Convite para jantar

Estacionar o Audi e esvaziar o bolso para dentro de um parquímetro esfomeado. Subir um elevador de ferro forjado onde subsiste ainda o rasto de uma fresca bavaroise de ananás que acabou de subir. Uma porta jovial que se abre com um jazz morno e uma gargalhada – Ciao! – giríssima a dona da casa. O monte espesso de casacos sobre o sofá adamascado do escritório. O nervosismo saudável da entrada em cena. Um salão de dentes brancos e sorridentes, agrupados por grau de influência e liquidez de meios. Gravatas sóbrias, trapos de marca e finas fragrâncias. Uma criança loira de pijama a empanturrar-se de tapas de queijo. Um copo na mão. Um Riesling fresco aroma maçã. Fumadores quase extintos que tiritam na varanda. Conhecer ou reconhecer toda a gente na esperança inútil de vislumbrar uma cara nova que seja. Saber de antemão conversas e respostas e adivinhar sem particular emoção o que se vai jantar. Aqui fica a banqueira emergente. Ali o advogado da baixa finança. À sua direita a jornalista das poucas palavras. Ao meu lado aquele advogado com pouco cabelo. A crise, os colégios, o esqui, as colheitas de 2006, o último romance do Houellebecq, talvez, com alguma sorte. Tudo com a ligeireza de uma bigorna de chumbo.

Ah! Mas para onde foram aqueles outros tempos? Sim, aqueles tempos das caves bafientas e da cerveja barata. Das miúdas sisudas de preto e dos maus amigos do fumo. Das noites de aço e das manhãs de fino cristal. Mas sobretudo, meus amigos, para onde foram aquelas caravelas voadoras que outrora se dignavam a velejar comigo, paredes acima, em direcção a sabe-se lá o quê?

Requiem for a scene – Brasstronaut 2010

PS: A bavaroise de ananás não estava suficientemente fresca para o meu gosto.

Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.
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23 respostas a Convite para jantar

  1. Teresa Conceição diz:

    Vasco,
    bela cave bafienta que é de todos nós.
    Se calhar são os encontros mais sem graça que nos devolvem os tempos que mais a tinham. Quando crescemos, perdemo-nos de todas as caravelas que lançámos?

  2. A diz:

    Fiquei quase deprimida… é para aí que nos dirigimos todos? porra que me deu uma saudade de Coimbra, da states e das caves e das músicas e daqueles jantares… e sempre fui uma das miúdas de preto… mas ainda navego nalgumas caravelas 🙂

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Gostei de tudo, e dessas caves com caravelas nem se fala.

  4. Teresa Font diz:

    Gostei muito, Vasco.
    Os dois sinais que primeiro me deram na vida a suspeita de que o tempo passava mesmo foram:
    1º – Constatar que os protagonistas dos filmes eram todos mais novos do que eu.
    2º – Estar de copo na mão no meio de uma sala a ter saudades do ‘splendour in the grass’ das tais caves.
    PS – Pois. O raio da bavaroise já não é grande coisa.

    • Vasco diz:

      E uma dessas minhas caves antigas era no meio de um pinhal à beira mar numa terra com nome de santo. Talvez um dia aqui a traga. Ou talvez tu o queira fazer.

  5. manuel s. fonseca diz:

    Vasco, vou ter muita, mas mesmo muita dificuldade em aceitar convites para jantar nos tempos mais próximos. Muito bom.

  6. O Eco de Umberto diz:

    Chama-se a isso envelhecer – e menos mal nesse caso/cenário tão bem descrito. Porque se não fosse assim, seria um jantar de funcionário camarários num apartamento de odivelas.

  7. Diogo Leote diz:

    Vasco, gostei muito de conhecer os Brasstronaut. Até imaginei o Beirut/Zach Condon a acompanhá-los. Que isto seja o lado bom dos ventos de crise, devolver-nos às caves sórdidas doutros tempos.

    • Vasco diz:

      O regresso aos basic fundamentals. Inteiramente de acordo Diogo.

      PS: Procura uma App para o iPad chamada Aweditorium. Music at your fingertips like never before.
      Abraço

  8. Micha diz:

    “Das noi­tes de aço e das manhãs de fino cris­tal”…. cheira-me o primeiro episodio de uma grande serie!

  9. Sofia roque diz:

    Gosto muito de ler estes teus textos tristes. Apetece me um segundo capitulo deste convite para jantar. A musica e linda!
    Bj

    • Vasco diz:

      Sofia, ainda bem que gostas. Fica o desafio de mais capítulos.
      bj
      PS: E essa viagem pelo wild west? Ainda por aí andas?

  10. Vasco diz:

    Eu como não me lembro de muita coisa do futuro, vou imaginando o passado para poder estar mais seguro do meu ténue presente. Mas isso também já a Eugénia sabe…

  11. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Por momentos, e pela maravilhosa prosa corrida, pensei que estava a ver a cena no cinema…depois senti-a um pouco mais perto e tive a estranha sensação de parecer conhecer qualquer detalhe familiar…mas não era a baravoise…Talvez me enfie numa cave durante uns dias…

  12. Pedro Dominguez diz:

    Recuei 20 anos e gostei…
    Encontramo-nos numa cave perto de nós.
    Abraço

  13. Pedro Bretes diz:

    Musica e vídeo ajustaram-se com o texto, muito bom (muito mau) 😉

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