Jurei para nunca mais ou a francesa de uma figa ‘tórrrrta’

Habituada a pedir as coisas mais inesperadas que se podem servir num restaurante, começando pela casca de limão na Coca-Cola em vez de rodela, pão de alho sem alho, pizza sem queijo, bife sem molho e a acabar nos filetes sem polme … (helloooooo!!! ) confrontei-me hoje com o ‘servir’ em vez de ser servida.

Fui dar uma ajuda num ‘restaurãn’ de tapas e petiscos.

(Pensei fazer um desenho explicativo simples da minha primeira experiência ‘sem crista’ . Era fácil fazer uma caricatura do meu desempenho e dos meus primeiros 5m de pânico, mas, nada disso. Hoje aprendi uma lição e não há desenho que me valha.)

5 mesas para gerir 22 pessoas para petiscar ao mesmo tempo.

A mesa grande duns amigos, a mesa pequena com 3 galifões, a mesa dos dois motards, um casalito francês com 2 filhos na mesa do canto e 2 habitués na mesa do fundo.

A ‘Bodega’ que não é muito grande, estava um pandemónio, ao lume saltavam as frigideiras para servir os 90 pedidos das pequenas porções.

Pus mãos à obra e repeti os gestos que vi um milhão de vezes ao longo da minha vida.

– Boa tarde, já escolheram?

– Para beber?

– Pimentos Padrón só há uma dose.

– Os crepes de camarão e vieira são muito bons.

– Experimente os Ovos Rotos com farinheira!

Estava tudo a correr bem, … muito bem!

Pedir é fácil e da cozinha saltavam mini-hambúrgueres, espetadinhas disto e daquilo, copos de três e imperiais à pressão.

A ‘piquena’ que estava a ajudar ficou atrás do balcão com as contas (e com o lavar dos pratos) e eu fazia de RPO (Relações Públicas Operacional) num vaivém entre a cozinha à esquerda e a esplanada à direita.

De repente ouço ‘psst … psst’. Parecia que era comigo. Ainda hesitei … era mesmo comigo! Recompus-me e pensei que só podiam ser o raio dos franceses. Eram:

As batatas não eram às rodelas e os hambúrgueres eram minis … expliquei que os hambúrgueres eram minis porque minis eram como estavam ‘listados’.

– Mini de pequeno … ‘petit’,… small e eram 5 dizia eu.

Que não … dizia a francesa, que hambúrguer era grande e que a dose de espetadas de frango era pequena.

Voltei a repetir que sim , que era tudo petit, small… para as pessoas experimentarem várias coisas.

Que não … dizia a francesa, que no país dela um hambúrguer tinha um tamanho médio de 7cm de diâmetro e que a espetada de frango na Azóia, ali para os lados de Sintra, era do tamanho de uma garrafa de Champagne Francês Magnum e fazia um gesto com a mão mostrando o tamanho da espetada desejada.

(não posso dizer o que pensei mais os 7cm de diâmetro …)

Vou fazer fast forward e contar apenas que:

Tive um calafrio.

Lembrei-me de todas as vezes que fiz aquela figura.  Sem mais delongas venho,… agora aqui, … humildemente pedir:

– Lembrem-me de nunca mais pedir nada ao meu gosto!

Sobre Rita Roquette de Vasconcellos

Apertava com molas da roupa, papel grosso ao quadro da bicicleta encarnada. Ouvia-se troc-troc-troc e imaginava-me a guiar uma mobylette a pedais enquanto as molas a passar nos aros não saltassem. Era feliz a subir às árvores, a brincar aos índios e cowboys e a ler os 5 e os 7 da Enid Blyton. Cresci a preferir desenhar a construir palavras porque... escrever é triste.
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13 respostas a Jurei para nunca mais ou a francesa de uma figa ‘tórrrrta’

  1. isabel Rocha e mello diz:

    bom…eu sou testemunha de variadissimos dos teus caprichados pedidos aos atónitos empregados de mesa..que quando já veem com o oitovo em punho , já páram para ouvir o nono que aí vem….invariávelmente ” uma coca cola , mas com um copo de gelo à parte sff, e já agora em copo alto ” …igual aos que pedem uma bica escaldada em chavena fria , com só um pingo de leite meio gordo da mimosa cujo empregado já diz alto e bom som…sai uma bica para um mangas de alpaca!!!!é uma boa lição sim senhora, de humildade , se cada um de nós passar e vivenciar o que sente quem está atrás desses trabalhos.., os dos hospitais então não se fala…todos deveriamos estagiar nesses guichets……

  2. Rita V diz:

    e o mais engraçado é
    como os outros nos vêem
    quando mudamos a nossa ‘roupa’
    ah ah ah
    hoje fui simplesmente
    ‘psst …psst’
    Valeu!
    😀

  3. Rita V diz:

    eh eh eh
    ele há ‘coisas’
    eh eh eh

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Waht an experience!
    Acabou em confissão, claro.
    Copo de gelo ao lado, hein?!…
    Bonito.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Quando eu ainda bebia o meu Laphroig também era com um copo de água lisa ao lado. O Laphroig puro, sem gelo, nem mariquices.
    Quase que a consigo ver a cair em cima dos franceses…

  6. Patricia Roquette de Vasconcellos diz:

    Mana……..estou-te a ver de Mesa em Mesa como uma libelinha saltitante, ao mesmo tempo com o coração pequenino para que no “restaurān” do Mano tudo dê certo. Que sufoco, ele merece isso e muito mais, tendo em conta que irmão só temos esse e é uma nossa paixão. Ainda bem que lá estavas na minha vez, todos sabemos que não sou tão tolerante, e tenho sempre uma resposta mais amarga na ponta da lingua. Teria dado uma corrida aos Franciu’s ou quem sabe as espetadinhas ainda me serviam de bandarilhas. Quanto ao “pst pst”, tenho a certeza que não me segurava, e soltava logo um “gros mots” dos meus. 🙂

    • Rita V diz:

      Pat … essa das bandarilhas não me lembrei
      bem lembrado!
      hoje perguntaram-me se eu era mãe dele …
      argh!!!!! cruzes, canhoto … ( os canhotos que me perdoem)
      Nunca mais lá volto!
      ah ah ah

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    o psst pssst é bem pior do que o copo com gelo ao lado (vou ter de pedir um, um destes dias…), mas às vezes é bom mudarmos de lado…e basta ser para o “outro” lado…

  8. Ana Vidal diz:

    Psst, psst, um hamburger de 3 milímetros e meio, nem mais nem menos, ó faxavor. E uma coca-cola sem cola, só coca. E uma figa torta com recheio de miolos para a sobremesa da francesa, a ver se entende o que é uma miniatura (devia ser fácil, é igual ao cérebro dela).
    Ah, o que eu perdi… porque é que não me avisaste? 🙂

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