Poker e bolachinhas

 

Sempre gostei de poker de cartas, mas foi fora do baralho que consegui uma das jogadas que maior gozo me deu em toda a minha vida. Até porque nas cartas as coisas nem sempre correm bem (além de que já não jogo minimamente a sério).

O momento deu-se no Verão de 1989, ano de grandes e múltiplas vertigens na Comunicação Social escrita, onde se destacou o advento do Público e a consequente e dolorosa série de recolha de órgãos frescos para imediato transplante, efectuada nos papudos e saborosos lombos do Expresso.
A euforia provocada pelos salários que a partir desse momento se foram praticando no jornalismo dito de referência teve ondas de choque curiosas: nesse ano fui aumentado duas vezes no Jornal do Comércio, mudei-me para o quase nado-morto O Liberal por mais do dobro do ordenado anterior (mas só por dois meses), e acabei o ano a festejar como quadro do Expresso.
A tal jogada fica aqui no meio, algures, em sítio que vou agora meter no GPS: o Liberal era uma máquina doida, deficiente e infeliz, e eu a ver; a delegação do Expresso no Porto estava vazia como um ovo sem pinto, e eu a ver; a irritação com o meu novo ‘jornal’ era tanta (e eu a ver!) que me demiti sem mais e fui de férias.
Quando voltei, em finais de Agosto, confirmei o que já sabia: Francisco Balsemão ia estar no Porto à cata de novos valores. É claro que me fiz convidado para a cerimónia!
Na sala estavam já o Carlos Magno, o indigitado chefe da delegação, o Jorge Fiel, a chefiar já a secção de Economia, o dr. Balsemão e ainda um obscuro (para mim, claro) administrador do Expresso. Obviamente propus-me como redactor, por valor idêntico ao que recebia no emprego que entretanto já não tinha.
Chegava-me perfeitamente.
Por fim, depois de conversações a que fui completamente alheio, o Carlos Magno disse-me algo como isto:
 Ok, entras já, mas dava jeito que só entrasses para o quadro em Janeiro…
Rápido que nem uma naja cuspi esta mentira exacta:
– Nada disso. Ou entro agora de vez ou fico onde estou porque ali, pelo menos, estou no quadro. Afinal, estou a pedir apenas o mesmo que ganho lá, as mesmas condições…
O Magno ainda se preparava para balbuciar qualquer coisa, mas o dr. Balsemão veio em meu auxílio – o que muito lhe agradeço agora (sei que tarde, mas mais vale tarde do que nunca). Confesso que sorri.
Em Outubro iniciava 18 anos de Expresso.

Isto tudo para chegar ao Público – mas sem largar muito o Expresso, já que tenho a pretensão diletante de querer explicar a razão do declínio (divergente) de ambas as publicações.
O nascimento do Público criou de repente uma oferta que não havia em versão diária, o improvement conseguido à custa do vasto músculo financeiro de Belmiro de Azevedo parecia provar que ele conseguira a sua ‘nobilitação’ empresarial ao entrar como vencedor numa área a que era, por cultura natural, alheio.

Uma bela jogada, parecia então.

Mas depois começaram a surgir questões aborrecidas, tais como o retorno do investimento (que nunca aconteceria), o falhanço da televisão e do grupo de comunicação sonhado, as caríssimas consultas a consultoras estrangeiras (brasileiras, espanholas, americanas, marcianas…), e os primeiros sinais de que os trepidantes anos 90 iam acabar tremelicantes.
Despesas desmedidas com delegações, e mais carros, e hectómetros cúbicos de opinativos caros, deslocações quase faustosas, telemóveis como batatinhas, táxis para ir buscar os filhos todos da administração à escolinha, ao liceu e ao ballet, contas de direito próprio que se continuaram a pagar quando o tal direito já não existia? Distribuição e vendas caóticas, mudanças perturbadoras de instalações, administrações de ‘boys’ de grupo que jogavam o seu próprio jogo mais ou menos solitário? Uma administração proporcionalmente muito mais pesada nos custos gerais do que uma redacção? Terá havido disto?

É possível.

Mas também é possível que a dada altura o chamado jornalismo de referência tenha sido lenta mas paulatinamente invadido por uma outra cultura jornalística que se borrifa para as referências e pensa é em números mais – sem sequer se dar conta que esses tais números mais já estão há muito tomados por quem faz isso com outra, chamemos-lhe, categoria…
Ou seja: acompanhando a queda das receitas gerais, o nível baixou – por múltiplas razões, claro, mas a diminuição das redacções é uma evidência –, e com isso a referência foi-se esbatendo, perdendo clientes dum lado sem ganhar nada, obviamente, no outro. Ou seja: má jogada!
A tentação tablóide, que em Portugal é moderada e talvez por isso um pouco patética, não descamba logo para a sangria desatada nem para o vulgar voyeurismo dos famosos – embora também os use esporadicamente e ao de leve. Faz uma coisa mais simples e preguiçosa: empola os títulos até ao ridículo e mente sobre a matéria que anuncia.
Depois pede desculpas, quando lhas exigem – o que nem sempre acontece.
No caso do Público há pelo menos uma virtude instituída desde o seu início: «O Público errou» será ainda uma das grandes referências do diário de Belmiro de Azevedo. E o em bom tempo recuperado lugar de Provedor do leitor recupera também alguma fé nos que ainda consideram este o melhor diário português.
Remeto-me ao primeiro tema tratado por José Queirós no passado dia 8, e que por essa posição titula a sua coluna Provedor do leitor.
Um título enganoso refere-se a isso mesmo:
«Um quinto da população portuguesa não tem qualquer nível de ensino», o que seria terrível se correspondesse a alguma coisa. Porque no texto fica-se a saber que neste quinto (2,2 milhões de pessoas) estão incluídas centenas de milhar de crianças que nem idade têm para aparecer numa estatística de escolaridade.

É desta tentação tablóide que falo, e é dela que fogem os leitores dos chamados jornais de referência.

E bolachinhas não há.

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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16 respostas a Poker e bolachinhas

  1. isabel Rocha e mello diz:

    Gostei do teu texto…e muito mais haveria para dizer da actual comunicação social que de social hoje tem pouco , mas inocentemente pasmei com as mordomias de ballets, de escolinhas de chauffers , de boys etc.. porque temia eu, que essas desonestidades tinham um carimbo mais aqui da “panache ” do sul mas pelos vistos igual mais a Norte.Razão tem quem diz ” o problema de Portugal são os empresários.” Viajei com alguns variadas vezes e tinha vergonha de tanta ignorância e tacanhês juntas, mas tinha em mente “os outros são melhores…tive azar apanhei o piorzinho”…Hoje tenho a certeza que aquilo era o melhorzinho…Da exigência de uma facturinha na India no valor de 300 rupias, que deve ter fundido o unico neurónio do contabilista para desconto no IRS não sabemos de quem ,até a saltos altos para visitar a Capadócia , apanhei de tudo .. mas achava eu que o Belmiro era diferente….helas!!!!!

    • António Eça de Queiroz diz:

      Isabel, a tal ‘panache’ do novo rico é um vírus que tudo infecta. E nota que o Belmiro nem faz muito o género. No entanto, a criação do jornal produziu vário efeitos secundários, entre eles este…

  2. Ana Vidal diz:

    Belo texto, António, e muito esclarecedor do que se tem passado no nosso jornalismo dito “sério”. Apesar do muito respeitável quase milénio de história nacional, pelos vistos temos vivido num país de deslumbrados e novos ricos, onde o mimetismo do que se considera “vida de luxo” contamina tudo e todos os que vagamente têm acesso a ela, nem que seja por 5 minutos. Da política ao jornalismo, dos bancos à função pública, todos se acham no direito de gastar à tripa-forra assim que podem fazê-lo, com um despudor saloio e mal-formado. E deu nisto em que estamos, é claro. Agora paga o justo pelo pecador e todos temos de apertar o cinto até à asfixia digestiva, o que afinal nem é difícil, dada o cada vez maior vazio no estômago. Mas é triste.

    • António Eça de Queiroz diz:

      É triste e em boa parte escusado. Eu acho graça aos consultores (e aqui o Expresso também andou a pagar para perder dinheiro): um trapezista de marketing, americano ou brasileiro, sabe como melhor vender jornais em Portugal?
      Então porque não vendem?
      Ainda bem que gostou, Ana.

  3. podia chamar-se
    ‘sem papas na língua’

    Boa!

    • António Eça de Queiroz diz:

      É isso, Rita, já não há espaço para as papas…
      Nem sequer para bolachinhas!

  4. bernardo Vaz Pinto diz:

    Retrato realista do mundo do jornalismo, que não conheço, ou retrato de uma sociedade? Acredito que já não há bolachinhas, mas sinto que as havia em abundância, ao virar de cada esquina, e não só nas redações dos jornais, nas sedes dos bancos, nos gabinetes de administração das “grandes” empresas. Tudo se resume a uma mentalidade. Foi realmente “um vírus” que se espalhou…continuo a achar que a diferença tem de ser feita por cada um de nós…e não é fácil. Agora: abaixo as ilusões (e as bolachinhas, e os trapezistas de marketing e os “cultural experts in cost control”,…etc etc.)!!

    • António Eça de Queiroz diz:

      O que se passou nos jornais (e nas televisões, mon Dieu!) foi um reflexo do que se passava na sociedade em geral, Bernardo, disso não há qualquer dúvida e a prova está à vista no desconchavo absurdo que agora vivemos. Qualquer contabilista de 3ª categoria saberia diagnosticar isso ao primeiro olhar no ‘deve e haver’…
      E não deixa de ser engraçado verificar que nos limitámos a copiar o que de mau vinha de fora: nada pior que um provinciano convencido pelos brilhos exteriores. Entre o concurso dos gordos da SIC e o meu concurso de traques em Lamego (velho de 45 anos), prefiro o meu: é bem menos patético.

  5. manuela cerca diz:

    Belo texto e bem esclarecedor de uma triste realidade que em nada enobrece o jornalismo actual. Revi-me completamente neste” jogo de cartas, sem bolachinhas” onde em tempos também tive um discreto lugar á mesa. Boa, António! Gostei!

    • António Eça de Queiroz diz:

      Fico muito contente que tenha gostado, Manuela.
      Se esteve «à mesa» não há como não reconhecer o padrão.

  6. Luciana diz:

    “Faltam bolachinhas em todos os continentes”, eis a manchete.

  7. António Eça de Queiroz diz:

    Ai agora faltam, Luciana, andaram a dançar em cima delas…

  8. António Eça de Queiroz diz:

    Prontos!
    Já está!
    Os seus desejos são ordens!
    E eu cumpro…

  9. Diogo Leote diz:

    O fim da página da “Cultura” foi sintomático do início do declínio do “Público” (eu, que começava sempre por ela, quase me senti órfão) e da cedência a um formato mais popularucho. Mas, ainda assim, continua a ser o diário de referência. Pelo menos enquanto existir o “ípsilon” à sexta.

    • António Eça de Queiroz diz:

      Claro que é, Diogo, mas há quem lhe queira fazer muito mal e já a seguir…
      Mas mentir nos títulos à Correio da Manha é que não pode ser!

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