Seis pontos onde pousar

Da guitarra brasileira, indisputável que o “messianato” é dele: Roberto Baden Powell de Aquino. Mas, se é assim, o São João Batista chama-se Laurindo. Laurindo Almeida. Um session musician completo, que gravou discos em dueto com Stan Guetz e outros luminares do Jazz. Também colaborou com o cinema, compondo e arranjando trilhas. E, no entanto, nada de Laurindo soa improvisado. Sequer seus improvisos. Em geral, por escalas menores ou diminutas. Longe disso. Há uma elegância jazzística combinada a baixos de choro ou seresta aliados a uma técnica que transcende os procedimentos eruditos.

Em seus últimos anos, Laurindo já falava português com o carregado sotaque de quem mudou-se para os Estados Unidos à época de Carmem Miranda. Acompanhando-a. Porém sua música seguiu caminho inverso.

Por essa quadra era virtualmente impossível ser apenas um violonista, viver disso no Brasil. Mesmo para esses caras geniais. Alguns anos depois, o próprio Baden também teve de exilar-se para poder viver de sua música, longe das confusões pós-golpe de 64. E talvez por pilhéria – que não era seu fraco – fixou-se no balneário de Baden-Baden.

Há muitos anos atrás, ainda na década de 70, lembro de uma matéria no Fantástico – o programa dominical da Globo. Era sobre um casal de crianças da favela que havia sido adotado por suecos ainda na primeira infância. O garoto seguira de meses, e já não lembrava de nada. Sua mente escandinavizara-se por completo. A menina, então já uma mocinha, referia-se ao Brasil com algum vestígio de saudade. Como uma terra remota e sonhada. A outra terra. A da utopia que temos todos. E com olhos onde havia uma evidente vontade de volta. Nem que para refazer de um lugar de novo um local. E complementava essa vontade de regresso cantando.

A canção era… “Manhã de Carnaval”. Ela cantava com imensa dificuldade e carregado sotaque, mas com visível vontade de fazê-lo. De expressar-se. Foi um momento raro na televisão. Tocante. E um vero atestado da força da música como um dos mais fortes índices de cultura.

Voltando à limpidez emblemática do violão de Laurindo Almeida, segue ele aqui acompanhando a mezzo soprano Salli Terri numa versão do primeiro movimento (Aria) da Bachiana Brasileira N.5, esse outro documento da raça, a exemplo de “Manhã de Carnaval”. Villa-Lobos compôs a quinta das Bachianas para um ensemble de violoncelos e soprano. E no entanto a fluidez desta versão assegurou-lhe, dizem alguns, ser a favorita do autor:

Bachianas Brasileiras No.5 Aria – Salli Terri e Laurindo Almeida

Um Bom Natal pra Você!

* * *

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
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8 respostas a Seis pontos onde pousar

  1. Rita V diz:

    … que bonito!
    Obrigada Ruy
    além mar
    Um Bom Natal também ‘pra você’

  2. Pedro Norton diz:

    Gostei muito, Ruy. Do Laurindo,do texto e da história da menina.
    Bom natal!

  3. Diogo Leote diz:

    Por mais perdas de soberania que se imponham, uma nação continuará viva enquanto subsistir (pelo menos) a sua identidade musical. Um óptimo Natal para você, Ruy.

  4. Luciana diz:

    Gosto como todas as histórias ganham ritmo e luz quando passam por suas letras, Ruy. Ótimas festas, um abraço carinhoso.

  5. Carla L. diz:

    Um bom Natal colocado desta forma não poderia ser melhor.E seu texto levou-me também a Baden Powell assim desse jeito: http://youtu.be/tN6ti5ay108.

  6. António Eça de Queiroz diz:

    Uma beleza, história com música.
    Bom Natal, Ruy!

  7. manuel s. fonseca diz:

    Gostava tanto de ter ouvido cantar essa escandinava “Manhã de Carnaval” quanto gostei ler o seu Laurindo, São João Baptista.

  8. Ruy Vasconcelos diz:

    gratos primas Rita e Eugénia, não sei qual das duas a mais levada, ambas têm aprontado um bocado nestas semanas; ubíquo e versátil Manuel, nosso informalíssimo editor/memorialista/cinéfilo e uma porção outra de coisas mais; vossa eminência reverendíssima cardeal Norton, de belas crónicas; António, o ‘enfant terrible’ da imprensa portuense; Diogo, de quem tanto aprecio os textos (e, em especial, os que nos sugerem novas audições de música); Carla, de quem “afanei” um post e que mora numa cidade que achei uma espécie de duplo da minha, mas sem o mar (defeito que não se corrige fácil); e à Luciana, a quem agradeço duplamente, por estar quase aqui do lado e vir ler-me desta outra margem do açude.

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