidas, John Wayne vira as costas à casa da família e avança para o deserto. Só se ouve o vento.

Cedo ou tarde, todos nos despedimos. Se um dia, e há-de ser um dia ou uma noite, se acabar esta crónica de cinema e vida, lembrem-me para dizer adeus com este verso: “Dou-te o meu lenço bordado quando de ti me apartar.”

 

Publicado no Expresso, sábado, 4 de Novembro
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Cem palavras

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Ai porra!

Duas tentativas frustradas, preparo-me para a terceira. Nada. Nem uma letra. Digo-me são só anotações, então, que é isto?! Porra. O que é não sei. Sei que estou no jardim da Gulbenkian e o telefone toca e sim, a marcação para segunda-feira está confirmada. Assim, à queima roupa quando já não esperava. Portanto, tenho de ir para Santa Apolónia. Não vou a casa. Não vou buscar o carro: a senhora do Google Maps diz que são sete quilómetros de carro e apenas quatro a pé.  Nesta altura, ainda não descobri que a senhora do Google Maps é uma cabra. Não uma pejorativa cabra, antes uma cabra no verdadeiro sentido da palavra pois deve trepar tudo quanto há e encarrapitar-se no cimo de uma árvore. Cabra.

As ruas desertas, não é menina? Só cá estamos nós…

Tudo muito bem, Rua Joaquim Bonifácio fora e quando dou por mim já passei a Almirante Reis, ah, isto faz-se num instante, e então é quando começa a cabrice. Primeiro, sonsa, sotto voce, ali na Rua do Forno do Tijolo, mansa, a subir devagar. Depois, bem, depois, já bem mais lá para baixo e ainda antes de saber o que me espera, vejo tanta rua deserta, nem uma alma pelos passeios, só carros estacionados, estes milhares de habitantes de quatro rodas. Que tristeza. Casas a apodrecer. O que vasculhei esta Lisboa à procura de casa… propostas, leilões, o diabo, e ruas inteiras a apodrecer à sombra. Quando chego à Travessa do Cardeal – travessa ou beco? – a seguir ao Campo de Santa Clara, percebo o raio da toponímia: só pela vontade de Deus é que uma pessoa não escorrega como se tivesse esquis nas patas, logo eu que nunca fui bicho de neve e me estou bem lixando para o snowboard. Ai porra que ainda vou de reboleta!

Comam tremoços, senhores; Comam tremoços! Olhem que não há mais metafísica no mundo senão tremoços.

Bilhetes comprados. Água das Pedras gelada ali entre turistas e dois nativos de volta de duas imperiais e um pires de tremoços. Volto à madame dos mapas para saber a que distância estou da Vencedora, na Rua de São Lázaro, quase a tocar no Martim Moniz. É logo ali. Dois quilómetros mal medidos.

Neste exacto instante, não diria tanto.

 

A Travessa do Cardeal a subir consegue ser pior do que a Travessa do Cardeal a descer – não há-de a igreja ter má fama. Quando emerjo, de rosto encarnado cardinalício do esforço da subida, dou com os olhos num mural de azulejos no mesmo Campo de Santa Clara. Não o vi antes – ângulo cego. La vie est belle, informa-me. Pois sim. Tem dias. E mon amour. Mon amour? De certeza? Portanto, meu amor, a vida é bela. Devo amar alguém e não sei. Talvez sofra de sonambulismo romântico e ande a pintar azulejos à minha própria revelia. Ou alguém me ama e também não sei pois, tímido, comunica através de mensagens em murais, deve ser mais barato do que usar espíritas ou pombos ou CTT. Porra para o amor.

O raio do mon amour… que fartura!

Não quero saber. Mandas-me para a Costa do Castelo? Eu vou. Lá em cima, no Beco dos Fróis tenho uma epifania: o Homem Aranha não é, nunca foi da Marvel, é lisboeta, e é por isso que se adesiva às coisas, para subir inclinações de 500% que a madame do Google Maps, vire aqui e trezentos metros para ali, a debitar ruas e distâncias, a cabra, inclinações, nada, nicles batatóides… Ainda por cima enganei-me, porra. Era para a Rua dos Cavaleiros – toca a descer. Do muro sujo caem romãs maduras, abertas. É por esta e por outras como esta que os turistas ficam de cabides à roda e andam aí com as suas malinhas à medida low cost: em cem metros, cai a humidade e as romãs, faz-se escuro e sujo e lixo, e do nada, calcário e branco, um edifício inventa a claridade, uma casa recuperada, de azulejos azuis a tinir, rompe a brilho o sujo e o lixo, e ilumina as pedras da calçada.

Vai medir mala, vai já…

Chego à casa de molduras, a bonecagem está pronta, e eis senão quando, seis franceses assanhados, três casais ruidosos, começam a tirar fotografias à Vencedora como se as pessoas lá dentro fossem adereços. Não há mínimos, porra. Porém há compensação. O proprietário, um senhor dos seus oitentas, minucioso nos embrulhos, nem me deixa, mas é que não deixa mesmo, pegar num só quadro. É muito pesado. Ora essa, eu levo até ao outro lado da rua e espero consigo pelo seu taxi. Está a vê-lo chegar no telefone? Agora é assim, não é? Chega o carro – é um facto, sou cliente da Uber. É ele quem põe os embrulhos no carro, adverte o motorista que terá de os tirar, e não me deixa ficar com o casaco entalado na porta. Talvez seja o último cavalheiro de Lisboa: sim, la vie est belle, porra, mesmo sem mon amour.

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o cão ladra

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From Iran with Love (II)

Já antes vos escrevi sobre a perceção errada de que o Irão é inimigo do turista proveniente de paragens da chamada “civilização ocidental”. Isso leva-me a tentar rebater outra das ideias feitas que por aí se têm sobre o país, a de que é, de alguma forma, “incivilizado”, e que essa é uma característica que se manifesta, desde logo, no modo como o Islão – que aí é uma religião de Estado, que o justifica e lhe dá enquadramento para toda a ação política – oprime e abafa, até aos limites da intolerância, tudo o que com não se coadune com os preceitos do Corão.

Trata-se, uma vez mais, de uma conclusão precipitada. É certo que o Xiismo dos Ayatollahs que controlam o poder político no Irão é pretexto para restrições inadmissíveis à luz dos padrões de qualquer Estado de Direito que se pretenda livre e democrático (já aqui referi o papel menor que é atribuído às mulheres e a discriminação a que são votadas em muitos aspetos da vida civil). Mas daí a dizermos que, no Irão, não há espaço para o que se afirme anterior, exterior ou mesmo contrário à cultura islâmica (como acontece noutros Estados não laicos de maioria sunita), vai uma enorme distância. Basta dizer que algumas das principais atrações turísticas do país (sendo que, no Irão, o turismo vem sobretudo de dentro do país) nada têm a ver com o Islão, quer por lhe serem anteriores (Persepolis, Pasargadae, Nacht-e Rostam, Torres do Silêncio em Yazd), quer, porque respeitam ao período da dinastia Pahlavi (o Palácio de Niavaran, o Tesouro das Jóias, a Azadi Tower), assumidamente adepta de um Estado laico à maneira de Attaturk na Turquia (Reza Shah, pai de Reza Pahlavi, chegou a tornar ilegal o uso do chador).

Isto não acontece por acaso, claro. Acontece porque, na cabeça da esmagadora maioria dos iranianos, o Irão continua um Estado laico (como o era, de facto, até 1979). Menos de 1,5% da população frequenta a mesquita. Boa parte das mulheres, se lhes dessem oportunidade, encheriam as ruas com cabelos esvoaçantes e mini-saias espampanantes. Por enquanto, limitam-se a olhares malandros e a sorrisos insinuantes. Os homens, se pudessem, acabavam com os dotes matrimoniais. Todos juntos, arrancariam os cartazes ao melhor estilo “Big Brother is watching you” de Khomeini e Khamenei que espeitam a cada esquina, abririam bares e discotecas (uns e outros proibidos no Irão, como proibido é o consumo de álcool) onde pudessem conviver livremente, e aproveitariam, certamente, as águas cálidas do Golfo Pérsico para se banharem quase nus.

Mas, por mais ou menos frequentada que seja no Irão, para o estrangeiro a mesquita é uma experiência imperdível. Porquê? Desde logo, pela riqueza dos interiores, pela beleza arrebatadora dos painéis de azulejos, dos vitrais policromados e dos tetos abobadados. Mas sobretudo pela espiritualidade a que tais espaços convidam qualquer visitante, ainda que “infiel”. É bem vindo o turista de qualquer crença como o é o ateu. É bem vinda a câmara fotográfica – os iranianos gostam de ver os seus espaços de culto fotografados ou filmados para consumo além fronteiras. É extraordinária e surpreendente a obsessão do iraniano em projetar para fora uma imagem diferente daquele que os media ocidentais vendem. Pela parte que me toca, e por mais ceticismo que já me merecesse alguma da imprensa que diaboliza o Irão (dou graças aos contrapesos que têm sido os recentes filmes de Jafar Panahi e de Asghar Farhadi, ou os mais antigos de Abbas Kiarostami), confesso que ainda olhava para o espaço (que julgava fechado, aliás) da mesquita iraniana como centro de radicalização da fé islâmica e de propagação do ódio pelo Ocidente. Não podia estar mais enganado. Foi tal o arrebatamento aí sentido por alguns dos meus companheiros de viagem, educados noutra fé religiosa que não a aí professada, que se ajoelharam para rezar. E, por momentos, julguei ver Maomé e Jesus, ali a um canto, a conversar animadamente como dois bons velhos amigos.

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A contra-revolução sexual

Foi em 1963, diz o poeta Philip Larkin. Tinha eu 10 anos e tinha chegado a Revolução Sexual. E o que ele disse é tão bem dito, que eu cito-o, palavra a palavra, as minhas palavras a traduzir em português o que ele disse em inglês:

Annus Mirabilis

O sexo livre começou
Em mil novecentos e sessenta e três
(Tarde demais para mim) –
Entre o fim da proibição de Chatterley
E dos Beatles o primeiro LP.

Até então fora só
Uma espécie de regateio,
Conversa fiada por um anel,
Uma culpa que aos dezasseis começava
E a tudo, tudo, se propagava.

De repente a bagunça irrompeu:
Toda a gente sentia o mesmo,
E todas as vidas se converteram
Numa brilhante conta bancária,
Num jogo impossível de perder.

A vida nunca foi tão boa
Como em mil novecentos e sessenta e três
(Embora tarde demais para mim) –
Entre o fim da proibição de Chatterley
E dos Beatles o primeiro LP.

Annus Mirabilis, 16 June 1967, in High Windows ( Collected Poems, p. 167)

Era tarde, disse o desanimado Larkin. Mas para quem, como eu, tinha 10 anos em 1963, os anos que vieram foram uma web summit de prazer, de all you need is love e de uma lúdica harmonia entre os sexos como, julgávamos, a História nunca tinha conhecido. Havia, como há sempre as bestas do costumes.

Nunca pensei que as bestas do costume voltassem a ganhar. Mas vão ganhar. Há uma contra-revolução sexual em curso. Como sempre, a contra-revolução funda-se em acontecimentos que são tão verdadeiros como são vergonhosamente inaceitáveis: na minha geração e na minha educação, semi-camponesa e pequeno-burguesa, catolicíssima e progressista, a violação era um crime, ponto final. Era um crime contra as mulheres que se amavam e até contra, pasme-se, Nossa Senhora. E mesmo deixando-me de portuguesismos e portugalidades, a violação – forçar o sexo – era uma vergonha para quem gostava das maravilhosas pernas de Joan Baez e do que ela representava como mulher livre, ou dessa Grace Slick, vocalista dos Jefferson Aiplane, senhora e dona do seu sexo e dos sexos que quisesse juntar ao dela. Ser amado por mulheres que amavam – e que queriam amar – era a única glória. Mas à pala das bestas do costume, esse meu liceu misto dos anos 60, que era um triunfo civilizacional, os jogos proibidos de mãos, joelhos e pernas por baixo da mesa, mesmo as mini-saias abertamente provocatórias, que partiram ao meio uma moral hipócrita, parecem tristes, vencidos e vencidas por propostas assépticas de carruagens separadas para mulheres e homens no metro e nos comboios, pela ressurreição da figura do chaperon, isto é, do pau de cabeleira, que até na forma de gravação de telemóvel vai provar que houve declaração de consentimento, pelo recuo cultural que é as mulheres terem de vestir-se com recato para não parecer que as estão pedir, o que é um insulto à mulher que, na Luanda dos anos 60, foi levada a um tribunal salazarento e colonial por andar de magnífica e curta mini-saia na Mutamba.

Como para Philip Larkin, em 1963, também agora, em 2017, já é tarde demais para mim. Mas para e por quem chega agora a esse maravilhoso teatro de sedução e sombras, que chamamos sexo e amor, não deixem que o medo triunfe sobre o prazer, não deixem que uma imensa barreira e barragem de normas frustre, escolástica, a física e a metafísica da gloriosa fusão dos sexos.

 

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From Iran with Love (I)

Fui ao Irão. Sim, ao Irão. Fazer o quê, perguntam alguns, fazendo acompanhar a interrogação com um esgar de estranheza, quase incompreensão, pelo destino escolhido para passar uns dias de férias. Férias, questionam as mesmas vozes, atónitas, como se estar no Irão fosse uma penitência que não desejariam nem ao pior inimigo. Pois então, a esses, que insistem em tratar com condescendência, para não dizer piedade, quem se decida a pôr os pés em terras persas – e digo “persas” já para suavizar o estigma que me acompanhará pela vida fora de ter um passaporte carimbado com um visto iraniano (“coitado, nunca mais podes ir aos Estados Unidos”) -, deixem-me cá desmistificar umas ideias feitas ou clichés que por aí se ouvem ou leem sobre o “país dos Ayatollahs” (na expressão, simplista e redutora, que os adeptos de Trump poderiam usar se soubessem o que é um Ayatollah).

Começo pela afirmação, tantas vezes repetida, de que o Irão é um país perigoso, inseguro, ou inimigo do turista ou viajante ocidental.

Mentira. Bem pelo contrário, o Irão será, talvez, o país mais seguro e pacífico do mundo para um visitante que venha com “boas intenções”. Nas ruas ou no espaço público, nenhuma tensão se sente, nenhum olhar inquisidor se vislumbra, nenhuma pergunta inconveniente se faz, nenhuma vigilância ou controlo é visível. O que se vê, sim, são sorrisos e atenções a toda a hora, vindos de quem, manifestamente, quer projetar do seu país uma imagem diferente daquela com que ele é pintado pelo mundo ocidental. Diria mesmo que, mais hospitaleiro, acolhedor, afável e prestável que o iraniano, não vi em parte nenhuma do planeta por onde já andei. É certo que nos sentimos observados. Mas nunca com um olhar reprovador ou suspeito, sempre com a curiosidade própria de quem nos vê como inspiração ou modelo para a mais funda aspiração de grande parte da sociedade iraniana: a liberdade. Nada parece haver mais libertador para um iraniano do que lhe darmos o privilégio do diálogo ou comunicação – muitas vezes, quando falta a língua comum, com aquele tipo de gestos que vêm carregados de afetos, ou através da simples menção de duas palavras mágicas como “Ronaldo” e “Queirós” (sim, há destes paradoxos, o aqui impopular Carlos Queirós, no Irão, é venerado por ter qualificado duas vezes seguidas o país para o Campeonato do Mundo de Futebol).

Mas, perguntar-me-ão, o que é isso das “boas intenções” que acima referi, e que a um visitante se exige para ser recebido de braços abertos. Começa, desde logo, pelo respeito dos códigos de vestuário locais – os mesmos, que, paradoxalmente, vêm sendo contestados pelas novas gerações, urbanas, instruídas e liberais que, em maio passado, reelegeram o moderado Rohani (estava tentado a qualificá-lo como reformador, mas tal será excessivo para quem vê o seu poder altamente condicionado pelo Líder Supremo Ali Khamenei e pelos Guardas da Revolução). Esse é, só, o tema mais candente da atualidade na sociedade iraniana. E que tem tradução mais evidente na imposição às mulheres do uso do hijab (vulgo véu), bem como na obrigatoriedade de não se deixarem à vista curvas do corpo feminino (ou seja, tudo menos mãos, pés e cara, incluindo ainda a proibição de roupas apertadas ao corpo). Para evitar tentações das senhoras iranianas, nem os homens se livram de cobrirem pernas na totalidade. Segundo consta, é pela conquista de direitos pelas mulheres que tem passado ultimamente a vontade de emancipação das gentes locais. O hijab é simbólico dessa conquista: ano após ano, com a tolerância das autoridades, vão aumentando os centímetros de cabelo descoberto. Aspeto meramente simbólico, repita-se, quando a vida das mulheres vale metade da do homem no Irão. E digo-o no sentido literal: os homens herdam o dobro das mulheres, o testemunho das mulheres em tribunal tem um valor probatório equivalente a metade do do homem, tal como é duas vezes inferior a indemnização a pagar a uma vítima mulher por comparação com a de que um homem nas mesmas condições beneficia.

Mas, antes que me desvie muito do que me trouxe aqui, a desmistificação do mito de que o Irão é inimigo do turista, deixo-vos com imagens que, estou certo, contribuirão para vos convencer do contrário. Não esperem pela demora: eu voltarei muito em breve para (tentar) desmontar outros preconceitos que toldam a perceção que muitos têm de um país que não conhecem.

 

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Cortem as alusões intelectuais

a inocente namorada da adolescência

Nem a mãe gostava dele. Em “Dead End”, um filme de William Wyler, Bogart é um assassino impiedoso. Acompanhado por um dos seus facínoras, regressa ao bairro onde cresceu, na busca nostálgica de um pingo perdido de afecto. Vai ter com a mãe e a mãe diz-lhe, com asco e fel, o que as raras folhas do deserto terão dito aos cascos dos cavalos de Átila. Bogart ainda tenta encontrar a inocente namorada de adolescência – tropeça, porém, num trapo sifilítico, que o trottoir desgastou e atribulou. Ora, embora quase ninguém saiba, nem um gangster é de ferro, e Bogart corre a extinguir o fogo daquela amargura no primeiro bar de porta aberta. Leva a tiracolo o pistoleiro de segunda classe que o ajuda. Pedem dois gins. O barman serve-os, deixa a garrafa, vai a virar-se e volta atrás. Tira detrás da orelha um lápis contabilístico e risca forte e grosso, marcando o nível do gin na garrafa.

O produtor Samuel Goldwyn deu um salto da cadeira. “Isto é para cortar!” Visionava a montagem final do filme com Wyler. O realizador estava já de nervos em franja, tantas as tesouradas com que Sam lhe queria despedaçar o filme. Não admira que tenha desatado aos gritos: “Sam, és maluco, isto é a chave do filme. Estes dois gajos são tão assustadores, que até o barman lhes adivinha a maldade.” Goldwyn não desarmou: “É o tipo de cena que faz fugir o público e eu não ando a deitar dinheiro à rua. É uma alusão intelectual, nenhum espectador decente a vai perceber.” Wyler deixou-se cair no cadeirão e disse, sem saber que antecipava a mesma resignada incompreensão de um Passos Coelho: “Sam, mais límpido não há, até um miúdo de 10 anos compreende isto.”

Mandado pelos deuses de Hollywood, irrompeu na sala o filho de Goldwyn. Já tinha 12 anos, mas de pés descalços e Coca-Cola na mão, era como se tivesse 10. Goldwyn exultou: “Anda cá, Sammy, senta-te aqui ao pé de nós e vem ver uma coisa.”

O projeccionista apagou as luzes e passou a cena. Logo Goldwyn: “Então, filho, percebeste tudo?” “Claro, pai, o barman dá-lhes a bebida, vê que os dois homens têm ar de bandidos, desconfia e marca a garrafa para ter a certeza do que eles bebem.”

Goldwyn rompeu o silêncio irónico e reprovador da sala com o seu melhor sorriso: “Ah, estes miúdos de hoje, até parece que já nascem ensinados.”

a célebre cena

Publicado no Expresso, no último sábado de Outubro de 2017

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