Aula Prática de Globalização

 

Mumbai, Janeiro de 2010

Para facilitar chamemos-lhe Balram. A memória já não é o que era e, assim como assim, sempre serve de homenagem ao extraordinário «Tigre Branco» de Aravind Adiga, vencedor do Man Booker Prize de 2008 que me viajava na mala. Para trás tinham já ficado Delhi, Jodhpur, Jaipur e Udaipur. Ainda faltavam Goa, Cochim, Kerala e todo o Tamil Nadu. E tanto que haveria para contar sobre os encantos perdidos do Tamil Nadu. Mas não há tempo nem espaço para mais divagações. Eu tinha chegado a Mumbai de manhã e o meu avião saía por volta da meia-noite. Tinha um longo e pastoso dia pela frente e nenhum hotel onde cair morto. «Todo vestido bonitinho e sem nenhum lugar para ir, todo vestido bonitinho e não tenho onde cair» diriam os Blitz. Adiante que divago outra vez e essa é outra história, esse é outro continente.

Convenhamos que não é todos os dias que se passa por Mumbai e eu não fazia qualquer tenção de passar vinte horas no aeroporto. A solução acabou por impor-se com toda a naturalidade. A solução acabou por ser Balram que contratei, entre dezenas de taxistas solícitos, para me guiar durante todo o dia. A cidade, sabem-no já, é gigantesca, caótica, fascinante de tão absurda. O trânsito, frenético. Há gralhas por todo o lado. Ou serão corvos? Ao fim de meia dúzia de horas, com as portas da índia e os restos do tiroteio no Taj no bucho, Balram era já, para todos os efeitos, um amigo e um velho conhecido. Senhor de um sorriso afável, trato irrepreensível, trinta e poucos anos, casado, pai de uma criança de seis, vivia desde sempre em Mumbai, princípio e fim do seu universo. Não sei ao certo como é que a conversa foi ali parar. Devo ter-lhe perguntado pelo filho. Talvez tivesse já afogado em saudades do meu. Eram, afinal de contas, seis anos tão iguais e tão distantes. Deve ter-me respondido que não o via há seis meses. «Seis meses? Mas ele não vive consigo?». Viver, vivia. Mas durante a «high season» Balram não se dava ao luxo de atravessar a cidade para ir dormir a casa. Bem vê que eram duas ou três horas no trânsito. Bem vê que não podia perder uma corrida. Bem vê que o táxi fazia perfeitamente as vezes de lar. O sorriso, sempre o sorriso, não o deixava mentir. Seis meses. A guiar sem parar, passando de fugida pelas brasas, dormindo num ápice, entre um freguês e o próximo. Sem desfalecer. Sem queixumes. Seis meses.

Acho que foi naquele dia interminável e sufocante de Mumbai que percebi de vez que tudo isto não ia dar coisa boa. Qual Economist, qual carapuça. Não há nada como uma aula prática de globalização. Balram (sobre)vive a uma dúzia de horas de Lisboa. Dispensou metade da infância do filho para juntar mais umas rupias. Vá lá saber-se para que lhe servem. Nem por isso perde o sorriso, nem por isso deixa de respirar optimismo, nem por isso esconde o orgulho. «A vida é muito melhor agora».

Na minha cidade, tão longe e tão perto, trabalhamos quarenta horas por semana e os sindicatos chamam «trabalho escravo» ao aumento de meia hora de trabalho diário proposto pelo governo. Alguma coisa não bate certo. Cá como lá. A coisa não pode acabar bem. A coisa não vai acabar bem. Cá mais do que lá.

Publicado na Visão em 15.12.2011

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.

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23 respostas a Aula Prática de Globalização

  1. O Eco de Umberto diz:

    Desde que Bombaim passou a Mumbai que nunca mais foi a mesma. Cá para mim estamos os dois quilhados: ele porque demais, nós porque de menos. E nem há meio termo para ver onde fica a virtude.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Será que pode haver um compromisso?
    Podemos nós esperar sem crescer, em contenção, a mirrar só um bocadinho, ano a ano,esperar e esperar, até que Balram reivindique a casa, o filho e uma hora de playstation com o filho, rejeitando o taxi como lar?
    Pode Balram ter sequer o taxi se, sem Paris, Londres, Frankfurt, Zurich, os aviões forem tão raros no aeroporto de Mumbai que já tão poucos desçam e longamente esperem antes de partri?

    • Pedro Norton diz:

      Não sei onde se traçará o compromisso, caro Mestre. Mas parece-me tão absurda a guerra da meia hora como é chocante o sacrifício de Balram.

  3. Maria João Cabrita diz:

    A importância de cada coisa só nos é revelada quando confrontada com outra, pior, mais dura!

  4. Rita V diz:

    … ai não vai não …
    e se calhar ainda bem!

  5. Teresa Conceição diz:

    Pedro,
    obrigada pela viagem, sempre grande sala de aulas.
    Na Índia, e a Oriente, parece que quanto mais humilde maior o mestre. Mesmo que o único livro possível seja o sorriso que nos emudece.

  6. Vasco Grilo diz:

    Que saudades que eu tinha de tudo isto. E agora abriu-se o apetite para mais Índia.
    Abraço!

  7. António Eça de Queiroz diz:

    Olá Pedro!
    A coisa já não está a ir bem e vai para muito pior – lá, cá e em toda a parte. E as razões, de níveis diferentes, enfocam por fim num mesmo núcleo. Não se trata do que achamos bom ou mau ou razoável, mas do que é – sem direito a opinar. E o que é, a diferença, o absurdo das distâncias, nunca foi visível como hoje. Um argumento com ar de rastilho, já testado no Médio Oriente com resultados eloquentes.

  8. Ruy Vasconcelos diz:

    bela crônica!

  9. Diogo Leote diz:

    Pedro, apanhaste-me em cheio a reflectir sobre as virtualidades do novo regime do chamado “trabalho escravo”. Não tanto pela meia-hora diária – que, mais minuto menos minuto, e mais ou menos descaradamente, quase todas as empresas do sector privado (pelo menos na área dos serviços) já praticam, mas pela possibilidade que abre de tais acréscimos diários serem acumulados para serem gozados, de uma só vez, a um dia de descanso não obrigatório (com o acordo do trabalhador, é certo, mas veremos se o trabalhador terá alguma outra alternativa que não a de aceitar o acordo que lhe é imposto). Mas o que está a passar ao lado dos sindicatos, sobretudo, é a garantia que tal regime vem oferecer aos trabalhadores afectados: justamente a da salvaguarda dos seus próprios postos de trabalho, pois que as empresas que queiram beneficiar do regime não poderão, enquanto ele durar, despedir quem quer que seja, nem sequer (segundo parece, pois a lei ainda não foi publicada) negociar acordos de cessação de contratos de trabalho.
    Mas, visto que já me estendi demais, deixa-me dizer-te o essencial: o teu excelente texto deveria ser leitura obrigatória para a reflexão que urge fazer (não só, nem sobretudo, pelos chamados “parceiros sociais”) sobre a necessidade e o sentido da reforma da legislação laboral no nosso país. Pela parte que toca à minha ínfima quota parte de reflexão, desde já te agradeço.

  10. Pedro Norton diz:

    Olha, olha, as saudades que eu já tinha dos seus comentários! Obrigado.

  11. Pedro Norton diz:

    Diogo,
    O problema é que todo este nosso modelo é insustentável. E não é a meia hora que vai servir para separar o fosso entre dois mundos tão diferentes e tão próximos. Não estou a defender que assim deva ser. Estou a constatar, como diz o António mais acima, que «é o que é».
    Abraço.

  12. Fausto L. C diz:

    Caro Pedro,

    Desejo aos mortos uma vida triste mas (já agora) mais longa. Se possível, sempre a escrever. Confesso-te que gostei do teu texto mas não sei é que é que fico. Retenho a passagem “Sem des­fa­le­cer. Sem quei­xu­mes”. Fazendo o respectivo paralelo, até no queixume, algo tão nosso, somos pouco competentes quer seja por falta de timing quer seja por falta de informação. O queixume de hoje não é um queixume, é um acto de tristeza. E a tristeza essa sim, é perigosa mas justificável.

    Abraço,

  13. Destesto concordar consigo, Pedro. Neste assunto, pelo menos; noutros serei homem de amplos e fartos consensos. Mas aqui dói admitir que é assim, de facto assim.

    Diz-se que a felicidade é não mais que o diferencial entre a expectativa e a realidade. E talvez tenham razão. Fomos vítimas do esquema que montámos para nós mesmos. Fomos vítimas dos fazedores de promessas, dos vendilhões de futuros. Ou fomos, apenas, vítimas de nós mesmos e de uma ânsia de crer nessas promessas.

    E agora, que já ninguém acredita em promessas, não conseguimos ainda assim reduzir a expectativa a, simplesmente, viver.

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