A neurose de Marlon Brando

tudo menos neurótico
Os actores são como as cobras: estão sempre a mudar de pele.

Mas alguns, poucos, só têm uma. Com um dramatismo que nenhuma cobra conhece, vivem mal na própria pele. Greta Garbo e Humphrey Bogart são exemplos canónicos. Da pele de actor, Bogart escondeu-se num milhão de whiskies, Garbo em golfadas de solidão.

Às angústias de Garbo e Bogart sucedeu a neurose de Marilyn e Brando. Já não é apenas a pele. Também vivem com desconforto a religião de que são deuses. Marilyn ainda acreditava no cinema como arte. Foram outros, aqueles em que ela buscava caução, a começar no azedo marido escritor, a pôr em dúvida os geniais filmes de Hawks e Wilder em que entrou. Marlon Brando, em matéria de dúvidas, era auto-suficiente. Comparo-o a uma bica dupla, uma bomba de cafeína que não deixa ninguém dormir: duvidava de si e duvidava do cinema.

A Brando guiava-o um puritanismo batido a idealismo salvífico. Via o cinema como guardião do bem e os filmes como uma arma de desenvolvimento moral. Se algum dia tivesse sido o que Brando achava que devia ser, o cinema já teria acabado.

O escritor Truman Capote, que passou com ele noites inteiras a conversar, contou um episódio ilustrativo. No Japão, filmavam “Sayonara” junto a um templo budista. De repente, de uma porta de incenso, irrompe a cabeça rapada de um monge, olhos e boca a sorrirem para pedir a Brando uma fotografia autografada. A frustração estampou-se na cara do actor. Um furioso raciocínio rasgou-lhe o cérebro: para que quereria um monge budista um autógrafo dele? Um monge budista, retirado do mundo, deveria ser puro espírito, uma tosta mista de oração e contemplação. Brando não sabia o que fazer com a alegria fútil do monge, com a aceitação da variedade e vaidade do mundo implícita num pedido de autógrafo.

Se acreditássemos no que disse em entrevistas e no autobiográfico “Songs My Mother Taught Me”, Brando teria apagado a sua personagem de “The Wild One”, teria silenciado os dilacerados gritos de “Hey Stellaaaa!” no “A Streetcar Named Desire” e, no “On The Waterfront”, nunca teria deixado Rod Steiger chorar na famosa cena em que eram pela última vez irmãos.

Brando via-se a si mesmo com o rigor puritano de um Pol Pot, vá lá, um Savonarola. Exterminaria as suas personagens se deixado sozinho com elas. Quando lhe puseram um filme nas mãos, despediu o realizador, Kubrick, e um dos argumentistas, Peckinpah. (“Go fuck yourself”, foi o singelo adeus de Kubrick.)

Brando produziu, meteu mais do que um dedo no argumento e realizou esse pessoalíssimo projecto de que foi protagonista. Pasme-se: não adaptou Shakespeare, Joyce ou Beckett. Fez um simples western, “One Eyed Jacks”. Sem surpresa, era um belo filme, a solitária obra-prima do realizador Marlon Brando.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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8 respostas a A neurose de Marlon Brando

  1. Rita V diz:

    não posso escolher um disco
    mas posso escolher uma cena
    e pôr em ‘repeat’ aos 3:45 ?
    😀

  2. Pedro Marta Santos diz:

    Gosto mais de “One-Eyed Jacks” do que de muitos westerns canónicos, intocáveis. Prefiro-o, de longe, ao “Red River” de Hawks (eu sei, é heresia) ou à série “pessimista” de Anthony Mann com James Stewart. É um filme de mortos, com o sol a queimar tudo, até a água do mar – é verdade, este western tem praia, e ondas, e mentiras na areia. Bem lembrado, doutor.

  3. manuel s. fonseca diz:

    Ilustre cinéfilo, e eu a pensar que não tinhas idade para ter visto estas coisas. Sabes que foi descoberta espontânea, daquelkas “não-culturais”. Gostei que me fartei (da mexicana e da praia também).

  4. Luciana diz:

    eu quero tanto, Eugènia. Para mim e para sair presenteando amigos, que estes já me perguntam: e não tem link hoje? de tanto que ando espalhando tristezas do Manuel por aí.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Eu acho, Eugénia, que devia ter metido uns picles na tosta, só para chatear o Brando… já o livro tem de ser submetido à aprovação da troika…

  6. Também vi o filme quando era bem novinha (na RTP) e gostei muito – aliás gosto de westerns à brava. Era e sou absoluta fã de Brando e cresci a ver também os seus filmes, acho que sei as falas/deixas de On the Waterfront de cor:) Acho que a dupla com Kazan foi por demais marcante. Que bom é ler sobre cinema aqui, revisitar filmes e ícones por alguém sábio na matéria.
    Estive a ler muitos textos agora no blogue e realmente nunca vi uma tristeza assim, que me faça sentir uma alegria dos diabos::))´
    E como sou prof de inglês deliro com as tiradas do Manuel na língua da majestade que não é sua. :::))) Tb revisito filmes no meu blogue às vezes, vou deixar o link de um deles (porque fala do cinema clássico americano)
    http://aefectivamente.blogspot.com/2011/11/outros-filmes_22.html
    Era muito cinéfila até há algs anos atrás, e não tinha pessoal da minha idade para poder falar sobre o cinema de que eu gostava. Era um tempo em que não havia esta coisa triste::::))))) Shame, shame…

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