Excertos dos apontamentos de Lazarus Long

(Lazarus Long quer morrer mas não o deixam por ser o homem mais antigo da espécie. Assim começa “Time enough for love” de Robert A. Heinlein, uma das, poucas, bíblias da minha juventude. Deixo aqui algumas citações do seu caderno de apontamentos, compiladas ao longo de mais de dois mil anos de vida.)

– Os homens são mais sentimentais que as mulheres. Isso confunde os seus pensamentos.

– Por certo que há batota no jogo. Não deixes que isso te detenha; se não apostares, não podes vencer.

– Qualquer padre ou xamane deve ser considerado culpado até provar que está inocente.

– Escuta sempre os peritos. Eles te dirão o que não pode ser feito e porquê. Depois faz isso.

– Não há qualquer prova concludente da vida depois da morte. Mas não há também qualquer espécie de prova em contrário. Não tardarás a saber a verdade. Porque é que te preocupas com isso?

– Se não pode ser expresso em números não é ciência; é opinião.

– As ilusões são muitas vezes funcionais. A opinião de uma mãe sobre a beleza, inteligência e bondade dos filhos impede-a de os afogar à nascença.

– Que mundo maravilhoso é aquele em que existem raparigas.

– Um poeta que lê os seus versos em público pode ter outros maus hábitos.

– É curioso como a “sabedoria madura” se parece com a fadiga.

– Lei de Keops: nada pode ser construído no prazo previsto ou segundo o orçamento estabelecido.

– Todos os homens são criados desiguais.

– Quando um lugar se torna tão povoado que exige bilhetes de identidade, o colapso social não está muito longe. É tempo de partir para qualquer outra parte. A coisa melhor das viagens espaciais é que elas permitem ir sempre para outra parte.

– Uma mulher não é propriedade de ninguém, e os maridos que pensam de outro modo vivem no mundo dos sonhos.

– Tudo em excesso. Para apreciar o sabor da vida, devorá-la às dentadas. A moderação é para os monges.

– Raramente (ou nunca) os homens conseguem imaginar um deus maior que eles próprios. A maior parte dos deuses têm as maneiras e a moral de uma criança estragada com mimos.

– Podes ter paz. Ou podes ter liberdade. Não penses nunca em teres as duas coisas ao mesmo tempo.

– Se o universo tem qualquer fim superior ao de deitar na cama a mulher que amamos e fazer-lhe um filho com a sua calorosa ajuda, nunca ouvi falar dele.

– Nunca subestimes a força da estupidez humana.

– Sempre que as mulheres insistem em igualdade absoluta com os homens, acabam invariavelmente por ficar com a ponta suja da vara. O que elas são e o que elas podem fazer torna-as superiores aos homens, e a táctica que lhes é adequada é a de exigir privilégios especiais…

– Não prejudiques à partida os teus filhos tornando as suas vidas demasiado fáceis.

– Mover peças que fazem atrito entre si exige lubrificação para evitar um desgaste excessivo. Honrarias e cortesia formal fornecem lubrificação nos pontos em que as pessoas têm atritos entre si. Muitas vezes os jovens, os que nunca viajaram, os ingénuos e os simples deploram essas formalidades e dizem-nas “vazias”, “sem significado” ou “desonestas” e ridicularizam-nas Por muito “puros” que sejam esses motivos, lançam areia num mecanismo que, mesmo no seu melhor, não trabalha muito bem.

– A masturbação é barata, limpa, conveniente e livre de qualquer possibilidade de erro – e não obriga a voltar para casa a altas horas. Mas é solitária.

– Um ser humano deve ser capaz de mudar fraldas, planear uma invasão, desmanchar um porco, construir um barco, desenhar um edifício, escrever um soneto, equilibrar contas, construir um muro, endireitar um osso. Confortar os moribundos, acatar ordens, dar ordens, cooperar, actuar sozinho, resolver equações, analisar um novo problema, revolver esterco, programar um computador, cozinhar um bom prato, lutar eficientemente, morrer valentemente. A especialização é para os insectos.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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7 respostas a Excertos dos apontamentos de Lazarus Long

  1. ah! mas o que eu gosto mesmo, mesmo, mesmo é de:
    There is no way to happiness –
    hapinness is the way
    The Buddha

  2. António Eça de Queiroz diz:

    Fantástico! Não li este…
    Mas o meu Pai leu, pois estava sempre a dizer que a especialização «é para mosquitos».
    E acrescentava: as pessoas especializam-se tanto que um dia saberão tudo sobre coisa nenhuma…
    Acho que já chegámos aí, a ver pelos ‘troikos’…
    Grande Heinlein, e que boa escolha!

  3. teresa conceição diz:

    Bela lista. Fiquei cheia de vontade de ler o livro.

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Nem conhecia…a lista é fértil, e , já estive a pesquisar, muito interessante. Não concordo com todas mas há umas extraordinárias :” expantoso como sabedoria madura se parece com fadiga …”

    • Pedro Bidarra diz:

      É impossivel concordar com toda a sabedoria acumulada em dois mil anos. Heinlein foi um visionário.

  5. Pedro Marta Santos diz:

    Mostra um humor fino que Arthur C. Clarke e o insuportável L. Ron Hubbard não tinham. É pena as adaptações ao cinema não serem felizes, nem mesmo o indecentemente divertido e proto-fascista “Starship Troopers”. Fiquei cheio de vontade de ler: tem duas ou três máximas definitivas.

  6. Pedro Marta Santos diz:

    Bela lembrança.

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