intriga opaca

o vento que os hebreus dizem de Espérida
não é de lá

vem do alto do céu
desse céu primevo que se abre à claridade
e depois foge com ela numa espécie de ganância de si

é um vento que pára o ser
que o interrompe, determinado,
e ainda assim o espicaça e escorraça
da droga subtil e demorada
que é o esquecimento da vida

a memória é agora uma relha-velha
lembra-se bem do que antes parecia apenas
um desenho mal começado:
a estrada segue no topo da colina
até à casa baixa não muito comprida
ao lado um outro caminho que talvez desça
divergente
cada vez mais difuso
seguem nele alguns errantes do século
e a jornada não antevê destinos
(ficámos depois a saber)
nome ou número
também eles se perderam na erosão nublada do tempo

todos conhecemos um som, julgamos que sim
e não o conseguimos cantar

não somos como chineses encantados de papel
não comunicamos com deleite por reflexos do passado
ou de amores idos e perdidos na curva do rio ancestral
que povos da tradição tão bem cartografaram
em elegantes iluminuras debruadas a ânimo e cor
com brilhos que tudo explicavam

este vento, dito de Espérida
morno ou gélido como muito bem entende o seu tempo
tolhe e emudece e enerva até à raiz do tálamo
sempre indiferente às queixas para si vazias
sempre zeloso e altivo na sua acção exploratória
sempre pronto a zurzir o desperdício da alma
até esta quase jurar não querer mais ser

a madrugada estremeceu como um fino caule
ao tropel dos cavalos mais próximos
o rumor surdo que fora nada por horas ausentes
é agora uma ária completa de sinais incertos

do norte chegam os pássaros, de leste também
e as redes das armadilhas vão-se erguendo ritmadas
junto à bruma que tomamos por horizonte
como velas de uma esquadra
que se apresta à grande travessia das batalhas

as crianças dos campos exultam
ao som aflito das primeiras capturas
e os seus gritos de meninos-pássaro
fazem-se ouvir bem lá longe

onde o vento se recolheu de novo
após portentosa intriga

                   

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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15 respostas a intriga opaca

  1. e o que eu gostei do seu bailado de palavras
    e de pássaros
    ( e do negro escuro rectângulo também)

  2. O Eco de Umberto diz:

    Um belo sopro de inspiração.

  3. Teresa Conceição diz:

    António,
    que encontro tão feliz de palavras entre negro e pássaros musicais.
    Acho que vou voltar aqui muitas vezes.

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Uma partezinha já conhecia, Eugénia, mas achei que ligava muito bem.
    Que bom que gostou!

  5. manuel s. fonseca diz:

    Gosto, no vento e nos pássaros, das mudanças súbitas, uma vertigem em direcção à terra, uma flecha em direcção ao céu. Foi no que o teu belo texto me fez pensar.

  6. Aurélia Madeira diz:

    Sem palavras… ainda estou boquiaberta… ‘devorei’ e senti! E por fim a descrição de ‘ser’. Que bom tê-lo encontrado por aqui, neste mundo virtual. Fica a esperança de que a a amizade se torne real, um dia destes, num qualquer sopro de vento!!

  7. Ana Vidal diz:

    Belo poema, António. Lembrou-me, vá-se lá saber porquê, a Selma Lagerloff e o seu pequeno Nils cavalgando um ganso selvagem. Talvez porque o livro me tenha feito desejar ter asas mais do que qualquer outro, pelo menos na idade em que o li. Este poema teve o mesmo efeito. 🙂

  8. Isso para mim é um enorme elogio, Ana. Nils Holgersson, o seu ganso branco, a velha Akka, são tudo memórias frescas do primeiro livro a sério que li.
    Obrigado.

  9. maria leão diz:

    O seu vento, sopra sempre de um modo muito especial . Não é um sopro de vento qualquer, é “um seu sopro” , muito especial. Ao ver o filme, não sei bem porquê, lembrei-me da minha Avó, que escreveu ECO “O dia amanhecia em palidez prateada. Aves fechavam asas friorentas. O sol mostrava-se vestido de nuvens. Sons de existência humana ficavam distantes”! A dança dos seus estorninhos, estava mesmo distante dos sons da existência humana! Lindas palavras, como sempre .

  10. O vento é especial, eu limito-me a ouvi-lo (e, por vezes, com sorte, a replicá-lo).
    Estes pássaros…, gosto muito deles!
    A sua Avó sabia do assunto.

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