Diabo de Natal

 

Que dizer?

Bem, talvez que até para mim foi uma grande surpresa descobrir esta personagem de época tão aparentemente deslocada. Embora seja avisado aceitar que, a existir, o Diabo poderá entender as correntes festividades como excelente coutada para as suas melhores (ou piores) tratantices.
Encontrei este abeto terrível (variedade chinesa, caramba!) no meu insuspeito Patrice de La Tour du Pin, num pequeno livro ilustrado com desenhos de Jacques Ferrand: deux sylviculteurs de l’imaginaire produziram a meias o intrigante Pépinière de sapins de Nöel  que aqui vos trago.
Deixo-vos com o Diabo de Natal, com muita pena de não ter coragem para o traduzir para português (mas a escrita poética não me parece muito traduzível).

Abies Terribilis                                                                                                    Var. Sinensis

Chez un certain pépiniériste
Cent sapineaux allaient partir
Comme arbres de Nöel ; lls oubliaient le triste
De mourir si petits dans la joie de réjouir.

L’un d’eux pourtant était livide:
«Vous autres mous», dit-il , «ne vous révoltez pas
Et vous prêtez à votre assassinat
Pour un plaisir d’enfants stupides
Je veux dégouter  I’amateur !»
Sitôt finie sa périphrase,
Il se plombe le teint, prend rictus de terreur,
A la lune étudie un jeu d’ombres chinoises,
Mime le macabre cypres …
Et nul c1ient ne veut d ‘un spectre aussi parfait.
L ‘horticulteur, le voyant invendable,
Le choisit comme épouvantail.
Notre sinistre alors dit : «Diable!
Le diable de Nöel ne change qu’un détail:
Au lieu des bons et des honnêtes,
Il récompense les voleurs.»
Et de crier : «C’ est pourtous, jour de fête!
Venez pécher, petits oiseaux pécheurs ! »

Ah ! comment résister au mal
Lorsque le diable est si moral?

(deixo-vos com Devil’s Trill, de Tartini)

 

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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7 respostas a Diabo de Natal

  1. Pedro Norton diz:

    o diabo é o diabo ser tão moral.

  2. manuel s. fonseca diz:

    Que belo motto: vinde pecar, avezinhas pecadoras! Bolas, é que qualquer um(a) quer logo ser seara.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Quem? Ieeeeeue?!…
    Sim, um pouco, mas aveleira, nunca abeto…

  4. O Eco de Umberto diz:

    Prefiro o diabo nos detalhes do que no Natal – um bom para si!

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