O Céu do Mundo

E, como que de repente, somos trespassados por um céu azul que nos suga para fora. Por uma enorme esperança em sentir que somos aquele pequeno ponto, mas tão importante, num universo infinito. Atravessamos as ruas que se mantêem sinuosas mas vibrantes, onde as casas pintadas reluzem em cor. Nos jardins os cães passeiam os seus donos que aproveitam para olhar as árvores e fumarem cigarros, desinteressadamente. Como turistas sem responsabilidades, que olham o rio transformado em mar espelhado. Não me sinto como andam para aí a dizer, nas caras pesadas e sérias que apareçem no pequeno ecrâ de televisão. Sinto-me com cor, dessa cor deste céu que permanece azul contra todas as estimativas cinzentas dos homens importantes que dizem que controlam o mundo. Não o meu.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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9 respostas a O Céu do Mundo

  1. já podemos organizar
    Clube dos Blues
    😛

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Isso sim O Clube do BLUEs é que era…não quer fazer já um desenho ? Depois é só arranjar um espaço…

  2. António Eça de Queiroz diz:

    E logo hoje, que está um sol bem forte, de chamar vida à vida…
    Eu também acho que os tais senhores importantes já não mandam em nada, cada um puxa para seu lado só a discutirem pedaços de coisas.
    Azul? Sempre, é claro!… (o Manel vai já aparecer aí a chamar-me subreptício…)

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    António, a luta é essa: Não deixar que nos tratem como “pedaços de coisas”… e que seja azul por um tempo, sobre um fundo encarnado para que a águia não voe para longe.

  4. Ana Rita Seabra diz:

    Belo e sempre radioso esse azul e a ideia do clube é excelente!
    I join the club, but I just move my body – That´s what I really like
    Rita V, fico à espera do seu maravilhoso e divertido desenho, como sempre!

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Acho que me vou deixar levar por essa cor de céu, Bernardo. E até vou, magnânimo, dizer a Monsieur Antoine, du Porto, que desta vez tem razão…

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