Another Italian piano player

Roberto nasceu prodígio e por ali se ficou. Ele e as oitenta e oito teclas brancas e pretas que se lhe colaram aos dedos para sempre. Foi, durante anos, um dedicado professor de piano de indisciplinadas criancinhas. E depois, de repente, exausto e sem ponta de esperança, decidiu ser piloto de aviões.

E pôs-se a voar. Sempre tocando. Ora num velho teatro de Tirana, ora numa triste escola de música em Istanbul, por vezes no piano abandonado de um escuro bar de hotel e outras, por sorte e rota permitindo, no seu conservatório natal de Nápoles. Enfim, uma vida dura, feita de desenxabidos panini de queijo e fiambre e pautas amarrotadas no fundo de uma mala sempre por desfazer.

Hoje deixou-se de distracções e entregou-se em pleno ao seu incrível talento. No seu olhar doce de napolitano e enquanto toca, continuam a ver-se as nuvens e o vento que nos seus tempos de piloto lhe passavam pela retina, enquanto enfadado e olhando para o outro piloto – o automático – tamborilava os dedos irrequietos pelos painéis de comando do seu Boeing 737 da Alitalia. Por isso, pela amizade que lhe tenho e por tudo aquilo que ainda fará, prefiro-o aqui, em terra, sentado ao piano, tocando para nós.

Roberto Cominati & Sir Simon Rattle  – Rachmaninoff Concerto no. 2

 

Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.
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7 respostas a Another Italian piano player

  1. Rita V diz:

    Conheci um arqtº paisagista brilhante que fez exactamente a mesma escolha e pelos mesmos motivos.
    Agora felizmente é paisagista outra vez … e ocorre-me:
    -Será que ‘voar’ é a árvore das patacas?

    … belo texto

    • Vasco Grilo diz:

      Tenho um bom amigo que é comandante da nossa TAP. É feliz no ar e acho que faz surf a maior parte do tempo em que não voa . Sofre de uma espécie de alergia à solidez da terra, creio.

  2. Luciana diz:

    Levou-me mais longe que em vôo poderia (e como gosto de Robertos!).

  3. O Eco de Umberto diz:

    Afinal é tudo uma questão de como se empurra o ar.

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Dirigir um avião antes de se sentar ao piano parece-me um bom programa. No “The 7 Year Itch” o Billy Wilder põe o vizinho do lado a tocar este Rachmaninov para a Marilyn, esse altíssimo voo.

  5. Vasco Grilo diz:

    É um amigo das arábias. Fui ouvi-lo no Auditórium di Milano numa matiné o mês passado. Está em grande forma. Tocou o concerto nr 2 para piano e orchestra de Beethoven seguido de um encore com Claire De Lune. Um estrondo. Levei os miúdos que ficaram muito impressionados pelo facto de termos ido tomar um copo com ele após o concerto com direito a autógrafos em guardanapos de papel.

  6. António Eça de Queiroz diz:

    Grande história e grande amigo!
    Acho que nunca vi um pianista que não tenha mãos de pianista, suponho que a ginástica deve ajudar.
    O teu amigo confirma bem.
    Parabéns!

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