A primeira morte

 

Na igreja de Arezzo dedicada a São Francisco de Assis, Piero della Francesca pintou 13 frescos que contam a Lenda da Verdadeira  Cruz.
A Morte de Adão é o primeiro desses frescos (ainda que a disposição deles, na Igreja, seja tudo menos cronológica). A literatura que lhes é dedicada roça a excelência. Nela se louva a monumentalidade, a descoberta da perspectiva, o realismo e a emoção de figuras capazes de exprimir solenidade, resignada dor, compaixão e serenidade.
Os meus instintos criminosos, se pudessem, retalhavam a harmonia e elegância deste fresco e roubar-lhe-iam primeiro este canto direito.

Nele vemos a decrepitude de Adão e a sinistra Eva de flácidos e envelhecidos seios, cientes já da sua mortalidade. Eles são os primeiros seres humanos a descobrir que vão naturalmente morrer. A agonia e a feia vulnerabilidade deles são ainda maiores quando as contrastamos com a beleza e a exuberância carnal dos filhos que os cercam: as inocentes e adónicas nádegas do filho, o rosto de Brigitte Bardot da filha (ou será hermafrodita?), cujo corpo Della Francesca oculta e exibe numa dialéctica que faria delirar o hedónico professor Barthes.
Depois roubaria o canto esquerdo do fresco que dizem mostrar Seth, o filho de Adão e Eva, pedindo ao arcanjo Miguel o óleo que salve o pai.

Parece ser de recusa a expressão do anjo. Mas talvez o assexuado anjo seja, afinal, uma mulher a que o solto manto descobre o seio. Se for, nesse começo da humanidade em que os sexos parecem ainda indefinidos, serão este homem e mulher tão jovens a promessa de um futuro que redima a falha primordial de Adão e Eva?

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

8 respostas a A primeira morte

  1. Rita V diz:

    ah!
    if …

  2. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Manuel esta magnifica análise merecia uma grande almoçarada , daquelas que começam com o sol bem alto e acabam com a noite a esconder as mazelas do corpo bem comido e bebido…Nunca fui a Arezzo, e no entanto o Piero é um presença incontornável para mim. O que se lê e o que se pode ler revela a abertura e a modernidade de toda a grande arte. Para alem do “museu do sótão ” temos que pôr a andar umas “conversas à mesa…”

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Almoço ou jantar? Quem ficou de organizar esse ansiado evento foi o PN. Mas ele deve andar fechado lá sótão dele…

  4. teresa conceição diz:

    Manel, com que gratos roubos nos enriquece.
    E eu, que estive em Arezzo de nariz colado aos frescos, não vi nem de perto nada disso. Só tive olhos para o jogo de olhares, o uso da cor, a posição das figuras, a delicadeza dos panejamentos. Os espantosos rostos. Na igreja, fica-se esmagado pelo conjunto. São palcos contínuos de actores em fresca contracena e eu, espectadora, de fora, congelada em adoração mística.
    Está visto, é à distância que melhor se observa. E rouba.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Estiveste em Arezzo? Mas onde é que tu não estiveste, mulher cosmopolita? E porque é que tu tens o monopólio da sorte?

  5. Ruy Vasconcelos diz:

    tadinha da eva, manel. malvadeza. como dizem os matutos do limoeiro “uma tremenda falta de desconsideração” uma representação dessas. e ela e o noé tem uma filha atleta. a menina deve disputar o heptatlo nas olimpíadas, e tomar uns suplementos reforçados. o anjo é fêmea, mesmo, sem mais. agora, chistes de lado, suas observações são de uma perspicácia única. o quadro está decomposto nelas.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Diga antes, sorte da Eva: tenho a certeza de que em meio a metáforas e metonímias, se o Ruy a estender um dia nos seus versos, a sua ironia a faria chorar!
      Um abraço, atlântico camarada.

Os comentários estão fechados.