O Professor e o Papagaio

O professor M. de Lima e Barbacena havia lido tudo. No espaço de trinta e oito anos não havia uma página célebre dentre as milhares do Cânone Ocidental que sua vista cansada não houvesse averiguado.

Nesse ínterim, ele envelhecera. O corpo, de compleição naturalmente atlética, sofria distensões musculares. Contraíra diabetes. Ficara míope. A vista não mais podia ler sem óculos para perto. Além disso, ele tinha problemas na cama. Não conseguia mais lembrar sequer dos próprios sonhos. Eram tudo citações e espasmos apreendidos em textos alheios. Não lograva escrever um parágrafo que o satisfizesse. Quer dizer, sem achar que o parágrafo era apenas um pastiche pálido de Gracián, se sóbrio; ou de Vieira, se levemente entorpecido de vinho — o único torpor que ainda lhe enlevava.

Ao longo dos anos, quanto mais o Professor Barbacena se enfronhava em suas leituras, mais se afastava dos amigos. Não se permitiu ter amores. Ter filhos seria uma hecatombe: trocar uma página de Henry James por fraldas descartáveis besuntadas de urina e cocô, nem pensar.

O professor, como todo sábio que se preza, morava sozinho. Mas tinha um papagaio. O papagaio tinha algo do professor. E, com o tempo, o professor também agregou algo do papagaio.

Ao descobrir que seria impossível render tanta cultura a alunos, que mesmo já na graduação, mal haviam começado a ler, o Professor Barbacena tinha que decorar tudo que ia dizer aos pupilos. Absolutamente tudo. Caso contrário, simplesmente seria despedido. E por uma razão simples: incomunicabilidade. O que ele diria seria impenetrável aos alunos. Caixa preta extraviada. Nenhum código comum. Preocupado, o professor chegou a decorar algumas gírias.

Os esforços de didática do Professor Barbacena, repetidos à exaustão, antes de sair para as aulas, eram guardados pelo papagaio. Barbacena foi, aos poucos, percebendo isto.

Aos poucos, ao invés de buscar lembrar suas aulas, o professor recorria ao papagaio, como se recorre ao Google. Pronunciava um trecho ainda não esquecido, um retalho de aula, um adendo, e o papagaio completava as lacunas.

Por fim, foi sumariamente despedido.

Cansado da artimanha mnemônica, Barbacena estava a levar o próprio papagaio para a sala de aula. Meio como, às vezes, em certos textos, se percebe a presença cinza e gélida do Google, da Wikipédia a completar o calor de um pensamento.

*   *   *

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
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9 respostas a O Professor e o Papagaio

  1. António Eça de Queiroz diz:

    Isto é o quer se chama descer à Terra de papagaio, Ruy… (ou será de Google?)
    Bom Ano Novo!

    • Ruy Vasconcelos diz:

      parece que júlio verne tem a resposta, antoine. notícias do braga?

      • António Eça de Queiroz diz:

        O Braga está muito bem, acho que em quarto (atrás de Sporting, Benfica e Futebol Clube do Porto, claro…)

  2. Rita V diz:

    O papagaio (também conhecido como louro) é uma das muitas aves pertencentes à ordem dos Psitaciformes, família Psittacidae; vivem cerca de 100 anos e regra geral, acasalam para a vida

    ah ah ah
    ainda bem que existe o Google, como é que eu ía adivinhar que …às vezes … é para a vida!
    beijinho de Bom Ano Ruy

    • Ruy Vasconcelos diz:

      ah, pois, rita. qualquer dia desses vou escrever algo ao modo de platão: o ‘diálogo dos louros’.

      um excelente 2012 pra Você! com muitos rabiscos e muitas voltas de helicóptero.

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Google é para todos , papagaio só para alguns. Dizia-se ( ou será lenda…) que o Voltaire não escrevia, vestia-se a rigor e de pé, bambolenado-se pela sala, ditava a um qualquer empregado contratado para o efeito…se ele soubesse do papagaio…já entrado em 2012 , Ruy fique bem nesse novo ano…

    • Ruy Vasconcelos diz:

      é um indizível prazer contar com sua leitura, bernardo. especialmente porque uma das minhas frustrações nesta vida é justamente não ser arquiteto. de resto, esses enciclopedistas é que sabiam viver, não? puro blague!

      Um 2012 PRÓSPERO, EXITOSO e FELIZ, meu amigo!

  4. Teresa Conceição diz:

    E da linda foto, ninguém diz nada?
    Uma loura ali a sofrer às mãos de um canibal pior do que os do António,
    as outras a tremer ao lado, e todos a falar desse google que ainda por cima imita papagaio. Qualquer dia, papagoogle…

  5. Ruy Vasconcelos diz:

    papagoogle, só você mesmo, teresa!!

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