Triste sina

 

Lá na aldeia, nunca nin­guém lhe vira mais do que uma caran­to­nha fechada. Nem uma excla­ma­ção, um esboço de sor­riso, um gesto de satis­fa­ção sequer, saí­ram do corpo da triste senhora desde que che­gara àquele lugar. E que lugar curi­oso era. Um lugar onde todos – todos menos a triste senhora, claro — riam, riam muito, até por­que o riso era a única forma de comu­ni­ca­ção aí per­mi­tida. A lição da uni­ver­si­dade do riso – que todos, até ela, que aca­bou expulsa, foram obri­ga­dos a fre­quen­tar – era clara: ser ale­gre era um impe­ra­tivo lá da aldeia, e ai de quem não o res­pei­tasse atra­vés do riso, de pre­fe­rên­cia da forma mais alarve que o riso pode­ria per­mi­tir. Pouco impor­tava que nenhum motivo hou­vesse para rir, por­que o objec­tivo do riso não era esse, ape­nas o de evi­tar as emo­ções repug­nan­tes que (vade retro) cer­tos homens tris­tes – ao que se dizia, aman­tes de pala­vras, ima­gens e sons tris­tes – lá dei­xa­ram, con­fi­a­dos à triste senhora, segundo diziam as más lín­guas sem­pre a rir no seu riso mais trocista.

Mal sabiam eles que, enquanto riam alar­ve­mente uns dos outros, a senhora triste tam­bém ria. Ria para den­tro, den­tro de por­tas, com o melhor sor­riso que tinha, gra­ças a tudo o que os homens tris­tes que ali pas­sa­ram, vin­dos de outros luga­res, lhe tinham dei­xado em casa. Mal sabiam o que per­diam os homens do riso em nunca terem que­rido conhe­cer a casa da senhora triste. Tal­vez dei­xas­sem de a tra­tar por triste, tal­vez vis­sem nela, final­mente, a excla­ma­ção, o esboço de sor­riso, o gesto de satis­fa­ção, de quem, final­mente tam­bém, encon­trou o lugar de par­ti­lha que procurava.

Mas a senhora triste – e, afi­nal de con­tas, tão pouco triste por gos­tar de pala­vras, ima­gens e sons tris­tes – tem, e já não era sem tempo, com­pa­nhia em casa. Começa a ficar com­posta a casa dela. Sorte a dela – que é a sorte de todas as senho­ras tris­tes como ela – de ter uma casa de lota­ção ili­mi­tada. Onde cabe sem­pre mais alguém. Não fosse isso coisa de gente que ri o tempo todo de tudo e mais alguma coisa, até se pode­ria dizer que cabe lá o mundo inteiro.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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21 Respostas a Triste sina

  1. Teresa Conceição diz:

    Diogo, que bonito!
    Acho que vou gos­tar muito desta senhora.
    Mas parece-me que a casa dela é tão grande que vai demo­rar muito para conhe­cer só um boca­di­nho. Assim ela nos deixe entrar.

  2. Rita V diz:

    Diogo … que bonito!
    ainda ouço o eco da Teresa

  3. Cristina Féria diz:

    Diogo… a tris­teza é mesmo o riso triste…

  4. Eugénia de Vasconcellos diz:

    Há quanto tempo menino Diogo…

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Diogo, mora longe a senhora triste?

    • Diogo Leote diz:

      Sabes bem onde a senhora mora, Manuel. Sabes bem que foste tu o líder da triste pan­di­lha que lhe con­fiou o tesouro que ela guarda na casa.

  6. Luisa Clode diz:

    Porém, ler não é triste!! Bonito texto, parabéns!

  7. António Eça de Queiroz diz:

    Quase diria conhe­cer esta senhora, Diogo, é-me fami­liar, embora não con­siga per­ce­ber bem porquê.
    Belo retrato!

  8. Anjo Negro diz:

    Ai, ai … bonito, sim senhor! Acho que per­cebi a ideia mas vamos lá nave­gar em águas menos tur­vas que tu de aldeias o que de mais pare­cido conhe­ces é a Praia da Rocha nos anos 70!

    Fico muito con­tente que tenham saído do Jazigo e se reen­con­trado aqui! E eu garanto a quota de lei­to­res fora de Por­tu­gal com a pro­messa de divul­ga­ção ativa no Rio e em Sampa!

    • Diogo Leote diz:

      Z… (ia-te cha­mar pelo teu nome de registo civil mas garanti a tempo a con­ti­nu­a­ção do teu que­rido ano­ni­mato), sorry, Anjo Negro, que sejas muito bem vindo a esta nova casa. Se aqui te demo­ra­res, tu, grande Senhor de Aldeia, estou certo que terás mui­tas memó­rias com que nos entre­te­res. Não me venhas com a Praia da Rocha dos anos 70, que esta aldeia pouco tem a ver com essa, ou com tua que­rida aldeia em ter­ras bei­rãs (e eu sei que tu per­ce­beste de que aldeia eu estava a falar…). Vai apa­re­cendo por aqui, enquanto não nos vens visi­tar in per­son. E con­fi­a­mos nos teus méri­tos de grande divul­ga­dor da cul­tura e tra­di­ção por­tu­guesa no Bra­sil… Abraço!

  9. O Eco de Umberto diz:

    ©ria-se, assim, um pro­vér­bio: “Ri melhor quem ri por dentro”.

  10. Anne Victorino d' Almeida diz:

    Que bonito, Diogo.E como me revejo no que escreve, embora, no meu caso, na escrita musi­cal. Como é bom escre­ver triste!

  11. Diogo Leote diz:

    Obri­gado, Anne, seja muito bem vinda a esta casa triste. Já não sabia de si desde os tem­pos difí­ceis da Orques­tra Metro­po­li­tana, onde dei­xou um las­tro de grande talento e muita cora­gem. Espero que a sua car­reira vá de vento em popa. E vá apa­re­cendo por aqui!

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