Não lhes posso dar murros

A camisa branca de Mizoguchi, a blusa negra de Kinuyo Tanaka

A nostalgia da mãe. Tal como John Ford, em cuja boca nunca entrou e ainda menos saiu a palavra “nostalgia”, mas que tinha nostalgia de tudo, o japonês Kenji Mizoguchi reclama a nostalgia da mãe.

Foi o realizador de filmes como “A Vida de O’Haru”, “Os Contos da Lua Vaga” e “Os Amantes Crucificados”, a que a minha geração ajoelhou e rezou, mesmo sem saber nada do Japão na maioria dos casos, horda ignorante a que pertenço, e que escutar até às três da matina o cineasta Paulo Rocha, à porta da Cinemateca, a perorar sobre o sensual roçagar de um quimono não releva.

Mas deixemos a ignorante boca aberta com que lhe vimos os filmes, para ouvirmos Mizoguchi. O pai tinha um negócio e faliu. Correu mal e desatou a beber ou já bebia e correu mal. E se uma falência não é soneto que se cheire, a emenda foi pior. O pai vendeu a irmã de Mizoguchi a uma casa de gueixas, alindado termo étnico que usamos, com acordes de shamisen, para não lhes chamar putas.

Isto sim é o começo de um romance que nunca mais lhe largou a vida e a obra. Afirmava ser um homem violento e os filmes dele estão impregnados de funda tristeza. Há outros filmes carregados de tristeza na história do cinema, mas a tristeza de Mizoguchi é lentíssima, feita de longos planos e movimentos de encenação milimétrica. O perfeccionismo com que cantou essa tristeza, arrancou-o ele a golpes autoritários e murros dados a técnicos e actores. Com uma ressalva: “… mas se é uma actriz, por muito que me zangue, não lhe posso dar murros!”

Todo o autoritarismo gera lealdade e relações apaixonadas, como a de Mizoguchi com Kinuyo Tanaka, actriz de 15 filmes dele, que arrancou os dentes todos para, rameira de baixo coturno, parecer velha e desdentada no final da “Vida de O’Haru”, jurou Paulo Rocha.

Ninguém sabe se foi a nostalgia da mãe, se o trauma da venda da irmã, mas o fascínio pela mulher vítima, e um certo prazer na contemplação dela vítima é a cama em que mais vezes se deita o cinema de Mizoguchi. Das camas em que se deitou ele mesmo, sabe-se que levou a mulher à loucura e a meteu num asilo, passando a viver com a irmã mais nova dela. Andaria nisso o fantasma da irmã gueixa?

A nostalgia da mãe confessou-a com esta candura: “Gosto de mulheres gordas. Talvez por a minha mãe ser gorda e ter morrido, era eu ainda jovem. Parece ridículo dizê-lo, prefiro as gordas. Sim, atraem-me muito.”

Publicado no Expresso, no sábado, dia 15 de Abril
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Os Livros Estão Loucos

Ao Miguel Cadete, António Saraiva e Vasco Ferreira,
que gostam de livros

Um livro pintado e louco

Não é só que me apeteça. Apetece-me e preciso de dizer o que vou dizer, para me aliviar do feliz e contente que estou. Venho falar a pais de miúdos, fedelhos, meninas e meninos de 8 a 14 anos. Bem sei que é raro eles lerem e bem sei que há um mundo sofisticado, moderníssimo, que os espera. Um mundo de gadgets e silicone e valleys, coisas e gente que, por mais estranho que vos pareça, eu admiro e estou mesmo pronto a lamber laudatoriamente. Porque essas coisas e o que essa gente faz é, a meu ver, muito bom. Um passo do mundo de vanguarda de hoje é do tamanho de mil passos do mundo onde cresci. E eu não tenho inveja, tenho gosto.

Um passo é do tamanho de mil passos

E, não obstante, como vos dirão neurobiólogos e outros afiambrados estudiosos, ler é uma inultrapassável forma de bem-estar e de aprendizagem. Mas parece que os miúdos não lêem: nem chantageados, nem  tangueados. E, não obstante, faz-lhes falta. Ler é uma forma fulgurante de conhecer, ler é uma forma arrebatadora de mergulhar em aventuras, uma forma esplendorosa de bater no nosso sangue a emoção que explode em sangue alheio.

E se pensam que vos venho vender alguma coisa, desenganem-se. Trago-vos só uma aproada alegria. Não imaginam a minha satisfação destes dois últimos dias. Criei, com a minha equipa da Guerra e Paz, uma nova colecção. Chama-se Os Livros Estão Loucos. É a adaptação (feita por nós, na Guerra e Paz) de grandes livros clássicos para miúdos, esses vossos filhos dos 8 aos 14 anos. Eu quis dar aos miúdos de hoje toda a gloriosa experiência que foram as minhas leituras de miúdo, de jovem e de adulto. Com a ajuda (e o entusiasmo e a inventividade, que felizmente em muito me ultrapassou) do Ilídio Vasco, meu designer gráfico, escrevemos e desenhámos uma versão vertiginosa do clássico Robinson Crusoé, de Daniel  Defoe. É para ler, é para ver, é para rir, é para pensar. Letras, palavras e imagens combinam-se de uma forma invulgar.

Não sei se vai resultar. Eu nunca me tinha metido em colecções ou livros juvenis. Mas a alegria destes dois dias, a resposta incrível que temos tido, já valeu a pena. Sei muito bem o que quis fazer: quero que esses miúdos irredutivelmente digitais (e que não me atrevo a desviar desse caminho, nem veria porque fazê-lo) possam ter uma experiência de leitura que os faça ter vontade de “acumular”. Quero-os emocionado com palavras, com as inesperadas rupturas que, afinal, a palavra linear também pode ter,

Linear? a palavra mergulha, a palavra nada, a palavra é mais do que a superfície

e quero-os de cabeça à roda com esse estranho objecto livro que, afinal, também pode rodar na mão como se roda um smartphone,

roda na mão ou rodapé?

Eu não disse, nem direi que é a mesma coisa. E ainda bem que não é a mesma coisa. Os Livros Estão Loucos, colecção de que Robinson Crusoé é o primeiro livro, Romeu e Julieta,de Shakespeare, é o segundo, e de que Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, será o terceiro, quer convencer os miúdos de que existe uma coisa deliciosa, um imponderável algodão doce a que se chama literatura. E que essa coisa, essa tradição, lhes pode encher a vida de emoção, dando mais significado aos telemóveis e tablets e consolas que usam. Não é preciso trocar uma coisa pela outra. É para acumular, para ser mais rico.

a acumulação: uma página é uma página, outra página é outra página

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Mato quem lhe toque

Há cartazes que valem o filme. Não sei quem ainda se lembra de Joaquin Phoenix a brilhar em “Buffalo Soldiers”, mas ninguém se atreve a esquecer a frase promocional, “War is hell… but peace is f*#!%!! boring“, cuja ingénua tradução seria “A guerra é o inferno… mas a paz é chata para c*#!%!!”.

Não se julgue que este marketing abrasivo é criação da mente excêntrica do meu amigo Pedro Bidarra. O Pedro terá deliciosas culpas, mas não andava de braço dado com Cukor, na rodagem de “The Women”, filme quase só de mulheres, meninas de shopping, burguesas ricas, manicuras e condessas. E veja-se o que esparramaram nos cartazes: “135 mulheres. E só têm homens na cabeça.”

Em “Unconquered”, havia uma escrava, e escuso de gastar adjectivos para lhe louvar a geografia, se disser que a escrava é Paulette Godard. Estamos na fronteira da América, há os puros índios, pioneiros e uma escumalha branca. Gary Cooper é o sonhador de grandes espaços e compra o que na escrava vê de mansos vales e macios montes. Mas avisa: “Comprei esta mulher para mim… mato o homem que lhe toque.”

Há uma carta que poderia ter sido mandada pela mão de Mr. Trump. Falo de “The Kremlin Letter”, de John Huston, carta em que a América promete ajudar os soviéticos se os chineses fizerem a bomba atómica. O marketing mandou a Guerra Fria às urtigas e confeccionou este gancho para engatar os espectadores: “Se perder os primeiros cinco minutos, perde um suicídio, duas execuções, uma sedução e a chave da história.”

Cada um deixa fugir a mão para onde quer e, pegando-lhe pelo fim, um dos cartazes de “Psycho”, o filme de Hitchcock que redefiniu o terror com uma faca e uma cortina de duche, tinha esta linda assinatura: “Não percam o fim, é o único que temos.”

Meter a mão não é metáfora aconselhável para “Boogie Nights”. Lembrem-se, a personagem de Mark Whalberg é arrastada para a indústria pornográfica por ter méritos desmesurados que o espelho atesta e o cartaz do filme sublinha: “Todos temos a nossa coisa especial.”

E voltei a pensar no dedo de Trump, quando li a tagline de “Dr. Goldfoot and the Girl Bombs”. Goldfoot é um cientista louco. Fabrica loiras bombásticas para explodirem no colo dos generais da NATO: “Vejam as raparigas com umbigos termonucleares. As mais titilantes bombas que um dedo já foi tentado a disparar.”

O bom filme começa à porta e, às vezes, é melhor nem entrar.

Publicado no Expresso há duas semanas. Amanhã trago a da semana passada.

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Diários da Solidão (1)

Quando escrevo não consigo ouvir música. Também não consigo ler e ouvir música ao mesmo tempo.

Bem…depende.

Há vezes que tenho de ouvir música, por exemplo ao fim de um dia agarrado ao computador. Aí quero ouvir Yo La Tengo,  neste suave viajar por uma noite de verão que ainda não temos…

 

Naqueles dias que preciso de sentir uma companhia serena mas sofisticada, que está ali mas respeita eu só querer estar aqui, o remédio é Harold Budd….

Depois ainda há aqueles momentos em que já só quero ouvir música e esquecer a escrita, quero a primeira cerveja do dia , ou  gastar bem o que ainda resta de luz,  o céu rosa lá fora a tornar-se escuro….e oiço o Ray….

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A tecnologia a que ajoelho e rezo

Estava, diletante, a discutir com um amigo meu o futuro do livro em papel , no qual ele muito acredita e eu creio mais do que creio num só Deus, Pai todo poderoso. Saíram-me meia dúzia de razões para justificar que, crendo, ajoelhando e rezando, é ainda assim preciso dar gás ao livro, libertá-lo como a um balão que sobe ao céu. recuperando esse lust, essa volupté, que fizeram do livro a poderosa tecnologia que é. Eis a minha profissão de fé. 

Este é, antes da folha de rosto, o ex-libris da Guerra e Paz

Em cada livro em que meto imagens (e meter é sempre bom), em cada livro em que mexo na mancha gráfica (e mexer é sempre bom), em cada livro em que desregulo o formato (e desregular é sempre tão bom), eu só estou a lembrar o que, ao longo de séculos (e já são séculos), se fez em incunábulos, em livros de horas, nos dourados com que se trabalharam as faces do miolo de livros de monges e de nobres, nas prodigiosas iluminuras. Um certo fundamentalismo foi retirando ao livro o seu lado de volúpia e luxúria. Que secura, que sequeiro, o de gerações minimalistas!

Eu quero que a escrita mergulhe, nade e nunca se afogue

Agora que o livro de papel mostrou ser a “mais bela das tecnologias”, a mais resiliente também, a tecnologia a que me ajoelho e e rezo, é preciso que, metendo, mexendo, desregulando, o livro e o papel se voltem a deixar levar pela pulsão orgíaca: o papel tudo pode e nem tenho bem a certeza de ter acertado numa certa consoante.

Não é só querer que o livro seja rijo, sou até e mesmo o editor deste, de pau feito

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Os livros estão mortos?

Já contei que a minha relação com a edição de livros começou nos anos 80, na Cinemateca, com o João Bénard, que me pôs e aos meus colegas programadores como editores dos catálogos dos ciclos de cinema. Depois, nos tempos da SIC, criei, como hobby, uma editora, a Três Sinais e publiquei logo Jorge de Sena e Agustina.

Mas a verdade é que eu não sou um bicho da edição, nem sou um editor canónico. Não sou, se se quiser, “do meio”. Um “meio” onde, diga-se, sou capaz de destrinçar entre a mediocridade de uns poucos e a grandeza, a extraordinária generosidade de muitos – e deixem-me recordar e saudar o meu velho e saudoso Hermínio, a doçura em figura de gente que é o Manuel Rosa, essa admirável capitão de mar, guerra e liberdade que se chama José da Cruz Santos, pelo muito que me deram e pela originalidade de caminhos que escolheram.

Essa minha forma esquinada de ser editor faz com que me venham, de vez em quando, com a questão da “imagem” da Guerra e Paz. Há muitas formas de responder, umas mais marketeiras, outras mais apaixonadas, outras mais vernaculamente descontraídas. Mas não é que entrou por este ano dentro o mês de Abril e veio cheio de surpresas? A surpresa deu-ma, então, o mês de Abril, mas sobretudo a minha cada vez mais linda equipa editorial, a Inês Figueiras, o André Morgado e a Ana Salgado, que se conluiaram com o meu que já sabem Ilídio Vasco, designer, ou como diria um certo poeta, il miglior fabbro, e com o Américo Araújo, a Vânia Custódio, e com aquele back-office que dá segurança, o do José Cardoso e da Carla Castela.

Querem então saber qual é a “imagem” da Guerra e Paz? Olhem, é a que saiu que das mãos desta equipa e chega amanhã às vossas mãos se forem a uma livraria.

 

 

Vão lá encontrar dois romances clássicos, o “Moby-Dick”, de Herman Melville, traduzido homericamente pela Maria João Madeira, e “As Aventuras de Tom Sawyer”, de Mark Twain, que o Miguel Nogueira (“tás a ver Paulo, como é bom ter filhos assim?”) verteu para um trepidante português.

O que eu gosto de amor e morte! Assim, juntos como uma sanduíche intelectual. Um intrigante autor húngaro, Antal Szerb, escreveu, casando trágico-comicamente amor e morte num romance, “Viajante à Luz da Lua”, traduzido já com exclamações e protestos de admiração nas línguas mais civilizadas, mas só agora em português.

E numa edição limitadíssima (500 exemplares) e de luxo chega o livro que o grande editor José da Cruz Santos, amigo de Saramago, Vasco Graça-Moura e do pintor Rogério Ribeiro, deixou que fosse eu a fazer. É este, o “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago, com prefácio inédito do Vasco e 10 ilustrações de Rogério Ribeiro feitas expressamente para esta edição.

 

Que Abril é o mais cruel dos meses já o dizia o tal poeta; o que ele não disse é pode também ser apocalíptico. E foi. Num só livro fomos à guerra e juntámos, que não há cá paz para malucos, dois Apocalipses, o de São João e o de D.H. Lawrence Com eles fizemos o mais volumoso Livro Amarelo da colecção que começou o ano passado. O meu autor Helder Guégués fez a competente justificação da inclusão e aproximação destas duas obras que são agora só uma.

 

Qual é, afinal, a “imagem” da Guerra e Paz? Uma imagem de ponta ou uma imagem do meio. Dizem que os livros em papel estão mortos – foi o que li, há dias, no Público! E o que eu digo é que os livros estão loucos – conversa a que voltarei, talvez, amanhã. É que só ficando loucos é que podem escapar à morte que dão por tão certa.

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A alegria do futebol

É um tipo baixo, redondinho. Está de costas para o campo adversário, quando recebe a bola. Veste camisola azul e calção preto e ainda está no seu meio campo, a dois metros da linha divisória e do grande círculo. Recebe a bola com o pé direito e roda para ficar com ela no pé esquerdo. Nesse subtil movimento de 180 graus já deixou dois adversários para trás, dois anjinhos de camisa e calção brancos, dois anjinhos ingleses. Galga vinte, mais de trinta metros e há outro homem que lhe vem fazer a cobertura, mas que um ligeiro desvio do pé esquerdo do homem de azul à bola tira logo do caminho. E já está à entrada da área inimiga. Os defesas ingleses estão em linha impecavelmente, como sempre os defesas ingleses estão, e um dos centrais vai ao homem. Mete o pé esquerdo, mas o seu pobre pé esquerdo – pé esquerdo de back – não se compara à subtileza e arte do pé esquerdo do homem de azul e negro que controla a bola. Com o mais macio dos toques, num milésimo de segundo, já o veloz fugitivo lhe dá um metro de avanço. O imparável homem baixo, redondo, de coxas cheias, está agora dentro da grande área. O defesa esquerdo, o outro central e o guarda-redes adversários fecham-se num garfo que o tenta crivar com três dentes. E ele, o homem tão gordinho como um jovem merceeiro, tão gordinho como um empregado de restaurante que se vê que gosta de comer sofregamente e bem, só com o pé esquerdo, sempre com o pé esquerdo, adorna a bola para a direita, evitando o guarda-redes, suporta a entrada do lateral esquerdo já atrasado e não deixa que o central sonhe sequer ser parte interessada. E a bola despede-se do pé esquerdo do homenzinho de azul e negro para ir beijar na boca as redes dessa baliza de um estádio mexicano. O homem gordinho tomba entre o eufórico e o esgotado nessa relva posta e regada para nela se sonharem os mais olímpicos dos sonhos.

Esta é a relva. E o slalom divino e o pé esquerdo de que tenho estado a falar são de Maradona. Juraria, aliás, que, depois dele ter recebido a bola, só o seu pé esquerdo conduziu, tocou, fintou, desviou e rematou o que eu julgo ser o mais belo golo de sempre da história do futebol. Descrevi-o e na minha descrição ele fintou, iludiu, ultrapassou, venceu gloriosamente seis adversários e é mentira, que eu bem sei que foram sete. Só que não há forma de as palavras puderem descrever a jogada e caber ainda o sétimo inglês tirado da fotografia – aquilo sim, foi um Brexit e god save the queen.

E agora vejam, Maradona já se levantou, corre e exulta ao longo da linha final. Vai direito à bandeirola vermelha espetada na marca de canto, à espera que cheguem  os companheiros para festejarem e levarem a inocente e pura alegria ao povo que está nas banca das. Há-de haver ali advogados e engenheiros, talvez operários e empregados de escritório, um doce casal burguês de Buenos Aires e dois amigos das Pampas, malta que dança tango. Há ricos e pobres e Maradona, a alegria gordinha e aos saltos de Maradona, une-os a todos.

E eu, ecuménico que sou, diria mais, a alegria, o prazer descarado quase obsceno de Maradona, une o estádio inteiro, os argentinos vencedores e os ingleses vencidos. Une-os o prazer do futebol.

Foi assim que eu aprendi a ver futebol. E não consigo gostar, zanga-me muito a maldade que tenho visto, ao longo de mais de uma década, fazer ao futebol. O rancor, o ressentimento, a sórdida teoria da conspiração, os cânticos de ódio, peço imensíssima desculpa, mas não vejo nisso um átomo de amor ao futebol.

Não me venham falar do escrutínio milimétrico da arbitragem. Grande parte do maravilhoso encanto do futebol vem também dos erros. Nesse mesmo jogo, Maradona marcou um golo com a mão – com a mão de Deus, ironizou ele, nesse tempo em que o futebol era superior e por isso se autorizava e deliciava com a ironia. Sem esse golo a mitologia do futebol seria mais pobre – abençoado árbitro que se enganou e deu ao mundo, durante semanas e semanas, a possibilidade de sorrirmos. O que esse golo e essa mão serviram de cerveja e conversa em pubs ingleses

A dimensão humana do futebol é o erro. O de arbitragem incluído. Mas é uma ilusão e um revisionismo histórico pensar que foi a arbitragem que fez o domínio do Sporting e dos cinco violinos na década de 50, que foi a arbitragem que fez o domínio do meu SLB e de Eusébio, Coluna e Simões durante os anos 60 e 70, ou que foi a arbitragem que fez a glória do FCP de Gomes, Madjer e Futre nos nos anos 80 e 90. Não foi. Essa glória vem direita dos pés desses jogadores que muito amaram o futebol vestissem-se de verde, vermelho ou azul.

E eu quero que se lixem as bancadas de honra muito compostinhas, com presidentes enfatuados e de rabinhos apertados a ver se não lhes entra um feijão no olho do cu. Eu sou do tempo em que, para comemorar os maravilhosos golos de Tardelli e Altobelli com que a Itália esmagou a Alemanha, um Presidente da República de Itália, il signor Sandro Pertini, dançou e pulou na bancada de honra, ao pé do rei de Espanha, e sem que o primeiro-ministro alemão, Helmut Schmidt, se abespinhasse. Sandro Pertini também tinha olho do cu e ria-se disso.

O que torna o futebol respeitável é a alegria, a pura alegria do jogo. O que nos derrota não é perdermos um jogo, nem perder um campeonato. O que nos derrota e o que derrota o futebol é a respeitabilidade hipócrita de presidentezecos e comentadorzecos, é o cântico de ódio, o very-light que mata, as cadeiras arrancadas e incendiadas, as estratégias dos presidentes de clubes que escolhem a confrontação de secretaria ou de região ou seja lá o que for como seu único princípio.

Peço muita desculpa, mas o jogo é o pé esquerdo de Maradona, um voo de Damas, o golo de calcanhar de Madjer, o iluminado segundo golo de Eusébio nos 5-1 ao Real de Madrid, o golo fantasma de Geoff Hurst que fez da Inglaterra campeã do mundo em 1966. O erro é, se quiserem, a Vénus da mitologia do futebol. Eu quero.

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Ressuscita ele e ressuscitaremos todos

Este é um post para ouvir.
Primeiro, uma canónica versão do coro final (“Descansem em paz, pernas abençoadas”) da Paixão Segundo São João, de Bach.
Depois, (“Bombé”) o encontro de Bach com o encantatório bater de palmas de um ritual fúnebre africano – fusão miraculosa, meu Deus Nosso Senhor.

Õðèñòîñ âî ãðîáå

Descansa sim, descansa esses teus ossos peripatéticos. Fartaste de andar. Da Galileia a Jerusalém, bodas em Canaã e jejum no deserto, em bem-aventurado passeio à mais Alta Montanha até sobre as águas caminhaste. Descansa-me esses ossos, a carne e os músculos. Deita-te na cova húmida, fecha os olhos e fala. E ensina-me também a descansar. Fecha na minha cabeça as portas do inferno e ensina-me o amarelo, o dourado caminho para o paraíso.

Vais dizer-me que são teus os anjos da ressurreição, que não choremos nós por ti, por que já basta chorares tu por nós. Mas amanhã, bem sei, voltarás a partir. Deixas-nos, deixas-me, e hás-de dizer outra vez que tens na tua casa grande, a de eterna luz, um quarto e uma cama à nossa espera. Com lençóis de uma absoluta alegria, júbilo dos nossos olhos, feroz volúpia dos nossos ouvidos. Não dizes, mas sabemos: é tão fácil chegar lá. Basta que nos deixemos crucificar.

E agora ouçam o Monteverdi Choir
e os os English Baroque Soloists, dirigidos por John Eliot Gardiner

E  abram agora os ouvidos a esta fusão concebida por Pierre Akendengué
e Hughes de Coursom no disco Lambarena, com músicos
europeus e do Gabão.
Vale a pena deixarmo-nos crucificar.

 

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Tom Zé: para rir é preciso chorar

Quantas vidas tem Tom Zé? Vamos lá, Tom Zé já tinha vida quando a família, moradora em Irará, na Baía, ganhou um qualquer Euromilhões brasileiro. Foi logo outra vida. A terceira foi a descoberta do violão e da música. Nos anos 60, saído da escola de música, impressentido intelectual escondido num físico débil, Tom Zé foi uma figura de proa do tropicalismo, ombro com ombro com Caetano, Gil e essa tal Gal ou também Betânia.

Fosse por ser quem é, flor que de vez em quando não se cheire, apagaram-no da história e não sei em quantas vidas já vamos.  Chamaram-lhe o Trotsky do tropicalismo, mas como ninguém lhe deu com a picareta, David Byrne ressuscitou-o, muitos anos depois, já Tom Zé ia nuns cadavéricos 50 anos. Levou-o ou à música dele para Nova Iorque. E deu outra vida a Tom Zé: em 1998, o New York Times elegeu o álbum dele dese ano como um dos dez melhores do ano.

Mas eu só queria que ouvissem a delícia que é Se o Caso é Chorar prodigiosa canção sentimental e totalmente assentimental.

E queria ainda mais que ouvissem esse maravilhoso exercício de desconstrução, feito com esses duros materiais que são a inteligência e a ironia. Ouçam e considerem que são as minhas amêndoas da Páscoa.

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Não há factos contra esta Argumento

Que o Cineclube de Viseu goste de cinema é da sua natureza. Mas que o Cineclube de Viseu goste de papel e de publicar um número da sua revista Argumento a cada 4 meses, é já do ritmo das estações, dos ventos e das marés. É muito bonita esta capa do número 154 que acaba agora de chegar às bancas e se pode (e deve) comprar por dois modestíssimos euros.

 O grafismo mudou e a capa deste número é a de que eu mais gostei até hoje. Lá dentro, a Argumento tem a colaboração de Edgar Pera e fala ou mostra filmes como o Napoleão, de Abel Gance, a A Rua da Vergonha, de Kenji Mizoguchi, The Cheat, de Cecil B. De Mille.

Eu sou parte interessada: convidaram-me e estiquei-me – por mais que me apertassem a prosa, foram precisas duas páginas. O que sei é que, doces e simpáticos, os editores pespegaram, de mim e do meu amigo Pera, duas fotos juvenilíssimas. Que miúdos que nós éramos.

A fechar, o Esgar Acelerado, ilustrador e artista que têm de descobrir imediatamente, insatisfeito com o cinema que já existe, imaginou um filme que não existe e deu-lhe a substância que se pode ver aqui abaixo, na foto da contracapa da revista. Esta é a imagem do filme que Stanley Kubrick teria feito se lhe tivesse dado para adaptar, de Philip K. Dick, o romance “The Three Stigmata of Palmer Eldrich”.

Não me digam que não fugiram já da mansidão do lar à procura de um exemplar da Argumento? Onde se compra? Não é para todos, descubram aqui.

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O meu primeiro Borges

 

 

 

Se não tinha 18, não teria mais de 19 anos, e dançava nas minhas mãos o livro cuja capa está ali em cima. Foi o primeiro Borges, convertido, do esplendor imperial da língua espanhola, por outro poeta, Ruy Belo, à marinheira língua portuguesa. Amei este livro como se acaricia um gato e se ama outra pessoa.

Souberam-no os árduos alunos de Pitágoras era o primeiro verso do livro, o primeiro do poema a que Jorge Luis chamou A Noite Cíclica, dedicando-o a uma mulher, Sylvina Bullrich, aristocrata, lindíssima e escritora de bestsellers, sei-o hoje. Mas quem dedicava assim a uma mulher um poema, que logo no primeiro tão estranho verso se enchia de árduos alunos? Soube depois, na árdua forma de conhecer que então havia, que este era um livro pessoalíssimo, antologia escolhida pelo próprio, e era o livro de um poeta cego.

Este livro, cujo segundo poema, guerreiro, se intitula Página à memória do Coronel Suárez, vencedor em Junin, (Que importam as penúrias, o desterro / a humilhação de envelhecer, a sombra crescente / do ditador sobre a pátria, a casa de Buenos Aires…) acompanhou, fidelíssimo, as minha penúrias e os meus desterros, De Luanda para Lisboa, de Lisboa para Luanda, de Luanda para o Huambo, do Huambo para o Lobito, do Lobito para Luanda. Por fim, e sou capaz de jurar que sim, sei que o trouxe quando definitivamente regressei a Lisboa, a capital do já tão pequeno Portugal.

Mas tê-lo-ei, de facto, trazido, se eram tantas e são-no ainda mais hoje as dúvidas sobre o que é ou não é definitivo? O que, aliás, aprendi na mais bela quadra que Borges nesse livro escreveu:

Olhar o rio que é de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.

Talvez o tenha deixado ao Jorge Sá, meu kamba, que nem água nem rio fez jamais sair de Luanda! Talvez o tenha emprestado a quem o tenha guardado no dormido sono que é a morte dos livros. Que interessa! Tive e tenho as Obras Completas de Borges em espanhol, mais tarde em português, também. O esplendor dourado desses volumes nunca me fez esquecer a mágoa de não ter a dançar nas mãos a pobreza singela, mas imortal, deste pequeno livro, o número 20 dos cadernos de poesia das publicações dom quixote, colecção de que o número 19 era a Vocação Animal de Herberto Helder, que ainda hoje guardo.

Não quero já falar dos incertos factos. A mágoa de ter perdido este livro, que amava como se acariciasse um gato ou como quem ama outra pessoa, inscreveu-se-me, patética, literária, na pele e nas minuciosas rugas do rosto.

Hoje, porque o tempo é outro rio, o Ilídio Vasco, para comemorar os 11 anos da Guerra e Paz editores, onde comigo trabalha, foi resgatar, ao tempo e ao rio e provavelmente a um alfarrabista, estes Poemas Escolhidos, este livrinho tão modesto como eterno.

É a prenda mais bonita que um amigo me podia dar. Por mais que os rostos passem como a água, é cristalina que vejo a água do rosto do meu amigo Ilídio. Como um rio, dançou das mãos dele para as minhas, tão agradecidas, um livro.

Voltou a ser meu o meu primeiro livrinho de Jorge Luis Borges. Tão simples, tão velho, tão denso como o poema que o encerra e me ensinou o que são limites:

Há uma linha de Verlaine que não mais recordarei,
Há uma rua próxima vedada aos meus passos,
Há um espelho que me viu pela última vez,
Há uma porta que eu fechei até ao fim do mundo.
Entre os livros da minha biblioteca (estou a vê-los)
Algum existirá que já não abrirei.
Este verão farei cinquenta anos;
A morte, incessantemente, vai-me desgastando.

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Liceu Salvador Correia

Esta era a sala de professores do meu liceu, o Liceu Nacional Salvador Correia, em Luanda. Uma sala destas confere ao espírito um tumulto  de violinos. É uma sala belíssima, que chama ao professor, professor. O aluno que entra nesta sala de professores deixa-se seduzir pela grandeza e pela beleza e acredita e exige que o professor saiba e seja mestre.

Esta era a biblioteca do meu liceu, o Liceu Nacional Salvador Correia. Entrei aqui, pela primeira vez, num dia de Setembro de 1963 e só de lá saí em Junho de 1970. O livro mais proibido que me lembro de lá ter lido foi “O Crime do Padre Amaro”. E foi debaixo de uma destas mesas, a primeira a contar da esquerda, encostada à grande estante, que os joelhos das minhas pernas curtas encontraram os joelhos das pernas compridas da colega de turma, a mais improvável namorada, e que nunca o foi, que só me oferecia os joelhos e só me cedia meio flanco neste cenário de livros e azulejos, como se a metade do corpo que tínhamos debaixo das mesas, ganhasse uma alucinada vontade. Saída a porta, sem a acelerada oxigenação dos livros, nem um toque de mão, nem um sussurro. Eu sabia, ela tinha outro namorado.

Este era o meu liceu, o Liceu Nacional de Salvador Correia. É o mais belo liceu do mundo. Uma torre, o relógio e uma família de corvos. Um ginásio atrás e um gigantesco mapa-mundi virado para a Avenida Brito Godins. Tinha dois jacarés num dos pátios interiores, o da esquerda, cercado pelos claustros conventuais. Era grandioso e, à direita, que esta aguarela já não retrata, tinha barrocas meio selvagens. Era deslumbrante e no deslumbramento é que começam todos os sonhos.

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Se eu soubesse como se dá um beijo

Foi há 25 anos, estava quase, quase a trocar o “Expresso” pela SIC. Em Fevereiro de 1992, julgo que a propósito de algum melodrama que estreou por essa altura, escrevi sobre o par amoroso. Como é que, década a década, o cinema lhe fez o retrato ou o mitificou. Que certinho que eu era.

Há narizes por quem os sinos dobram

Dois a Dois
Manuel S. Fonseca

«Nasci quando me beijaste», dizia Bogart a Gloria Grahame. Aprendizagem, experiência e separação são os temas dos pares de Hollywood. O seu país de eleição foi e continua a ser o melodrama. Como se prova, uma vez mais, através do recente «Frankie e Johnny», com Al Pacino e Michelle Pfeiffer

«Se eu soubesse como é que se dá um beijo, já te tinha beijado. Mas onde é que se metem os narizes?» Ingrid Bergman já era crescidinha — demais até para saber tão pouco — quando, em Por Quem os Sinos Dobram, confessava a Gary Cooper o seu «handicap» e a perplexidade face às dificuldades que a própria anatomia manifestamente colocava à vontade de uma mulher ajustar o corpo ao corpo de um homem.

«Ainda sabe melhor quando tu ajudas», foi a réplica de «connaisseur» que Jules Furthman ou William Faulkner, os dialoguistas de Ter e Não Ter, puseram na boca de Lauren Bacall, quando ela, pela segunda vez em poucos segundos, a descolava da boca de um Humphrey Bogart primeiro indiferente e, a pouco e pouco, menos passivo.

Nasci quando me beijaste e beijaste-me In a Lonely Place

Cinco anos depois, em 1950, num filme de Nicholas Ray, Matar ou Não Matar/ In a Lonely Place, Bogart amargava com língua de palmo o pecado do voluntarismo a que os sentidos — o do palato, em particular — o arrastara: «Nasci quando me beijaste. Morri quando me deixaste. Vivi alguns dias enquanto me amaste», jurava ele a Gloria Grahame, louvando-se na trágica grandiloquência de argumentista, personagem que incarnava no filme.

Dois a dois, estes homens e estas mulheres cumprem nestas três cenas as etapas decisivas do par hollywoodiano clássico: aprendizagem, experiência e separação. De dois a dois até dois a um. Talvez seja nas variações sobre o par que Hollywood revelou maior permeabilidade às variações da organização moral e social da América ao longo das décadas que perfazem este século. Tentemos um esboço, naturalmente parcelar, dessas variações.

Não me quebres o lírio

NOS ANOS 10 e 20, primeiro foi o amor, depois o divórcio. O par, tal como nos seus filmes o estabeleceu D.W. Griffith, era casto e delicado, mas capaz do mais sublime sacrifício para impor o seu amor contra um mar de preconceitos. Lilian Gish e Richard Barthelmess criaram, em O Lírio Quebrado/Broken Blossoms, um paradigma inultrapassável. Esse modelo era vitoriano, directamente importado por Griffith do romance do século XIX que lhe serviu de matriz ficcional. Mas o triunfo de uma Nova Moral na América dos anos 20 — desde o fim da I Guerra Mundial, para ser mais preciso — alterou a visão das relações amorosas. O divórcio passou a ser uma componente integrante do sistema familiar, obrigando assim a redefinir a natureza do casamento. Em dez anos, de 1910 a 1920, as estatísticas revelam que o número de divórcios tinha duplicado. Um salto de 80 mil para mais de 160 mil. Nos filmes de Cecil B. DeMille, essa mutação sociológica ganha direitos de ficção. Tendo começado por pintar o divórcio com as cores malignas do tumor, DeMille, a partir de 1918, em comédias como Old Wives for New, Don’t Change Your Husband e Why Change Your Wife?, assume a Nova Moral e faz o divórcio passar de doença a agradável terapia contra os infortúnios de uma virtude com tendência para fazer surgir paraplegias onde é suposto elas não existirem. O que nesses DeMille se podia ver — o mesmo valendo, com outros requintes artísticos, para a «screwball comedy» dos anos 30 de Ernst Lubitsch e Howard Hawks — era o valor curativo de um certo arejamento conjugal, que podia ir de troca do velho pelo novo até ao aturado trabalho de restauro daquilo que, entretanto, o continuado convívio empenara.

Ao longo dos anos 30, e mesmo antes da entrada dos «yankees» na II Guerra, Hollywood já estava em guerra. Outra guerra. À luz do dia, a guerra era de sexos. À luz da noite também, ao ponto de uma senhora como Irene Dunne se atrever a perguntar, a Charles Boyer, se «noites assim» não poderiam, porventura, vir a ocupar o lugar da tradicional noite de baseball. Essa visão não-conformista do par, particularmente surpreendente pela caracterização da mulher — sobretudo nos filmes de Hawks e de George Cukor — sofreu perdas irreparáveis à medida que, depois de 1934, o Código de Produção entrou em funcionamento. A diferença entre a primeira e a segunda metade dos anos 30 é «a diferença entre Ginger Rogers tendo relações sexuais sem ter bebés» — em Gold Diggers of 1933 (Orgia Dourada)e Ginger Rogers a ter bebés sem ter relações sexuais — em Mãezinha à Força/Bachelor Mother (1939)», como escreveu Molly Haskell no livro From Reverence to Rape.

Primeiro o bebé, sexo logo se vê

A imagem do par está longe de esgotar no circuito desses filmes que os pares percorriam, como quem atravessa um campo de obstáculos, até chegar ao «happy-end» — e cito títulos tão gloriosos como Lua Sem Mel/Once Upon a Honeymoon, Ele e Ela/Love Affair, ambos de Leo McCarey, Viúva Alegre/The Merry Widow e Ninotchka, ambos de Lubitsch, Duas Feras/ Bringing Up Baby, de Hawks, ou Uma Noite Aconteceu/It Happened On Night, de Frank Capra. Não conformista ainda, mas num género cinematográfico distinto, é o par Clark Gable/Vivien Leigh, em E Tudo o Vento Levou, onde é nítida a fronteira entre o apelo romântico, oferecido por Leslie Howard, e o desejo sexual que Gable francamente inspira. A resolução final desse conflito é um compromisso entre as expectativas habituais do espectador da época, o «happy-end», e o sentimento de perda que os anos 40 trarão: «Não o posso deixar ir embora! Nem quero pensar que o vou perder agora! Dou em doida se penso nisso… Pensarei nisso amanhã!» é o lamento de Vivien Leigh quando Gable finalmente a abandona.

Em paralelo com a «screwball comedy», prosseguindo uma tradição que vinha do cinema mudo, os anos 20/30 foram, no cinema americano, o apogeu do par romântico. Greta Garbo e John Gilbert, antes do mais, formaram o expoente do par consumido por uma paixão torrencial. Depois de Garbo, Marlene Dietrich, e aí está, numa só década, o que chegaria bem para um século.

Por uma pistola no bolso pago-te a dobrar

OS ANOS 40 continuarão, na ressaca da Guerra, essa linhagem de mulheres fatais. Mas a misoginia crescente sublinhou nelas o carácter pérfido. Lembremo-nos de Rita Hayworth em A Dama de Shangai/Lady from Shangai, de Orson Welles, de Barbara Stanwyck em Pagos a Dobrar/Double Indemnity, de Billy Wilder. Traíam, traíam sempre, até reduzir um homem a cinzas. «Yes angel, I’m gonna send you over», era o que um Bogart exausto dizia à sua amada Mary Astor, no final de Relíquia Macabra/Maltese Falcon. E «over» não era o céu de anjos e arcanjos. «Over» era logo ali ao lado, a prisão para onde a levavam dois ou três chuis sórdidos. Nesses anos 40, as mulheres foram mais pérfidas e os homens já não eram os mesmos. Por causa dos «melhores anos da nossa vida» gastos na guerra. E também por causa da confiança perdida: «Nós não acreditámos exactamente na sua história Miss O’ Shaughnessy. Nós acreditámos nos seus 200 dólares. Pagou-nos mais do que se nos estivesse a dizer a verdade e ainda mais para que tudo parecesse estar certo», era esta a forma cínica de Bogart chamar mentirosa a Mary Astor no filme citado. A homens assim, a lamber fundas feridas de alma, a acordarem de noite com pesadelos, se Mae West os tivesse encontrado, nunca teria dito, como na década anterior dissera a Cary Grant: «Ó querido, trazes uma pistola no bolso ou estás só contente por me veres?»

Mesmo assim, nada nos poderá fazer esquecer que essa foi a década do par Katherine Hepburn-Spencer Tracy. Numa época em que a glorificação da mulher fatal é só o negativo da misogenia e em que o amor parece ser uma relação tão confusa como ameaçadora, Hepburn e Tracy ficcionaram o que poderia ser um modelo de equilíbrio dinâmico na relação do par. Confronto e complementaridade foi a receita em Adam’s Rib ou em A Mulher do Ano/ Woman of the Year.

projecção heterossexual de um desejo homossexual?

Essa maturidade não sobreviveu nos anos 50. A frustração sexual dos heróis dos anos 40 contagiou os heróis mais emblemáticos da década seguinte. No par Elizabeth Taylor-Montgomery Clift, no par James Dean- Nathalie Wood, como no Marlon Brando de Um Eléctrico Chamado Desejo, a sexualidade, por mais explícita que seja, não camufla já a homossexualidade latente das personagens masculinas. Em Quanto Mais Quente Melhor, a década acabará, e é mais do que um sintoma, com o simbólico «Ninguém é perfeito», dito por Joe E. Brown a Tony Curtis, quando este arranca a peruca e puxa da sua voz máscula para garantir que o outro não está a ver bem as coisas e que ele é um homem.

A juvenilização do herói chama para o ecrã a figura do pai, (Dean em A Leste do Paraíso, Paul Newman em Gata em Telhado de Zinco Quente ou, já nos anos 60, mas com o espírito dos 50, Warren Beaty em Esplendor na Relva): os conflitos mal resolvidos vão conduzir a contas sexuais mal paradas. William Holden, de tronco nu, nos braços de Kim Novak, será mesmo a projecção heterossexual de um desejo homossexual? E foi por isso que as adaptações de Tennessee Williams proliferaram nos ecrãs americanos? Houve mesmo quem falasse de regressão infantil, razão pela qual a década de 50 teria encontrado no grande par de mamas o seu símbolo «fetiche», em vez dos pares de olhos ou dos pares de lábios, à la Garbo ou Dietrich, nos anos 30, ou até do par de pernas que serviram de bandeira a Betty Grable, nos anos 40.

um par que deu uvas. Na primeira noite sem luvas

AS POUCAS restrições que a Censura conseguiu manter de pé até final da década de 50 tombaram nos anos 60. A libertação sexual e o movimento feminista pulverizaram, ou pareceram pulverizar, as limitações que se dizia existirem para a abordagem adulta dos conflitos sentimentais e sexuais. Todavia, pela primeira vez, os filmes não conseguiram reflectir a euforia em que os floridos anos 60 embarcaram. Nos filmes deixou de haver pares. Dois a dois? Era chão que deu uvas. Nas imagens do cinema americano dos anos 60 — quando de sentimentos ou paixões se trata — acaba quase tudo e quase sempre um a zero. Ao contrário do que sucedeu no cinema clássico, «em contraste, os mais característicos últimos planos dos filmes dos anos 60 e 70 foram planos fixos de solidão e de alienação», afirma o crítico Andrew Sarris. Mesmo a imagem da mulher sofreu um considerável recuo: «Putas, semiputas, amantes abandonadas, doentes mentais e alcoólicas» foi o catálogo que Molly Haskell estabeleceu, vendo os retratos inclementes do cinema dos anos 60 e 70. Em décadas destas não admira que A Primeira Noite/The Graduate pudesse surgir como um modelo de inteligência, apesar de ser ridícula a caracterização de Anne Bancroft, a mulher de meia-idade que viola, mais do que inicia, Dustin Hoffman. Também por isso, essas décadas foram, essencialmente, décadas de actores — uma lista interminável de bons actores masculinos contra uma lista escassa de actrizes mal servidas.

Os anos 80 assinalam o regresso tímido do melodrama. A possibilidade do par se refazer é sugerida através do recurso à nostalgia — simultaneamente uma nostalgia dos géneros cinematográficos, com as suas convenções próprias, e uma nostalgia da reconstituição do par «luminoso e sedutor» que foi o eixo do cinema clássico. Poderão os anos 90 ser a década desse regresso triunfante? Frankie e Johnny, na simplicidade dos seus objectivos, na capacidade de incluir preciosas notações realistas num percurso sentimental, na honestidade de tratamento da figura masculina e feminina, pode ser um passo gentil nessa direcção.

dou-te uma rosa se lavarmos os dentes juntos

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Zen

Procurei casa em Lisboa. Para comprar. Arrendar. Licitei na sexta-feira um raio de um apartamento minúsculo, a cair aos bocados, para restaurar – perdi, claro, parece que afinal era grande, espaçoso e tinha acabamentos de primeira. Ia mesmo agora cortar os pulsos. Mas dei com isto. Ninguém consegue fazer uma sangria desatada a rir.

Ps: Henrique Raposo, que é lá isso de luxos de família, vida, trabalho?! Faça-se já um Torremolinos por bloco de apartamentos!

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Guerra e Paz

Falhámos. Acertámos. Perdemos. Vencemos.

Faz hoje 11 anos, a 10 de Abril de 2006, nascia a Guerra e Paz editores. Com Sena e Sophia, com Agustina, Eça e Camilo. A história da Guerra e Paz editores é igual à história dos seres humanos que a fizeram e fazem. Cheia de muitas alegrias (ah, que bom!) e de algumas decepções (olha, já nos lixámos). Mais alegrias do que decepções, Deus seja louvado. Com o orgulho dos enormes livros-álbum de Agustina e Eduardo Prado Coelho e a humildade de colecções de saber e educação que não resistiram a mais de cinco títulos. Com a inovação dos livros com capa de madeira dedicados a Fernando Pessoa e a normalidade dos livros no tradicional formato 15×23, de ficção e não-ficção. Já tivemos o livro mais vendido do ano, Maddie: A Verdade da Mentira, mas também nos caiu em cima, mandada por Deus ou pelo Diabo, a insolvência de um distribuidor, terramoto a que, com uma angústia de Job, sobrevivemos.

Fazemos hoje 11 anos e isso foi o que foi.

Hoje, somos os «Clássicos da Guerra e Paz», 19 títulos indispensáveis publicados num ano e meio, de Eça a D. H. Lawrence, de Luís de Camões a Flaubert. Três novos títulos comemoram o nosso aniversário: El-Rei Junot, de Raul Brandão, o mais insólito romance português, As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, aventureiro, viajante, humorista e criador do romance americano, e, por fim, uma monumental edição de Moby-Dick, o romance (será um romance?) de Herman Melville, numa admirável (desculpem a adjectivação, mas isto não vai lá com paninhos quentes) tradução de Maria João Madeira, que até nos baleeiros dos Açores se meteu para perceber o que estava a traduzir.

Foi o que foi, somos o que somos. Somos os «Livros Amarelos», essa estranha colecção que reúne num só livro dois textos de autores diferentes e se arrisca a justificar as razões da escolha, da aproximação ou da oposição, do amor ou do ódio que os junta. O sexto volume sai agora mesmo e junta dois Apocalipses, o de João de Patmos, que talvez seja São João, e o de D. H. Lawrence, que não era santo coisa nenhuma, que é o que diz Helder Guégués, o autor do texto justificativo.

Também somos, pequenissimamente, se é que o revisor me vai deixar passar este ridículo advérbio de modo, editores de poesia. Não vamos invocar o Camões e o Pessoa, ou o Claude Le Petit ou o Aretino que publicámos, mas sim a colecção contemporânea, que tem escrito à porta «reserva-se o direito de admissão», porta que só ainda se abriu a Eugénia de Vasconcellos e, agora, ao romeno Dinu Flamand, abençoado por António Lobo Antunes. Sombras e Falésias, o livro dele, tem esse «segredo da eternidade», a cuja religião logo nos convertemos.

Uma coisa liga o «foi o que foi» ao «somos o que somos»: o gosto do luxo. Talvez por o editor ter nascido pobre e aldeão, há nele o gosto do brilho, das capas cartonadas, das lombadas em pano, dos títulos em prata e ouro. Fraqueza que o seu designer gráfico explora desalmadamente. Sai agora, capa dura, lombada em pano azul, título em prata, uma edição especial do Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, com prefácio inédito de Vasco Graça Moura, como inéditas são as 10 ilustrações que o pintor Rogério Ribeiro fez para o seu amigo Saramago e que agora esplendem (sim, esplendem mesmo!) no miolo do livro.

É juntando o «foi o que foi» ao «somos o que somos», que hoje damos um passo para amanhã. Amanhã, esse futuro que já está à porta, também é dia de Guerra e Paz. Amanhã, a Guerra e Paz vai ser um bocadinho maior. Para comemorar os 11 anos, a Guerra e Paz entra no livro juvenil. Tínhamos tocado e fugido. Agora, é de vez. Uma colecção, «Os Livros Estão Loucos»,  vai dar a ler numa hora o que antes se lia num dia: romances clássicos adaptados para leitores dos 9 aos 14 anos. Os primeiros são Robinson Crusoé, Romeu e Julieta e Alice no País das Maravilhas. Reescrevemos, como se João de Barros tivesse voltado à vida, estes livros  de Defoe, Shakespeare e Carroll, e demos-lhe uma volta gráfica louca. Para os pais terem vontade de os roubar aos filhos. Mais, apareceu-nos um herói, o Santiago. O Santiago tem uma irmã mais velha perfeita que lhe dá cabo do juízo. O Santiago, que não é nenhum banana, vingou-se: escreveu um Caderno de Memórias de Difícil Acesso.  E proibiu toda a gente de o ler. Só este ano, vamos publicar dois volumes. O primeiro chama-se Não Te Atrevas a Abrir. Os pais do Santiago são a Raquel Palermo e o João Lacerda Matos. Temos a certeza de que vamos ter de falar muito deles. São livros para o futuro e o futuro vai de 19 de Abril a 20 de Maio deste ano. É muito rápido o futuro na Guerra e Paz editores.

Foi o que foi, somos o que somos e é isto que queremos sempre ser: Guerra e Paz editores, uma casa de edição generalista, que acolhe todas as obras, das mais sofisticadas e elitistas às mais simples e populares. Gostamos do toque de mão do papel, de um inusitado ou mesmo escandaloso grafismo, de uma cor que rompe a página, de pintar à mão as faces de um miolo. Gostamos que dos nossos livros saiam mundos e monstros, punhais e beijos. Gostamos de virar a página.

Manuel S. Fonseca

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