Herzog e o Limite do Fim

É a penúltima cena do filme Cobra verde, de Werner Herzog. Mas não deixa de ser a cena final, porque se trata de filmar o Fim.
Uma praia, sol baixo a transformar o mar em prata que se derrama no areal dourado. Uma figura de estranha anatomia (que os mais atentos reconhecem de um plano anterior).

Uma silhueta ao longe em contraluz: Klaus Kinski que caminha determinado sobre a areia, e tenta desesperadamente empurrar uma pesada barcaça de madeira para o mar.

Desde logo que sentimos quão inútil, senão hercúlea, se apresenta a tarefa. A pequenez humana, a barcaça imovível, o oceano a quebrar-se na rebentação suave que pouco e pouco se torna força inimiga.
E é então que Kinski desiste, cai e deixa-se lamber pela morte na rebentação branca.
O local idílico transformado em lugar de morte.

Sabemos que Kinsky quase se afogou, verdadeiramente, nesta cena. É o próprio Herzog que conta no documentário onde descreve a problemática relação entre ambos, “My best friend”. Também se sabe que essa relação estava já a chegar ao fim. Aliás será a última vez que ambos trabalharão juntos, terminando para sempre umas das relações cinematográficas mais interessantes do cinema moderno: Herzog/Kinski. Com a “morte” de Kinski no filme, era também um pouco do cinema que morria.

A cena sempre me pareceu metáfora dura, violenta, e sintomática de qualquer coisa que está a acabar, que vai desaparecer. Bela sem dúvida, mas dura, violenta e triste por não suportar um retorno, por ser quase e por alguns momentos o final de tudo.

Há aquela luz de “fim de tarde”, antecipando o crepúsculo, que pode ser bela mas é prateada e fria; há o mar que onda atrás de onda, continua teimosamente a abater-se sobre a areia da praia (único ruido que acompanha quase todo o desenrolar da cena).
E há Kinski. Naquele esforço sobre humano a empurrar, a agarrar, a escorregar e a empurrar de novo.
O homem que luta contra o fim da sua história e do seu destino.

Herzog filma este limite, o limite da vida, do fracasso. Kinski foi durante anos o companheiro privilegiado nessa personificação. A personagem que avança passo a passo para o seu próprio fracasso. Em muitas das suas narrativas, e neste Cobra Verde também, as personagens vão conquistando pouco a pouco e com desmesurado esforço o seu lugar no mundo, para no final o virem a perder.
Em Aguirre a ambição desmedida a levar à loucura final do homem sozinho no deserto do sonho utópico, o “El Dorado” que afinal era só a cristalização dos piores pesadelos humanos. Em Fitzcarraldo o homem que consegue imaginar barcos a atravessarem montanhas ficará refém da humilde humanidade dos índios pigmeus. E também Nosferatu o homem/ monstro, refém do amor, na sua humanidade peculiar. Morre por querer amar.

Mas esta é para mim a cena do Fim. A representação daquilo que termina e já não nos deixa voltar atrás.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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16 respostas a Herzog e o Limite do Fim

  1. Rita V diz:

    Não vi o filme, não sei se este pedaço me chega … mas para além da metáfora dura, parece haver uma insistência do que não se quer ou não se pode (consegue) mudar!

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Rita, é um pouco isso: uma vontade de querer mudar o que é imutável…é uma imagem que me continua a surpreender…arrepia-me…no filme esta ilha é o lugar da fuga de Kinski, que atravessou o Atlântico para lá chegar…dai, penso eu , vem a praia e as ondas…

  2. manuel s. fonseca diz:

    Há um desesperado tom lúgubre em toda a cena que as duas silhuetas, a do aleijado e a de Kinski (que não o era menos), sublinham tetricamente. Acho que a ante-estreia do filme se fez na Cinemateca, mas já não me lembrava de nada. Aqui, já ninguém volta para trás – mas algum dia verdadeiramente se volta?

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Lúgubre é um adjectivo certeiro e desesperado é o sentimento. O filme é de 87 , mas só mais tarde é que o vi. E sim é possivel que seja uma metáfora mais alargada, provavelmente nunca se volta para trás, pelo menos para o que era antes.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Excelente apresentação do fim de um filme que nunca vi – escapa-me a razão, já que o meu extremismo modesto gosta muito desta dupla, com destaque para Aguirre e Nosferatu.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Aguirre é um filme bem mais conseguido e talvez o que escolheria como meu preferido do Herzog. Este vale a pena ver pela filmagem em África no Gana, aliás muito à volta da fortaleza S. Jorge da mina, edifício extraordinário, construído pelos Portugueses, e pelo papel do “louco” e bandido CobraVerde, Kinski himself…e claro por esta cena que para mim continua a ser fortíssima.

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Eugenia, obrigado pelos seus comentários, e por este em especial. Consegue ver e re-escrever muito do que eu pensei, e traduzi-lo em novas e belas palavras. E levar mais alem porque não tinha ligado de forma alguma ao Turrel…já me deixou aqui a matutar…

  5. rita ferro diz:

    Não te conheço, Bernardo, mas que bem escreves e pensas!

    Rita Ferro

  6. Diogo Leote diz:

    Bernardo, a razão da longevidade da dupla Herzog/Kinski tem certamente a ver com o facto de Herzog cedo ter percebido que nada ganhava em domesticar o incorrígivel feitio de Kinski. E que tudo ganhava em fazer exactamente o contrário, ou seja, em capitalizar para a tela a raiva e agressividade de Kinski. Não vi o Cobra Verde mas, depois da tua exemplar lição, não quero demorar a fazê-lo. Até porque o Fitzcarraldo é um dos filmes da minha vida. Ainda há pouco, noutra encarnação blogueira, escrevi um texto sobre Kinski. Acho que me fizeste ter vontade de voltar a ele e até de o aproveitar em parte para aqui.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Diogo concordo que ambos tiveram de aprender a “tolerarem” o outro…O Herzog também deve ter o seu armário com alguns esqueletos…Agora tens de ver o “Meu Melhor Amigo”, uma Elegia a Kinski…que começa com uma representação de Jesus por Kinski…indescritível! Era bom ver no grande ecrã, mas tenho o DVD se quiseres .

      • Diogo Leote diz:

        Bernardo, agradeço-te mas já tive a sorte de ver o “My Best Friend” há dois anos atrás, numa retrospectiva que o “Doclisboa” dedicou ao Herzog. Tens razão: é imperdível.

  7. Ana Rita Seabra diz:

    Lembro-me de ver este filme lá em casa…
    Qual deles o mais louco e eu no meio já desesperada e enlouquecida!
    Ver esta cena final impressionou-me. Grande texto!
    bjs

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Há sempre um pouco de loucura na dita “normalidade”…Sim mas estes sobem a fasquia bem alto…

  8. rita ferro diz:

    Meninos, aproveitando-me desta plêiade de cinéfilos: se alguém souber onde posso arranjar os DVD dos filmes e A FESTA DE BABETTE e VATEL com legendas em português diga por aqui.

    OBRIGADA, RF

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