Cuidado com o assistente de realização

 

Era o oposto dos heróis graníticos dos seus filmes

Era um “matador”, mas veio a Lisboa contar histórias da aventurosa vida de realizador de culto em Hollywood. Prezava os filmes que fizera sobre touros e arenas. Ironia: foram os sequíssimos westerns de série B que o inscreveram na história selecta do cinema.

Budd Boetticher nasceu americano, louro cabelo de americano e atlético corpo americano. O corpo puxava-lhe para as praças mexicanas, para a mitologia do toureio. Chegou a “matador” até Hollywood o desviar desses bravos rituais.

Entre 56 e 60, fez 7 westerns, de “7 Men From Now” a “Comanche Station”. Filmou sempre a mesma paisagem: uma terra rochosa, seca e impiedosa. Filmou sempre o mesmo tema: mais solitário e silencioso do que um escorpião, um homem a cavalo em busca de vingança.

Em 4 anos, com uma inspiração de Alberto Caeiro, Boetticher filmou 7 westerns asentimentais. Clint Eastwood cortava um braço para que fossem dele. Era disso que a plateia da Cinemateca o queria ouvir falar.

Boetticher era o oposto dos heróis graníticos de que Randolph Scott, protagonista desses westerns, foi o fidelíssimo estandarte. Extrovertido como uma avalanche, sabia rir-se de si mesmo. Enfrentou a plateia da Cinemateca com a loiríssima e curvilínea mulher ao seu lado. “Se vão fazer cinema, nunca confiem no assistente de realização”, disse. E contou que, durante um filme, o assistente desaparecia-lhe no meio das cenas. A ausência repetiu-se um dia em que, já farto, Boetticher mandou a equipa para casa. Foi ele também. Abriu a porta do doce lar e – ria-se ao contar – deparou com a mulher e o assistente, despidos de todos os preconceitos. Ao assistente, o que lhe faltava em assiduidade sobrava-lhe em energia. A plateia, meio em pânico, a olhar para a senhora e logo ele: “Ah, não é esta. Por causa desse dia de sorte é que hoje tenho esta mulher maravilhosa.”

No pico da carreira, abandonou tudo para, no México, fazer um documentário sobre Arruza, um “matador” que endeusava. Durante 7 anos, por maldição, o filme teve-o cativo: conflitos, dinheiro esbanjado. Chegaram a fechá-lo num asilo mental e, depois, numa prisão mexicana. A culminar, um acidente de automóvel matou Arruza. Poucos filmes têm uma história externa tão pulposa e maldita como este.

A plateia vertia lágrimas épicas, mas Boetticher cortou o enlevo: “Valia-me o meu amigo Anthony Quinn. Uma noite escapámos para um hotel de senhoras gentis. Vieram duas mulheres de belos ombros e generosa humanidade. Umas tequillas no bar e seguimos para os quartos. Ia a meio de me despir quando descobri que a minha, tamanha surpresa, não era com toda a certeza uma senhora.” Boetticher saiu disparado a bater à cerrada porta de Quinn: “Tony, Tony, não são mulheres, não são mulheres!” berrou ele. Logo, lá de dentro, a rouca voz de Quinn: “Not now, Budd!”

É a desta semana do “Expresso”. Para a semana Hitchcock prometeu ensinar-me alguns factos da vida.

e ainda esta história de Budd e Ford que desconhecia

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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7 respostas a Cuidado com o assistente de realização

  1. Diogo Leote diz:

    Manuel, dizem por aí que quem não conseguiu parar antes do “Not now!” nunca mais volta a ser o mesmo. Tivessem todos os homens o sentido de humor do Budd e metade dos sexólogos do planeta perdiam o emprego.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    A questão é, Diogo, como é que se pode ter sexo sem sentido de humor…

  3. manuel s. fonseca diz:

    E sabia que o Boetticher comprou um fato de toureiro em Lisboa e mo deixou em casa para depois lho enviar para Los Angeles? Foi uma atracção lá de casa durante uma semana. Era completamente marado pelos cavalos lusitanos.

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Manuel que sorte a de conhecer a historia “em directo” com os protagonistas…grande excerto de entrevista culminando no casaco de toureiro…

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Bernardo, o homem era um poço de energia e boa disposição, o que o excerto do youtube confirma.

  5. Pedro Marta Santos diz:

    Já tinha tido o privilégio de te ouvir a história. Foi bom lê-la.

    • manuel s. fonseca diz:

      Pois é Pedro, já só me lembro das mesmas histórias, mas tu que és um firme e convicto série B, tens de me aturar. Thanks man.

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