As cartas de Camões

Pensei numa lista das coisas boas com que me regalei em 2011. Mas não trocava o gosto de ter organizado este livro por nenhuma outra que tenha feito ou me tenha acontecido ao longo do ano.

O livro reune as cartas que os camoneanos consideram ser inequivocamente de Camões. Quatro cartas, uma de Ceuta, outra da Índia, duas de Lisboa. E ainda um bilhetinho que o poeta escreveu a uma senhora da Corte. Por sugestão do Gil de Carvalho que foi quem, depois de eu o ter massacrado com pedidos, me veio com essa magnífica ideia, como sempre são as dele.

Tinha lido distraidamente três destas cartas numa edição pequenina e popular que Eugénio de Andrade fez para a Gulbenkian e a velha Moraes. Agora, lendo e relendo as cartas todas, pesquisando fontes, estudos e notas, descobri que é nelas que melhor se apreende o quanto a cultura humanista e uma certa espessura filosófica que impregnam a poesia de Camões são cultura e filosofia vivenciadas.

Estas são cartas de experiências – de reflexão, por vezes, sobretudo a de Ceuta – mas sempre cartas de actos, de episódios, de amores e traições. São cartas que trazem um cortejo de amigos e de inimigos, de amores e amantes, cartas que nos levam para uma rua escusa, para o largo de um mercado, para uma taberna ou alcova. Que nos mostram tipos que, com um pau, são sacudidos como uma oliveira, ninfas de cabelo de ouro atadas ao pé de um mastro.

Ficaram, as cartas, ao lado de desenhos, pinturas e mapas que a mim me parecem deslumbrantes e que nos restituem a vida em movimento do século XVI tal como Camões o terá vivido. Estão lá as roupas e adornos, as liteiras, os cavalos, os navios, de Lisboa o porto ou de Goa o mercado, que Camões viu ou por onde Camões andou.

A capa, com design do Ilidio Vasco, cartonada e com acabamentos em pano, é esta. Outra coisa é vê-la com as mãos que é como se devem ver livros. Ou com as mãos correr pelo design do interior, do Nuno Rodrigues da Costa, que os Tristes deste blog tão bem conhecem.

Nem preciso de estar aqui a fazer declaração de interesses: o livro é mesmo da Guerra e Paz, editora com que vivo em acintosa concubinagem.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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7 Respostas a As cartas de Camões

  1. Pedro Marta Santos diz:

    Desejo tanta sorte a este livro, que sei feito com um amor assolapado, como desejo aos meus, dottore.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    As caravelas são do Nuno… De facto, tentámos limpar um bocadiho o pó a quem nos ensinou a língua que ainda falamos.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Pois é Pedro, que outra coisa nos resta que não seja assolaparmo-nos num ou noutro pequeno amor? Thanks pelos votos de sucesso. Que este Camões continue nas livrarias por alguns anos, como o teu “Heróis da História de Portugal”.

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Nas costas dos gigantes conseguimos ver mais longe…vou ver se compro, e parabéns.

  5. Rita V diz:

    Falaram-me dele com admiração, orgulho e prazer
    Já mexi nele, já o revirei
    Parabéns
    Parabéns

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