Fim de Tarde

Um vento que marca o tempo pelas rajadas, as colinas amarelas curvam-se sobre um horizonte fino, azul liso e abrangente.

Na praia a areia é dourada, e há marcas de pegadas que são apagadas com a onda que sobe, em espuma branca, para cima e para baixo.

Deitado de costas na areia olho o céu que se altera com a passagem de nuvens brancas apressadas. Caminham para o destino incerto do fim do tempo, acabam sem desapareceram. Ouço os ruídos de alguém que passa, que também existe, mais lá atrás. Deixo-me ficar.

Subo as escadas arrancadas à encosta, em sulcos de terra encarnada. Um vento leve a entrar pelo pequeno vale. Estava na hora de voltar, o dia a pôr-se sem aviso.

E já só contava os dias. As horas até voltar a pisar aquele chão, sentir o cheiro da terra molhada e do musgo que cobre a pedra cinzenta e dura. A sensação de estar a voltar a casa. Afinal sabia bem onde era a sua casa.

Olhou com estranheza o pequeno caminho de pedras de saibro, claras, um ou outro tom cinzento, a cobrir o chão como um tapete liso. Os dedos dos pés a sair das sandálias, ainda cobertos de grãos de areia gorda mas branca. Um calafrio a passar pelo corpo, pouco vestido, com o sol a desaparecer. E eis que a noite cai, quando abre o pequeno portão azul, de ferro.

O portão é baixo e inclino-me para abri-lo.

A casa de luz apagada, no planalto escuro, contra uma noite de azul-cobalto. Acendo a luz do pátio, coberta de teias do tempo que passa, sem que lá fosse alguém. Amanhã limpo-as, prometo. Há três dias que digo isto…

Quando o dia nascer, vou outra vez à praia.

Deitar-se de costas na areia a olhar o céu…e a contar os dias.

 

R. Diebernkorn OCEAN PARK No 128

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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8 respostas a Fim de Tarde

  1. O Eco de Umberto diz:

    Assim são os fins de tarde frios-quentes do verão do Oregon

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      O poder das palavras… criam paisagens ou lembram lugares…quem leia que sinta como diz o poeta…

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Sem musgo, sem frio, uma tarde em Itapoã.

  3. Pedro Norton diz:

    Bonito, sr arquitecto.

  4. Ana Rita Seabra diz:

    Belo texto!

  5. rita vaz pinto diz:

    Que fim de tarde bonito!
    É bom “ler-te”

  6. Carla L. diz:

    Ai, que perfeição! E quase sem querer percebi que as formigas fizeram casa lá perto do portão.Posso jurar que vi algumas subindo pela lateral dele…
    Obrigada.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Há-de haver formigas com certeza, naquele canto mais escuro…mas isso já é outra história.
      Obrigado pelo comentário e até breve…

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