A minha alma é uma anémona

 

Paradoxalmente, não é tanto da violência que me queixo. O ferro a rasgar-me a carne, os dentes arrancados, aos sacões, pela raiz, o lábio imenso a desfazer-se de mim. A força invisível de uma linha de luz a dilacerar o meu mundo. A sua verticalidade mórbida. Os músculos retesados de dor, os olhos cegos de branco, a resistência ciclóide de cada escama, a coragem pélvica das nadadeiras a fazerem-se uma só, a bravura solidária e fusiforme de um corpo que pressente o fim da alma. E os dedos. Acho que nunca vou esquecer aqueles dedos. Rudes de frio, insensíveis de sal, grossos de maresia violando a quietude rítmica da minhas guelras. Espigões de carne e osso cravando-se no mais que há de mim, elevando-me contra todo o meu sentir, matando-me de mundo e expondo-me à violência luminosa das manhãs frígidas do Mar do Norte. E o ar, claro. O ar gelado, seco, adstringente e espesso, penetrando-me as brânquias com a brutalidade de um raio.

Não me queixo sequer das pancadas, automatismos impensados de ódios milenares, que  me fenderam o crânio e me vasaram as órbitas. Não me queixo do frémito desesperado dos meus companheiros de infortúnio. A morte pressente-se, entranha-se, avista-se sempre com a mesma violência desesperada. Quer sejas garoupa, atum, bacalhau ou arenque.

Nem tão pouco me queixo, o que diz muito do que ainda falta dizer, desta exposição impúdica fixada a óleo. Corpos desnudos, bocarras pornográficas, esgares de pavor, fedores de vidas que se despedem por entre pregões e lascas de dor.

O que me dói, o que verdadeiramente me dói é a quietude pelágica que ficou para trás. O oceano amniótico de silêncio e paz onde até os afogados caminham numa horizontalidade tranquila. Dói-me o “jardim ancorado” onde fui feliz. Dói-me o orvalho salgado que foi minha casa. Dói-me um Mundo inteiro de tridimensionalidades infinitas. Dói-me o fundo do mar e brancura serena das casas que, à noite, se apagavam nas dunas.

A minha alma é uma anémona e o meu coração está mareado.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.

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22 respostas a A minha alma é uma anémona

  1. manuel s. fonseca diz:

    Bravo, Pierre, a este mor­ceau de bra­voure. Não vol­ta­rei a comer peixe tão depressa. Gos­tei muito.

  2. Rita V diz:

    Logo hoje, logo hoje que me fartei de comer peixe …iurghhhhh que ele está aos saltos dentro da minha barriga !
    Não vou conseguir comer peixe tão cedo!

  3. Ana Vidal diz:

    Fantástico sermão. Mas… e agora, como vou jantar o meu belo salmão em papillote?? 🙁

  4. Pedro Norton diz:

    Rita e Ana,
    Lamento ter-vos dado cabo do almoço e do jantar. Mas convido-as para um bifinho. pode ser?

  5. Pedro Norton diz:

    Ainda bem eugénia. O quadro é inspirador.

  6. António Eça de Queiroz diz:

    Caramba, Pedro, encarnou o seu santo peixe!
    Ainda bem que não sou supersticioso – o que seria da minha meia centena de petingas das terças?!…
    Gostei particularmente da visão marítima da «brancura serena das casas que, à noite, se apagavam nas dunas».
    Também já devo ter sido peixe…

  7. teresa conceição diz:

    Pois a mim até me apetecia ser peixe para escrever um texto assim. Em que escola andou este seu bicho?

  8. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Sinto-me escamado e frio…mas a apetecer-me ir à praça…

  9. Vasco diz:

    Et plouf…

  10. caruma diz:

    Que belo texto. (só lhe tirava os nomes dos peixes, e o estafado entranha-se, digo eu cheia de vontade de o ter escrito).

  11. caruma diz:

    Que belo texto. (só lhe tirava os nomes dos peixes e o estafado entranha-se, digo eu cheia de vontade de o ter escrito).

  12. Pedro Marta Santos diz:

    “A minha alma é uma anénoma” é uma bela frase. E o parágrafo final é óptimo. Venham mais.

  13. Pedro Marta Santos diz:

    A quem o dizes… . Vou publicar a minha criticazinha amanhã.

  14. Maria Roquette diz:

    Pedro,

    Tenho a dizer que me delicio com os teus textos.
    Obrigada por me proporcionares bons momentos.

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