O tempo de Tarkovsky

O tempo de Tarkovsky

Não é fácil ver um filme de Tarkovsky.
E leva tempo.
Duas horas e muitos mais minutos, no caso de Stalker, filme “apocalíptico” de 1979. Os diálogos secos, compassados, a banda sonora cuidadosa e subtil, inserida em momentos meticulosamente escolhidos. Um ritmo de filmagem lento, a quase inexistência de montagem ( é pensar que Tarkovsky não apreciava Eisenstein porque achava que este tinha uma obsessão pela montagem que descaractizava o seu próprio cinema).

Mas a beleza da imagem de Tarkovsky convençe-nos a olhar cada vez com mais atenção a câmara, lenta, percorrendo espaços, definindo rostos, construindo a atmosfera peculiar do filme.

Entende-se que seja dificil, para quem não esteja habituado a ver planos de 3 e 4 minutos seguidos, uma câmara que se arrasta vagarosamente, um ritmo que nos obriga a olhar pela lente do realizador.
O primeiro plano do filme, que se mantém durante toda a apresentação do genérico, dura 3 minutos e alguns segundos. Tempo suficiente para nos retratar de imediato o ambiente do filme. Ficamos a sentir a humidade das paredes irregulares, o ranjer das largas ripas de madeira do chão, a luz do tecto, intermitente, que constroi enormes contrastes em todo o espaço. As personagens que vão entrando, primeiro o “barman”, depois o poeta, finalmente o cientista.
O ambiente é pesado, o tom preto e branco, a banda sonora abstracta.

O segundo plano, vagaroso movimento, partindo de uma escuridão que toma conta de quase todo o ecrã, para uma porta dupla que se encontra entre-aberta. Passamos a porta e entramos num quarto, ao centro e fundo uma cama, uma mancha de branco no tom de negro-sepia do filme.
A velocidade da filmagem permite-nos entender o espaço, ao pormenor: as paredes, vivas de texturas, parecem respirar; a cama de ferro que se sente frágil; a luz que entra como um manto diáfono em todo o espaço.

Tarkovsky estica até ao limite o tempo dos planos. Obriga-nos a olhar os mais ínfimos pormenores, deixa-nos (a)perceber aspectos que antes tinham passado despercebidos. Passamos a participar na cena. O tempo de cada plano torna-se o tempo real, e abre lugar a uma experiencia única: o filme é tambem o nosso filme, entendemos ao pormenor o espaço fisico e psicológico das personages. É este “tempo construído” que nos permite sentir as paredes com a tinta a cair, um pequeno insecto que se passeia pelas mãos do protagonista, uma moldura que se revela através de um pano de água que corre, uma nota musical que transforma a cena.
O cinema quase como literatura, porque na literatura controlamos o tempo. Tarkovsky dá-nos essa Ilusão que o cinema é como a vida. O tempo da imagem é afinal o tempo da nossa leitura dessa imagem…
Na verdade tudo se transforma com a gestão deste tempo e do ritmo de cada plano, gestão que se completa com o movimento lento da cãmara.

A velocidade do tempo leva-nos ao espaço do cinema…ambos são inseparáveis.
O ritmo de Tarkovsky obriga a reflectir sobre o que se está realmente a passar, mas também abre o espaço para que possamos divagar nas imagens, nas expressões das personagens, no apontamento musical que, sem nos termos apercebido, tomou conta da cena ( é rever a cena das três personagens, mudas, a viajar no pequeno trenó montado sobre os carris).

Nem todo o cinema tem de ser assim. Este assume a ideia de que a arte da imagem filmada tem o tempo da nossa propria vida, e por isso sentimo-lo forte e coerente.
Tenham tempo. E vão ver o filme.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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7 respostas a O tempo de Tarkovsky

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Bernardo, no “meu tempo” entrevistei o Otar Iosseliani. Também ele não “gramava” (é o termo atendendo à hora matinal da entrevista e ao whisky que já tinha marchado) o Eisenstein. Mas, claro, o Iosseliani é georgiano.
    Isto promete, vamos ter uns belos debates cinéfilos – deixe vir aí o Pedro (o Marta)…

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Ao contrário do próprio S. Lem, gostei muito do Solaris dele, que tem um tempo também muito próprio.
    Sobre o Stalker, li o livro (que é óptimo) mas não vi o filme (que também deve ser).

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Caro António, recomendo então que consiga encontrar uma bela tarde, com uma chuva miudinha lá fora, ( a morrinha do norte não é ?), resfastele-se num sofá, mas não muito confortável ( o sono leve é amigo de Tarkovsky…), e atire-se ao Stalker. Verá que vale mesmo a pena.
      p.s. A palavra foi inventada por Tarkovsky que transformou o verbo em inglês to stalk num adjectivo…

  3. Ruy Vasconcelos diz:

    belo filme, bernardo! como só tarkovski: revestir o ambiente de mistério lançando mão de parcos elementos atados por um emprego de som bastante distinto, como você ressalta. assim como esse preto e branco, puxado para um matiz gris-esverdeado, aponta cores onde não as há. e o vezo de umedecer superfícies para nelas captar reflexos. a sequência dos três no ‘trolley’ ferroviário é, de fato, de uma beleza como só se vai encontrar sobre trilhos num documentário de pelechian, chamado ‘fin’!

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Caro Ruy,

      Obrigado pela referência do Pelechian, que sem nunca ter pensado nisso vou agora ter de esgravatar mais fundo e voltar a ver alguns dos seus documentários. E ver o Fin porque nunca vi. Até breve.

  4. ~CC~ diz:

    Belo esse e todos os outros…vi no cinema, mas agora? Ver onde?
    ~CC~

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Pois é nao é fácil…apanhei esta recente mostra no nosso CCB, que incluiu todos os filmes e ainda uma exposição das polaroids que ele começou a tirar em Itália ( filmagem do Nostalguia). Tem de se andar de ouvidos e olhos abertos…mas não é assim para tudo?
      Até breve.

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