Checkerboard Lounge

Nunca soube bem porquê mas fui sempre atraído pela música e pelos cantos lamuriosos negros nascidos no Sul dos Estados Unidos. Qual hino de sereia, fui sendo conquistado pelos acordes simples, as vozes ásperas, melodicamente cansadas, as frases musicais repetidas, os solos de guitarra acompanhados por leves sopros.

Uma música curvada com o peso do trabalho no campo, conservada no dourado líquido que perfurava o fígado mas libertava a mente de quem se prestava a ouvir.

Muito antes de conhecer as margens do grande Mississipi, desenhadas em curvas sinuosas, e os pântanos de New Orleans, cobertos de musgos e ciprestes, já me deliciava com a beleza, lânguida, profunda e triste, das melodias espirituais que ecoavam nas velhas igrejas revestidas de madeira, e nos campos de algodão do Louisianna.

Mais tarde foi a experiência em Chicago, numa noite de calor e humidade em que se suava dos joelhos, a confirmar a paixão por essa música. Que entretanto e após longos anos tinha feito o seu próprio caminho e subido o rio, fixando-se na grande capital do “midwest”.

O bar, porque o Blues deve ser sempre ouvido em bares, era o famoso Checkerboard Lounge, no South Side, bairro negro que tinha fama de perigoso para gente de tez de pele clara. Mas isso era um pormenor que não nos preocupava.

Buddy Guy exímio guitarrista de Muddy Waters (podemos vê-lo no documentário de Scorsese “Shine a Light” retratando o concerto dos Rolling Stones em 2006 no Beacon Theater em Nova York), tinha aberto o espaço em 1972, e desde aí que passou a ser paragem obrigatória para todos os amantes do “chicago” Blues.

Pela “catedral” tinham passado entre outros Willie Dixon, Sonny Boy Williamnson, Lighnting Hopkins. E claro o grande Muddy Waters, e os três kings ( B.B., Albert e Freddie).

Uma porta escura no meio de outras tantas, arrumadas ao longo da rua semi deserta e mal iluminada na noite já avançada. As restantes casas de dois e três andares, marcadas pela rude passagem dos tempos, sempre mais sentida nas raças de cor escura. Caixotes de lixo desarrumados, sebes metálicas a cair.

A porta que se abre e logo a música nos encobre como se fosse um manto. À entrada, uma moldura quadrada na parede pouco iluminada com o título “Father and sons”. Muddy Waters com Keith Richards e Ron Wood . No ar, atravessando a neblina de fumo e calor, os acordes de “Sweet Home Chicago”, hino negro à cidade do vento.

A sala mais parece uma enorme garagem, mas transpira um Blues genuíno. Bancos de madeira, tecto baixo, bar lateral com balcão corrido. Somos os únicos brancos esta noite, ou pelo menos parece.

A música enche o espaço, o espaço transformado pelo som. Este mistura-se com o fumo do cigarro, com as vozes que tagarelam, o tiritar de copos, os cabelos que dançam, os corpos que chocam. Sente-se um verdadeiro bambolear comum: “ it is not the size of the boat  it is the motion of the ocean.”

O Blues é mesmo isto, um sentimento.

E é negro. A nós cabia-nos sorver as melodias e os uivos nascidos da terra e elevados ao céu. Até porque a arte de dançar o Blues não está aberta a todos: “what’s the matter man? Can’t you move your body?” …e eu a achar que estava a dançar bem…

A noite avança com o ar mais pesado e um slow blues que se arrasta em solos de uma  guitarra pura que chora qualquer amor perdido. O álcool escorrega como lágrimas, entre sorrisos. Derretemos como pedras de gelo.

O blues é mesmo isso, uma forma de viver a vida espreitando aqui e ali um céu de anjos negros.

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência.

Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra.

Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data.

A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach.

De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro.
A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.

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24 respostas a Checkerboard Lounge

  1. bernardo diz:

    Olá Eugénia,

    Não perdoo porque não há mesmo nada a perdoar…agradeço isso sim o seu texto que me faz sentir menos só num mundo muito pop, como tão bem descreveu…E concordo que há que descobrir novos sons em tanta musica boa que se faz agora, eu vou começar por ouvir uma das suas sugestões por (ainda) não conhecer …Sea­sick Steve…até breve

  2. O Eco de Umberto diz:

    Aqui que ninguém nos ouve: Blues mesmo, só em Chicago, desde que depois da guerra os libertos foram subindo o Mississippi até onde havia mais trabalho. E não há nada como uma noite de Blues no Kingston Mines, mas este é todo finaço, no north side. Um post deste até dá fome…Vou já ali ouvir a Patricia Barber.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Caro Eco,
      Notei que nas descrições dos nomes de alguns dos protagonistas desta saga “blusistica” nao referenciei nenhum nome feminino…a Patricia Barber é um grande nome que se associa a Chicago e trouxe memórias da sua quente voz no frio cortante da cidade. Obrigado pela sugestão…

  3. Ana Rita Seabra diz:

    Leva-me a esse Sul, cheio de sons, ritmos e vozes que se entranham dentro das nossas almas e corpos dançantes!
    Beijos

  4. teresa conceição diz:

    Bernardo,
    que bem me soube esta viagem, cheia de recantos e vozes fundas.
    Rima bem com a nossa blue blog girl, singing & writing the blues.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Teresa, se conseguir despertar esse sentido de viagem já fico bastante satisfeito…a blue blog girl & writing the blues lembra-me o hino de Janis Joplin “little girl blue”…que me arrepia sempre que a oiço…e as palavras são como cerejas e já estou a viajar outra vez…obrigado e até breve

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    i’m moving my body… (acho eu!)

  6. Alexandre de Castro Nunes diz:

    Mas que texto fantástico! Que descrição acertiva do Blues…Blues é isso mesmo!!!
    Obrigado Bernardo!
    Um abraço

    Ps: Tens de levar a Ana Rita…

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Caro Alexandre obrigado pelo entusiasmo, vamos caminhando e deixando que a música nos leve…até breve.

  7. Diogo Leote diz:

    Bernardo, não estive lá mas, depois de te ler, é como se tivesse estado. Até o fumo inalei. Mérito de grande arquitecto – dos espaços e… da escrita.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Grande doutor…espero que não tenhas ficado de ressaca…obrigado pelo comentário e vamos “blogando”…

  8. Fausto L. C diz:

    Caro Bernardo,

    Excelente. Obrigado pela viagem e parabéns pelo texto. Concordo consigo, no entanto, decidi “hideaway” nos Blues Breakers de John Mayall com participação de Eric Clapton só para o “provocar” um bocadinho e dizer-lhe que no céu blue também existe anjos brancos! E Eric C. também empresta à sonoridade da guitarra algum (essencial) sofrimento.

    Abraço,
    F.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Caro Fausto,
      Mas claro que sim!!! John mayall é uma grnade referência até porque gosto muito do Mick Taylor na guitarra…A lista é enorme…dos Stones ao “since I ‘ ve been loving you” dos zeppelin, felizmente o blues infiltrou-se e foi crescendo…a ver a caixa de 8 DVDs orientada pelo Martin Scorsese sobre o BLUES…
      Até breve

      • Rita V diz:

        eh eh eh
        eu tenho
        😛

        ( sorry Mr. Fausto 4 barging in)

        • Fausto L. C diz:

          Olá Rita V., no problem whatsoever!
          Bernardo e o que me diz da dupla Ali Farka Toure e Ry Cooder? Blues e Mali que mistura! abraço e boas festas.

          F.

          • Bernardo Vaz Pinto diz:

            Conheço melhor o Ry Cooder, mas vou voltar a ouvir com o Ali Farka Toure …também não tenho….

      • Pedro Norton diz:

        e o primeiro concerto da minha vida foi o john mayall no pavilhão do belenenses. estava lá o mick taylor e estavas lá tu.

  9. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Eugénia,
    Maravilhoso !já ontem tinha andado a vasculhar…mas este ” standart” até alegra os moribundos…
    reparei que não mencionei os grandes nomes femininos, mas a Eugénia colmatou em parte essa minha falha…obrigado mais uma vez…

  10. Rita V diz:

    É bom ser guiada assim,
    com pequenas palavras,
    descobrir o todo e pensar:
    – Realmente , porque é que não gosto de Blues?
    Não sei.
    Mas passei a gostar um bocadinho.
    😛
    Obrigada
    great sensations

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Rita,
      Vamos ter de tratar disso… É que o blues está em todo o lado…
      mas ninguém é obrigado, que isto de ser à força lembra outros tempos e outras idades…
      Até breve,

  11. António Eça de Queiroz diz:

    Magnífico transporte!
    Sempre gostei de blues mas não sou expert – aliás, não sou expert em coisa nenhuma. E além da Janis, que também me arrepia nesse mesmo ‘little girl’, lembrei-me de algo muito periférico mas, para mim, extraordinariamente blue: Mamma Rose, do Archie Shep

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Caro António,
      O Archie Shep é um monstro sempre bem vindo… E o Jazz um irmão querido. O blues também não tem nada de “expert”…é uma questão de sentir..parafraseando o poeta ” sinta quem ouve…”. Até breve.

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