A Loja do Mestre André

"Imperdoáveis", André Téchiné

Custa dizer a quem é apreciador de André Téchiné, um dos grandes realizadores franceses vivos: este filme é uma seca. Téchiné foi, nos anos 80 e parte dos 90, um irreprensível estudioso das relações amorosas, e da forma como essas relações interagem com o universo familiar. São dele “Hotel das Américas” (com Catherine Deneuve e o desaparecido Patrick Dewaere), “Encontro” (que lançou Lambert Wilson e Juliette Binoche), “O Local do Crime” ou “Os Juncos Silvestres”, todos grandes melodramas, todos feitos de imagens inesquecíveis: a vertigem do mar, o nu desespero de Binoche, a Deneuve, vestido colado ao corpo pela chuva, à espera do amante Wadeck Stanzack, o maillot amarelo de Elodie Bouchez, cobiçado pelos rapazes junto ao rio. Depois de “Alice e Martin”, o cinema de Techiné, urgente, por vezes ríspido, sempre de matriz clássica, foi perdendo força. Em lugar da estreia do seu penúltimo filme, o muito mais interessante “La Fille du RER”, chega-nos este “Imperdoáveis”. Se a fita não é, em si mesmo, imperdoável – há crimes muito maiores à nossa paciência -, não atrasa nem adianta à obra do homem. Francis (Dussollier, mais à vontade com Alain Resnais), um velho escritor sem inspiração, busca-a em Veneza, recorrendo a uma agente imobiliária, Judith (Bouquet, que já foi musa de Buñuel) para lhe encontrar casa nas redondezas. Ela providencia-lhe uma, ele diz que só fica com a propriedade se  Judith estiver incluída na oferta, ela aceita (!), vivem juntos, chega a filha dele que, pouco depois, desaparece, há uma antiga amante de Judith, um jovem drogado, umas ameaças de thriller, e é tudo longo, hesitante, enfastiado. É pena.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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6 respostas a A Loja do Mestre André

  1. Rita V diz:

    Por causa do seu ‘post’ acima debrucei-me sobre a letra do ‘giroflê, giroflá’ é caso para dizer que nada se perde tudo se transforma.
    😛
    Bela foto acima

  2. manuel s. fonseca diz:

    O cinema dele sempre foi – pelo menos um bocadinho – de engolir punhos.
    Por falar em punhos, um dia cumprimentei a Bouquet (à conta do Buñuel, claro) e não lavei a mão durante três dias.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Manuel, eu se tivesse tido essa sorte também não lavava, e tirava fotografias….

  3. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Caro Pedro como nos faz o favor de nos elucidar das visões críticas antes de termos visto as ditas peças, aproveito e vou ver se vejo o “Alice e Martin”, e deixo este último de fora…mas a fotografia é bem bonita, e tem a Bouquet o que são dois argumentos de força…até breve.

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    pedro, confesso não ter muita familiaridade com o cinema de téchiné. defeito que este seu artigo começa a reparar. agora, “a loja do mestre andré” está entre as canções favoritas de minha filha isabela, de quatro anos.

  5. Pedro Marta Santos diz:

    Obrigado pelos comentários, companheiros. Manel, aconselho uma revisão do “Le Lieu du Crime”. Ruy, acho que iria gostar do “Les Soeurs Bronte”. Tem um ou outro momento bressoniano. Boa sorte com o “Alice et Martin”, Bernardo. Tem razão, Eugénia: há grandes filmes secantes. Mas não é o caso deste. Não é carne nem é peixe.

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