Um buraco no céu

Água-tinta de António Vasconcellos (1954)

     Aos fins-de-tarde mais brumosos o Cavaleiro de La Mancha gostava de cruzar as matas húmidas e arenosas das marismas em busca dos ecos mais legíveis nas sombras.
O escudeiro Sancho nem por isso.
Mas lá conseguia do Cavaleiro umas quantas paragens mais demoradas, que dedicava a catar alguns cogumelos para com eles alterar um pouco a esqualidez habitual da ceia de papas de sêmolas e cardos, de que nos últimos tempos vinham vivendo. Um dia enganara-se na recolecta e trouxera  alguns matamoscas, mas quem pagara o seu erro fora o pobre fidalgo, que os comera a todos na companhia de uma perdiz, seguindo acordado por dois dias inteiros e duas noites iguais, em invectivas ao vazio e lutando com tudo o que mexia ou que julgava que sim.

Ele, Sancho Pança, também pagara, mas com o corpo: Quixote achara por momentos que o seu fiel escudeiro de sempre era afinal um dos maiores inimigos de Amadis de Gaula: zupara-lhe os lombos com uma vara de aveleira até lhe deixar marcas roxas nas carnes.
O Senhor de La Mancha só largara da sua acção punitiva quando o anafado escudeiro, bem resguardado pelos quadris do seu burrico ruço, gritara em assustado desepero: – «Mas se eu nem pouco conheço esse senhor!…».

Que vida!

A verdade é que o Cavaleiro Quixote, que tantos diziam de triste figura e mal-andante, conseguia intrigá-lo até à demência real que era esta sua fé de acompanhá-lo como escudeiro a troco de nada que não as suas espantosas aventuras. Mas não era bem a troco de nada: Sancho olhava sempre para o seu amo como quem mira para dentro de um sonho, que só entendia vagamente quando este o interpretava e dentro dele agia.
Naquele preciso momento, depois de ter enchido o alforge de uma boa dúzia de perrochicos e boletos – e da complicada operação que era montar o ruço sem cair logo do outro lado –, Sancho viu a figura esguia de Quixote levantar a lança como quem indica algo. De seguida, um grito de espanto:
– Ali! Vês aquele buraco no céu, Sancho? – disse o Cavaleiro apontando uma breve aberta por entre as nuvens por momentos visíves acima da bruma. – As cores dizem-me que é por ali que toda a honra se escapa! Foram os corvos que o abriram para se esconderem de mim na noite, que são seres escarninhos e cobardes! E a honra como é leve segue quase toda pela corrente do seu voo, como o fumo se escapa por entre os colmos… Só nós os dois, por léguas e mais léguas em redor dos termos de Granada, meu fiel escudeiro, possuímos a pouca que dela por aqui restou!…

Trotando para junto do amo, o Pança tentou um comentário de proximidade:
– E a Senhora Dona Dulcinéia del Toboso, Senhor Dom Quixote, a vossa amada também transporta a honra com ela, não é assim?…
A resposta de Quixote desiludiu o escudeiro, mas apenas por momentos:
– Dulcinéia, meu bom Sancho, desconhece a honra. Tem-na, sim, mas desconhece-a porque o Tempo insiste em esconder-lha. E para a roubarmos ao Tempo temos de combater os seus horrendos generais, que se resguardam da minha coragem nos seus moinhos de combate!
Os corvos são os seus olhos e a prata das suas armaduras espelha a luz do Sol para me cegar! E por isso só invisto contra eles de olhos vendados. É a minha segurança, sou mais antigo que a sua avidez e luxúria, e conto ainda com o seu imenso medo pelo desconhecido. Eles acreditam que podem viver sempre à frente do passado, mas não podem, nunca mais: vivem aqui, vomitam aqui as suas infâmias, mas o passado já os marcou para sempre, e para sempre lá ficarão um dia, no Sétimo Círculo do Inferno – como bem o mostrou o grande Virgílio ao não menor Dante, divinais cavaleiros!

Sancho coçou a cabeça ao mesmo tempo que alisava o cabelo ralo e escorrido das névoas que com vagar se instalavam de novo na marisma, escondendo copas de árvores e horizontes prováveis. Por fim, na sua voz rouca e confiante, perguntou:
– Creis vós que do Inferno constam sete círculos?…
– Pois se Virgílio os mostrou com o consentimento de Deus e dos centauros! De onde vêm então os violentos, que infernam vidas humildes? O tirano Ezzelino cozinha-se com vagar num caldo grosso de sangue, nesse infernal lugar, e os seus pesados vapores retornam à Terra tentando de novo os homens!…
Encontrarás tu, meu bom Sancho, melhor explicação para o que é?
– Que tenhais toda a razão, meu Senhor Dom Quixote – aquiesceu o escudeiro
No seu passo manso, Rocinante resfolegou concordando.

O eco de um grito longínquo indicou-lhes o rumo que iriam agora tomar.

Sobre António Eça de Queiroz

Estou em crer que comecei a pensar tarde, lá para os 14 anos, quando levei um tiro exactamente entre os olhos. Sei que iniciei a minha emancipação total já aos 16, depois de ter sido expulso de um colégio Beneditino sob a acusação – correcta – de ser o instigador dum concurso de traques ocorrido no salão de estudo. E assim cheguei à idade adulta, com uma guerra civil no lombo e a certeza de que para um homem se perder não é absolutamente necessário andar encontrado. Tenho um horror visceral às pessoas ditas importantes e uma pena infinita das que se dizem muito sérias. Reajo mal a conselhos – embora ceda a alguns –, tenho o vício dos profetas e sou grande apreciador de lampreia à bordalesa e de boa ficção científica.
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7 respostas a Um buraco no céu

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Que vida! A dos cavaleiros, sim, mas e a do cavalo? Gostei de o ouvir resfolegar concordante.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Aqui que ninguém nos ouve, Eugénia, imprevisível até para mim (24 horas antes do parto ainda estava eu a tirar ferrugem da caneta…)

  3. O Eco de Umberto diz:

    Dulcineia, a que espera, tão exposta ao tempo não saberá mesmo o que é a honra? Ou será mais um chiste do cavaleiro para iludir o bronco Pança? Resfolegou Rocinante, é certo, mas não ouvimos a azémola zurrar e, se bem me lembro do canónico, ero o asno menos parvo que o dono. Grandes perguntas para quem começa, D. António, que as brumas da Foz não lhe tolham a tinta.

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Caro Eco, acho que se percebe bem que o canónico não foi uma preocupação que eu tenha curado muito, mas a possibilidade do chiste é bem acertada. Já as brumas não são da Foz, sítio onde só vou raramente. São do mesmo do quadro.
    Obrigado pelo comentário.

  5. Carla L. diz:

    Fiquei um bom tempo aqui olhando prô Buraco do Céu em companhia de tão adoráveis figuras.E vou lhe dizer, Benedito, mas foi muita coisa que vi!!!

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