Amor Cão

O meu lindo Cão morreu hoje. Este foi o texto que lhe escrevi de aniversário, a 5 de Maio de 2016, para celebrar os seus perfeitos dezasseis anos – na verdade, sabia que era o último aniversário. Sabemos, não é? É assim. É Amor Cão. É para sempre.

O meu lindo Cão...

O meu lindo Cão…

O meu Cão faz hoje dezasseis anos. Meu querido Cão. Conheci-o tinha ele quatro meses. É o Cão que sempre quis ter. Hoje, lá fora, a chuva e relâmpagos e trovões como se o céu fosse acabar amanhã.

Quando o Cão era novo, e se ele foi até aos doze anos, destemido, rival poderoso de todos os cavalos havidos e por haver, fazia frente aos relâmpagos, e até se empinava para assustar os trovões a latidos. Batia-os todos para longe. Ainda há pouco, caiu um relâmpago tão em cima de nós que nem deu para contar até um antes que o trovão rolasse dele abaixo. E o meu querido Cão, na surdez dos seus dezasseis anos, a comer a sua pescada de aniversário à revelia veterinária, nem um movimento de orelhas. O que eu gastei os píxeis dos olhos a contemplar a maravilha daquelas orelhas-antenas, perscrutadoras, sempre em movimento, rápido ou lento, mesmo enquanto dormia: se algum sonzinho lhe chegasse de fora da orquestra, rosnava baixo, sem mexer um pêlo que não fosse das orelhas, sem descerrar os olhos, era um, estou aqui, nem te atrevas. Nada se atrevia. Ninguém. Quem é maluco de ir contra o Grande Lobo das Estepes Siberianas? Claro, não se adivinhava na fera o Cão Noiva que também foi na juventude, quando ainda vivíamos na nossa casa.

A minha cama era alta. Vá, não era baixa. Quatro vezes a altura do Cão. E isso que interessa a quem tem molas nas patas? De manhã, muito cedo, logo a seguir à Eurovisão dos pássaros na guarda de ferro da varanda, que começava à primeira luz e me dava a primeira felicidade aos ouvidos, depois das aves terem ido à sua vida, sentia-o esticar-se, downward dog, yoga de perfeição, depois enfiava as patas dianteiras até onde chegava na lateral do colchão para outro alongamento. Silencioso. Cão Ninja. E de repente, um impulso apenas, já estava na cama. O focinho enrolado no mosquiteiro, veú-de-noiva, coisa mais natural no mundo canino, estes tules, e eu nunca soube… Imóvel. Cão Estátua. O focinho coberto e apertado pelo mosquiteiro-véu, à frente do meu rosto, as quatro patas de equilíbrio no meu peito, quase nariz com nariz, e eu, bom-dia Cão Noiva, a rir. E logo ele aos saltos na cama. Sessão de festas matinais. Peitinho, barriga-tambor, pescoço, e que lindas patas de ballet tem a minha gata! E ele a esticá-las na sua máxima, na sua impossível extensão de bailarina vaidosa, Svetalana Zakharova dos canídeos! Minha Linda Gata. Gata Boa. Quem gosta de peixe, quem é? Quem faz prodigiosos equilíbrios nas almofadas do sofá e se senta e deita ao lado do computador da sua dona, na secretária, quem é? É a minha gata. Nunca o convenci do seu gene gatini. Era um cão anti-gatos. Um drama dentro da minha imaginação porque os gatarrões são maiores do que ele. Nenhum drama na realidade. Quando o viam, fugiam a velocidades felinas de mato. Agora nem se mexem, os gatos. Descansados da fera cega que passeia lenta, hesitante, a tactear as pedras do passeio. Nem para o sofá sobes, meu querido Cão. Os saltos em altura acabaram há quase três anos. E o degrau da sala da casa onde agora estamos, um muro da tua medida, transpõe-se uma pata de cada vez. Cão Valente. O meu Leão.

Cão Lição. Não vivemos só para nós, pois não, Coração de Cão? Nem quando olhamos em volta e o mundo nos responde que até no sofrimento há beleza sufocada. Vivemos para quem nos ama, não é? Tu vives para mim, maluquete, Cão Amor. Obrigada, meu Lindo Cão.

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contra corrente

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A meio da Tabacaria há um cão (*)

Tabacaria I. 2016

Tabacaria I. Pedro Norton, 2016

Não vos vou fazer perder muito mais tempo. Quero só brevemente fazer-vos notar que, a meio da Tabacaria, quase precisamente a meio, há um cão.  Não fui que o deixei lá. Foi Pessoa, foi Álvaro de Campos, foram os dois feitos um, como jura o Manuel na introdução a esta edição. Podia ser, e se calhar é, apenas um detalhe. Uma insignificância. Mas eu reparei nele, ou ele reparou em mim, por razões que já vos explicarei.

É um cão, diz Pessoa e diz Campos, que “também existe”. Que “também existe”, repito e sublinho para que reparem. Não se limita a existir como seria de esperar de um cão normal. Que ladra, que corre ou que alça a perna para fazer xixi num candeeiro que é o seu território de Lisboa.

O cão, que na minha singular leitura se fez metáfora, existe também. Existe a medo. Existe, exatamente tal como no poema fugazmente existem, a “nitidez absoluta” da rua, das lojas, dos carros que passam. Como esporadicamente existem “a tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora”, ou até o “Esteves sem metafísica” que, na última página, lá entra pela realidade dentro, para comprar tabaco.

Mas esta existência, aparente, fragilíssima, do cão, das lojas, dos carros, do Esteves, é a existência que, no poema, menos conta. Ou que apenas conta por fazer as vezes do contraponto. A Tabacaria é, desde logo, um poema da não-existência. O poema em que se fundem – e regresso à conversa com a introdução do Manuel – “o real e o irreal”. Na verdade, reparem bem, não verdadeiramente existem – e volto a dar voz às vozes irmanadas de Pessoa e de Campos – “os entes vestidos que se cruzam”, o pobre Deus que fala “num poço tapado”, “a rua inacessível a todos os pensamentos”. Não existe, sobretudo, e este é que é o ponto, uma existência que não chegou a ser.

Tabacaria II

Tabacaria II. Pedro Norton, 2016.

A Tabacaria é, pois, se quiserem pôr o meu cão a falar outra língua, um poema do desespero e do fracasso. O cão, o meu cão metafórico, deixado esquecido a meio da Tabacaria, (eu que não sou pessoano tenho a liberdade irresponsável de lê-lo assim) é a voz desesperada de uma existência que não chegou a ser, de um dominó que foi afinal uma vida vestida ao contrário.  É o Eu que “não sou” nem “nunca serei nada”. É o Eu “vencido” que falhou em tudo. O cão são as “aspirações nobres e lúcidas (…) que nunca verão a luz do sol real, nem acharão ouvidos de gente”. O cão é o Eu que conquista todo o mundo, mas apenas antes de se levantar da cama. O cão é o Eu que tendo “sonhado mais do que Napoleão fez toda a vida” “esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta”. Querem desespero maior? Querem fracasso maior? Querem não-existência mais dura?

Stray Dog. Daido Moriyama, 1971

Voltemos, pois, ao cão. Foi ele, que é desespero e é desistência, que tive a desfaçatez de querer salvar nas minhas fotografias. Salvar a partir de outras galáxias, de outros “indefinidos”, de outros antípodas. Se eu fosse um fotógrafo profissional deixava o texto por aqui. Presumia ser meu o cão que afinal não é. Mas nesta história, que é do Pessoa, é do Manuel e é do Ilídio, eu sou só o rapaz dos bonecos. Levo muito a sério tudo o que faço na vida. Mas vou tendo o senso de não me levar, a mim mesmo, lá muito a sério. E não tenho, portanto, qualquer pejo em confessar-vos, vejam lá a lata, que fui buscar a um fotógrafo que é “muito lá de casa” a outra face do cão. O meu cão é o cão célebre, o cão celebrizado pelo japonês Daido Moriyama. Quis – melhor dizendo, tentei – ancorar o desespero pessoano de uma realidade que não foi, na brutalidade concreta do universo que é, hoje, aqui e agora, na realidade fisicamente palpável de Moriyama. Convoquei, para resgatar a esperança, para uma mansarda de Lisboa, a lente, cheia de vida, cheia de vidas, de formigueiros ainda por cumprir, do meu mestre japonês.

É certo que lá deixei, em todas as fotos, “os entes vestidos que se cruzam”. É certo que as ruas são Lisboa e não são Tóquio. É certo que me falta a brutalidade fervilhante que faz o génio de Moriyama. É certo que o mestre é ele e que eu não sou sequer aprendiz. Mas quis que a Lisboa de Pessoa se fizesse do grão de Moriyama, da sua instantaneidade, de um contraste que (tenho de confessá-lo, Manuel) quis que fosse bem mais pronunciado.

Quis aplacar o desespero e resgatar “os chocolates que dispensam a metafísica” para que possam comprazer-se, felizes, na simples universalidade do hoje.

E é tudo. Termino, como não podia deixar de ser, agradecendo ao meu bom amigo Manuel e à sua Guerra e Paz que são um sopro de criatividade no mundo editorial português, ao Henrique Monteiro, companheiro de muitas lutas, à Joana Emídio Marques que tive o prazer de aqui conhecer, aos vários amigos que se deram ao trabalho de aqui estar hoje  (e eu bem sei o que isso significa no caso de uns alguns), à minha família, aos meus pais que me deram a oportunidade de viajar entre vários Pessoas e outros tantos Moriyamas, à minha irmã que só aparentemente hoje aqui não está, aos meus rapazes que insistem em dizer que o que hoje aqui fazemos é um trailer e não é uma apresentação, à Inês que é a única pessoa no mundo que verdadeiramente conhece o meu “real por dentro”, e ao Tiago, eterno “ente vestido” que, como sempre, comigo vagueou, enquanto fotografava, pelas ruas da baixa.

Muito obrigado a todos por terem vindo.

 

(*) Eis o texto que escrevi para a bonita-festa-pá que o Fonseca organizou na Casa Fernando Pessoa

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Verdade

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O imperfeito é dinâmico

 

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A Tabacaria de Pessoas como Norton e Fonseca

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Não há nada mais sério do que um livro nem nada mais divertido do que um livro. Por isso, quando o Dr. Manuel S. Fonseca me pediu que eu lançasse o livro de Pedro Norton, MA, decidi ser chato. E depois decidi o contrário. E depois fiquei confuso sobre qual a parte de mim era verdadeira. No delírio escrevi isto:

Cara diretora da Casa Fernando Pessoa, Clara Riso
Cara Joana,
Caro Editor,
Cara Guerra,
Cara Paz,
Caro Pedro Norton
Caro Manuel Fonseca,
Caro Fernando Pessoa,
Senhoras e senhores

Pediu-me o Manuel Fonseca um – e cito – “libérrimo desvario” de 10 minutos. O meu problema está nos 10 minutos, porque de resto tudo o que faço e escrevo são libérimos desvarios.

Assisti, desde o início, à preparação deste livro e vou contar-vos como foi. O Pedro foi pedir conselho ao Manuel sobre o que deveria fazer com umas fotografias desfocadas. E o Manel, que é esperto, disse-lhe: “Fazemos um livro com o poema Tabacaria’. O Pedro, que é mais dado ao Baudelaire e, no geral, às Flores do Mal / O Pedro que aos 17 anos já era um homem sério, só para contrariar o Rimbaud / O Pedro que fazia as delícias das senhoritas com récitas de Verlaine / O Pedro que decorou Aragon e Eluárd por amor à França / O Pedro que sabe de cor Fábulas de Lafayette (confundo sempre o Lafayette com o La Fontaine) / O Pedro, enfim, não percebeu a ironia de as suas fotografias tremidas irem ilustrar e completar um poema que começa por

“Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada”

E disse que era boa ideia fazer-se a Tabacaria. E foi o que aconteceu.

O Pedro insistiu que o Manuel fosse para a frente com a ideia.

Então, o Manuel que é o homem brilhante decidiu recriar o livro. E fê-lo tão bem que as fotografias do Pedro ganharam vida, tornaram-se brilhantes, apesar de a preto e branco ganharam cor. O que era tremelique ganhou alma e movimento como se um demiurgo tivesse intervindo de modo a insuflar o sopro da vida nas imagens estáticas.

Revelou-se um fotógrafo com uma visão amarga, mas serena; dura, mas amável e sensual.

E deu-nos a Baixa, com alguns dos seus ícones e alguns dos seus mais inesperados momentos, onde tudo é movimento, corropio, êxtase ou desespero.

No conjunto em que o Pedro sonha, o Manuel quer e a obra nasce, ela é já um completo e libérrimo desvario.

É um livro, mas muito mais do que um livro. É, todo ele, uma obra de arte.

Vale mais do que muitas obras de arte que por aí vemos consagradas na piolheira nacional, como diria o Eça, ou o Vasco Pulido Valente. Não é um livro com fotografias. Não é um poema do engenheiro naval mais famoso do país, ilustrado por fotografias de um gestor que tem o cinema e a fotografia como hóbis.

É mais do que isso, é a reinvenção total e necessária do conceito de livro.

Falando mais a sério e desde já pedindo desculpa pelas entradas a pé juntos, o livro, como os jornais e todos os sobreviventes da época pré-digital reinventar-se-ão por caminhos assim. Eu quero este conjunto não para ler a Tabacaria, que já li tantas vezes, mas para ler a Tabacaria que nunca li.

Eu quero este livro por ele ser este livro e não por ser um livro onde vem um poema e uns textos das páginas íntimas de Pessoa, bem comentadas por Manuel Fonseca, filosofia da mais pura, daquela que nem o Kant escreveu.

Eu quero este livro porque ele é uma substância alucionogénica que me faz viajar, pairar, voar e detestar as coisas terrenas, para me centrar na transcendência do dentro, nas fontes herméticas e símbolos que me dizem que aquilo que está em cima é igual ao que está em baixo. Que a Tabacaria é toda a rua alcançável da nossa janela e que a Tabacaria não existe existindo e existe não existindo. Que diferença faz?

Eu quero este livro por puro egoísmo, porque as fotografias e o seu movimento me transportam para o universo do texto; porque o cuidado do grafismo e a sua tiragem limitada fazem-me ser de um restrito clube onde não entra quem quer.

A madeira impressa impressiona-me e a frase repetida em cinco idiomas (e que bem traduzidos!) – je porte en moi tous les rêves du monde, ho in me tutti i sogni del mondo; I have in me all the dreams of the world; tengo en mí todos los sueños del mundo; tenho em mim todos os sonhos do mundo – materializa-se.

Sim. Tenho este livro e todos os sonhos do mundo! Tenho estas fotografias e todos os sonhos do mundo. Não serei nada, jamais serei nada, mas tenho os sonhos do mundo em mim – é neste vórtice que somos sugados, liberrimamente sugados, para o desvario, o delírio –

“Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, coisa real por dentro.”

E são estes os mundos, com mais filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu, que me atraem.

Ó Pedro, ó Manel, ó Fernado, ó Álvaro de Campos que em boa hora possuíste o espírito desse desgraçado que andava por aí a beber absinto, obrigado por esta obra que é o livro, que são as fotografias, que é o poema, que é um todo.

Não há palavras, nem atos, nem sensações, nem alucinações que descrevam este sublime, esta elevação. É por isso que devemos entrar neste momento devagar, com certo humor. Assim:

Um dia o Pedro foi pedir conselho ao Manuel sobre o que deveria fazer com umas fotografias desfocadas. E o Manel, que é esperto, disse-lhe: “Fazemos um livro com o poema Tabacaria’. Mas acho que já disse isto.

Calo-me pois.

 

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Do livro caixa ao livro papagaio

multidão

Estava a armar-se uma verdadeira multidão

Foi bonita a festa. Casa cheia. Uma pequenina multidão na rua que já não pôde entrar: a segurança de Fernando Pessoa e da casa dele oblige. Fica aqui, para um dia recordar, o meu speech. A Joana já publicou o dela no facebook. Peço ao Henrique e ao Pedro que tragam os deles. Não foi só bonito, foi também uma coisa calorosa e cheia de uma peganhenta, risonha amizade. Que para o ano vai dar um novo livro. O que será?

riso

A amizade a rir-se

Minhas senhoras e meus senhores, amigas e amigos, muito obrigado por terem vindo participar nesta sessão de apresentação da edição em 5 línguas da Tabacaria, poema de Álvaro de Campos, muito provavelmente escrito por Fernando Pessoa. Obrigado por terem afrontado o trânsito de Lisboa e a inclemência que é o estacionamento em Campo de Ourique.

A vossa entusiástica adesão merece a minha admiração e pelo menos um comentário de natureza sociopolítica. O facto de juntarmos aqui esta pequena multidão, por causa de um livro que é em madeira ilegível em vez de ser em papel e, ainda por cima, um livro escrito por um individuo que uns dias era Fernando e noutros se fazia passar por engenheiro civil, um individuo que, em carta escrita a dois psiquiatras franceses, se declara orgulhosamente histérico e neurasténico, um indivíduo que António Lobo Antunes disse, embora por outras palavras, nunca se ter posto em cima ou por baixo de homem ou mulher, eis o que explica como é que este país chegou ao que chegou.

escadas

Pelas escadas acima

Muito obrigado, meus amigos por esta vossa preciosa lição política, que explica ao mundo porque é que Portugal é Portugal.

Devo e quero agradecer à Casa Fernando Pessoa, esta pequena jóia de que a Dra. Clara Riso cuida, aturando os mergulhos neurasténicos do fantasma pessoano e da sua boa alma.

Em boa verdade, e depois da ultrajante e indecorosa apresentação que alguns de nós aqui fizeram o ano passado, julguei que entre o bom senso e a generosidade da direcção desta casa triunfasse o bom senso e estivesse ali à porta um cartaz a dizer “Interdita a entrada a Pedro Norton e amigos”, mas vejo que a generosidade da Dra. Clara Riso é gigantesca e aqui estamos, agradecidos – muito obrigado a todos os que aqui trabalham – e prometendo que esta será uma memorável sessão académica, embora cheia desse sentimento simples com que também Fernando Pessoa e até Álvaro de Campos sentiam as coisas.

A verdade é que passou um ano e a escolha dos nossos apresentadores já mostra como estamos mais sábios e sensatos. Para vos falar deste livro, se é que lhe podemos chamar livro, estão connosco duas personalidades especiais.

O Pedro Norton e eu pusemo-nos de acordo e convidámos a Joana Emídio Marques. Por uma razão: por ser ela o que já não se pode ser. A Joana é jornalista cultural freelancer. Três palavras que dificilmente resistem uma a uma, quanto mais as três juntas. As hipóteses de ela ir desaguar na neurastenia de Fernando Pessoa é, como se percebe, enorme.

Mas o facto de ela rejeitar a insípida e típica pastilha elástica cultural, o facto de ela exigir às elites que sejam cultas e não broncas, ou seja, o facto de ela ter uma alma indisciplinada, logo pessoana, foi o que nos levou a convidá-la, mais do que o ser a Joana, e ainda bem, Mestre em Estudos de Cultura Contemporânea. Obrigado Joana por ter aceitado

E mais do que dizer porque é que o Henrique Monteiro está aqui, direi que estamos todos aqui, hoje, 2ª feira, porque ele não podia na 4ª e não podia na 5ª, nem na 6ª. Ou seja, e como já perceberam, o Norton e eu sujeitamo-nos a tudo o que Monteiro diga. Ele é o nosso farol, nosso guia. Haverá porventura gente com outros pergaminhos académicos, mas o Henrique tem essa rara qualidade de incluir na sua relação com a cultura, mas também com a política, a sua vivência e o que da vivência dos outros colheu. E é essa saborosa cultura com vida dentro que, nem que tivesse de ser num domingo à meia-noite, queremos que o Henrique partilhe connosco.

Eu sou editor deste livro. Nele juntei um morto e um vivo. Fernando Pessoa e Pedro Norton. Qual seja o morto ou o vivo, deixo ao vosso critério. Alguns dirão mesmo que estão os dois mortos. Eu juraria que estão os dois vivos. Quem julgue conhecer-nos pensará que convidei o Pedro por amizade. Enganam-se, eu convido-o por rivalidade. É uma coisa de rapazes. O meu convite foi uma armadilha: a ver se lhe passo uma rasteira, se ele falha. E o gajo, perdão, o Pedro, safa-se sempre.

O Pedro é muito competitivo e tem até a mania de que é mais alto do que eu. Hoje vou acabar de vez com essa mania, contando uma história. Tinha eu 10 anos e a minha professora de matemática, no Liceu Salvador Correia, de Luanda, entrou na sala. Toda a gente se levantou. Mas o olhar impiedoso dela descobriu-me ao fundo da sala: “O menino lá ao fundo, porque é que está sentado” berrou ela. E a sala toda, solidária comigo, respondeu em coro: “Mas o menino está de pé, sôtora”. Espero, Doutor Norton, que fique agora clarinha essa coisa de quem é que aqui é mais alto.

E quero dizer-lhe que foi com muito prazer que o não deixei sentar esse preguiçoso rabo durante quase dois meses de Verão, obrigando-o a calcorrear a Baixa de Pessoa, à procura de tabacarias, à procura dos Esteves, à procura de meninas que comessem chocolates, com a metafísica toda metida na sua câmara fotográfica. Valeu a pena. Estão aqui, neste livro, 25 imagens de grande liberdade. A liberdade que só uma escravatura vivida com prazer pode permitir. Pedro Norton, do alto do meu metro e noventa, só tenho a dizer-lhe: não há duas sem três, as coisas não ficarão por aqui.

quarteto

O quarteto não é de cordas

Eu devo este livro a algumas pessoas na generalidade e a outras na especialidade. Na generalidade, a quem me atura e muito ama, a começar nos dois Ás, Alice e Artur que eram os meus pais e que, estando por certo no céu, Nosso Senhor os poupe à balbúrdia de estarem com Fernando Pessoa e os seus 100 heterónimos, pseudónimos e outros nomes. Aqui na Terra o que faz bem ao meu já fraco coração são os mimos da Antónia e da Rita, mulher e filha, benfiquistas, meias comunistas e altamente consumistas, mas cujo bom gosto só posso pagar com um livro destes.

O meu agradecimento na especialidade vai, inteirinho, para a minha equipa da Guerra e Paz. A todos, ao José Cardoso, Américo, Vânia, Carla, Inês e André, muito obrigado pela vossa dedicação, nada histérica e nada neurasténica. Também é verdade que eu vos encho de cestos de fruta e miniaturas de pastéis de nata, mas o que me dão em troca é uma tonelada de profissionalismo, muitas horas de trabalho, mesmo descontando os fatídicos atrasos na hora de entrada. Obrigado.

E não me esqueci do Ilídio Vasco, o meu designer gráfico. Ninguém levará a mal que eu o destaque porque, neste livro, ele foi meu parceiro e co-autor. Jogou a ponta de lança, mais Jonas do que Mitroglu. Este livro, o Ilídio e eu andámos a construí-lo tal qual eu fazia papagaios de papel quando era miúdo. Juntava canas, fio, papel de várias cores, fuba e água para fazer de cola. Em vez de um papagaio, seguimos uma velha mania e fizemos uma caixa. Aliás, não somos só nós é Portugal inteiro que tem hoje a mania da Caixa.

A nossa caixa é só meia e fomos descobri-la em Proença-a-Nova numa empresa de madeiras e móveis que se chama Ambiente d’Interni. E seguimos de fábrica em fábrica até chegarmos a Braga, onde, com a Publito, a nossa tipografia do coração, fizemos trinta por uma linha, pintando o livro à mão e fazendo a pasta-álbum onde estão prisioneiras as fotografias do Pedro.

Eu queria um papagaio, mas quem o pôs a voar foi o Ilídio Vasco. O Ilídio fez uma caixa e pintou tudo de azul ciano. Deste-me, Ilídio, uma grande alegria azul. Mas, pobre e mal agradecido como sou, quero que, para o ano, me desencantes um papagaio e o pintes de vermelho.

E a menina Eugénia, que não está sentada a esta mesa, e o menino Pedro, que está sentado a esta mesa, façam o favor de se pôr de pé, e trazerem o fio, a guita, para darmos a esse papagaio a altura do que vale a pena, a altura do céu e do sonho.

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No pasa nada

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Uma casa que perde vida é como uma caneta vazia.
Com o uso vem o desgaste e a ausência de tinta.

 

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Mike Ghost

@Mike Ghost, Quarteira, Algarve 2016

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma das coisas que mais gosto na minha vida são as pessoas que fazem parte dela. E tenho a sorte de ter amigos talentosos com’ó raio! O Mike é uma dessas pessoas.

Um fotógrafo que estou a ver acontecer de alma provocadora e um olhar incisivo.

Se Martin Parr tinha Benidorm, Mike Ghost tem Quarteira e o Martim Moniz.

Fiquem atentos porque ele anda por ai!

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Fidel – quem morreu, Dr. Jekyll ou Mr. Hyde?

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Este é o primeiro Fidel. Rebelde, sonhador, preso pelo odioso Batista, a ser interrogado pelos seus carcereiros.

Morreu Fidel. E na morte dele morrem, uma vez mais, o médico e o monstro, Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Que Fidel morreu no dia 25 de Novembro de 2016? O Fidel senhor das montanhas, jovem, ainda pouco barbudo, rebelde, tão loquaz, audacioso que pôs os jovens brancos do Ocidente a sonhar com a revolução, a sonhar que a revolução era uma ilha e, logo, uma ilha tropical, de “guajira, salsa y son”?

Ou morreu ontem o Fidel que, mal tomou o poder, com a branca palavra liberdade ainda no canto dos lábios, fuzilou 500 dos militares que contra ele lutavam, após um descarado simulacro de julgamento, o Fidel megalómano e narcisista, que se achava Don Quijote, verborreico, teatral, criador da DGI, a PIDE cubana, que depois passou a chamar-se DI, tal como a PIDE se passou a chamar DGS, polícia que fez passar pela Villa Marista, em Havana, milhares de aterrorizados cubanos, que sofreram torturas físicas e psicológicas de toda a ordem, como no sombrio passado português se passou pela António Maria Cardoso?

Morreu Fidel, homem que, por um momento fugaz, deu bom nome à utopia e que, depois, lançou sobre Cuba uma ditadura que gerou atraso e um país inteiro incapaz de produzir, uma economia sempre à beira do colapso, para não falar da total ausência de direitos civis e da repressão violenta dos opositores.

Nenhuma morte, nem a de um ditador, pode ser festejada. Mas a verdade histórica não pode também ser escondida. Fidel teve, num primeiro momento, a seu favor, o sonho. E, a História não o esquecerá, a sua governação conseguiu a alfabetização universal da ilha e cuidados de saúde para toda a população. Diga-se também que ele teve, ao longo de décadas, essa cortina de vitimização que foi o estúpido embargo americano e a delirante obsessão da CIA para o assassinar, que conferiu, a El Comandante, asas míticas. Nada disso pode apagar o facto de no dia 25 de Novembro de 2016 ter morrido um ditador.

Leio Francisco Loucã, no Público, e cito: “… manteve um regime de partido único, o que se impôs sempre contra a capacidade de expressão popular e de mobilização democrática, mas, ao contrário da história trágica da URSS e da mortandade de comunistas e opositores que foi a marca de Estaline…” Confesso a minha perplexidade, que figura de estilo é esta? Metáfora ou hipérbato? Metonímia ou paradoxo? Regime que se impôs sempre contra a capacidade de expressão popular e de mobilização democrática? Permitam que me deixe tentar por uma analogia esclarecedora: … Salazar manteve um regime de partido único, o que se impôs sempre contra a capacidade de expressão popular e de mobilização democrática, mas, ao contrário da história trágica do Nazismo e da mortandade de judeus e opositores que foi a marca de Hitler…

A morte de Fidel não fará renascer os 7 mil mortos por fuzilamento, assassinato extra-judicial ou pelas condições das prisões políticas, que contra Fidel se apresentarão no tribunal da História, que o julgará. Não os podemos esquecer, nem podemos, sobretudo à esquerda, se a verdade ainda conta, deixar de dizer os nomes certos, Fidel, o rebelde, combatente do corrupto Fulgêncio Batista, foi, no poder, um ditador e, como todos os ditadores, reprimiu com violência e até à morte os seus adversários, castrando a liberdade artística, religiosa, política, sexual e de informação. Esse ditador, que tomou conta dos últimos 50 anos da sua vida, morreu ontem. O rebelde e o sonho já tinham morrido muito antes.

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O último Fidel, megalómano e narcisista.

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Diário de bordo

planes30 de Julho 2004

Um, Sexta-feira. Milão. Aeroporto de Malpensa. Um lounge cheio de executivos de fato e gravata e agendas carregadas a beber sumos de ananás. Por mim bebia um vodka laranja. Breakfast for champions. Mas vamos com calma. O fim de semana anuncia-se longo e vigoroso. Dois, Volo CO118 para Newark. Direito à casa nova do Pedro em Mid-Town. Mudou de casa hoje para a sessenta e seis com a Madison. Tarde de calor tórrido na city. Carrego com ele caixas e mobília para um terceiro andar sem elevador durante três horas. É de amigo. Um ar condicionado que ronca meio avariado lá em cima. Muito gin tónico e gelo precisa-se. Três, no Sushi Samba, na sétima, janta-se Sushi Fusion. Nova moda abrasileirada. E mais dois vodkas martinis gelados e dois dedos de conversa com uns media types emproados e umas meninas de Brooklyn um bocado menos. Quatro, Webster Hall. Uma batida Drum ‘n’ Bass que me abafa o jet-leg. Pedro onde andas? Perdeu-se no Poisson Rouge quando me deixou ao pé do palco e foi ao bar. Tínhamos passado para a Village e também para o mescal, esse veneno em forma de lagarta. Cinco, um crepúsculo pastoso que me persegue vindo do East River. Estou à procura da Madison, onde anda aquela puta? Era aqui ao lado de central Park não era? A cidade está toda ao contrário caralho. O Pedro que tem a chave e eu aqui sem Pedro. O passeio que ondula. A cabeça que me ficou algures pela noite, numa sargeta da Bowery. Seis, o chão da casa de banho é de mármore e é duro. A luz da manhã nele reflectida queima-me a retina do único olho que consigo abrir. Mais duro que o chão vai ser arrastar-me até uma agência da Avis, alugar um carro e conduzi-lo duzentas milhas até Boston. É verdade. Casa-se o Sandeep. Por isso vim até este lado do charco. E é já daqui a bocado. Para ser preciso às five fucking thirty in the afternoon. O Pedro como que por milagre materializou-se e ressona estendido no sofá da sala. O final da noite de ontem um verdadeiro deserto tártaro. Sete, a Interstate 95, entupida até aos ombros, brilha como um rio de alumínio liquido, fundido a 38 graus centígrados numa atmosfera gasosa a 90% de humidade. Só mais cento e cinquenta milhas e três Red Bulls e tou lá. Oito, duche pré-cerimónia @Holiday Inn. Sentado aos pés da cama e cabelo a pingar. Acendo a televisão, respiro fundo e acaricio com as costas da mão a ressaca que entretanto se colou ao lado direito da fronte. A guerra de ontem em diferido no ecrã. The Surge. Falluhja. Abu Graib. A América em ânsia perante os catastróficos erros geo-políticos de um bando de espásticos. Porra, esqueci-me da merda dos botões de punho. Nove, finíssimo casório Indo-Bostoniano. O Sandeep cheio de cabelos brancos. Vai ficar com mais uns agora que se casou. A noiva é uma WASP de Newton, MA, que conheceu em Hong Kong. Abraçamo-nos como irmãos. Não o via à coisa de cinco anos. Está felicíssimo. Mais Indiano que nunca. Good for you bro! Dez, a festa está brava. Saris coloridos que esvoaçam ao som dos Rolling Stones. Partida de criquet nocturna no relvado em frente ao Country Club. Gravatas na cabeça. Garrafas de Coors espalhadas pela relva. A pontaria dos jogadores decididamente comprometida pelo álcool. A capacidade colectiva de contar pontos, sériamente incapacitada pela inalação de um fumo denso mas terapêutico trazido de São Francisco num saquinho hermético pela Preeti, uma pseudo bailarina prima direita do Sandeep. O Sandeep que atravessa o relvado na minha direcção com uma garrafa de burbon na mão. Maker’s Mark. A nossa marca. Onze, o chão da casa de banho do quarto do Holiday Inn é em linóleo e um bocado mais macio que o mármore da casa de banho do Pedro. A luz do princípio da tarde que nele se esbate mortiça não me acordou. Neste conforto todo acabei por dormir demais. O Volo CO119 de regresso a Milão é ás seis e meia da tarde. 5 horas para Newark. A ressaca de ontem aderiu pegajosa à de anteontem e está agora posicionada sobre o lado esquerdo do córtex frontal. Check out. No Seven Eleven do outro lado da rua não há Red Bull mas um sucedâneo de meio litro chamado Monster imaginado seguramente para a inoculação de bodybuilders caídos em coma. Doze, o trânsito alucinante de Domingo à tarde. The american way of life. Num ziguezague alucinante entre faixas vou descendo a 95 em direcção a NYC. Um stress capaz de me fundir as mãos à baquelite do volante. O carro que deixo abandonado no parque da Avis em Newark com a chave lá dentro. A corrida desenfreada até à gate. Boarding Closed. No way sir. Alternativas precisam-se. Treze, dão-me um lugar apertado entre duas criaturas obesas e ofegantes como rinocerontes no flight BA315 para Londres. Um sono agitado, que não descansa. A cabeça mal apoiada num dobra-endireita torturador. O trem de aterragem a bater na pista com estrondo. 5 horas de viagem. Acumulo ânsia e cansaço. Atrasou. Air traffic controllers strike. Tenho meia hora para chegar à gate do BA281 para Milão. A camisa colada ás costas. Corro pelo Terminal 2 num suor peganhento que me limita os movimentos. O Pedro a dormir desde sexta feira no seu attic da Madison. O Sandeep a caminho das palmeiras de Saint Barts. Catorze, uma chuva morna e cinzenta em Milão. Uma tempestade de Verão que cobre os Alpes. Não sei se são os estofos do táxi ou o taxista mesmo que cheira a alho e a cigarros. Um vómito. Olho para o relógio como o coelho branco da Alice. Oh dear. Chegando a casa tenho de apanhar o Lucas, apanhar outro táxi e regressar ao aeroporto a tempo de apanhar o Voo TP801 para Lisboa. Começa o Verão e os avós portugueses a cobrar a sua dízima anual. Há quinze dias parecera um plano todo ele tão simples. Um bocado esticado disseram-me. Ando há muito nisto respondi. Quinze, uma baby-sitter em lágrimas. “Ninguém me disse nada”. Nada de malas. O cansaço impede-me qualquer tipo de reacção. Roupas e fraldas aleatoriamente num saco e mais o carrinho tudo dentro do porta bagagens do táxi. Dezasseis, mais corrida. Gate closed. Ma per questa volta va bene, Signor Grilo. Embarque. Duas freiras sentadas ao meu lado sorriem-me. Cheiram a freira. Um cheiro doce e enjoativo. Olham enternecidas para os dezasseis meses do Lucas que denso e suado viajará alegremente ao meu colo durante as próximas duas horas e meia. As costas que doem. O duche que não consegui tomar. Uma tonelada de areia debaixo das pálpebras. Dezassete, tripulação, portas em arco. Olho pela janela. A tempestade desta manhã, desceu os Alpes e instalou-se no vale. Pesada, escura e ameaçadora. Levantamos numa inclinação anormal. Cai a noite de repente. Um cumulus cerrado. Dezoito, a turbulência aumenta. O Lucas agita-se. As freiras benzem-se. A hospedeira sentada à minha frente rói o polegar e olha para cima pela janela. E aí, um estrondo abafado. E depois. Depois uma explosão estridente que abana todo o aparelho e o inclina para a direita, depois um salto de uma centena de metros e mais uma guinada para a esquerda. Tenho de agarrar o Lucas que quase me escapa dos braços para se ir colar ao tecto. Levamos dois ou três minutos de voo. O coração acelerado e o suor do Lucas que se colam aos meus. O pânico que se propaga pelo corredor até lá atrás. Dezanove, uma voz nervosa de comandante. Um problema no aparelho. Meia volta de emergência. As palavras cortadas pelas subidas e descidas, acelerações e oscilações laterais. Vinte minutos e o terror instala-se. A tempestade não permite a aterragem. Uma das freiras reza a outra chora. Vinte, vejo carros de bombeiros e uma ambulância na pista. Não vai ser preciso. As preces das minhas irmãs de fila aguentaram o barco durante uma hora e meia lá em cima. Saímos para o autocarro que nos espera na pista. O piloto que nos vem cumprimentar e sossegar. No lugar do nariz, o nosso avião tem um buraco. Do vidro das janelas do cockpit não há vestígio. Fica a promessa de um lugar no primeiro voo da manhã. Vinte e um, amanhã há mais. Regresso a casa do aeroporto pela primeira vez sem horas. Depois da tempestade a bonança. Um jazz suave no rádio de um táxi que cheira a lavanda e pinho. Tudo está bem quando acaba bem. Pela janela do tejadilho vejo um céu estrelado de Verão. Fecho os olhos. Tenho o Lucas ao meu colo. Sei que me observa agora tranquilo com um sorriso nos lábios. Que sem que eu veja se abrem. E nesta paz de espírito em que finalmente me encontro,  sinto o calor do seu vómito que me inunda o peito, me empapa as calças e escorre devagarinho para os perfumados estofos em que me sento . Afinal tudo está bem quando acaba bem.

Louie Austen – “One night in Rio”

”…esta semana uma tempestade de granizo fez um rombo no nariz de um avião da TAP e forçou a aterragem em Milão após hora e meia de pânico. Graças à perícia do piloto não houve uma tragédia.” Correio da Manhã 3 de Agosto 2004

Ler mais em: http://www.cmjornal.pt/portugal/detalhe/aviao-da-tap-forcado-a-aterrar

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Quem matou o homem?

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Gary Cooper acende um cigarro a pensar no amor de um rei por Inês

Foi a secretária que matou o homem. Ali, onde o homem moderno morreu, qualquer Tarzan morria. As políticas de género pós-modernas podem andar a gabar-se, agitando a desenfreada certidão de óbito, mas, digo eu, têm fraco killer instinct. Muito antes de essa subtribo invadir as festas, quartos e camas com o seu sexo sanitário, morango e uma pedra de gelo, já o venerável Freud dissera que sempre que um homem e uma mulher se interpenetram – dedos de cada um dentro de cada qual – são dois homens e duas mulheres que, com sorte, se penetram, qualquer coisa e etcétera.

Sempre foi assim, pareciam dois e era a orgia de quatro, mas agora foi-se embora um; ou seja, com ele foram-se embora dois, confirmaria Freud. Para onde foi esse Gary Cooper, esse John Wayne, mesmo esse Cary Grant que eram o espelho masculino, homens tão homens que até podiam ter uma mulher dentro?

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John Wayne dias depois de ter descoberto o caminho marítimo para a Índia

Eu vi, no óbvio homem-mulher que havia em Humphrey Bogart, o moribundo que já era o homem. O cinismo era o verniz mate com que ele disfarçava a própria morte. Camuflava em esgares a vontade de heroísmo em “Casablanca”, e torturava-o, no estarrecedor “In a Lonely Place”, a surdíssima gentileza que empurrava o escritor que sonhava ser para a desencontrada busca do sublime e do belo, que nem o amor de Gloria Grahame conseguia redimir.

E ainda não falei do relógio. As horas são emasculativas. Das nove às cinco mata a proeminente reverberação matinal. Das nove às cinco matou o cálido amor das quatro da tarde. Já nem um chairman, muito menos um CEO, tem suas as quatro em ponta da tarde. Vejam: mesmo o selvagem jornalista tem agora o permanente rabo sentado à secretária. Lâmina cruel, o relógio é um instrumento usado por cirurgiões especializados na castração compulsiva. É preciso deitar fora o relógio, a secretária e o escritório, como fazia Jean-Paul Belmondo em “Pierrot le fou”, arrastado pela mulher-homem que já foi Anna Karina.

O que é o homem hoje? Cinco tipos que jantam e se escondem na meia dúzia de tristes coisas alarves a escorrerem-lhes da boca para fora? Até John Wayne, lembra-nos Clint Eastwood, teria vergonha. Mesmo Wayne sabia que foi um homem que fez o caminho marítimo para a Índia, que era homem o rei que amou Inês, que um homem pintou “O Nascimento de Vénus” ou a “Adoração dos Magos”. Sem vergonha da natureza, do amor e da arte, ecce homo.

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Não se vê logo, mas este é Humphrey Bogart a ser empurrado por uma surdíssima gentileza

Publicado no Expresso, sábado, dia 19 de Novembro
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Conspiração contra a América *

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Se bem estão lembrados, Franklin Delano Roosevelt foi derrotado na eleição presidencial de 1940 por Charles Lindbergh. O aviador e herói vinha sendo criticado, é certo, pelo seu apoio público e entusiástico ao governo de Hitler. Era um candidato improvável e ninguém o levou demasiado a sério. Mas a verdade é que apareceu de surpresa na convenção Republicana daquele ano e acabou nomeado como candidato do partido. Depois foi o que se viu. Odiado à esquerda, Lindbergh obteve o apoio popular da maioria dos estados do sul e do interior e, contra todas as expectativas, venceu as eleições com relativa limpeza. Daí ao tratado de paz com a Alemanha nazi e com o Japão foi, literalmente, um tirinho. Seguiu-se o que se tinha de seguir. Uma política abertamente racista e anti-semita que culminou num programa forçado de “americanização” dos jovens rapazes judeus. O mundo livre e ocidental acordara, do dia para a noite, para o seu pior pesadelo.

É evidente, caro leitor, que nada disto é o que parece. Isto é Roth e é Roth do melhor. A Conspiração contra a América foi publicado em 2004. Se tivesse sido publicado em 2024 teria ido parar às prateleiras dos romances históricos. Sendo as datas o que são, vão ter de inventar-se prateleiras para os romances proto-históricos.

Tudo isto podia ser uma mera curiosidade. Uma mera casualidade e uma mera coincidência. Mas não é. A grande literatura alimenta-se da realidade. Recalcada, submersa, escondida, inconsciente, paralela. Era Freud que o dizia. Não fui eu que inventei. “Os poetas e os romancistas são aliados preciosos, e o seu testemunho merece a mais alta consideração, porque eles conhecem, entre o céu e a terra, muitas coisas que a nossa sabedoria escolar nem sequer sonha ainda. São, no conhecimento da alma, nossos mestres, que somos homens vulgares, pois bebem de fontes que não se tornaram ainda acessíveis à ciência”.

Roth não é Nostradamus e Lindbergh não foi Trump. Mas Roth é do melhor que a literatura contemporânea tem. E os sinais, submersos e subterrâneos, percebe-se agora com límpida clareza, estavam todos lá. Deles se fez ficção e deles se fez realidade. O escritor foi capaz de lê-los. Foi capaz de reconhecer “entre o céu e a terra, muitas coisas que a nossa sabedoria escolar nem sequer sonha(va) ainda”. Os sinais, meus caros, continuam todos cá. Mas a hora dos escritores acabou. A responsabilidade é agora nossa, homens vulgares. E é sobretudo nossa, europeus vulgares. Sabemos hoje que a América não estava afinal imune aos impulsos populistas atávicos. Mas os americanos só tinham a literatura para os fazer “beber de fontes que não se tornaram ainda acessíveis à ciência”. Nós temos também a história. E temos, portanto, muito menos desculpas.

* Esta crónica foi publicada na Visão em 24.11.16

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Concessões

Personagens: Inês & Carlos
Cenário: Apartamento generoso

Carlos está em casa com um copo de whisky na mão. São  21:30h e o noticiário a fechar.
Inês entra em casa com uns sacos na mão e pousa as chaves.

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Ele- Que história é essa de andares agora no teatro?

Ela- Boa noite! … Eu não ando no teatro.

Ele – Acabei de me cruzar com o Quim, marido da Pituxa, que me disse que agora ao fim da tarde vocês andavam a fazer umas palhaçadas umas com as outras.

Ela – Não percebo o teu tom de voz nem as tuas insinuações.

Ele – Mas andas ou não andas no teatro?

Ela – São aulas de expressão corporal. A Pituxa desafiou-me e andamos ali nos bombeiros.

Ele – Ah! Afinal eu tinha razão. Andas no teatro com as tuas amigas e se calhar também aparecem por lá uns amiguinhos. Olha q’isto …  e eu não tenho uma palavra a dizer?

Ela – Não vamos ter esta conversa outra vez pois não? Tu tens a tua vida eu tenho a minha. Não foi o que combinámos?

Ele –  Mas isso não incluía teatrinhos e chegares a casa a esta hora, três vezes por semana . O jantar nem sequer está na mesa!

Ela – Ah! O que te preocupa não é eu andar nos “teatrinhos” como lhe chamas. É não teres o jantarinho na mesa e aqui a sopeira às tuas ordens.

Ele – Não estejas a desviar a conversa. É ridículo com a tua idade andares metida nessas coisas. A figura triste que vocês devem andar a fazer. Calculo. Até imagino a gentinha dos bombeiros a rirem-se de vocês … de nós.

Ela – Não deves estar bem. Nem deves estar a perceber. Eu não sou mais a tua mulherzinha. Fiz sessenta anos o mês passado e estou a sentir-me viva… viva!!!

Ele – Viva???? Estás-te a sentir viva? E eu? O que é que tu achas que eu tenho andado a sentir desde que os miúdos saíram e desde que ficaste doente?

Ela – A minha doença não é para aqui chamada. Não tenho culpa que os exames fossem caríssimos e que a operação tivesse corrido mal. E mais, não tenho culpa nenhuma que a tua empresa tivesse falido.

Ele – A minha empresa? Falido? A “nossa” empresa não faliu. Este país é que me arrancou a esperança, tirou-me trabalho e desde que estás de baixa parece que a crise arrastou tudo para um buraco sem fundo.

Ela – Vá. Estas a fazer uma tempestade num copo de água. Os miúdos estão bem, não “temos” dívidas e tudo vai melhorar…vais ver.

Após um pequeno silêncio ele atravessa a sala acercando-se dela.

Ele – Estou cheio de fome e não há nada no frigorífico.

Ela – Passei no super, trago uma sopa de feijão que tu gostas e umas empadinhas de pato para aquecer.

Ele passa o braço de forma carinhosa sobre os ombros dela e diz:

– Quer dizer que a partir de agora eu sou o teu Romeu e tu a minha Julieta?

 

 

 

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Vivian Maier

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Desta vez não vou inventar. Não é preciso. Vivian Maier morreu em 2007. Ganhou, desde 1951, a sua vida como nanny, em Nova Iorque e Chicago. Cuidava das crianças dos outros e trazia uma Rolleifelex sempre ao pescoço. Fotografou pessoas. Pessoas na rua. Gostava de lhe ter perguntado porquê. Já a estou a ouvir: “Manel, porque é que o menino respira? Não é para não morrer sufocado?” A mim, nunca ninguém me viu respirar, a ela nunca ninguém lhe viu as fotografias. Ninguém as viu em 83 anos de vida dela, Vivian Maier, filha de mãe francesa e pai austro-húngaro.

Há 4 anos, um agente imobilário, o Senhor John Maloof, decidiu escrever um livro sobre o bairro onde vive. Num leilão comprou uma caixa de negativos. Descobriu, depois, que não eram do seu bairro. Mas ficou de boca aberta com as imagens. Mostrou-as e outras bocas se foram juntando, abertas, à dele. Uma fila de bocas abertas e de olhos comovidos.

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Li tudo isto na Mother Jones. Fiquei a saber que o Senhor Maloof ficou de tal modo apaixonado que foi a leilão comprar não só os 90 mil negativos que Vivian fez, mas também malas com as roupas e os papéis dela. Tem a vida dela em casa. E deixa-nos sentar um bocadinho na sala de visitas.

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Na miséria, Vivian viveu os últimos anos da sua vida sustentada por três pessoas de quem tinha sido a ama. Nenhuma delas sabia da sua paixão pela fotografia. Agora, dizia eu em 2011, já se organizam exposições em Chicago, na Noruega e na Dinamarca: “Viva Vivan” era a promoção nos autocarros de Copenhaga. Em 2016, houve exposições em Espanha (2), na Suécia (2), em Itália, nos EUA (4), em França (3), na Suiça e na Argentina.

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Vivian Maier ela mesma

Tinha um rosto severo. O olhar, se sempre o seu olhar olhava como nas fotografias olha, era de uma ternura discreta. Em 2013,ficou pronto este documentário que vos dou de presente.

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Muros

Amanhã chega às livrarias este livro. Chama-se “Muros”. Não há talvez palavra mais spooky, mais assustadora, mais fantasmagórica, neste tempo em que julgávamos ter um planeta aberto, cosmopolita e ecuménico. Os Muros atravessam a História da humanidade. Constroem-se com pedras e tijolos, mas também com a carne e o sangue de milhões de seres humanos. Não sei se voltaram ou se nunca saíram de ao pé de nós. O meu autor, José Jorge Letria, foi aos confins da História e inventariou os Muros que marcaram séculos e séculos da humanidade que somos. E, com uma presciência notável, viu que os muros estão prontos a ser o nosso futuro – será que, esquecidos de que, como diz Letria, “os muros nunca são lugares de felicidade e de júbilo”, vamos deixar que assim seja? Este é um livro pintado a negro, um livro de pedra, tijolo e cimento, até arame farpado. Um pequeno livro, um grande livro.

china

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