Considerações forçadas

A morte nao é desaparecimento. Morre-se num pequeno instante, e pode-se desaparecer durante toda uma vida. Chora-se a morte pelo desaparecimento, mas sofremos com o desaparecimento de quem não morreu. Morte não é necessáriamente o fim da vida, desaparecer obriga ao fim de qualquer coisa.

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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14 respostas a Considerações forçadas

  1. Rita V diz:

    Desaparece, mas não morre. Morre porque desaparece. Ao morrer desapareceu.
    Desaparece mas permance.

    E a saudade Bernardo, essa não morre … nem desaparece!

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Claro que não Rita, é bom pensar naquilo que não morre nem desaparece…aberto à imaginação de cada um.

  2. Seria tão mais fácil, como aconchego de almofada que suaviza a inevitável queda quando uma estrutura de afecto, que críamos e queriamos sólida, desmorona… assim… descaradamente e sem aviso… e ficamos sem ar, sem asas, sem… se pudessemos associar morte e desaparecimento… quando quisessemos. Nós somos a nossa memória. A morte (de alguém) não a vence. Nem o desaparecimento. ‘Quem é vivo sempre aparece’… desta vez enganaste-te, querida sabedoria popular. Por vezes… quase sempre… quem gostaríamos que aparecesse, ainda que esteja vivo, navega noutras águas. E o nosso rio da memória transborda. A palavra fim… junta saudade com mágoa com porquê com… fim. É circular, esta palavra. Mas fica estáctica, dentro de nós, a assistir ao nosso canto de ave sem sul, tantas vezes diluído em palavras. A morte não é desaparecimento. Há uma vitória sobre ela: o afecto na memória. Mas desaparecimento pode ser morte… simbólica… por dentro… a nossa.

    (Silêncio…)

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      Conceição, gosto dessa ideia de que há uma “vitoria sobre a morte que é o afecto da memória”. Claro que também nos podemos esquecer de quem desapareceu em nós… de qualquer forma, a leitura do seu belo texto pede que não nos esqueçamos da vida.

  3. Von diz:

    Morrer,
    sem morte
    nem abafo,
    sem escapadela de arrufo
    sem querela
    sem mudez,
    apenas porque morrer
    é mês,
    dia de festa e andor,
    sentado em quarto escuro
    esperando nosso senhor,
    virtude de quem não vê
    e sabe
    que à solidão se está,
    se vive e se morre outra vez,
    numa contagem carnal
    película de cor bestial
    onde quem navega sabe
    que o último olhar sobre o rio
    é afinal o primeiro,
    depois de morrer de manhã
    há sempre uma noite prenha.

    • Bernardo Vaz Pinto diz:

      A poesia tem disto: pode cortar fino como lâmina afiada e ir direito ao núcleo. Mas consegue manter um oceano de interpretações . Obrigado por partilhar e até breve.

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Cimento como peso ou como fundação sobre a qual se constrói qualquer coisa. Foi apenas um desabafo ao pensar de como é que o sentimento das duas palavras, morte e esquecimento, se relacionam mas tão diferentes são entre si.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Sou mais pessimista, Bernardo: a morte é um tapete de alcatrão espesso. Ficamos debaixo e os carros continuam a passar-nos por cima, indiferentes. Levam risos, conversas, futilidades. Nós, por baixo, mortos, somos menos do que a mais fútil dessas futilidades.

  6. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Ó Manuel eu sei que isso corresponde ao seu medo de que seja tudo às escuras, e pergunto se por debaixo desse tapete de alcatrão (ufff que me sinto sem ar… )não haverá uma réstia de luz? Afastemo-lo para podermos usufruir dos seus textos por muito mais tempo…

  7. Ana Rita Seabra diz:

    Grande mistério esse da morte.
    Ficam as saudades e as memórias de ter saudades daqueles que vão desaparecendo da nossa vida

  8. rita vaz pinto diz:

    A morte não é definitivamente um ponto final mas um renascer qualquer. De certa forma a morte liga-nos mais à memória, à saudade, à lembrança. Só por isso é já um recomeço. Mesmo quando dói essa saudade, só o senti-la é vida. O desaparecimento, esse, é mais triste. Pressupõe um vazio com o qual é difícil lidar.

  9. António Eça de Queiroz diz:

    É claro que há muita relatividade no sofrimento que morte produz, mas tem bem menos solução o “desa­pa­re­ci­mento de quem não mor­reu”.

  10. Ines Norton diz:

    Fica sempre suspensa a possibilidade de reencontro, da reconciliaçāo do regresso , ou mesmo de aceitaçāo de que a mudança faz crescer e por vezes nos afasta. Somos nós que tambem desaparecemos e quem sabe se um dia voltamos?

  11. bernardo Vaz Pinto diz:

    Bem vinda antes de mais…ambas, morte e desaparecimento podem voltar a aparecer, voltar a existir,

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