Sexo, digamos, sem complexo…

Não é pre­ciso ler o último Var­gas Llosa* (edi­tado cá, pelo menos) para se che­gar ao conhe­ci­mento dessa espe­cial carac­te­rís­tica que os tró­pi­cos dão ao sexo: a sua gene­rosa urgên­cia vivida no colectivo.

dese­nho de Neves e Sousa

Em pri­meiro lugar, e a razão é boa para este top, basta ter lá estado alguma vez para lhe ter sen­tido o fer­mento. Depois, o empi­rismo mais ele­men­tar dá conta de que o Norte euro­peu sem­pre deman­dou os meri­di­a­nos do Sul em busca daquilo que só com difi­cul­dade encon­trava em casa (com todos os géne­ros no pacote, não se pense que sou machista que não sou).
Na posi­ção de quem já viveu por tais lati­tu­des dou um exem­plo prá­tico, objec­tivo, mate­rial, que pode ser ates­tado (quero acre­di­tar que sim) pelo nosso que­rido líder de pas­sado ango­lano, e que com­prova um pouco mais a ver­dade desta mini-tese.

Em Luanda havia um pré­dio que tinha uma alcu­nha bem curi­osa: era o ‘Treme-treme’. O que cara­te­ri­zava o ‘Treme-treme’ para que todo o luan­dense e muito foras­teiro de retorna-viagem o conhe­ces­sem assim tinha a ver ape­nas com duas par­ti­cu­la­ri­da­des: o grosso dos seus habi­tan­tes eram mulhe­res novas e sózi­nhas (ou nem por isso) e o grosso dos seus visi­tan­tes ou hós­pe­des tem­po­rá­rios deman­dava o local com objec­ti­vos bem vin­ca­dos.
Pois, isso mesmo, não há qual­quer neces­si­dade de mai­o­res expli­ca­ções, tam­bém acho.

E era isso o ‘Treme-treme’…

Por estas e por outras tenho grande difi­cul­dade em ima­gi­nar a ‘curta’ que está aí em baixo feita por outros que não por bra­si­lei­ros — em espe­cial com tanta graça e à von­tade.
É que não é só a tal urgên­cia gene­rosa: há tam­bém um texto e, acima de tudo, uns actores.

Riam-se lá um bocado, seus (meus) tristes!

*(dia­chos, só agora repa­rei que nem falei do livro: é O Sonho do Celta e é um romance bio­grá­fico pesa­de­li­ca­mente bom)

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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10 Respostas a Sexo, digamos, sem complexo…

  1. Pedro Norton diz:

    Antó­nio: sim­ples­mente genial!

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    J’ai bien aimé, mon cher poète.
    (Agora, Antó­nio, con­fessa: este pré­dio tão ins­tá­vel que tu fre­quen­taste não seria um pudim, o teu amûse-bouche!)

    • António Eça de Queiroz diz:

      Só vi ao longe, muito ao longe, meu bom Líder.
      Aquilo era para gente de gran­des galões e trin­cheira, e eu não pas­sava dum pobre franco-atirador

  3. Carla L. diz:

    Bene­dito, que tra­gi­co­mé­dia!!!
    Aposto que fica­ram com dó do Horácio…mas coi­tada mesmo é da Maria Helena.
    E falando em Treme Treme, São Paulo tam­bém teve um: http://epoca.globo.com/edic/20001106/boxbrasil4_5a.htm

    • António Eça de Queiroz diz:

      Sim, Carla, a Helena é a esfor­çada, o Horá­cio um canas­trão.
      Mas olha que o ‘Treme-treme’ de Luanda era pré­dio caro, nada decré­pito — embora tenha ideia de que houve lá um crime tam­bém, pelo menos um!
      Aquilo era cou­tada de milionários…

  4. O Eco de Umberto diz:

    Feno­me­nal — isto nem na casa dos budas ditosos.

  5. António Eça de Queiroz diz:

    Ainda bem que gos­tou, caro Eco

  6. Teresa Font diz:

    Ahahahahahahahos cor­nos caver­no­so­sahahahahaha­ma­ria hele­na­ahahaha.
    (Genial, Antó­nio. E sério can­di­dato ao filme menos eró­tico do mundo)

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