O estranho rosto humano

Osamu Dazai

A minha Noite de Natal, quando o torpor da Consoada já calou os risos e os gritos, quase sempre me ofereceu a descoberta de um livro (o “Tortilla Flat” lido às gargalhadas na adolescência, Malcom Lowry mais tarde) ou os discos de jazz com que me quiseram fazer passar para a seita (o “Waterbabies” de Miles Davies, por exemplo).

A empreitada, este Natal, foi o “Não Humano”, de Osamu Dazai. Estreia absoluta. Um narrador, na primeira frase do livro, declara que viu três fotografias do homem. Descreve-as para, na descrição, só descrever uma e a mesma coisa: a estranheza do humano. Uma estranheza que se pega às mãos e aos olhos do leitor (sacudimos então as páginas em vez de as virarmos).

Quando das fotografias do prólogo se passa ao primeiro capítulo, e o protagonista, na primeira pessoa, substitui com a sua a voz do narrador, entramos no domínio do maldito: “A minha vida tem sido vergonhosa”.  Numa vertigem servida a frio, desfilam actos e lugares e o que vagamente chamaríamos pessoas. Sem afecto, Dazai serve-nos uma viagem ad loca infecta. Sem afecto, mas não cirurgicamente. Sexo torpe, drogas, álcool bruto, o constante apelo ao suicídio são escritas substantiva mais do que adjectivamente, mas não na forma entomológica de algum cinema japonês (Imamura, estou a lembrar-me ou Cronenberg se fosse japonês, e talvez seja). Sem o festim estílistico de Lautreamont, “Não Humano” é o parente japonês do abjeccionismo e morbidez dos “Cantos de Maldoror”.

Dois prólogos de um narrador que nada sabe e pouco viu e três capítulos na primeira pessoa fazem de “Não Humano” um romance convulsivo e doloroso: via crucis sexuada. Romance que é, afinal, o romance vivido do seu autor. A sua vida real, a de Dazai, foi uma tragédia que a farsa torpedeou numa guerra constante. O livro é também isso: uma conciliação, esta do autor com o seu actor, que em 126 breves páginas se trabalha com uma subtileza não sei se envergonhada, mas que pelo menos não diz o seu nome.

Inundou-me uma certa melancolia. Se tivesse de resumir a magnífica escrita triste de Dazai, diria que o riso que nasce do desespero é o esgar que torna repugnante o rosto humano. 

o livro

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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7 respostas a O estranho rosto humano

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Este teu belíssimo texto fez-me lembrar, ainda que muito marginalmente, as descrições que o cônsul Roger Casement faz das suas aventuras homossexuais – umas supostamente verdadeiras, outras inventadas – em ‘O sonho do Celta’ do Vargas Llosa. Nas que são inventadas a personagem invariavelmente reflecte consigo a tristeza dessa sua farsa tão peculiar, à qual no entanto regressa, como a um vício mais privado e exclusivo da sua sexualidade.
    E trata-se de romance biográfico, com base em documentos fornecidos pela família deste irlandês, anglicano novo, que se aliou aos alemães depois de ter servido o MNE britânico e por isso foi enforcado.

    • manuel s. fonseca diz:

      Boa, são cromos para a troca, lês o meu japonês de bordeis e eu leio o teu visioso Casement.

  2. Diogo Leote diz:

    É impossível resistir ao apelo sedutor do teu texto, Manuel. A leitura do livro vai já direitinha para a lista das resoluções de 2012.

  3. manuel s. fonseca diz:

    Já sabe que eu gosto de gostar. E, claro, ainda mais que goste.

  4. JotaSa diz:

    Deitado algures junto à lagoa da kilunda, debaixo de um céu azul, (de fazer inveja) transcrevo aqui o comentário que me saiu no final deste texto “este gajo escreve muito bem, filho da mãe”, não sei se foram bem estas as palavras…

    • manuel s. fonseca diz:

      Grandessíssimo JotaSa, mas quem é que te manda andar por estas paragens, muadié?! E ainda por cima a fazer inevja aos pobres?
      Aproveito para avisar os leitores de que este tipo me conhece há 5 séculos. Nada do que ele diga poderá ser usado a meu favor. Mas mando-llhe um abraço for ol’ times sake! Foram mesmo grandes times. Bom ano e beijos a todas as tuas meninas,

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