A multidão por uma galinha

a multidão de Riefenstahl

A multidão é um corpo convulso e intestino. Começa em Londres e acaba em Manchester. Foi há meses, uma multidão de meio-dia e meia-noite.
Se não me engano, os alemães é que sabem. A Riefensthal sabia que não sabia filmar sem uma multidão. Metódica, filmou-as em parada, em patrióticos dispositivos geométricos: de cada multidão, a cineasta favorita de Hitler fazia um exército, o potente triunfo da vontade.
Fritz Lang, alemão desnaturado, era um reaccionário sem fervor. Filmou a exausta multidão de “Metropolis” como uma tropa abúlica e zombie. Para sobressalto do espírito progressista e ordenado de Hitler, em “M”, numa caricatura hostil, Lang converte uma caótica multidão de criminosos num implacável júri justiceiro. Deixou a mulher revolucionária aos revolucionários nazis e fugiu para a América, onde, em “Fury”, mostra que a multidão, entregue a si mesma, é um Cristo crudelíssimo, um Guevara carrasco: ao pé deles, Átila é um menino de coro.

criminosos justiceiros

Com ou sem alemães, no cinema, a multidão foi épica ou trágica. Por vezes vicentina, ainda que ninguém no cinema do mundo saiba quem seja ou foi Gil Vicente.
No “Império do Sol”, Spielberg, o anti-Riefenstahl, segue um miúdo ocidental na imensa China que os japoneses invadem. É um miúdo sozinho encostado à linha de horizonte de uma colina suave. Um burburinho redondo e consistente vem não se sabe donde. O miúdo vai à procura. Com a surpresa e beleza das coisas simples, Spielberg tira do plano o horizonte e oferece a massa compacta de um batalhão de soldados aos olhos do miúdo que era Christian Bale. É a única multidão ex-nihilo que vi nascer num filme.
Cecil B. De Mille tinha o gosto do espectáculo e da realidade do espectáculo: nos “Dez Mandamentos” juntou 14 mil figurantes ao austero Moisés que era Charlton Heston. Parecia-lhe, ainda assim, pouca realidade e mandou vir 15 mil animais. Havia galinhas quando o milagre abriu o Mar Vermelho para a passagem do povo eleito. Meu director nos idos da Cinemateca, Luis de Pina bem me ensinou que pode haver bons filmes sem galinhas, mas filme com galinha é sempre um bom filme.

abre-se o Mar Vermelho

Galinhas incluídas, 14 mil figurantes e 15 mil animais formavam realíssima e cacofónica multidão. Hoje não! Formigas, legiões ou elfos, seja em “Ant Z”, “Gladiador” ou “O Senhor dos Anéis”, a multidão é virtual, uma multiplicação digitalizada.
Em “Matrix Reloaded”, o agente Smith bate-se contra 100 clones seus. Vê-se que não é uma multidão, mas apenas camadas e camadas de ecrãs. A heteronímia de Pessoa seria para aqui muito mal chamada. Esta é uma heteronímia de CGI, como se chama a imagens geradas virtualmente. Não há dor, chocolate ou metafísica numa multidão CGI. Putos ingleses de 14, 15 anos fizeram o mesmo, há meses, nas ruas de Croydon: sms a sms, geraram multidões virtuais, camadas e camadas de ecrãs. Nada de metafísica, muito menos uma galinha.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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12 respostas a A multidão por uma galinha

  1. Pedro Norton diz:

    Genial Manuel! Só não gostei que se tivesse metido com o meu amigo Ernesto. e receio que o Diogo, estimulado por mais estas galinhas (não eram congeladas, pois não?) venha para aqui fazer coisas esquisitas.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Vénia à benção. Sorry pelo Ernesto e temo o pior quando o Diogo aqui chegar.

      • Diogo diz:

        Cheguei, finalmente. Manuel, o Luís Pina sabia bem o que dizia. Terá sido, porventura, uma inspiração para o Reinaldo Moraes. E, visto que li este teu texto (em versão papel, há umas semanas atrás) antes de me atirar ao Pornopopeia, tu terás sido, porventura, uma inspiração no meu subconsciente para a minha bizarra inclinação. Acho bem que te sintas culpado.

  2. Rita V diz:

    Agora vinha mesmo a calhar as galinhas cor de rosa
    e as senhora embaladoras geometricamente alinhadas
    tal qual Rienfensthal

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Sempre considerei a multidão como o animal mais perigoso à superfície da terra, até para si própria.
    Um belo desenrolar de cenas bastamente populosas e animadas para terminar naquilo que é a grande verdade do momento: os múltiplos no cinema são tão imprestáveis como todos os outros múltiplos em qualquer lado.
    As galinhas fazem sempre um vistão, claro.

  4. Teresa Font diz:

    Belo texto, Manuel S. Fonseca. Um gosto de ler, como sempre. Like muito.
    Porém, tenho poréns. É que eu pensava que importante nos filmes eram mulheres fatais e comboios. Em não havendo mulheres fatais, pelo menos comboios. E estações de comboio.
    Afinal são galinhas. Está bem. As multidões já se sabe que são perigosas e cuidados e canja das ditas nunca fizeram mal a ninguém.
    Mas: ‘come galinha, pequena, come galinha’ é que não sei. Parece que me sabe a edredon.

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