Pinóquio

When you Wish Upon a Star

“Drive” é uma fábula. “Drive” é o Pinóquio.

O melhor filme de 2011 é um pulp noir, um action thriller, um moleskine do novo século. Mas é, sobretudo, um conto de fadas. “Drive” decorre na Los Angeles contemporânea, a cidade sem centro, que se move sob pneus, onde andar a pé é uma arte esquecida, um lamento. Mas podia decorrer em qualquer cidade, de qualquer tempo. “Drive” não tem tempo, só a memória da humanidade.

O protagonista, The Driver – assim mesmo, sem nome, raiz, paradeiro – parece ter nascido na oficina do seu protector (do seu construtor?), Shannon, o Gepeto de Laurel Canyon, o mecânico dos infelizes. Talvez Shannon tenha montado The Driver peça a peça, no elevador hidráulico das traseiras, e lhe tenha dito: “caminha, fala, descobre”. Ryan Gosling, The Driver, tem os olhos caídos numa tristeza imprecisa, ele que não é deste mundo, do mundo dos homens. Mas o seu sonho é esse: fazer-se humano, pertencer.

A canção que percorre o filme, que percorre a fábula – “A Real Hero”, dos College – não pára de desejar, noite dentro, quando as luzes são estrelas cadentes:

“You’re a human being, and you’re a hero

You’re a real human being, and you are a hero”

Reparem em Gosling, no seu doce sonambulismo, o olhar à descoberta da vida orgânica, da melhor forma de pronunciar uma frase (todas as palavras lhe doem, como se as processasse numa mente cheia de velas, fios, óleo) ao ritmo correcto de amar (todos os sentimentos lhe são novos, como se os palpitasse num coração a diesel).

The Driver é um aprendiz do que é ser gente , como Pinóquio – nesse aspecto, se sobrevivesse ao filme e tivesse filhos com Irene, poderia ser o pai de Rick Deckard, o ciber-polícia de “Blade Runner”, minotauro do futuro.

Os únicos minutos em que cumpre a sua função neste mundo estrangeiro, como o motor de conbustão que é, são os 5 minutos ao serviço de quem o contrata para conduzir. Conduzindo, ele e o automóvel são um mesmo ser – é a única coisa que faz tão facilmente como respirar. Ele compreende a lógica e o funcionamento do carro como objecto mecânico, como mensagem de precisão e velocidade. Porque ele também é um objecto mecânico, tornando-se o maior hino à estética da precisão e à cinética da velocidade.

Fora do carro, da borracha da sua pele na pele do volante, torna-se tão frágil como Pinóquio, e precisa de aprender tudo, até a perdoar-se por não saber quem é.

Como “Drive” é uma fábula, a sua história e a sua mensagem são intemporais. “Drive” não é “Heat”, ou “Collateral”, os contos urbanos de Michael Mann numa L.A. muito precisa, e muito contemporânea. Nem o realizador Nicolas Winding Refn é Mann. São ambos estilistas, mas Mann parte da corrupção dos homens para procurar códigos de integridade (normalmente, os seus personagens mais íntegros são ladrões e assassinos, não polícias). A violência em Mann é inevitável, mas tem consequências morais. Refn, que sempre teve uma abordagem niilista da violência – sem recorrerem à violência, as personagens da trilogia “Pusher”, de “Bronson”, de “Valhalla Rising” perdem o gosto de existir – carregou no travão em “Drive”, e optou pela candura dos “fairytales” (há momentos em que também parece que estamos na vigília do liebestraum). Já havia niilismo no “The Driver” de Walter Hill, mas o Ryan O’Neal desse filme é um monstro de calculada frieza ao lado da terna hesitação de Ryan Gosling – além disso, Refn não se interessa particularmente por carros e, como confessou à imprensa,  nem sequer sabe conduzir. Se há pontos em comum com Hill, fazem-se através de “Streets of Fire”, uma bela “rock’n roll fable”.

Por vezes, “Drive” é extremamente violento, mas essas explosões são o resultado das experiências do protagonista em perceber os limites da fronteira humana: reparem como ele alterna a mais profunda compaixão com a mais implacável agressividade. O carinho e a rispidez. A inocência com a sabedoria.

The Driver, de luvas (como Pinóquio) e  blusão de cetim branco, está à procura da sua natureza. Tacteia a noite, em busca. Traz um escorpião nas costas, e conta essa outra fábula, a do escorpião e do sapo que atravessam o rio (Orson Welles e Mr. Arkadin gostariam dele). Tem as hesitações e a bonomia de uma criança – como Pinóquio.

Não há sexo em “Drive”, ou entre The Driver e Irene (Carey Mulligan). Ele ama tanto Irene como Benicio, o filho dela.

Irene, a study in orange

Ele também ama o marido dela, Standard (é por ela mas também por Standard que a tragédia acontece). The Driver está apaixonado por aquela família, pela ideia humana de família – só não terá tempo para a experimentar como um deles. Como um de nós.  Nino (Ron Perlman, o Lobo Mau) trai-o, como o Stromboli de “Pinóquio”. E Bernie Rose (Albert Brooks) engana-o duas vezes, como  o Honest John de “Pinóquio”. Mas não há Grilo Falante que o salve.

  E a nós, há Grilo Falante que nos salve?

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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7 respostas a Pinóquio

  1. Luciana diz:

    Palavras encantadas, estas que me apegam a um filme que mal vi o trailler. Quem, sintomaticamente, admirava de Clarice o dizer-se “estrangeira na terra”, já se põe ansiosa pelo filme. Lindo post.

  2. Diogo Leote diz:

    As saudades que eu já tinha de te ler, Mestre Marta Santos. Voltaste em grande forma, e logo para me fazeres aplaudir ainda mais a genialidade de “Drive”. Não sei se Refn lerá as tuas palavras, mas, se o fizer, estou certo que se apressará a reconhecer que o desmascaraste ou, no mínimo, que interpretaste como ninguém o seu subconsciente. Resta-me ler e reler o teu texto. E, claro, rever e rever o filme, o melhor de 2011 para mim também.

  3. Rita V diz:

    Pedro
    deixe-me tirar o chapéu.

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Pedro, para quem quase não vê cinema (ultimamente, é certo) este texto é quase a contrição necessária a uma confissão digna de tal nome.
    Juro que hei-de ver!

  5. manuel s. fonseca diz:

    Bela e arrojada comparação com o Pinóquio. Terrivelmente difícil a aprendizagem de ser-se humano. Já tinha gostado muito do filme: agora gosto mais.

  6. Pedro Norton diz:

    Welcome back master. vou ver e vou gostar. até porque não me interesso por carros.

  7. Pedro Marta Santos diz:

    Queridos amigos, agradeço a gentileza. Tenho projectado mentalmente os vossos posts, todos os dias.

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