David

É uma paixão antiga que se tornou uma obsessão recente, talvez pelos tempos que atravessamos, e por isso peço desculpa àqueles que já me ouviram falar ou leram outras coisas que escrevi sobre o assunto. Mas eu, que sou ateu até ver, sou devoto do David do Michelangelo. Da estátua.

A estória da estátua é gloriosa. Tão gloriosa como a própria estória de David que vale a pena lembrar a todos os que não têm lido o Livro ultimamente.

David, pastor e harpista, acompanhava o rei Saul que era dado a depressões que só acalmavam com uns acordes de harpa. Durante a guerra com os filisteus, foi proposto por estes, ao rei Saul, que se resolvesse tudo com um combate entre os “campeões” de cada lado; para evitar mais mortes e despesa. Do lado dos filisteus, o gigante Golias, do outro… ninguém. Todos os guerreiros judeus tiveram medo o que muito envergonhou o franzino harpista que resolveu chegar-se à frente. Como nem a armadura que o rei lhe emprestou servia, David apresentou-se no combate em pêlo. Depois, armado de uma funda, derrubou o gigante Golias com uma pedra e cortou-lhe a cabeça.

Antes de Michelangelo foram esculpidos Davids com fartura. Depois dele mais nenhum digno de nota. Foi o David definitivo porque foi um David contra a banalidade e a favor da eternidade. Até então as estátuas celebravam a vitória e por isso se mostrava a cabeça cortada do Golias e um David triunfante. Era essa a norma, o que o cliente esperava, e o artista banal fazia o que era normal. Miguelangelo fez, pela primeira vez, o David antes da batalha, a desafiar o gigante e assim esculpiu a diferença. E não foi uma pequena diferença, foi uma grande, uma enorme diferença. Um David gigante, de cinco metros de altura liberto de um bloco de mármore difícil de trabalhar e que ninguém queria. Foi a primeira vez que o David foi representado como o verdadeiro gigante.

O David do Michelangelo, que só tinha vinte e seis anos na altura, tem sido uma inspiração para mim desde a primeira vez que o vi em Florença. Um bloco de mármore intrabalhável, uma tradição de Davids banais que todos esperavam ver replicada deu, apesar de tudo, a mais bela estátua da renascença, o David definitivo.

E, como se já não fosse possível surpreender-me mais com esta estátua, eis que dou de caras com o Digital Michelangelo Project de Standford. Um projecto que se dedicou a digitalizar todas as estátuas do Michelangelo e que revelou um novo ângulo do David, um ângulo nunca visto. Nunca, até agora e por causa da localização da estátua, tinha sido possível olhar-la de cima para baixo, na direcção do olhar do David i.e. do ponto de vista do gigante, Golias. Mas agora é possível. E o que se revela é, mais uma vez, o imenso o génio de Michelangelo.

O que vemos? Vemos o que o gigante Golias viu: um David pequeno, magro e sem músculo. Não vemos a pedra, que ele esconde atrás da perna, mas vemos o olhar desafiador. A mesma estátua: vista por nós, meros mortais, um gigante, um exemplo, uma inspiração; vista pelo bully, apenas um rapazinho magro, sem músculo e sem armas, um mero mortal.

Muitas vezes tudo o que está à volta parece-me gigantesco, incontrolável e avassalador. Muitas vezes sinto-me pequeno. Nessas alturas lembro-me do David: o da Bíblia e o do Michelangelo. Do primeiro lembro-me que o que é maior que nós se resolve à pedrada; do segundo lembro-me que o que é impossível se resolve criativamente. Em qualquer caso sendo David.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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7 respostas a David

  1. Rita V diz:

    uma inspiração!

  2. teresa conceição diz:

    Que belo texto, Pedro!
    A iluminar o trabalho do mestre sob vários novos ângulos (para mim, pelo menos). A mostrar que este David, mesmo definitivo, nunca é definitivo enquanto sobre ele surgirem novos focos de luz. E com uma conclusão redentora. (E como é que tenho andado sempre tão esquecida da pedra?)

  3. Pedro Norton diz:

    Já tinha tido o privilégio de te ouvir falar sobre este tema mas foi bom reencontrar está história de gigantes. Do bloco intrabalhável disse um dia Michelangelo: o David sempre esteve lá dentro. Limitei-me a tirar o que estava a mais. É toda uma diferença.

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Nunca vi o David ao vivo. Agora já o vislumbrei, saído do tal bloco de mármore que ninguém queria.

  5. manuel s. fonseca diz:

    Bem vindo à tertúlia, PB. Encheu-nos a sala com o David e vai livrar-nos de muitos trabalhos (ou arranjar-nos uma caraga deles) com as suas duas lições: já tenho as pedras, não sei onde desencante a criatividade.

  6. Pedro, que bela lição nos dá através do David: pedras para o que é maior, critividade para o que é impossível. Eu que sempre lamentei não poder olhar de Golias, deixei de o fazer com este seu texto. Obrigada.

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