Alguma vida em 16mm

-O inesperado musical

Guy and Madeline on a Park Bench, (Damien Chazelle, Estados Unidos, 2010)

Shadows (1959) de John Cassavetes é um marco do cinema independente americano. Toca em questões raciais tabus à época, possui uma exuberante trilha sonora composta por Charles Mingus e apresenta pontos de vista incomuns, para além de uma montagem não previsível. Passado meio-século, Guy and Madeline on a Park Bench, que foi lançado em 2010 – mas só este ano e muitos festivais depois começa a despertar mais atenção – apresenta-se bem perto de um remake de Shadows: a fotografia em branco e preto e 16mm – quando hoje todo mundo grava com câmeras digitais – o recurso ao jazz, o casal multiracial, certa idoneidade de montagem, um selo de artesanalidade a chancelar fotogramas e fonogramas. E, no entanto, é um filme do seu tempo e de méritos próprios, que merece ser destacado sobretudo por suas qualidades documentais na ficção. O diretor, Damien Chazelle, é um jovem baterista de jazz que aparece tocando fugazmente em algumas tomadas, pois boa parte da trilha sonora não orquestrada foi registrada durante a gravação das imagens. O filme é, em realidade, sua tese de mestrado em cinema. E a gente fica a pensar por que não há mais teses assim no mundo. O filme transpira vida e compõe uma atmosfera sagaz e íntima, só a custo encontrável em grandes produções. Há uma enorme dignidade no rosto das mulheres. Não menos em seus corpos lançando-se à dança. Há muita alegria e alguma tristeza. Há casas conjugadas numa rua escura e um chiado bate-estacas provindo de um sedã. Parece que é música. Mas de um tipo diferente da que Guy aprecia: Coltrane, Miles, Monk, Billie Holiday, o ubíquo Bach… Há amor e tensão. Há presenças de cidade: Boston e Nova York. A câmera treme feito vara verde em algumas cenas. Elena (Sandra Khin) é uma bela mulher de ascendência oriental e certa vocação para o alheamento. Guy (Jason Palmer), um trumpetista negro – mas ao contrário de Ben Carruthers em Shadows, ele de fato toca o instrumento. Madeline (Desirée Garcia) é uma jovem tímida e intensa, que gosta de música. Há uma cena no metrô, de encostar mãos, que poderia ocorrer em qualquer ônibus a caminho do Benfica.[1] O filme começa com o rompimento do casal, num banco de parque durante o inverno. Há uma fantástica atmosfera de gigs e sapateados em apartamentos de estudantes e pequenos cafés. Guy and Madeline on a Park Bench é um dos mais inesperados musicais a que se pode assistir. E, de repente, as ruas são apenas ruas, os atores, apenas gente. Por que assomam bem menos “a serviço” de uma trama? 

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[1] Um dos bairros universitários de Fortaleza.

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Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
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8 respostas a Alguma vida em 16mm

  1. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Ruy fiquei com “água na boca” e “vontade no ouvido”… Vou ter de arranjar o dito, na ausência só me resta voltar a ver o Shadows….

    • Ruy Vasconcelos diz:

      o shadows é de fato um grande filme, bernardo. e para você que aprecia jazz e bach explicável essa “vontade no ouvido”.

  2. Ana Rita Seabra diz:

    É verdade, se houvesse mais teses assim…
    Gostei muito e fiquei com curisodade de ver.
    Será que arranjo por aqui?

    • Ruy Vasconcelos diz:

      olá, ana. este filme e uma infinidade de outros a gente encontra nesses sítios de ver filmes online, sem download. do tipo netflix, hulu, ovguide, veoh e quejandos. há uma infinidade deles na rede. tudo de melhor!

  3. Teresa Conceição diz:

    Ruy, eu fiquei com vontade nos pés.
    O sapateado é um dos hobbies que sempre quis ter e ainda desastrosamente tentei durante um ano ou dois. Tinha um infinitamente paciente professor francês, mas pouco tempo para aulas. Só me sobra uma rotina barulhenta e a saudosa alegria de sapatear em conjunto.
    Ela está aqui no ritmo de montagem e conjugação com a música. Dá mesmo vontade de assistir a esses milimetros musicais.

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    opa, teresa, o sapateado deve ser uma terapia, não? mas também demanda muita coordenação motora.

    o vídeo está sensacional! que politalentos você é!

  5. manuel s. fonseca diz:

    Todos os filmes com banco de jardim são bons. Mesmo os que não eram, depois deste trailer, passam a ser. Sobretudo se tiverem “sagaz e íntima” narração escrita pelo Ruy.

  6. Ruy Vasconcelos diz:

    fazemos um acordo, manuel: você me empresta talento para escrever sobre cinema, eu lhe empresto a tinta.

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