De Mansinho

"O Deus da Carnificina", 2011, Roman Polanski

O ano não foi bom para os grandes nomes. “Melancolia” é o pior Lars von Trier de sempre. “Um Método Perigoso” é o Cronenberg menos interessante da última década. O asséptico “Tintin” de Spielberg faz-nos ter saudades de “Os Salteadores da Arca Perdida”. “La Piel que Habito” não é um Almodovar “vintage”. E Polanski, o mestre polaco, decidiu-se por um projecto menor. Claro que um Polanski “menor” enche a casa emocional de qualquer vítima: não há ninguém que filme como ele o absurdo da tragédia humana. “O Deus da Carnificina” é baseado na peça de teatro de Yasmina Reza, e tal como a peça – à excepção de um curtíssimo prólogo – a acção decorre por inteiro no apartamento do casal Michael e Penelope Longstreet (John C. Reilly e Jodie Foster), que recebe outro par, Alan e Nancy Cowan (Christoph Waltz e Kate Winslet) após o filho dos primeiros ter sido agredido na escola pelo filho dos segundos. O pretexto é uma conversa de reconciliação, mas a tarde amena transforma-se num choque de sensibilidades, e o irredutível egoísmo de todos vem ao de cima, como uma bomba ao retardador. É curto (79 m), conciso e, por vezes, delicioso. Porém, ao contrário do que o título indica, há uma gentileza na “carnificina” que ameniza a sátira – já havia na outra peça célebre de Reza, “Arte”  – e o cinema de Polanski não se costuma ficar pelo cinismo. Em Polanski, a crueldade não é uma crise que se expurga, é um estado perpétuo, como se estivéssemos a olhar para o fim do mundo mas nada pudéssemos fazer para o evitar. Definitivamente, 2011 pertence a uma nova geração: é o tempo do “Jane Eyre” de Cary Fukunaga (34 anos), do emocionante “Incendies” de Denis Villeneuve (44), de “Shame”, de Steve McQueen (42) e do melhor filme do ano, “Drive”, por Thomas Winding Refn (41 anos). Talvez não seja mau sinal.

Publicado na revista “Sábado”

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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5 respostas a De Mansinho

  1. Diogo Leote diz:

    E, já agora, o Sean Durkin (27 anos), só um aninho mais velho do que o Orson Welles quando fez o Citizen Kane…

  2. manuel s. fonseca diz:

    Que pena que tenhas gostado menos. Gostei muito mais do que tu. Achei admiráveis os actorers (com a excepção de alguns excessos da Jodie Foster). Achei fantástica a escrita dosa diálogos. Achei o Polanski muito mais “encenador” do que alguma fez foi (o que é difícil é fazer mise-en-scêne numa sala com apoio de uma casa de banho). Mas isto sou eu que já estou cada vez mais velho e não aguento uma corridinha.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Este ano vou ter uma ‘overdose’!
    Com este Polanski já são três na agenda…

  4. Pedro Marta Santos diz:

    Touché, Diogo (o “Martha, Marcy” é de respeito). Dottore, confesso que aprecio muito mais a mise-en-scéne do gajo no “Repulsion” (basicamente, um apartamento) ou no “Death and the Maiden” (uma casa, uma falésia). Mas o que é mais habitual é gostarmos e desgostarmos em comum – ainda bem que há excepções para partilharmos. Ab. Já tenho um pretexto para no s reunirmos quando eu for ao Porto, António: vamos ao cinema.

  5. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Eugenia, eu que não sou grande fã do Polansky, gostei do filme, uma crua mas hábil critica às nossas hipocrisias e aos nossos pequenos mundos centrados no umbigo, apoiado por diálogos de muita qualidade…

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