Vergonha

Uma vida sem fios.
Sem excessos de emoção.
Feita de amizades fortuitas – tão práticas.
E de amores virtuais – tão higiénicos.

Talvez no fundo ele desejasse uma vida assim.
Vivida na alegria etílica do sexo de ocasião,
que depois revive sem cansaços,
na acidez ressacada de um acordar.

Uma vida económica de valores.
Restrita nas palavras.
Intensa apenas no ritmo de uma mão,
e na vertigem solitária de um amor feito a sós.

Uma vida adaptada aos nossos dias.
Preguiçosa nos remorsos.
Sem castigos.
Sem pecado.
Só vergonha.

PS: O Steve McQueen e o Michael Fassbender voltaram. E voltaram com o objectivo claro de me complicarem a vida. Vão ver e complicar a vossa.

 

Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.
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10 respostas a Vergonha

  1. Teresa Conceição diz:

    Vasco! Que bem regressado. E quase a ser contratado para promotor oficial do filme, aposto.
    Já ganhou mais uma pronta-a-complicar.
    Só com o trailer fiquei a pensar que os bons filmes, vidas concentradas, nos abanam em duas horas
    o que não se consegue numa vida inteira de horas diluidas.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Benvenuto Vasco. Bom trailer, grande entrada, sem tanta coisa, com tudo.

  3. Rita V diz:

    o meu comentário desapareceu
    mas dizia …
    – Vou a correr
    para o escuro do cinema
    sem ‘vergonha’

  4. António Eça de Queiroz diz:

    Olá Vasco!
    Grande ‘treila’, e a apresentação deixou-me ainda mais curioso.

  5. Carla L. diz:

    Que bom vê-lo regressar, Vasco, e logo de cara com um tema um tanto complicado.

  6. Luciana diz:

    Que bom novamente ver-te, se fosse apenas isso. Que bom ler-te, isto é certo.
    E como o pensamento desliza quando se chega em casa de madrugada, lembrei-me de um tempo em que um personagem podia dizer: a vergonha é como a dor, só se sente uma vez.

  7. Vasco Grilo diz:

    Vivam todos, velhos e novos amigos!

  8. Diogo Leote diz:

    Welcome, Vasco, o filme ainda não estreou por cá, mas sei de que tipo de adição trata. Já o recomendaste ao DSK?

  9. Pedro Norton diz:

    Adição ou subtração, eis a questão. Welcome old chap!

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