Perigoso por ser mau

Por causa de um livro de Eco

A “Smart Set” é a revista online da Drexel University. Merece uma visita e vai já para as nossas ligações (agora que o nosso blog está quase a entrar em velocidade de cruzeiro). Ainda por cima mete-se com bonzos o que é sempre garantia de alguma excitação. Antes isso do que a resignada reverência habitual.

“Umberto Eco está de volta. Com outro mau livro.” Assim começa o texto da professora Paula Marantz Cohen sobre o lançamento de “O Cemitério de Praga” de Eco. Salva do incêndio “O Nome da Rosa” para depois pegar fogo crítico a todos os outros romances do autor: que razões intelectuais é que há para se condenar “O Código Da Vinci” às penas do inferno e incensar-se “O Pêndulo de Foucault”, pergunta ela.

Não sei responder porque não li nem um, nem outro. Algumas das razões de Paula talvez sejam ideológicas e moralistas. Mas no final, ela reconduz essas assunções à esfera estética e conclui: “Este livro não é mau por ser perigoso; é perigoso por ser mau.”

Quem sabe se não vou ler o livro. Ou de como também a crítica negativa nos leva ao local do crime.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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30 respostas a Perigoso por ser mau

  1. Falem mal, mas falem de mim…
    oops

  2. O Eco de Umberto diz:

    mau ele?

  3. António Eça de Queiroz diz:

    A drª Paula lembrou-me as críticas nacionais ao Evangelho do Saramago e àquela coisa que o Rodrigues dos Santos tentou clonar de Dan Brown: enaltece tentando denegrir, o que é um vulgar falhanço de objectivo.
    Mas há uma coisa que me faz confusão real: a comparação entre o Pêndulo e o dito Código. O 1º, que já li duas vezes, é um assassinato consciente e magistral a todos os milhares de livros que tentam clonar o segundo (com este incluído como ‘pai’ dum género – género este que fez furor nos anos 70 com títulos e séries que poderíamos classificar de forma popular e estilosa como fazendo parte do ‘misterioso desconhecido’…
    Não li nada de Dan Brown (apenas umas passagens, irritou-me muito o prof. muito ‘garystu’, brilhante, belo e sem mácula), não sei se escreve ou não bem – não deu para ver nem isso me interessa porque a pretensão de dar um tom muito sério à sua suposta tese (essa conheço-a) através de algoritmos e datas só prova que D.B. não conhece (ou conhece e mente com descaro) um aspecto essencial da matemática: é que com ela tudo é possível – como provar que dois pode ser um ou, afinal, o mesmíssimo dois pode na verdade representar três…
    Pequenas e bem simples equações conseguem verdadeiros milagres – como não conseguir inventar enigmas e resolvê-los com a mesma facilidade em 700 páginas de letra miúda?
    Eco explica isso muito bem no seu Pêndulo, e com a amoralidade própria da verdadeira ficção dá literalmente cabo dum grupo de amigos que, por graça hedonista, tentam provocar esse demónio escorregadio e cego que é a estupidez humana quando agrupada.
    E fá-lo com imenso humor.
    A drª Paula é uma moralista cega e um ser humano perigoso.
    Esperemos que nunca escreva livros.

    • manuel s. fonseca diz:

      António, acho que a professora Paula é uma lareira: já estamos todos à volta dela e estamos a aquecer. Dois breves pontos: estás tramado, ela já escreveu ensaios e escreveu ficção. Creio que já vai no quarto livro em cada uma das áreas. O último título dela, cheira-me que te vai despertar algum apetite: “What Alice Knew: A Most Curious Tale of Jack the Ripper and Henry James.”

  4. manuel s. fonseca diz:

    Traçar uma linha de separação das águas não é jogar o jogo promocional, pois não? No mais, comungo na falta de pachorra para o Umberto.

    • manuel s. fonseca diz:

      Oh yes, mas não seja tão radical. Há um momento em que é preciso dizer: é um bonzo.

      • Manuel S. Fonseca diz:

        Ó estimada co-triste e eu prendo lá alguém: deixe-se estar que eu estou carequinha de estar de acordo consigo…

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Vi agora, depois de ler o texto da drª Paula, que o principal elo de ligação que estabelece entre Eco e D.B. são os miríficos Protocolos dos Sábios de Sião. Mas não distingue um livro com a pretensão de representar uma verdade escondida – mas uma verdade! – de outro em que ficção e cultura a sério se juntam para explicar que não existem verdades concretas (e menos ainda quando se pretendem absolutas) sobre tais assuntos.
    É bom não esquecer que os verdadeiros historiadores sabem bem que o que analisam são, em última análise, conjecturas e aproximações.
    (Vi agora com pavor que a drª Paula já publicou imenso!…)

    • manuel s. fonseca diz:

      António, e gosta de filmes mudos e de Hitchcock, dois dos temas dos seus livros, o que, convenhamos, é simpático. Fui ler o arranque do primeiro capítulo do “estripador” dela e atirei-me ao rio. Estou agora a nadar no Tamisa. O que vale é que me agarrei a essa bóia flutuante que é o Eco… Dá mais jeito do que uma lontra.

  6. Pedro Norton diz:

    Eu gostei do Baudolino, não tenho pachorra para o nome da rosa e acho que o melhor livre dele é a misteriosa chama da rainha loana. Cada um com a sua mania, Profª.

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Pensei em rebuscar um pouco a figura e obra da dita professora, mas fiquei-me pela delíciosa troca de comentários, servidos aqui em bela bandeja. E perdi a vontade para o resto.

  8. Pedro Marta Santos diz:

    O primeiro comentário da Eugénia suscita uma discussão interessante, e clássica: se literatura, livros, escrever bem, escrever mal, são coisas diferentes, quem julga essa diferença? E quem julga o juíz? Para mim, que talvez seja o menos letrado (no sentido clássico, outra vez) do nosso grupo, o “Pêndulo de Foucault” é literatura – estou com o António. E relanço uma dimensão, a dimensão da escala, sem cinismos: que português seria capaz de escrever “O Pêndulo de Foucault”? Na minha opinião, nenhum (estou à espera, adoro levar pancada).

    • manuel s. fonseca diz:

      Nenhum? Essa é boa. Então e o prof. Pedro Marta Santos?! (mas não digas mais nada que vou comprar o raio do bestseller e lê-lo em dois escolásticos tempos.

  9. Fico mais tranquila por haver boa gente boa que não leu livros que tb não li:) (e que não lamento não ter lido:)) Não tenho pachorra para o nome da rosa nem para dan brown nem para os códigos:) americanos ou portugueses . Gosto é destes comentários:) E do blog, claro.

  10. Pedro Marta Santos diz:

    Eugénia, por favor não me leve a mal, mas há-de me dizer onde é que se compram os livrinhos que ensinam a distinguir a literatura dos livros de entretenimento – já tentei encontrar os volumes relativos ao Cinema, mas acho que estão esgotados desde 1957-63. Embora lhe diga desde já que, em 99% de casos semelhantes, confio a 100% no seu julgamento. E gostava imenso de a ver a escrever mais sobre os livros de que gosta.

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