Horas Vagas

 

Naquela tarde, Mr. Saucer chegou em casa, pendurou o chapéu num cabide improvável, estilo Bauhaus inconsútil³, a pensar no quanto o expediente não fora expedito:
–Gwen, darlin’, o jornal?
–Em cima do aparador, querido – disse Miss Saucer, recém-chegada da drugstore, ainda a escorar bicicletas, repôr cãezinhos no assoalho, morder gomas, a devanear um pouco com as axilas de Paul, as espáduas de Alfonse.
Pelo caixilho real da janela fictícia, uma negra cantava com uma plangência onde havia anjo e giz.
–Não é admirável que, sem nenhuma escala por lastro, os três façam isso? Como se houvesse paredes, móveis, utensílios, arbustos, uma plantation, o sul de um país? – disse, então, Lars von Trier num inglês de carregado acento– só atores maiúsculos movem-se no vazio. Não há uma cesta de laranjas!
Entretanto todos estavam tão para o sol de si mesmos quanto mônada, laranja ou vírus; absortos demais para devolver méritos a von Trier.
Podia-se ouvir um roçar esferográfico. Era a script girl tomando notas. O diretor de fotografia cavava uma lente na bolsa. Onde havia atores, entrevia apenas superfícies, volumes. Onde estava a equipe, a lide¹ via apenas lentes, luzes. O lide, que fazia o papel do dono de uma plantation e duzentos escravos, via apenas duzentos escravos. E súbito o diretor sopesou o quanto aquela script girl e puro fastio davam um.
–Para um ator é mais importante exibir-se – considerou o diretor de fotografia.
–Ao menos respiram – arrematou a script girl que nas horas vagas era escritora.
Mas só nas horas vagas. Nas não, trabalhava apenas para grego ou irlandês ver.
–Pelo caminho, aqueles contos à clef que estavam sobre os armários imaginário são seus? – indagou Von Trier num tom casual, sem notar que o seu von acabara de capitalizar-se.
Ele sabia, melhor que atores: quem é mais ator no set que o próprio diretor? Deve portar cotonetes² para a coadjuvante da lide¹. Contornar cliclones. Dar declarações bombásticas à mídia. Empregar corretamente a crase – se houver crase no idioma dinamarquês. Ser um dos duzentos escravos do galã. Trazer algo de podre para o reino quando não houver nada de particularmente putrefato além de um atirador alvejando jovens numa ilha do reino ao lado.
E até mesmo alegrar uma escritora que nas horas não vagas é script girl.

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¹Quer dizer, não o mesmo que “lida”, mas a lead actress, o lead actor.
²Os dicionários fiáveis e a Wikipédia recomendam “haste flexível”, mas quase ninguém chama assim. E talvez um escritor flexível deva empregar “cotonetes” e apelar para dicionários inverossímeis, de vez em quando. Ou se estiver mais a par das últimas recomendações dos otorrinolaringologistas (e há quem reclame dos alemães), nem isto.
³Ao revisar o copião, esse cabide avulso, descontextualizado, despertou profundo mal-estar no diretor. Embora suposto e desenchanfrado, era por demais moderno para padrões de época. Além de sugerir certo gesto pouco reverente do dedo médio.

* * *

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
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4 respostas a Horas Vagas

  1. manuel s. fonseca diz:

    Ruy, até que enfim. Gostei muito, mesmo sem saber nada, do seu texto. Julgo que não é uma contradição nos termos. Não o posso ler como comentário ao dinamarquês porque já não vejo nada do Von Trier desde os anos 90 (eu não devia dizer isto, mas tem-me faltado a pachorra). Experimentei lê-lo como ficção e, depois de andar às aranhas entre o que está antes e depois do caixilho real da janela fictícia, as alegrias que um realizador pode dar à script girl fez-me lembrar uma história real do Budd Boetticher que também um dia vierei contar. Fez-me então muito sentido.

  2. O Eco de Umberto diz:

    Bela descrição dos dramas que poderiamsuceder na perdida cidadezinha dos cães no Arizona.

  3. O Eco de Umberto diz:

    Bela descrição dos dramas que poderiam suceder na perdida cidadezinha dos cães no Arizona.

  4. Pedro Norton diz:

    Ruy,
    Gostei muito. Mas mais do que tudo gostei da negra que cantava a a anjo e giz.

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