A luta continua

 

a minha Lulu

Os cinemas ficavam ao lado de uma gelataria drive-in. Lembro-me: de carro em carro, as saudáveis pernas das mocinhas giravam, ágeis e velozes, em cima de patins. Anos 80, na sempre irreal Los Angeles. 

Naquele tempo, via os genéricos dos filmes até ao fim. Nesse cinema de Westwood, ecrã quase a negro, últimos acordes da banda sonora, de repente leio em militantíssimo português: “A Luta Continua”. Por cima, a figura de um velho guerrilheiro ou, quem sabe, um jamaicano cerzido a reggae.

Sempre desconfiei que o passado se dana por nos pregar partidas, mas nunca o imaginei a atropelar-me em L.A., no “Something Wild”, de Jonathan Demme. O filme começa com Charlie (Jeff Daniels), executivo certinho que esconde um grão de rebeldia no mais acrisolado dos seus ventrículos. Almoçou rapidinho e, revolta de menino, sai sem pagar a conta. Lulu (Melanie Griffith) viu e gostou. Moreníssima, franja negra a reiterar o nome, boca de frutos vermelhos, Lulu vai dar guita à rebeldia de Charlie. Mal dá conta e Charlie está como Deus o mandou ao mundo, em sítio onde Deus não costuma estar e se dispensa que esteja. Charlie já tem um par de algemas a prender-lhe as mãos à cabeceira da cama, Lulu está de lábios e mãos livres. Ou seja, voam tão alto como os papagaios da minha infância. Coisas destas sabem bem e, depois de a língua as tocar, quem é que quer saber de empregos e família. Charlie já não quer e é nisto que o cinema é melhor do que a vida.

“Something Wild” começa assim, americano, e acaba, em português, com um “A Luta Continua” que me fez cheirar África e, de África, a moreníssima Angola, Lulu dos meus 20 anos. Nem emprego, nem família, lembrei-me da noite da independência, Novo Redondo, a caminho de Luanda. Noite dormida em cama de estrelas, céu e mar, os miúdos das Fapla a fazerem das Kalaches o festivo fogo-de-artifício. A luta continua e, olha Charlie, se aos 20 anos não fores anarquista, aos 40 nem chefe de bombeiros hás-de ser.    

Enganei-me no sabor a África de “Something Wild”? Li, e está na Wikipédia, que a frase, repetida por Demme em “Married to the Mob”, “Silence of the Lambs” e “Philadelphia”, seria tributo ao 25 de Abril. Estranhei: não parece, não é, a língua dele.

Vai daí, um dia apanho o Demme e o Neil Young a trocarem prazeres perversos e culpados. O músico dizia os filmes favoritos, o realizador as melhores canções. Demme escolhe o jamaicano Big Youth e um álbum com título em português: “A Luta Continua”. Big Youth e Demme falam o mesmo idioma, falam reggae. Ao reggae, a Luta Continua chegou de Angola e Moçambique, via Miriam Makeba. Sem África, Demme nunca teria assinado em português, mas com cantado sotaque, o final dos seus filmes. 

Não me enganei quando, num cinema de L.A., a boca me soube a África. No fim do filme, já mudados, Charlie e Lulu reencontram-se. Queixa-se ele de que ela não lhe chegara a dizer adeus. Ela jura: “Claro, eu nunca te quis dizer adeus”. Nem eu, ó raio de terra morena.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

13 respostas a A luta continua

  1. Rita V diz:

    não posso escrever, todas as vezes que escreve: – Gosto.
    corro o risco de ser repetitiva e parecer não ter nada melhor para dizer ( coisa que não me rala nada)
    tentarei dizer de forma diferente a mesma coisa, assim:
    – Gosto de como embrulha as palavras dos outros nas suas!

    Pronto(s)… já ‘di’

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Incrível! Durante anos eu e a Teresa nos interrogámos a propósito desse ‘A Luta Continua’ (que por sinal é um alentejano (?) encostado a uma sachola – no ‘Silêncio dos Inocentes’ pelo menos é.
    Se havia alguém que me pudesse resolver o enigma esse alguém só podia mesmo ser um desmesurado cinéfilo.
    Vou já dizer à Teresa!

    • manuel s. fonseca diz:

      Pois é, mas olha que é assim mesmo. E o homem ao lado da luta continua é mais um jamaicano com uma guitarra (e um pau a fazer-lhe de bengala) do que um alentejano.

  3. manuel s. fonseca diz:

    Ou então, talvez amar seja uma questão de palato. As gatas lambem as crias – estou a lembrar.me da minha gata preta da Vila Alice. Deve ser para deixar o amor limpinho.

  4. Diogo Leote diz:

    Manuel, vai haver luta, e da feia, quando os homens que gritavam “A Luta Continua” souberem que o seu slogan foi apropriado por um rasta. Mas sabes que mais? Vai ser fácil derrotá-los. Basta dar-lhes a ler o teu texto e os homens rendem-se a tão bela homenagem. A tua, claro, e não a do baralhado Demme.

  5. manuel s. fonseca diz:

    Cuidado com o Demme, Diogo, cuidado com o Demme. Não te esqueças do Silence of the Lambs. Ele terá sempre o Hannibal: o único tipo ao pé de quem ninguém quer estar se o mundo acabar à dentada.
    And many thanks my friend.

  6. Helena CM diz:

    Quem me haveria de dizer que num mesmo post eu iria encontrar a minha Novo Redondo embrulhada com a Melanie Griffith, o Jeff Daniels e o Silêncio dos Inocentes. Raio de terra morena a quem também nunca quis dizer adeus.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Julgo que terá sido a segunda vez que, nesse 11 de Novembro de 75, passei por Novo Redondo. Inesquecível, mas talvez não pelas mesmas razões que a si, Helena, a fazem inesquecível. Obrigado por ter comentado.

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Manuel, que memorias do Silverlake Film Festival, a sala de cinema perto de casa quando vivi em Los Angeles…e que viagem fantástica essa da Luta Continua, across the ocean and back…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Viveu em L.A.? Em Westwood ou noutro bairro, se não é indiscrição? Nunca vivi lá (3 meses não é viver) mas durante os quase últimos 15 anos foi um viró de idas e vindas, no género: a viagem continua e Los Angeles é certa.

Os comentários estão fechados.