Pornopopeia

O rapaz estava no bom caminho. Era o que diziam os que lhe eram próximos. O vício parecia, finalmente, ter ficado para trás. Mas todos os cuidados eram poucos. A verdade é que ainda não estava definitivamente afastado o perigo de uma recaída. A tentação, avisavam os reincidentes, estava à espreita em cada esquina.

Não fosse o diabo voltar a fazer das suas, recomendaram-lhe uma casa de gente honrada e aprumada, de princípios austeros e sólida formação moral. Aí, garantiram-lhe, poderia refazer a sua vida, longe dos fantasmas do passado. Estava certo que “aquilo” não seria tema de conversa. E, se o fosse, não passaria, seguramente, de uma nota de censura num qualquer episódio amoroso com final trágico. Ou de um apontamento didáctico sobre as virtudes da abstinência. Em todo o caso, se o assunto viesse à baila, ele saberia comportar-se à altura das circunstâncias.

Começou por estranhar a metáfora da condução automóvel, logo ao segundo dia de estadia na casa. Vieram-lhe à memória os pesadelos que o Cronenberg lhe provocara, no ardor do vício, por causa de colisões no asfalto. Depois foi aquela história da “vergonha” a pôr à prova a sua capacidade de contenção. Interrogou-se mesmo se não o estariam a testar, servindo-se dos mais irresistíveis engodos. O que veio a seguir só veio confirmar que era fundada essa sua suspeita. Logo após o aviso sobre o efeito subversivo do calor dos trópicos, tiveram o descaramento de lhe meter à frente dos olhos um filme – e logo em formato de curta-metragem para não lhe darem tempo de disfarçar a sua ansiedade – baseado, pois claro, num conto do Reinaldo.

Sim, do Reinaldo Moraes. Agora que o verniz estalou e todas as suas defesas estavam por terra, já se estava nas tintas para quem o queria mandar calar. Fazia mesmo questão em gritar a plenos pulmões que nunca ninguém escrevera sobre “aquilo” como o Reinaldo Moraes o fizera no seu genial “Pornopopeia”. Que “aquilo”, pela pena do Reinaldo, se tornava delirantemente inventivo, despudoradamente divertido, depravadamente excessivo, sofregamente tentador. E, claro, viciante. Viciante na leitura, bem entendido, porque, quanto ao outro vício de que a escrita de “Pornopopeia” se alimenta, a lição a tirar talvez não seja bem aquela que o título sugere.

Para os demais moradores da casa, o pobre rapaz parecia já não ter remédio. Tanto alarido por causa de um romance. E logo um romance sobre um cineasta marginal sem um tostão a quem foi encomendado um guião para um filme publicitário sobre enchidos de frango. Só isso? Sim, dizia o rapaz em estado de delírio extremo, mas era o melhor romance sobre um filme publicitário sobre enchidos de frango que a humanidade jamais produzira. Ah, claro, e tinha “aquilo”. “Aquilo” contado com todas as palavras de que se fazem os excessos.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

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16 respostas a Pornopopeia

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    É, portanto, um romance a cair-se já de olhos nele, não é Diogo? E foi, Diogo, uma bela desculpa para tão bem escreveres sobre os teus gostos perversos… Com que então enchidos de frango!

    • Diogo Leote diz:

      Tudo culpa “daquilo”, Manuel. Depois dos “crash” do Cronenberg, o meu maior pesadelo é o de me imaginar num carro a alta velocidade a lambuzar-me com enchidos de frango.

  2. Luciana diz:

    Bem sabia eu que um dia os ditos popularares fariam sentido. (a) moral da história: de grão em grão a galinha enche o papo.

  3. Luciana diz:

    Eugénia, que beleza como palavras íntimas se tornam o mais completo aramaico, basta a disposição: “virar o bico ao prego”. Vou passar um tempo tentando decifrar.

  4. O Eco de Umberto diz:

    Desconfio que para presente é melhor aguardar pelo dia dos namorados e deixar passar o Natal.

    • Diogo Leote diz:

      Caro Eco, é um presente que não se recomenda, em época nenhuma, a um marido/mulher, namorado/namorada ou aparentados. Pode ser mal interpretado…

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Sinto-me completamente utilizado!
    E bem.
    Compro já. De seguida.

  6. Pedro Norton diz:

    Tiveste uma recaída, Diogo?

  7. Diogo Leote diz:

    E o problema, Eugénia, não será de quem pregou o prego? Ele estava tão solto…

  8. Ana Rita Seabra diz:

    Fiquei curiosa!
    Achas que fica mal pedir ao marido para ofercer? bjs

    Aqui vai um link: blogues.publico.pt/atlantico-sul/…/reinaldo-moraes-tesao-ou-morte-2/Em cache

    • Diogo Leote diz:

      Bem vinda, Ana Rita. O teu marido só te poderá oferecer o livro se… não o tiver lido antes. Isto, claro, se a tua curiosidade te levar ao ponto de querer saber como funciona a cabeça de um homem totalmente viciado “naquilo”. Depois não me culpes se não conseguires parar de rir. Obrigado pelo link, vou espreitar.

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