A culpada e muda nostalgia

o noivado do sepulcro

Confesso duas culpas. Só não sei qual delas é a maior: se a minha responsabilidade nesta alegra campanha em que o país se deprime, se a irreprimível nostalgia por uma sala escura com 1.200 rabos inquietos.

Parte do deficit do país está em duas estantes à minha frente. Devia ter-me jurado não comprar mais de 1.001 “dêvêdês”, mas comprei. Só de filmes. Porque, como o odioso Billy the Kid que não contava mexicanos entre os tipos a quem furava o coração com uma bala, também não conto “dêvêdês” de séries televisivas. A derrapagem descontrolada, a hemorragia orçamental, são bem visíveis na forma como as estantes com filmes foram, como eucaliptos, comendo terreno à floresta dos livros.
Nas minhas estantes, o pai fundador Griffith, os discutíveis irmãos Cohen, a mafiosa obra de Coppola, o conservador Ford a quem a ordem alfabética colou o iconoclasta Godard, empurram séculos de civilização com cega energia. De Platão a Tolstoi, da “Ilíada” aos sete vagamente entumecidos volumes de “Em Busca do Tempo Perdido”, os livros acantonam-se, frágeis, tigres de papel tremendo e temendo as faúlhas de tanta luz, tanta explosão.
E para quê? Os mil e um filmes, de improdutivos, só dão razão à Moody’s, e são mil e uma agulhas de traição que fui espetando no coração do cinema a que jurei fidelidade.
De repente, com a boca a saber a madalenas, lembro-me do Grande Auditório da Gulbenkian na noite em que, 1.200 pessoas a transbordar das cadeiras, balcão e plateia em overbooking, o João Bénard subiu ao palco para apresentar, em sessão dupla, o “Nosferatu” de Murnau e o “Nosferatu” de Herzog.
Parecia o costume, uma sala contente de o ver e ouvir, à espera de imagens e movimento. Veio o escuro e veio a mudez do filme de Murnau, num tempo em que as cinematecas ainda projectavam filmes mudos sem música. A surpresa do total silêncio, para uma plateia sem hábitos desse cinema, sem o hábito dos gestos desmesurados de Max Schreck o mais nosferatu, o mais vampiro actor que algum dia se filmou, fez a sala tossir, pigarrear. Normalmente, abafados pela banda sonora, no cinema não nos ouvimos. Ali, a sala ouvia-se: mexer o rabo na cadeira ouvia-se, engolir ouvia-se, bater as pestanas também. E a sala, nervosa de se ouvir, frente a um ecrã de sombras e silêncio, começou a rir-se. Foram os primeiros 20 minutos de cinema mudo mais memoráveis de que me lembro: até que o filme de Murnau, sinfónico, raptou os risos, as gargantas e os catarros, os rabos inquietos e, dos anos 80 em que estavam, levou os espectadores para os anos 20.
Nenhum DVD me dará a experiência que é o espectáculo de uma sala a render-se a um filme, uma sala a descobrir o sublime em gestos que, sem a confiança da entrega, seriam ridículos, 1.200 pessoas desconhecidas, odiosamente diferentes, com o sangue gelado pela nocturna silhueta de um vampiro que só pode ser vencido pela gloriosa luz da aurora.
1.001 vezes jurei, juro outra vez: não entra nem mais um DVD lá em casa.

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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24 respostas a A culpada e muda nostalgia

  1. Foi como se lá tivesse estado
    ( sem pi-po-cas claro)
    😛

    belo texto

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Com pipocas tenho a impressão de até o Max Schreck se metia de novo no caixão. Thanks lovely Rita

  2. Teresa Conceição diz:

    Manuel,
    por momentos voltei à Cinemateca, bem pregada à cadeira.
    Acho bem que não entre mais nenhum dvd em sua casa, desde que traga alguns para aqui.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Teresa, não leste o memorando da troika? É mesmo um dos pontos chave para a recuperação do país: nem mais um dvd para as colónias!

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Claramente culpado.
    Nunca vi este filme projectado, por isso assisti a ele com banda sonora, o que é diferente.
    Mas levaste-me à sala nas calmas.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      António, se lá tens aparecido e se te sentasses à minha frente não via o filme. Essa é que é essa. Só saltitando na cadeira.

  4. ~CC~ diz:

    Pois, pois…então é assim que vê os filmes da sua vida…confesso que pratico pouco ou quase nada essa visualização de sofá. Se forem filmes que nunca vi no cinema ainda vá….(mas raramente), agora os que vi numa sala de cinema…não consigo mesmo. Mas compreendo…tem 1001?
    ~CC~

  5. Pedro Norton diz:

    Manuel,
    Culpado me confesso. Papei os dois Nosferatus no sofá. E agora fiquei com uma certa inveja dessa noite na Gulbenkian.

  6. Pedro Norton diz:

    Manuel,
    Depois de reler o meu comentário, cheguei à conclusão que a expressão «papei dois Nosferatus no sofá» é…, vá, infeliz. Poupe-me a piadolas fáceis, valeu?

  7. Ruy Vasconcelos diz:

    o subestimado som vem à ribalta neste seu texto. o rito de assistir. e nos empresta ouvir pestanas batendo: o desassossego do público. há uma “fenomenologia” nele que traz á mente um texto de alberto cavalcanti ( http://migre.me/7aMcn). é um apego seu. tocante. confesso, no entanto, não ter tanta nostalgia das salas de exibição — a ñ ser daquelas cuja beleza transcendia o rito de exibição em si — e já haver visto alguns de meus filmes preferidos em casa. primeiro no trambolho do vídeo-cassete. depois em dvd. no regrets. há muitas facilidades: parar, retomar do ponto; ver de novo; interromper em definitivo… uma não pequena é a de poder ver o filme que ‘realmente’ se quer ver. ou rever. também é lástima que muitas das velhas salas por aqui hajam sido compradas pelas igrejas neo-pentecostais. e descaracterizadas.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ruy, também há aí salas abertas como o meu Miramar, de Luanda, ou o meu Flamingo, do Lobito? O cinema tropical, ao ar livre era outra coisa.
      Quanto à nostalgia: eu sou uma Maria vai com as outras. Nostálgico quando penso no escuro, o adolescente encosto do joelho no joelho de Clara. Mas, por outro lado, desfundamentalizo logo quando quero ver, e pára arranca, bordewillizar frame a frame os filmes que me aparecem.

      • Ruy Vasconcelos diz:

        A principal sala daqui é um verdadeiro espetáculo. Chama-se Cine São Luiz e nela há lugar para 1.500 espectadores. Um cine-teatro clássico, com fosso para orquestra, mármores italianos, escadarias, belos lustres confeccionados na República Tcheca, elaboradas cortinas, arabescos e um ar condicionado muito bem calibrado e silencioso. É de 1958. O exibidor Luiz Severiano Ribeiro, que era então o mais importante do país (e é de cá, ainda hoje seu grupo poussui mais de duzentas salas) deu uma caprichada nesta sala em particular, embora houvesse outras quatro no Centro da cidade que eram muito boas: Diogo, Fortaleza, Arte e Ventura. No Fortaleza havia um bar e cabinas para fumantes. De todas essas grandes salas, apenas o imponente Cine São Luiz sobreviveu. Durante anos foi uma dos cinemas mais sofisticadas da América do Sul. E ainda hoje impressiona. De momento, em Fortaleza, há vários multiplex’s disseminados por shoppings gigantescos. São confortáveis e modernos. Há a praticidade de não se quebrar a cabeça para estacionar o carro. Mas não é a mesma coisa. Não conheci cinemas ao ar livre, no entanto. Deve ser pitoresco. Que tal um artigo seu a propósito?

        • Manuel S. Fonseca diz:

          Fiquei invejoso desse seu cine-teatro. Também Lisboa tem o teatro Municipal São Luiz. No mudo, tinha sessões com orquestra e baile num dos salões.

        • Luciana diz:

          Ruy, foi ao Cine São Luiz que meu pai levou minha mãe a passeio pela primeira vez, quando ainda eram só intenções. Não puderam entrar, ele não estava de paletó. Voltaram tempos depois a um filme que tudo que sabem me contar é que tinham índios, muitos, e nus.

          • Ruy Vasconcelos diz:

            É, tinha isso do paletó, né, Luciana? Até a contracultura no fins dos 60, para entrar no São Luiz, só de terno e gravata. Mas, tornando a seus pais, parece que a coisa funcionou… já que eles sequer se lembram do título do filme… E quem sabe a presença desses índios, assim, sumários, tenha positivamente facilitado alguma coisa. O que acho impressionante, sem embargo, é que o próprio Cine São Luiz parecia uma extensão de certos filmes. E, de fato, não perdia por muito nem mesmo para o Theatro José de Alencar, que é de 1910. O São Luiz era cine-teatro, mas não me recordo de nenhum espetáculo teatral levado lá. Era um verdadeiro templo do cinema. Há algumas fotos dele aqui:

            http://bit.ly/trVE1P

            E foi nele que assisti ao primeiro filme em Fortaleza, quando passávamos férias, em 1969 — eu tinha cinco anos. A matiné foi uma sequência de cartoons de Tom & Jerry. Inesquecível! Em Camocim, íamos muito, quase diariamente ao Cine João Veras. Mas era apenas um modesto cinema do interior. Nada se comparava ao São Luiz.

  8. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Caro Manuel,
    Parece-me agora que a maior crise é a da inveja que nos consome sempre que, sentados no sofá de casa ou do amigo da casa, imaginamos os sortudos que conheceram o filme que se começa a desenrolar à nossa frente no grande ecrã e na sala escura.
    Fica a satisfação de há coisa de uns anos ter conseguido (re) ver nesse grande auditório da gulbenkian Johnny Guitar e Através das Oliveiras…
    P.s. Em Providence existe uma pequena sala de cinema ( ou existia já não sei…) onde nos sentamos em enormes e confortáveis sofás…será talvez uma bela ideia para o futuro…o cinema no grande ecrã mas de rabo ( menos inquieto ) no sofá.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Bernardo, sabe que essa sala de Providence só existe porque Mr. Norton ofereceu os sofás. Vai ver que ainda fazemos um cineminha com ele. Logo que ele não vá vestido de Nosferatu ou lá o papão que ele é.

  9. Luciana diz:

    Nasci muito depois dos filmes que iria amar com mais fervor. Vi-os, todos, menores do que são e, ainda assim, imensos. Cobiço todas as salas e sessões que não foram minhas.

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