A conspiração dos peixes

olham-me sem a ferocidade da incompreensão

A Eugénia lançou aqui o desafio.

Escrevermos um conto a partir do quadro acima. Arrisco-me a ser o primeiro. Agora vejam lá, caros co-autores, se me deixam ficar para aqui a falar com os peixes.

Tenho 6 anos e caminho nu. Esta gente é pobre ou é dia de esconder as jóias, os brincos, as arrecadas. Nem um só anel nos dedos, um fulgor de filigrana.

Tenho 6 anos e caminho nu pelo nevoeiro das ruas desta cidade de comércio simples como um clarão e arquitectura útil. Pouco ou nada sei de mim mesmo, mas pareço saber tudo desta gente.  

Até agora ninguém ainda me tinha visto. As ruas são estreitas, inconcebível e desolado o céu do norte. Se soubesse donde venho talvez pudesse dizer: “comparada com a minha terra é uma terra ascética!” Mas não sei donde venho.

Sei que tenho 6 anos, a pele azul ligeiramente escamada, umas pernas líricas, o silencioso sexo, as nádegas a desenhar uma bravata que faz fugir os cães.

Este é o largo do mercado, dir-me-iam estes vendedores se conseguissem falar. Olham-me sem pavor, sem nenhum obscuro ressentimento, sem a ferocidade da incompreensão. Como se a minha nudez fosse o umbral para um resignado espanto. A cara da velha senhora é uma prateleira para a tristeza. Pensa talvez: este menino é azuladamente alemão e tem frio. Há uma ligeira e sóbria angústia no pensamento dela que escorre vermelha da touca para a gola.

Vejo que lhes corre ainda nas veias o vinho quente que beberam pela manhã. As faces em fogo das duas gémeas têm o cuidado de confirmar a todos o que só eu posso ver. São diferentes as gémeas. Os olhos da gémea da esquerda estão desprovidos de actualidade: os meus 6 anos nus lêem neles a antiga e amarga crítica da perda do amor. Noto que dão ao amor uma importância de cacho de uvas, matemática, férrea e frágil. Digo-o sem ironia: não sei se temos amor nesse sítio donde venho, se é que posso conjugar o verbo vir e se venho de algum sítio.

Há labaredas no cérebro da gémea da direita. Ardem labaredas no brilho dos teus olhos, podia dizer-lhe, se tivesse inclinação escolástica, o marido de gibão amarelo que, fingindo debruçar-se sobre o peixe, veio colocar-se à frente dela. Esta gémea conhece o amor. Tem dois dias o débil risco de sangue e sémen que lhe traça o meio das coxas. O marido, sorrio eu, como um touro.

Joachim, o peixeiro, pensa: este miúdo não é um miúdo, nem é a inteligência de um crime, nem é vítima de qualquer inocência ou virtude. Não sei se é ele, o homem do peixe na mão, que pensa veloz estes pensamentos velozes ou se é apenas o seu rosto de deus, a sua barba com caracóis de mito.

As outras mulheres nem se viram para me ver. Murmuram louras doçuras flamengas sem se darem conta que depois do tosco arco ogival está um homem há 17 séculos a andar sobre as águas. Já lá estava quando os pais delas nasceram e até quando nasceram as mães dos pais delas. O homem vem de vez em quando à margem, seca filosoficamente os pés e volta a pisar a espessa, negra água do rio. Continuará a marcha para os netos e bisnetos delas.

É então que ouço a sufocada voz do tamboril: tu não és o cristo. O tamboril fala comigo como se me convidasse a beber. Espera que eu lhe pergunte: o que é um cristo? Recuso a intimidade, a cerveja insólita com que me desafia. Pelo estertor da raia percebo a insídia da conspiração dos peixes. Um frémito florentino agita as duas abertas postas de salmão. Os olhos baços dos peixes gostariam, com uma minúcia marinha, de me enforcar. Gritam: os teus 6 anos de nudez são uma monstruosidade metafísica. Uma vasta e delicada pena invade-me. Tenho pena destes peixes, desta gente. Tenho pena da ilusão de eternidade dos peixes da cidade de Antuérpia.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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10 respostas a A conspiração dos peixes

  1. Muito bom 🙂 Ao estilo a que já nos habituou.

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Por momentos pensei no Jean Baptiste Grenouille…
    Gostei muito das certezas filosóficas do tamboril, só ele fala verdade neste rodízio público.

    • manuel s. fonseca diz:

      Tomara a minha paupérrima curta… Isso são outros perfumes. Mas também estou como tu: o tamboril fala verdade.

  3. Gostei muito desta sua conspiração ictiológica, Manuel Fonseca. A mim, por profissionais motivos, andam umas adolescentes criaturas fartinhas de me ouvir falar de peixes. Dos de Vieira e dos sermões, claro.

    • manuel s. fonseca diz:

      Obrigado, cara Ivone, pela simpatia. Para as aulas devia levar-se uma banca com um cherne ou uns meros. A criançada havia de gostar e o ministério também.

  4. manuel s. fonseca diz:

    Achei graça que em Antuérpia ninguém se tenha impressionado com um menino de pele azul e com escamas. Era uma gente que já devia estar por tudo, não acha?

  5. manuel s. fonseca diz:

    Estou de acordo: há no desconhecimento total liberdade para a imaginação.

  6. Rita V diz:

    Manel, não o deixei sozinho a falar com os peixes. Demorei a fazer-lhe companhia porque o li várias vezes. Já o li tantas vezes que o cheiro a peixe, sal e maresia já se me colaram à pele.
    O rapazinho ‘blue” não se perde … perco-me eu a lê-lo.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Não posso dizer que tenha “lido” a sua short, mas já me fartei de rir a ouvi-la.Thanks.

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