A Christmas love story

(Variação a partir de um desvario pueril meu e de uma revelação natalícia do Pedro Norton de outra encarnação blogueira, e, que me desculpem os leitores, com alguma lamechice própria da época)

“Remember no man is a failure who has friends”

Clarence the Angel

Ainda guardava na memória o seu primeiro luto de Natal. Era, mesmo, a recordação mais remota que tinha de si próprio, esse momento em que seu pai, num bem intencionado desabafo, achara por bem cortar pela raiz a ilusão das ilusões. “O Pai Natal não existe”, ouvira ele com a certeza que os seus seis anos de idade já se tinham habituado a reconhecer na voz do seu pai. “O Pai Natal não existe” e todo um universo a desabar a seus pés nos intermináveis segundos de silêncio que se seguiram. A reacção não se fez esperar, tão brutal como a revelação que a precedeu: sem Pai Natal, não haveria Natal. E assim foi durante os três anos que o luto durou. De nada adiantou tentarem demovê-lo com a caridade que se dizia ser própria da época. Sem uma única excepção, passou a rejeitar todos os embrulhos que lhe vinham trazer, como se alguém para além do Pai Natal – o Pai Natal que todos eles, com os seus embrulhos, se tinham encarregado de destruir sem piedade alguma – pudesse fazê-lo.

Ele bem sabia porque lhe ocorriam agora estas recordações de tempos tão longínquos. Já assim tinha sido nos quatro Natais anteriores, ao dirigir-se, longe dela, longe da sua família, para o cinema de bairro onde, invariavelmente, na véspera de Natal, pela meia-noite, passava o filme que acabara com aquele seu primeiro luto. O filme de todos os Natais em família desde os seus nove anos de idade, o filme em que pedira emprestado ao James Stewart o anjo que o salvava a ele do mergulho fatal, e o salvou a si, desde então, do tormento de um futuro sem Natal. Mais uma vez, como nesses quatro Natais anteriores do seu segundo luto, ele saíra de casa com a cabeça nas memórias que o filme lhe evocava, o que era o mesmo do que dizer com a recordação das suas mãos entrelaçadas nas dela, do sorriso dela a invadir-lhe a alma de todas as vezes – já tinha perdido a conta – em que, juntos, de Natal em Natal, sempre pela meia-noite de 24 para 25, tinham acompanhado o James Stewart na sua descida aos infernos e, daí, em todo o seu percurso até à reconciliação final com a vida.

Uma vez mais, ele cumpria o ritual: dois bilhetes, na mesma fila, nos mesmos lugares, e um lugar vazio do seu lado esquerdo, o mesmo que ela ocupara na noite em que, lavada em lágrimas, e tomada, suspeitou ele, pela inquietação de James, lhe dissera, depois da sessão, que tinha de partir. Não sabia por quanto tempo, nem se para sempre, mas tinha de partir.

Durante algum tempo alimentara a esperança do seu regresso. De um Natal sem luto. Se era James a inspiração dela, o James que julgara desistir de tudo antes de lhe aparecer pela frente o anjo Clarence, também ela teria de se cruzar com o seu anjo. Mas os anos foram passando e o luto natalício continuou, o lugar vazio ao seu lado continuou sem ser ocupado. Até ao dia em que se ficou por um único bilhete. Pouco lhe importava já que alguém se sentasse no lugar que, em espírito, a ela era destinado. Bastava-lhe a recordação da sua mão na dela, dos diálogos ditos em uníssono pelos dois enquanto renovavam, a cada sessão, o prazer da descoberta da magia do Natal.

Só que, nesse dia, de tão diferente, tudo foi igual ao que sempre tinha sido. Uma mão procurou a dele e bastou-lhe a mais ínfima partícula de segundo para perceber que era a dela, a mão dela. E quando, duas horas depois, pronunciaram, naquela sintonia tão perfeita que o lugar vazio do lado prometera nos anos de afastamento, o “Merry Christmas” do reencontro de James com a sua família, ele soube finalmente. Soube que, tal como Clarence, um anjo tinha ganho as suas asas. E soube que, tal como James, ela nunca chegara a partir. Afastara-se apenas por momentos a uma distância de algumas filas atrás dele. Foi, disse-lhe depois, a distância que se impôs para ver melhor o que estava bem perto dela. A distância que, sessão após sessão, ela ia encurtando. Desde a última fila até encontrar a sua mão de novo.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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13 respostas a A Christmas love story

  1. O Eco de Umberto diz:

    A christmas love story. A christmas in love story. A story of love in christmas. 3 em 1 é belo presente.

    • Diogo Leote diz:

      Caro Eco, tudo isso e o que nós quisermos. Com “love” tudo se torna possível. Mas lá estou eu a ser lamechas.

  2. Luciana diz:

    Seu texto nos pega pela mão. Amorosamente, se entrega. Deixa essa falta a que chamamos vazio. Só resta: reler.

    • Diogo Leote diz:

      É o que se chama um texto carente. Precisa de mimos. De mimos como os seus. Obrigado por se deixar levar, Luciana.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Isto é uma espécie de ‘Cinema Paraíso’ com final feliz.
    Muito em tempo!

    • Diogo Leote diz:

      E logo eu, António, que sou avesso a finais felizes na ficção. Mas esta é uma excepção – como o seria a do “Cinema Paraíso” – que justifica um desvio à regra.

  4. ~CC~ diz:

    Love story à séria, como pensava que já não se escrevia…
    E ainda assim…ainda nos toca.
    ~CC~

    • Diogo Leote diz:

      Folgo em saber, cara CC, que ainda se deixa tocar por “love stories”. Como dizia (cantava) o Abrunhosa, “a vida são dois dias, e um é para acordar das histórias de encantar”.

  5. Ana Rita Seabra diz:

    Diogo, gostei muito muito !
    Wish you a wonderful 2012. kiss

    • Diogo Leote diz:

      Ainda bem que gostaste, Ana Rita. Merry Christmas e um 2012 com muitos filmes como este (ainda os haverá?).

  6. Pedro Norton diz:

    Diogo: O Tomás gostou muito da sequela. E eu fiquei tão entusiasmado a contar-lha que ia matando o Pai Natal ao Manuel. Felizmente a coisa salvou-se in extremis. Vai haver Natal.

  7. Diogo Leote diz:

    Era mesmo ela, menina Eugénia. A pele, a pele dela, nunca o enganaria. E o solidário Legendary, que também sabe destas coisas do amor, nunca o enganaria. Até porque só actua a 25 na ZDB (como ainda este ano o fará).

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