Agarrado ao azul

Céu a 29 de Dezembro de 2011

Em tempos de medos e expectativas de pobreza, em que se procuram explicações políticas, culturais, e até filosóficas, para o nosso debacle, vale a pena, se calhar, culpar o azul; a nossa heroína. Quem o diz é um agarrado, um agarrado ao azul.

Nesta abençoada costa, onde o sol brilha em média duzentos e vinte dias por ano, vivemos, a maior parte do tempo, sob uma magnífica abóbada azul clarinho, com o mar como seu reflexo. Vivemos sob o efeito do azul e o azul tem poderes; poderes sobre as personalidades, os estados de alma, as disposições e os humores. O azul tem poderes sobre os humanos.

A ciência sabe, a de hoje e a milenar medicina oriental, que a exposição ao azul leva o corpo a segregar grandes quantidades de endorfinas. Dizem os cromoterapeutas que, por ser um libertador de endorfinas, o azul tem efeitos relaxantes e apaziguadores, capazes de eliminar sensações de angústia e perturbações nervosas. Dizem-nos também outros estudiosos que, ao efeito sedativo, o azul junta ainda um efeito anti-séptico, e é usado para aliviar a dor e mal-estar provocado por cortes e queimaduras, podendo ainda ser eficaz no tratamento de doenças da garganta e olhos, hipertensão, insónia, arritmia cardíaca, laringite, amigdalite, papeira, dores de cabeça, situações de choque. É graças às sua propriedades calmantes, dizem-nos ainda, que o azul é a cor mais usada em hospitais.

Eu, que vivo entre o céu e o mar a olhar o azul, sei que o azul é aditivo e capaz de desregular a vida da mais normal das pessoas. O azul é uma droga poderosa, sobretudo o azul da qualidade que temos em Portugal, que nos chega num tom suave, apaziguador e clarinho e dá uma moca relaxante, um ligeiríssimo estado de felicidade e laise faire. Um azul que, uma vez contemplado, nos faz perder toda a noção do tempo, do dever e da responsabilidade. Bastam duas a três semanas deste azul para que o sorriso se fixe, a responsabilidade se arrume, o amor se torne fácil e o sonho se transforme em actividade diurna; mesmo para o mais disciplinado calvinista. E não são poucos os que por cá têm ficado agarrados.

Um amigo do país dos beefs, onde o tecto é tão cinzento como o mar, e que assentou arraiais no Estoril, numa casa de onde se vê a baía de Cascais, o Atlântico e o Tejo, uma overdose de azul, diz que este país não funciona; por isto e por aquilo. Sempre que o vejo, está atarefado a pensar em negócios que faltam fazer e que vai fazer porque são imprescindíveis ser feitos. Há um ano que tem planos, há um ano que nada faz, há um ano que está agarrado ao azul.

Um outro amigo da seita de Calvino, ainda assim humano como nós, vindo do Canadá em visita de negócios, dizia-me que Portugal tinha tudo para se fazerem bons negócios pois podia usufruir-se de uma extraordinária qualidade de vida. Tudo estaria desenhado, por assim dizer, para atrair empreendedores que quisessem cá empreender. Ele próprio fervilhava em ideias e projectos. Dois meses mais tarde voltei a encontrá-lo e a conversa foi a mesma. “Podia fazer-se tanta coisa…” dizia ele numa embaraçante repetição das mesmas observações “…há tanta coisa para fazer.” Já estava agarrado ao azul e por cá continua, de esplanada em esplanada, de livro e sorriso abertos.

No Feng Shui, o azul é a cor do céu e das águas, da verdade, da intuição, do inconsciente, da expansão, da serenidade, da sinceridade, do poder no plano mental e da realização espiritual; simboliza a primavera e a renovação. Não é por acaso que o nosso povo é simpático, diletante, falador, prazenteiro e recebe de braços abertos. Não é por acaso que a nossa maior arte é a mais imóvel e a menos física de todas as artes, a poesia. Não é por acaso que trabalhamos como trabalhamos. Não é por acaso que somos quem somos. É por causa do azul.

Se não quisermos, se quisermos antes ser como os outros, se quisermos antes ser como não somos, então há que começar, já, a pintar o céu. De cinzento.

 

 

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

12 respostas a Agarrado ao azul

  1. Diogo Leote diz:

    Pedro, há uns bons 15 anos, quando já se preparava a Expo 98, o António Pinto Leite escreveu um admirável texto (de que eu perdi o rasto e bem gostaria de recuperar), em que culpava o mar (“Portugal, a culpa é do mar” era o seu título). Segundo ele, o mar era o culpado – tanto dos grandes feitos, só alcançáveis num horizonte a perder de vista, em que o português continuava a ser pródigo, como da mais total incapacidade em realizar o que estava bem à frente dos seus olhos. Nada mudou entretanto, nem nada mudará. É o azul, sempre o azul.

    • Pedro Bidarra diz:

      O mesmo azul, os mesmo problemas e as mesmas pessoas, dão os mesmos textos. Pena não conhecer esse do APL. Gostava de ler.

  2. e só me lembrava do ‘Klein’
    e do Blues
    fui rever um
    ouvir o outro
    Boa!

  3. ~CC~ diz:

    Agarrada ao azul o mais possível 🙂
    Gostei muito do texto azul…e nada de pensar nessas pinturas malditas.
    ~CC~

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Evidentemente o azul! Adoro o azul em TODAS as suas manifestações, turquesa, cobalto, lapis-lazuli, ultramarino, petróleo e até bébé. Depois, a partir do azul fazem-se imensas cores, basta conhecer as boas misturas: castanho, roxo, verde e mesmo um magnífico e profundo cinza matizado.
    Viva o FCP!

  5. manuel s. fonseca diz:

    Pedro, achas que podemos pintar o céu de vermelho? Talvez desse alguma urgência à coisa!

  6. Vasco diz:

    Pedro, regressei hoje ao céu cinza de Milão depois de uma semana inteira de profundo azul. Voltarei ao teu texto daqui a uma semana quando os efeitos relaxantes e apaziguadores de que falas se diluirem…

  7. Teresa Conceição diz:

    Deve ser por isso que nos aparece tantas vezes o passarinho azul.
    Mas se o nosso céu passasse a ser cinzento, ainda nos atulhavam o blog de inscrições…

  8. Pedro Norton diz:

    Feeling blue…

  9. the hidden persuader diz:

    “Cumpriu-se o mar” disse o poeta. Falta cumprir-se o céu e depois, sim, Portugal.

Os comentários estão fechados.