As árvores-coração

 

Respiram na parede, pulmão de um muro. Em frente, o barco da ilha em cais de chegadas. Cais não cais, vais de partida.

Uma mão lilás as plantou. Viajante chegado com olhos de mundo? Ou ilhéu branco de tão solitário? Quem pinta nunca vive sozinho: é habitado por dentro. Quem habita uma ilha inventa corações para ganhar fôlego?

Árvores-coração avistadas na Ilha do Pico, por tc

 

Fosse como fosse, foi assim: num dia sem âncora, neste muro-cais, desembarcaram sem malas as árvores-coração.  Se dessem fruto, seria o sumo de sangue?

 

Sobre Teresa Conceição

Ainda estou a aprender esta terra de hieróglifos. Tenho na mala livros e remoinhos, mapas e cavalos guerreiros, lupas e lápis de cor: lentos decifradores. Sou nativa de Vadiar, terra-a-terra. Escrever? Ainda não descobri onde fica. Mas parto com bússola e farnel (desconfio que levo excesso de bagagem).
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11 respostas a As árvores-coração

  1. manuel s. fonseca diz:

    Ou são muito anti­gas ou são as árvo­res do futuro.

  2. ou presentes para quem chega do mar

    • Teresa Conceição diz:

      Rita!
      na mouche.
      Para mim foram presentes de espera antes da partida. Demorou tanto o barco que descobri as árvores, escondidas muito pequeninas, num cantinho lá ao longe. Se estivesse a chegar não gastaria tempo a vasculhar o cais.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Que belo avistamento! Nos Açores é só magia, bem gostava de lá voltar.

    • Teresa Conceição diz:

      António,
      para mim, mesmo depois de algumas viagens por mais de metade delas, ainda continuam a ser Ilhas Desconhecidas como as de Raul Brandão, em 1926. Em algumas situações paradas no tempo e, em muitas delas, ainda bem.

  4. Teresa Conceição diz:

    Eugénia, gosto disso. A tinta inspira-me.

  5. Carla L. diz:

    Talvez tenham sido desenhadas pela menina Margarida, de Nemésio, ainda na inocência da infância.

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