Aos fins-de-tarde mais brumosos o Cavaleiro de La Mancha gostava de cruzar as matas húmidas e arenosas das marismas em busca dos ecos mais legíveis nas sombras.
O escudeiro Sancho nem por isso.
Mas lá conseguia do Cavaleiro umas quantas paragens mais demoradas, que dedicava a catar alguns cogumelos para com eles alterar um pouco a esqualidez habitual da ceia de papas de sêmolas e cardos, de que nos últimos tempos vinham vivendo. Um dia enganara-se na recolecta e trouxera alguns matamoscas, mas quem pagara o seu erro fora o pobre fidalgo, que os comera a todos na companhia de uma perdiz, seguindo acordado por dois dias inteiros e duas noites iguais, em invectivas ao vazio e lutando com tudo o que mexia ou que julgava que sim.
Ele, Sancho Pança, também pagara, mas com o corpo: Quixote achara por momentos que o seu fiel escudeiro de sempre era afinal um dos maiores inimigos de Amadis de Gaula: zupara-lhe os lombos com uma vara de aveleira até lhe deixar marcas roxas nas carnes.
O Senhor de La Mancha só largara da sua acção punitiva quando o anafado escudeiro, bem resguardado pelos quadris do seu burrico ruço, gritara em assustado desepero: – «Mas se eu nem pouco conheço esse senhor!…».
Que vida!
A verdade é que o Cavaleiro Quixote, que tantos diziam de triste figura e mal-andante, conseguia intrigá-lo até à demência real que era esta sua fé de acompanhá-lo como escudeiro a troco de nada que não as suas espantosas aventuras. Mas não era bem a troco de nada: Sancho olhava sempre para o seu amo como quem mira para dentro de um sonho, que só entendia vagamente quando este o interpretava e dentro dele agia.
Naquele preciso momento, depois de ter enchido o alforge de uma boa dúzia de perrochicos e boletos – e da complicada operação que era montar o ruço sem cair logo do outro lado –, Sancho viu a figura esguia de Quixote levantar a lança como quem indica algo. De seguida, um grito de espanto:
– Ali! Vês aquele buraco no céu, Sancho? – disse o Cavaleiro apontando uma breve aberta por entre as nuvens por momentos visíves acima da bruma. – As cores dizem-me que é por ali que toda a honra se escapa! Foram os corvos que o abriram para se esconderem de mim na noite, que são seres escarninhos e cobardes! E a honra como é leve segue quase toda pela corrente do seu voo, como o fumo se escapa por entre os colmos… Só nós os dois, por léguas e mais léguas em redor dos termos de Granada, meu fiel escudeiro, possuímos a pouca que dela por aqui restou!…
Trotando para junto do amo, o Pança tentou um comentário de proximidade:
– E a Senhora Dona Dulcinéia del Toboso, Senhor Dom Quixote, a vossa amada também transporta a honra com ela, não é assim?…
A resposta de Quixote desiludiu o escudeiro, mas apenas por momentos:
– Dulcinéia, meu bom Sancho, desconhece a honra. Tem-na, sim, mas desconhece-a porque o Tempo insiste em esconder-lha. E para a roubarmos ao Tempo temos de combater os seus horrendos generais, que se resguardam da minha coragem nos seus moinhos de combate!
Os corvos são os seus olhos e a prata das suas armaduras espelha a luz do Sol para me cegar! E por isso só invisto contra eles de olhos vendados. É a minha segurança, sou mais antigo que a sua avidez e luxúria, e conto ainda com o seu imenso medo pelo desconhecido. Eles acreditam que podem viver sempre à frente do passado, mas não podem, nunca mais: vivem aqui, vomitam aqui as suas infâmias, mas o passado já os marcou para sempre, e para sempre lá ficarão um dia, no Sétimo Círculo do Inferno – como bem o mostrou o grande Virgílio ao não menor Dante, divinais cavaleiros!
Sancho coçou a cabeça ao mesmo tempo que alisava o cabelo ralo e escorrido das névoas que com vagar se instalavam de novo na marisma, escondendo copas de árvores e horizontes prováveis. Por fim, na sua voz rouca e confiante, perguntou:
– Creis vós que do Inferno constam sete círculos?…
– Pois se Virgílio os mostrou com o consentimento de Deus e dos centauros! De onde vêm então os violentos, que infernam vidas humildes? O tirano Ezzelino cozinha-se com vagar num caldo grosso de sangue, nesse infernal lugar, e os seus pesados vapores retornam à Terra tentando de novo os homens!…
Encontrarás tu, meu bom Sancho, melhor explicação para o que é?
– Que tenhais toda a razão, meu Senhor Dom Quixote – aquiesceu o escudeiro
No seu passo manso, Rocinante resfolegou concordando.
O eco de um grito longínquo indicou-lhes o rumo que iriam agora tomar.

Que vida! A dos cavaleiros, sim, mas e a do cavalo? Gostei de o ouvir resfolegar concordante.
Eu também achei que ele devia ter uma última palavra, Manuel.
Grande menina!
Ora aqui está um imprevisível começo!
Aqui que ninguém nos ouve, Eugénia, imprevisível até para mim (24 horas antes do parto ainda estava eu a tirar ferrugem da caneta…)
Dulcineia, a que espera, tão exposta ao tempo não saberá mesmo o que é a honra? Ou será mais um chiste do cavaleiro para iludir o bronco Pança? Resfolegou Rocinante, é certo, mas não ouvimos a azémola zurrar e, se bem me lembro do canónico, ero o asno menos parvo que o dono. Grandes perguntas para quem começa, D. António, que as brumas da Foz não lhe tolham a tinta.
Caro Eco, acho que se percebe bem que o canónico não foi uma preocupação que eu tenha curado muito, mas a possibilidade do chiste é bem acertada. Já as brumas não são da Foz, sítio onde só vou raramente. São do mesmo do quadro.
Obrigado pelo comentário.
Fiquei um bom tempo aqui olhando prô Buraco do Céu em companhia de tão adoráveis figuras.E vou lhe dizer, Benedito, mas foi muita coisa que vi!!!
Ainda bem que gostou, querida amiga!