
A carta tinha chegado, incógnita, entre outras. Só ao fim do dia R reparou nela, envelope branco, amarrotado, selo colado um pouco torto, ao canto superior direito. Dentro, palavras escassas, anónimas, sem assinatura: ” F está viva”.
A estranha carta apanhou-o velho, cabelo grisalho, sonolento, a olhar o sol que se punha, junto ao mar, na pequena vila para onde tinha voltado, já sem a memória da felicidade antiga. Tinham sido anos passados, a pele marcava o tempo em rugas e secura, as sombras por baixo dos olhos tinham-se tornado fundas, cinzentas.
Olhou outra vez a carta enrodilhada num papel amarrotado. Expeliu, lentamente, uma baforada de fumo do cigarro.
A esforço recordou F: alta, esbelta, silhueta coroada com uma cabeça de desenho oval, pernas alongadas num corpo curvilíneo, dir-se-ia perfeito. O cabelo loiro, denso e vigoroso, obrigava a que frequentemente passasse a mão pela testa larga e branca, libertando os olhos profundos azuis. Sabia bem que a olhavam, mesmo os homens mais tímidos, sabia bem que a desejavam, em esgares denunciadores de uma vontade mal escondida.
O verão tinha começado cedo esse ano, no terraço de um velho café, R. olhava as pequenas casas brancas junto ao mar de profundeza azul. Sentiu uma sombra que passava, e um cheiro a lavanda colado a uma pele clara. Voltou no dia seguinte e lá estava ela, corpo reclinado, a cara encostada para trás na cadeira comprida, a deixar o sol queimar a pele destapada.
Como uma vaga de mar no inverno, a força da paixão arrebatou-os para um mundo estranho, mas doce. Tudo parecia diferente, os passeios nocturnos pelas pequenas ruas delineadas por casas revestidas em ripas de madeira; as árvores cuidadosamente colocadas sobre os estreitos passeios, as conversas no terraço, nas noites mais frias do outono.
“Parece que estou a ver a terra da lua” disse-lhe um dia F, a vida delineada na amálgama dos corpos unidos, entre lençóis. “E vejo-nos, aos dois, lá em baixo…”
Depois, com a certeza de um dia que acaba, F desapareceu sem deixar rasto.
Foi numa manhã de Agosto, quente e húmida, o céu liso azul, e a maresia a entrar pelo quarto adentro. Durante dias R percorreu cafés e bares, motéis e estalagens, confiante que seria apenas uma brincadeira da bela e impertinente companheira.
Durante anos R percorreu a costa agreste do norte do país, entre as altas montanhas cobertas de neve e as ravinas de terra vermelha que encontram o mar. Coração desolado, uma dor fria, furiosa de amor, enquanto vagueava sem destino as longas estradas solitárias cercadas de altos cedros e densos pinhais. A sua vida tinha-se desmoronado como um castelo de areia na maré que sobe. Não estava preparado, (nunca ninguém está preparado), para a ruptura do amor, de um amor verdadeiro, forte como o dia que nasce.
Não longe dali, no terraço sobre a tarde ensolarada, F sentia distraidamente as copas das árvores que dançavam, livres, com a brisa da tarde. Os olhos passeavam entre o livro aberto levantado sobre os joelhos, e o corpo jovem de J, claro como o seu, ali à sua frente, a ser queimado por um sol violador.
Lembrou-se dos tempos, naquela mesma branca casa, sobre aquele mesmo céu azul, em que nada existia para além de um amor precocemente belo, escondido dos olhares por portadas entreabertas. E da juventude que lhe inundava o corpo. Em J via-se a si mesma, como tinha sido anos antes, sem este cabelo branco, sem este corpo envelhecido.
Baixou os olhos para o livro, não se conseguia concentrar. Sentia R perto.
Imaginou então o que teria mudado na sua vida se tivesse tido a coragem de lhe ter dito, antes de se ter ido embora, que J era, também, sua filha.