Escrita diabólica, dietética, anoréctica, ou até diabética

 

A saudável ventania que o Manuel levantou aqui com a ajuda das ventoinhas académicas da escritora e crítica literária Paula Marantz Cohen levaram-me a uma conclusão que deve ser possível comprovar, talvez com a ajuda do Instituto Nacional de Estatística – disponha-se o INE a tão exaltante (e certamente extenuante) tarefa.
A tal conclusão, simplista como é natural nas pessoas simples como eu, é a de que cada cabeça faz uma sentença, esta sempre bem amparada nas polaridades que para a sentenciosa mioleira em apreço fazem mais sentido, ou, simplesmente, são mais do seu gosto. Não me parece portanto possível uma medida de exactidão científica capaz de determinar se uma obra bem sucedida no mercado o é particularmente devido àquela sorte que protege alguns escolhidos (António Lobo Antunes fala disso a seu respeito, sem qualquer complexo), ou a uma grande estratégia de marketing ou, finalmente, às reais qualidades literárias do autor – estas últimas de interpretação também sempre subjectiva, como quase tudo na vida. Existirão mesmo casos em que as três premissas se encontram reunidas, para gáudio do assim ilustre bafejado.
É claro que não é possível dizer que o doce é salgado.
Podemos dizer, quando muito, que sal a mais é intragável e que o muito doce nos enjoa até ao vómito. Ou, já numa base mais científica, que provoca diabetes quando usado em excesso e de forma continuada.
Haverá escrita anoréctica?
Para mim há, e logo uma de nome sacralizado: Gide. Devo ter tido azar, apanhei-lhe duas pequenas histórias mais secas que arenques fumados e liofilizados! Depois disso nunca mais pensei sequer em Gide (o Musil conseguiu o mesmo feito com uma coisa rebuscada sobre quatro mulheres – uma delas portuguesa!, mas nem assim me convenceu…).
Novo azar literário me saiu ao caminho, este um dietético do nosso tempo, de seu nome Jean Echenoz. Serviu-me duzentas e tal páginas de, digamos, uma espécie de maionnaise de soja com nabos cozidos e algum berbigão. Foi ao que me soube este premiado Médicis e Goncourt mais o seu As grandes loiras, apreciados pelo redactor Pierre Lepape, do Le Monde, com este ditirambozinho: «Pleno de ternura e humor, eis um dos grandes escritores franceses contemporâneos! Ele acredita no romance (…) Vingança da escrita: não há nenhum capítulo, nenhum parágrafo, nenhuma frase de As grandes loiras que sirva para o cinema».
Senti, quando li esta última frase, que muito do que eu sou a ler estava ali explicado. Mas tal facto não me comoveu um pouco que fosse.
E haverá literatura, ou antes, livros, que provocam diabetes literárias, que menorizam o leitor deixando-o acrítico e disponível para não pensar? Acho que sim e dou um exemplo: Paulo Coelho (de quem a Hilary Clinton por sinal muito gosta). E no entanto rebanhos e rebanhos de ovelhitos o lêem, em alvo os olhitos…
Nada a fazer, o gosto de cada um é isso mesmo.
O que pergunto é se valerá a pena escrever um texto pejado de exemplos, comparações e achincalhos académicos para explicar semelhante coisa… E já houve disso por cá, naquela célebre ‘encomenda’ feita a Vasco Pulido Valente com o objectivo implícito de destruir o último livro (acho que é) de Miguel Sousa Tavares.
Acto mercenário – o dinheiro sabe falar alto.
A simples ideia de um escritor se dar ao trabalho de dizer mal de obra específica de um determinado autor – particularmente se este é bestseller (mas também só será possível num caso assim, noutros seria o total desperdício de energias) – só me transmite esse sentimento surdo, duro e escuro que é a inveja.
Depois deste sobrevoo das minhas patologias de leitor, encontro-me agora frente aos sólidos e imperiais portões da querida Eugénia: num deles está escrito, a fogo, a palavra Literatura; no outro, em tinta azul turquesa, Entretenimento.
Bem, pensei eu, por vezes estão juntos. Como agora, bem fechados, escondendo o humor e a fantasia de Eça, a imaginação e sentido lúdico de Selma Lagerloff e tantos outros condimentos amáveis com que tantos outros grandes entreteceram a sua magia.
Antes assim.
Para acabar lembro o texto que o Manuel nos trouxe aqui na semana passada a emoldurar os conselhos literários de Charles Bukowsky. Esse naco de conselhos, que nos comentários considerei «perfeito e muito perturbador», tem a particularidade de, em termos práticos, servir apenas para ser apreciado e degustado – o que a bem dizer já é imenso. Considerei-o perturbador por elencar uma série de condicionais e sentenças que já enumerei nos meus silêncios introspectivos de abulia escriturante.
Isso impediu-me de voltar a escrever? Nem por isso, acho eu.
Da mesma forma nada conseguirá que muitos dos livros que uns e outros consideram maus pelas mais variadas razões deixem de ser comprados e lidos, sejam os seus autores o Umberto Eco, Dan Brown, ou o Zézé dos Couratos – que também se vende benzinho por cá, vá o Diabo perceber porquê.

(Nota final: serve isto para anunciar uma breve série de textos a que chamarei de Escrita Mesmo Imprestável)

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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12 respostas a Escrita diabólica, dietética, anoréctica, ou até diabética

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Sei disso, Eugénia, veja-se o que o excelente D. Casmurro pensava do nosso bom Fradique.
    E claro que tem razão no seu balanço, eu faço o mesmo.

  2. Rita V diz:

    … com este título ainda pensei que nos trazia histórias de como o diabo nos pode servir receitas que duram uma vida inteira … ah! … mas não ! Um Caldo knorr e não falha nunca.
    😛

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Mas olhe que pode, Rita…

  4. Pedro Marta Santos diz:

    Gostei, e fico muito à espera da tua Escrita Imprestável, António.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Então fica marcada para o dia 1 do ano que nos vai enganar a todos…
      Ainda bem que gostaste, Pedro!

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    António, mas que grande clareza e lucidez. Estou de acordo quanto a essa insanável dispersão do gosto, mas tenho um ponto assente: há mesmo uma grande literatura, como há um grande cinema e há livros escritos, divertidos até ou só oportunistas que não são grande literatura, como há filmes giros que não chateiam nada e até nos fazem passar um bom bocado (e não estou a pensar nas pernas da bela moça da cadeira do lado). Essa fronteira é relativamente consensual: por exemplo o Cânone do Harold Bloom reúne, de facto, praticamente os maiores escritores ocidentais. Mesmo que entre experts possa haver lutas de morte pela posição relativa dos autores (estou a pensar no cinema entre colocar à frente Ford ou Hawks). O cânone do cinema americano é talvez o dicionário do David Thomson.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Mas eu também convivo nessa plateia, Manuel (acho que a pintura e as artes plásticas em geral têm uma ‘adivinha’ ainda mais hermética, por exemplo). Dou-te um exemplo dum livro giríssimo, muito interessante e até bonito, mas que não pode ser considerado literatura: a nossa Jinga, Rainha de Matamba. Mas será a biografia de Fernão de Magalhães, do Zweig, alguma literuatura? Eu até acho que sim.
      E Bloom, of course…

  6. O Eco de Umberto diz:

    Mozart abominado durante o séc. XX até aos anos 90 e depois “redescoberto”. Beethoven em sentido contrário. Vão e vêm, mas a verdade é que nunca se vão embora. E, às vezes, os séculos também enganam. Em suma: nada disto é claro, como o seu texto muito bem enuncia.

    • António Eça de Queiroz diz:

      É como diz, amigo Eco, vão e vêm.
      Um bom ano para si, que 2012 nos engane bem e a todos!

  7. Pedro Marta Santos diz:

    Permite-me discordar desta vez, doutor. Falando do que conheço um pouco melhor, há pelo menos 50 anos que essa fronteira, no caso do cinema, é tudo menos consensual (mesmo no caso da literatura e do Bloom, há discordâncias violentas – basta ler alguns textos do Steiner, ou mesmo de um tal de… Eco. Se me permites, o dicionário do Thompson – que li, deleitado, de uma ponta a outra, como acabei agora de ler o “Have You Seen? A Personal Journey to 1000 Films” – é das cartilhas menos consensuais (o homem tem ódios e amores pessoalíssimos e, por vezes, inexplicáveis – não há pachorra, por exemplo, para o veneno ácido contra tudo que seja assinado pelo senhor Ford, à excepção do “The Searchers”, ou para o amor tardio, um pouco anjo-azulado, por qualquer pinderiquice em que entre a senhora Nicole Kidman. E eu adoro, e sei que adoras ainda mais do que eu, essa tão frágil e humana diversidade (os absolutos é que me fazem muita pele de galinha). Abraço de um discípulo.

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