“Acorda, rapaz acorda”

Quis o destino que Ceni di Peppi (Cimabue ou “cabeça de boi” como haveria de passar à história) tivesse assuntos para tratar na aldeia de Vespignano a uma dúzia de milhas de Florença. O século XIII caminhava a passos largos para o fim. Ambrogio (seria Angiolo? Já ninguém sabe ao certo…) estava sentado no chão. Metros e metros acima do céu, os olhos miúdos perdidos para dentro. Era o único pastor distraído de toda a Toscânia e naquela manhã fresca desenhava, pedra minúscula contra uma rocha imensa, uma das ovelhas que tinha jurado guardar. Oito anitos mal feitos e um génio imenso preso num corpo raquítico de guardador de sonhos.
A história, essa velha rameira, poderia bem acabar por aqui. Cimabue estava com pressa. Queria voltar a Florença nesse dia ainda. Digo eu que divago sobre Vasari. O rebanho poderia ter perseguido a erva mais longe, atrás da colina que vêem além. O rapaz poderia ter adormecido. A chuva que naquele dia haveria de fazer-se bátega poderia ter chegado mais cedo. Vá lá saber-se porquê, quiseram os deuses que assim não fosse. Quiseram os deuses que Ceni encontrasse, naquele tempo tão curto e tão pleno de consequência, todo o tempo do mundo para se comover com uma ovelha gravada na rocha. Quiseram os deuses que o velho Bondone, coração dilacerado, entregasse o filho para que lhe ensinasse o ofício que viria a ser seu. Pastor tão inútil como era incondicional o amor que lhe dedicava o seu sentir de aldeão simples. Quiseram os deuses. Porque não tivessem eles trocado as voltas à puta da história e a pintura teria ficado plana para sempre, a ilusão do espaço nunca teria sido, Bizâncio não teria largado mão da arte ocidental e o mais certo é que o Renascimento não viesse a nascer.
Muitos anos de pois de deixar a sua Vespignano natal, o rapaz já homem feito, não sei se vos disse,  ainda se imaginava despertado pelo beijo sonhado do velho Bondone. “Acorda filho, acorda rapaz, acordo Giotto“.

Giotto. A lamentação de Cristo

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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10 respostas a “Acorda, rapaz acorda”

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Muito bem pastoreada, a Giotto, a sua história, Cardeal: há nela ovelhas aladas a marejar o céu.

    • Pedro Norton diz:

      Merci Maître. Bonita é essa ideia de ovelhas aladas a marejar o céu. Talvez lhes juntasse um reco pintado de nuvem.

  2. O Eco de Umberto diz:

    Foi mesmo assim: a inépcia na arte pastoral deu origem à perícia pictórica. Do medievo para o renascimento, do campo para cidade.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Mas Giotto era um bom rapaz, temente a Deus…
    Porque depois apareceram a Tartarugas Ninja e foi um desassossego – aliás uma marca típica da Renascença. Tenho um texto sobre o assunto, talvez viesse a propósito, mas tenho de importá-lo de Júpiter e adaptá-lo à atmosfera terrestre…

  4. Rita V diz:

    e tão bem contado

  5. Pedro Norton diz:

    Eu também gosto de histórias. Das que foram mas sobretudo das que podiam não ter sido.

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