Eu que fui o rei da selva

Eu que fui o rei da selva.
Eu que fui sua excelência.
Eu que fui olhado com medo e reverência.
Eu que tudo comi.
Eu que ericei leoas.
Eu que dormi sempre descansado e sem medo de ser incomodado.
Eu que fui desenhado, já em Chauvet há trinta e dois mil anos.
Eu que fui idolatrado e coberto de ouro no Egipto.
Eu que fui feito símbolo alado e espalhado por toda a Veneza.
Eu que me vi esculpido em pedras, metais e em todos os materiais.
Eu que fui cantado, fabulado e usado como metáfora de nobreza.
Eu que por ser rei nunca trabalhei e sempre só posei, tinha um dia que acabar assim:
pregado à parede, com boca de campainha, sem rugir e a fazer trim.
Sorte a minha.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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10 respostas a Eu que fui o rei da selva

  1. Diogo Leote diz:

    Foi a mais elegante homenagem que alguma vez li à decadência do outro lado da Segunda Circular.

    • Pedro Bidarra diz:

      Era sobre a soberba, a altivez e a decandência dos símbolos, mas vá, também dá.

      • Diogo Leote diz:

        Eu percebi, Pedro, que o sentido era mais amplo e menos corriqueiro, mas dá-me um certo gozo fazer esta leitura tendenciosa.

  2. teresa conceição diz:

    Adoro os arrufos e as leituras futebolísticas deste blog.
    Habitualmente sou voyeur de bancada, sem beliscar os jogadores. Mas desta vez parece que o símbolo de grandeza está mesmo a ficar verde.

  3. manuel s. fonseca diz:

    Um poema sobre uma campaínha… Há um filme de Murnau sobre um porteiro: “Der Letzte Mann”. O mesmo sentimento de perda, de irremediável e impotente solidão.

  4. ele que já abriu tanto escurinho no cinema

  5. baernardo Vaz Pinto diz:

    All that is solid melts in the air, e todo o poder acaba agarrado e desbotado numa porta qualquer…vamos tratar daquilo que subsiste e que permanece…bela síntese, claro que não é só para o rei leão…

  6. Pedro Norton diz:

    A decadência é sempre perturbadora. Mesmo num leão.

  7. LAMPEDUSA “IL GATTOPARDO”

    “We were the Leopards, the Lions; those who’ll take our place will be little jackals, hyenas; and the whole lot of us Leopards, jackals, and sheep, we’ll all go on thinking ourselves the salt of the earth.”
    – Don Frabrizio, Prince of Salina

  8. Ainda és metáfora.
    Ainda és esculpido.
    Ainda és idolatrado.
    Ainda posas.

    Não acabaste.
    Continuas todos os anos a ganhar forma em Cannes.

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