Lana del Rey

Quem é, afinal de contas, Lana del Rey? Uma fraude? Ou um dos grandes talentos emergentes do mundo da pop? Um produto de marketing fabricado a régua e esquadro por um batalhão de agentes e advogados? Ou uma songwriter que se impôs por mérito próprio, à custa de uma extraordinária voz e de uma música elegante e sofisticada? Uma figura ridícula, que, com a ajuda do dinheiro do paizinho (o multimilionário Rob Grant) e de muito botox e operação plástica, se limita a mimetizar ícones e clichés dos anos 50? Ou uma personagem saída do universo de David Lynch, capaz de nos fazer cair naquele tipo de fascínio de que se alimenta o culto?

Pela parte que me toca, pouco me importa a polémica. Pouco me importa que a rapariga tenha sido mais ou menos fabricada. Que lhe chamem “Frankenstein do indie”. Que o seu currículo tenha sido rescrito ao ponto de um seu anterior álbum – lançado antes de o “monstro” ter visto a luz do dia – ter sido retirado do mercado. Que se chame Elizabeth Grant (Lizzy para os íntimos) e nada tenha de hispânica ou sequer de Lana Turner. Que tenha nascido em berço de ouro.

Importa-me, sim, que “Video Games” e “Blue Jeans” sejam do melhor som que ouvi este ano. E que o álbum que aí vem – oficialmente, o álbum de estreia de Lana del Rey, com lançamento previsto para 30 de Janeiro – prometa ser um dos grandes momentos musicais de 2012.

Mas nada como os caros leitores e ouvintes julgarem por si próprios.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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10 respostas a Lana del Rey

  1. Diogo
    dei uma boa gargalhada com o comentário da Eugénia acima.
    (sorry)
    deixo para a troca a Fiona Apple

    • Diogo Leote diz:

      Rita, obrigado pela Fiona, que, além de uma bela voz jazzy, também tem uma boca carnuda. E bem natural.

  2. O Eco de Umberto diz:

    Tem qualquer coisa de M. Jackson tem – terá um Quincy Jones por detrás a dar-lhe música? No resto lembra muito Nancy Sinatra.

    • Diogo Leote diz:

      Não é por acaso, caro Eco, que a própria diz ser uma versão “gangster” da Nancy Sinatra (seja lá o que isso significa).

  3. Diogo Leote diz:

    Menina Eugénia, com que então faz parte do grupo de detractores da Lana? E foi logo implicar com a voz da rapariga, que eu julgava ser a única coisa que reunia o consenso dos dois lados da barricada. A luta promete. Olhe que se arrisca ter o seu Antony a cantar com ela…

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Caro Diogo, não tinha ainda ouvido e gostei mais da Blue Jeans, a voz parece mais solta e até rouca…
    Não sei se será a revelação do ano, até porque gosto de deixar a música a envelhecer como o vinho ( não tanto…), mas a boca …bem fiquemos por aqui…e entretanto vou voltar a ouvir.

  5. Diogo Leote diz:

    Bernardo, entretanto a Lana já editou um outro single, o “Born to Die”, que é, aliás, o tema-título do álbum que sairá no fim de Janeiro. Gosto sobretudo da atmosfera da música dela, que me faz lembrar a do “Wicked Game” do Chris Isaak nos anos 80. Não sei se há algum “ghost composer” por trás da rapariga, mas que ela promete, promete.

  6. Carla L. diz:

    Nunca ouvi falar na tal da Lana…e você sabe que moro num país fértil para grupos e cantores/as de talento duvidoso. Mas sabe, gostei do timbre da voz dela. E das duas prefiro Video Game, é um tanto mais suave.

    • Diogo Leote diz:

      Carla, estou certo de que ouvirá falar muito dela no futuro. O talento da menina não engana.

  7. Rita V diz:

    Já ‘biste que mudou de Rey para Ray?
    🙂
    (9 meses depois)

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