Podia escrever um livro

a multidão hercúlea

Podia escrever um livro: bastava-me dizer tudo o que não sei.

Em 1975, na cidade do Lobito. Gostava de me ter visto. E se me visse agora, veria exactamente o quê?
Era uma coluna de camiões a atravessar a cidade surpreendida. Milhares de umbundos. Vinham do mato, dos kimbos. Vinham de bairros que os brancos nem suspeitavam. Nenhum daqueles homens era só um homem: chegavam e entravam como uma multidão, uma epidemia que desaguava no sangue da cidade. Podia escrever um livro com o que já então não sabia sobre essa multidão umbunda do Mpla. Pequena multidão comparada com a gigantesca, hercúlea, que a Unita nesses dias havia de juntar.

Num dos camiões iam os meus vinte anos. Eu ia sozinho. O vírus branco no meio da multidão bantu. O rapazinho de Luanda no meio dos umbundos, rapazinho de óculos e barba mal feita. O meu camião negro, que o Mpla trazia para se manifestar contra o galo negro de Savimbi, cantava em umbundo contra o chicoronho, o colono, o branco que tinha de se ir embora. O camião negro em que eu ia olhava-me com um misto de ironia e compaixão enquanto cantava em umbundo: branco, colono, vai-te embora.

O que é que eu via se agora, no meio dos camiões militantes, independentistas, angolanos, negros, visse os cabelos soltos, hippies, de um espúrio rapazinho branco… Podia escrever um livro com esta ideia: a independência era a única forma de experimentar a minha solidão branca.
Podia escrever um livro se Miles Davis, a trompete e solidão, não o tivesse escrito já.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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8 respostas a Podia escrever um livro

  1. António Eça de Queiroz diz:

    La está! É que estou-te a ver agora mesmo, do meu exterior topográfico mas na mesmíssima ‘filosofia’ (vai entre aspas porque não é política) existencial. Do comboio para Malange, talvez numa passagem de nível, ou numa estrada paralela.
    E não é que tenho sempre saudades?…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Esse teu lendário comboio pede Coltrane. As tuas saudades são as minhas. (Teresa, não te assustes que isto não é amor, é só uma risonha trip!)

  2. Pedro Norton diz:

    Perdoe-me se lhe pergunto mestre. Estou aqui a trocar os olhos e não o vejo entre a multidão hercúlea. Ou é às suas cavalitas que discursa o rapaz do microfone?

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ó, ó, ó, vossa eminência passa o tempo a trocar-me cardinaliciamente as multidões… Faça-me é um favor, não me leia os posts lá no seu sofá.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Como diria o outro, estimada Princess, there’ll be the day! Escreve quem sabe, como acima vê eu mal sei que nada sei.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Está a ver: pensei que era a mim qu eu me estava a contrariar. E assim dizendo até parece que a estou a contrariar outra vez…

  4. ~CC~ diz:

    E já leu o da Dulce Maria Cardoso – “o retorno”? Faça como ela, um ano fora do país (parece que ela escolheu a fria Alemanha para escrever sobre a quente África), só você e o papel…(e nada de filmes, muito menos DVD).
    ~CC~

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Ah pois li e confesso que gostei bastante. E agora eu vou lá para a Alemanha arranjar problemas à Senhora Merkel! There’ll be the day.

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