O mais jovem pára-quedista do mundo

os alucinados lençóis de Deus

A história, contei-a já mil vezes. Agora, mil e uma. Desta vez, com novos ingredientes. Traz os meus filmes de cinema, os meus filmes de matinée.

Quando flutuam no céu não sei se parecem anjos se, longe e pequeninos, são mais alforrecas.
Em “O Dia Mais Longo”, filme desse dia chave da II Guerra, os aliados invadem a Normandia. Milhares de barcos tapam o mar, a multidão de soldados de infantaria chapinha na última onda da praia fugindo à metralha alemã. Entretanto, os pára-quedistas americanos saltam atrás das linhas inimigas.
Recordo a aldeia de St. Mère Église. Os páras tinham os boches à espera. Vinham no ar e eram ceifados sem piedade. Um ficou preso no campanário da igrejinha. Fingiu-se morto e ficou pendurado, horas, os sinos a ensurdecer-lhe os ouvidos, vendo o morticínio dos camaradas. O episódio foi real e o pára sobreviveu, tanto no filme, como na vida.

No filme mais fácil de assobiar de que os meus lábios se lembram, “A Ponte do Rio Kway”, os páras saltam em território inimigo para sabotar a ponte que o prisioneiro Alec Guinness construiu para os japoneses. William Holden, o pára-quedista americano, salta com a alegre elasticidade moral yankee que o fez logo mais herói a meus olhos do que a sorumbática honradez do britânico Guinness.

Os filmes misturam-se com a vida. Antes das matinées, aos 7 anos, já tinha visto os primeiros páras saltar, num festival a que Luanda assistiu mal a guerra começou.
No ar, os velhos Nordatlas, chamados barrigas de jinguba, roncavam, preguiçosos. Abriram-se como torneiras e o azul celeste povoou-se de pontos negros caindo vertiginosos para a morte. De repente, nascia-lhes na cabeça uma salvadora e ampla cabeleira. Flutuavam, então, presos a esses alucinados lençóis de Deus.

Três amigos, 7 anos como eu, extasiaram. A imaginação exigiu-lhes igual cabeleira. Cortaram plásticos, novelos de fio grosso. Procuraram local propício: uma obra em construção. Subiram a um andar. No chão, dois montes da amarela areia do Bengo garantiam queda macia.
O resto é pura epopeia. Um amarrou ao pescoço o científico e improvisado pára-quedas. Os outros, em rígida continência, tributavam-lhe a coragem. Saltou.  O plástico reagiu com eficácia newtoniana e abriu-se. Numa imparável cadeia de efeitos, a corda esticou e, ai meu Deus, o pescoço do mais jovem boina verde do mundo viu-se apertado. Faltou-lhe o ar e os olhos (mania que os olhos têm) esbugalharam-se, aflitos, para o mundo. Tentava gritar roucos sons intraduzíveis.
Os amigos foram amigos. Correram escadas, saltaram andaimes, trovejando “tem calma! tem calma!”, “já aterras! já aterras!
Corriam desenfreados e pairava o herói em histérica majestade. Aterraram juntos: os dois maratonistas de andaimes esfolando-se no cimento, o atónito pára-quedista na areia dourada. Cinema puro: terminava com um fio de sangue, suor tropical e sem lágrimas a aventura militar de um trio empreendedor, aberto à experimentação científica.

Muito estremeceu depois o céu de Angola, mas já não com a valente inocência de uns principezinhos sem asas.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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16 respostas a O mais jovem pára-quedista do mundo

  1. Rita V diz:

    Comovente!
    E a frase, «lencóis de Deus» não podia ilustrar melhor.
    que belo texto

    • Manuel S. Fonseca diz:

      O que é que se há-de chamar a uma coisa daquelas aberta num céu tropical… Obrigado Rita.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Barrigas de jinguba faz sentido.
    Pára-quedas para mim ou alguém conhecido nunca fiz, mas eu e um dos meus irmãos passámos uma vez uma tarde a atirar um gato pela janela fora (havia um lago com nenúfares em baixo, calma meninas!…) à espera que um pára-quedas feito com lenços da minha mãe abrisse.
    Nunca abriu de forma eficaz e o gato lá andou, toda a tarde, absolutamente pingado.
    Depois levámos uma coça.

  3. Paula Ferreira diz:

    Muito bonito, o seu texto. Você escreve, e nós vemos as imagens a passar, ouvimos o som ambiente. Só ainda não escolhi a música, para completar a banda sonora. Qual a sua sugestão?

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Cara Paula, para a parte final e aventurosa dos três jovens heróis luandenses, teria de a pôr a ouvir, o “Brinca na Areia”, tocado com ritmo e preguiça pelos afamados Dikanzas do Prenda. Uma rebita com que gastei umas boas meias-solas no Marítimo da Ilha.

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Não era o Herr Freud que dizia: o prazer é a repetição.

  5. Pedro Norton diz:

    Essa coisa de apertar o pescoço a si mesmo até ficar de olhos esbugalhados acabou por tornar-se tara sexual. Matou um deputado inglês e tudo. Só não sabia que a invenção era sua, Maître Fonseca.

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Manuel que bela descrição. Antes de ter banda sonora, já o “filme ” passava nas nossas cabeças que construíram o cenário ao ler as bem ditas palavras. Pena que a guerra tivesse, também ela a aterrar por ali…

  7. Ana Rita Seabra diz:

    Os filmes misturam-se com a vida.
    Fez-me lembrar o meu querido pai que viu todos os filmes de guerra repetidamente.
    Não só sabia os filmes/cenas de cor, como contava histórias…mal sabia ele que a guerra matou-o por dentro.
    Belo texto!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Há grandes filmes de guerra que adoro. UM dia tenho que falar dos do Fuller, Steel Helmet, Merril’s Marauders (que tem uma cena que me faz chorar babae ranho), o Big Red One… Espero que o seu pai gostasse destes…

  8. Sou mulher mas aprecio filmes de guerra. Vários, através das décadas. William Holden tb fez parte dos meus heróis quando era bem novinha e via esses filmes na RTP à tarde. Cresci a vê-los…
    Tb aprecio westerns e de que maneira. 🙂

  9. Aníbal J. Russo diz:

    A primeira fractura de braço que tive também foi logo após esse primeiro lançamento de paras. E também com cordas e lençóis, só que a aterragem correu mal e lá foram umas quantas fracturas no braço direito, que ficou debaixo do tronco. Velhos tempos.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Aníbal, não fazia ideia. Também devias ser fresco em miúdo. E onde é que saltaste? Na Vila Alice ou num bairro com outras credenciais?

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