A professora inglesa

Por ela pecaria o Espírito Santo

Tenho o fetiche da professora inglesa. Confesso e explico-me.
O sexo estampado na cara de Marilyn ou de Brigitte Bardot repugnava a Hitchcock. Preferia a sexualidade das britânicas. Uma professora inglesa – é ele a contar – vai connosco no táxi e, a meio da conversa cândida sobre o tempo e Henrique VIII é perfeitamente capaz, súbito e sem explicações, de nos atirar a mão à braguilha.
Truffaut, que o entrevistava, ficou de boca aberta até Hitchcock rematar: “Só com mulheres dessas pode haver descoberta do sexo.”
Na esperança de ser lido na ligeiramente puritana Fenprof, sugiro que as conversas de Hitchcock com Truffaut passem a ser obrigatórias na formação docente. Debate esclarecido nunca fez mal a ninguém.
Esta inocente concepção da sexualidade atinge o seu expoente em “Rear Window” e “To Catch a Thief”, protagonizados pela loiríssima, angelicamente linda, Grace Kelly. Com ela contracenam Jimmy Stewart e Cary Grant. Nenhum parece ter vontade de lhe tocar.

A indiscreta janela de Jimmy Stewart

Stewart, no começo de “Rear Window”, tem uma perna engessada e senta-se à indiscreta janela a espiar os vizinhos, procurando na vida deles a excitação que a forçada reclusão não lhe dá. Também não o excita a ideia de casar com a rica Grace Kelly que acha fútil, vinda de um ambiente tão rarefeito como a nossa Quinta da Marinha, a cabeça feita em vestidos, jóias e jantares milionários.
O espectador já sabe isto tudo e ainda não viu Grace Kelly. Quando primeiro a vemos, o que vemos é a sua sombra. O imobilizado Stewart adormeceu. Sobre a rija perna de gesso desliza uma sombra humana que passa ao ventre, e avança pelo peito, até lhe tapar o rosto. O perfume dela acorda-o, abrem-se-lhe os olhos e vê-a. Nós também pelos olhos dele. E o que vemos é a perfeição. Por ela pecaria o Espírito Santo se a sua língua de fogo tivesse olhos.

Ela e a engessada perna de Stewart

Por não ver na sombra a essência de Grace é que Stewart a não quer. Vê o gelo louro e a pele imaculada. Mas não ouve o vulcão que o sussurrado adágio da voz dela anuncia. “Como vai a tua perna?” pergunta. “E o teu estômago?” diz a seguir. É uma voz de sombras macias que promete correr-lhe a anatomia toda.

Toca-a... agarra-a...

Grace Kelly toma a iniciativa também em “To Catch a Thief”. Cary Grant é ou foi um ladrão de jóias. Grace traz ao pescoço um colar refulgente que chama nomes ao seu decote. Se o paraíso é uma voz então é o paraíso que da boca dela convida Grant: “Toca-lhe!” E a mão dela a oferecer à dele a exposta jóia: “Agarra-a”.
Nesses filmes de crimes e roubos, Hitchcock fez de Grace Kelly a mais erótica jóia da sua colecção. A forma civilizadíssima e elegante como a filma só realça a húmida convulsão que a faz dizer a Stewart: “Quando quero um homem, quero tudo o que ele tem.”
Por estes sonhos ninfomaníacos de Hitchcock perpassa a sombra de uma professora inglesa.

É a crónica de ontem no “Expresso”. Para a semana guerra com Fuller.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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19 respostas a A professora inglesa

  1. my oh my
    um texto mesmo, mesmo .. como direi … perfumado de fantasia erótica
    acho que a Fenprof vai abrir uma sucursal e a Quinta da Marinha que se cuide porque nem tudo o que parece é!

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Acredito Eugénia e, nesse caso, acho que o senhor Hitchcock devia ter uma carrada de faltas disciplinares

  3. Carla L. diz:

    Vivo em um país aonde quanto mais escancarada a beleza, mais explícita a sensualidade, mais vibram os membros masculinos.Parece por aqui não haver sutileza em relação aos desejos.País tropical parece sinônimo de sexo ardente, vermelho, carnal, urgente, exagerado, ruidoso e explícito.Acho que de tanto conviver com esse cenário, na vida real e em diversos meios de comunicação, fico encantada com o discreto e eficiente jogo de sedução presente nos filmes de Hitchcock. Existe muito mais sedução no olhar da Grace Kelly do que no rebolado da loira do Tchan. Pena que uma boa parte dos brasileiros não tenha acesso à filmes assim.

    • manuel s. fonseca diz:

      Carla, não flagele a abençoada ausência de pecado desse lado (o lado de lá) do Equador. Nem toda a nudez tem de ser castigada. Ou como diriam uns velhos amigos brasileiros: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Mas gostei muito que tivesse gostado.

      • Carla L. diz:

        Ok…exagerei um pouquinho, coisa típica do lado de cá.Há ainda sim muito charme nos trópicos.E a economia de roupas é principalmente uma questão climática.

  4. Pedro Norton diz:

    Nunca uma prelecção sobre Henrique VIII me pareceu tão refulgente. E logo eu que só tive professoras francesas!

  5. Ruy Vasconcelos diz:

    a meu ver, no ‘rear window’ la kelly atua melhor, manuel. e sua excessiva boa moça, arriada os quatro pneus mais o estepe por james stuart, a torna menos atraente. agora no ‘to catch a thief’, uh-lá-lá. ali, pode ter certeza: outra coisa é uma coisa!

  6. António Eça de Queiroz diz:

    Pela certa há um qualquer Espírito Santo na Quinta da Marinha, na Fenprof já duvido – mas nunca se sabe!…
    Como quase sempre, o ladrão é que sabe.

  7. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Cá para mim a sedução máxima é a nossa imaginação a correr em frente da imagem, por isso Kelly é única na ” janela indiscreta”, porque indiscretos somos nós a imaginá-la…mas eu cá não me metia era com a Fenorof lá para os lados da quinta da marinha: por ai não vejo nem sedução nem erotismo…

    • manuel s. fonseca diz:

      Bernardo, nem a Fenprof com um colar de pérolas? E é verdade, a imaginação não é outra coisas que não seja uma mala de erotismo…

  8. Ana Rita Seabra diz:

    Se houvesse fadas, Grace seria uma delas!

  9. Diogo Leote diz:

    Manuel, li em tempos, num texto que pouco crédito me mereceu, que a Grace Kelly, antes de ser Princesa, foi uma verdadeira predadora, quase uma ninfomaníaca. Desde então, eu, que a descobri Princesa antes de a conhecer actriz, passei a olhá-la com outros olhos, procurando ver em cada uma das suas aparições na tela sinais de uma sexualidade sempre pronta a explodir. No meu imaginário, ela é exactamente o que tudo dizes, a professora (não necessariamente de inglês, que eu, como o Norton, também as tive mais francesas) das explicações “privadas” (ou do banco de trás do taxi, o que vai dar oa mesmo)…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Diogo, a Kelly foi uma angélica devoradora de zangões em Hollywood. Segundo consta, e não parece que seja má língua, dos leading men dela só não marchou o Jimmy Stewart (não sei se por ter a perna engessada). Digamos que o Hitchcock terá sido menos imaginativo do que parece.

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