Houellebecq rules!

Houellebecq - Huile sur toile de lin - 53cm x 53cm - 2005 - Joëlle Delhovren

Provocação insignificante. Michel Houellebecq é o melhor escritor do século XXI. O ano passado ganhou o Goncourt mas há quem diga que foi o Goncourt que finalmente o ganhou a ele. Na sua obra estão escarrapachadas sem piedade, a solidão, a auto comiseração e a ignorância das massas que formam a classe média e a forma como estas são orquestradas pela vacuidade aborrecida e gratuita dos chamados privilegiados. Está lá também a falta de originalidade de grande parte dos que se consideram os criativos do nosso tempo e o mau gosto de quem encontra uma razão para lhes pagar. O seu é um mundo entregue à pornografia do marketing e da finança. E à pornografia propriamente dita também. Um planeta humorístico e irónico que se degusta como um livro de banda desenhada para adultos. Por incrível que pareça, lá no interior das suas (des)linhas também há amor. Aquele amor que se pode devotar às maciezas e ao veludo húmido do sexo feminino ou por outro lado à fragilidade patética a que o sexo masculino moderno se reduziu. Se não o conhecem leiam-no. É incómodo e indigesto, doce e poético por vezes, imparável e impagável quase sempre. Leiam-no nem que seja porque, pelas palavras do próprio Houellebecq, viver sem ler é perigoso, uma pessoa passa a ter que se contentar com a própria vida e isso comporta riscos altíssimos que decididamente não vale a pena correr.

Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.
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9 respostas a Houellebecq rules!

  1. Diogo Leote diz:

    Vasco, em tempos tentei entrar no Houllebecq mas não consegui. Julgo que foi com o Plataforma. O defeito é meu, de certeza. Por ti, farei uma nova tentativa. Mas, excluindo o Plataforma, diz-me por onde devo ir desta vez.

    • Vasco Grilo diz:

      Proponho-te que comeces pelo fim e tentes o “La Carte et le Territoire” que foi o que lhe deu finalmente o Goncourt.

      • Rita V diz:

        vou tentar também … seduzida pelo texto acima

      • Diogo Leote diz:

        Grazie, Vasco, já anotei. Afinal de contas, e como diria o Proust, as obras de arte mais preciosas são sempre as mais difíceis…

  2. manuel s. fonseca diz:

    Vasco, este ainda não o li, mas os outros sim e gostei de todos. Como houellebecquiano que és, deves conhecer um livro que é uma troca de cartas entre ele e o Bernard-Henri Lévy. Vale a pena, põem-se em carne viva.
    Excelente provocação a tua – bastante significante, sublinhe-se.

  3. António Eça de Queiroz diz:

    Também gostei muito, e vou seguir o teu conselho do ‘Territoire’, Vasco. Já agora, há alguma coisa traduzida?…

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Vasco obrigado pelo empurrão … So many books so little time….o retrato também é forte, lembra o Lucian Freud que aprecio bastante.

  5. Pedro Marta Santos diz:

    Estou com o Diogo: também já tentei e fugi a sete pés. Mas gostei muito do teu texto-convite. Vou à Fnac ler as primeiras quatro páginas de “la Carte et le Territoire” e depois digo-te qualquer coisa.

  6. Vasco diz:

    Eugénia, temos a sorte de ainda o século ir no início…

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